VERDADES FUNDAMENTAIS

QUARTA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1916)

Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.

CAPÍTULO I

Proêmio

Bastante inteligível ressoa-nos ainda aos ouvidos a palavra que a Santa Igreja nos dirigiu no dia solene da nossa sagração episcopal: "Accipe Evangelium, vade, praedica populo tibi commisso" — recebe o Evangelho, vai, prega ao povo a ti confiado!

Em obediência a essa ordem, temos ensinado o Evangelho sem cessar, oralmente e por escrito, bem cientes de que a pregação, segundo o Concílio de Trento, é a obrigação principal dos Bispos: "praecipuum episcoporum munus".

Assim é que, também, durante a quaresma passada, perante numeroso e seleto auditório, pregamos, em nossa Catedral Metropolitana, uma série de conferências, tratando de assuntos que afetam intimamente a vida cristã e refutam erros capitais dos tempos modernos.

Para que, porém, nossa palavra chegue ao conhecimento de todos os nossos arquidiocesanos, resolvemos editar esta nova pastoral, aproveitando, enquanto o julgamos oportuno, as mencionadas conferências.

Seguindo o exemplo dos apóstolos, os Bispos publicam suas pastorais doutrinárias, que são sempre de unidade para os fiéis. Por isso, estamos certos de que nosso presente trabalho, sob o influxo da graça divina, produzirá algum fruto espiritual. São verdades conhecidas de que nos ocupamos. Elas formam a pedra basilar sobre a qual se deve construir o edifício da felicidade humana, e, contudo, são tantas vezes esquecidas no afã da vida, e sempre hostilizadas pelas variadas teorias do ateísmo.

Convidamos, pois, os nossos diletos arquidiocesanos a meditarem sobre estes magnos problemas: a perenidade da alma, a insuficiência do progresso científico para conseguir a felicidade humana, a moral cristã, o poder divino de Cristo, a missão salvadora da Igreja, a posição admirável do Pontífice Romano no concerto das nações e, finalmente, o ilogismo da indiferença religiosa.

O conjunto dessas considerações, logicamente concatenadas, mostrará aos católicos o caminho a seguir e os fortalecerá nas suas crenças, por serem verdades fundamentais.

Sendo que nos dirigimos a representantes de todas as classes sociais, faremos o possível para que nossa palavra, simples e clara, seja acessível à inteligência do povo e proveitosa aos letrados.

Inimigos de polêmicas irritantes e estéreis, desenvolveremos os precitados assuntos com firmeza e suavidade — fortiter in re, suaviter in modo — visto que uma não exclui a outra, como nem a prudência desvirtua a eficácia da ação.

Tal é o nosso modo de pensar e a norma geral que adotamos no desempenho das nossas funções episcopais. E os fatos dirão, certamente, se prestamos ou não algum serviço à Igreja e à Pátria.

CAPÍTULO II

A sobrevivência do espírito humano: sentença divina

Pela criação visível, quis Deus revelar sua imensa grandeza e exteriorizar, de alguma maneira, os fulgores de sua glória. Por isso, o céu e a terra apregoam e cantam sua inefável magnificência.

A flora alcatifa, maravilhosamente, os prados de viçosas gramíneas e flores multicores, coroa as montanhas de árvores frondosas e cobre os campos de abundantes searas. A fauna, por sua vez, opera prodígios, povoando as florestas de pássaros e de feras, os mares e rios de peixes, as invernadas e os estábulos de animais úteis aos diversos misteres do homem. Por toda parte a vida pulsa e frondeia.

Mas, por sobre esse grandioso panorama da natureza, paira, irrevogável, a sentença proferida por Deus logo após o primeiro pecado do homem, a qual repercute em toda a superfície da terra, não cessando de repetir: Pulvis es! Em virtude dessa sentença inexorável, murcham as flores, secam os campos verdejantes, ruem por terra os cedros seculares, amontoam-se brancas ossadas, e o mar vomita seus habitantes exânimes. Toda a vida vegetal e animal reduz-se a pó, por mais pujante que seja. É a sentença de Deus, autor da vida.

Ora, poderá subtrair-se a essa lei o homem, a coroa formosa da criação visível? Será ele sujeito a essa mesma sentença, que repugna à sua natureza e corta todas as suas aspirações? Sim, e em primeira linha foi fulminada contra ele. É verdade: num punhado de pó transforma-se a vida presente, com suas alegrias, triunfos e grandezas!

Contudo, será possível que o homem desapareça por completo, como um punhado de pó no redemoinhar da vida presente?

Para o ateísta, a morte é o fim de toda a existência, do corpo e do espírito. O cristão, porém, a considera como o início de uma vida nova e perene, porque a razão e a fé lhe descortinam os dourados horizontes da imortalidade, que lhe é assegurada pelas suas faculdades mais nobres, afirmada pela voz unânime dos povos e garantida pelo próprio Deus. A sentença do Criador pulvis es refere-se só ao corpo, não à alma. O espírito sobrevive ao corpo, é imortal.

CAPÍTULO III

Fenômenos espirituais

Visitamos, na cidade de Santos, o túmulo do grande parlamentar José Bonifácio de Andrada e Silva, e, contemplando a fria lápide que guarda seus ossos e cinzas, perguntamos: é isto tudo o que resta dele? Entramos, um dia, no vetusto Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, e, querendo ver os despojos mortais do sacerdote Frei Mont'Alverne, apresentaram-nos uma caixa contendo ossos e um crânio carcomido, e dissemos: é isto tudo o que resta do exímio orador sacro? Quando, há cerca de um ano, esta capital acompanhou à necrópole o féretro de um insigne brasileiro vilmente assassinado, quantos não terão pensado: será isto tudo o que resta do árbitro da política nacional? Ide ao Panthéon de Paris e interpelai o túmulo de Napoleão I, para que vos diga se, além de cinzas, nada mais existe do vencedor de numerosas batalhas! Passai pelos cemitérios, onde jazem vossos parentes e amigos, onde descansam os heróis da humanidade e os grandes do mundo, e lhes perguntai: terminaram eles aqui a sua existência? É isto tudo o que resta deles?

O ateísmo, seja qual for a sua forma, nega a sobrevivência da alma, como nega a existência de Deus, e responde que, depois da morte, nada mais resta do homem, a não ser a matéria, sujeita às leis físicas e químicas.

Mas como? Então este punhado de ossos é o que, no Parlamento Nacional, discutia e formulava leis, que, na tribuna sacra, arrebatava os ouvintes, que dirigia a política do país? Porventura esse punhado de pó arquitetava os mais arrojados planos estratégicos e marcava com a ponta da espada, no mapa da Europa, novas divisas territoriais? Foi, enfim, esse punhado de pó que nos dispensava tanto amor e afeto, que tornou notáveis os poetas, filósofos e legisladores?

Não. O ateísmo gratuitamente o afirma, não o prova! Pois, como pode a matéria composta ser capaz de pensamentos simples e espirituais? Como pode produzir o ato reflexo nos fenômenos da consciência e os atos tão variados da vontade livre? Como, perguntamos, pode a matéria extensa e corruptível alçar-se às regiões da verdade pura e indivisível, e do livre-arbítrio, a formar ideias, compor juízos, fazer raciocínios, ou escolher, soberanamente, entre vários bens, e até entre o bem e o mal?

A matéria nunca poderá ditar leis, dirigir guerras, organizar nações, nem produzir obras literárias, científicas ou musicais, nem é suscetível de ódio ou de amor!

CAPÍTULO IV

A natureza da alma

A causa desses fenômenos é o espírito, a alma simples e espiritual. E por quê? Porque diz um princípio filosófico de inabalável certeza: tal é o ser qual o operar. Se as operações são espirituais, sua causa não pode deixar de sê-lo. Por isso, a filosofia espiritualista proclama a simplicidade e espiritualidade da alma humana como uma consequência lógica dos fatos da vida física.

O materialista, porém, ainda que recorra aos postulados da biologia, vê-se constrangido a declarar a inutilidade de todas as experiências até agora realizadas, para explicar, com as leis físicas e químicas, as manifestações da vida e os maravilhosos arcanos da intelecção e da volição. E eis a razão por que o professor Grassi afirmou que "são castelos aéreos os sistemas imaginados para ler nas células cerebrais o que eles, os materialistas, chamam de mistérios físicos", quer dizer, as operações intelectivas e volitivas. A matéria nunca poderia intelectualizar-se!

Sendo, portanto, a alma humana simples e espiritual, não existe razão alguma por que ela tenha de desaparecer ao separar-se dos vínculos corporais, por isso que possui todas as condições necessárias a uma vida autônoma. Não há dúvida! Pois ela possui, por si mesma, livre e independente, a vida do intelecto, e é senhora absoluta do movimento espiritual do pensamento e da vontade.

Assim como tem todos os requisitos de vida própria, a alma, em virtude da sua natureza, não pode cessar de existir. Com efeito, simples como é, não consta de partes, não inclui nenhum princípio intrínseco de dissolução, como também, por ser espiritual ou imaterial, não envolve germe algum de corrupção, à semelhança da alma do irracional, mas contém um princípio rigoroso e perene de vida. Existindo fora do círculo dos seres materiais e ao abrigo da corrupção, a alma não pode dissolver-se em partes, não pode desagregar-se à maneira das substâncias corpóreas. Não há elementos materiais, nem os mais corrosivos e sutis, que possam, naturalmente, agir sobre a alma.

CAPÍTULO V

Nada se aniquila

Mas, se é indestrutível, como poderá a alma perecer? Talvez haja alguém que a possa aniquilar? Não há senão Deus, que, se quisesse, poderia reduzir a alma ao nada, como Criador e Senhor supremo que é da vida. Isso, porém, nunca fará. Por que Deus destruiria a alma do homem, depois de a ter criado à sua imagem e semelhança? Por quê? Ele, que nada aniquila do que é criado? Se, com infinita sabedoria, conserva, através de mil transformações, até o mais insignificante átomo da matéria, por que reduziria ao nada, com sua mão onipotente, o homem, em quem rebrilha tantas vezes o astro do gênio?

O gênio, portanto, da poesia, o gênio da arte, da ciência, do governo, o gênio de Homero e de Horácio, de Aristóteles e de Santo Tomás, de São Paulo e de Agostinho, de Cícero e de Vieira, de Dante e Camões, de César e de Napoleão — em suma, tão somente o gênio do homem seria aniquilado por Deus, cuja Providência toma conta do inseto, das flores do campo e do pó transportado pelo vento?

Ah, não! Deus não fez o homem soberano do universo, não acendeu em sua fronte a chama do gênio, não lhe deu o poder e o ânimo de subjugar todas as forças da natureza material, para que durasse menos do que as montanhas que fura com suas máquinas, menos do que os astros que pesa na balança de sua razão, menos do que as ondas que submete ao império de sua vontade.

É impossível que Deus aniquile a alma — aquele Deus, do qual está escrito: "Sois bom, ó Senhor, que amais as almas". E, por isso, o Espírito Santo escreveu, com caracteres indeléveis, nos Sagrados Livros: "Deus creavit hominem inexterminabilem" (Sab. 2, 23) — Deus fez o homem para ser jamais destruído.

Corrompa-se, embora, em pena do pecado, este corpo de argila; transforme-se ele em pó, obedecendo à lei divina: "Statutum est hominibus semel mori" — foi decretado que o homem morra uma só vez — o espírito humano não desaparecerá com o corpo, mas é imortal e viverá para sempre. "O pó", diz o Eclesiastes, "volta para o pó, e o espírito volta para Deus, que o deu, para ser julgado por Ele e receber a recompensa das suas obras boas ou más" (cap. 12).

CAPÍTULO VI

O consenso dos povos

O homem sente, no coração e nos esconderijos do seu espírito, uma persuasão inabalável da sua imortalidade. Sentimos despertar-se, sentimos surgir, do fundo do nosso ser, uma força viva e veemente, que é a nossa íntima personalidade, o nosso eu, que se revolta contra a morte, contra a corrupção, e protesta: Nunca serei reduzido ao puro nada, porque posso voar por sobre os confins restritos da vida presente; sairei vitorioso da prova da morte e do horror da sepultura; sobreviverei às ruínas dos séculos no reino imperecível da imortalidade!

É por isso que o homem procura sempre, investiga e busca sem cessar. E, ainda que possuísse tudo quanto sua alma pudesse desejar — riquezas, honras, prazeres, prestígio e glória —, ele continuaria descontente de sua sorte e ávido de maiores bens: nada o basta, nada o sacia, nada o torna inteiramente feliz nesta terra.

Seus desejos atravessam o tempo, lançam-se e afundam-se nas profundezas incomensuráveis da eternidade.

Dessa íntima e inabalável persuasão da consciência humana, nasceu a unanimidade do consenso de todos os povos — bárbaros e civilizados, de todas as religiões e teosofias, bem como das melhores escolas filosóficas — em admitir a imortalidade da alma. Cícero afirma que na imortalidade da alma creram todos os sábios, e que a negaram somente alguns filosofantes ou filósofos desprezíveis: plebei philosophi.

Essa convicção universal deu origem ao culto dos túmulos, tão difundido quanto o próprio gênero humano, tão constante quanto os séculos, para consolar os que choram seus entes queridos com a fé na imortalidade.

É verdade que esse culto foi, por vezes, exagerado nas religiões pagãs, pela idolatria dos manes e pelos sacrifícios de esposas e servos trucidados vivos, no intuito de se reunirem mais depressa a seus maridos ou senhores. Contudo, não obstante essas aberrações, tal culto permanece como um testemunho universal do gênero humano, que caminha sobre a terra em busca da eternidade, encontrando-se no exílio e clamando pela pátria.

CAPÍTULO VII

A voz da natureza

O consenso dos povos, essa convicção íntima, esse desejo espontâneo que se apodera, de modo veemente e invencível, do coração de todos os homens, é a voz da própria natureza humana: naturae vox, como afirmou o filósofo romano Marco Túlio. Ora, essa voz não pode clamar em vão, porque a natureza não engana, segundo ensina o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino.

De fato, todos os seres do universo obedecem à lei da finalidade. A teleologia é um fato inegável. Os progressos da biologia puseram em plena luz essa lei universal, provando a correlação entre o órgão e sua função, entre a existência de um ser vivo e a de um meio correlativo apropriado para seu funcionamento. Assim é que os peixes, feitos para nadar, encontram seu elemento: a água; e os pássaros, dotados de todos os requisitos para o voo, encontram o ar atmosférico.

Ora, segundo essa mesma lei biológica, aquele desejo universal de não se extinguir, aquela convicção do gênero humano de viver sempre, seria destituída de sentido, se não tivesse por explicação natural e racional a imortalidade.

Essa convicção manifesta-se pelo pensamento, pelo amor e pela ação moral. O pensamento não se encerra em porção determinada de tempo e espaço: transcende, move-se para o absoluto, e a verdade eterna é a sua perspectiva. O amor requer, como objeto adequado, o bem infinito e eterno. A ação moral exige que o homem possa colher o fruto do seu esforço livre, e que exista uma pátria de equidade, onde a justiça seja distribuída de acordo com o mérito e o demérito, ao abrigo de erros e subornos humanos.

Se o pensamento e o amor — atos essenciais do espírito humano — exigem a existência do absoluto, da verdade eterna e do bem infinito, é porque o absoluto existe e constitui o fim último a que o homem deve aspirar. E se a ação moral, por sua própria natureza, reclama uma outra vida onde triunfe, peremptoriamente, a justiça, é porque essa outra vida existe.

Vida humana, vida moral e vida eterna são ideias ligadas por uma finalidade estreita, tendo entre si uma espécie de correlação orgânica.

Sim, a voz da natureza universal não pode enganar. Ou, porventura, teria o Criador infundido no coração humano desejos invencíveis do infinito e do eterno, para jamais saciá-los? Teria Ele acendido na inteligência do homem o pensamento da verdade eterna, sem jamais lhe querer concedê-la? Será que, para se divertir com o homem — cuja vida, do berço ao túmulo, é um pranto contínuo —, quis torná-lo mais infeliz do que os seres irracionais, os quais todos alcançam seu fim neste mundo? Não! Deus não é tirano. Ele criou o homem para viver eternamente.

CAPÍTULO VIII

Santa Consolação

Daí resulta para nós uma consolação inefável: a certeza da imortalidade. Se perguntardes aos ateus — que não podem abolir a morte — qual consolação oferecem àquele que perdeu um ente querido, eles vos responderão: distrações, festas, alegrias. Mas isso é pão do corpo, não do espírito. Os ateus não podem consolar vossa alma angustiada.

Vede aquela jovem que perdeu sua mãe e, diariamente, se ajoelha sobre a fria campa. Por que chora e reza? Com quem fala? Ela chama por sua mãe. "Pois não é certo — pergunta ela — que minha mãe vive? Que a tornarei a ver?" — "Não, donzela", responde o ateu, "nunca mais a verás!" — "Então devo entregar-me à desesperação?" — "Resigna-te com a fatalidade. Cada lágrima tua é vã; teus soluços são inúteis. Tua mãe não pode escutar-te. Ela está reduzida ao nada."

— "Ai de mim! Quem és tu que me falas assim com voz tão fria? Seja quem for, se me arrancas a única esperança que me consola, és cruel, e eu não te acredito!"

— "Crê na ciência" — insiste o ateu — "a ciência é soberana, é infalível."

— "Tua ciência é falsa", replica a órfã. "Engana, porque a ciência genuína afirma e prova a imortalidade. Eu creio na Igreja. Creio no coração. Creio em sessenta séculos de história. Creio na palavra de milhões de homens, de todas as raças e línguas, sábios e ignorantes, poderosos e fracos, que todos me repetem em coro: 'Crê, espera, ora. Tua mãe vive. Tua mãe te escuta. Tu a tornarás a ver. E um dia, serás para sempre feliz com ela no Céu."

CAPÍTULO IX

Hipótese Absurda

Se a alma fosse mortal, a religião cristã seria uma farsa irrisória e indigna. Pois Cristo, o Verbo Divino, proclamou a ressurreição do corpo e a vida perene da alma. Sua religião, propagada por toda parte, não realiza ato cultual, não ora, não se afadiga, não combate senão pela vida imortal e eterna.

Julgareis irrazoável essa religião? Mas, neste caso, deveis condenar aquelas nobres pessoas que são a glória do gênero humano — esses milhares de mártires que morreram por ela, essas falanges de sábios que lhe prestaram a homenagem do seu próprio saber, reconhecendo-a, à força de estudos e investigações, não só por muito conforme à razão, mas também por única religião sobrenatural e divina.

Sim, se não houvesse imortalidade, o cristianismo seria uma comédia ridícula, e com razão poderiam chamar-nos iludidos e traídos. Seríamos enganados e traídos nas lutas que sustentamos, nas angústias da consciência que nos afligem, nos sacrifícios a que nos submetemos, porque seríamos seduzidos pela esperança de um prêmio eterno, o qual, se a morte fosse o termo final de toda a vida, nada mais seria que uma quimera, uma invenção fantástica, uma loucura.

E quem é que, em tal hipótese, nos ilude e trai? O Evangelho, prometendo-nos em cada página um reino de eterna duração; os apóstolos, assegurando-nos uma coroa inacessível de justiça e de glória; a Igreja, que há vinte séculos dirige a humanidade; o mesmo Jesus Cristo, repetindo-nos que, se seguirmos seu exemplo, recolheremos o cêntuplo na vida futura, e que a nossa tristeza presente se converterá em alegria que ninguém jamais poderá arrebatar-nos; é o mesmo Deus, enfim, que promete fazer plena justiça na eternidade, permitindo agora que o sol ilumine igualmente os bons e os maus.

Ah, não! Essa hipótese é um absurdo, um insulto, uma blasfêmia! Porque a palavra de Deus é a justiça infalível; Cristo é o caminho, a verdade e a vida; a Igreja é o farol cuja luz não engana, mas orienta os homens. Por todas essas razões, a imortalidade da alma é uma verdade certa, firme e inabalável. Cremos na vida eterna! Eis essa crença que nos dá as forças e a coragem de que carecemos para atravessar a vida e cumprir os nossos deveres.

CAPÍTULO X

O Bisturi Anatômico

Houve um médico ateu que dizia: "Quando eu encontrar a alma sob a ponta do meu bisturi, admitirei sua existência e acreditarei na sua imortalidade." Quantos pensam, na sociedade moderna, como esse ateu, mas quão irrazoavelmente! Querem encontrar no corpo que dissecam uma alma corpórea, resistente ao fio do seu escalpelo, sem o que não admitem, dizem, a existência de uma alma espiritual afirmada pela razão e pela fé. Direis, com razão, que semelhante pretensão ultrapassa as raias do absurdo.

Sem dúvida! Pois não falamos de uma alma extensa, composta de partes, ou seja, material, mas professamos justamente o contrário: a existência de uma alma simples e espiritual, independente, nas suas funções principais, do organismo corpóreo.

O espírito humano não é objeto da nossa vista, do tato, dos sentidos; nem aparece nas retortas dos químicos ou nas mesas da cirurgia. Irrompe, contudo, como a luz solar pela nuvem diáfana; manifesta-se de mil modos. Revela-se no cintilar dos olhos, na majestade do gênio, nas obras imortais do pensamento, nos progressos estupendos das obras humanas; revela-se pelo testemunho unânime dos povos, pelo desejo do infinito e do eterno que vive no coração, como pela potência do cristianismo e pela voz do próprio Deus. E seja qual for a maneira de sua manifestação, o espírito humano revela-se imortal.

Por isso, diz São Paulo (1 Cor. 15, 19) que os cristãos seriam os homens mais infelizes, se não houvesse outra coisa além da vida presente. E baseado nessa verdade, afirma Pascal que a imortalidade da alma é assunto tão importante e nos afeta tão intimamente que é preciso ter perdido todo o senso para ficar indiferente em face desse problema. É daí que já Platão escrevera: Mortalia sectaris, mortalis es; immortalia amas, immortalis es. Se desejas as coisas mortais, és mortal; se amas as coisas imortais, és imortal.

CAPÍTULO XI

Banquete pagão

Aos cristãos, a lembrança da morte serve de estímulo para a virtude. "Lembra-te dos novíssimos", diz o Espírito Santo, "e não pecarás." Mas, para os pagãos — antigos ou modernos — é incitamento ao gozo dos bens terrenos. "Gozemos a vida", dizem, "porque ela é breve; aproveitemos o tempo enquanto os dias da mocidade nos sorriem." A felicidade do homem consiste na fruição da maior soma dos prazeres. Sua consecução é o ponto central dos trabalhos e cuidados, e o programa da vida pagã foi elaborado segundo essa máxima.

Entrai, por um momento, em um dos palácios da infeliz Pompéia, antes de sumir sob as lavas ardentes do Vesúvio. Eis uma magnífica sala fartamente iluminada, onde dezenas de convivas se banqueteiam e celebram a mais enervante orgia. Aromas deliciosos perfumam o ambiente, os manjares mais esquisitos são servidos, músicas melífluas roçam os ouvidos. Tudo é luz, prazer, gozo, sensualidade!

E não obstante os esplendores do festim, destaca-se lá no fundo um esqueleto humano, circundado dos dizeres: "Gozai, gozai, amanhã morrereis!" E os comensais, a cada instante, levantam suas taças espumantes e clamam em delírio: "Engrinaldemos nossas frontes com flores, bebamos o cálice do prazer; amanhã morreremos! Cras enim moriemur!"

Seja outra a vida do cristão! Corresponda sua vida atual ao seu destino futuro pela prática da virtude, pela observância fiel dos preceitos de Deus e de sua doutrina. A fé na imortalidade é o astro fulgurante que ilumina a trajetória da nossa vida; é a formosa estrela da esperança que nos esclarece os problemas da existência e nos conforta nas angústias; é bálsamo que sara todas as feridas; a fé na imortalidade muda todos os pesares e trabalhos em júbilo e glória.

Ah, não percamos, mas conservemos essa fé, que, nas vicissitudes da vida presente, nos oferece indizível conforto, resignação, constância, fortaleza e paz! Voltemos para o alto os afetos e as aspirações da nossa alma, além do azul do firmamento, para um paraíso de divinas maravilhas, que é a nossa pátria celeste, cuja compreensão, segundo o apóstolo São João, excede a capacidade das faculdades humanas, e a qual foi cantada pelo príncipe dos poetas cristãos, nos seguintes versos:

Céu de pura luz; — Luz intelectual de amor repleta; — Amor de ver o bem de glória cheio; — Glória que excede a máxima doçura.

CAPÍTULO XII

A felicidade em face da ciência e do progresso: Ídolo de ouro

Acabara de morrer Salomão, o grande rei de Israel. A sucessão ao trono provocou uma revolução no seio do povo. Jeroboão, simples funcionário público, conquistou a simpatia de dez tribos, fez uma residência própria, fundou um novo reino com a capital em Samaria, e arvorou-se em rei. Restava-lhe uma única dificuldade a vencer: a crença inveterada do povo, que, não obstante a divisão do reino, continuava a oferecer seus sacrifícios no Templo de Jerusalém.

Nisto via Jeroboão um perigo para a estabilidade de sua nova dinastia, e pensava: se o povo continuar a frequentar o Templo, me abandonará, indo para o meu adversário, o rei Roboão.

Com o fim de prevenir este desastre, mandou fazer dois grandes bezerros de ouro, colocando um em Betel e o outro em Dan. Em seguida, preparou grandes festas e excitou o povo a que fosse adorar os novos ídolos e, pelos seus mensageiros, mandou dizer por todo o país: "Povo de Israel, não vás doravante ao templo de Jerusalém, mas vai a Dan e Betel; pois ali se acham os deuses que te libertaram do poder do Egito."

Muitos atenderam a esse convite, e o rei conseguiu seu intento.

Como Jeroboão, o ateísmo reina sobre vastos países e incorporou milhares de pessoas em seu exército. Resta-lhe uma dificuldade que deve resolver, ou antes destruir: a fé cristã, que durante vinte séculos norteia e engrandece a humanidade.

E, por isso, levanta um altar, e sobre ele coloca um novo ídolo, mais atraente que os bezerros áureos de Jeroboão: a ciência ateísta, e clama: "Povo cristão, não dirijas mais teus passos à Igreja de Cristo. Não! Ali, naquele novo altar, está a verdadeira divindade; o velho Deus está morto; eis a ciência, a deusa do século vinte." E quantos obedecem a essa voz sedutora, quantos fogem do altar do verdadeiro Deus, indo queimar incenso ao ídolo moderno, à ciência materialista, ofuscados pelo seu brilho falaz!

Muitos obedecem a esse convite, e o ateísmo conseguiu extinguir a fé sobrenatural no coração de pessoas cultas, das chamadas classes dirigentes, e no coração da juventude estudiosa. Esse ídolo, porém, não é representado pela ciência genuína, a casta filha do Céu, mas é o cúmulo de todas as opiniões e teorias máximas; um montão de pretensas descobertas e erudição ilusória, com que o ateísmo presente combate a religião católica, proclamando aos quatro ventos que a ciência substituiu a fé sobrenatural.

Mas isso é falso, porque a ciência, por mais que progrida, não possui o condão de tornar, por si só, felizes os povos. Isto afirma a história, declaram os maiores luminares da ciência moderna, como a própria ciência positiva. É uma verdade mil vezes provada que a ciência humana necessita, para a felicidade completa dos povos, do auxílio indispensável da fé sobrenatural.

CAPÍTULO XIII

Desvarios dos povos antigos

Há poucos anos, o filósofo Nietzsche, o profeta da cultura sem Deus, exclamou: "Os deuses estão mortos, viva o super-homem!" Com esta frase, tencionava desferir o golpe de misericórdia à fé sobrenatural e inaugurar o predomínio da ciência ateísta. Como um meteoro que cai do firmamento e se apaga nas profundezas da noite, assim Nietzsche caiu, mergulhou-se nas trevas da demência e morreu. Mas o "velho" Deus continua a viver. Eis uma imagem da história da humanidade, quando a apostata de Deus, querendo seguir unicamente as luzes da sua razão e da sua ciência, se perde.

Ali estava a humanidade nascente no Paraíso feliz e sem cuidados; e veio o demônio, símbolo da ciência ateísta, e lhe disse: "Comei desta árvore, e vossos olhos serão abertos; sereis iguais a Deus!" Os primeiros pais obedeceram a essa voz enganadora. Qual foi a consequência? A perda do paraíso e a morte universal.

Veio a época dos gigantes, o tempo de Nino, com sua cultura e civilização admirável. A humanidade renegou a Deus, querendo conduzir-se só pela razão. O castigo dessa temeridade foi a corrupção universal dos costumes, e Deus abriu as cataratas do céu para lavar a superfície da terra.

Nas civilizações assírias, reinavam a Babilônia e Ninive sobre vastíssimos impérios, entregues à sua própria ciência. Seus palácios, seus templos, seu comércio, seu lixo — tudo era grandioso! E qual foi a consequência? A orgulhosa Babilônia entregou-se à idolatria mais vergonhosa, e os povos assírios morreram sob o jugo da podridão moral.

A Fenícia brilhava com seu comércio; a Grécia, com suas belas artes e sua filosofia, divorciadas, porém, de Deus. No entanto, milhares de pessoas entregavam-se às práticas mais vergonhosas em Tiro, Sidon e na formosa Ática, conforme atestam os cultos de Moloch, Astarde e Vênus.

Roma, em seguida, foi herdeira universal de todas essas nações. Da Babilônia herdou a política mundial; da Fenícia, o comércio; da Grécia, as belas artes e a filosofia. Roma enviava suas legiões por todos os países, e suas flotilhas dominavam os mares. Era o centro das grandezas, do luxo, das ciências e das artes; era o último expoente do progresso e da sabedoria humana. Entretanto, era o foco da maior degeneração, da luxúria, da crueldade e do desespero. Por isso, exclamava Plínio: "Não há ser mais miserável, nem mais orgulhoso do que o homem. O maior bem que possui é a faculdade de suicidar-se no meio dos tormentos da vida." E Sêneca dizia a seus discípulos: "Vedes aquele penhasco, aquele rochedo escarpado? Dali abaixo começa a liberdade. Vedes aquele mar, aquele rio, aquele poço? Lá dentro mora a liberdade. Vedes a vossa garganta, o vosso coração? Eles são refúgios de salvação contra a escravidão."

O suicídio era o remédio universal. Era o sinal clarividente da decadência moral. A tal ponto chegara a humanidade antiga, guiada só pela sua ciência e pela fascinação do seu progresso.

CAPÍTULO XIV

Delírios das nações modernas

Mais tarde, os humanistas quiseram substituir o cristianismo pela literatura, pela ciência e pelos costumes pagãos. Sua tentativa teve como resultado a depravação dos costumes e a corrupção do caráter. Apareceu então, na Europa, um pregador temível: a morte negra, seguida de uma guerra sanguinolenta. E depois que as cidades e aldeias se transformaram em labaredas fumegantes e os campos férteis em desertos; depois que cadáveres juncaram a terra, e que os lamentos, o pranto e o desespero enchiam o palácio do rico e a choupana do pobre — então a Europa reconheceu seu erro e, trajando pesado luto, bateu no peito, exclamando: "Por minha culpa, por minha grande culpa!"

E que nos ensinam os tempos subsequentes? No tempo de Luís XV, o ateísmo tentou novamente romper os vínculos que unem o homem ao Criador. Logo depois, colocou-se como "deusa da razão" uma mulher infame no altar, como que dizendo que o homem não precisava mais da fé sobrenatural. Qual foi a consequência?

A revolução respondeu com ferro e fogo, com o sangue e a morte de milhares de pessoas, de maneira que o revolucionário Louvet se queixa e se lamenta à vista das desgraças de sua pátria, notando em suas memórias: "Um rio caudaloso de crimes, transbordando suas margens, tão grande como os povos mais selvagens jamais viram, inundou minha pátria e ameaça todo o mundo."

Antes da conflagração europeia, o ateísmo científico proclamava-se bastante forte para guiar os povos, sem o Decálogo, sem a Igreja e sem Deus.

E qual foi o resultado? Conseguiu apenas o aperfeiçoamento das armas mortíferas: afiou a espada, avolumou as balas e aumentou o calibre dos canhões para semear a morte por entre as nuvens e nos mares, no seio das trincheiras, nos campos e nas cidades. É o extermínio mútuo, de sorte que não se sabe dizer quais serão as nações triunfantes, se as vencidas, se as vencedoras.

Não fala, pois, a história uma linguagem clara? Satanás repete à humanidade o que disse à nossa primeira mãe: "Comei deste fruto e conhecereis todas as coisas." Deram-lhe ouvido as gerações, antigas e modernas, e, acesas em orgulho insano, aproximaram os lábios do fruto proibido de uma ciência inimiga de Deus e de sua revelação. Quiseram comer esse fruto, quiseram inebriar-se com ele, e eis que aí estão, cambaleando a braços com todos os erros e todas as dúvidas, suplicando em altos gritos: "Fé, fé! Precisamos de fé, morremos por falta de fé!"

CAPÍTULO XV

A fé dos grandes sábios

Ouvida a voz da história, escutemos a palavra dos principais luminares das ciências modernas.

Há verdades que nos importa conhecer mais do que a vida das plantas e dos animais, ou as leis que regem o curso dos astros. Tais são a nossa origem, natureza e fim; o critério da virtude, o último fundamento da sanção das leis; os mistérios da Santíssima Trindade, da Criação, da Encarnação, da Redenção, etc. Sem o conhecimento destas verdades, os povos andam em trevas e são privados da verdadeira felicidade. Ora, se a ciência pudesse, nestas verdades, substituir a fé sobrenatural, é de supor que os grandes cientistas não teriam abraçado essa mesma fé por inútil; mas, não obstante seu grande saber, foram católicos convencidos, ou pelo menos profundamente crentes em Deus e na religião sobrenatural.

Newton, Kepler e Galileu, legisladores da gravitação universal, eram crentes. Os grandes botânicos Linneu, Jussieu e Decandolle eram crentes. Cuvier, mestre incomparável da anatomia comparada, Volta e Galvani eram religiosos. Volta assistia à missa e dava catecismo. Ampère, o grande mestre da física, e Dumas, o notável químico, eram católicos. O padre franciscano Mersenne foi legislador da cristologia, como o padre jesuíta Grimaldi foi da teoria da luz. Como poderemos enumerar aqui todos os luminares católicos ou crentes da ciência positiva, sacerdotes ou leigos? É conhecido o nome do imortal cultor da física sideral, o padre Secchi, que dizia no leito da morte: "Nada me dá mais conforto nesses instantes do que a fé, que sempre mantive viva no coração." Pasteur, o sábio mais ilustre do século passado, declarava solenemente, em seu discurso de entrada na Academia Francesa, que a ciência, bem longe de abalar suas convicções filosóficas e religiosas, as tinha confirmado.

Kepler, o astrônomo célebre, depois de formular as leis em que Newton haveria de fundar a teoria da gravitação, não desertou de sua fé, mas a ciência inclinou esse grande gênio diante de Deus, e ditou-lhe a seguinte oração cheia de humildade: "Graça vos sejam dadas, ó Senhor das criaturas, pela felicidade que nos tendes dispensado! Terminei finalmente minha obra. Nela empreguei todas as forças da minha alma. Tanto quanto dependeu da minha fraqueza, tratei de manifestar a vossa glória aos homens. Sempre empenhei esforços para raciocinar com sabedoria, mas, se alguma coisa indigna de vós me escapou, a mim que sou apenas um verme da terra, nascido e nutrido no lodo do pecado; se a beleza admirável das vossas obras me encheu de orgulho; se procurei a glória que vem dos homens — esclarecei-me, ó meu Deus, para que me corrija. Enquanto elaboro uma obra destinada a glorificar-vos, perdoai-me, Senhor bom e misericordioso, e concedei-me que o meu trabalho sirva de proveito à vossa glória e à salvação das almas."

Escreve Isaac Newton: "Esse formoso vínculo — a lei da gravitação — que une o Sol, os planetas e os cometas, não pode originar-se senão pela sabedoria e a vontade de um ser inteligente e poderoso. E se as estrelas fixas são centros de sistemas semelhantes, também estes, organizados do mesmo modo, acham-se sob o domínio desse supremo ser. Este governa tudo, não como alma do mundo, mas como senhor do universo. E devido ao seu domínio, é chamado senhor, Deus e dominador de tudo."

"Um Deus sem governo do mundo, sem providência, sem fins sábios, não é outra coisa senão o fato e a natureza. Da necessidade cega e metafísica, que sempre e em toda parte é a mesma, não pode nascer a mudança das coisas. A diferença total dos seres, adaptada aos tempos e lugares, só pode ter sua origem nas ideias e na vontade de um ser que necessariamente existe."

CAPÍTULO XVI

O mistério da eletricidade

Essa brilhante falange de sábios não recua diante dos ateístas, porque sabe que, se os princípios da ciência são certos, inabaláveis são os princípios da fé sobrenatural.

De fato, os dogmas da fé são a palavra infalível de Deus. Os teólogos conhecem os princípios da credibilidade: as profecias, os milagres, a existência e duração do cristianismo, a infalibilidade da Igreja, etc.

Igualmente, os fiéis estão seguros da verdade dos dogmas, porque os ouvem da boca de seu pároco, que está em íntima união com o seu bispo, e este em união de fé e caridade com o Pontífice Romano, divinamente estabelecido para conservar a unidade e a integridade da fé em todos os tempos e lugares. Assim é que os milhões de católicos espalhados pela terra professam os mesmos dogmas como palavra de Deus.

A fé sobrenatural é certa e inabalável, embora nos ensine mistérios que excedem a compreensão da inteligência. E porventura a ciência não tem mistérios? Também o gênio fica mudo e confuso diante de muitos fenômenos da natureza! Vedes a maravilhosa potência que se chama eletricidade? Ela comove os vossos nervos e até pode fulminar-vos; transforma a noite em pleno dia, levanta pesos colossais, transporta nossos pensamentos de um extremo ao outro do mundo; transforma-se em corda sonora que repete a vossa palavra e até o timbre da voz.

Mas, que coisa é essa admirável eletricidade? Todos, professores de academia, os incrédulos que combatem a Religião, etc., respondem: é uma força, e, finalmente, a eletricidade é a eletricidade. Não sabem explicar sua natureza.

Se, portanto, nas coisas materiais a ciência tem de admitir segredos, não admira que, na ordem sobrenatural e divina, a nossa fraca inteligência encontre mistérios.

Entretanto, muitas vezes, nossos jovens estudantes encontram, à porta das academias, professores que, com suas ciências materialistas, pretendem amortecer ou extinguir a fé. "Se quereis," lhes dizem, "alcançar os louros vigentes da ciência, a coroa gloriosa da imortalidade, tereis de renunciar às vossas crenças, que não passam de fábulas de superstição."

Parece que tais professores querem seguir o exemplo do físico inglês Tyndall, que pronunciou, no Congresso de Belfast, um discurso tristemente célebre, destinado, como ele mesmo disse, a fazer beber a juventude católica na Irlanda nas fontes do materialismo, a fazer-lhe sofrer a fermentação da ciência ateia.

Esses jovens são vítimas, em vez de culpados; perdem a fé pela ambição de uma vanglória, a fé que aprenderam nos joelhos de sua mãe, a fé de seu batismo, a fé de sua grande pátria. Ah! Não vos iludais, o perjúrio não conduz à glória, nem o ódio da verdade revelada à verdadeira ciência.

CAPÍTULO XVII

A profissão das ciências

Ouçamos a voz da própria ciência moderna, que na ordem espiritual e divina não pode dar uma resposta satisfatória. Pois o homem não se contenta com as conquistas materiais dos cientistas, mas quer conhecer também sua natureza e destino, seus direitos e deveres e as verdades já supramencionadas.

Sobre esses assuntos, cala-se a ciência.

De fato, interroguemos a matemática, a física e a química. A matemática nos ensina a fazer cálculos, mas não a bem viver. A física nos fala dos fenômenos, dos fatos, das forças e das leis do mundo material. A química nos ensina os elementos de que se compõem os nossos ossos e os glóbulos que giram no nosso sangue; mas, se amanhã morrermos, que poderão fazer por nós essas ciências?

Interroguemos a geologia. Ela nos introduz nas profundezas da terra e nos explica as revoluções telúricas que se deram há muitos séculos. Mas não nos resolve os problemas do ser, do mal, da dor, da morte, ou da natureza de Deus.

Perguntemos à astronomia. Ela faz comparecer diante de nós, pelo telescópio, os astros perdidos nos confins do mundo etéreo, descobre-nos o segredo de sua marcha, sua composição e natureza, enfim, as leis que regem o maravilhoso mecanismo astral. Mas não nos oferece, nem nos indica os meios para que possamos chegar além dos astros, além do azul do firmamento, ao Céu, à pátria dos bem-aventurados.

Interroguemos, finalmente, a filosofia, a ciência mais alta. E ela nos responde com incertezas, dúvidas e, muitas vezes, com absurdos: "ignoramos, et ignorabimus", declarou Dubois-Reymond. Ignoramos e sempre ignoraremos.

Por isso, o célebre acadêmico francês Brunetière escreveu na "Revue des Deux Mondes": "Depois de seis mil anos, todos os progressos da ciência ainda não nos fizeram progredir um só passo no conhecimento da nossa origem, da nossa natureza e do nosso fim!"

E depois declarou que a ciência faliu, fez bancarrota.

Ao ouvir esta palavra, o ateísmo científico jurou-lhe vingança e deu um grande banquete, em 1895, chamado o banquete da ciência, onde houve quatorze discursos tendentes a destruir a afirmativa de Brunetière. Em vão! A sentença do grande acadêmico ficou de pé. A ciência fez bancarrota, sua falência está provada, a ciência é insuficiente para contentar o homem, para tornar felizes os povos.

Pobre povo, pobres multidões, desventurada classe dos operários e camponeses, que suportavam mil trabalhos e fadigas!

Embora a ciência ateísta pudesse torná-los felizes, não o poderiam ser, porque não teriam tempo bastante para se instruir. Mas o Senhor lhes tinha dado uma escola fácil, proporcionada à sua capacidade: a escola da fé, na qual podiam instruir-se, nobilitar-se e tornar-se mais sábios que os antigos filósofos. Agora, também querem arrebatar-lhes esse grande benefício, tirando-lhes a fé, pretendendo torná-los iluminados e civilizados. Pobre povo, como és cruelmente escarnecido pelos corifeus da ciência ateísta!

Não admira, pois, que esse povo iludido se levante, um dia, em massa, e, fazendo coro com o anarquista Ferrer, diga: "Viva a revolução! Queremos destruir a sociedade nos seus fundamentos!" Pois, se é verdade como ensinais das cátedras da filosofia e das tribunas políticas, que Deus é uma fábula, e Cristo é um mito, que o vício é uma manifestação patológica, que o homem é descendente do símio e que com a morte tudo acaba — para que então suportar tantos trabalhos e misérias, enquanto os outros gozam, se banqueteiam e cantam?! Levantemo-nos, arranquemos aos ricos sua fortuna, aos governos seu poder, e desfraldemos sobre as ruínas do capitalismo, dos tronos, dos altares e das cátedras presidenciais a flamula rubra da anarquia.

Consequência clamorosa, terrível, mas consequência lógica!

De tudo isso, deduz-se claramente que jamais a ciência — mesmo a verdadeira, e muito menos a ateísta —, com seus progressos e suas conquistas, será suficiente para contentar o homem, para tornar felizes os povos; porque há precisões constantes e perenes que só a fé sobrenatural em Deus e em Jesus Cristo poderá remediar.

Pedro Álvares Cabral, vindo da católica e briosa Lusitânia, desfraldou na formosa terra do Cruzeiro a bandeira áurea e branca da fé católica. Essa bandeira começou a flutuar, formosa e brilhante, por sobre as coxilhas e serras, por sobre as aldeias e cidades nascentes, e presidiu à formação da nossa nação, acompanhando o seu desenvolvimento e progresso, assistindo ao povo na paz e na guerra, participando das lutas e das glórias do Brasil.

Não queiramos trocar esta fé por uma ciência imperfeita e incapaz de nos tornar felizes! Não!

Vive, pois, tu, ó Fé Católica, vive, prospera e triunfa no coração das nossas famílias, no seio da sociedade, no peito da juventude; e que os pais te transmitam aos filhos e os avós aos netos como legado genuinamente brasileiro, como o tesouro mais precioso de todas as heranças, portador da felicidade da terra e do Céu!

CAPÍTULO XVIII

Moral teológica e moral filosófica:

A revelação não nos fala apenas de Deus e de suas obras, mas também nos ensina o caminho que havemos de seguir para chegarmos à felicidade suprema que é o Bem infinito, Deus mesmo. Por isso a teologia, que é a ciência da revelação, é teórica e prática. É a ciência que, mediante a luz da fé, ilumina a inteligência e dirige à vontade.

A moral teológica abrange toda a vida do cristão e estende sua influência a tudo quanto pertence à reta ordem da vida humana. Sob esse ponto de vista, regula os diferentes ramos da ciência, como sejam o direito eclesiástico e civil, a economia política, a medicina, a fisiologia, etc.

Todos os sistemas filosóficos que negam a Deus como último destino do homem, de quem depende qualquer fim racional e, por isso, a reta ordem, devem renunciar, em sentido estrito, ao predicado da ciência da moral. Pois, a moralidade consiste na relação dos atos com a reta razão, isto é, em última análise, com Deus, o fim último.

Com efeito, o bem moral ou o honesto é aquele que convém à natureza racional, aquele que aperfeiçoa e a conduz ao seu destino. É essa a ordem reta, que todo o ser dotado de razão e liberdade deve observar nas suas relações consigo mesmo, com Deus e com os outros seres. A ordem reta, como a essência e a natureza de cada ser, tem seu fundamento ou última razão em Deus, princípio de toda a ordem e de toda a retidão; pelo que Deus mesmo é o fundamento da moralidade, do bem moral e da obrigação moral. Por isso, quando se nega a existência de Deus, só abusivamente pode-se falar em moralidade dos atos e obrigação moral. Unicamente a sã filosofia é capaz de determinar os princípios naturais da moral. Mas, não o consegue, senão com grande dificuldade e sem a devida segurança em muitos assuntos, enquanto a razão estiver entregue a si mesma e sujeita ao império das paixões. Acresce que a moral filosófica não tem ascendente sobre o povo, porque falta aos filósofos a autoridade necessária.

A relação entre a moral filosófica e a teológica é a mesma que entre o imperfeito e o perfeito. A moral teológica é superior à filosófica, já pela fonte sobrenatural de sua origem, já por uma maior e mais elevada esfera de obrigações e motivos, já pelos novos meios que oferece para o cumprimento da lei moral. Nunca, porém, opõe-se a moral teológica – que é a da Igreja – à filosófica.

A moral teológica aponta-nos o fim sobrenatural e nos mostra muitas verdades da ordem sobrenatural que exercem uma poderosa influência sobre a vida moral dos cristãos, como sejam, por exemplo, a doutrina do pecado original, da redenção, da justificação, etc. Encerra a moral teológica novos motivos de ação moral de grande eficácia. As inclinações naturais à virtude recebem aplicação segundo toda a sua energia. Além disso, oferece para os seus preceitos a sanção mais eficaz pelo ensino da justiça de Deus e convida os homens à prática das virtudes cristãs, ensinando-lhes o amor de Deus, que, principalmente, se manifesta pelos mistérios da Encarnação e da Paixão de Cristo.

Entre os meios para observar a lei moral, acham-se, em primeira linha, os sacramentos, depois a oração, o exemplo de Cristo e dos santos, como também a sistemática cura das almas.

CAPÍTULO XIX

O último fundamento da moral: Deus

Os partidários da moral independente, diz Mr. Freppel, alegam que o dever conserva o seu fundamento e razão de ser, não obstante a abstrair-se da ideia de Deus; ora, uma tal pretensão é a inversão de toda a lógica. É fácil convencer-se disso, por este simples raciocínio.

Nossos adversários afirmam que a lei moral, tal como ela aparece aos olhos da razão, é necessária, absoluta, invariável, e nisso estamos de pleno acordo; mas quem é que lhe dá esse caráter de necessidade e imutabilidade? Sereis vós, serei eu? Será a humanidade em geral? Mas, embora a humanidade jamais existisse, ou se, amanhã, todo desaparecesse, as ideias do direito e da justiça não seriam menos eternamente verdadeiras. Podeis, em pensamento, suprimir todo o universo, mas é-vos impossível conceber uma ordem de coisas onde seja lícito tomar o que vos não pertence.

Portanto, é fora da humanidade e acima do homem que somos obrigados a procurar o princípio ou a fonte das ideias morais.

Absolutas, elas não podem tornar-se relativas; necessárias, elas não podem emanar de um ser contingente; eternas e invariáveis, elas devem ter sua raiz fora do que é temporal e mutável. Conseguintemente, a não ser que alguém suponha que uma ideia possa existir sem uma inteligência onde ela nasça, o que seria um absurdo, é de todo necessário admitir que as ideias morais tenham sua realidade substancial e concreta em uma inteligência imutável e absoluta, como elas, quer dizer, na razão divina; do contrário vós as reduzireis a uma fantasia, a uma pura abstração, que nada tem de obrigatório e imperativo; e, neste caso, a moral se desfaz sobre sua própria base. Em duas palavras, a lei natural é perpetuamente verdadeira, porque existe desde toda a eternidade na razão divina; a lei natural obriga forçosamente, porque a vontade divina prescreve necessariamente como justo o que a razão divina reconhece como absoluta necessidade, como verdadeiro. Isso me parece uma evidência matemática.

Podemos acrescer às palavras do ilustre bispo francês que a obrigação tão somente se torna absoluta e o dever indeclinável quando o homem se acha em face de uma autoridade que lhe impõe, em virtude do seu direito soberano, a prática da honestidade e da justiça. Essa autoridade é exclusivamente a de Deus, legislador supremo da natureza racional.

A sabedoria, a santidade e a justiça de Deus exigem que as criaturas racionais, obras de sua onipotência, pratiquem o bem moral, a honestidade e a justiça. Assim se explica, claramente, a razão do dever absoluto. Fora da autoridade de Deus, há, se quiserem, uma grande conveniência de fazer o bem e de evitar o mal, mas não há obrigação necessária.

CAPÍTULO XX

Religião e moral

Chama-se religião o conjunto dos deveres para com Deus. Aquele que rejeita a religião, repele, por isso mesmo, os deveres que ela encerra, e, consequentemente, desconhece a Deus ou lhe nega, praticamente, a existência. Com a eliminação de Deus, conforme acabamos de ver, a moral não contém mais prescrições necessárias e absolutas, por lhe faltar a autoridade para mandar com império irrefutável.

Daí se vê o grave erro, sob o ponto de vista moral e social, dos legisladores hodiernos que pretendem impor uma moral sem Deus ou deveres estritos e pesados sem a autoridade do supremo legislador. Por isso, já um filósofo pagão dissera ser mais fácil edificar uma cidade nas nuvens do que a estabelecer e fazê-la durar sem o respeito e o culto da Divindade; e por isso Thiérs proclamou que todos os estadistas devem desejar que o cristianismo sempre dure. Só Deus, efetivamente, é o verdadeiro e soberano Senhor de todos os seres – como afirma Leão XIII, na sua encíclica sobre a constituição cristã dos Estados: – todos, quaisquer que eles sejam, devem-lhe estar necessariamente sujeitos e obedecer-lhe, de forma que aquele que tem o direito de governar só o recebe de Deus, chefe supremo de todos. Não há potestade que não venha de Deus (Rom. 13, 1).

Se solapais o fundamento, o edifício rui por terra; assim a moral, separada da religião, não pode subsistir, desmorona e baqueia. Fatos os mais eloquentes o provam. Essa religião, porém, é o cristianismo na sua forma mais genuína, a Igreja Católica, à qual o Brasil deve suas mais belas glórias.

CAPÍTULO XXI

O Brasil e a moral cristã

A Igreja formou em seu seio fecundo a nossa nacionalidade, e a criou e avigorou ao leite forte de sua doutrina – diziam os srs. bispos na sua apostólica pastoral de 1890. Essa Igreja deu-nos apóstolos, como os de que mais se honraram os séculos cristãos, varões estupendos de coragem e abnegação, que penetraram em nossas imensas florestas, navegaram rios desconhecidos, palmearam sertões desertos, transpuseram escarpadas serranias, e, armados só da Cruz e do Evangelho, lá foram reduzir e conquistar, como de fato reduziram e conquistaram, à força de brandura e de amor, tão numerosas gentilidades.

Essa Igreja sagrou, desde o princípio, a fronte do Brasil com a unção da fé e o batizou com o formoso nome da Terra de Santa Cruz, porque à sombra deste estandarte do cristianismo havia o Brasil de medrar, de manter a sua unidade política no meio das invasões, e de prosperar, de engrandecer-se até vir a ser, como já é, a primeira potência da América do Sul.

Foi a Igreja que ornou as nossas cidades de monumentos religiosos, que levantou por toda a parte hospitais, recolhimentos, asilos, colégios, escolas literárias, de onde saíram escritores como Vieira, latinistas como Cardoso, prelados como Dom Romualdos, Viçoso e Dom Antonio de Melo, sábios como Frei Mariano Velozo, e oradores como Montalverne, e poetas como Caldas e Durão.

Ora essa Igreja, que tem acompanhado toda a evolução de nossa história, que tem tomado sempre parte em todos os nossos grandes acontecimentos nacionais, é ainda hoje em nosso país a coluna granítica da moral. Bani a sua influência eficaz do nosso meio social, e tereis um caos, uma sociedade em destroços. Conservemos ao nosso povo a sua religião e a moral cristã, insubstituível por qualquer outra, e o Brasil ressurgirá das dificuldades atuais.

CAPÍTULO XXII

Moral estética e moral idealista

Os positivistas, os socialistas, os evolucionistas e os monistas em geral pretendem que a moral se explica muito bem prescindindo de qualquer ideia teísta, porquanto o honesto, o belo e o dever se identificam com os sentimentos da honra e da dignidade humana, do desinteresse, da benevolência, da solidariedade da Caridade. Sentir e afirmar a dignidade humana, diz Proudhon, sem sentimento de egoísmo e sem consideração alguma da divindade, eis o direito, o justo, a moral.

Esta teoria não passa de uma enganosa ilusão. A dignidade humana, os sentimentos de honra e de brio, abstração feita da lei divina, que se chama lei natural e essencial, pode dar lugar a conveniências sociais, mas não à obrigação absoluta. E nesse caso, a moral se traduzirá pelas máximas análogas a esta: "Um belo pensamento vale uma bela ação, uma vida de ciência vale uma vida de virtude".

O dever moral se confundirá com a satisfação interior que nasce das relações de simpatia, benevolência, de cortesia e de polidez. Esta moral idealista não imporá jamais o dever estrito ou a obrigação indeclinável, porque nunca apresentará uma autoridade soberana que mande, com poder absoluto, que seja observada a lei do honesto, do direito, e evitado o mal e a injustiça.

Em face das más tendências da natureza, das paixões violentas e desencadeadas, das seduções da sensualidade, dos assomos do orgulho e da ambição, dos cálculos do egoísmo e da cobiça, — qual será a força e a eficácia duma simples regra de conveniência, de um amor platônico do belo e do bem, dos sentimentos de simpatia e de benevolência? Os fatos históricos dão uma resposta surpreendente à moral estética e idealista. Rejeitando a Deus Criador e legislador supremo, repudiando as prescrições da lei divina, negando a sanção eterna das recompensas e dos castigos da outra vida, — positivistas, socialistas, evolucionistas e monistas destroem a barreira mais forte levantada contra o mal e a cegueira das paixões. E assim é que dão livre entrada no corpo social a todas as causas de perversão moral e de desordem.

As fórmulas estouvadas de liberdade, fraternidade e igualdade — ecos confusos da revolução de 1789, que proclamou os direitos do homem e pretendeu ab-rogar os direitos de Deus — não têm poder sobre as massas populares, nem inspiram às classes dirigentes sentimentos de justiça e de equidade. São fórmulas gastas, em que o povo já não acredita, considerando-as como simples farsa para iludir os ingênuos e impressionar o indígena.
Cristo, Filho de Deus vivo feito Homem, ensinou a verdadeira liberdade, fraternidade e igualdade, mostrando que os homens são seres livres e não escravos, que todos são irmãos pertencentes à família de Deus e redimidos na cruz, que são iguais segundo a sua natureza e perante Deus, e que todos são destinados, igualmente, para a vida eterna, onde serão julgados segundo o valor de suas obras praticadas na terra.

CAPÍTULO XXIII

A tela de aranha

Conta o poeta Joergensen o seguinte: Uma aranha desce pelo fio atado a um ramo; em seguida corre de lá para cá, estende e encolhe os pés minúsculos e tece uma admirável rede, que faria honra ao mais aperfeiçoado tecelão.

Durante muito tempo vivia ela feliz e contente na sua artística morada. Nas suas pequenas excursões, porém, passados dias, encontra o primeiro fio, e, tendo olvidado a sua significação, rompe-o com os dentes e toda a casa vacila, estremece e cai.

Deus é o autor da humanidade, que sobre ele edificou o edifício da moral. De Deus dimana a sanção de toda lei, dele provém o respeito à autoridade, Ele é a base da verdadeira ordem humana, como é a coluna do progresso social.

"Por mim reinam os reis e por mim decretam os legisladores o que é justo. Por mim imperam os príncipes e os poderosos decretam a justiça". Assim fala Deus por boca de Salomão (Prov. 8, 15-16). Ora, se os legisladores negam a Deus, querendo inaugurar uma moral sem base sólida, que apenas se apoia em interesses utilitários ou na força violenta e bruta, cortam, com a espada da irreflexão ou do despotismo, o único fio que sustenta e segura o edifício da moral, que em seguida desastrosamente cai e se transforma em ruínas. Por isso, Voltaire, apesar de sua impiedade repugnante, era mais prudente e mais sagaz do que muitos políticos modernos, porquanto dizia: "Não quereria ter por senhor um ateu, porque, se lhe agradasse, me faria estrangular; não o quereria por servidor, porque não estaria seguro em minha casa".

E, quando se banqueteava em casa de amigos, Voltaire impunha silêncio aos seus companheiros que se entretinham em blasfêmias, porque temia que os criados aprendessem, do seu desprezo de Deus, a suplantar e a matar os patrões. – Portanto, se, a todo transe, os governantes querem o ateísmo em nosso meio social, fechem, prudentemente, as portas da sua casa!

CAPÍTULO XXIV

Índole religiosa

A moral cristã sintetizada no Decálogo e desdobrada nas oito bem-aventuranças formuladas por Jesus Cristo é a base da nossa vida nacional; pois, desde os seus primórdios, o Brasil esteve sob sua imediata influência, quer quanto ao lar doméstico, quer quanto à sua vida social e política.

Pode-se dizer, com razão, que o catolicismo constitui a religião do povo brasileiro, porque este é, na sua quase totalidade, católico. O Brasil, como em geral os povos mais adiantados em civilização, colocou a lei de Deus à frente de sua legislação, de seus costumes particulares e públicos. De sorte que o povo contraiu uma espécie de hábito cristão, em virtude do qual age, não obstante o ateísmo oficial que reina, infelizmente, em nosso país. Graças a esse hábito, quando não por convicção religiosa, o povo ainda respeita as leis e obedece à autoridade.

Mas, se o povo, educado pelo governo na escola laica, em que Deus é desprezado, tirar um dia as conclusões lógicas das premissas estabelecidas pelo ateísmo, proclamará a anarquia social. Por que – dirá – pagar impostos? Por que obedecer a um igual? Por que respeitar as leis? Quem me obrigará? A força? A violência? À força resistirei, e à violência oporei violência.

Quereis ver alguns prenúncios da tormenta que se aproxima? Lede os jornais! As defraudações do tesouro nacional, as revoltas, os crimes políticos, os delitos de menores, os suicídios sem conta, formam a mais negra das listas.

E se o mal ainda não assumiu maiores proporções é porque o nosso povo é cristão por índole, e a Igreja lhe ensina, nas escolas católicas e nos templos, a doutrina de Jesus Cristo, a fé dos seus ancestrais, repetindo-lhe os preceitos de Deus: não matarás, não furtarás, não cobiçarás as coisas alheias.

O ateísmo oficial, porém, imposto à nação, é o jugo mais aviltante dos povos, é o assassino das sociedades e abre, de par em par, a porta gigante da anarquia. Suas consequências são funestíssimas.

Houve um príncipe chamado Afonso de Castela – assim conta-se – que conhecia algo de astronomia. Cheio de vanglória, exclamava, um dia: "Oh, se Deus me tivesse pedido conselho, ter-lhe-ia sugerido um modo mais simples e expedito de governar os astros". Esse príncipe vaidoso, não obstante a deficiência de seus conhecimentos astronômicos, quis fazer-se mestre do Criador do universo. Homem ridículo.

Imaginai-vos, se ele, por uma hipótese absurda, tivesse reformado as leis da máquina universal, toda a complicada engrenagem do cosmos teria perecido, toda a ordem e beleza teriam acabado, todo o universo se teria esfacelado.

Quantos Afonsos de Castela aparecem entre os modernos reformadores do mundo social! Querem simplificar o movimento da sociedade e gritam: fora a religião! O teologismo, a Igreja Católica, passou seu tempo, inauguremos uma nova era sem Deus e sem a cruz de Cristo. – A desordem social é a consequência desse procedimento reprovável.

Por isso, sentenciava, sabiamente, o primeiro Bonaparte: "Não há moral sem religião".

CAPÍTULO XXV

Atitude política do episcopado

Para evitar confusão de ideias e explorações menos dignas, convém notar, uma vez por todas, que a palavra de ordem do Episcopado se encontra nas Pastorais Coletivas, nas Cartas Pastorais e outros documentos oficiais oportunamente publicados, e não em entrevistas jornalísticas apressadamente editadas, mal reproduzidas e lamentavelmente recortadas ao sabor das facções partidárias. Tais entrevistas carecem de caráter oficial.

Como ultimamente tem se falado muito sobre a formação de um partido católico, julgamos oportuno transcrever as resoluções relativas à política, tomadas em São Paulo, em 1910, e na cidade de Nova Friburgo, em 1915, pelo Episcopado do Brasil Meridional.

É claro que os senhores Bispos não podem silenciar diante da situação do Brasil, que acima explanamos. Como pastores dos povos que são, devem pastorear seus rebanhos e, como atalaias, mostrar-lhes a rota a seguir, observando sabiamente a doutrina de Jesus Cristo e as prescrições dos Sumos Pontífices. Inspirados nos ensinamentos das Encíclicas do Santo Padre Leão XIII, os senhores Bispos aceitam a atual forma de governo, e fazem votos a Deus para que da Constituição de 24 de fevereiro se expurgue a nota de radicalismo ateu que a torna uma exceção odiosa em todo o mundo civilizado. Ainda que não se envolvam os senhores Bispos nas lutas políticas do país, todavia, como brasileiros, mantenham boas relações com os magistrados da Nação. Nas circunstâncias atuais, dependendo do êxito das eleições políticas a escolha do bom ou mau governo do país, e daí o bem ou o mal-estar da Igreja entre nós, é claro que os católicos, como membros do Estado e filhos da Igreja, devem tomar parte nas eleições e propugnar, com seu voto e sua influência, pela derrota dos candidatos perversos e pelo triunfo dos homens de bem, sinceramente católicos, únicos capazes de promover a prosperidade da Pátria, formando com eles centros, círculos, uniões e ligas eleitorais, etc. Os eleitores que sufragarem candidatos inimigos declarados da Igreja não se podem escusar de pecado grave; e cometerão culpa ainda maior se, formal e propositalmente, entenderem com seu voto auxiliá-los na consecução de seus fins depravados, pois cooperam formalmente para as obras da iniquidade que aqueles, uma vez eleitos, hão de praticar contra a sociedade, contra a Igreja e contra a Religião. Não pode haver causa alguma que os justifique, como a amizade, a maior perícia, etc. Se os maus candidatos forem mais peritos, serão mais nocivos à Pátria e à Igreja. Donde se conclui a conveniência de um agrupamento, sob qualquer título que seja, encarregado de indicar os nomes dos candidatos apresentados que mereçam o sufrágio dos católicos, combinar com os partidos existentes qualquer ação de conjunto que pareça útil à Igreja e à Pátria e, em casos particulares, indicar mesmo alguns nomes merecedores do apoio eleitoral dos católicos. Não podemos negar que, em circunstâncias especiais, poderá ser lícito concorrer materialmente, com seu voto, para o triunfo de um candidato indigno. Por exemplo, quando se apresentarem somente dois indignos, como um liberal e um socialista; neste caso, quem sufraga o menos indigno entende afastar o mais indigno e mais prejudicial à causa social; isto é, prefere, entre dois males inevitáveis, o menor. Nem se diga que não se deve tirar o bem do mal, porque escolher o menos indigno não é aprovar os desígnios perversos, mas somente auxiliá-lo para obter um ofício bom, do qual só abusará por sua maldade. Ou ainda, se alguém votar no indigno porque é obrigado por medo grave; neste caso, o mal que será causado pelo indigno é apenas possível, e ao eleitor o mal é eminente; tanto mais que, atendendo às circunstâncias, raramente dependerá de um só voto o triunfo do indigno. Ordenamos que, no ensino do catecismo, sejam explicadas as obrigações do cidadão cristão nos termos adotados pelo catecismo de Monsenhor Delamaire, que são os seguintes: As obrigações do cidadão católico são respeitar os depositários da autoridade, contribuir para os serviços do Estado e cumprir o dever eleitoral com consciência. O dever eleitoral consiste em eleger para representantes os homens mais probos, mais cristãos, se possível, e mais capazes de procurar o bem geral. É pecado votar em homens que se sabe não terem probidade, serem ímpios ou antipatrióticos, porque quem os elege assume a responsabilidade de todo o mal que os eleitos poderão fazer mais tarde à religião e ao país. Será faltar ao dever cristão deixar de votar? Sim, ordinariamente o é, porque essa abstenção pode ser a causa do triunfo dos homens mais perigosos e de sua ascensão ao poder. Consoante deixamos dito, não queremos que do púlpito se tratem de assuntos políticos, os quais podem ser causa de fatal divisão e descontentamento entre os fiéis. Nada impede, porém — antes é necessário — que, nas associações católicas constituídas exclusivamente de homens, centros, círculos, confederações, etc., expliquem os párocos a doutrina que acima deixamos exposta. Dela se pode deduzir as seguintes conclusões: O católico, como cidadão, não pode e não deve desinteressar-se do bem geral da Nação, mas, pelo contrário, deve promovê-lo, com firmeza e sem preocupações pessoais, na medida de suas forças. Suas principais obrigações, como homem público, são respeitar e prestigiar a autoridade legitimamente constituída, sem atender à sua cor política ou partidária; contribuir, material e moralmente, para os diversos serviços da Nação, esforçando-se pelo seu engrandecimento e prestígio; e cumprir conscienciosamente e sem preconceitos pessoais ou apaixonados o dever eleitoral. Esse dever consiste em eleger, para representantes da Nação, os candidatos mais probos e honestos, mais capazes de promover os interesses gerais da Nação e defender os direitos da Igreja. Não é lícito votar em homens sem probidade, ímpios ou antipatriotas, e quem os elege assume, diante de Deus e do país, a tremenda responsabilidade de todo o mal que possam fazer à Religião e à Pátria esses pseudorepresentantes do povo. A abstenção eleitoral é, atualmente, contrária aos deveres do católico como cidadão, pois é ordinariamente a causa única da eleição de homens perigosos e maus, cujas doutrinas se opõem ao bem da Religião e da Pátria. Todo católico sincero deve, pois, qualificar-se eleitor, estando sempre pronto a contribuir com seu voto para o bem geral da Nação, sem jamais perder de vista os direitos de Deus e da sua Igreja. Na escolha de candidatos, deixando de lado qualquer consideração pessoal, deve invariavelmente preferir aqueles que, oferecendo as demais garantias de responsabilidade, queiram também defender os direitos da Igreja. Nas atuais condições do país, o católico pode filiar-se a qualquer partido, uma vez que os seus ideais, seus homens e seus processos sejam nobres e patrióticos, devendo, porém, reservar para si toda liberdade quando se tratar dos interesses da Igreja, os quais estão superiores aos de quaisquer agremiações partidárias. Em momentos de crise ou luta, o voto, o prestígio e as energias do bom católico pertencem, antes de tudo, a Deus e a Ele tão somente. Numa emergência, o clero e os fiéis sigam confiadamente a orientação do respectivo Prelado, a quem unicamente pertence guiá-los em questões que interessam à sua consciência e à vida da Igreja. Proibimos que os reverendos párocos se envolvam na política local, pois está provado que o procedimento contrário muito prejudica o seu ministério, afastando de si uma parte de seus paroquianos. Em circunstâncias especiais, ouçam o Ordinário. Procurem, portanto, doutrinar os fiéis nas matérias acima indicadas fora do tempo das eleições, e nunca individualizem os casos fazendo pessoalmente a aplicação da doutrina sem audiência Nossa.

Até aqui a Pastoral Coletiva de 1915. Ela oferece as normas que os católicos devem adotar e seguir. São as sábias resoluções tomadas pelo Episcopado sul-brasileiro. Sobre essa base, podem e devem os católicos edificar, cumprindo seus deveres, mas compenetrando-se também dos seus direitos cívicos.

Todos devem trabalhar para que os direitos de Deus sejam reivindicados e reconhecidos na escola, na família e na sociedade. Do reconhecimento desses direitos divinos depende a felicidade e a grandeza futura da nossa pátria.

CAPÍTULO XXVI

Vitalidade da moral católica

A moral católica ou teológica, sendo, como já acima provamos, a norma dos atos humanos, nascida da objetividade do direito natural e dos princípios indestrutíveis do cristianismo, não pode envelhecer nem exaurir suas forças, a ponto de perder o seu vigor e morrer qual árvore que passasse determinado número de anos.

A moral católica tem uma vitalidade divina e suas energias são vitalizantes. Por isso, atua salutarmente sobre a humanidade, vivifica e faz florescer os costumes particulares e públicos. Quando, porém, se lhe restringe e comprime a liberdade, quando, devido às circunstâncias especiais dos tempos, não pode agir, não pode expandir-se — conserva, todavia, sua força vivificante e propulsora da prosperidade dos povos, à semelhança de uma poderosa torrente elétrica à espera de condutores apropriados para iluminar e movimentar, transformando-se em luz brilhante e força mecânica.

Entretanto, não se suponha que queiramos confundir o poder eclesiástico com o civil. Não! O que a Igreja pretende conseguir é que o espírito de Deus vivifique as instituições sociais e políticas, para que assim seja garantida a estabilidade dos Estados, a felicidade das nações, e ela possa desempenhar sua missão divina.

Nesse sentido definiu as posições recíprocas o imortal pontífice Leão XIII na sua Encíclica Immortale Dei: "Deus dividiu, pois, o governo do gênero humano em dois poderes: o poder eclesiástico e o poder civil; o primeiro para coisas divinas e o segundo para coisas humanas. Cada um deles em seu gênero é soberano: cada um se contém nos limites perfeitamente determinados e traçados em conformidade com a sua natureza e com o seu fim especial.

Há, pois, como que uma esfera circunscrita em que cada um exerce a sua ação, por direito próprio. Todavia, exercendo-se a sua autoridade sobre os mesmos súditos, pode acontecer que uma e a mesma, ainda que com um título e a razão diferente, mais sempre uma e a mesma coisa, esteja sujeita à jurisdição e ao juízo de um e de outro poder. Era, pois, digno da sábia Providência divina, que os estabeleceu a ambos, traçar-lhes bem o caminho e regular as suas relações. As potestades que há, foram por Deus ordenadas (Rom. 13, 1).
De outra forma, originar-se-iam muitas vezes funestas contendas e conflitos, e, não poucas, o homem ficaria perplexo como em presença de um duplo caminho, não sabendo que fazer em virtude de ordens contrárias dos seus poderes, aos quais ele não pode em consciência negar obediência."

A propósito, escreveu Pio X de feliz memória, na festa de Pentecostes de 1905, aos Senhores Bispos da Itália: "A Igreja sempre tem demonstrado possuir a faculdade admirável de acomodar-se à situação mutável da sociedade humana, de sorte que, conservando a imutabilidade da fé e da moral, soube adaptar-se facilmente a tudo quanto as épocas da civilização e as novas exigências da sociedade humana produziram de necessário e útil."
Essa lei moral resume-se na palavra majestosa de Jesus Cristo: "Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". E assim é que o divino Mestre, pela influência de sua moral, conseguiu que os seus contemporâneos suportassem o jugo do imperador romano, tão odiado pelos judeus.

Em virtude da mesma Moral, quando no horizonte do império romano já alto subiam as labaredas da perseguição, São Pedro disse aos cristãos: "Submetei-vos a todo poder humano, por amor de Deus: quer seja ao rei como ao soberano; quer aos governadores como enviados por ele para tomar vingança dos malfeitores, e para louvor dos bons. Honrai a todos, amais aos irmãos e temei a Deus, respeitai ao rei. Servos, sede obedientes aos vossos superiores com todo temor, não somente aos bons e moderados, mas também às de dura condição" (I Pedro 2, 13-17, 18).

Em consequência da mesma moral cristã, o nobre romano Apolonio, no tempo do imperador Cómodo, se recusou a jurar pela deusa Fortuna e declarou ao Senado: "Conforme os mandamentos divinos, dirigimos preces àquele que mora no céu, ao Deus único, para que os príncipes reinem sobre a terra com justiça, visto como estamos convencidos de que também o imperador não foi constituído senão pelo Rei que tudo tem nas suas mãos, Deus."

A Igreja, com sua doutrina e moral, civilizou o mundo. Como o fermento leveda a massa de farinha, assim os princípios da moral cristã regeneram os costumes dos povos. De fato, conforme já dissemos, os gregos e os romanos, isto é, as nações mais policiadas e mais instruídas, adoravam um Júpiter incestuoso, um Marte sanguinário, um Baco dissoluto, uma Vênus impúdica. A divindade dos persas era o sol e os astros; a dos egípcios, os bois e o Apis. Os germanos e os gauleses, como os índios, rendiam um culto supersticioso aos ídolos. As principais festas em honra dos deuses, tais como as saturnais, as bacanais e as iupercais, não eram senão excessos de devassidão. As torpezas mais vergonhosas se praticavam nos templos de Adônis, de Juno e de outras divindades pagãs.

O cristianismo transformou os costumes de todos os povos e raças. Ele produz, todos os dias, admiráveis transformações morais nos indivíduos e nos povos mais degradados. De maneira que o próprio Darwin, na sua Viagem ao redor do mundo, mostrou-se admirado pelos progressos na Nova Zelândia promovidos pelos missionários. Os filhos de canibais tornaram-se agricultores laboriosos, dóceis e honestos. Entre os moradores do Taiti, a introdução do cristianismo reduziu consideravelmente o latrocínio, a intemperança, a devassidão, os sacrifícios humanos, o poder dos sacerdotes idólatras, o infanticídio e outros vícios que desapareceram, hoje, completamente (Proal, O crime e a pena).

E quem amansa em nossa terra, na hora presente, os índios de Mato Grosso e do Amazonas? É o missionário católico, com os mandamentos do Decálogo! Em todos os países, a moral católica tem produzido os mais belos frutos: quantas obras de caridade produziu, quantos levam uma vida inocente e santa! Mas onde a moral cristã não se cultiva, medra a corrupção de costumes políticos e particulares, corrupção que tem sua origem nos ensinos da impiedade e nos princípios de uma moral ateia, cujo resultado final é a seguinte máxima: nem Deus, nem mestre; nem crença, nem virtude; nem família, nem pátria.

Ora, a moral cristã, ou teológica, dotada de tais qualidades e que durante vinte séculos revela sua pujança, vivificando a sociedade humana, não gasta, não depaupera suas forças, mas possui sempre a mesma opulência de energias.

CAPÍTULO XXVII

Igreja e política

A verdadeira civilização consiste no aperfeiçoamento da humanidade sob o império da lei moral. Por esse motivo, disse Leão XIII na sua encíclica Sapientiae christianae, que os deveres para com a autoridade civil e eclesiástica não se repelem, reciprocamente, nem se confundem; sendo que os primeiros visam a prosperidade do Estado e os segundos o bem geral da Igreja, e todos o aperfeiçoamento dos homens.

Por isso, não se pode afirmar, sob pena de revelar ignorância ou desconhecimento da natureza e do fim da Igreja, — que esta tenha perdido sua força política. O ascendente político da Igreja, na Idade Média, sobre todos os departamentos da sociedade humana, não era uma consequência dos dogmas católicos, mas um fato acidental, ocasionado pela evolução histórica dos povos e das ideias do tempo.

As nações recém-formadas eram incapazes de se dirigir, de modo que a Igreja as tutelava e protegia contra os ataques dos povos inimigos. Naquela época, só a Igreja é que tinha força suficiente para governar os povos europeus no meio das incertezas, luas e dificuldades do momento histórico.

No Estado moderno, a posição da Igreja é diferente. Os poderes estão separados. Mas disso não se pode inferir que a moral católica tenha passado seu tempo, ou perdido sua eficácia política. Não! Segue-se, apenas, que o Estado, em seu próprio interesse, não exorbite suas atribuições e facilite à Igreja os meios a que tem direito, e não hostilize sua ação, com a prepotência da força material.

A lei, que é a coluna vertebral da ordem, não tem firmeza, nem é respeitada sem o reconhecimento da religião. Isto afirmam os estadistas mais célebres. Platão diz que o ataque à religião abala o fundamento da sociedade. Jorge Washington, o consolidador das liberdades políticas, declara que um povo sem religião é um povo ingovernável, e o protestante Guizot acrescenta: "A Igreja é uma escola superior da autoridade."

Os grandes políticos católicos Montalembert, O'Connell, Radowitz e Windhorts, com sua ação brilhante, reivindicaram o direito do povo oprimido e prestaram os mais relevantes serviços à sua pátria.

Não se pode, pois, afirmar, sem trair a verdade, que a política deve prescindir de Deus e ser ateia, com as outras ciências, que aliás todas têm seu último fundamento em Deus. É isso um contrassenso, um dislate, um desastre social.

É necessário, portanto, que trabalhemos juntos, o Episcopado unido entre si e ao Sumo Pontífice, vós todos unidos ao Episcopado na grande obra da restauração da nossa Religião, remédio eficacíssimo dos males desta querida Pátria.

É desenganar que nem formas de governo, nem leis, nem reformas administrativas, nem melhoramentos materiais, nem máquinas de guerra, nem poderoso exército a podem salvar; só o Evangelho ensinado na família, na escola, e fortemente incutido à sociedade pela palavra vibrante do Apostolado cristão, poderá salvar-nos e encaminhar-nos para auspicioso porvir (Sentenças e texto expresso do grande pontífice Leão XIII). Restabelecer na vida privada e em todas as partes do organismo social os princípios e as práticas do Cristianismo é o único meio de livrar-nos dos males que nos acabrunham e de prevenir os perigos de que somos ameaçados.

CAPÍTULO XXVIII

Um jurisconsulto notável

Muito se tem falado e escrito sobre a conferência realizada na Faculdade de Direito em Buenos Aires pelo eminente senador Ruy Barbosa. Não pode ser o nosso fim analisar, ou comentar, esse momentoso trabalho, que obteve fama mundial. Mas queremos assinalar um fato, cuja relevância talvez não seja devidamente apreciada.

Sabe-se que a desastrosa conflagração europeia abalou os fundamentos do direito internacional. Na consideração dos acontecimentos lamentáveis dessa guerra, o egrégio jurisconsulto brasileiro, mais de uma vez, se refere a Deus, à moral cristã e aos princípios do cristianismo, o que aos nossos intelectuais, políticos e detentores do poder, parece desnecessário e medieval!

Na formulação de leis, nos compromissos oficiais, em toda a vida pública, abstraem em nossos pronomes da ideia de Deus. Ruy Barbosa teve a hombridade e mesmo a audácia, para muitos, de lançar as bases de uma construção filosófico-jurídica inspirada na justiça de Deus, envergonhando não poucos dos seus pares, que primam pelo respeito humano e timbram nos seus sentimentos incrédulos.

Ruy Barbosa, sejam quais forem as suas convicções religiosas no passado e suas intenções no presente, deu uma lição de mestre aos intelectuais ateístas do país. Pois, ele mesmo afirma ter falado como jurisconsulto.

Vozes da imprensa portenha e brasileira reconhecem o espírito cristão do nosso embaixador. Elevando-se acima das concepções dos jurisconsultos, Ruy Barbosa refere os direitos dos povos a Deus, juiz supremo das nações, e deriva d'Ele e de sua justiça terna os postulados científicos destinados a reger o mundo.

É a adaptação da filosofia jurídica à filosofia cristã; é o que poderíamos chamar um "direito internacional cristão".

A sociedade futura assentará sobre a "solidariedade das nações", mas esta sociedade internacional terá por vínculo indestrutível, não já o mero interesse material, mas a "volta ao direito" e à "moral cristã".

Não é, então, o simples direito humano o sustentáculo das futuras sociedades, esse direito que os canhões e as baionetas acabam de calcar; é alguma coisa de mais elevado, mais nobre, mais puro que as filosofias terrenas, alguma coisa que tendo uma qualidade terrestre, tem, sem embargo, uma sanção e uma justiça divina.

Dentro dessa concepção sublime se salvam e realizam os grandes princípios jurídicos e morais que têm sido as colunas seculares da civilização. Como a Arca de Noé, esta doutrina acolhe todas as espécies vivas para restituí-las depois do naufrágio e da ruína universal, ao seio de um mundo regenerado, enobrecido, purificado (La Nación).

Ao espírito, indiscutivelmente, cristão do nosso povo devemos a democracia que desde muitos anos, mesmo nos tempos do decaído regime monárquico, é o traço mais forte da nossa índole republicana.

Ao cristianismo deve o Brasil a sua integração como nacionalidade independente; ao cristianismo deve ainda agora a glória de ser o porta-voz de um protesto que há de atravessar a posteridade, ligado aos mais belos triunfos da consciência humana e que, num dia que não vem longe, desdobrará ao mundo a alma revivida de um povo cheio de fé no futuro glorioso da humanidade e simples na grandeza admirável de sua crença.

E só às tendências decisivas do povo brasileiro pelos princípios cristianizados devemos à unanimidade de sentir com que as palavras do nosso embaixador foram acolhidas por todas as classes sociais.

O próprio positivismo, para quem a Humanidade é o Grande-Ser e que até hoje se limitou a uma ação descolorida e sem eloquência, o próprio positivismo que ensina a "preponderância direta do sentimento social", não teria forças para reunir em torno de um protesto toda a alma generosa da nossa pátria.

A ciência de Ruy Barbosa confundiu-se hoje, mais do que nunca, com a ciência altamente cristã dos seus concidadãos (Correio do Povo).

"Pôr em dúvida, hoje, diz o grande estadista Ruy Barbosa, a autoridade da moral no direito das gentes é riscar, de um traço, vinte séculos de progresso cristão. Não há duas morais. Para os Estados como para os indivíduos, na paz e na guerra, a moral é uma só."
Sim, a moral é uma só! É a moral que a Igreja ensina ao Brasil desde os dias de Pedro Álvares Cabral — é a moral católica. Não pretendemos tecer louvores ao maior dos oradores nacionais! Não! Ele reconheceu, apenas, uma verdade que todos os nossos homens públicos deveriam reconhecer. Cumpriu, sem respeito humano, um dever rudimentar de jurisconsulto!

Mirem-se, pois, no seu exemplo e sigam seus passos, aqueles que presidem aos destinos temporais do nosso povo!

Com a devida vênia, tornamos nossas as seguintes belíssimas palavras de sua Eminência Reverendíssima o Sr. Cardeal Arcoverde, proferidas no seu jubileu, omitindo, porém, as expressões que particularmente se referem a essa solenidade: "E tu, querida Pátria, tu meu dileto Brasil, também a ti me dirijo, e quero que neste dia, ressoe o hino da tua vocação cristã.

Ela brotou do sacrifício sacrossanto na primeira Missa que no teu solo foi celebrada! Afirmada pelo verbo pujante do Missionário, foi batizada no sangue do primeiro Bispo e no de tantos outros mártires. Entrou pelas florestas, atravessou rios, subiu montanhas e, como que por mãos divinas, se incrustou no céu, no formoso asterisco do cruzeiro!

Aclamam-te grande, ó meu Brasil, pelas riquezas do teu solo, em cujas entranhas o fulvo do ouro se entremeia com o verde das esmeraldas: porém, maior ainda a tua magnitude moral, que está na pia do batistério, nos inúmeros templos encimados pela Cruz e que, pela voz dos sinos, fala ao viajante, nas orações do lar doméstico, no vinho vigoroso do Evangelho, no espírito nacional, que rompe a letra dos códigos, das leis, das constituições artificiais e, esplêndido na sua pujança, multiplica Diocese, atrai a opinião popular, celebra congressos, triunfa no púlpito em pregações e conferências, e por todas as modalidades se afirma em radioso movimento católico social.

Brasil, Pátria mina, diamante lapidado por tantos cultores da eloquência, da história, da poesia e da arte, Deus te faça, cada vez mais lúcido, refulgente, no diadema do universal convívio. De tuas irradiações quero algumas para o meu trabalhoso Episcopado: e das bênçãos que do Senhor das Nações submissamente imploro, muitas sobre ti recaiam, dando-te uma grandeza inexcedível, prêmio da tua fidelidade à lei de Jesus Cristo."

CAPÍTULO XXIX

Admirável fundação do reino de Jesus Cristo: visão de Daniel

Sentado no seu trono fulgente, Nabucodonosor, o poderoso Rei de Babilônia, ouve, atento e maravilhado, a palavra do profeta Daniel.

O Rei tivera um sonho e dele já estava esquecido. Havia, por isso, convocado todos os sábios da corte, mas nenhum lhe soube recordar o sonho e muito menos interpretá-lo. Por esse motivo, Nabucodonosor decretou, cruelmente, a morte de todos os sábios de Babilônia. Porém, antes que essa ordem fosse executada, apresentou-se Daniel diante do Rei e, divinamente inspirado, lhe disse: "Tu, ó Rei, viste uma estátua de gigantescas dimensões, de esplendor extraordinário e aspecto medonho. A cabeça dessa estátua era de ouro puríssimo, seu peito e braços, porém, de prata, o ventre e coxas eram de bronze e as pernas de ferro, sendo uma parte dos pés também de ferro, mas a outra de barro. Ora, tu estavas contemplando essa estátua, quando lá de uma alta montanha se deslocou uma pedra que, rolando para baixo, bateu, com veemência, nos pés daquela estátua e os esmigalhou. E assim, privada da sua base, a imensa estátua caiu, com fragor, por terra completamente despedaçada, e o vento espalhou seus restos como folhas secas. A pedra, porém, que destruiu a estátua, transformou-se em elevado monte, que encheu toda a terra.

Eis o teu sonho, cuja interpretação é a seguinte: o teu reino representa a cabeça de ouro daquela estátua; depois de ti levantar-se-á outro reino, menos do que o teu, o de prata; depois virá o terceiro, o reino de bronze, que dominará sobre toda a terra. O quarto reino será o de ferro, e, como o ferro tudo doma e destrói, assim este quarto império tudo submeterá ao seu cetro. Nesses dias, o Deus do céu fundará um reino que jamais será destruído, mas aniquilará aqueles outros impérios e permanecerá eternamente."

Esta visão profética de Daniel verificou-se à letra. A história universal, com efeito, nos mostra que ao grande império assírio-caldaico sucedeu o reino dos Medos e Persas; o terceiro reino universal foi o greco-macedônio e o quarto império romano.

E quando este se achava no auge de sua grandeza e poder, quando o Imperador Augusto fechara pela terceira vez as portas do templo de Jano, em sinal de paz universal, desceu do monte Sião o Messias e, sobre as ruínas daqueles imensos impérios, fundou o reino eterno, que se estende por toda a terra.

Mas, como é isso possível? Porventura seria Cristo mais poderoso do que os reis da Assíria, do que Ciro e Dário, do que Felipe da Macedônia e Alexandre Magno, e do que César Augusto? Sim! É mais poderoso; sua força é excelsa, é divina. Pois, seu poder revela-se majestoso na desproporção dos meios que adotou na fundação e difusão do seu reino. Ele desprezou todos os caminhos por onde os homens procuram comunicar suas doutrinas aos seus semelhantes e ditou ao Ministério Apostólico leis que, segundo as analogias históricas, haviam de contrariar, em vez de favorecer, as suas conquistas espirituais.

CAPÍTULO XXX

Meios divinos e política humana

Por isso, pode-se afirmar, com absoluta certeza, que Cristo manifestou seu poder divino, empregando, na fundação do seu reino universal, meios opostos aos processos da política humana.

Qual é, de fato, a política dos homens que pretendem conquistar um novo país e governá-lo? Os grandes políticos, quando querem alargar as fronteiras do seu reino e conquistar novos povos, procuram principalmente obter grandes exércitos, bem armados e aguerridos, que são os braços do corpo social, bem como abundantes riquezas, que são como que sua alma e sua vida; procuram, demais, acomodar-se à índole e ao gosto do povo, para torná-lo contente e satisfeito e, para isso, servem-se de bons oradores e da poderosa influência da imprensa, como se vê na atual conflagração europeia, onde se movimentam milhões de soldados e correm rios de dinheiro. Ora, Cristo não empregou nenhum destes meios para fundar o seu Reino – a Igreja.

Dizei-me onde estão os exércitos que mobilizou, para estender seu reino e firmar seu poder? Onde estão os recursos pecuniários, os oradores eloquentes e a poderosa imprensa de que dispunha?

Desenrolai diante de vós o mapa mundi, e vereis, em todos os continentes e em todos os países, numerosos povos que se gloriam de se chamar súditos e servidores seus, que o adoram e lhe oferecem diariamente homenagens e sacrifícios. Mas, de que força se valeu, para ser obedecido não só como supremo Monarca, mas também para receber homenagens de adoração como Deus onipotente e eterno?

O Senado Romano propôs, um dia, levantar um templo ao invicto Alexandre Magno e colocá-lo entre os deuses, porque no espaço de doze anos havia conquistado grande parte do mundo. Ora, que maravilha achais, diz São Crisóstomo, em que um homem, de nascimento ilustre, dotado pela natureza de intrepidez e valor, e marchando à frente de numerosos batalhões, que semeavam o pranto e a desolação por onde passavam, que admira que um tal guerreiro vencesse cidades e povos, e nações inteiras se entregassem em suas mãos? Que homem há que em semelhantes condições não possa fazer outro tanto? Como se prova sua divindade e poder oculto?

Mas, Cristo nasceu pobre, nunca teve riquezas, nem manejou a espada e até proibiu os Apóstolos que dela fizessem uso; escolheu, para seus discípulos e soldados, doze pobres e tímidos pescadores, que deviam segui-lo na humildade e desprezo do mundo. Pois bem, com meios tão fracos, vedes, conquistou o universo e os reis e soberanos do mundo tiram da fronte as coroas, para beijar-lhe os pés.

A morte destrói os maiores poderes do mundo, os mais vastos impérios desaparecem e os mais invencíveis exércitos foram derrotados, depois que morreram aqueles que os formaram e lhes deram vida e alento. Esse mesmo Alexandre morreu, dividindo entre os seus generais os reinos conquistados, e ao cerrar os olhos desmanchou-se sua grandiosa obra.

Por isso, não há dúvida que, falando humanamente, devia desaparecer da terra o Reino de Cristo, ao expirar seu fundador na cruz, porque todos haviam de aborrecer e desprezar o seu nome e execrar a sua memória. Quem havia de seguir as doutrinas de um homem que morreu qual criminoso, e adorar como Deus a quem foi supliciado? E, não obstante, jamais cresceu tanto o seu Reino como depois de sua morte, nem tanto se propagou a fé na sua palavra. Logo não se vê aqui força humana, mas um poder altíssimo e divino, que dava alento e força aos ensinamentos de Cristo.

CAPÍTULO XXXI

David e Golias

Um dia os Filisteus e Israelitas estavam em guerra. O gigante Golias, todo coberto de bronze, desafiava, continuamente, os Israelitas para um duelo. Apresenta-se então ao selvagem guerreiro, o jovem David, com seu cajado, uma funda e cinco pedras nas mãos. Ao vê-lo, exclama Golias, irado: ''Vem cá, lindo mancebo, que darei de comer tuas carnes às aves do céu e aos bichos da terra''. David, porém, não se deixando amedrontar, atira com a funda uma pedra na testa de Golias, com tanta força que este caiu, e, em seguida, David com a espada decepou-lhe a cabeça.

Vencido estava o gigante, vencido o exército dos Filisteus! Começou então a reinar grande júbilo nos arraiais de Israel. As mulheres, ao som das harpas, entoavam hinos de louvor, e todas as nações reconheceram, nesse fato, o poder de Deus.

Ora, quando Cristo apareceu sobre a terra, era o mundo um imenso gigante, como que coberto do bronze de seus exércitos, que faziam estremecer os povos. Roma era a cabeça do colosso, que no seu orgulho desafiava o próprio Deus. Porém, Cristo querendo abatê-lo, empunhava o cajado da cruz e, escolhendo a pedra que devia atirar na testa do gigante, enviou a Roma o Apóstolo São Pedro, essa pedra divinamente indestrutível, sobre a qual fundaria sua Igreja, e com ela venceu e prostrou por terra o inimigo jactancioso. Por esse fato, o mundo inteiro canta suas vitórias e lhe presta homenagens divinas.

Os ensinamentos que Cristo dava aos seus discípulos nunca eram de violência, nunca visavam guerras ou mortes. ''Eu vos mando como cordeiros entre os lobos, não leveis armas; a quem vos fere uma face oferecei a outra; deixai-vos fazer em pedaços, quando pedem o vosso sangue, assim haveis de espalhar as verdades que eu vos anuncio''.

Quem jamais falou semelhante linguagem ao conquistar povos? Quem não descobre aqui o maravilhoso poder de Deus? É forçoso, portanto, confessarmos que Jesus Cristo na fundação de seu Reino revelou seu poder divino e desprezou todos os processos da política humana para conseguir seus intentos.

CAPÍTULO XXXII

Obstáculos das leis

Já que Cristo não estabeleceu seu Reino neste mundo, com o auxílio de poderosos exércitos e riquezas, porventura o terá conseguido pela acomodação de sua doutrina e moral aos costumes e vícios dos povos, e à força de eloquência humana ou da poderosa influência da imprensa? Pois, tem havido conquistadores que, para granjear a simpatia das nações vencidas, vestiam-se à moda delas, adoravam seus deuses e adotavam seus costumes e muitas vezes seus vícios.

Cristo não se serviu desses métodos na fundação e difusão de seu Reino, mas seguiu processos opostos. Vejamos as enormes dificuldades que havia de vencer. As religiões pagãs, especialmente as da Grécia e de Roma, pretendiam satisfazer, a um tempo, à necessidade imprescindível do sentimento religioso e às mais vis paixões do homem, e nisto radicava toda a sua força. Eram religiões da natureza.

Daí é que, conforme Platão, Ovídio e Plauto, a adoração da natureza e dos prazeres sensuais, levados até ao refinamento mais grosseiro, constituía o culto pagão.

O amor da pátria estava ligado da maneira mais íntima com a religião. Era crença geral que Roma devia aos seus deuses todas as grandezas, e que o abandono deles acarretava grandes males ao Estado. Todos os atos públicos, a vida oficial inteira, em tempo de paz e de guerra, era consagrada por cerimônias religiosas, e tanto no fórum como nos acampamentos ofereciam-se sacrifícios.

O imperador era, ao mesmo tempo, autoridade política e religiosa, o sumo sacerdote – "sumus sacerdos" – e mais tarde tornava-se objeto de adoração.

Daí as acusações contra os cristãos, que eram considerados como antipatriotas e a causa da decadência de Roma, segundo atestam Tito Lívio, Cícero e Tertuliano. Em consequência disto, levantava-se contra o novo Reino o próprio César, que se via ameaçado no seu poder; levantava-se o sacerdócio pagão, cuja influência estava periclitante; levantavam-se as escolas filosóficas, que previam o aniquilamento de suas doutrinas.

E quando embotaram as armas da ciência e da crítica, e quando estancou a torrente do escárnio e do sarcasmo, o império publicava leis proibitivas dos ensinamentos cristãos; por exemplo a "Lei Julia maiestatis", que vedava reuniões noturnas; palavras ofensivas aos deuses, etc. De maneira que todos os males eram atribuídos aos cristãos: quando o Tibre transbordava de suas margens, quando o Nilo não inundava os campos, quando o céu negava suas chuvas fecundantes, quando havia terremotos, fome e peste: – imediatamente gritava o povo: "christianos ad leones" – os cristãos aos leões. Esse grito, muitas vezes prevenia a sentença do juiz e fulminava os cristãos, arrastando-os ao suplício.

CAPÍTULO XXXIII

Os vícios dos deuses

Todos os vícios eram divinizados: a embriaguez e a crápula eram adorados no deus Baco; a crueldade e a vingança no deus Marte; a fraude, o engano e o roubo em Mercúrio; no poderoso Júpiter era adorada a mais torpe luxúria e a impudência mais asquerosa; e a deusa Vênus presidia as incríveis saturnais, onde jovens donzelas eram entregues à dissolução por suas mães desnaturadas. Em uma palavra, quantos crimes possa conceber a imaginação exaltada do homem mais corrompido, tinham um Deus, seu exemplo e guia, adorado nos altares. Poderia haver laços mais fortes para algemar as almas?

De mais a mais, como os corações, também as inteligências se haviam prostituído, rebelavam-se contra Deus e desconheciam as verdades principais. Os maiores sábios, os filósofos e poetas, os reitores e literatos ensinavam o culto daquelas divindades, e é natural que, segundo o vulgo, aos que deviam ser seus mestres, se prostrava ele diante dos ídolos, sem investigar a falsidade que neles havia. Quanta força era necessária para vencer e aniquilar essa aluvião de males que inundava o mundo!

Causa riso e lástima pensar que haja quem creia que com filósofos e oradores eloquentes se pudesse mudar a face do universo e desarraigar, num instante, todas aquelas paixões que se haviam apoderado dos homens. De fato, não obstante a corrupção geral, também os gentios tinham apresentado seus filósofos e oradores, a fim de operarem um dique à formidável torrente de males, levantando eloquência contra eloquência, razões contra razões, com grande aparato de palavras e rasgos de talento, sem que, afinal, ninguém fosse convencido, nem apurada a verdade.

Cristo escolheu doze pescadores, destituídos de eloquência e saber humano, pôs na sua boca palavras singelas, porém mais vivas e penetrantes do que espadas de dois gumes, para combaterem os vícios e contrariarem as paixões; e, assim, os enviou à conquista do mundo.

CAPÍTULO XXXIV

A intrepidez divina de São Pedro

Afigurai-vos o Apóstolo São Pedro, com o coração sereno e tranquilo e o olhar cintilante, a caminho de Roma. Ali, nas ruas, nas praças públicas e nas grandes termas, fervilhavam milhares de homens, vindos de todos os cantos do mundo: eis partos e egípcios, núbios e judeus, germanos e gauleses, dácios e índios, bretões e fenícios. Ali, vedes escravos etíopes que conduzem majestosos elefantes; um pouco além, vem a galope a luzidia guarda imperial; acolá move-se uma procissão de egípcios, acompanhando à sua deusa Ísis; e naquela outra rua, caminha, a passo grave, o filósofo grego, de ampla veste talar, indo dar suas preleções, e seguido de um núbio que sobraça prezados livros; mais adiante, anda um predito de príncipes orientais cobertos de púrpura e ouro.

Pois bem, para essa metrópole do universo, o centro de todo o luxo e grandeza das ciências e das artes, encaminha-se Pedro, a pé descalço; seu vestido é modesto e pobre; não leva armas, nem ouro, nem companheiros, nem cartas e recomendação. Fala; porém, sua palavra é simples, contrasta com a frase sonora e torneada do retórico romano.

Que vais fazer, pobre peregrino?

– Vou a Roma, a destronar os Césares e erigir o trono de Jesus Cristo! Empresa temerária.

Roma abrirá suas portas a todas as religiões e não havia deus que não tivesse encontrado lugar no Capitólio; e esse homem vai tratar de orgulhosa e supersticiosa aquela cidade, dizendo-lhe que abandone suas falsas divindades, e adore o verdadeiro Deus.

Vede o Apóstolo à noite no espaçoso fórum romano. O céu se arqueia azul por sobre a soberba cidade. Uma multidão de patrícios romanos, filósofos, poetas, reitores, ricos e pobres, querem ouvir a primeira "conferência" do humilde adventício. E Pedro abre a sua boca e diz: "Um homem nascido pobre num estábulo, que viveu pobre, e foi condenado à morte de cruz pelo vosso patrício Pilatos, deve ser, doravante, o vosso Rei e o vosso Deus. Ele já existia antes que ali se erguesse o vosso Capitólio. É o Deus do céu e da terra, o Criador daquelas estrelas que fulguram sobre nossas cabeças, das montanhas e dos mares, e a quem todos devem adorar. Em suas mãos está a vida de todos os homens, ele oferece o remédio universal dos pecados, é o Redentor dos mortais; e um dia há de vir, com grande majestade, a julgar, segundo suas obras, os Césares e os escravos, a vós, ilustres patrícios romanos, filósofos e reitores, e dará uma sorte feliz e ditosa a todos os que seguirem seus ensinamentos e uma outra desventura e de dor aos que desprezarem a sua voz".

Um frémito de admiração e de orgulho ofendido agitava a multidão. Mas, apesar disso, Pedro continuava: "Por isso, deveis prestar uma fé inabalável à palavra de Cristo; que é a verdade eterna e infalível. Deveis renunciar aos vossos costumes, mortificar as vossas inclinações e condenar os vossos deuses. Abandonareis as vossas riquezas mal adquiridas, deveis estar prontos a padecer todas as perseguições e derramar o vosso sangue em confissão da Verdade que venho anunciar-vos".

Assim teria falado, mais ou menos, Pedro no fórum romano.

Ora, qual daqueles ouvintes não teria por loucura e insensatez as palavras e os planos daquele modesto peregrino?

CAPÍTULO XXXV

A vitória de Cristo

Pois bem, a razão orgulhosa do mundo há de confessar-se vencida e humilhada, porque aquelas palavras e aqueles projetos, considerados como estultícia e necedade, foram inspirados pelo poder e sabedoria de Deus. Aquele pobre ancião, que entrou pelas portas de Roma, escarnecido pela multidão, e olhado com desdém pelo senhor romano, arrojou os Césares do seu trono, os ídolos de seus altares e os seus templos consagrou ao verdadeiro Deus. Roma vacila, torna-se presa dos bárbaros, o Reino de Cristo estende-se para além das raias do Império Romano. A cruz rutilante, que Constantino viu no firmamento, preside à formação de novos Estados, que se levantam sobre as ruínas do mundo.

Operou-se uma espantosa mudança: os reis colocam a cruz nas suas coroas; os sábios deixam os seus sofismas para curvarem seu entendimento à obediência da fé; os ricos abrem seus tesouros e os distribuem entre os pobres, abandonando suas riquezas, a fim de seguirem o exemplo de Cristo; os licenciosos renunciam aos seus vícios e se entregam à mortificação e à penitência; os homens aprendem a não temer as perseguições, nem os cruéis tormentos, nem a morte, julgando-se felizes por terem conhecido a Jesus Cristo, e terem a graça de morrerem por Ele.

Ó virtude divina, eficácia admirável da palavra de Jesus Cristo: "Ide por todo o universo e ensinai a todos os povos".

Por isso Santo Agostinho não cessava de admirar o modo por que Cristo converteu o mundo e o chama o maior de seus milagres.

Por quê? Que coisa há de mais estupenda e incrível do que haver-se rendido todo o mundo à palavra de uns pescadores? Que milagre é esse que fez que se prostrassem aos pés de um crucificado grandes e pequenos, reis e vassalos, nobres e plebeus, ricos e pobres, sábios e ignorantes?

Estudai esse fato, atentamente, com olhos serenos e depois me direis: "Aqui brilha magnífica e galharda uma prova da divindade de Jesus Cristo e do seu reino, por tais meios estabelecido. É verdade evidente e inconcussa que Cristo manifesta seu poder divino, empregando, na fundação do seu Reino, meios opostos aos processos da política humana".

Não se diga que outras religiões também se propagaram rapidamente, como, por exemplo, o islamismo! A diferença, porém, é grande e essencial, pois é fácil atirar uma grande pedra pelo declive de uma montanha; mas quem poderá levá-la para cima? O maometismo e outras seitas religiosas condescenderam com as más inclinações e paixões humanas, mas Cristo as guerreava e extirpava. Por isso disse Pascal: "Maomé fundou o seu reino matando; Cristo, fundou o seu deixando-se matar". Maomé escolheu os meios e os caminhos que, humanamente, conduzem à vitória; Cristo, aqueles que, por esse modo de ver, levam à derrota. Se, pois, o maometismo por algum tempo triunfou, isso só prova que o cristianismo, sem auxílios sobrenaturais, haveria soçobrado completamente.

Em Roma, na Praça do Vaticano, ergue-se ao céu majestoso um obelisco, trazido por Calígula de Heliópolis. Esse monólito, que atesta a passagem efêmera das dinastias dos faraós e dos imperadores romanos, apresenta a seguinte inscrição: "Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat" – Cristo vence, Cristo reina e Cristo impera. Sim, Cristo venceu o paganismo eivado de idolatria e vencerá a moderna incredulidade, porque é Deus. Reina em milhões de corações porque é Deus; impera na sua Igreja que se estende por toda a terra porque é Deus; seu império não terá fim porque é Deus.

Sim, vós, Senhor, sois o sol no firmamento da humanidade; como os planetas se movem e gravitam em torno do sol, assim a história e os acontecimentos, o passado e o futuro, os séculos e suas evoluções se movem e giram em redor de vós. E, como o sol mantém a ordem sideral, vós conduzis os homens e os povos, obedientes à vossa lei, aos píncaros da grandeza moral, da virtude e da santidade, porque sois o nosso Deus, sois o Deus das nações.

CAPÍTULO XXXVI

O Deus humanado: Quem é Jesus Cristo?

Se, em nossos dias, o Salvador voltasse ao mundo e perguntasse aos homens, como outrora a seus discípulos, quem Ele é, receberia as respostas mais disparatadas e blasfemas.

"Vós sois", diriam uns, "o mansueto Nazareno, o mártir de Gólgota, o amigo da infância, o filósofo admirável"; "Vós sois", afirmariam outros, "o sonhador da Judéia, um mito oriental, a criação de uma lenda poética"!

Pois essa é a linguagem de muitos romancistas modernos, de certos intelectuais, dos incrédulos de todos os matizes e dos ateus em geral.

Nós, e conosco muitos milhões de cristãos, repetiríamos as palavras de São Pedro: "Vós, Senhor, sois o Filho de Deus vivo, o Deus humanado, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, eterno, onipotente e infinito, igual ao Pai e ao Espírito Santo". Cristo possuía todas as perfeições humanas, porém era mais do que um simples homem: era homem e Deus, a sabedoria eterna, o Redentor do gênero humano.

Mas, como é que tantos escritores, literatos e cientistas negam esta verdade fundamental do cristianismo?

É porque, em matéria de religião, não raro verifica-se o velho sofisma da Escola, que consiste em falar e escrever do que se ignora: ignoratio elenchi, isto é, a ignorância ou desconhecimento proposital do assunto de que se trata.

Nós sábios ateístas ou positivistas temos, muitas vezes, dois homens: o observador, o experimentador, o físico, o astrônomo, o naturalista — e o pensador, ou melhor, o sonhador, o filósofo, o teórico. O primeiro pode ser eminente, e o segundo medíocre ou nulo.

O público, em geral, não os separa; atribui, erradamente, a um e outro a mesma autoridade. Essa é uma das causas da desordem intelectual e doutrinal dos nossos tempos.

Não se deixe, pois, iludir, ó povo fiel, e obedeça à palavra dos sacerdotes, dos bispos e do Papa, que não somente estudam a fundo as verdades da religião, mas receberam de Deus a missão de ensinar a todas as nações: "Docete omnes gentes".

Aos intelectuais de boa vontade que dissentem das verdades católicas, recomendamos o conselho do filósofo Jouffroy, livre-pensador da Universidade de Paris, que escreveu, pouco antes de sua morte, as seguintes notáveis palavras: "Há um livrinho que os meninos aprendem de cor nas escolas e sobre o qual se fazem perguntas na Igreja: Lede este livrinho que é o catecismo. Nele achareis a solução de todas as grandes questões da vida que expus: de todas, sem exceção alguma".

CAPÍTULO XXXVII

A divindade de Cristo

Anteriormente ficou demonstrado que Jesus Cristo, pelo poder com que estabeleceu e propagou o seu reino sobre a terra, provou sua missão celeste e sua divindade.

Como, porém, a questão da sua divindade domina todas as outras, e é a mais importante e decisiva, apresentamos aqui algumas outras provas resumidas e veremos que ela tem o fundamento mais sólido e se firma na demonstração mais concludente e inabalável.

A crença unânime de todas as nações civilizadas, durante dezenove séculos, proclama essa verdade. Para legitimar essa crença unânime e justificar a posse dessa verdade inconcussa, superabundam os argumentos: a expectativa dos séculos anteriores à nossa era; a história inteira do povo judaico; o cumprimento das promessas, das figuras e das profecias do Antigo Testamento; a sublimidade da doutrina evangélica; a santidade de vida do seu Autor; sua autoridade e o grande número dos seus milagres; o sucesso, naturalmente impossível, do seu empreendimento; o estabelecimento, a conservação e a propagação humanamente inexplicáveis da Igreja Católica; a conversão do universo a uma religião que contrariava todas as paixões e todas as ideias dos reinantes; a transformação das sociedades, das leis, dos costumes; os frutos da vida espiritual nas almas sob o influxo do Evangelho; o testemunho constante dos mártires; o assentimento dos maiores gênios da terra; a adoração e o amor dos corações mais nobres; as mil manifestações de abnegação, humildade, caridade e pureza que o mundo jamais havia conhecido; a derrota consecutiva de todos os homens e de todos os sistemas adversos; a recrudescência da fé e da pureza em meio a todos os ataques e negações; o cristianismo mais florescente depois dos ataques e perseguições; a volta dos espíritos a ele cada vez que sua causa parecia perdida... Que direi mais? Todo esse conjunto de caracteres e fatos formam a demonstração mais brilhante e justificam, evidentemente, a fé do gênero humano.

CAPÍTULO XXXVIII

A pessoa de Jesus Cristo

Não é raro encontrarmos pessoas instruídas nas ciências humanas com ideias confusas e estranhas sobre o fundador da religião cristã. Como — dizem — que o corpo de um homem seja Deus, e que Deus se identifique com o homem?

Vem a propósito um fato que se deu na capital federal. Vários estudantes criticavam um colega católico — hoje um notável escritor fluminense — dizendo que ele acreditava em dogmas absurdos. Por exemplo, o dogma da Santíssima Trindade. "O que entendeis", perguntou, "por este dogma? Dai-me uma definição!" E um respondeu, um tanto embaraçado: "Ora, está claro, os católicos entendem por dogma da Santíssima Trindade: Jesus, Maria e José!" Basta!

Ora, tais ideias tornam a fé impossível, mas são devidas à ignorância religiosa ou a uma falsa interpretação dos dogmas cristãos.

Segundo a revelação divina, contida nas Sagradas Escrituras e na tradição apostólica, o Verbo de Deus, o Filho eterno do Pai, um só e mesmo Deus com o Pai e o Espírito Santo, querendo libertar os homens da escravidão do pecado e ensinar-lhes o caminho da virtude, tomou um corpo e uma alma semelhantes aos nossos. O que não quer dizer que a divindade se identificou com a natureza humana, mas uniu-se a ela de maneira inefável, de sorte que os atos desta natureza assim associados ao Verbo são atribuídos à própria pessoa do Filho de Deus.

As duas naturezas em Cristo têm suas operações próprias e distintas: as operações divinas e as operações humanas, os conhecimentos humanos e os conhecimentos divinos, as volições humanas e as volições divinas.

Notemos, todavia, que tudo o que se produz na natureza humana — atos da inteligência, da sensibilidade, da vontade e da liberdade — se faz sob a alta assistência da virtude todo-poderosa do Verbo, ao qual, portanto, tudo é atribuído como àquele que é o imperador, o diretor, a pessoa responsável e independente.

CAPÍTULO XXXIX

Símbolo Atanasiano

Eis como a doutrina sobre Jesus Cristo se acha resumida no célebre símbolo Atanasiano, eixo fiel da tradição cristã:

"Mas é necessário para a eterna salvação que se creia fielmente na Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. É, portanto, fé reta crer e confessar que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem. Deus da substância do Pai, gerado antes dos séculos, e homem da substância da Mãe, nascido no século.

Perfeito Deus e perfeito homem, subsistindo de alma racional e de carne humana. Igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade.

O qual, posto que seja Deus e homem, não é todavia dois Cristos, mas um só Cristo. Inteiramente um, não pela conversão da divindade na carne, mas pela assunção da humanidade em Deus. Omnimodamente um, não pela confusão da substância, mas pela unidade da pessoa. Porquanto, assim como a alma racional e a carne formam um só homem, assim Deus e homem formam um só Cristo.

O qual sofreu pela nossa salvação, desceu aos infernos; ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. Subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Quando Ele vier, todos os homens ressurgirão com seus corpos e terão de dar contas dos seus próprios atos. E os que fizeram o bem irão para a vida eterna, e os que obraram o mal para o fogo eterno. Eis a fé católica, na qual, se alguém não crer fiel e firmemente, não poderá ser salvo."

CAPÍTULO XL

Maravilha inefável

A união pessoal ou hipostática do Filho de Deus com a natureza humana, os atributos que daí resultam, essa unidade de pessoa e essa dualidade de natureza, de vontade e de atividade — esse Deus, diz o Papa São Hormisdas — que é homem, força e fraqueza, baixeza e majestade, que nasceu num estábulo e brilha no céu com imensa glória; esse enfermo que cede à morte, esse todo-poderoso que a morte não pode subjugar; que nasce para morrer e morrer para ressuscitar; e que desce aos infernos e não abandona o regaço do seu Pai — esse composto teândrico é um complexo de maravilhas que nos revelam, em admirável conjunto, a sabedoria, a justiça, a onipotência, a bondade, a misericórdia e a caridade infinitas de Deus; a degradação da natureza humana, em consequência do pecado original; as condições determinadas por Deus para a expiação desse pecado e nossa reintegração na ordem sobrenatural.

O mistério de um Deus feito homem, que tomou nossa natureza para elevá-la, nossas enfermidades para curá-las, nossos infortúnios para nos ensinar a suportá-los, que morreu sobre uma cruz para nos salvar, que subiu ao céu para nos abrir as portas — esse mistério é impenetrável ao nosso espírito. Contudo, se ultrapassa as concepções da nossa inteligência, ele nada encerra que contradiga às verdades da ordem natural.

Jesus Cristo é a obra-prima de Deus, o mediador entre o homem e Deus, o centro com o qual se relacionam todas as magnificências da criação, omnia vestra sunt, vos autem Christi, Christus autem Dei, como diz o Apóstolo São Paulo (1 Cor 3, 22).

Sim, Jesus Cristo é verdadeiramente Deus. Por isso, devemos prestar-lhe um culto de adoração. Vere Filius Dei erat iste.

CAPÍTULO XLI

A redenção por Jesus Cristo

Adão, o pai do gênero humano, fora por Deus elevado à vida sobrenatural e agraciado com prerrogativas maravilhosas que sua posteridade deveria herdar. Em punição de sua falta, lhe foram retirados todos os favores divinos, a ele e aos seus descendentes.

A natureza humana, assim decaída, tornou-se incapaz de satisfazer à justiça divina e obter sua reintegração no estado de graça, perdido pelo seu crime.

Ora, a gravidade de uma ofensa se avalia pela dignidade e excelência da pessoa ofendida. A ofensa a Deus é de uma gravidade infinita, pelo que é impossível ao homem dar a Deus uma satisfação correspondente à falta cometida.

De outro lado, a vida sobrenatural e a ordem da graça ultrapassam as exigências da natureza; elas são, pois, inacessíveis às nossas forças e faculdades naturais.

Acresce que o crime de Adão tornou ainda mais insuperável a distância que separa a ordem da graça daquela da natureza, e assim, nossa incapacidade nativa juntou-se à indignidade de uma revolta contra Deus, nosso benfeitor.

Que viria a ser a raça humana, decaída e indigna dos favores divinos? Não há dúvida de que Deus, usando de sua benevolência e misericórdia, poderia contentar-se com uma reparação imperfeita que o homem arrependido e submisso lhe prestasse, porque diz Santo Agostinho: "Aqueles que são insensatos afirmam que Deus, na sua sabedoria, não podia salvar o homem a não ser unindo-se à natureza humana, nascendo de uma mulher e suportando todas as perseguições dos inimigos" (De agone Christiano).

Com efeito, Deus exigiu uma reparação completa, uma satisfação correspondente à gravidade da falta cometida, e porque não somente Deus pode apresentar uma reparação digna de Deus, Ele decretou, por um ato de caridade, misericórdia e sabedoria infinita, que uma das pessoas divinas se encarnasse — et Verbum caro factum est — e que seu Filho único se unisse hipostaticamente à natureza humana, para oferecer essa satisfação plena e perfeita.

Pela encarnação do Verbo, o homem pecador será reabilitado, sua falta perdoada, as gerações humanas reintegradas nas prerrogativas da ordem sobrenatural, sem, entretanto, gozar dos outros privilégios do estado primitivo, a saber: isenção da concupiscência, da morte, das misérias e das enfermidades inerentes à natureza pura.

Tal é a economia da encarnação e da redenção. É essa a realização das promessas feitas imediatamente depois da queda de Adão e renovadas constantemente na antiga Lei, conforme indicam as Escrituras Sagradas.

CAPÍTULO XLII

O amor de Jesus Cristo

O Filho de Deus, fazendo-se homem e morrendo sobre a cruz para satisfazer pelos pecados, originais e pessoais, de todo o gênero humano, patenteou um amor infinito. E, por isso, Ele reclama também o amor dos homens, que, de fato, durante os séculos da era cristã, o retribuíram com generosidade.

Impressionam realmente as seguintes palavras, proferidas no século passado por um grande imperador, que, humilhado no exílio, reconheceu seus graves erros e morreu reconciliado com Deus:

"Jesus", disse Napoleão, "quer o amor dos homens. Ele quer o coração, deseja-o absolutamente e consegue-o sem tardança. Isto é, para mim, uma prova de sua divindade. Alexandre, César, Aníbal, Luiz XIV, com todo o seu gênio, fraquearam neste ponto. Conquistaram o mundo, mas não lograram fazer um amigo. Jesus Cristo, pelo contrário, fala e logo aderem a Ele as gerações dos homens, e os vínculos que as unem a Ele são mais íntimos e fortes do que o vínculo do sangue, mais santos e poderosos do que nenhum outro.

Inflama as chamas de um amor que extingue o nosso amor-próprio e contrabalança a todo outro amor. E como não se deverá reconhecê-lo neste milagre da sua vontade o Verbo, que criou o mundo? — Os fundadores das outras religiões nem sequer tiveram ideia de um tão sublime e íntimo amor, que é a essência do cristianismo. E todos devem abster-se de correr de encontro a um penhasco, pois, neste negócio de ganhar o amor dos homens, o homem leva no seu seio o sentimento profundo da sua fraqueza.

Por isso, o maior dos milagres de Jesus Cristo é o reino de caridade. Todos aqueles que verdadeiramente creem Nele sentem este amor, digno de admiração, um fenômeno que a razão não sabe explicar e superior às forças humanas; é um fogo santo cuja intensidade e duração não podem debilitar-se, nem se limitar pelo tempo que tudo destrói. E eu, Napoleão, admiro isto tanto mais, porque sobre este ponto tenho refletido frequentes vezes. Isso mostra-me, finalmente, e de maneira completa, a divindade de Jesus Cristo.

Eu soube inflamar muitos milhares de homens para que morressem por mim; bem entendido que com isso não pretendo estabelecer comparação alguma entre o entusiasmo de um soldado que despreza a morte e o amor cristão. Deus me livre de tal.

Porém, para conseguir aquilo, foi sempre necessária a minha presença, como os meus olhares e a minha voz. Uma palavra minha alentava os corações. E até direi: eu possuo o segredo da fascinação, e assim mesmo não possuo o segredo de perpetuar neles o meu amor, nem o meu nome.

Agora que estou em Santa Helena; agora que me encontro aqui solitário; agora que estou preso a este penhasco, onde estão os meus amigos? Eis aí a fortuna dos grandes homens, e tal foi a de César e Alexandre. Esquecem-nos! Apenas Luiz XIV tinha fechado os olhos, logo os seus cortesãos o abandonaram, talvez zombassem dele. Já não era um senhor; era um cadáver, um ataúde, um sepulcro e o terror de uma próxima dissolução.

Um pouco de tempo mais, e o mesmo sucederá comigo. Eu morro antes do tempo e meu corpo será entregue à terra e serei pasto dos vermes. Eis a sorte próxima do grande Napoleão!

Que abismo entre a minha profunda miséria e o domínio admirável de Jesus Cristo, pregado, amado e adorado em todo o mundo, e que vive sempre! A sua morte — mas é isto morrer? Não, é antes viver! Sim, a morte de Jesus Cristo é a morte de um Deus!" (Nicolas, Estudos filosóficos, IV, IV, c. II).

CAPÍTULO XLIII

Uma heroína cristã

Interrogando Olibrio, prefeito da cidade de Antioquia, a Santa Margarida mártir sobre a fé, ela respondeu com resolução e firmeza:

— Sou cristã.

— Como! — exclamou o prefeito, enfurecido com tão atrevida confissão. — Não te envergonhas de ser cristã? Serás porventura tão néscia que tenhas por teu Deus um homem que morreu na cruz como criminoso entre dois ladrões?

— Donde sabeis vós? — replicou aquela, que Jesus Cristo, a quem adoro como Deus, foi pregado na cruz?

— Do que narram os Evangelhos que eu li — respondeu Olibrio.

— Isso é verdade — acrescentou Margarida —, mas lede o mais, pois esses mesmos Evangelhos que narram a paixão e morte do meu Redentor referem também que, ao terceiro dia, ressuscitou de entre os mortos e que, por sua própria virtude, subiu aos céus, onde está sentado à direita de Deus, seu Pai. Envergonhai-vos antes vós, que tendes olhos para ver os opróbrios de Jesus Cristo, meu Deus e Redentor, mas sois cegos para ver a sua glória e os esplendores da sua divindade. Eu creio na divindade de Jesus Cristo, não porque Ele padeceu e morreu, mas porque, por sua própria virtude e poder, ressuscitou glorioso do sepulcro. Por isso pertence-lhe o meu coração, e se tivesse mil vidas, daria-as em sacrifício por Ele.

CAPÍTULO XLIV

A unidade, sinal característico da Igreja Católica: A tríplice inscrição

Entre as nações da antiguidade, três exerceram a mais poderosa influência sobre o gênero humano: a grega, a romana e a judaica. Os gregos eram os aristocratas do espírito, que, pela influência de suas artes, poesia e filosofia, tornaram-se mestres das gerações subsequentes. Os romanos, feitos para governar e dominar, transformaram o mundo antigo em um império colossal e elaboraram um sistema jurídico que até hoje influencia as legislações dos povos e as constituições dos Estados. No seio do pequeno povo judaico nasceu aquela Religião que, como nenhuma outra, orientou a marcha da história e renovou verdadeiramente a face da terra.

Na cidade de Jerusalém, capital dos judeus, num dia memorável, celebraram as línguas de Atenas, Roma e Judéia uma aliança solene. Foi na primeira Sexta-feira Santa conhecida pela história, quando o Messias estava exaltado sobre o lenho da cruz e seus inimigos liam, acima da cabeça do divino Profeta, a inscrição: Jesus Nazarenus Rex Judaeorum — Jesus Nazareno, Rei dos Judeus. Com veementes protestos exigiram do prefeito romano que mandasse escrever: "Este homem disse que era rei dos judeus". Mas em vão! Pois o covarde Pôncio Pilatos, que pouco antes condenara a vítima inocente, declarou corajosamente: Quod scripsi, scripsi — "O que escrevi, escrevi"! E assim ficou, no alto da cruz, a inscrição em hebraico, grego e latim, anunciando ao mundo, nas línguas da religião revelada, da ciência e da política, que Cristo crucificado não era somente o Rei dos Judeus, mas o Soberano de todas as nações.

De fato, essas nações, sob o influxo de Deus, prepararam o terreno para o Reino de Jesus Cristo, o qual se estendeu por toda a terra como uma árvore frondosa, abrigando à sua sombra benfazeja povos diversos. Porém, para que esse Reino cumprisse seus fins, Cristo lhe deu uma forma visível e as prerrogativas da perpetuidade e da infalibilidade.

"Meu Reino," disse Ele, "é a Igreja, que fundo sobre Pedro e os Apóstolos; quero que todos os homens sejam salvos e façam parte do meu reinado, por isso estarei sempre, como Bom Pastor, com ela, e mandarei o Espírito Paráclito para lhes ensinar todas as verdades."

A Providência de Cristo foi além. Imprimiu à sua Igreja sinais característicos tão expressivos que todos os povos podem distingui-la das seitas religiosas. Não houve, ao longo dos séculos, dissidentes, heresias, cismas que, apesar de seus erros, se declarassem a verdadeira religião de Cristo? Houve, e ainda há falsas religiões que se atribuem os mesmos direitos que exclusivamente possui a Igreja Católica. Por isso, Jesus Cristo dotou seu Reino de sinais indeléveis que não apenas brilham na Igreja Católica, mas que são, de fato, a unidade, a santidade, a universalidade e a apostolicidade.

Como os lampejos cintilantes de um farol à beira-mar, esses sinais característicos, esses lampejos divinos, afastam os homens dos perigos religiosos e mostram aos povos o caminho que os leva, por entre syrtes e cachopos, ao porto da verdadeira Religião.

Na formosa constelação de sinais divinos que resplende na Igreja Católica desde o início de sua existência, sobressai a "unidade", como a estrela Alfa no rutilante Cruzeiro. Por isso, para indicar um critério certo e infalível para reconhecer a verdadeira Igreja de Cristo, queremos demonstrar que a Igreja Católica apresenta, como credenciais de sua missão divina, os caracteres indeléveis da unidade da fé, de regime e de culto.

CAPÍTULO XLV

A fé nos séculos

A humanidade é o reino da inconstância e da mobilidade. É comparável a um arenoso deserto, onde tudo é areia movediça, sem coesão nem apoio recíproco (Pastoral de Flor).

Por isso, o fundamento dos tronos é feito de areia, e as cátedras presidenciais erguem-se sobre bases instáveis. As classes sociais movem-se e chocam-se febricitantes. Doutrinas surgem e desaparecem, filósofos apregoam novos sistemas que descem com eles para o túmulo. A trombeta bélica convoca exércitos que, como avalanches, se esmagam mutuamente.

No meio das flutuações desse mar de areia avulta uma pirâmide secular, majestosa e inabalável, coroada por uma fulgurante cruz: a Igreja Católica. Ela resiste aos embates dos tempos, conserva sua fé intacta, ensina sempre a mesma doutrina, não obstante a diversidade dos tempos, lugares e espíritos.

Cristo disse aos Apóstolos: "Ensinai todas as nações a observar tudo o que vos mandei." Fiel a esta palavra, a Igreja iniciou sua marcha triunfal em Jerusalém, foi a Roma, visitou Atenas e percorreu todos os séculos, com o facho da mesma fé na mão, iluminando todas as nações.

O fundamento lançado pelos irmãos gêmeos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, tornou-se a pedra angular sobre a qual os irmãos na fé, Pedro e Paulo, estabeleceram o reino da Igreja, que não padecerá ruína.

Avançam os tempos. Francos, godos, germânicos e vândalos invadem e destroem o Império Romano; vemos Átila, Genserico e Odoacro na cidade dos Césares; Roma perde seu cetro, seu trono, a influência de sua filosofia e seu último imperador, Rômulo Augusto. Mas os papas, na Roma assediada e ocupada pelos bárbaros, guardam e ensinam a mesma fé dos Apóstolos!

Os povos adventícios fixam-se sobre as ruínas do Império Romano: nascem novas cidades e Estados. A Igreja envia seus missionários para civilizar as hordas selvagens. E porventura aprovam eles assassinatos, adultérios e furtos, ou consentem no culto dos ídolos? Não. Ensinam a divindade de Jesus Cristo e dizem aos infratores da Lei divina: "Não matarás, não furtarás, não cobiçarás a mulher do próximo. Bem-aventurados os pacíficos, os mansos, os puros e os misericordiosos."

Munidos dessa doutrina, os missionários se apresentam entre os bárbaros: Agostinho entre os anglo-saxões, Willibrordo entre os frisões, Bonifácio e Columbano entre os germânicos; Cirilo e Metódio civilizam os boêmios e morávios; Anscário é o Apóstolo da Groenlândia e Islândia; Otto missiona entre os eslavos, vendos e pormerânos. Esses povos mudam seus costumes e se civilizam sob o influxo da mesma fé.

Os séculos passam rápidos, como nuvens no firmamento. Heresias, o grande cisma do Oriente, o império de Carlos Magno, a Renascença, a pseudoreforma, a filosofia dos Enciclopedistas, a Revolução, o poder de Napoleão, a reorganização da Europa, tudo vem e passa como projeções luminosas sobre a tela cinematográfica. E todos os séculos, com seus erros e conquistas, pretendendo arrebatar à Igreja a prerrogativa da unidade da fé, batem sucessivamente à sua porta.

"Que pretendeis?" pergunta-lhes a Igreja. "Que mudes tua doutrina? Não queremos sempre ouvir a mesma palavra nem a mesma moral!" — "Minha doutrina é igual para todos os séculos! Eu não mudo!" — "Tu não mudas? A filosofia, as ciências, as seitas religiosas, os impérios mudam; por que serás tu sempre a mesma?" — "Venho de Deus, minha doutrina não se adapta aos séculos, mas os séculos têm de acomodar-se a mim, e sobre o túmulo dos meus perseguidores cantarei, vitoriosa, Libera-me, Domine."

CAPÍTULO XLVI

Diversidade de países

Entre os povos da terra, encontramos as diferenças mais pronunciadas quanto à origem, caráter, costumes e instituições civis e políticas. Entretanto, a fé da Igreja é a mesma em Roma, Paris, Londres, Pequim e Filadélfia. Todos os povos instruídos pela Igreja professam o mesmo Credo, observam os mesmos mandamentos e recebem os mesmos sacramentos que a velha Europa Católica.

Entremos no majestoso templo de Nossa Senhora de Paris. A igreja está repleta. A elite da população parisiense está reunida. Ali está o púlpito, abrilhantado por tantos eloquentes oradores. Aparece o vulto eminente de Monsabré. Sua voz repercute vigorosa pelo vasto recinto, sua palavra empolga e arrebata. Depois de uma hora, desce o orador coberto de aplausos e ovacões.

Mudemos de lugar. Lá no longínquo Peru, sobre as ruínas de um templo dos Incas, prega o missionário espanhol frei Bartolomeu de Las Casas a numerosos selvagens que inclinam reverentes a cabeça e batem no peito.

Eis um novo aspecto: diante de nós abre-se a formosa Capela Imperial do Rio de Janeiro. O imperador Dom Pedro II, com sua corte, e a imperatriz com suas damas de honra, ocupam lugar saliente. O órgão ressoa pelo templo. Os uniformes brilham, as sedas farfalham. Assoma na cátedra sagrada o humilde franciscano frei Montalverne. Ele ergue a voz; reina profundo silêncio. Sua palavra de fogo ora entusiasma, ora abala profundamente o seleto auditório.

Vede um novo panorama: ali está sentado à sombra de uma anciã palmeira o padre Anchieta, apóstolo das selvas brasileiras. Fala aos índios que vieram em massa ouvi-lo. Os indômitos guerreiros seguram os pesados arcos nas mãos bronzeadas; a multidão seminua, sentada sobre a relva verde, escuta, seus olhos não se afastam dos lábios do santo missionário. Assim, "cessam as guerras, surge o mundo civil do caos profundo da barbárie. A lei triunfa, as montanhas coroam-se de altares; a cruz domina os capôs, e o Evangelho avassala os sertões".

Agora vos pergunto: haverá alguma diferença entre a doutrina pregada por Monsabré e a palavra do missionário frei Bartolomeu de Las Casas, que catequiza os descendentes dos Incas? Serão diferentes as verdades que o insigne Montalverne ensina aos grandes da corte das que Anchieta explica aos índios? Não! Em Notre-Dame de Paris, sobre as ruínas do templo dos Incas, na Capela Imperial do Rio, ou nas tabas dos índios, em toda parte a Igreja ensina a mesma doutrina, a mesma fé. Todos, como nós, adoram a Jesus Cristo, professam os doze artigos do Símbolo, aceitam os mandamentos de Deus e da Igreja, e recebem os mesmos sacramentos.

CAPÍTULO XLVII

A índole diferente dos povos

Como o sol derrama a mesma luz brilhante sobre todo o mundo, assim a doutrina da Igreja em todos os lugares é idêntica, é divina.

A fé ensinada pela Igreja Católica não conhece concessões. A mesma doutrina é para o rico como para o pobre, para o sábio e o ignorante. A mesma palavra tem de ouvir o rei e o selvagem. A Igreja diz ao operário as mesmas verdades que ao grande industrialista, ao filósofo e ao analfabeto: "Tu foste criado por Deus para conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo, e alcançar a bem-aventurança eterna. Cristo é teu Redentor e teu Rei, e será teu Juiz; a Igreja Católica é o Seu Reino, a ela confiou todos os meios de salvação; seus ensinamentos deves aceitar, pois o Divino Mestre me disse: 'Quem te ouve, a mim ouve; quem te despreza, a mim despreza'."

Paulo de Tarso ensina esta doutrina no Areópago de Atenas diante dos filósofos gregos, e o sábio Dionísio Areopagita abraça a doutrina da cruz, tornando-se apóstolo fervoroso. O genial Agostinho ouve a mesma doutrina, que jorra pura e cristalina da boca do arcebispo Ambrósio em Milão, e curva seu espírito potente à fé católica.

Transportemo-nos à opulenta corte de Luís XIV. Ali, o imortal Bourdaloue verbera, em público sermão, as relações ilícitas que o Rei-Sol mantinha com a senhora Montespan. Falava Bourdaloue sobre o adultério de Davi e, repetindo a palavra do profeta Natã, increpava com veemência o poderoso monarca: "Tu, ó rei, és o delinquente, o malfeitor."

Volvei o olhar ao sopé da Serra dos Órgãos, onde o tremendo cacique Cunhambébe faz a terra estremecer com seu tropel. Esse Átila das montanhas tem diante de si uma cesta cheia de carne humana e come a perna de um inimigo assassinado. Ao seu lado, vê-se o ínclito Anchieta, que lhe exprobra os instintos antropófagos e os sentimentos de crueldade. Corrige-lhe os intentos ferozes e o amansa, finalmente, com a doutrina suave da Igreja, de modo que se tornou depois seu fiel companheiro de viagem. A fé e a moral da Igreja são as mesmas para reis e selvagens. A Igreja é uma só, não obstante a diversidade dos tempos, lugares e espíritos.

Creio, creio! Este "creio" uníssono que nos enviam os ecos das catacumbas é a palavra que repetem as páginas eloquentes de Agostinho, Ambrósio, Basílio e Crisóstomo; é o hino que ecoava pelas abóbadas das basílicas medievais; é a palavra firme que as gerações que descem para o túmulo transmitem às vindouras; é a afirmação inabalável de que a Igreja Católica possui a verdade revelada.

CAPÍTULO XLVIII

Unidade de regime

A unidade é o sinal supremo do gênio em todas as ordens, e um espírito poderoso se reconhece pela energia com que sabe agrupar, em torno de uma ideia principal, todas as outras. Assim, um bom general tem em sua mão todos os movimentos dos esquadrões, regimentos, batalhões e demais unidades do seu exército. Um verdadeiro poeta faz girar em torno de uma paixão central os episódios mais variados do seu poema ou tragédia.

Ora, queremos indicar-vos um general mais hábil que todos os cabos de guerra, um poeta mais eminente que todos os citados, um gênio diante do qual os demais são apenas reflexos de luz que se apagam: é Cristo, que pôs à frente da sua Igreja o sinal da unidade de regime.

Pela unidade de regime ou governo, os fiéis obedecem aos párocos; estes, aos bispos; e os bispos, ao Romano Pontífice. Todos respeitam as mesmas leis e, caso surjam questões, há tribunais reconhecidos por todos para decidirem e harmonizarem as dificuldades. Daí nasce uma ordem belíssima!

A hierarquia eclesiástica baseia-se nas palavras de Jesus Cristo, que disse a São Pedro e seus sucessores: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." "A ti darei as chaves do Céu, e tudo o que ligares sobre a terra será ligado no Céu; e tudo o que desatares sobre a terra será desatado no Céu." "Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas."

Portanto, Pedro é o fundamento da Igreja de Jesus Cristo, seu supremo diretor e pastor. Mas esse reino foi fundado para salvar os homens de todos os tempos; por isso, os sucessores de Pedro na cadeira episcopal de Roma herdaram os mesmos encargos, privilégios e poderes, como um presidente que ascende após a morte do antecessor, ou um príncipe herdeiro que sobe ao trono.

Por isso exclamou Santo Ambrósio: "Onde está Pedro, ali está a Igreja." São Jerônimo escreveu ao Sumo Pontífice São Dâmaso: "Aquele que não está com o Papa, não está com Cristo." E o eminente orador Bossuet disse: "Ó Santa Igreja Romana, Mãe das igrejas e de todos os fiéis, Igreja escolhida por Deus para unir seus filhos na mesma fé e amor. Adiramos do mais íntimo de nossos corações à tua unidade. Que me esqueça antes de mim do que de ti, ó Santa Igreja Romana." Eis a vós da tradição eclesiástica.

CAPÍTULO XLIX

O centro da hierarquia

Como o Papa é o sucessor de São Pedro, assim os bispos são os sucessores dos apóstolos, porque a eles também foi dito pelo divino Mestre: "Ide por todo o universo, ensinai a todos os povos; tudo o que ligares na terra será ligado no Céu, e tudo o que desatares na terra será desatado no Céu; eu estarei convosco até à consumação dos séculos."

O Papa é o centro da hierarquia eclesiástica, assim como o sol é o centro do sistema planetário. Ele nomeia os bispos, conferindo-lhes plenos poderes para suas dioceses, e estes incumbem os párocos, para que, em seu nome, dirijam as freguesias. As ordens do Sumo Pontífice são respeitadas e suas doutrinas aceitas em toda a Igreja. Quem não obedece ou não crê torna-se herege ou cismático.

Assim como a ação comum das energias do homem sob o domínio da razão produz ordem em seus atos, assim os bispos, unidos entre si e sob a autoridade suprema do Papa, em união com os sacerdotes, constituem a unidade do regime eclesiástico.

No parlamento, um orador atirou, como injúria, a palavra "papista" ao célebre patriota irlandês e intemerato católico O'Connell. O parlamentar católico respondeu: "Miserável, tu pensas insultar-me com o nome de papista, mas até me honras com isso. Eu sou papista e disso me glorio, porque papista quer dizer que a minha fé, por meio da sucessão ininterrupta dos Papas, remonta a Jesus Cristo, enquanto a tua religião não vai além de Lutero, de Calvino, de Henrique VIII e de Isabel. Pois bem, eu sou papista! Se, entretanto, tivesses uma centelha de bom senso, não compreenderias tu que, em matéria de religião, vale mais depender do Papa do que do rei, da Tiara do que da coroa, da cruz do que da espada, da batina do que do fraque, dos concílios do que do parlamento? Enrubesce, pois, tu mesmo, cora de não teres nem fé nem inteligência, e cala-te!"

E silenciou o adversário; perdera uma boa ocasião de ficar calado. Sim, também nós dependemos do Papa, somos papistas, e isso, longe de ser para nós uma vergonha, é uma imensa glória, pois onde está o Papa ali está a verdadeira Igreja.

CAPÍTULO L

O culto católico

Enfim, a Igreja Católica possui a unidade de culto.

Todos os fiéis adoram o mesmo Deus, pelo mesmo sacrifício e, não obstante se admitirem diversos ritos, temos a mesma vítima oferecida ao mesmo Pai Celeste, imolada do mesmo modo incruento, que produz idênticos efeitos em todos os fiéis. Os católicos, sem exceção, reconhecem sete sacramentos e, pela sua recepção, estão unidos como que por um vínculo perpétuo.

Assim foi em todos os tempos, e isto é confirmado pela própria Igreja cismática grega, que, apesar de tantos séculos separada da Romana, conserva o mesmo sacrifício e os mesmos sete sacramentos, sinal evidente de que a Igreja primitiva possuía ambos.

De fato, foi no Calvário que Cristo ofereceu o sacrifício cruento em remissão dos pecados do gênero humano; e este mesmo sacrifício é repetido e perpetuado na Igreja Católica, embora de modo incruento, na Santa Missa, por ordem divina: "Fazei isso em memória de mim."

Entrai nas catacumbas onde os cristãos se achavam refugiados por medo dos perseguidores. À luz trêmula dos archotes, celebravam os sagrados mistérios, batizavam seus filhos e recebiam a Eucaristia, para que no dia seguinte pudessem suportar, com fortaleza e ânimo, o suplício da morte.

Nas majestosas basílicas da Idade Média, como nas igrejinhas de uma aldeia, oferece-se o mesmo Sacrifício Divino, e os fiéis, ricos e pobres, recebem os mesmos sacramentos. Ali, a pobre criada recebe a mesma hóstia divina e a mesma absolvição sacramental que a poderosa rainha coberta de sedas e pedrarias.

Quando Pedro Álvares Cabral pisou em terra brasileira, arvorou uma altaneira cruz diante da qual um religioso franciscano celebrou a primeira missa. Os cantores eram os pássaros, que gorjeavam nas verdes ramagens das árvores. Os assistentes eram os aborígenes, que adoravam seu Deus e Criador na hóstia consagrada.

Que significação tem aquela grandiosa cerimônia? Que culto é aquele? É o mesmo Sacrifício da Cruz que os apóstolos celebravam, o mesmo Sacrifício das catacumbas e das majestosas catedrais, o mesmo que ainda hoje celebramos em nossos templos. Vemos assim que a Igreja Católica possui a unidade de culto, assim como a unidade de fé e de regime.

CAPÍTULO LI

A única Igreja de Cristo

Nela se verifica a palavra de São Pedro: "Unus Dominus, una fides, unum baptisma" — um Senhor, uma fé, um batismo. A Igreja tem um só Senhor supremo, que é Jesus Cristo, cujo representante visível é o Sumo Pontífice; tem uma fé, que é a mesma para todos os séculos, para todos os lugares, para todos os espíritos; tem um só culto e o mesmo número de sacramentos para as necessidades de todos os tempos e de todos os povos.

Portanto, a Igreja Católica apresenta como credenciais de sua missão divina os caracteres indeléveis da unidade de fé, de regime e de culto.

Desta premissa devemos tirar uma conclusão importantíssima: Cristo não fundou mais do que um Reino, uma Igreja; outro não era seu intento. Nunca falava no plural, de igrejas ou reinos, mas sempre dizia: "Minha Igreja, meu reino, um rebanho". Ele mesmo declarou: "Eu tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco; é necessário que ali as conduza, e que elas ouçam a minha voz, e que haja um só rebanho e um só pastor". Ora, se a Igreja Católica possui os sinais característicos da verdadeira Igreja de Cristo, e se Cristo fundou uma única Igreja, e não duas ou mais, segue-se logicamente que a Igreja Católica é a única verdadeira, a única fundada pelo divino Salvador.

Entrai comigo na grandiosa catedral do catolicismo: ali, na cripta, acham-se os túmulos dos Papas, desde Pio X até São Pedro. É uma dinastia respeitável, mais antiga do que todas as dinastias dos soberanos do mundo. De suas mãos, Carlos Magno recebeu a coroa imperial. Sobreviveu às dinastias dos impérios germânicos. Ela viu como o poderoso curso subiu e desapareceu como uma estrela fulgente. E ainda hoje a dinastia dos Papas existe, e seu poder moral e espiritual estende-se sobre muitos milhões.

Sobre as paredes daquela catedral, vemos os túmulos dos bispos, cujas fileiras vão até aos apóstolos. Nas colunas estão escritos os dogmas da fé e os mandamentos. Ali está o batistério, acolá o tribunal da penitência, ali a Sagrada Mesa. E lá, no amplo coro, celebra-se com majestade o culto divino. Uma imagem admirável de paz, de consolação e felicidade! É a Igreja Católica na sua formosa unidade.

Por isso, homens de boa vontade, espíritos nobres, que procurais a verdade, que andais em busca da verdadeira religião, entrai neste templo divino, abraçai a religião católica; ela é a legítima e única Igreja de Cristo; ali achareis a paz da consciência, o sossego do espírito e a felicidade perene!

E nós, que tivemos a ventura de entrar nesta Igreja pela porta do batismo, procuremos cumprir com fidelidade nossos deveres e unamos a nossa voz à voz dos apóstolos, que espalharam a semente do Evangelho no princípio do cristianismo; à voz dos mártires, que derramaram seu sangue nos anfiteatros; à voz dos luminares da ciência e de todos os católicos, dizendo: "Creio na Santa Igreja Católica, porque é uma na fé, no regime e no culto."

CAPÍTULO LII

O Pontífice Romano: o rochedo inabalável

O mundo viu, no decorrer dos séculos, obras verdadeiramente grandiosas. Viu como os faraós levantaram suas gigantescas pirâmides, que ainda hoje arrostam, triunfantes, a ação destruidora do tempo. Contemplou a marcha triunfal de Ciro, ao fundar seu reino mundial. Acompanhou Alexandre Magno na conquista vitoriosa da Ásia. Viu o férreo império de Roma abranger com seus braços de gigante os quatro continentes. Assistiu às lutas de Carlos Magno, assim como à edificação de seu império.

Presenciou as gloriosas cruzadas, que demandavam o Oriente a fim de libertar o Sepulcro do Salvador. Admirou o valente nauta português Vasco da Gama, quando ia em busca do caminho da Índia. Aplaudiu o descobrimento da América e assistiu às inúmeras invenções que reformaram completamente a vida moderna.

Mas o mundo nunca viu obra tão importante e grandiosa quanto o Pontificado Romano.

Pois contemplai ali a vasta superfície do mar, que ora reflete placidamente a face luminosa do sol, ora levanta marulhosas ondas que a tormenta amontoa em forma de serras, e logo desfaz como bolhas de sabão.

No meio desse mar revolto ergue-se um altaneiro rochedo, firme e inabalável. Uma força divina o fez emergir do fundo das poderosas vagas e lhe sobrepôs um templo magnífico, que projeta suas luzes sobre o imenso lençol das águas. Desde então, está ali aquele rochedo imóvel. As tempestades fustigam suas faldas, os raios ziguezagueiam em torno dele e os trovões o envolvem com seus estampidos. Porém, ele não estremece, nem se move! O mar é a humanidade; o rochedo é o Pontífice Romano; o templo é a Igreja Católica.

O mundo jamais viu obra tão sublime quanto o Pontificado Romano, nem um soberano tão eminente como o Soberano Pontífice, a quem, na pessoa de São Pedro, Jesus disse: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as potências do mal nunca prevalecerão contra ela!"

Em consequência desta palavra divina, o Pontífice Romano, o Papa, é o fundamento da Igreja, sua vida, sua força e seu amparo.

Cumprimos o grato dever de falar sobre a pessoa do Santo Padre, para que os fiéis melhor o conheçam, mais o amem e venerem. Ele é o Pastor supremo da Igreja e, em virtude de suas prerrogativas excepcionais, ocupa posição sem igual no concerto das nações.

Abramos o Evangelho do Senhor e sobre suas páginas coloquemos as mãos: se há um livro que exprime a verdade, é este, porque foi escrito sob a inspiração de Deus. É o livro mais venerável, pois contém a história e a palavra de Deus. Eis os motivos pelos quais a Igreja, com a máxima solicitude, o guarda como um tesouro sacrossanto.

Pois bem, esse livro nos conta: um dia estava o Salvador em meio aos seus discípulos, e lhes perguntou: "Quem julgais que eu sou?" E respondeu Simão Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!"

Confissão admirável, que haveria de ser repetida em todas as idades do porvir.

CAPÍTULO LIII

O Papa é infalível

Ouvi agora a palavra de Cristo, palavra que em sua simplicidade respira firmeza e poder divino: "Bem-aventurado tu és, Simão, filho de João; porque a carne e o sangue não te revelaram isto, mas meu Pai que está no céu. Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela."

Assim como a palavra "Fiat", nos primórdios dos tempos, produziu o céu e a terra, essa palavra do Salvador transformou Pedro e os Pontífices Romanos no fundamento infalível da sua Igreja. Mas como será possível que o Pontífice seja infalível? Ah! Não! Crer que um homem, com todas as suas fraquezas e misérias, não possa errar parece provocar os protestos incondicionais da razão!

Contudo, afirmamos que uma das mais sublimes prerrogativas do Pontífice Romano é a sua infalibilidade. Quer por ventura isso dizer que ele não seja pessoalmente sujeito ao erro e ao pecado? Ora, não! O Pontífice Romano, como homem, pode pecar como nós e vós. Cada dia ele bate no peito, como o mais simples sacerdote, dizendo: mea culpa! Minha culpa! Mas quando será infalível? Quando expressa sua opinião sobre algum ponto de filosofia, álgebra, astronomia? Certamente que não!

Narra-se que um bom cônego italiano pedia ao Soberano Pontífice a bênção e aprovação para uma descoberta científica que acabara de fazer. Tratava-se, ao que parece, de uma aplicação nova da eletricidade à telegrafia. Pio IX respondeu-lhe, com aquela espiritual afabilidade que nele era um misto de delicadeza e candura: "Ah, meu caro cônego, mio caro canônico, há quem pretenda restringir a minha autoridade doutrinal, e vós quereis estendê-la à matemática e à física. Dirigi-vos ao Padre Secchi, disso ele sabe muito mais do que eu."

Toda vez que se coloca em terreno científico, ou mesmo religioso, como particular, o Pontífice Romano pode enganar-se. Não cremos que o Papa seja infalível como homem, mas como Vigário de Jesus Cristo e chefe supremo da Igreja, quando do alto de sua cátedra apostólica define, para toda a Igreja, um ponto de doutrina que interessa à fé ou aos costumes.

Afirmamos este dogma de fé porque, de fato, o Evangelho atribui a prerrogativa da infalibilidade ao Pontífice Romano. Ele é a pedra sobre a qual repousa o edifício secular da Igreja. É seu fundamento inabalável, segundo a palavra de Deus. Ora, se em matéria de fé e costumes o Pontífice Romano, como chefe supremo da Igreja, pudesse errar, esse fundamento seria abalado e todo o edifício cairia fragorosamente por terra, desmentindo a palavra indefectível do Senhor. Mas esta hipótese é falsa, é irrisória, pois é impossível que a palavra de Deus não se cumpra, porquanto Ele mesmo disse: "O céu e a terra passarão, mas não minha palavra."

Em outros lugares, o Evangelho assegura ao Pontífice Romano o poder de ligar e desligar; ora, se ele pudesse errar, quebraria os sagrados vínculos da verdade e poderia algemar-nos com as cadeias do erro. Mas, por ventura, poderia isto ser ratificado no Céu? Pois Jesus Cristo disse a São Pedro – e aos seus sucessores – tudo o que ligares ou desligares na terra será ligado ou desligado no céu.

O Papa deve apascentar os pastores e os fiéis conforme sua missão divina. Será, portanto, possível que lhes ofereça alimentos envenenados e conduza seu rebanho espiritual por estradas perigosas ao abismo da perdição? "Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros", disse o Filho de Deus.

Ouvi ainda a palavra formal de Cristo ao seu Vigário: "Simão, Simão, eis que Satanás anda em busca de vós, para vos agitar como o trigo. Porém eu orei por ti, para que tua fé não te falte; e tu, depois de convertido, confirma teus irmãos na fé." Compreendeis que Cristo não disse que a vida do seu representante seria irrepreensível, mas que sua fé nunca haveria de desfalecer. E, embora Pedro e seus sucessores pecassem, nunca perderiam, mas sempre teriam o direito e o poder de confirmar seus irmãos na fé e na verdade. Cristo orou; sua prece é eficaz, e a infalibilidade do Pontífice Romano é o resultado brilhante dessa divina oração.

O Pontífice Romano é infalível; isso está escrito com caracteres evidentes nas páginas do Evangelho.

Por isso, é aceito em toda a Igreja o axioma de Santo Agostinho: "Roma locuta, causa finita." Quando Roma falou, a causa está terminada! Esta verdade inspira-nos grande consolação e reverência à Santa Sé. Contemplai as inúmeras seitas religiosas. Elas não têm um fundamento inabalável para suas crenças, que ficam à mercê das interpretações pessoais. Considerai as teorias filosóficas! Hoje são apregoadas como maravilhas, amanhã são reformadas e substituídas por novos sistemas.

Nós temos certeza da nossa fé, prestamos obediência pronta e inconcussa ao Pontífice Romano porque nos ensina com a infalibilidade do seu magistério.

CAPÍTULO LIV

A perpetuidade do Papado

Napoleão Bonaparte, admirável na grandeza e na desgraça, estava sobre um monte da ilha de Santa Helena, contemplando o mar, cujas ondas encapeladas vinham sucessivamente quebrar-se aos seus pés. Estava pensativo. Toda a sua vida parecia-lhe um mar agitado, e seus triunfos e glórias semelhavam-se àquelas vagas que ora se erguiam como montanhas, ora se desfaziam em espuma. Erguendo os olhos, avistou, a pouca distância, o campanário da igreja 0do lugar e suspirou: — Sim, tudo passa, só a Igreja Católica é perpétua.

A águia vencida proferiu uma grande verdade. E por que a Igreja é perpétua? Porque seu fundamento é indestrutível: sobre uma rocha inabalável Cristo a fundou. Pedro continua a viver na pessoa de seus sucessores. Cristo disse ao primeiro Papa: "Até agora te chamaste Simão, doravante te chamarás Pedro, isto é, Pedra." E Cristo repete a mesma palavra aos Pontífices Romanos: "Até agora te chamaste Pecci, doravante Leão XIII, isto é, Pedra; até agora te chamaste Sarto, doravante Pio X, isto é, Pedra; até agora te chamaste Della Chiesa, doravante Bento XV, isto é, Pedra": o fundamento imutável da Igreja.

Com efeito, há dezenove séculos vive o Pontífice Romano, resistindo a todos os tempos e corrupções, a que os poderes humanos estão sujeitos: ele contava quatro séculos quando Clóvis fundou o império dos francos; contava dez séculos quando Guilherme, o Conquistador, estabeleceu na Inglaterra a casa dos reis anglo-normandos; contava doze séculos quando a dinastia dos Habsburgos recebeu a coroa real da Alemanha; já tinha dezesseis séculos quando a casa dos Romanov foi chamada ao trono da Rússia; contava dezoito séculos quando Bonaparte tomou do altar a coroa da França e se proclamou Napoleão I.

E que será do Pontífice Romano no futuro? Temos a palavra de Cristo que assegura sua perenidade. As potências inimigas não poderão destruir seu trono; — disto estamos convencidos.

Atendei agora à palavra do publicista inglês, o protestante Macaulay:
"Não se diga que o Pontificado se acha em estado de decadência e ruína; ao contrário, conserva-se cheio de vida e força, ao passo que todos os outros impérios, que eram seus contemporâneos, há muito desapareceram no pó do esquecimento."

Os árabes têm uma lenda segundo a qual a grande pirâmide de Gizé foi construída pelos reis antediluvianos, sendo a única de todas as obras humanas que resistiu à violência formidável da inundação. Semelhante é a sorte do Papado. Ele tem sido também coberto pela torrente das águas de terríveis inundações; mas os seus profundíssimos alicerces jamais foram abalados e, quando o dilúvio passou, apareceu ele sempre emergindo do meio das ruínas do mundo que acabava de desmoronar-se.

Ignoramos quais sejam os povos que virão a dominar a face da Terra. Mas, quaisquer que sejam seus interesses políticos, sua língua e costumes, — afirmamos que sempre haverá entre eles uma língua comum, um amor comum, um interesse comum: — a língua da Igreja, o amor à Santa Sé, o interesse pelo Pontífice Romano.

Novos povos surgirão à superfície do mundo, como aquelas ilhas de coral que emergem, pouco a pouco, do seio dos mares: o Pontífice Romano estará ao lado deles, para abençoá-los e batizá-los. Povos velhos extinguir-se-ão, e junto deles estará o Pontífice Romano para os consolar e absolver. Ele tem a prerrogativa da perpetuidade!

CAPÍTULO LV

O poder moral do Pontífice Romano

O poder do Pontífice Romano não se apoia na ponta de baionetas de numerosos exércitos. Não obstante, goza de tal força moral, que com razão se pode chamar o baluarte da liberdade. A verdadeira liberdade trouxe Cristo aos homens e só pode medrar à sombra da verdade.

A escravidão era um dos maiores males do gênero humano. Quem quebrou a primeira lança em favor da liberdade dos escravos? Foram os Pontífices Romanos, declarando que também os escravos eram homens e filhos de Deus como seus amos. E assim também em favor da libertação dos escravos em nosso Brasil, Leão XIII fez os mais louváveis empenhos.

Quem colocou a mulher no pedestal de honra e dignidade que lhe compete, conforme os desígnios de Deus? Foram os Papas que a tiraram da ignomínia.

Quem defendeu o direito das crianças, para que não fossem por seus progenitores entregues à perdição e à morte? Foram os Pontífices Romanos.

Átila, o flagelo de Deus, chegou com seus humanos às portas de Roma. A Itália estremece. O Pontífice Leão I sem armas, apresenta-se ao formidável conquistador, e este recua, retrocede.

Sem a interferência dos Pontífices Romanos, toda a Europa teria sido incorporada ao império muçulmano e a meia lua teria substituído a cruz nos países cristãos. Em Lepanto e Viena, os Papas alcançaram brilhantes vitórias sobre aquele poderoso inimigo.

No século passado, o imperador Nicolau da Rússia, subiu as escadas do Vaticano, para conferenciar com o Pontífice Gregório XVI. Jamais um monarca havia, com maior orgulho, transposto o limiar da residência pontifícia. Um está em frente do outro; Gregório XVI, o ancião e Nicolau, imperador e papa também dos russos. Não se conhece, exatamente, o assunto da conferência. Mas, depois de algum tempo, o poderoso soberano, que oprimia a Polônia anexada, querendo arrancar-lhe sua fé e língua, saiu pálido e confuso.

Ouvira palavras enérgicas em favor da liberdade da Polônia! O certo é que, depois disso, começou a tratar, com mais humanidade, os polacos escravizados.

Os próprios israelitas reconhecem o poder moral do Papa. Pois, a mais importante associação judaica do mundo, de New York, em nome de três milhões de judeus americanos, dirigiu ao Santo Padre, em fins do ano passado, uma petição, na qual invocando o papel tutelar da Santa Sé através da história, pedia para que Sua Santidade interviesse, a fim de que, nas nações beligerantes, cessassem de se cometer contra os israelitas, certas perseguições de que já haviam estes sido vítimas.

Bento XV respondeu, aos 9 de Fevereiro deste ano, em carta ao presidente dessa Associação, dizendo que, apesar de não se achar em estado de poder se pronunciar sobre esses fatos, contudo, em princípio, como Chefe da Igreja Católica, e, fiel às tradições gloriosas, considera todos os homens como irmãos e lhes ensina o amor mútuo. E por isso ele não deixa de inculcar, entre os indivíduos como entre as nações, a observância dos princípios de direito natural e de reprovar qualquer violação desses princípios.

CAPÍTULO LVI

Triunfo do Papa

Quereis ver um espetáculo admirável? Eis um homem fraco, que sustenta nos seus ombros o mundo cristão e não se cansa! Uma luz contra qual os ventos sopram e não se apaga! Um ancião que hoje morre, amanhã ressurge, qual fênix, do sepulcro! Esse homem, essa luz, esse ancião é o Pontífice Romano, que de todas as lutas sai triunfante.

Grande é o poder da espada! Na mão de César derrubou a República Romana. Empunhada pelos turcos conquistou a África. A espada da perseguição é a primeira potência inimiga que avança contra o Pontífice Romano.

Em Roma existem várias catacumbas com o nome dos Papas, cujos ossos nelas se guardavam. E desde tempos antigos conhece-se ali a "Câmara papalis", a câmara dos Papas, onde vários Pontífices acharam o último repouso.

A perseguição arroja-se sobre o rochedo do Sumo Pontífice, com a força de furacão. O primeiro Papa, São Pedro, morre numa cruz invertida. Lino, Cleto e Clemente derramam seu sangue pela Fé. Trinta Pontífices Romanos morrem mártires, isto é, como testemunhas da Fé Cristã.

Durante três séculos duraram as perseguições. Todos os cárceres estavam cheios de cristãos. À frente das multidões de presos, caminhavam os Papas às fogueiras e para o desterro.

Todos os instrumentos mortíferos funcionavam, e às vezes, faltavam as feras para devorar os fiéis na arena, mas não faltavam mártires.

A espada de Roma despedaçou-se no rochedo granítico do Papado, enquanto o Pontífice Romano triunfava e continuava a viver como primeiro Soberano do mundo.

A espada de Roma estava feita em pedaços, mas homens vindos das florestas do Norte e cobertos com peles de urso, brandiram de novo as armas contra o Pontífice. Os vândalos saquearam Roma, os Godos oprimiram a Itália, os Longobardos investiram contra a Rocha de Pedro, para destruir a Igreja e a civilização; porém como ondas desfeitas desapareceram. O Pontífice Romano continuava a existir.

Aparecem na cena novas multidões que cingem o turbante e impunham o alfanje tendo por pavilhão a meia-lua. Mas, como a espada de Roma, assim o alfanje turco despedaçou-se; o Pontífice Romano ainda vive.

Depois, apresenta-se uma fúria de cabelos soltos, na cabeça o barrete jacobino e na testa a palavra: Revolução. Ela levanta a espada contra o Pontificado Romano. Porém, ela começa a nadar no seu próprio sangue e no mesmo se afoga. O Pontífice Romano chora a morte de milhares de súditos, mas sobrevive àquela terrível catástrofe.

Napoleão havia vencido vários monarcas e queria destronar o Pontífice Romano; manda prendê-lo de noite e levá-lo para França, a fim de sujeitá-lo em tudo às suas ordens arbitrárias. O Pontífice Romano lança sobre o orgulhoso imperador a excomunhão: "as armas cairão das mãos dos meus soldados". Porém Deus vingou o seu representante. Napoleão, à frente de quinhentos mil guerreiros, a flor da mocidade, se dirigiu para Rússia, e quando passava revista às suas briosas tropas, os soldados gritavam com entusiasmo: "Vive l'empereur! Viva o Imperador!" Pouco tempo depois, foi incendiada a cidade de Moscou e teve de retirar-se vencido, e em consequência do imenso frio, caíram realmente as armas das mãos dos seus soldados. O Pontífice Pio VII voltou em triunfo para a sua sede em Roma.

A palavra de Thiers se verifica: qui mange du pape en meurt — quem persegue ou maltrata o Pontífice Romano recebe a morte em castigo.

O Sumo Pontífice recebeu de Deus a garantia de sempre vencer: Non praevalebunt — Não prevalecerão.

CAPÍTULO LVII

Soberania pontifícia

A Igreja é uma perfeita sociedade, tem para isso todos os elementos constitutivos. E embora monarquia, resume seu governo em várias formas. É monárquica porque nessa sociedade há um só chefe supremo, o Pontífice Romano; é democrática, porque todos os súditos por mais humildes que sejam têm o direito de ascender ao trono de São Pedro; é, em certo sentido, oligárquica, porquanto o Soberano Pontífice exerce seu governo universal com o auxílio dos bispos, por ele nomeados, nas diversas dioceses do orbe católico.

Ao Pontífice Romano compete uma verdadeira soberania. Pois ele é Soberano na ordem espiritual e temporal. Esta prerrogativa funda-se no direito divino e no direito internacional, pelo que os monarcas lhe tributam soberanas homenagens. Ele envia seus agentes diplomáticos, os Núncios, para junto dos governos principais, e as nações mais conceituadas mantêm seus representantes junto à corte pontifícia. Assim é que a Santa Sé tem junto ao nosso governo o eminente diplomata Monsenhor José Aversa e nós temos o nosso ministro junto ao Vaticano, atualmente o distinto Doutor Carlos Magalhães de Azevedo.

Embora privado no patrimônio de São Pedro, isto é, dos seus Estados, o Pontífice Romano é verdadeiro Soberano, como os reis e imperadores e os presidentes da República. Isto reconhece o próprio governo italiano que, numa circular de 18 de outubro de 1870, dirigida aos seus representantes, declara que o Santo Padre conserva o seu caráter de Soberano e sua preeminência sobre todos os príncipes católicos.

Muitas vezes o Sumo Pontífice tem servido de árbitro em questões importantes. Iwan, o cruel, pediu auxílio do Papa Gregório XIII. E Bismarck, autor da chamada luta pela cultura, o inimigo acérrimo da Igreja, oferece a Leão XIII a missão de árbitro na questão das ilhas Carolinas, entre a Espanha e a Alemanha.

CAPÍTULO LVIII

Bento XV e a paz

Na guerra atual, que flagela a Europa, é o Pontífice Romano a esperança dos aflitos, e todos os favores até agora obtidos para mitigar os horrores da conflagração são devidos ao seu amor paternal e ao seu prestígio por todos reconhecido. E essa guerra infeliz já teria acabado, se as nações beligerantes ainda tivessem a fé de outrora e atendessem aos conselhos e súplicas do Pontífice Romano, o único Soberano desapaixonado, cujo amor paternal se estende com o mesmo afeto e dedicação a todos os homens. É o Príncipe da paz!

Vemos, pois, que o Pontífice Romano possui de fato a prerrogativa da Soberania.

Há poucos meses, senhoras da mais alta sociedade dinamarquesa, todas protestantes, dirigiram ao Sumo Pontífice Bento XV uma mensagem bem significativa, que trata da paz e, na parte essencial, assim se exprime:

"Vossa Santidade possui, no espírito cheio de serenidade do Altíssimo, o autorizado direito de proferir hoje o julgamento justo do amor universal sobre os combates de vida e de morte, e esse julgamento por toda a parte repercutirá, consolando os países devastados e desolados, bem como condenando todas as usurpações feitas pela espada.

É com plena fé que nós nos permitimos exprimir a esperança de que a Deus aprouverá conservar as forças de Vossa Santidade, para empreender uma intervenção reiterada, em prol da paz geral, junto aos governos, e uma renovada declaração do espírito superior de amor universal pela humanidade inteira, podendo assim elucidar a mais ardente questão da nossa época: qual será para o bem comum da humanidade inteira o fruto da grande guerra?

Que essa voz da justiça divina e terrestre não se cale, que ela se eleve acima do fragor dos canhões, sustentando a esperança e a coragem do gênero humano apavorado e a convicção dos direitos legítimos iguais da autonomia dos povos — os direitos invioláveis de toda a humanidade — proclamando uma solução divina do conflito universal, digna de Deus e dos homens.

Abaixo as armas! É a única solução que pode extinguir o ódio fratricida dos povos na grande confederação fraternal das nações."

Sua Santidade mandou responder, por intermédio do Cardeal Gasparri:

Nessa resposta, diz La Croix, encontra-se a verdadeira concepção que a Santa Sé sempre teve relativamente à paz.

Em linguagem tão sóbria quanto clara e grave, expõe-se aí as superiores ideias constantemente propugnadas pelo Papa atual, continuador das tradições católicas.

Eis a missiva:

"Secretaria de Estado de Sua Santidade – Vaticano, 11 de Maio de 1916. N. 16 472. Senhoras.

Nosso Santo Padre o Papa Bento XV ficou sumamente comovido com os sentimentos de que a vossa carta coletiva de 20 de Março último lhe trouxe a nobre expressão.

Impressionou-vos dolorosamente o pensamento das ansiedades e das dores do coração do augusto Pontífice, ante a imensidade das catástrofes provenientes da horrível guerra.

Exprimis vosso reconhecimento ao Papa, Ministro de Deus da paz, por se haver aproveitado de todas as ocasiões para advogar a causa da pacificação do mundo, mediante uma paz fundada na justiça e no direito.

É com razão que recordais o papel secular do Pontífice Romano, mediador entre os povos, defensor nato das causas justas, guarda da moral do direito e da civilização.

Pastor universal das almas, o Papa recebeu em depósito a doutrina evangélica da paz e da justiça, e a história eloquentemente dá testemunho do influxo soberano, da poderosa ação moderadora e apaziguadora do Papado, através dos séculos.

Por isso, Nosso Santo Padre o Papa Bento XV assumiu, de todo o coração, esse papel tradicional e, obedecendo ao preceito da Bíblia a—clama, ne cesses, deseja tornar possível uma paz que resolva, com equidade e sabedoria, a complexidade tremenda dos problemas agitados no mundo.

Guiando as almas para a pátria celeste, ele considera um dever de seu cargo o agir pela prece e pela ação no sentido de fazer cessar os litígios, os ódios e as rivalidades sangrentas, e de reconduzir a paz e a concórdia ao seio das nações.

Interpretando a gratidão pontifical pelo vosso ato de inspiração tão generosa e tão alta, rogo-vos Senhoras, que aceiteis a expressão de meus sentimentos dedicados em Nosso Senhor. – (Assinado) Cardeal Gasparri."

Terminamos aqui as nossas considerações. Pelo que acabamos de expor, a largos traços, podeis verificar que o Pontífice Romano, em virtude de suas prerrogativas excepcionais, ocupa uma posição sem igual no concerto das nações. Imitemos, sacerdotes e fiéis, o nobre exemplo do Soberano Pontífice e peçamos a Deus que faça cessar essas lutas despovoadoras de lares e de pátrias, que faça despontar, no horizonte do mundo europeu, uma nova era de paz, de caridade cristã e felicidade.

CAPÍTULO LIX

Ilogismo da indiferença religiosa: sejamos lógicos

Os indiferentes em matéria de religião conservam-se numa posição deplorável, entre a fé e a descrença, e parecem-se com aqueles condenados do Inferno de Dante que o céu não recebe e o próprio inferno repele. Ora, esse procedimento é ilógico e desarrazoado. Com efeito, como podemos permanecer indiferentes e inativos, em face de problemas que afetam intimamente o nosso ser, o nosso destino e o bem social, quando em assuntos de importância muito inferior nos mostramos tão interesseis e preocupados?!

Nossa alma é imortal. Como podemos prescindir, portanto, do seu futuro? O homem não se extingue. O corpo material se dissolve, mas a alma espiritual sempre viverá e logo após a morte será julgada e ouvirá a sentença irrevogável de sua eterna felicidade ou desgraça. E no juízo universal a alma se unirá ao corpo, para que ambos, no homem reconstruído pela Onipotência divina, participem da sorte comum.

É, por isso, ilógico e irrazoável que o homem se esqueça da vida eterna e deixe de praticar a virtude, repudiando a fé cristã. Porque, sem fé e sem boas obras, o homem não se pode salvar.

Vimos que os povos sem a moral cristã e sem as luzes de Deus assemelham-se a outros tantos barcos, sem leme nem remo, atirados ao mar revolto e caliginoso dos séculos. As sociedades, como os indivíduos, para sua subsistência e sua prosperidade, precisam reconhecer a Deus e observar suas leis! Jesus Cristo, Deus e homem, é quem reformou a humanidade e salvou os homens da eterna perdição.

É, pois, ilógico e condenável o procedimento daqueles que intentam eliminar da sociedade humana, do lar doméstico e da escola, a ideia de Deus e a doutrina do seu Filho unigênito Jesus Cristo.

Arquimedes pedia um ponto de apoio para suspender a terra. O ponto de apoio para sustentar a moral e a felicidade do povo é o Evangelho ensinado pela Igreja.

Sim, a Igreja Católica divinamente instituída e inspirada pelo Espírito Santo, recebeu de Deus a nobre missão de conduzir, por meio do seu ensino, leis e sacramentos, os homens através da vida presente ao seu destino supremo.

O Sumo Pontífice dirige a Igreja e, com afeto paternal, estima e ama, igualmente, todas as nações, embora entre si divididas pelo interesse e pela guerra.

Portanto, é ilógica e reprovável a tendência daqueles que querem cercear a liberdade e excluir do corpo social a influência poderosa da Igreja, e que pretendem desconhecer ou hostilizar a ação sumamente profícua e necessária do Sumo Pontífice no concerto das nações. — Sejamos lógicos.

Tirai a Religião à massa dos homens, — diz Portalis, no seu discurso acerca da organização dos cultos, — com que haveis de substituí-la? Quem não está preocupado do bem, está preocupado do mal; o espírito e o coração não sofrem estar vazios. Quando já não houve religião, não haverá pátria, nem sociedade para esses homens que, recuperando sua independência, não terão mais que a força para abusar dela. Sobretudo nos Estados livres, a Religião se faz precisa. Neles, diz Políbio, para não ser obrigado a dar a alguns homens um poder perigoso, o mais forte receio dever os dos deuses.

CAPÍTULO LX

Motivos íntimos

A indiferença é um mal crônico. Já os sábios do Areópago responderam a São Paulo que para outra vez, o ouviriam. Pensavam, exatamente, como muitos contemporâneos, que tinham de meditar sobre assuntos mais importantes do que Deus, o homem, a alma e a redenção. Mas, eram, afinal, pagãos! Podiam desculpar-se.

Essa indiferença não é o fruto de profundos estudos, mas, como já alguém disse, a privação de ideias que se paroneia com o nome de ciência esclarecida.

E, por isso, Cirilo de Alexandria sentenciou: "um espírito estéril e inculto jacta-se da sua descrença, porque não pode compreender, e lança à conta do falso o que transpõe o círculo das suas ideias de modo que a mais supina ignorância se liga com o mais intolerável orgulho."

As paixões humanas influem, funestamente, sobre a indiferença religiosa. Quem se entregar à volutuosidade e à ira, já o havia dito Platão, só pode ter pensamentos terrenos. Ao contrário, aquele que se esforçar para meditar no que é imortal e divino, alcançará a imortalidade. Obterá também a suprema felicidade, porque em si cultivou o que era divino, e trouxe Deus na sua alma. Assim falava a razão humana.

O erro moral arrasta consigo o erro intelectual. E sob este ponto de vista pode-se dizer que a inteligência humana tem suas mais profundas e derradeiras raízes no coração. O homem na situação do erro e da degradação aborrece a luz como os olhos enfermos; odeia a luz, porque o ofende; e não aparece à luz, porque a luz o leva a conhecer a ruindade das suas obras. A luz foi feita para todos os olhos, mas nem todos os olhos para a luz.

Perderam aqueles homens a sua boa consciência, escreve São Paulo ao seu discípulo Timóteo, por isso, naufragaram na fé. A esse respeito diz São João Crisóstomo: Tal vida, tal doutrina; por isso muitos recaíram nas abominações pagãs. Para se esquivarem a todo o receio pelo futuro, empregam todos os meios para se convencerem que é falso tudo quanto ensina nossa religião.

Um dia, compareceu São Paulo ante o proconsular romano, Félix, juiz corrupto e adúltero, como diz a Sagrada Escritura. O Apóstolo lhe falava da justiça, da caridade e do juízo futuro. Porém, Félix, todo atemorizado, lhe disse: "Por ora basta, vai-te, e quando eu tiver vagar, te chamarei."

Aí, temos a história íntima de muitos indiferentes. Sua indiferença religiosa é a história do seu coração.

CAPÍTULO LXI

O indiferente teórico

Aprofundemos a nossa análise. Há duas espécies de indiferentes em matéria de religião: o indiferente teórico e o prático. Um e outro é irrazoável e ilógico, um e outro se julga e se refuta por si mesmo. Basta examinar como ambos raciocinam.

O indiferente teórico é aquele que não crê em religião nenhuma, nem se dá ao trabalho de examinar se há uma religião verdadeira. "Não sei", diz ele, "quem me pôs no mundo, nem o que eu mesmo sou. De tudo sou um chapado ignorante. Não sei o que é meu corpo, os sentidos ou a alma; e esta mesma parte de mim que pensa o que digo, e reflete em tudo e em si mesma, não se conhece melhor que o resto.

Vejo antes medonhos espaços do universo que me rodeiam, e acho-me preso a um canto desta imensa extensão, sem saber porque estou aqui antes do que em outra parte; nem porque este pouco tempo, que me é dado viver, se me concede neste ponto, mais que em outro, de toda a eternidade que me precede e de toda aquela que me segue.

Não vejo senão infinidades por toda a parte, que me absorvem como um átomo, e como uma sombra, que passa e não torna. Tudo o que eu sei, é que em breve hei de morrer; e o que mais ignoro, é esta morte mesma que não posso evitar. Como não sei de onde venho, também não sei para onde vou; e apenas conheço que saindo deste mundo vou para sempre reduzir-me ao nada, ou cair nas mãos de um Deus irritado, sem saber qual destas duas condições me tocará por sorte.

Eis aqui, o meu estado cheio de miséria, fraqueza e obscuridade. E de tudo isto, concluo que devo passar todos os dias da vida, se me cuidar no que me virá a acontecer, e que não devo fazer mais que seguir as minhas inclinações, sem refletir, nem me inquietar; fazendo tudo o que devo para cair na desgraça eterna, no caso de ser verdade o que dizem. Pode ser que achasse algum esclarecimento para as minhas dúvidas; mas, não estou para ter trabalho, nem dar um passo para esse fim, e, desprezando os que tanto se afadigam com isto, quero ir, sem previdências nem temores, tentar este grande sucesso, e deixar-me conduzir à morte preguiçosamente, na incerteza da eternidade da minha condição."

Na verdade, é glorioso para a Religião ter por inimigo tão dessarregada gente, como disse Pascal.

CAPÍTULO LXII

O indiferente prático

Este crê numa religião, mas não cumpre seus deveres e assim raciocina: "Creio que há um Deus, Criador e Senhor absoluto do mundo e do homem. Creio que este Deus manifestou suas adoráveis vontades, as quais reunidas formam uma religião, que devo aceitar tal como é, sem que me seja permitido ajuntar-lhe ou tirar-lhe coisa alguma. Creio que esta religião não só me impõe atos interiores de fé e adoração, mas também atos exteriores e positivos de culto externo e público. Conheço esses atos, e sei que negligenciando cumpri-los, constituo-me em estado permanente de revolta contra Deus. Conheço que, para punir meu insolente desprezo, abre-se debaixo de meus pés um abismo de fogo eterno. Conheço que não estou separado d'Ele senão pela vida presente. Sei que esta vida presente não é mais que um fio; e que este fio está nas mãos de Deus, que o pode cortar, quanto quiser; e que o fará sem me avisar, talvez esta noite ou este mesmo instante. E de tudo isto, concluo que devo continuar a viver, tranquilamente, no meu indiferentismo, na certeza de cair, mais cedo ou mais tarde, nessa desgraça eterna."

Na verdade, tornamos a dizer, é glorioso para a religião ter por inimigos tão desarrazoada gente.

CAPÍTULO LXIII

Meios de ação

Um dos males que avassalam a nossa Pátria é a falta de instrução religiosa. Nos programas de ensino oficial figuram todas as ciências; somente a ciência de Deus, a disciplina mais nobre e mais necessária, não merece a honra de um único parágrafo.

Cumpre, pois, que façamos uso da liberdade que a Constituição nos garante, fundando e mantendo escolas e colégios, onde, a par dos necessários conhecimentos humanos, se ministre, de um modo especial, o ensino da Lei de Deus e da doutrina de Cristo. Nessas escolas e colégios formar-se-ão os mais lídimos servidores da Igreja e da Nação. Em tempo oportuno, trataremos, mais profusamente, deste magno assunto.

O ensino religioso, dado nas aulas de catecismo, é de absoluta necessidade. Lembramos o nosso operoso clero, além da pregação, desse dever essencial do seu ministério, e exortamos, igualmente, os fiéis a que mandem seus filhos a essas instruções.

O apostolado da oração e as congregações marianas poderão prestar, sob a direção dos respectivos párocos, ótimos serviços à instrução religiosa.

Procurem todos, pelos meios ao seu alcance, ensinar e praticar as verdades do Evangelho, porque são palavras de vida eterna.

Trabalhemos todos unidos e inspirados no mesmo ideal: a glória de Deus, a prosperidade da Igreja e a felicidade da Pátria. Não sejamos indiferentes, trata-se dos nossos maiores bens. Pois, nos fumos do fogo da mocidade, na plenitude da nossa força, no seio da felicidade, rodeados e atraídos por todas as paixões, pode talvez parecer fácil, com uma palavra aguda, com uma observação aparentemente espirituosa, pôr de lado as graves e grandes questões da vida — Deus, a alma, a imortalidade; mas, a alma indiferente, sem a fé em Deus, está em condição deplorável. Apenas da taça da vida é servido o prazer espumoso, e nada mais resta que fezes turvas e amargas. A vida torna-se para o homem um desgosto, ônus pesado e enfadonho, que de bom grado ele deporia, se ainda mil laços não o prendessem a ela. E depois, a morte lhe abre a porta da desgraça infinita.

Aos católicos desta capital, aos membros do Centro Católico e dos sodalícios religiosos, de um modo peculiar, queremos manifestar os nossos aplausos, e lhes dizemos que fundadas esperanças depositamos na sua ação constante, pronta e disciplinada. À mocidade acadêmica da nossa terra, a qual representa o mais auspicioso futuro, dedicamos um amor todo especial, e lhe repetimos as palavras de um dos nossos poetas: "Alerta, ó mocidade, a Pátria por vós inflama. Erguei-vos, e sem susto lutai com o erro fútil; amai tudo o que é justo, santo, sublime e útil."

CAPÍTULO LXIV

Sobre o jornalismo católico: importância da imprensa católica

Como aditamento ao número precedente, que trata dos meios de combater a indiferença religiosa e de propagar a verdadeira doutrina, escrevemos algumas páginas sobre o jornalismo católico, cingindo-nos a documentos oficiais, como sejam o Concílio Plenário Latino Americano, a Pastoral Coletiva de 1915, uma carta do Santo Padre Pio X dirigida ao eminentíssimo senhor Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro e aos bispos sul-brasileiros em 1910; o Concílio de Quebec, e um livro do P. J. Chiaudano S.J., elogiado por Pio X.

Pensamos, diz o Sumo Pontífice Pio X, dever acrescentar uma recomendação que muito útil vos será para favorecer o zelo dos clérigos e promover a ação popular. Não ignorais, certamente, Caro Filho e Veneráveis Irmãos, qual a força construtora e destruidora dos jornais e periódicos que, graças a seu preço ínfimo, penetram facilmente em toda parte e espalham em cada lugar as suas opiniões. Vedes, mesmo, com os ímpios abusam disso. Desejamos muito vivamente que o vosso zelo pastoral se aplique a fornecer por uma imprensa excelente, uma conveniente nutrição às vossas ovelhas. Não vos faltarão certamente católicos eminentes na doutrina e na virtude. Confinai-lhes a missão de escrever sob a vossa inspiração, com prudência, caridade e respeito às autoridades, como convém aos que assumem o papel de defender os direitos sagrados da verdade e da justiça.

Publicar jornais católicos e pô-los nas mãos das pessoas de bem, não basta; é preciso ainda esforçar-se para espalhá-los tão longe quão possível, fazê-los ler por todos e, principalmente, por aqueles que a caridade cristã ordena arrancar às fontes envenenadas dos maus periódicos.

Assim será que, procurando o reino de Deus e sua justiça, poremos ao serviço do bem, essa arma moderna da imprensa.

CAPÍTULO LXV

O Concílio Plenário Latino Americano

Este Concílio Plenário exorta, com instância, os eclesiásticos e leigos que para isso tiverem os dotes e requisitos e, antes de tudo, piedade e fé provada, para que, todos por sua vez, escrevam, com toda a dedicação, nos jornais católicos, defendam e reivindiquem as doutrinas e os direitos da Igreja, descubram as múltiplas fraudes dos ímpios e refutem a detestável confusão de erros. Esses escritores, porém, pelo mesmo fato de se confessarem católicos e como tais quererem ser considerados, devem prestar inteira obediência à Igreja, e, por isso, hão de respeitar a autoridade dos bispos, aceitar, além disso, seus conselhos, e, se, talvez, em seus escritos se encontrar o que precise de correção, procurarão emendá-lo, com docilidade filial. Quando nesses escritores tudo isso se verificar, tornar-se-ão beneméritos da religião católica e, sem dúvida, receberão de Deus abundante recompensa.

Para a plena consecução deste fim, recomendamos, instantes no Senhor, aos bispos, párocos e fiéis, especialmente àqueles que dispõem de recursos, apoiem e auxiliem, por todos os modos, os jornais, jornalistas e editores católicos, cujas publicações contenham só doutrina sã e ortodoxa.

Seria muito para desejar que cada bispo cuidasse, conforme as necessidades do lugar, que ao menos nas cidades mais importantes da sua diocese houvesse um jornal católico nestas condições, embora não se leia no cabeço a palavra ''católico''. A esse jornal deveria procurar os meios pecuniários conforme julgasse conveniente no Senhor, certo de que católico algum se furtará a auxiliar uma obra de tanta monta.

Os párocos e sacerdotes, de sua parte, procurarão com a devida prudência recomendar a leitura desses jornais, onde o julguem necessário, propagando-os entre os fiéis.

Para que se evitem certos defeitos e abusos que, infelizmente, costumam meter-se no exercício de uma obra tão salutar, pedimos muito a todos e cada um daqueles que estão incumbidos da direção de jornais católicos, procurem impor-se ao povo por sua vida e costumes, fidelidade e constância, modéstia e afabilidade, e pelo desprezo do próprio lucro e comodidade.

E, por isso nas controvérsias, na divergência de opiniões, no calor das discussões, cuidem, sobretudo, que não passem os limites da caridade e da mansidão cristã, nem ofendam a outros com palavras injuriosas ou os julguem temerariamente; nem recriminem, ou mesmo, o que Deus não permita, contrariem, de modo algum, as disposições da autoridade eclesiástica sob qualquer pretexto.

CAPÍTULO LXVI

Conselho de amigo

Para que um jornal seja católico deve evitar os erros em matéria de fé; uma heresia basta para destruir a fé católica.

Não se pode, contudo, exigir que um leigo escreva sobre assuntos religiosos, com a mesma competência de um teólogo formado. Mas, quando um jornalista católico se dirige ao público, este tem o direito de esperar que seja bem informado.

Ou não se reclama o mesmo de outros profissionais? Ninguém levará a mal que um jornalista não conheça matemática e medicina com a proficiência de um engenheiro e de um médico de profissão. Quando, porém, escreve sobre essas matérias nos jornais, exige-se com razão, que o faça com a mesma competência que o matemático e o facultativo.

Numa capital de Estado, um jornal deu a seguinte notícia: Ontem celebrou-se, com toda a pompa, a tradicional festa da Santíssima Trindade, virgem e mártir. Que sandice! Que sandice!

Quando o jornalista católico não tem competência para escrever sobre assuntos religiosos, restam-lhe dois caminhos: ou se cale ou se informe, previamente, de quem o saiba fazer.

Por isso, o sr. Cardeal Richelmy, num documento dirigido ao clero da Arquidiocese de Turim, disse que também leigos talentosos e notáveis pelos seus estudos, raras vezes, tratam de matéria religiosa, sem que cometam algum erro ou inexatidão.

Em certas ocasiões a defesa da religião e a resposta aos seus adversários, é um dever de consciência.

O silêncio significaria a entrada nas fileiras dos inimigos, ou pelo menos, a fraqueza e covardia. Que se diria de um filho que ouvisse as injúrias assacadas ao seu pai e não o defendesse? A imprensa católica é uma escola e, ao mesmo tempo, um campo de batalha, embora de lutas incruentas. Por isso, deve ensinar a sã doutrina, retificar os erros com nobreza, e manejar, com dignidade, as armas da defesa.

Contudo, não obstante o caráter doutrinário da imprensa católica, ninguém é dispensado do dever de ouvir a palavra de Deus e instruir-se pelo catecismo.

Que método deve o jornalista católico seguir, para que seu esforço seja útil à Igreja? A imprensa católica há de ter, naturalmente, um certo grau de combatividade. Como?

CAPÍTULO LXVII

Caráter combativo

Vede um grande exército. Para que possa operar com sucessos, é mister, antes de tudo, que conheça os pontos principais da defesa, como também as posições inimigas que devem ser tomadas, a fim de dirigir para essa direção o ataque mais violento.

Da mesma maneira, no jornalismo católico, é necessário saber quais as verdades que devem ser esclarecidas e os erros que exigem refutação.

Sobretudo, está claro que sejam tratados, em primeira linha, aqueles pontos que encerram as verdades fundamentais, que não podem ser abaladas, sem que baqueie todo o edifício da religião.

Tais verdades são, por exemplo, a existência de Deus, sua providência, a criação do mundo, a espiritualidade e imortalidade da alma, a divindade de Jesus Cristo, a moral cristã, a fundação divina da Igreja Católica e o Primado do Sumo Pontífice.

Ainda mais, na guerra dirige-se a atenção, de um modo especial, para os pontos chamados estratégicos, que, uma vez conquistados pelo inimigo, lhe garantem a vitória, porque com a tomada dessas posições, as demais não se podem sustentar.

Pela mesma razão, é de suma importância que a imprensa católica não deixe passar ocasião oportuna, sem que refute os sistemas contrários às verdades acima indicadas. Por exemplo, o materialismo nas suas variadas formas, o evolucionismo, o racionalismo, o indiferentismo, o espiritismo, o teosofismo, etc.

Mais, na guerra procuram os soldados, com todo o esforço militar, defender e fortificar aquelas posições a que o inimigo dirige sua atenção e contra as quais investe com todas as suas forças. O motivo desse procedimento é óbvio. Por serem aquelas posições expostas a toda a violência do inimigo, devem ser fortificadas de modo especial. Uma guarnição fraca, com facilidade, seria vencida pelo inimigo.

O mesmo se dá em nosso caso. Na luta contra os inimigos da religião, deve a imprensa católica defender, de maneira particular, aqueles pontos da fé que principalmente em nossos tempos são agredidos.

Por isso, é necessário que os jornalistas católicos conheçam as encíclicas dos Sumos Pontífices e as Pastorais do Episcopado.

CAPÍTULO LXVIII

Autoridade do jornalista católico

Como num exército, requer-se a disciplina espiritual na imprensa católica. Os superiores eclesiásticos, os bispos e o Papa, traçam, portanto, as normas gerais aos jornalistas, que, em casos particulares de certa importância, lhes peçam conselho e orientação.

Não é exato afirmar que um assunto por ser político se subtraia à autoridade da Igreja, porque pode considerar-se sob ponto de vista político e moral, e, neste último caso, compete sua solução aos superiores eclesiásticos. De mais a mais, não é da conta dos súditos determinar até que ponto vão as atribuições dos superiores.

Contudo, estes não querem determinar todas as questões até nos seus detalhes. Não! Como o soldado que recebeu ordens do seu comandante, deve o jornalista católico agir nos pormenores, e, por isso, é necessário que seja dotado de prudência, moderação, caridade e circunspecção.

Acontece, não raras vezes, que um zelo intempestivo se apodera do jornalista católico e, como outrora os filhos de Zebedeu, querem chamar fogo do céu sobre todos os adversários! Esse não é o verdadeiro espírito cristão. Condene-se o erro, mas trate-se, dignamente, o adversário. Nas questões certas: unidade, nas duvidosas: liberdade, em todas: caridade.

Outras vezes, o jornalista, pessoalmente católico, pensa que tudo quanto escreve seja a voz do jornalismo católico e da Igreja. Julga, critica e censura, num tom de infalibilidade, os atos e escritos, não só dos leigos, mas também dos prelados, como se fosse colocado pelo Espírito Santo para reger a Igreja de Deus. Há nisso um lamentável engano e dizemo-lo, com franqueza, uma desairosa presunção; pois, das sagradas letras não consta que os jornalistas, embora católicos, façam parte da Igreja docente. Esse mal tem prejudicado, enormemente, o jornalismo católico de nosso país.

É, por esse motivo, que os senhores bispos declararam, na Pastoral Coletiva de 1915: "os escritores ou jornalistas católicos, em particular, devem-se lembrar que a missão de ensinar e dirigir os povos e as nações foi confiada, por Jesus Cristo Senhor Nosso, aos apóstolos e aos bispos seus sucessores''.

Não se proíbe que cada um manifeste seu parecer pessoal em certas questões. Mas, então subscreva seu artigo, não fale em nome da imprensa católica, ou como se fosse comissionado por todos os católicos, que, em geral, não lhe passam procuração para tanto.

Como ''católico'' significa ''universal'', é de todo razoável que os jornais católicos que se publicam em língua que não seja a nacional, não restrinjam o seu noticiário religioso a fatos de sua respectiva nacionalidade, e observem, no mais, as leis do país e das prescrições da Igreja.

CAPÍTULO LXIX

O Concílio de Quebec, Canadá

Este concílio resumiu os deveres do jornalismo católico, mais ou menos da maneira seguinte: 1º É preciso julgar os adversários com caridade, moderação e consideração, porque o zelo da verdade não desculpa a violência da linguagem. 2º É preciso julgar os adversários com imparcialidade e justiça como cada um mesmo quereria ser julgado. 3º Não se deve apressar em condenar a ninguém, antes que tudo seja bem examinado. 4º Deve-se interpretar em bom sentido o que for duvidoso, abster-se de escárnios, sarcasmos, de suposições deprimentes e de acusações infundadas. 5º Toda vez que se trata das autoridades eclesiásticas ou civis, deve ser a linguagem comedida e respeitosa. 6º Não se deve citar perante o tribunal, sempre incompetente, da opinião pública, as instituições que têm os bispos por seus protetores e juízes natos. Acrescente-se a isso que os sacerdotes, ainda mais os bispos, no exercício dos seus cargos, são inteiramente independentes da opinião pública e só devem prestar contas aos seus superiores hierárquicos (Vide pastoral do episcopado de Quebec, 22 Setembro de 1875).

Napoleão I distinguia com o título de Conselheiro imperial alguns jornalistas. De fato, os jornalistas católicos merecem ser distinguidos, merecem todo o louvor, pela nobreza e utilidade de sua missão. E nós não lhes regateamos nossos aplausos e apoio, uma vez que observem as nossas determinações.

Desejamos, de coração, aos jornais católicos que se publicam, nesta arquidiocese, nas três línguas principalmente aqui faladas, prosperidade e longa vida. E empenharemos nossos melhores esforços, para que, o mais breve possível, se publique, nesta capital, um diário católico, em vernáculo, para o qual desde já pedimos o auxílio eficaz dos reverendos sacerdotes e dos fiéis em geral.

CAPÍTULO LXX

Epílogo: Mane, Thecel, Phares

Babilônia. Feericamente iluminado estava o palácio real. O poderoso rei Baltazar celebrava, em companhia da rainha e dos cortesãos, um opíparo banquete. Comem, bebem, brincam, dançam.

E quando o sangue lhes fervia nas veias pela ação de vinhos capitosos, chegou ao delírio à sua culminância. Baltazar pediu então os vasos sagrados, de ouro e prata, roubados no templo de Jerusalém e os manda encher de vinho espumante.

Ele bebe e seus hóspedes bebem, a largos haustos, bendizendo cada qual os seus ídolos. De repente apareceu uma mão misteriosa que traçava na parede que defrontava com o rei, estas palavras: Mane, Thecel, Phares.

Emudeceu o rei com todos os seus cortesãos, e, cheio de susto e temor, mandou chamar todos os adivinhos, e a sua angústia aumentou ao ver que nenhum deles soube decifrar aquelas palavras. Por ordem do rei foi também chamado o profeta Daniel, que as explicou dizendo: Mane: Deus contou os dias do teu reino; Thecel: tu foste pesado, e achado demasiadamente leve; Phares: o teu reino será dividido e dado aos persas.

Todos empalidecem e tremem. A trombeta bélica ecoa pela calada da noite, guerreiros, de espada em punho, precipitam-se no palácio. A sentença divina foi imediatamente executada. A Babilônia foi conquistada, o rei foi morto e o seu reino dividido entre os medos e persas. Onde momentos antes reinavam os prazeres, a lascívia e a orgia, havia depois só cadáveres, sangue – a morte.

Deixamos aos nossos leitores a aplicação deste fato histórico! Aí, tendes a Europa enlutada – antes da guerra e agora durante a terrível conflagração! Quem não lerá nos horizontes europeus aquelas tremendas palavras: Mane, Thecel, Phares?!

Não permita Deus que o Brasil se babilonize e essa sentença se verifique quanto à querida Terra de Santa Cruz! Não; não o permitirá!

Seja como for. Os povos, como os indivíduos, afastados da lei de Deus, cedo ou tarde serão julgados: ''Sua memória perece com ruído''.

CAPÍTULO LXXI

Fim

Terminamos. Seja lida e registrada esta nossa Carta Pastoral conforme ordenamos em nossa primeira.

Rogamos a Deus abençoe esta singela exposição de verdades fundamentais em benefício do distinto clero e diletos fiéis desta nossa amadíssima Arquidiocese.

Benedictio Dei Omnipotentis Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.

Dada e passada em Porto Alegre, em 13 de Setembro de 1916, oitavo aniversário da nossa consagração episcopal.

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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