SOBRE AS ESCOLAS PAROQUIAIS

SEGUNDA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, BISPO DIOCESANO DE FLORIANÓPOLIS (Florianópolis, 1909)

Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo Diocesano de Santa Catarina. 

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da Diocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.  


CAPÍTULO I

Um ano de governo episcopal

Completa-se hoje, 12 de outubro, um ano desde que assumimos o governo desta dileta Diocese de Florianópolis. De brilhantismo deslumbrante revestiu-se o ato solene da posse, assim como imponente e grandiosa fora, no dia anterior, a nossa recepção.

Descrever, neste momento, as carinhosas demonstrações de apreço e consideração de que fomos alvo, recordar as magníficas festas de regozijo e júbilo que, naqueles inolvidáveis dias, esta capital presenciou, seria tarefa inútil, porquanto sua lembrança vive ainda bem nítida e expressiva na memória dos distintos habitantes deste Estado; por isso, tão somente a todos queremos reiterar os nossos mais sinceros agradecimentos.

Sim, hipotecamos nossa perene gratidão por todas as finezas e delicadas atenções que nos foram dispensadas no decurso deste primeiro ano do nosso governo episcopal, ao benemérito Governo Estadual, ao nosso respeitável Clero secular e regular, às dignas autoridades militares, federais, estaduais e municipais, bem como a todas as Irmandades, Ordens Terceiras, ao Apostolado da Oração, às Congregações de Religiosas e Congregações Marianas, à ilustrada imprensa desta capital e estado, à Sociedade de São Vicente de Paulo e Associação de Damas de Caridade, e ainda a outros sodalícios religiosos e sociedades profanas que nos honraram com alguma deferência.

Procurando vencer as dificuldades iniciais que uma nova diocese oferece, encetamos, sem demora, as visitas pastorais, a fim de conhecermos as necessidades espirituais dos fiéis e podermos exercer, com mais proveito para as almas e maior glória para Deus, o nosso múnus episcopal.

Assim é que, depois do lapso de um ano, já percorremos, em viagens demoradas e fatigantes, grande parte deste Estado, e sentimos a consolação de conhecer a maior parte de nossos queridos filhos espirituais. E, depois de feita a visita às paróquias da Serra, ainda neste mês empreenderemos outras; faltar-nos-á pouco para haver visitado todo o rebanho confiado a nosso cuidado.

Em nossas visitas, tivemos ocasião de admirar a fé florescente e a piedade profunda deste nosso povo catarinense, e não menos observamos, com verdadeira satisfação, a inteligente atividade e os profícuos trabalhos apostólicos dos nossos dignos cooperadores, os reverendos sacerdotes de nosso clero secular e regular. Mais de uma vez levantamos o nosso olhar ao céu, agradecendo ao Senhor, do íntimo de nossa alma, a visível proteção que Ele tem dispensado aos nossos caros diocesanos, e em preces fervorosas suplicamos ao Divino Espírito Santo novas luzes e graças para continuarmos a difícil missão que Ele nos cometeu.

Por toda parte, temos visto os luminosos efeitos da competente administração do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom José de Camargo Barros, de saudosa memória, bem como os resultados benéficos conseguidos pela louvável e enérgica ação do Excelentíssimo e Reverendíssimo Dom Duarte Leopoldo e Silva, ambos nossos insignes predecessores.

E não menos temos observado que, de fato, relevantes serviços prestaram à Igreja Brasileira os ínclitos Núncios Apostólicos Monsenhor Júlio Tonti, Arcebispo de Ancira, e Monsenhor Alexandre Bavona, Arcebispo de Farsália, assim como nosso eminente Ministro junto à Santa Sé, Dr. Bruno Chaves, contribuindo com o brilho de seu prestígio e o esforço de sua vontade para a criação desta diocese.

CAPÍTULO II

Luzes e sombras

Entretanto, como nos quadros mais belos há luz e sombras, encontramos em nossas visitas muitos trabalhos e espinhosas dificuldades a resolver. A fundação de escolas católicas é objeto dos nossos maiores cuidados. Existem, é verdade, em muitas paróquias boas escolas, dirigidas com zelo e dedicação pelos respectivos párocos, conforme as determinações e ordens emanadas do Concílio Plenário Latino-Americano e Cartas Coletivas das Conferências Trienais dos Senhores Bispos das Províncias Eclesiásticas Meridionais.

É por este motivo, irmãos e filhos caríssimos, que vos dirigimos esta carta pastoral, desejando recordar-vos a importância e a natureza das escolas primárias paroquiais, dirigidas pelos curas das almas.

CAPÍTULO III

A missão da escola católica

Diz, com muito acerto, a primeira pastoral coletiva que a educação é a base da felicidade temporal e eterna do indivíduo, o mais poderoso fator da vida e prosperidade dos povos, esperança e força da Santa Madre Igreja.

Bem quiséramos nós dizer, com relação a cada um dos meninos desta Diocese, aos nossos dignos Cooperadores, o que outrora a princesa egípcia pediu à mãe de Moisés, entregando-lhe o recém-salvo: "Toma este menino e cria-o".

Pois, sendo atualmente leigo o ensino oficial e livre o ensino particular, compete a nós, Bispos e Sacerdotes, promover e patrocinar a educação religiosa da infância e da mocidade.

É exato que os pais são os educadores natos dos seus filhos, que devem receber no lar paterno a primeira instrução; mas, por ser impossível completar-se a educação na família, assiste à Igreja o direito — direito sacrossanto e inalienável — de educar os filhos de pais católicos na sua religião.

Como, porém, não se pode separar o ensino religioso da instrução e educação, impõe-se a necessidade imperiosa do estabelecimento e manutenção de escolas paroquiais.

Suposto que o homem fosse unicamente criado para fruir a vida presente, a escola desempenharia cabalmente sua missão se desenvolvesse as faculdades naturais do menino, procurando afastar dele os males físicos e cooperando para o desenvolvimento de sua beleza e outras qualidades corporais.

Se Deus não impusesse aos homens uma lei moral, que deve ser observada por todos, e se não houvesse juiz eterno, pouco importaria que a infância ficasse abandonada, ou não, à mercê dos seus instintos e inclinações naturais.

E quando, por acaso, o conhecimento das ciências, letras e artes constituísse o ideal do gênero humano, poder-se-ia dispensar, facilmente, o ensino religioso.

O povo fiel, porém, sabe que, pela graça do divino Salvador, fomos destinados à vida sobrenatural, e que, pelo batismo, nos tornamos filhos adotivos de Deus, com direito à vida do céu.

Por isso, deve o menino ser educado segundo a doutrina de Jesus Cristo, de tal forma que se possa santificar neste mundo como digno instrumento divino, cooperando para o bem da sociedade humana e glória de Deus, e alcance, um dia, como herdeiro do céu, a vida eterna.

CAPÍTULO IV

O verdadeiro sentido da educação

Educar, no sentido da palavra, significa conduzir o homem, pobre quanto ao corpo e à alma, de perfeição em perfeição, para que atinja, em toda a plenitude, a dignidade e nobreza divina que o Senhor lhe destina.

Educar significa dirigir, formar e proteger cuidadosamente as qualidades físicas, bem como as faculdades da alma do menino, de sorte que estas possam se desenvolver na mais bela harmonia.

O pobre e débil filho da terra transforma-se no ser mais nobre do mundo, ser que na sua alma leva impressa a imagem de Deus e, como dominador da natureza, aparece no universo.

O homem deve ser educado não somente para o mundo, mas também para Deus e a eternidade, e nisto consiste a importância da educação e sua incomparável dignidade.

Pois a vida humana não abrange apenas um curto espaço de tempo; não, sua duração é eterna.

A terra é um lugar de preparação, cujo fim e consumação é o céu. Deus, que nos deu a vida, determinou, em sua sabedoria, que só pela luta alcançaremos a coroa. Para essa luta deve ser fortificado o corpo e armada a alma; eis o fim da educação.

Quereis ainda conhecer mais a importância dessa missão? Considerai o valor da alma! A fim de salvar os homens, Deus "não poupou o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou".

Jesus Cristo fundou sua Igreja, confiando-lhe as verdades que trouxe do céu. Nela abriu as fontes de graça para purificar e nutrir as almas. Entregou-lhe o tesouro infinito dos seus merecimentos, o preço da sua sagrada paixão e morte de cruz, para que todos, pela graça do renascimento, fossem filhos de Deus e herdeiros da glória futura.

A educação cristã deve conferir aos meninos os tesouros da verdade, da graça e da salvação; deve introduzi-los no pleno gozo dos bens celestes.

CAPÍTULO V

A pedagogia pagã e seus perigos

Daí podemos inferir e avaliar o erro pernicioso do sistema de modernos educadores que vão buscar seus ideias e princípios na pedagogia pagã.

Parece, diz um escritor da atualidade, que os nossos pedagogos escolheram para o seu ideal os educadores gregos. A formação física, cujos fatores principais eram a ginástica, a corrida, a luta, a natação e a equitação, com algum exercício de música e habilidade de recitar, absorvia todos os cuidados e momentos dos atenienses, fiéis à palavra de Platão: a ginástica para o desenvolvimento físico e a música para a cultura intelectual.

Quem dançava e declamava com elegância, quem possuía dotes para conversar e replicar com inteligência e crítica, era reputado homem distinto e sábio.

Apesar de todas as suas escolas de filosofia, reduziu-se, em geral, sua cultura a meras exterioridades, cujo conhecimento era suficiente para que alguém tivesse franco ingresso na alta sociedade e o direito de manifestar seu parecer nos círculos em que brilhavam as sumidades científicas.

Eram considerados modelos de educação intelectual aqueles que tocavam cítara e flauta, que proferiam em voz sonora versos com que Homero e Hesíodo cantaram as aventuras pouco morais de Júpiter e Vênus e repetiam algumas sentenças tiradas de poetas gnômicos, sabendo, além disso, algo de escrita e um pouco de desenho.

É lamentável o fato de observar-se essa relação íntima, essa semelhança tão acentuada entre a pedagogia pagã e a moderna, que se ufana e glorifica haver voltado ao ideal da antiguidade, e ter-se desprendido da influência e espírito do cristianismo, afirmando, temerariamente, ser a escola emancipada de Deus o único caminho da verdadeira cultura e civilização.

Dói-nos o coração, Irmãos e Filhos caríssimos, quando lemos ou ouvimos dizer que o ensino do catecismo deve ser banido da escola. Que tem, assim dizem, a religião cristã com a educação? As orações e fórmulas de fé são um tormento para espíritos adiantados.

O ensino sem religião urge que seja ministrado não só na escola, mas também aos selvagens.

Ingratidão! A doutrina de Jesus Cristo civilizou o mundo e arvorou no Brasil o estandarte da liberdade e do progresso, sendo que agora muitos se esforçam para que ela ceda o lugar de sua supremacia a uma ciência pretensa.

Não condenamos, de forma alguma, a ciência genuína, que não nos põe obstáculos a fins mais elevados e nobres. Não negamos que a educação racionalista, a par de doutrinas perigosas e inúteis, ensine igualmente muitas excelentes; não possui, porém, os predicados da sã pedagogia.

Com efeito, a educação cristã visa outros fins, descortina horizontes mais amplos, mais luminosos, e disto não fazemos mistério.

Onde a Igreja pode agir com liberdade, liga ela a maior importância, na educação do homem, primeiramente ao conhecimento das verdades da fé e à prática da religião, por consistir sua intenção primacial em despertar, aguçar e formar o espírito, sem, entretanto, negligenciar a formação da vontade ou coração.

O racionalismo pedagógico, tão orgulhoso quanto pobre de ideias, pretende destruir a ideia do sobrenatural, negando o dogma do pecado original, a origem divina de Deus, a Divindade de Jesus Cristo, assim como a missão salvadora da Igreja.

A pedagogia humanista impugna todo o sentimento cristão; ri-se dos pais que dizem aos filhos que o pão quotidiano é uma dádiva da benevolência de Deus, assim como quando declaram ser justo que o homem conserve sua saúde e se fortaleça para melhor servir a Deus e cumprir seus deveres. Considera o procedimento da Igreja reprovável quando ordena preces para implorar a proteção do céu contra o perigo dos raios, da seca e terremotos, zombando da linguagem do povo fiel que chama o trovão a voz de Deus.

Esse modo de ensinar compreende-se facilmente, tratando-se de um sistema que, embora não negue a existência de Deus em absoluto, proscreve a intervenção divina nas leis naturais, supostas imutáveis.

A pedagogia moderna, inspirando-se em tais princípios errôneos, forceja por sufocar nos meninos a fé nascente, os primeiros sentimentos sobrenaturais, os divinos germens da religião.

CAPÍTULO VI

O racionalismo educacional

Sucede, assim, que um menino, depois de frequentar alguns anos a escola, zomba de sua progenitora ao vê-la fazer o sinal da cruz quando o relâmpago sulca as nuvens. "Mas, meu filho — diz ela — não vês que Deus te ameaça, se o ofendes?" "Ah — responde o menino inexperiente — o professor disse que isso não é verdade, que só os velhos têm essas crenças, porque não sabem de que maneira se forma a tempestade." "E tu o sabes?" "Naturalmente que eu o sei — exclama o pequeno — e começa a relatar tudo o que sabe: 'A tempestade é um choque atmosférico acompanhado de descargas elétricas, choque de que resulta a condensação rápida do vapor da água contido no ar."

Para as vítimas desta sabedoria escolar, a vida não é outra coisa que o resultado de todos os fenômenos que se designam com o nome de assimilação e dissimilação.

O único fim que se propõe a tomarem alimentação consiste em favorecer a formação de novos tecidos e cuidar para que o oxigênio destrua os alimentos ingeridos e procure meios de respiração.

Satisfeitos com este resultado e cheios de orgulho, esfregam muitos professores modernos as mãos e, infelizmente, muitos pais não podem conter sua alegria, vendo a magnífica educação que recebem seus esperançosos filhos.

E quem poderá qualificar este método de educação? Supondo que o menino compreenda essa terminologia da escola e essas frases retumbantes, qual é o proveito que daí aufere? Pouco ou nenhum.

Aprendeu muitas palavras — palavras sábias, palavras obscuras — nada, porém, aprendeu do que a coisa é em si mesma; adquiriu conhecimentos superficiais.

Apesar do ar europeu e das ares de erudição, este sistema educativo desvirtua por completo sua missão. Muito falam os discípulos e pouco compreendem.

Ouvem tocar os sinos na lua e veem crescer a erva no campo; sabem exatamente o que Júpiter e Juno fizeram e como nossos antepassados, quando ainda eram gorilas, comiam pinhões.

Entretanto, Irmãos e Filhos caríssimos, quem é que ensina a esses meninos o que é preciso praticar para que sejam felizes eles mesmos e tornem felizes os outros? Quem lhes diz que a vaidade é perigosa e que a imoralidade é um pecado moral, que as misérias do homem provêm de sua avidez por prazeres e seu descontentamento da tendência de não se privar de nenhuma satisfação, de não mortificar seus sentidos, nem oferecer sacrifícios a Deus? Não seria isto de mais vantagem e utilidade?

Não é possível que os pedagogos eduquem a infância e a mocidade simplesmente pelo ensino da história natural, da astronomia, da mitologia, da anatomia. Que lucro oferecem à sociedade as escolas sem Deus e hostis à religião, onde os alunos são iniciados na leitura dos poetas e nas ciências profanas, com detrimento do ensino das verdades mais importantes e salutares? Preparam porventura cidadãos mais morigerados, súditos mais obedientes, jovens mais castos e donzelas mais virtuosas, operários mais honrados e donas de casa mais sábias?

Os fatos ensinam o contrário. E, não rara vez, senhoras e cavalheiros distintos queixam-se amargamente, dizendo que essa não fora sua educação e que os efeitos deletérios do ensino sem Deus se manifestam desastrosamente.

O espírito do cristianismo deve vivificar e inspirar a educação, como a luz do sol à natureza, elevando a inteligência e dirigindo os afetos do coração humano a Deus, que é a única causa e o único fim de tudo quanto existe.

Dizemos, Irmãos e Filhos caríssimos, que na escola deve formar-se o coração, bem como a inteligência e o caráter do homem. Repetimos que os afetos do coração devem dirigir-se a Deus, fonte de todo o bem, de todo o amor, para que os desejos se acrisolem e a vontade se fortifique.

A história universal apresenta em cada página fatos que revelam a debilidade moral do homem. São as guerras, as revoluções no meio dos povos, as discórdias nas famílias, as desgraças individuais.

Os poetas, desde Homero até ao presente, vendo que a glória não passa de uma ilusão e a beleza de uma sombra, consideram este mundo um mar inesgotável de amargura, cheio de tempestades.

Como no outono um surdo estremecimento corre através das folhas amareladas das árvores, assim milhares de corações vacilam, tremem, suspiram. Como no verão a poeira revolteia nas estradas, como as águas no lago se agitam ao aproximar-se a tormenta, e as obras-primas da arquitetura são destruídas por um tremor de terra: assim o homem labuta, corre, se eleva e cai precisamente no momento em que seu poder e esplendor parecem atingir o apogeu.

Com efeito, a debilidade humana é grande. E qual é a sua causa? A pedagogia racionalista não sabe responder. É preciso que recorramos à religião, que, apresentando os anais da humanidade, nos mostra a causa única dessa enfermidade lamentável e universal, que é o pecado original, fato real que ofuscou a inteligência e debilitou a vontade humana.

Muitos modernos procuram negar esta verdade, como já tivemos ocasião de dizer; ela, porém, é a única explicação fidedigna da origem da fraqueza humana.

Não foram os inimigos externos que derrubaram os impérios mundiais com suas civilizações; os mesmos impérios foram a causa de sua destruição.

A falta de energia moral, a carência de força de vontade fez cair a cidade de Roma, Atenas, Babilônia, Persépolis, Constantinopla. Claro está que ninguém, sem o conhecimento íntimo e perfeito da natureza humana, poderá sanar seus defeitos e prevenir as consequências funestas provenientes de sua decadência moral.

A fé nos mostra as feridas existentes na natureza humana, e aplica-lhes com mão segura os curativos necessários. As chagas de que falamos são a concupiscência dos olhos, a concupiscência da carne e a soberba da vida.

Para que o homem possa dominar as paixões e vencer suas tentações, deve guiar-se por princípios superiores, deve reconhecer seu destino, lembrar-se da imortalidade de sua alma, do juiz eterno, da recompensa futura, dos castigos sem fim além-túmulo; deve possuir a graça de Deus, cujo auxílio vence todas as dificuldades; deve observar os mandamentos da lei de Deus e da Igreja, fazer oração e receber os Santos Sacramentos, a fim de alcançar as graças necessárias.

Pois bem, é na escola popular que o homem deve beber estes conhecimentos e começar a exercitar-se nas práticas das virtudes, de maneira que se acostume desde a infância às lutas e mais tarde não sucumba aos ataques dos inimigos de sua natureza.

A moral sem Deus, Irmãos e Filhos caríssimos, é verdadeiramente um edifício sem alicerces, não possui o poder curativo das almas. A escola sem Deus é um mal cujas consequências não se podem medir. Pobres crianças que, em vez de aprenderem as verdades consoladoras da fé, veem-se obrigadas a ouvir as doutrinas mais disparatadas!

Como pode o homem ter uma suprema norma de agir se a pedagogia anticristã lhe ensina que não há Deus, nem alma imortal, nem distinção entre o bem e o mal, nem liberdade moral, nem responsabilidade; que o cérebro segrega o pensamento à semelhança de outras funções fisiológicas; que a virtude e o vício são produtos como o açúcar e o cacau; que não há outro Deus que não seja aquele que cada homem para si forja e que tira de si mesmo como a aranha sua teia? Continua a ensinar que todas as paixões humanas são naturais e que todo o natural é bom, que a moral é questão de instinto e que a consciência não passa de um mecanismo mui simples que desmonta qual retorta.

Os frutos que sazona a escola sem Deus, a pena magistral de Alfred de Musset os descreve: "Quem jamais se atreve a relatar o que então acontecia nas escolas? Os professores duvidavam de tudo e os discípulos tudo negavam. Os poetas cantavam a desesperação e os alunos saíam das escolas com a fronte serena, o rosto loução e a blasfêmia nos lábios.

Os corações miravam-se como flores feridas no caule. Jovens de quinze anos, sentados pesarosamente à sombra de arbustos floridos, entretinham-se pensando em praticar coisas que faziam tremer de horror os bosques imóveis de Versalhes.

Ditosos os que tenham podido escapar de tais tempos! Felizes os que tenham passado por sobre tais abismos, contemplando o céu. Não os faltaram certamente e estes terão compaixão de nós."

Lembrai-vos, em boa hora, pais cristãos, dos vossos deveres e confiai os vossos filhos a escolas cristãs conforme os desejos e ordens dos vossos Bispos e Superiores: educai os vossos filhos para a vida e eternidade, para que não tenhais de lamentar sua desgraça, presente e futura.

Se, na primeira vez que se advertia ardente no cimo do Vesúvio, a gente se tivesse alarmado e tivesse fugido, não teriam desaparecido milhares de pessoas das famosas cidades de Herculano e Pompéia, debaixo de um mar de fogo e camadas de cinzas, e o viajante que hoje, assombrado, visita as ruínas produzidas por aquela terrível catástrofe, não teria lido sobre aquelas pedras as palavras: "Preste atenção, ó pósteros, que se trata do vosso bem."

Quem não encara esta vida como vestíbulo da eterna não triunfa.

As belas flores de retórica e filosofia que, hoje em dia, se desfolham sobre a dignidade do caráter, a sublimidade da virtude e do patriotismo, a abnegação por um ideal, não produzem efeito senão efêmero, não reprimem por muito tempo as más inclinações, nem levam verdadeiro entusiasmo ao coração.

Esses esforços todos são débeis, improdutivos e frios, desde que se trate de enfrentar sérios sacrifícios — são brancas neblinas que o vento dispersa.

E não admira! A vida é breve. Sempre vencer-se, continuamente sacrificar suas tendências pessoais, imolar seu próprio eu, enquanto os outros passam a vida agradável e divertida: é, certamente, uma carga por demais pesada, um ônus insuportável.

Não ousamos contradizer: quem não conhece senão a vida presente não pode resistir aos encantos e tentações do mundo.

Quando, porém, no firmamento da nossa existência brilha a luz da fé, que nos importa a brevidade de uma vida, aliás cheia de sacrifícios, sabendo que, um dia, ressuscitaremos para outra vida, onde seremos recompensados pelas nossas fadigas e eternamente felizes?
Não importa que o mundo cético despreze nossas dores e enfermidades, visto que a menor vitória sobre nossa relutância nas mortificações aumenta nosso valor no céu, onde não há erro nem misérias.

O juízo falaz dos homens não incomoda os cristãos, porque confiam na sentença do Juiz Supremo, que, no dia final, determinará nosso valor segundo as forças por nós empregadas e a intenção que animava nossas obras, desprezando o vão colorido das palavras.
Não decidirá nem o número, nem a grandeza, nem o brilho das obras, mas unicamente seu valor. Na balança da justiça infalível será pesada cada obra e provada pelo fogo, até que se revele o que na realidade vale.

Os grandes sábios, como Aristóteles, Kepler e Pasteur; os conquistadores do mundo, como Alexandre Magno e Napoleão Primeiro; as nações civilizadas, como as tribos incultas; os povos que brilharam pelo seu poder, pela indústria e pelas artes — todos, enfim, apresentar-se-ão ao mesmo tribunal, como o pobre e o ignorante. Todos serão julgados, porém nem todos ouvirão a mesma sentença; nesse dia haverá perfeita igualdade e justiça.

Estes princípios, Irmãos e Filhos caríssimos, ensinados na escola com critério e método, são o penhor de uma boa educação, formam a vontade, blindam o coração humano contra o desenfreado das paixões e traçam-lhe uma norma certa de vida.
Não se obtém a vitória sobre as más inclinações, nem se conserva ou corrobora a força de vontade, quando a vida não se encaminha pelas doutrinas da fé cristã. A graça de Deus, se com ela cooperamos, constitui o segredo da nossa força.

Oferecemos nossa fraqueza, à qual Deus junta seu poder, e do consórcio destes dois elementos — humano e divino — nasce uma obra perfeita: o cristão, um homem completo.
Por meio da fé, recebemos a força de Deus; pelas obras, devolvemos ao Dispensador de todo o bem o que nossa pobreza lucrou com os talentos que nos foram emprestados.
Com a fé Deus coloca em nós a base sobre a qual edificamos a virtude. A doutrina de Jesus Cristo tempera nossas forças, é um rochedo que resiste aos embates das teorias estéreis do filosofismo e da pedagogia incrédula; é um farol cintilante, que ilumina os fiéis e inspira aos cristãos tal poder, e anima os que suspiram por padecimentos e sacrifícios.

Com essa fé divina, empreendemos, cheios de alegria, a viagem desta vida. Verdade é que o mundo é um mar borrascoso; porém Deus é nosso piloto. A cruz de Jesus Cristo é o mastro — forte e inquebrantável. As boas obras são remos excelentes, e o Espírito Santo é o vento que conduz, com segurança, o batel ao porto de salvamento. A viagem tem por termo a Pátria celeste, onde Deus será a nossa recompensa.

Acresce que, na escola, se forma o caráter do menino, tarefa difícil e morosa.
Os meios educativos da Religião estendem-se eficazmente a todas as faculdades humanas, fato que decorre do condão de preparar caráteres omnidirecionalmente perfeitos, caráteres inflexíveis à debilidade e intensos à obstinação.

O mundo, não o negamos, obedecendo a princípios humanos, forma também caráteres respeitáveis e dignos de imitação em muitos sentidos; são, na sua maioria, porém, incompletos porque lhes falta um modelo perfeito.

Mas um modelo da mais alta perfeição temos nós, na pessoa excelsa de Jesus Cristo, Deus e homem simultaneamente. Ele possui todas as virtudes em grau infinito. Por isso torna-se mais fácil para o cristão a formação do caráter do que para qualquer outro que nunca teve a ventura de conhecer ao Senhor ou que teve a desgraça de o perder.

Aos pagãos, cujas divindades representavam todas as paixões e vícios, faltava um ideal supremo, um modelo perfeito e sem mácula, em que pudessem ver claramente e de maneira viva aquilo que pressentiam de modo vago e obscuro.

O mesmo sucede aos educadores modernos quando perdem de vista o ideal do cristianismo, querendo paganizar a escola.

A escola católica antepõe aos olhos da infância e da mocidade a figura empolgante do divino Salvador, o Amigo da infância, apresentando-lhe, na sua incomparável imagem de doçura e grandeza, um caráter que sintetiza a plenitude de graça, formosura e força.
Vendo e estudando os meninos esse modelo sublime, recebem os mais salutares incitamentos.

Seus corações, ainda não sujeitos ao domínio das paixões e acessíveis a todo o bem, guardam essas impressões durante toda a vida.

Não permita Deus que a querida infância e mocidade de nossa Diocese jamais olvidem o divino Redentor, pelo qual devem modelar suas intenções, seu caráter e sua vida.

Ele reflete todas as perfeições, como o arco-íris as cores da luz; é um sol de santidade, que ilumina, conforta, dirige e encanta.

Na sua escola formam-se os caráteres mais notáveis, os heróis do cristianismo que chamamos santos e os quais, embora transferidos para a eternidade, norteiam, quais estrelas brilhantes, o homem pela estrada da virtude e do dever.

Oxalá, Irmãos e Filhos caríssimos, todos compreendessem a importância capital das escolas paroquiais, cujo fim consiste em preparar o homem para a vida presente e futura, cristãos segundo o modelo humano-divino, cujo nome levam desde que lhes foi administrada a água batismal.

A humanidade tem sentido suficientemente a veemência de suas desgraças, agindo abandonada ao único impulso de suas forças.

Quando o homem se considera seu próprio original e modelo, acabará por tornar-se uma caricatura.

Sirvam-nos de lição as desgraças do mundo e o pequeno número dos que viram coroados seus esforços de feliz êxito.

À medida que o homem se aproxima de Deus, aperfeiçoa seu caráter. Por isso, depois de havermos levado em nós a imagem do homem terreno, esforcemo-nos por levar a imagem do homem celestial.

Apresentai, dignos chefes de família, aos vossos filhos, em casa e na escola, a imagem divina de Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida.

A missão de instruir, Irmãos e Filhos caríssimos, todos os povos a Igreja recebeu de Cristo, quando Ele disse aos Apóstolos e seus sucessores: ''Foi-me dado todo o poder no céu e na terra; ide, pois, instruir a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado; e eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos''.

Cristo fundou, pois, a Igreja que perpetua sua missão na terra. Seguindo o exemplo de seu divino Mestre, a Igreja reúne em torno de si a infância e a mocidade, dispensando-lhes, em escolas especiais, sua solicitude maternal, porquanto não se pode completar a educação na família e no templo.

Quem voltar um olhar atento às páginas da História eclesiástica verá claramente que os Papas, os Bispos e o clero em geral, já no alvorecer do cristianismo, começaram, como ainda continuam, a promover a instrução do povo.

No princípio da Igreja, vemos escolas fundadas em Éfeso por São João Evangelista, em Esmirna por São Policarpo, assim como em Alexandria, Antioquia e Constantinopla.
Depois da invasão dos bárbaros do norte da Europa, salvaram os monges e eclesiásticos os restos das ciências, artes e letras que sobreviveram a esse tremendo cataclismo, e erigiram igrejas, catedrais e matrizes; nos mosteiros das cidades e do campo, estabeleceram escolas florescentes para a mocidade e a infância.

O estabelecimento de escolas paroquiais multiplicou-se nos séculos subsequentes de modo admirável.

Em 1124, segundo um historiador, não havia na França uma cidade ou vila em que não funcionasse uma escola.

Na Diocese de Praga existiam, em 1440, cerca de 640 escolas paroquiais. Em Paris, realizou-se, no ano de 1381, uma reunião escolástica, à qual compareceram 41 professores e 22 professoras de escolas paroquiais.

Em tempos menos remotos, bem como na atualidade, a Igreja sempre recomenda e impõe o estabelecimento de escolas primárias, assim como, em todas as épocas, tem promovido o ensino secundário e superior.

''A escola paroquial, frequentada por todos os meninos da freguesia, sob a imediata vigilância e inspeção do pároco, é o ideal da Igreja''.

Contemplai, Irmãos e Filhos caríssimos, outros países como os Estados Unidos da América do Norte, a Bélgica, a Alemanha, a Holanda, a Grã-Bretanha e até a Índia, e vereis como progride a importante obra das escolas católicas sob a proteção da Igreja.
Ela tem, portanto, por direito divino e direito adquirido, o poder e o dever de erigir escolas em benefício de seus filhos.

A Igreja cumpre seu dever; é preciso que também cumprais o vosso. O Sumo Pontífice dirige-se a cada um dos Bispos, repetindo as palavras do profeta Isaías: ''Clama, não cesses, quase tuba exália vocem tuam; clama, não cesses, como uma trombeta, levanta a tua voz''.

Os Bispos do Brasil desenvolvem uma atividade enérgica e constante, providenciando para que a fé não esmoreça e sempre mais prospere.

É forçoso, Irmãos e Filhos caríssimos, que lhes prestemos nosso auxílio; é absolutamente necessário que obedeçamos à sua voz, por motivos de fé.

Nesta carta pastoral, nenhuma novidade vos apresentamos; os conceitos acima exarados emanam de autoridades graves e notáveis, e os preceitos que vos damos acham-se no Concílio Plenário Latino-Americano e nas Pastorais Coletivas.

É em resumo que vo-los repetimos para mais fácil recordação e pronta execução.
Escutai o Concílio Plenário Latino-Americano e atendei ao que diz: para que os pais católicos possam cumprir o grave dever da educação cristã de seus filhos, manda o Concílio a todos os párocos que estabeleçam escolas primárias verdadeiramente católicas, pessoalmente ou com o auxílio de outros, nas freguesias que ainda carecem deste benefício.

Lembra também aos fiéis o gravíssimo dever que têm de prestar aos Bispos e párocos seu auxílio para a fundação e manutenção de escolas primárias paroquiais. Pelo que são dignos de severa repreensão, se por sua incúria estas escolas não podem existir, ou se existem, deixam de existir por falta de recursos, ou, o que ainda é pior, se forem convertidas em escolas contrárias às intenções da Igreja, por desleixo dos fiéis no legítimo exercício das leis civis, ou por maquinações dos homens incrédulos, não reprimidas por falta lamentável de energia.

CAPÍTULO VII

A pedagogia cristã

Ordena que os sacerdotes que têm cura das almas, particularmente os párocos, promovam o estabelecimento de escolas primárias; que as visitem com frequência, segundo a ordenação do seu Bispo, e as estimem como as meninas de seus olhos – ''tamquam pupillae suorum oculorum''. Que, sobretudo, cuidem que eles mesmos ensinem o catecismo e a história sagrada e, não podendo fazê-lo ordinariamente, ao menos atendam a que os professores, neste ponto, não faltem a seu dever. Nem creiam os párocos terem satisfeito seu dever restringindo sua vigilância apenas à legítima explicação dos rudimentos da fé. Vejam também quais os costumes dos discípulos, de que maneira ensinam as demais disciplinas, para que nada ocorra que possa trazer perigo à fé e aos bons costumes. Esforcem-se para que os livros nada contenham que, de qualquer modo, seja contrário à doutrina da Igreja.

Consagrem também o maior cuidado aos mesmos professores, excitando-os, ensinando-os e ajudando-os, com toda a diligência e caridade possível. Onde for possível, ensine-se também nestas escolas o canto, principalmente o litúrgico.

Como, porém, todo o incremento de escolas primárias depende, em sua maior parte, de capazes e dignos professores, o maior cuidado deve ser pôr que à frente das escolas primárias não estejam senão preceptores bons e idôneos. Com igual empenho, os professores que exercem nas escolas o nobilíssimo e gravíssimo múnus de ensinar precisam de animação e devem ser incitados a que perseverem no bem começado; eles são os mais valentes auxiliares da Igreja e dos pais na salvação das almas, e de sua atividade e de seu trabalho muito depende a felicidade das almas e a prosperidade do Estado.

CAPÍTULO VIII

Organização e vigilância do ensino

É, pois, de suma necessidade que empreguem tais meios, para que, no futuro, se formem e preparem bons e idôneos professores.

Assim como um bom clero, cheio de zelo apostólico e notável por sua múltipla erudição, nunca se formará se não existirem seminários legitimamente constituídos, da mesma forma, em vão buscaremos professores aptos e honestos, faltando estabelecimentos onde se preparem.

Ninguém, pois, seja admitido para exercer o magistério em escolas primárias, nas quais a Igreja exerce sua jurisdição, se não tiver dado certas provas de fé e honestidade, bem como de aptidão.

A forma pela qual se fará este exame compete ao Bispo resolver. Mas convém que estes exames se façam em todas as dioceses, em presença de homens práticos e entendidos em matéria escolástica, e delegados para este ofício pelo próprio Bispo. Feito o exame, dar-se-á a cada um que tiver sido aprovado pelos examinadores um diploma de habilitação para maior ou menor espaço de tempo.

Para se obter um número suficiente de professores, convém que se estabeleçam em todas as dioceses escolas normais.

A fim de exercer a vigilância, o Bispo Diocesano nomeie um sacerdote perito para Inspetor das Escolas Paroquiais, com jurisdição nos vários distritos da diocese, o qual visitará, ao menos uma vez por ano, todas as escolas, e sobre elas informará ao Bispo Diocesano.

CAPÍTULO IX

Chamado à ação dos fiéis

Diz mais o Concílio que, para remediar os gravíssimos males provenientes dos maus sistemas de educação, devem ser fundadas em cada diocese, ao lado de todas as igrejas paroquiais, escolas primárias em que a mocidade católica seja instruída, não somente nas letras e artes, mas, principalmente, na religião e nos bons costumes.

Em seguida, ordena o Concílio aos pais católicos, com toda a sua autoridade, que retirem seus filhos das escolas ímpias e os mandem para as escolas paroquiais.
As Pastorais Coletivas das Conferências trienais recomendam vivamente e ordenam o estabelecimento de escolas paroquiais, repetindo e interpretando o que o Concílio Plenário Latino-Americano prescreve.

É a voz uníssona do nosso Episcopado que se faz ouvir, nos tempos presentes, mais do que nunca, redizendo a palavra apostólica do grande Papa Pio X: Instaurare omnia in Christo.

E nós, Irmãos e Filhos caríssimos, vosso legítimo Superior hierárquico, apelamos a vossos sentimentos de fé, e vos pedimos, pelo amor de Jesus Cristo, o divino amigo das crianças, que presteis pronto ouvido à voz do vosso Bispo, embora indigno. Empregai os vossos melhores esforços na fundação e manutenção de boas escolas paroquiais, de que depende o futuro da Religião e a felicidade da nossa Pátria.

Lembrai-vos das palavras que Jesus Cristo dirigiu aos Apóstolos e seus sucessores — os Bispos católicos: ''Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza''.

Surge, no entanto, uma dificuldade, Irmãos e Filhos caríssimos, dificuldade que consiste na falta de recursos para subsidiar as escolas paroquiais. Contudo, não podemos, por isso, recuar nem esmorecer.

Primeiramente, convém que vós, chefes de família, vos recordeis de que não cumpris o vosso dever perante Deus dando aos vossos filhos apenas o alimento corporal; tendes também uma obrigação santa, em virtude de vossa dignidade de pais católicos, de educá-los cristãmente.

Segue-se, portanto, que tendes também o dever de concorrer, com meios pecuniários, para a manutenção de escolas católicas.

Será de grande vantagem fundar, nas paróquias, a Associação de Santo Antônio, introduzida neste Estado pelo operoso senhor D. José de Camargo Barros, de santa memória, e recomendada por todos os senhores Bispos do Sul do Brasil. Os respectivos Estatutos achareis no 1º Ano do Boletim Eclesiástico da Diocese de Curitiba.

Às beneméritas associações escolares existentes (Schulvereine) agradecemos o valioso auxílio que têm prestado à instrução popular, e lhes recomendamos que continuem a dispensar sua proteção, como até agora, às escolas paroquiais.

Outro meio eficaz tereis constituindo comissões protetoras da difusão do ensino cristão, sob a imediata direção dos párocos, conforme as determinações da Pastoral Coletiva de 1904.

Pedimos, igualmente, às Irmandades e Associações religiosas, protetoras do culto e promotoras de primorosas obras pias da nossa amada Diocese, que destinem parte dos seus recursos à manutenção de escolas paroquiais.

Permitimos também que as escolas paroquiais aceitem de sociedades e governos estrangeiros subsídios pecuniários e material escolar, sob a única condição de ensinar-se o idioma da respectiva nação, com exclusão formal de qualquer ingerência na direção e fiscalização das mesmas escolas.

E porque o ensino ministrado nas escolas paroquiais seja completo, ordenamos que, em todas as escolas paroquiais, se lecione, como matéria obrigatória, a língua vernácula, que é a portuguesa, não ficando proibida nenhuma outra língua de qualquer outra nacionalidade.

Como bons católicos e brasileiros, devemos prezar sobremaneira a língua do nosso país, visto que o amor de Deus e o amor da pátria, nossa santa religião simultaneamente nos ensina.

A fim de que ninguém nos atribua demasiado rigor, constatamos que, em escolas católicas visitadas por nós, era vedado o ensino de português e do catecismo.

Sendo considerável a falta de bons professores, empenhar-nos-emos para fundar uma escola que prepare, de acordo com as leis civis, um professorado devidamente instruído. E temos a satisfação de registrar aqui que, devido aos esforços de um distinto sacerdote nosso e ao sacrifício de alguns zelosos católicos, já possuímos um prédio apropriado, em um lugar esplêndido, para a instalação do instituto diocesano, destinado também a preparar bons professores.

CAPÍTULO X

Conclusão e bênção episcopal

Unamo-nos, pois, Irmãos e Filhos caríssimos, para esta santa cruzada das escolas paroquiais, e obedeçamos às ordens do nosso Episcopado e do Sumo Pontífice: Deus o quer, sim, Deus o quer! Como os cristãos nos tempos primitivos da Igreja, sejamos um coração e uma alma, cor unum et anima una; a união faz a força, e se Deus é conosco, quem será contra nós?

Implorando, Irmãos e Filhos caríssimos, em preces fervorosas e constantes, a nosso Senhor Jesus Cristo a graça de vivificar e tornar frutíferas nossas fracas e descoloridas palavras, vos damos, com todo o amor e consideração, a nossa Benção Episcopal.

Erguendo a nossa mão, vos abençoamos com todo o amor e carinho em nome da Santíssima Trindade.

Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.

Dada e passada, sob o nosso sinal e selo das nossas armas, em nosso Palácio Episcopal de Florianópolis, aos 12 dias do mês de outubro de 1909, primeiro aniversário da nossa posse.

JOÃO, Bispo de Florianópolis.

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