
SOBRE A DIGNIDADE E OS DEVERES DO BISPO. SAUDANDO OS DIOCESANOS
PRIMEIRA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, BISPO DIOCESANO DE FLORIANÓPOLIS (Florianópolis, 1908)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo Diocesano de Santa Catarina.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da Diocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
Primeira Saudação Episcopal
Veneráveis irmãos e filhos diletos, em nome do Senhor que fez o Céu e a Terra é que vos dirigimos, profundamente emocionado, nossa primeira saudação episcopal.
E como não havemos de impressionar-nos ante a investidura do episcopado, que, na expressão de um sábio cardeal, é a maior dignidade do mundo? Como não deverá palpitar nosso coração, cheio de apreensões, ao meditarmos as palavras de Gregório Magno: "Ocupar o lugar de bispo é grande honra, mas grave é o peso dessa honra!"
Sim, confessamos nossa confusão, porque reconhecemos nossa fraqueza. São João Crisóstomo, luzeiro e mestre de todo o universo, fugiu quando lhe foi oferecida a dignidade episcopal. São Paulo, o vaso eleito de Deus, escreveu aos Coríntios: "Estive entre vós em fraqueza e temor, e grande tremor." Mas, se o grande arcebispo de Constantinopla pode justificar o seu procedimento, se o apóstolo das gentes, a quem Jesus Cristo havia comunicado os maiores privilégios e graças, tremia de medo, porventura poderão nossos fracos ombros carregar a cruz episcopal, já por sua natureza pesada e ainda coberta de espinhos nos tempos que correm?
Entretanto, por minguadas que sejam nossas forças, não podemos deixar de obedecer à voz dos nossos superiores hierárquicos. Soldado nas fileiras da sagrada milícia de Cristo e prestando obediência à sua ordem soberana, apresentamo-nos na vanguarda, prontos a imolarmo-nos em prol da Religião e da Pátria.
Com efeito, ouvíamos, por vezes, a voz autorizada dos nossos superiores, que nos pareciam repetir as palavras outrora dirigidas pelo Provincial dominicano a Frei Bartolomeu dos Mártires, quando eleito arcebispo de Braga: "Padre, dou-lhe por exemplo a Cristo Nosso Salvador, o qual só por obediência do Padre Eterno aceitou enquanto homem o pontificado." Pelo que, pois, entra nesta dignidade não derribando muros, nem saltando valados, senão pela senda real e pela porta, chamado, buscado e rogado, e ultimamente forçado pela obediência; Deus, que ordenou a entrada, disporá o processo e guardará a saída de toda a culpa, ajudando a V. R. com sua divina graça, para que não somente não darem daqui condenação, mas alcance nos céus o prêmio — e não qualquer prêmio, senão o que Ele tem prometido aos que bem administram semelhantes cargos, e dão aos seus conservos a medida justa no tempo conveniente. E, assim como não é bem que os discípulos de Cristo não façam nenhum gênero de diligência por haver dignidades, também é conforme à boa razão não as recusarem quando lhes são oferecidas, trazidas à casa sem as pretenderem nem desejarem. Porque o primeiro é soberba e temeridade, e o segundo é teima e descortesia.
Nosso espírito ponderava, como vindos de Deus, os conselhos e ordens dos nossos superiores: Praepara anima tuam ad grandia. Coragem: abra sua alma para as grandes aspirações, as grandes dedicações e também para grandes sacrifícios, pela salvação das almas e pela Igreja; esteja pronto a obedecer ao aceno do alto.
São Pedro, o primeiro Pontífice Máximo, escrevia de Roma aos bispos da Ásia: "Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas espontaneamente segundo Deus."
Pio X, seu glorioso sucessor da cátedra romana, acaba de dirigir-nos sua palavra: "Procuramos sempre, com todo empenho, pôr à testa das Igrejas pastores que saibam instruir o povo confiado ao seu cuidado, não só pela doutrina da palavra, mas também pelo exemplo das boas obras; e que queiram e possam, com o auxílio do Senhor, em paz e tranquilidade, reger e governar salutarmente as Igrejas que lhes foram entregues. E como, há pouco, a Igreja de Florianópolis foi elevada à dignidade de Catedral, e achando-se vaga desde a sua primitiva ereção, volvemos, na provisão da mesma Igreja..., os olhos da Nossa Mente a ti, dileto filho... Pelo que, em virtude da nossa autoridade apostólica, provemos a mesma Igreja de Florianópolis em tua pessoa, e te nomeamos seu primeiro Bispo e Pastor, cometendo a ti plenamente a cura, o governo e a administração da dita Igreja, com relação aos bens temporais e espirituais; e confiamos Naquele que dá a graça e confere os dons, que, sendo o Senhor quem dirige os teus atos, a supramencionada Igreja, por tua indústria e diligência, seja utilmente dirigida e adquira grandes incrementos."[1]
Nas palavras de nossos superiores, reconhecemos a voz de Jesus Cristo, que nos diz: "Vai e anuncia o reino de Deus, não temas; eu impero ao mar e aos ventos; eu te farei pescador de homens, faze-te ao largo." Por isso, inclinamos nossa fronte, adorando a santa vontade de Deus, que enaltece os humildes, pondo em relevo a sua onipotência.
Significativa é a data da nossa preconização, o dia 3 de Maio, que relembra a invenção da Santa Cruz, bem como o descobrimento do Brasil, Terra de Santa Cruz.
Aceitamos e osculamos a santa cruz do episcopado, a levá-la pelas plagas abençoadas desta grande República da Santa Cruz, iluminado pelos clarões do Cruzeiro, símbolo da Fé, e protegido pelo formoso íris da paz, Maria Santíssima, excelsa padroeira da nossa Catedral Florianopolitana.
Assim é que, com São Paulo, podemos dizer: "Desejamos ver-vos, para vos comunicar alguma graça espiritual com que sejais confirmados, isto é, para nos consolarmos juntamente convosco por aquela vossa e nossa fé que uns e outros professamos."
Mas, como queremos apresentar-nos no meio de vós? Como dispensador dos mistérios de Deus, como embaixador de Cristo, procurando vosso bem, vossa felicidade: Pro Christo legatione fungimur. Queremos ser, ainda que indigno de desatar as correias de suas sandálias, um humilde mensageiro de Cristo, como João Batista, que era uma lâmpada ardente iluminativa.
Por isso, veneráveis irmãos e filhos diletos, escolhemos e adotamos por divisa a síntese dos nossos ofícios e deveres pastorais: Pascam in judicio: apascentarei com justiça.
Pascam: O encargo de apascentar as ovelhas de Cristo, os fiéis, abrange, segundo as Sagradas Escrituras e os escritores eclesiásticos, o tríplice ofício de Mestre, Santificado e Diretor, ou seja, de ensinar, santificar e reger. In judicio: No desempenho da nossa missão episcopal, não visaremos nossas conveniências pessoais, mas os vossos supremos interesses, seguindo as normas do direito, da justiça e da equidade estabelecidas pela prudência e sabedoria seculares da Santa Madre Igreja.
O homem admira duas criações maravilhosas de Deus: o universo e a Igreja. Os milhares fulgurantes astros que gravitam nos espaços siderais, a terra com seu reino universal, sua flora e fauna, todos os prodígios do mundo físico, são obras de sua onipotência, sabedoria e bondade. Para que, porém, o universo possa subsistir, Deus o sustenta e conserva pelo seu concurso constante e eficaz.
CAPÍTULO II
O Tríplice Ministério de Cristo e da Igreja
A Igreja é a outra maravilha. A constituição da Igreja é do direito divino. Ela não tira sua origem da natureza, nem convenções humanas, mas foi fundada por Jesus Cristo, como seu reino espiritual. É uma sociedade perfeita, independente, visível, perene e necessária, dotada das notas da unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade, que a distinguem de qualquer outra agremiação religiosa. Cristo, vindo ao mundo para salvar o gênero humano, estabeleceu nesse reino, o tríplice poder de ensinar, santificar e governar os fiéis. Como o concurso divino, a ação criadora em continuação, conserva o universo, assim esse tríplice ofício garante a existência constitutiva da Igreja.
Que significa esse tríplice ofício?
Dizem os teólogos que o ofício de Mestre consiste no poder e no dever de proteger as verdades reveladas pelo Filho de Deus, de continuar o seu divino ensino em toda a sua extensão e perfeita integridade, e propagá-las cada vez mais, a fim de que todos os homens cheguem ao conhecimento único e verdadeiro de Deus e d'Aquele que Ele enviou, que é Cristo, nosso Senhor, a Verdade Eterna. Por isso, o Mestre tem igualmente o poder e o dever de preservar os fiéis dos erros contrários a este divino ensino, de chamar a atenção sobre eles, refutá-los e condená-los publicamente. Ao ofício de Mestre corresponde o pronunciamento de decisões sobre as dúvidas que ocorrem acerca da fé, explanar as dificuldades relativas a ela e terminá-las. Por esse motivo, o supremo magistério eclesiástico é infalível.
O ofício de Santificador, na sua perfeição, abraça todo o ministério sacerdotal, como seja: a plena faculdade de oferecer o sacrifício incruento da Missa, de perdoar os pecados, de comunicar aos fiéis o Espírito Santo pela imposição das mãos, de ordenar novos sacerdotes, de constituir novos sucessores no tríplice ministério mencionado, de dispensar todos os outros meios de salvação e as bênçãos da Igreja.
O ofício de Diretor relaciona-se com o governo interior e exterior do rebanho de Cristo no caminho da vida eterna. Consiste no pleno poder de reger, tanto os fiéis em particular como todo o rebanho, em nome e por encargo de Jesus. Em virtude deste ofício, deve o Diretor espiritual conservar unidos os fiéis com mandados e proibições, afastá-los dos perigos e caminhos duvidosos, exortá-los à virtude e ao desapego do mal, como que servindo-se do cajado ou báculo pastoral. Além disso, está nas atribuições do Diretor, para maior bem da coletividade, proteger os fiéis contra qualquer invasão de igrejas rebeldes, receber aqueles que ainda não pertençam ao rebanho de Cristo, bem como readmitir os arrependidos.
Neste tríplice ofício consistia a missão de Jesus Cristo. Ele foi anunciado pelos profetas como Mestre, Santificador e Diretor de um reino sem limites e, apresentando-se no cenário do mundo, provou sua missão e divindade por profecias e milagres, os mais estupendos: "Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra."
Possuído do desejo de perpetuar sua obra salvadora, transmitiu esse tríplice ofício à Igreja, representada pelos Apóstolos e seus sucessores, continuando a exercer, por meio deles, sua missão divina.
Sim, Cristo possui a tríplice dignidade de Profeta, Pontífice e Rei dos homens, isto é, a dignidade de Mestre, Santificador e Diretor. Com efeito, Ele é o profeta suscitado do meio do povo de Israel, e n'Ele terminam e se cumprem as profecias do Antigo Testamento. O Pai Celestial declarou solenemente que todos o devem ouvir, por ser o seu Filho dileto. E o próprio Senhor o confirmou, asseverando que um só deve ser o nosso Mestre: Cristo.
Cristo é o Pontífice eterno, segundo a ordem de Melquisedeque. Ele não se fez a si mesmo Pontífice, mas Aquele que lhe disse: "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei."
Cristo, enfim, é o Rei do gênero humano. Pois o Altíssimo lhe disse: "Pede-me e eu te darei as nações da terra em herança, e em tua possessão as extremidades da terra." E de si mesmo pode Ele afirmar: "Fui constituído Rei sobre Sião, seu monte santo, para promulgar seu decreto." As profecias acerca do grande império mundial realizaram-se brilhantemente em sua pessoa.
Compreende-se facilmente o motivo por que essa tríplice dignidade lhe era devida, porquanto era forçoso que o Deus humanado sobressaísse àqueles cuja natureza assumia, pela maior excelência religiosa.
Mas, não só a dignidade: também o ofício lhe competia. Vivendo como homem entre os homens, era o seu Mestre, Pontífice e Rei nato, sagrado pela sua natureza divina e autorizado a exercer os ministérios cuja dignidade possuía em virtude de sua pessoa divina. Ele é, na realidade, o que significa o seu nome: O Ungido de Deus, porque é sagrado pela divindade. Por isso, Ele está ungido para exercer o tríplice ofício no reino de Deus sobre a Terra.
Assim é que Cristo, de fato, exerceu esse tríplice ministério durante a sua vida terrestre. Ele ensinava como ainda nenhum homem havia falado. Veio do céu para dar testemunho da verdade. Logo ao entrar no mundo, ofereceu-se como holocausto, em substituição dos sacrifícios simbólicos, e toda a sua vida não era senão a via dolorosa que o levava ao sacrifício cruento do Calvário. Exerceu, finalmente, a plenitude do poder real: aboliu a Lei Antiga, substituindo-a pela Nova. E um dia virá como juiz, decidir a sorte de todas as gerações, porque Deus lhe deu poder sobre todos os homens.
Mediante este tríplice ministério, quer Cristo conduzir a humanidade ao seu fim supremo: a felicidade eterna, a salvação da alma, o céu. A totalidade das obras externas de Deus tem como fim a bem-aventurança sobrenatural das criaturas racionais, a visão beatífica, que as engolfa eternamente num oceano insondável de gozos divinos, de riquezas divinas, de glória divina, de formosura divina. A vida temporal é apenas a passagem para a vida eterna, a perfeição imutável: Deus us unitus et cognitus. Deus na mais íntima união com suas criaturas divinizadas e por elas conhecido — eis em que consiste a vida futura, o termo final do grandioso plano mundial de Deus.
CAPÍTULO III
A Autoridade de Pedro e a Hierarquia
A Pedro, primeiro Sumo Pontífice, Cristo diz: "Tu és Pedro, um rochedo, e sobre esse rochedo edificarei a minha Igreja, e todos os poderes da iniquidade não prevalecerão contra ela. Eu te entrego as chaves do Céu, e tudo o que ligares sobre a Terra será ligado no Céu, e tudo o que desatares na Terra será desatado no Céu. Pedro, amas-me mais do que os outros? Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas. Simão, Simão, eis aqui Satanás, que vos pediu com insistência para vos joeirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, depois de convertido, conforta os teus irmãos."
São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, recebeu, pois, de Cristo, a plenitude do poder apostólico, o poder supremo das chaves do Céu, e de apascentar o rebanho universal, ou, por outra, recebeu o tríplice ofício de ensinar, santificar e governar os fiéis. Ele é o rochedo inabalável que sustenta a Igreja e, de encontro ao qual, as parcelas dos hostis internos são arremessadas, mas recuam esboroando-se. Pedro, fortalecido de modo especial pela oração do Salvador, deve confortar os seus irmãos vacilantes na fé, continuando a viver na cadeia ininterrupta dos bispos de Roma, que lhe sucedem no seu trono. Eles falam em seu nome, dirigem como seus representantes a nossa Igreja e empunham o báculo pastoral do supremo Pastor dos pastores.
A missão sublime de Mestre, Santificador e Diretor dos fiéis não foi exclusivamente confiada a São Pedro e seus sucessores, mas também ao colégio dos Apóstolos, debaixo de sua soberana autoridade. "Eu vos escolhi", diz o Redentor, "para que vades e deis frutos, e para que vossa fé permaneça; e deis testemunho de mim na presença dos reis e poderosos. Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. Tomai e comei, que isto é o meu Corpo; bebei, que este é o meu Sangue; fazei isto em memória de mim; toda vez que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a minha morte até que eu volte. Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra; ide e ensinai todos os povos e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinai-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos. O Consolador, porém, o Espírito da Verdade, que o Pai vos mandará em meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito. O Evangelho deve ser pregado a todos os povos, e vós dareis testemunho do Rei. Mas não sois vós que falais, e sim o Espírito Santo. Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza. Quem não obedecer à Igreja, deve ser considerado como pagão e pecador público. A paz vos deixo, a minha paz vos dou, para que não se aflija o vosso coração e não temais."
Assim, vemos, irmãos e filhos diletos, que Jesus Cristo conferiu aos Apóstolos igualmente o poder e o dever de desempenhar a tríplice missão de Mestre, Santificador e Diretor da Igreja. Em obediência a essa ordem, vão eles pregar o Evangelho a todos os povos, e sua voz repercute nos confins da terra. Denominam-se dispensadores dos mistérios de Deus, transformam o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, impõem em Antioquia as mãos aos batizados, comunicando-lhes o Espírito Santo, dão preceitos, aplicam penas e castigos, e milagres inexplicáveis confirmam a legitimidade de sua missão.
Quando, ao longo dos anos, os Apóstolos, à vista do número sempre crescente das Igrejas particulares e do encargo de propagar a fé por todo o mundo, não puderam pessoalmente governar as Igrejas recém-fundadas, procuraram provê-las de sacerdotes dignos, a quem sagraram bispos, dando-lhes o poder de reger, a faculdade de ordenarem outros sacerdotes e de constituírem bispos, a fim de continuarem a missão recebida do divino Redentor.
Não obstante, é preciso notar, irmãos e filhos diletos, que o episcopado foi instituído por Jesus Cristo e não pelos Apóstolos, sendo, por isso, de origem divina.
Isso coincide com a disposição do Redentor de salvar todos os homens pelo mencionado tríplice ministério de Mestre, Santificador e Diretor: "Ensinai todas as nações, o Espírito Santo vos ensinará toda a verdade, estarei convosco até o fim dos séculos." Portanto, assim como a São Pedro devia seguir o seu sucessor no cargo supremo de cabeça visível da Igreja e vigário de Cristo, da mesma forma haviam de suceder os bispos aos Apóstolos no referido ministério.
Contudo, embora os papas sucedam a São Pedro na plenitude do poder apostólico, os bispos receberam, com restrição, o poder dos outros Apóstolos. De fato, quando Jesus Cristo conferiu aos Apóstolos a sua missão, não indicou a cada um deles a parte do mundo onde deviam exercer suas funções nem lhes designou limites para a sua atividade. Pelo contrário, assinalou-lhes o mundo todo como campo de seus trabalhos apostólicos, pois a todos e a cada um dirigiu as palavras: "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura, ensinai, santificai e governai todo o universo."
Essa missão ilimitada, com seu respectivo poder, após a morte dos Apóstolos, passou, na verdade, para o episcopado tomado em sua coletividade, mas não a cada bispo em particular. Pelo contrário, a cada bispo foi designado um distrito ou província determinada, dentro do qual somente podia exercer a missão de Mestre, Santificador e Diretor. O Sumo Pontífice tem o poder supremo sobre todos os fiéis da Igreja, ao passo que os bispos só têm jurisdição nas dioceses cuja administração ele lhes confere sob sua suprema direção.
As Sagradas Escrituras nos ensinam a veracidade dessa doutrina. São Paulo escreve a Tito: "Eu te deixei em Creta, para que regulasses o que falta e estabelecesses presbíteros nas cidades, como também te ordenei. Convém que o bispo seja, como dispensador de Deus, irrepreensível, mas justo e santo, para que possa exortar conforme a sã doutrina e convencer os que a contradizem." Ao discípulo Timóteo diz: "Guarda o depósito, evitando as profanas novidades de palavras e as contradições de uma ciência de falso nome. Guarda o mandamento sem mácula, nem repreensão até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pregue a palavra, quer agrade ou desagrade, repreenda, reze, admoeste com toda a paciência e doutrina. Tu, porém, vigia, trabalha em todas as coisas, faze as obras de evangelista, desempenha o teu ministério. Os homens devem considerar-vos como ministros de Cristo e dispensadores do mistério de Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para governardes a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu sangue."
Os bispos são, pois, os sucessores dos Apóstolos, e perpetuam entre os homens a missão de Jesus Cristo. Nas vagas rugidoras do mar, lançou Cristo Nosso Senhor o rochedo granítico, Pedro, na sucessão dos papas constitui o fundamento indestrutível da Igreja, e sobre esse rochedo colocou o Espírito Santo os bispos, para que, quais majestosas colunas de pedra inteiriça, sustentassem esse maravilhoso templo, elevando-se até o grandioso zimbório, sobre o qual fulgura a cruz como símbolo de luta e de vitória.
Como ação comum dos membros de um corpo, sob o domínio da inteligência que produz o seu bem-estar, assim os bispos unidos entre si, sob a autoridade suprema do Papa e em união dos sacerdotes, seus cooperadores, dão lugar à estabilidade e prosperidade da Igreja Católica. São os bispos que derivam a vida espiritual da única e eterna fonte, assegurando-lhe a continuação, e exercem o poder que o Chefe supremo lhes comunica. Legados de Deus e dispensadores dos seus dons e graças, os bispos, no meio do rebanho divino, ensinam e guardam a doutrina celeste, administram os santos sacramentos, ligam, desatam, admoestam, punem, lutam, triunfam, governam; são tenentes dos Apóstolos, continuam sua missão de geração em geração.
CAPÍTULO IV
A Honra do Episcopado
Aliados ao Sumo Pontífice, os bispos sustentam a Igreja, salvando-a de naufrágios tremendos, ardilosamente preparados pelos seus inimigos. São os arautos da sã doutrina e atalaias da felicidade dos povos. Guiados pelo Espírito Santo, defendem a santa cidade de Jerusalém contra as dissensões internas, sem as quais seus membros seriam acéfalos, sua vida espiritual cessaria, os ventos da discórdia dissipariam o tesouro de suas doutrinas e a fonte salutar dos seus sacramentos deixaria de correr e vitalizar. O poder episcopal é sublime, é um milagre contínuo da ordem moral.
Quanto é ele sublime na sua ação e admirável na sua estabilidade! Regenerou o mundo e sobreviveu às suas transformações. Quantos povos apareceram, tendo à sua frente poderosos conquistadores, que ensanguentaram o mundo, e a cujos pés se prostraram nações as mais opulentas! E reis, impérios e nações desapareceram, com todo o seu poder, grandeza e opulência. Suas coroas caíram por terra e seus tronos foram aniquilados. Mas o Reino de Deus ainda existe, guardado pelos bispos. Muitas vezes a hegemonia terrestre passou de um povo a outro; o poder dos bispos conservou-se imutável e inalterável, pertencendo-lhes sempre. Os soberanos do mundo se substituíram; os bispos ficaram como pastores dos povos, procurando a prosperidade temporal e eterna de seus rebanhos. Os bispos guardaram as preciosas conquistas dos tempos primitivos do cristianismo através de todas as tempestades e transformações que passaram pela terra. Por maiores que sejam as evoluções no seio da humanidade, os bispos permanecem intactos no silencioso santuário, revestidos do eterno sumo sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. Como mensageiros da paz e impondo umas mãos sagrantes às outras, sucedem-se desde os Apóstolos, em longas alas, de geração em geração, elo a elo, formando uma cadeia interminável.
Quando a morte endurece a mão fatigada do pastor, alquebrado pelo peso dos trabalhos e dos anos, o Senhor deposita o corpo do seu servo, até o dia da ressurreição universal, debaixo de uma lápide, ao sopé do altar-mor no qual sacrificava durante a vida, na catedral que o tinha por sumo sacerdote. E o Senhor entrega o báculo pastoral, cabido das mãos do agonizante, ao povo sucessor, afim de o empunhar com força nova e vitalidade. Com relação aos bispos verifica-se: são uma geração imortal! Sim, uma geração imortal! E quando, no fim dos tempos, vier Cristo, o Juiz Eterno, para julgar vivos e mortos, pastores e seus rebanhos, então terminará o ciclo dos bispos. Os últimos bispos entregarão o báculo e a mitra ao Sumo Sacerdote Jesus Cristo, cujo representante são na terra. E haverá na Pátria celeste um só rebanho e um só Pastor, o Príncipe dos Pastores, de quem receberão a coroa inarcessível da glória. "Et cum apparuerit princeps pastorum, percipieretis immarcescibilem gloriae coronam."
CAPÍTULO V
O Báculo e a Lei
Incorporado ao episcopado, veneráveis irmãos e filhos diletos, devemos, portanto, desempenhar, auxiliados pelos reverendos sacerdotes, nossos colaboradores, o tríplice ministério apostólico de ensinar, prover recursos espirituais e reger o rebanho querido sobre o qual o Espírito Santo nos constituiu bispos. Deus quer, de agora em diante, que sejamos vosso guia no caminho da salvação, vosso mestre nas verdades eternas, um guarda fiel do santuário da vossa fé, mensageiro da paz, o piloto da Igreja santa-catarinense, um dispensador dos benefícios celestes, derivando-os da fonte septiforme dos santos sacramentos. Desejamos fazer bem a todos, e queremos ser vosso, na qualidade de bispo católico e brasileiro.
"Pascam, apascentarei" é, pois, a primeira parte da nossa divisa, a síntese do nosso ministério apostólico, à qual, porém, acrescentamos in judicio. Em sentido lato, justiça é a conformidade das ações humanas com a lei. No caso, significa que regularemos nossos atos pelas normas das leis eclesiásticas. Em sentido estrito, entende-se por justiça a firme e constante vontade de procurar a cada um o que de direito lhe corresponde. Isto Jesus Cristo nos ensina quando diz: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." A justiça é uma virtude cardeal e a mais nobre entre as morais. Empenhar-nos-emos para que toda a nossa administração episcopal se apoie e gire sobre ela, como porta sobre seus gonzos.
Por isso, veneráveis irmãos e filhos diletos, não cessaremos de chamar a vossa atenção para a observância das leis canônicas, elaboradas e estatuídas sabiamente pela Santa Igreja, e os decretos emanados das conferências trienais. E neste particular, atenderemos ao que a recente Pastoral Coletiva acentua expressivamente: nosso maior empenho foi, como tem sido nas duas precedentes Conferências, urgir a observância do Santo Concílio Plenário Latino-Americano, que, sendo fielmente executado, tornará feliz e vigorará em fé e piedade a Igreja Brasileira.
Na Conferência Internacional de Haia, asseverou o nosso preclaro delegado: "O nosso futuro, até há pouco envolto em trevas, começa agora a manifestar-se promissoramente à luz do dia." O que a Conferência de Haia, em consequência da atitude saliente do representante brasileiro, é para a importância internacional do Brasil, o é também o referido Concílio para a Igreja Brasileira. Lemos algures: "A vida eclesiástica no Brasil recebeu um impulso ainda maior pelo Concílio dos bispos da América Latina, reunidos em Roma, no ano de 1899." Falou-se bastante tempo, e injustamente, de raças decadentes. Agora patenteou-se que ainda havia vida vigorosa no velho tronco, embora parasitas o enlaçassem e depauperassem sua vida. A reunião já por si era uma grandiosa manifestação, mas recebeu a consagração de sua eficácia pelos decretos dela emanados e publicados depois. Se não nos enganarmos e pudermos confiar na Divina Providência, será o Concílio Americano de 1899 para a América Latina o que o Concílio de Trento foi para o século XVI: o início de uma nova era de desenvolvimento e o ponto de partida de um grandioso futuro. Sim, o Concílio Plenário Latino-Americano marca uma nova era de progresso e felicidade nos anais da Igreja Sul-Americana. Mas, para que esta auspiciosa previsão se torne uma realidade feliz, é preciso que clero e povo prestem docilmente seu auxílio e apoio aos seus legítimos pastores.
Tal é o sentido da segunda parte da nossa divisa: in judicio, com justiça.
Pascam in judicio: eis o nosso lema, a bandeira sob a qual queremos desenvolver nossa atividade de bispos, a estrela que orientará sempre os nossos passos, porque representa a súmula dos nossos ofícios e deveres episcopais.
Por isso, veneráveis irmãos e filhos diletos, não será fora de propósito considerarmos como nossas as palavras do supremo Mestre, Santificador e Diretor Jesus Cristo Nosso Senhor, segundo a visão profética de Ezequiel: "Eis aí, eu mesmo irei buscar as minhas ovelhas e as visitarei." Bem, assim como um pastor visita o seu rebanho no dia em que se acha no meio das suas ovelhas dispersas, assim visitarei eu as minhas ovelhas e as levarei de todos os lugares por onde elas tiverem andado no dia de nublado e de escuridão. E eu as trarei de diversos países e as introduzirei na sua terra, e apascentarei-as sobre os montes de Israel, ao longo das ribeiras e em todas as pastagens, as mais férteis, nos altos montes de Israel, em pingues pastagens. Eu irei buscar as que se tiverem perdido, farei voltar as que andarem desgarradas, ligarei os membros das que estiverem quebrados, fortalecerei as que estiverem fracas e conservarei as que estiverem gordas e fortes; e eu as apascentarei com justiça: Et pascam illas in judicio!
CAPÍTULO VI
Confiança na Providência
Difícil e espinhosa é, pois, a incumbência que o Senhor nos conferiu. À luz da fé, meditamos a importância da nossa elevada missão e reconhecemos suas dificuldades. Sentimos o peso da nossa responsabilidade. Mas tudo podemos naquele que nos conforta. E para que não houvesse nenhuma ilusão humana e estivéssemos preparados para o sacrifício, o Senhor, em sua infinita sabedoria e bondade, nos deixou presente a amargura, antes de pôr em nossas mãos o báculo episcopal. Sabemos o que o Sumo Pontífice de nós exige: a Igreja e a Pátria esperam de nós o que devemos a vós. A inauguração de um bispado e sua consequente organização é tarefa incontestavelmente pesada.
Contudo, temos confiança! De maneira especial, confiamos na Providência do Pai Divino, que sustenta as aves do céu, veste os lírios do campo e dá suas luzes e graças a cada um de acordo com as necessidades da vocação. Por isso, volvemos um olhar suplicante ao Pai das luzes celestiais, do qual dimana todo dom perfeito e toda dádiva excelente e no nome do Senhor, que fez o Céu e a Terra, está nosso socorro. Porque não fomos nós que o escolhemos, veneráveis irmãos e filhos diletos, mas foi Ele que nos chamou, como chamou os Apóstolos, a fim de anunciarmos entre vós a boa nova do Reino dos Céus. Aquele que nos chamou, sem nossa cooperação e sem nos consultar pela voz dos nossos Superiores a respeito da nossa investidura episcopal, para que em tempo pudéssemos opor embargos — Aquele nos dará, assim esperamos, a graça suficiente e eficaz para desempenharmos dignamente o nosso ministério apostólico.
Sim, temos confiança, e nossa confiança depositamos em vós, veneráveis irmãos e cooperadores que deverei trabalhar junto a nós na vinha do Senhor. Vós sereis os intérpretes da nossa vontade, os nossos genuínos representantes nos lugares longínquos de nossa querida diocese. Como o Senhor enviou os seus discípulos diante de si, assim nós vos mandamos diante de nós por todas as cidades e lugares para onde havemos de ir. Serviços de inestimável valor tendes prestado à religião e à sociedade. Pois grande é a messe, e poucos os trabalhadores. Por isso, não deixeis de rogar ao dono da messe que nos mande ainda outros trabalhadores, para que seja mais abundante a sementeira da palavra divina e mais copiosa a colheita para os celeiros eternos.
Temos confiança! Confiamos em vós, filhos diletos, que tendes sido sempre a alegria e a coroa dos bispos, cuja direção espiritual achastes; vossa fé se divulgou e é conhecida. A fama da vossa piedade, prelúdio de um futuro feliz, tem chegado aos nossos ouvidos. O vivo interesse tendes tomado pelo vosso primeiro Bispo, as orações que por ele tendes feito, tudo isso dá-nos provas exuberantes da vossa boa orientação e a certeza de que sabereis avaliar a soma de benefícios que vos proporciona a criação da nova Diocese. Temos, pois, motivos sobejos, veneráveis irmãos e filhos diletos, para alentarmos santa confiança.
São Pedro perguntou, um dia, ao divino Redentor: "Eis aqui estamos nós que tudo deixamos e te seguimos: que galardão pois será o nosso?" Vós que me seguiste, responde Jesus, assentarei em doze tronos e julgareis as doze tribos de Israel. E todo aquele que deixar por amor do meu nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai ou a mãe, ou a mulher ou os filhos, ou a herança, receberá cem por um e possuirá a vida eterna. Seja-nos permitido, veneráveis irmãos e filhos diletos, repetir as palavras do Príncipe dos Apóstolos. Eis aqui estamos nós que deixamos tudo e seguimos a voz de Jesus Cristo para vos servir. Deixamos, por amor do seu nome, nosso estremecido Rio Grande, nossa paróquia, nossa família, nossos amigos e conhecidos; que galardão, pois, será o nosso? Sabemos que o Senhor não faltará à sua promessa. Mas, neste momento, queremos apelar para os vossos nobres sentimentos de equidade: que galardão será o nosso? Só pedimos um favor: que, como Mestre, sejais nossos discípulos diligentes; como Santificador, useis dos meios de salvação que vos oferecemos; e, como Diretor, possamos contar com vossa obediência e docilidade. Sereis assim também a nossa alegria e a nossa coroa.
Como outrora o Rei Salomão, antes de tomar posse do seu reino, pedimos a Deus sabedoria para julgarmos e bem governarmos o seu povo, que desse ao seu servo um coração dócil, cheio de sabedoria e inteligência, a fim de discernir entre o bem e o mal, e possa, qual Moisés ao povo de Israel, apresentar-vos as tábuas da Lei, anunciando-vos a grandeza, expondo-vos as ordens e comunicando-vos os grandes benefícios do Senhor. Queira o Deus onipotente abençoar nossa entrada na Diocese de Florianópolis, sim, abençoá-la para o bem da Santa Igreja, redimida pelo precioso sangue do Redentor, para que ela, cumprindo a sua missão universal de conduzir os povos da terra aos braços do Pai Celestial pelo Filho Divino, floresça entre vós, como convém à santa, imaculada, gloriosa e radiante Esposa do Senhor. Em vosso benefício, para que como filhos honrados desta santa e carinhosa Mãe não somente professeis suas doutrinas, mas também ordeneis vossa vida segundo suas máximas, tornando-vos, deste modo, um povo santo no Reino de Deus. Em nosso benefício, enfim, para que sejamos um administrador à vossa frente, dominado pela fé indefectível de São Pedro, possuído da viva esperança de São Paulo e inspirado pela caridade de São João Evangelista.
CAPÍTULO VII
Palavras finais
Traçado o plano da nossa ação episcopal, temos a honra de apresentar, na qualidade de Bispo brasileiro, nossas humildes homenagens de respeito e veneração ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Alexandre Bavona, digníssimo Arcebispo de Parsália e Núncio Apostólico, e ao Episcopado Brasileiro.
A Sua Eminência Reverendíssima tributamos, com os sentimentos do nosso filial amor, nossos protestos de submissão e de profunda gratidão pelas inestimáveis provas de solicitude e consideração que se tem dignado dispensar-nos.
Ao Insigne Representante do glorioso Pontífice Pio X, o qual tão zelosa quão proficuamente promove os altos interesses da Religião no Brasil, nossas homenagens e obediência incondicional e o tributo sincero do nosso reconhecimento.
Ao Inclito Episcopado Brasileiro, na sua brilhante coletividade, endereçamos nossos fraternais cumprimentos.
Ao Preclaro Presidente da República, o Excelentíssimo Senhor Conselheiro Afonso Augusto Moreira Penna, diretor emérito dos destinos da Pátria, rendemos o nosso preito de patriótico acatamento e veneração.
E não nos será lícito olvidar, neste momento, o nome do nosso benemérito Ministro junto à Santa Sé, o Excelentíssimo Senhor Dr. Bruno Chaves, diplomata proeminente, a quem mereceu especial interesse a criação da Diocese de Florianópolis. No desempenho proficiente de suas altas funções, salienta dia a dia a importância transcendental da missão que a bem do Brasil está exercendo. A Sua Excelência nossos vivos agradecimentos e nossas respeitosas saudações.
Saudamos, com abundância de coração, os nossos ilustres paraninfos, os Excelentíssimos Senhores Dr. Carlos Barbosa, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, e Coronel Gustavo Richard, Governador do Estado de Santa Catarina, apresentando-lhes as nossas homenagens de reconhecimento e alta consideração.
Antes, porém, que as águas do Guaíba levem o nosso batel ao oceano Atlântico, e este, sobre o seu dorso encrespado, o conduza em rumo às praias virentes da nossa diocese, queremos ainda proferir mais duas palavras, uma de despedida e outra de saudação. Despedidas dirigimos ao Rio Grande do Sul, que amamos como só um Estado natal se pode amar, sob cujo céu estrelado passamos nossa infância e juventude, onde nos formamos e exercemos por doze anos o paroquiato. Saudações afetuosas dirigimos aos nossos diocesanos, ao florescente Estado de Santa Catarina.
Apresentamos, cheio de gratidão, nossas despedidas ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, que nos conferiu todas as ordens, menores e sacras, inclusive a plenitude do sacerdócio. De sua Excelência Reverenda guardaremos a mais grata recordação e os sentimentos de inolvidável reconhecimento. Ao seu Colendo Coadjutor, o Senhor Bispo de Pentacomia, ao Reverendo Clero regular e secular, em cujas fileiras militamos, nossos cumprimentos e despedidas.
Nossas saudações e agradecimentos ao ilustre Senhor Bispo de Curitiba, o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom João Braga, que veio, fidalgamente, para assistir à nossa sagração.
Oferecemos nossas despedidas e saudações às digníssimas autoridades civis e militares, estaduais e federais, à ilustre imprensa, a cuja fidalguia devemos assinaladas provas de consideração, e à leal e valorosa cidade de Porto Alegre: a todas as classes nossos cumprimentos.
Ao Ginásio Nossa Senhora da Conceição na cidade de São Leopoldo, e ao Seminário de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, onde nos foi ministrado o ensino da virtude e da ciência, nossas saudações e bênção afetuosas.
Abençoamos de coração a caridosa instituição do Pão de Santo Antônio, fundada na Paróquia Menino Deus, e dirigida com proficiência e inexcedível zelo pelo infatigável senhor Cônego José Marcelino de Souza Bittencourt, que continua a repartir a muitas famílias pobres não só o pão que sustenta o corpo, mas também o pão do espírito: as verdades da Santa Religião. Aos pobres do Asilo de Mendicidade e às órfãs do Asilo de Santa Tereza, estabelecimentos fundados na mesma paróquia pelo benemérito Padre Cacique de Barros, lançamos igualmente nossa bênção.
Em despedida, visitamos, com viva gratidão e saudades, os túmulos dos santos sacerdotes, pioneiros da Companhia de Jesus, que foram nossos mestres no alvorecer da nossa juventude. Mais do que suas palavras autorizadas, influiu sobre nós o seu acrisolado exemplo, máximo na tribuna sagrada e no altar, onde lhes servíamos de acólitos. Sua santa atitude na celebração do divino Sacrifício imprimia em nosso coração juvenil a imagem ideal do Sacerdote da Nova Lei. Outro túmulo cobrimos de saudades, o do reitor do Seminário e nosso insigne mestre, o saudoso Padre Dr. Jacob Faeh, modelo vivo de santidade, ciência e disciplina. Inolvidáveis são, para nós, os seis anos que vivemos sob a sua sábia direção e imediata vigilância. Nunca nos esqueceremos de sua palavra: "Seja Cristo, o Sumo Sacerdote, sempre o seu modelo."
De modo muito particular, porém, saudamos e abençoamos os nossos queridos ex-paroquianos do Menino Deus, no meio dos quais passamos os doze anos da primeira fase da nossa vida sacerdotal. Como poderemos, neste momento de dolorosa despedida, testemunhar-lhes o nosso reconhecimento, a nossa afeição e o nosso amor? Como retribuir-lhes as inúmeras atenções e delicados favores com que constantemente nos cumularam? Como louvar e encarecer bastante a sua benemerente piedade e presteza em auxiliar os nossos empreendimentos paroquiais? Merecem, certamente, menção honrosa a benemérita Comissão de Obras que conosco empenhou seus melhores esforços na construção da majestosa torre e nos notáveis melhoramentos da Igreja Matriz, o Apostolado da Oração, esteio forte do culto; a Congregação das Filhas de Maria, piedoso lugar de fervorosas donzelas; a Associação Protetora, que tem prestado generosos benefícios ao templo; o Coro de Santa Cecília, a Conferência de São Vicente, as devoções do Menino Deus e de Nossa Senhora da Boa Viagem; a todas as corporações religiosas da nossa ex-paróquia, os nossos mais sinceros agradecimentos e bênçãos cordiais.
Sim, a vós, distintos paroquianos do Menino Deus – nossos paroquianos já não vos podemos chamar – apresentamos o testemunho da nossa eterna gratidão, estima e afeto. Seja a vossa paróquia sempre qual jardim marchetado de peregrinas flores, cheia de odor divino e abençoada pelo Senhor. Queira o Divino Infante recompensar-vos com medida cheia as vossas virtudes e corroborar e aumentar, cada vez mais, a vossa fé e piedade, enriquecendo as pessoas das vossas famílias de bênçãos, as mais fecundas e abundantes, bênçãos temporais e eternas.
Era o nosso desejo mais afagado continuar a edificar, no coração de cada um de vós, o templo espiritual da fé; tencionávamos opulentar sempre mais o generoso campo das vossas almas com a preciosa semente do Evangelho, queríamos cultivar as mimosas virtudes que ali florescem, mas Deus não o quis. Outro mais ditoso guardará esse templo espiritual, outro será o vosso evangelizador. No céu esperamos encontrar-vos.
E assim, como no escudo das nossas armas mandamos gravar a imagem da vossa Igreja, onde inúmeras vezes oferecemos pela vossa felicidade e pela paz sempre eterna das almas dos vossos queridos defuntos o santo sacrifício da Missa, onde batizamos e instruímos vossos filhos, onde vos administramos os santos sacramentos da penitência e da comunhão, onde ensinamos a palavra de Deus, lançamos a última bênção aos que já foram para a eternidade — bem assim levamos impressa a vossa imagem em nosso coração e guardaremos o nome da vossa prezada e sempre lembrada paróquia em nossa memória. Tereis sempre parte em nossas orações. Adeus!
Apresentadas as despedidas ao Rio Grande, dirigimos o nosso olhar esperançado para vós, veneráveis irmãos e filhos diletos, que formam a Diocese de Florianópolis.
Saudamos os representantes do Reverendo Clero regular e secular, como nossos dedicados cooperadores na grande missão que o Santíssimo Padre Pio X nos conferiu. A eles uma bênção especial e carinhosa.
Saudamos, respeitosamente, o nobre Governo do próspero Estado de Santa Catarina, com o qual queremos sempre manter amistosas relações, porque ambos os poderes, o civil e o eclesiástico, têm a Deus por autor, o primeiro como autor da natureza e o segundo como autor da graça; um visa à felicidade temporal, o outro à felicidade espiritual e eterna do mesmo povo.
Procuraremos, como em outra ocasião declarávamos, colaborar com os poderes públicos constituídos para o engrandecimento da Pátria republicana e do Catolicismo, para que assim possam marchar paralelamente lado a lado, completando a ação que ambas devem realizar sem nunca se repelirem.
Saudamos efusivamente os insignes Senadores e Deputados, que, com admirável brilho e reconhecido patriotismo, representam o Estado nas duas Câmaras do Congresso Federal.
Nossas saudações dirigimos ao benemérito Congresso Representativo, ora reunido, sempre empenhado pela prosperidade do futuroso Estado.
Saudamos as Excelentíssimas Autoridades civis e militares, estaduais e federais, tanto na Capital como do interior. Aos ilustres Magistrados, anjos tutelares do direito e da justiça, endereçamos igualmente nossas respeitosas saudações.
Saudamos a ilustrada imprensa catarinense, de modo peculiar. Somos amigos sinceros da boa imprensa, porque reconhecemos sua poderosa influência social e religiosa, como veículo do pensamento, semeadora de ideias e alavanca do progresso.
Nossos cumprimentos e bênçãos à ilustre Comissão Promotora do Bispado, verdadeiramente digna de altos encômios.
Saudamos, efusivamente, as Ordens Religiosas, viveiros da Santidade e do saber, as Irmandades e demais sodalícios religiosos, como todos os estabelecimentos pios de instrução e educação.
A todos os habitantes do Estado, estendemos nossa mão e apresentamos saudações paternais, com especialidade aos pequeninos e desprotegidos da sorte. Pois o Espírito do Senhor repousou sobre nós, pelo que Ele nos consagrou com a sua unção, e enviou-nos a pregarmos o Evangelho aos pobres, a sararmos os quebrantados de coração, a anunciarmos aos cativos a redenção, e aos cegos a vista, a pormos em liberdade os quebrantados e para seu resgate publicar o amor do Senhor e o dia da retribuição.
Enfim, veneráveis irmãos e filhos diletos, levantamos o olhar da nossa mente ao Altíssimo, atravessando as regiões siderais onde cintila o Cruzeiro, e oramos. Pai Santo, chegou a hora, fortificai o vosso servo, a fim de que ele possa dar a vida eterna a todos aqueles que vós lhe confiastes, a vida que consiste em que eles conheçam por um só e verdadeiro Deus, a Vós, e a Jesus Cristo que nos enviastes. Dai, Senhor, ao vosso humilde servo a graça de ensinar, de santificar e de dirigir o seu rebanho segundo vossos santos desejos, para que nenhuma ovelha se perca, e todas sejam santificadas na verdade, e sejam um como Vós e vosso Filho sois um, e tornem um povo unido, um povo forte, um povo santo, um povo glorioso e feliz.
Erguendo a nossa mão, vos abençoamos com todo o amor e carinho em nome da Santíssima Trindade.
Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.
Dada a passada, nesta cidade de Porto Alegre, sob o nosso sinal e selo das nossas armas, aos 13 de setembro de 1908, festa do Santíssimo Nome de Maria, e dia da nossa Sagração Episcopal.
♰ JOÃO, Bispo de Florianópolis.
[1] Breve de preconização de São Pio X, 03 de Maio de 1908.