
PELA PACIFICAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL
DÉCIMA PRIMEIRA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1923)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e
regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus
Cristo.
CAPÍTULO I
Motivos desta pastoral: apelo a todas as classes sociais
Nunca, durante os quinze anos do nosso episcopado, dirigimos pastoral alguma a vós, diletíssimos irmãos e filhos, nem à Diocese de Florianópolis, com tanta emoção como a presente. Em outros anos, era a data da nossa sagração episcopal motivo de júbilo e ocasião para vos endereçar a nossa palavra paternal, a fim de vos animar e instruir. Mas, se nesta hora consideramos a situação social e política do nosso Estado, devemos, como vosso pai espiritual e como brasileiro, chorar amargamente diante dos perigos que ameaçam a Religião e a Pátria.
Por isso, levantamos, nesta hora aflitiva, a nossa voz, reproduzindo, na sua íntegra, com alguns aditamentos, o discurso que, no dia 13 de setembro, proferimos na Igreja Catedral.
Como nos anos passados, encheu-se, no 15º aniversário da nossa sagração episcopal, essa catedral de sacerdotes e fiéis, a fim de nos prestarem as homenagens do seu carinho, estima e amor filial. Muito de coração, vos agradecemos os cânticos, as flores e, sobretudo, as congratulações que nos dirigistes, quer pessoalmente, quer pela palavra eloquente do vosso orador oficial. Mas essas flores e esses cânticos jubilosos, que outrora nos despertavam íntima alegria, hoje nos provocam profunda tristeza, porquanto nos lembramos das lágrimas de tantas e tão distintas famílias rio-grandenses, sobre as quais se estende pesado luto, em consequência da guerra civil que está retalhando o nosso Estado.
Lutam irmãos contra irmãos; sangue rio-grandense tinge as nossas coxilhas e várzeas; falta-nos a paz social e política, fundamento da felicidade da família e dos povos.
Cesse, de vez e para sempre, o derramamento de sangue fraterno, desponte uma vez sobre os formosos horizontes do Rio Grande, a paz, como sol fulgurante e benfazejo, a iluminar as nossas campinas e montanhas, nossas cidades e vilas!
O advento da paz é de absoluta necessidade para a vida normal do Estado, para a tranquilidade da família e para a felicidade de todos os rio-grandenses. Por isso, queremos, nessa hora, apelar para o auxílio eficaz de todas as classes sociais, dos partidos em luta, do clero e dos fiéis, para que o Estado seja pacificado e todos os habitantes das plagas benditas do Rio Grande se deem o abraço fraternal dessa reconciliação.
Antes de tudo, porém, é necessário dirigirmos nossas mais fervorosas preces a Deus, a fim de que o Senhor do céu e da terra nos conceda esta graça, que as injunções políticas sempre mais retardam e dificultam. Ó Deus e Senhor, de quem procedem os desejos salutares, os conselhos acertados e as obras justas, concedei aos vossos servos essa paz que o mundo não pode dar.
CAPÍTULO II
Tristíssima condição do Estado
Desde já, porém, devemos declarar que, alheio a interesses secundários e colocado pelo nosso ministério eclesiástico acima, bem acima do atual conflito político, temos unicamente em vista nos nossos trabalhos pacifistas o bem-estar, a felicidade da população rio-grandense, salus populi, que depende agora da celebração de uma paz pronta, justa e honrosa. A atitude imparcial por nós assumida nesta emergência e a reta intenção que nos move, a nobre imprensa da nossa terra mais de uma vez aplaudiu calorosamente.
Voltando nosso olhar, assim, a esta vasta Arquidiocese, como a todo o Estado do Rio Grande do Sul, enche-se a nossa alma de sentimentos de profunda tristeza, visto que por toda parte se acham quebrados os vínculos da fraternidade social e da caridade cristã.
Em outros tempos, as nossas várzeas floridas e as nossas coxilhas verdejantes eram povoadas de alegres rebanhos, por onde passava pacificamente o altivo gaúcho. Hoje, essas coxilhas e essas várzeas, esses campos ondulantes e formosos, estão devastados, e sangue rio-grandense tinge, rubro, sua superfície. As trovas e os cânticos populares transformaram-se em hinos de guerra. A paz, condição essencial dos progressos e da felicidade dos povos, cedeu lugar ao ódio partidário, à vingança, à revolução, à morte. E quantas famílias choram a morte prematura de entes queridos, que sucumbiram às feridas abertas por conterrâneos, derramando sua última gota de sangue ao longo dum arroio ou abandonados debaixo de alguma árvore, onde costumam refugiar-se os armentos.
Ao contemplar espetáculo tão comovente e triste, confranges-nos a alma do pai espiritual de imenso número de católicos e ocorrem-nos as palavras do rei David, quando chorava a morte dos valentes de Israel, que caíram nos montes de Gelboé: "Considera, Israel, os que morreram cobertos de feridas sobre os teus altos. Os nobres, ó Israel, foram mortos nos teus montes; como caíram os valorosos? Montes de Gelboé, nem orvalho nem chuva caia sobre vós, nem haja campos de que oferecer primícias, porque lá foi lançado por terra o escudo dos fortes."
Assim é que David lamentava a morte de Saul, que sucumbira juntamente com Jonathas e mais dois filhos, e grande número de israelitas, lançando a maldição aos montes de Gelboé, teatro sangrento de lutas cruéis, onde os israelitas foram vencidos pelos seus inimigos mais atrozes, que eram os filisteus. A maldição proferida por David cumpriu-se. Os montes de Gelboé, antigamente notáveis pela sua fertilidade e riquezas agrícolas, tornaram-se estéreis e improdutivos.
Não permita Deus que semelhante maldição se verifique com referência às nossas campinas e montes, hoje transformados em cenário de guerra civil, borrifados com sangue fraterno.
Em face desta situação angustiosa que atravessa o Estado, haverá alguma classe social, alguma pessoa, que nos possa recusar sua cooperação no restabelecimento da paz? Caritas Christi, portanto, urget nos: a caridade de Cristo nos constrange, nos impele a todos a empregarmos os nossos esforços dentro da esfera de nossas atribuições, para a conquista da paz, repetindo constantemente a prece: Dona nobis pacem, dai-nos a paz, Senhor!
CAPÍTULO III
Horrores da guerra civil
A guerra é um dos maiores flagelos da humanidade. Pois, com razão, diz o Padre Antônio Vieira: "É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a quem aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum, que, ou se não padeceu, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a afazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro."
Mas, entre todas as formas de guerra, a mais cruel e perniciosa é a guerra civil, porquanto não são os habitantes de países estrangeiros que se guerreiam, mas conterrâneos, irmãos e amigos, que se digladiam, devastando mutuamente suas propriedades e aniquilando o patrimônio comum.
Disso nos deu uma prova eloquente a revolução de 1893, e ainda não esquecemos as atrocidades e depredações praticadas nas zonas da campanha e na região colonial. Apenas cicatrizadas as feridas, estabelecidas as finanças, mal apagados os ódios e os sentimentos de vingança, e entregue novamente a população aos seus labores cotidianos, eis que outra vez se desencadeia tormenta horrível: de novo corre sangue rio-grandense, os sentimentos de ódio e de vingança se reacendem, todas as fontes de vida periclitam e se aproximam do seu aniquilamento.
Há mais de oito meses, a vida econômica, industrial, comercial, agrícola e religiosa do Estado está sendo perturbada por lutas constantes, que se alastram pela quase totalidade dos municípios, aterrorizando as populações pacíficas.
Seja-nos permitido transcrever um trecho de uma carta datada de 11 de agosto passado, de um de nossos mais zelosos vigários da zona flagelada: "Apenas cessava a epidemia do tipo, quando começou a terrível revolução atual; mais da metade das famílias foram saqueadas; muitas ficaram sem animal de montaria e, coisa incrível, sem roupa; diversas famílias passaram a fronteira do Estado; casas comerciais foram fechadas e o preço de todos os gêneros subiu de um modo extraordinário. O pior é que o colono não pode vender nem trigo, nem milho, nada. Não há exportação. Vossa Excelência pode facilmente imaginar a triste situação do pobre colono."
Impeçam os céus que esta guerra fratricida se desdobre ainda
mais pelas zonas coloniais, que são o celeiro do Estado! Acabemos com todas as
divergências e animosidades; pois, fratres sumus, somos irmãos, irmãos
pelos vínculos de sangue, pelos laços de Religião e por filiação divina; somos
irmãos por ser Deus nosso Pai comum, cuja voz não tardará a se fazer ouvir:
"Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão da terra clama por mim."
O mesmo Deus que dirigiu estas palavras ao fratricida Caim ainda vive, e
porventura não temeremos a maldição que ele lançou ao assassino de Abel?
"Agora, pois, serás tu maldito sobre a terra, que abriu a sua boca e recebeu o
sangue de teu irmão da tua mão."
Empenhemos, portanto, irmãos e filhos amados, nossos melhores esforços no
sentido de apaziguar os ânimos, consolando os aflitos e oferecendo nosso
auxílio aos feridos, para que não se agrave mais a situação, já deplorável, do
nosso querido Estado e se consuma o seu completo suicídio.
Com o rei David, aconselhamos aos reverendos sacerdotes e fiéis a máxima caridade, nas palavras e obras, e digam e repitam a todos: "A paz seja com meus irmãos e contigo, e a paz seja com a tua casa e a paz seja com tudo que tens."
CAPÍTULO IV
Concepção verdadeira da sociedade civil ou estado
Oxalá prevalecesse entre nós a concepção cristã, a única verdadeira, da sociedade civil e do estado! Todos os conflitos públicos seriam então pacificamente resolvidos dentro do direito, da justiça e da caridade. Atendei às palavras áureas do grande Papa Leão XIII sobre a constituição cristã dos estados, onde define nitidamente a natureza da sociedade civil e dos direitos e deveres dos governantes e súditos.
"É natural ao homem viver em sociedade, porque, não podendo no isolamento nem granjear o que é necessário e útil à vida, nem adquirir a perfeição do coração, a Providência criou para se unir aos semelhantes numa sociedade tanto doméstica como civil, única capaz de nos dar o que é preciso para a perfeição da existência. Mas, como nenhuma sociedade pode existir sem um chefe supremo, que imprima a cada qual, de per si, um impulso uniforme e eficaz para um fim comum, segue-se daí que é necessária aos homens constituídos em sociedade uma autoridade para os reger; autoridade que, assim como a própria sociedade, proceda da natureza e tenha, por consequência, a Deus por autor. Deduz-se daqui que o poder público por si mesmo só pode vir de Deus. Só Deus, efetivamente, é o verdadeiro e soberano Senhor das coisas; todas, quaisquer que elas sejam, devem-lhe necessariamente estar sujeitas e obedecer-lhe; de forma que quem tem o direito de governar só o recebe de Deus, Chefe supremo de todos." "Não há potestade que não venha de Deus."
"Contudo, a soberania, por isso, não está necessariamente ligada a forma alguma política; podia perfeitamente adaptar-se à esta ou aquela, contanto que ela seja realmente adequada e útil ao bem comum. Qualquer, porém, que seja a forma do governo, todos os chefes do estado devem absolutamente fixar as suas vistas sobre Deus, soberano moderador do mundo, e no cumprimento do seu mandato, tomá-lo por modelo e regra. Com efeito, assim como na ordem natural das coisas visíveis, estabeleceu Deus as causas secundárias, em que se refletem de qualquer forma a natureza e ação divinas, e que concorrem para alcançar o fim a que todo o mundo é destinado, assim quis também que na sociedade civil houvesse uma autoridade cujos depositários fossem como uma imagem do poder que Deus tem sobre o gênero humano, bem como da sua providência. O poder deve, pois, ser justo, para que o seu governo seja menos de senhor que de pai, porque a autoridade de Deus sobre os homens é justíssima e acha-se conexa com a bondade paternal. Deve, todavia, exercer-se para a utilidade dos cidadãos, porque os que têm autoridade sobre os outros só dela se acham investidos para defender o bem público. A autoridade civil não deve servir, sob qualquer pretexto, para vantagem de um só ou de alguns, visto que foi constituída para o bem-comum.
Se os imperantes se deixarem arrastar para um domínio injusto, se pecarem por abuso do poder ou por orgulho, se não providenciarem pelo bem do público, saibam-no, um dia terão de prestar contas a Deus, e essas contas hão de ser tanto mais severas quanto mais santa for a função que exercem, e mais sublime o grau da dignidade a que foram elevados.
"Os poderosos serão poderosamente atormentados." Deste modo, à supremacia dos soberanos corresponderá a homenagem voluntária do respeito dos súditos. Efetivamente, se estes se convencerem por uma vez que a autoridade dos imperantes provém de Deus, sentir-se-ão obrigados pela justiça a receberem docilmente as ordens dos príncipes e a prestar-lhe obediência e fidelidade, por um sentimento semelhante ao amor que os filhos têm aos pais. "Todo o homem esteja sujeito às potestades superiores."
Até aqui o preclaro Pontífice. Infelizmente, os estados modernos não observam estas salutares doutrinas nas suas constituições e leis. Por isso, vemos por toda a parte essas tremendas convulsões sociais, que abalam a sociedade civil e solapam o poder temporal; porque "se o Senhor não edificar a casa, em vão se têm posto ao trabalho os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente se desvela o que a guarda."
CAPÍTULO V
A felicidade pública
Sim, o bem público, salus populi, é o fim do estado. Não consiste ele no bem particular dos regentes, porque neste caso teríamos a tirania, a exemplo de Dionísio de Siracusa e do Imperador Nero. Mas a tirania sempre é prejudicial à sociedade e odiosa aos cidadãos de todos os tempos. Esse fim tampouco consiste no bem particular de alguma classe, porquanto faltaria a justiça distributiva e haveria contínuas discórdias entre os cidadãos, como na antiga Roma, entre as classes dos patrícios e dos plebeus. Nem consiste no bem particular de cada um, separadamente, porque teríamos, assim, uma sociedade em que ela própria seria o pai comum, o herdeiro, o proprietário, o mestre, o pontífice, o que é um verdadeiro absurdo, além de que seriam aniquiladas todas as iniciativas pessoais dos cidadãos, de maneira que não haveria, enfim, senão um povo semelhante àquela plebe romana que, desprezando o trabalho, só desejava pão e diversões, panem et circenses. Não, o fim da sociedade civil é a felicidade do povo, salus populi.
CAPÍTULO VI
A tutela da propriedade e da liberdade
Em primeiro lugar, o Estado deve tutelar os direitos dos cidadãos, principalmente a propriedade, que é o fundamento da família e da independência pessoal, bem como a liberdade, base do comércio e das operações humanas. Pois, se o poder público não garante aos cidadãos esses direitos, serão eles muitas vezes prejudicados pela avareza, pela inveja, pelo ódio e pela maldade dos outros homens. E nem é bastante, para remover esse perigo, o poder particular dos cidadãos, e mesmo se o fosse, não seria admissível em circunstâncias normais por motivos de ordem pública. Acresce que o bem público é o primeiro e o principal objeto das leis que regem os Estados, pelo que os códigos civis e penais tratam da tutela da propriedade, da vida, da liberdade e dos mais direitos dos cidadãos.
Mas, irmãos e filhos diletos, contemplai o Rio Grande do Sul convulsionado pela guerra civil! A propriedade já não tem mais as necessárias garantias. Depredações e requisições injustas prejudicam os cidadãos na sua fortuna particular. E, por isso, em várias zonas rurais, os agricultores organizaram guardas cívicas, para defenderem seus bens contra as tropas guerreiras, vedando-lhes, com mão armada, a entrada nas suas terras. E onde fica a liberdade tão apregoada, nos pampas e nas serras? Lede os jornais diários, ouvi os discursos proferidos no Congresso Nacional! Não queremos especializar fatos, nem tocar em feridas dolorosas. Mas, o certo é que o Rio Grande do Sul, na situação atual, já não atinge mais o seu fim social; já não salvaguarda integralmente o bem público, salus Populi. Por isso, é necessário que os dois partidos em guerra deponham as armas e façam a paz: Et projecerunt arma et fecerunt pacem, respeitando os direitos mútuos e tratando-se como irmãos, para que a nossa população não se torne ainda mais infeliz.
CAPÍTULO VII
Os bens da cultura e da civilização
Além disso, consiste a felicidade pública, proximamente, nos bens da cultura espiritual e da civilização, como ensina o imortal Pontífice Leão XIII. De fato, os homens não somente querem viver, mas precisam possuir uma cópia suficiente de bens, para que possam atender às exigências da vida material e espiritual de si mesmos e das famílias. O comércio e as empresas mercantis devem florescer, a fim de que haja certo conforto na vida social. As ciências, artes e letras devem aperfeiçoar-se. Mas, para conseguir essa soma de benefícios sociais, como sejam estradas de ferro, telégrafos e correios, escolas superiores, secundárias e inferiores, etc., não basta a iniciativa nem dos indivíduos nem de associações particulares.
De mais a mais, quais são os soberanos e presidentes de repúblicas que merecem a maior soma de aplausos e elogios dos povos? São aqueles que não somente defenderam os direitos da pátria e dos cidadãos com as armas, mas também se dedicaram ao desenvolvimento do comércio, artes, ciências, letras, como Péricles em Atenas, o imperador Augusto em Roma, o imperador D. Pedro II no Brasil e outros tantos. É por isso que diz o Papa Leão XIII: "A tutela do bem público não somente é a lei suprema, mas a causa e a razão do governo". Ora, antes de começar a presente guerra civil, o Rio Grande do Sul se achava em caminho de franca prosperidade. Hoje, após oito meses de lutas sangrentas, vemos a vida econômica paralisada. O serviço do telégrafo e o telefone nas zonas assoladas tornou-se irregular. As linhas das nossas estradas de ferro foram danificadas, bem como algumas estações e pontes foram saltadas aos ares por bombas de dinamite.
Os trabalhos públicos foram suspensos e milhares de trabalhadores dispensados. A indústria pastoril, há pouco tão florescente e modelar, foi, em grande parte, completamente danificada. A agricultura nas suas variadas ramificações tem sido prejudicada notavelmente, e se a situação em breve não mudar para melhor, caminharemos para uma época de carestia de vida, visto que muitos agricultores já estão desanimados de trabalhar, convencidos da inutilidade dos seus esforços e suores, diante do eminente perigo da devastação de suas lavouras. Os cofres públicos estão exaustos. Portanto, o movimento bélico atual chegou ao ponto de arruinar, também sob este ponto de vista, a prosperidade pública, salus Populi, que está em pleno declínio e se encaminha para o seu completo aniquilamento. Ponha-se, portanto, termo à guerra civil e volte, quanto antes, a paz aos lares e aos campos, para que recomecem os trabalhos benfazejos do nosso povo em todos os ramos de sua atividade. Pois, "quão formosos são sobre os montes os pés do que anuncia e prega a paz, daquele que anuncia o bem, daquele que prega a salvação, daquele que diz à cidade de Sião: o teu Deus está para reinar".
CAPÍTULO VIII
Os bons costumes e a Religião
Enfim, para completar a noção perfeita da felicidade pública, fim da sociedade civil, é necessário acrescentar que ela abrange também a tutela e a cultura dos nossos costumes e da Religião. A razão é óbvia. O conhecimento e o temor de Deus, autor do homem, seu juiz e fim supremo, são fundamento da moralidade e oferecem a suprema sanção às leis humanas.
Pois, se os cidadãos não guardam a justiça, a obediência, o amor do próximo, a temperança, por motivos de consciência, as leis do Estado serão observadas, quanto muito, por conveniência ou puro temor ao castigo, às baionetas. Quando o vício corrompe os costumes e não se praticam os preceitos de Deus, o Estado não pode conservar sua prosperidade, nem sua estabilidade, que se baseiam, principalmente, na observância tanto da justiça cumulativa, como distributiva e legal. Quem conhece um pouco a história das nações, certamente se lembra que, outrora e ainda nos tempos que correm, povos que prosperavam enquanto as virtudes neles floresciam, pereceram quando haviam degenerado os costumes e deixaram de praticar a Religião. Fala bem alto a Grécia antiga e a Roma dos imperadores, falam bem altas nações europeias em outros tempos opulentas e hoje reduzidas a indizíveis misérias.
Por esse motivo, ensina, mais de uma vez, Aristóteles que o fim do Estado é a felicidade pública, à qual também pertencem a integridade dos costumes e o culto da Religião, sob a proteção do Estado. Eis porque afirma Leão XIII: "Os costumes cristãos, desde que estão em ação, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência, porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem, cumprirem o desejo excessivo das riquezas e a sede de prazeres: esses dois flagelos que frequentes vezes lançam a amargura e o desgosto no seio mesmo da opulência, contentam-se, enfim, com uma vida e alimentação frugal e suprem, pela economia, a modicidade do rendimento, logo esses vícios que consomem não só as pequenas mas as grandes fortunas e dissipam os maiores patrimônios". Pois bem, considerai a situação angustiosa e lamentável que atravessa o Rio Grande do Sul!
O atual momento político prejudica fundamentalmente também esta parte da prosperidade pública, de sorte que me ocorre a palavra do profeta Isaías: "Ecce videntes clamabunt foris, angeli pacis amare flebunt: Eis que as sentinelas clamarão de fora, os anjos da paz chorarão amargamente". De fato, nas zonas conflagradas pela guerra civil, os fiéis, para evitarem perigos, frequentam raras vezes as igrejas. Municípios há em que o povo não se reúne nas capelas para assistir ao culto divino, ou para batizar as crianças e efetuar casamentos, com medo de lhes serem roubados os animais de montaria. Os missionários estão impedidos de continuarem seus trabalhos apostólicos.
E nós bispos mesmos tivemos de suspender e adiar nossas visitas pastorais a certas regiões do Estado, em vista da dificuldade de se reunirem os fiéis para os atos cultuais. E até alguns templos foram invadidos por forças armadas e ocupados militarmente, em defesa de interesses partidários, sendo, porém, restituídos ao culto, em virtude de reclamações da autoridade eclesiástica. E quanto prejudica esta guerra fratricida os bons costumes! Cada combate abre novas fontes de ódio e cada escaramuça proclama novas vinganças.
Os mandamentos de Deus são transgredidos. Perde-se a noção genuína da propriedade. Desaparece o amor do próximo. Os vínculos da moralidade se afrouxam. O homem se barbariza, porque tinge suas mãos em sangue humano, em sangue de irmãos. Menospreza-se a vida e o homem torna-se cruel e feroz para o seu semelhante, de modo que um se torna inimigo escarniando do outro, homo domini lupus. Assim é que a Religião e os bons costumes são enormemente prejudicados na guerra presente, pelo que, também neste particular, como em geral, a sociedade civil do Rio Grande não atinge, atualmente, o seu fim, o bem comum, salus Populi.
Que o Senhor do céu e da terra tenha compaixão do nosso povo e lhe abra o coração para a sua lei e para os seus preceitos e lhe dê a paz: "daperiat cor vestrum in lege sua et in praeceptis suis, et faciat pacem". Então sim, o nosso querido Rio Grande será novamente feliz e o nosso povo assentar-se-á na formosura da paz e nos tabernáculos da confiança e num descanso opulento: "Et sedebit populus meus in pulchritudine pacis et in tabernaculis fiduciae et in requie opulenta". É este o apelo que dirigimos ao Rio Grande e que já sumariamente endereçamos às autoridades supremas da República, do Estado e da Oposição. Sim, a paz é de absoluta necessidade para o Rio Grande do Sul. Peçamos o seu advento, pela intercessão de Maria Santíssima, a Rainha da paz; seja ela nossa Medianeira! Desfralde ela a bandeira branca da paz e entorne sobre nós a cornucópia das suas graças, as flores do amor fraternal e da felicidade.
CAPÍTULO IX
Invocação a Maria Santíssima, Rainha da Paz
A vós nos dirigimos, com confiança filial, Rainha da paz, tende misericórdia de nós. Vede, Mãe celeste, as nossas angústias e nossa desgraça! Intercedei junto ao vosso Filho Jesus Cristo, para que influa sobre a vontade dos dirigentes tanto do Estado como da Oposição, a fim de que modifiquem seus planos e aceitem a paz. Sacrificando sobre o altar da Pátria os interesses subalternos, os sentimentos de vingança e de ódio, em prol da salvação do nosso povo. Rainha da paz, sede para nós Mãe de misericórdia! Contemplai os templos e os altares que a nossa população levantou em vossa honra por toda a parte, e lembrai-vos das preces e cânticos que ali vos têm dirigido. Somos filhos vossos, não permitais que continuemos a matar os nossos irmãos, não permitais que sejamos fratricidas! Rainha da paz, contemplai os nossos campos já devastados e vossos templos, já ameaçados de profanação, e abreviai os dias desta guerra civil! Quantas mães choram seus filhos, mortos em combates cruéis.
Ajudai com os vossos rogos, para que o número dessas mães enlutadas não se multiplique, lembrando-vos da vossa fuga para o Egito, quando salvastes o vosso Filho das mãos assassinas de Herodes! Quantas viúvas choram a morte prematura dos seus maridos, arrimo único do seu lar. Tende misericórdia das senhoras, cujos esposos se acham nas fileiras da guerra civil. Pois, quando vosso castíssimo esposo São José se achava no leito da morte, tinha ele o conforto de ver-vos e o vosso divino Filho ao seu lado. Mas, na luta tremenda que ora se trava, morrem os pobres chefes de família em pleno campo, abandonados, sem recursos, sem assistência de um sacerdote, sem uma mão amiga que lhes enxugue as lágrimas, que lhes lave as feridas sangrentas e lhes feche os olhos para o derradeiro sono!
Ao pé da cruz recebestes o encargo de serdes a Mãe de todos os homens, por isso, não permitais que o ódio e a vingança continuem a celebrar os seus funestos triunfos entre nós. Apagai o fogo da guerra civil que inflama as paixões desregradas, por serdes a Mãe de todos. Rainha da paz, o sangue das vítimas desta guerra fratricida clama ao céu, chamando sobre nós a ira da justiça divina. Impedi que o vosso Filho nos inflija ainda maiores castigos. Queremos acabar com este triste espetáculo! Queremos estender a mão uns aos outros em sinal de perdão, de amizade e reconciliação! Sem méritos pessoais, apelamos para vós em nome dessas mães aflitas que choram a morte dos seus filhos; das viúvas que lamentam o desaparecimento dos seus esposos, e dos órfãos que deploram o massacre dos seus pais e protetores. Enviai-nos a paz, para que cessem as lágrimas e não aumente o luto que já se estende por sobre tantos lares do Estado.
Salve, Rainha da paz, Mãe de misericórdia, volvei um olhar benigno à vossa terra, para que, em breve, quanto antes, seja proclamada a paz e recomece o reinado da concórdia, da harmonia, da felicidade. Nós vos proclamamos nossa Medianeira junto ao vosso Filho. Rainha da paz, socorrei-nos; jubilosos cantaremos nos lares, nos campos, nos templos, os vossos louvores e ao vosso divino Filho entoaremos hinos de eterna gratidão. Regina pacis, ora pro nobis!
Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.
Dada e passada sob o sinal e selo das nossas armas, no 15º aniversário da nossa sagração episcopal, em Porto Alegre, em 13 de setembro de 1923.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.