PAZ E TRABALHO

OITAVA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1920) 

Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo. 


PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I

Encíclica do Santo Padre Bento XV

Quando Bispo da nova Diocese de Florianópolis, amados irmãos e filhos, dirigíamos anualmente uma Carta Pastoral aos nossos prezados diocesanos, obedecendo ao conselho de São Paulo: "Prega a palavra, insta a tempo, e fora de tempo; roga, repreende, admoesta com toda a paciência e doutrina".

Da mesma sorte, vos temos endereçado nossa palavra escrita, desde que fomos investidos no governo desta florescente Arquidiocese. Hoje vos apresentamos a leitura da importante Encíclica do Santo Padre Bento XV, de 23 de maio do corrente ano, e já publicada em língua latina em a nossa revista oficial, para que chegue, assim, ao conhecimento de vós todos. Sua Santidade escreve sobre a paz e a reconciliação cristã de todos os homens.

Pois, apesar da celebração da paz em seus traços gerais, a humanidade ainda não está completamente pacificada. É preciso que todos os homens contribuam, de boa vontade e com seu exemplo, para a efetividade da paz, a fim de que desapareçam os sentimentos de ódio e os rancores ainda existentes no meio das nações, como consequência deletéria da última guerra mundial. O Santo Padre, do mesmo modo que durante a guerra, empenha hoje os seus esforços e o prestígio de sua autoridade divina no sentido de encaminhar os povos pela senda da paz e do trabalho, donde resultará a felicidade geral.

Em seguida a esse documento pontifício, algo diremos sobre o trabalho enobrecido e santificado pela doutrina da Igreja.

Antes, porém, transcrevemos alguns trechos do Motu próprio que Sua Santidade publicou em 25 de julho passado, acerca da celebração do quinquagésimo aniversário da proclamação do Patriarca São José como patrono da Igreja Universal e que vem muito a propósito.

"E para lembrar... o dever a todos que... ganham seu pão com o trabalho e a fim de conservá-los imunes do contágio do socialismo, o inimigo mais ferrenho dos princípios cristãos. Nós, com grande solicitude lhes propomos de modo particular, São José, para que o sigam como guia especial e o honrem com seu Padroeiro celeste.

Ele, de fato, levou uma vida semelhante à deles e isto é tanto verdade que Jesus Cristo, não obstante ser o Unigênito do Pai eterno, quis ser chamado "o Filho do carpinteiro". Mas, de quantas excelsas virtudes soube ele ornar aquela humilde e pobre condição! Quer dizer, daquelas virtudes que deviam resplandecer no Esposo de Maria Imaculada e no pai putativo de Jesus Cristo.

Por isso, compareçam todos à escola de São José, para considerarem as coisas presentes que passam, à luz das futuras que duram eternamente; e consolando-se nos inevitáveis desgostos da condição humana com a esperança dos bens celestes, a estes aspirem com todas as forças, resignados na vontade divina, vivendo sobriamente, segundo os ditames da piedade e da justiça."

CAPÍTULO II

A paz: seus benefícios e seus obstáculos

Paz, o belo dom de Deus, cujo nome, como diz Santo Agostinho, é a palavra mais doce que ouvimos e a melhor e mais desejável posse; a paz, que durante mais de quatro anos foi implorada pelos votos ardentes de todos os bons povos, pelas orações das almas piedosas e pelas lágrimas das mães, começa finalmente a brilhar sobre as nações. Com isso, somos de fato os mais felizes de todos e de todo o coração nos regozijamos. Mas esta alegria de Nosso coração paterno é perturbada por muitas ansiedades amargas, pois se na maioria dos lugares a paz é de alguma forma estabelecida e tratados assinados, os germes de antigas inimizades permanecem; e vocês bem sabem, Veneráveis Irmãos, que não pode haver paz estável ou tratados duradouros, embora feitos após longas e difíceis negociações e devidamente assinados, a menos que haja um retorno da caridade mútua para apaziguar o ódio e banir a inimizade.

CAPÍTULO III

A paz e a obra de Bento XV

Por nós mesmos, desde o início da guerra, pelos ocultos desígnios de Deus, que fomos elevados à cadeira. Deixamos de fazer tudo ao nosso alcance desde o início da guerra para que todas as nações do mundo pudessem retomar relações cordiais o mais breve que possível. Para tanto, nunca deixamos de rezar, de repetir exortações, de propor caminhos, de tentar todos os meios, de fato, para abrir com a ajuda divina, um caminho para uma paz justa, honrosa e duradoura; e ao mesmo tempo exercemos todo Nosso cuidado paternal para aliviar em todos os lugares aquele terrível fardo de tristeza e desastre de todo tipo que acompanhou a imensa tragédia.

E agora, assim como desde o início do Nosso pontificado conturbado, a caridade para com Jesus Cristo nos levou a trabalhar tanto pelo retorno da paz quanto para aliviar os horrores da guerra, agora que a paz comparativa foi concluída, esta mesma caridade exorta-nos a exortar todos os filhos da Igreja, e toda a humanidade, a limpar seus corações da amargura e dar lugar ao amor mútuo e à concórdia.

CAPÍTULO IV

Tristes consequências das hostilidades e latentes aversões

Não há necessidade de nós de longa prova para mostrar que a sociedade correria o risco de grandes perdas se, enquanto a paz fosse assinada, hostilidade latente e inimizade continuassem entre as nações. Não é preciso falar da perda de tudo o que mantém e fomenta a vida civil, como o comércio e a indústria, a arte e a literatura, que só florescem quando as nações estão em paz. Mas, o que é ainda mais importante, graves danos se acumulariam na forma e na essência da vida cristã, que consiste essencialmente na caridade e cuja pregação se chama Evangelho da paz.

CAPÍTULO V

O grande preceito da caridade e os primeiros cristãos

Vós bem sabeis, e frequentemente vos temos lembrado disso, nada foi tão frequente e tão cuidadosamente inculcado em Seu discípulo por Jesus Cristo como este preceito da caridade mútua como aquele que contém todos os outros. Cristo o chamou de novo mandamento, Seu próprio, e desejou que fosse o sinal dos cristãos pelo qual eles pudessem ser distinguidos de todos os outros; e na véspera de Sua morte foi Seu último testamento aos Seus discípulos amar uns aos outros e assim tentar imitar a unidade inefável das três Pessoas Divinas na Trindade. "Para que eles sejam um como nós também somos um... Para que sejam aperfeiçoados em um".

Os Apóstolos, seguindo os passos do divino Mestre e conformes à sua palavra e aos seus mandamentos, exortaram incessantemente aos fiéis: "Antes de todas as coisas tende constante caridade mútua". "Mas acima de todas essas coisas tem a caridade, que é o vínculo da perfeição". "Amados, amemo-nos, porque a caridade é Deus". Nossos irmãos da primeira era cristã observaram fielmente esses mandamentos de Jesus Cristo e dos apóstolos. Eles pertenciam a nações diferentes e rivais; no entanto, eles se esqueceram voluntariamente de suas causas de contenda e viveram em perfeita concórdia, e tal união de corações contrastava com as inimizades mortais pelas quais a sociedade humana foi então consumida.

CAPÍTULO VI

O perdão das ofensas e o exemplo do Redentor

O que já foi dito a favor da caridade vale para inculcar o perdão das injúrias que não é menos solenemente ordenado pelo Senhor: "Mas eu vos digo: amai a vossos inimigos; fazei bem aos que vos odeiam; orai por aqueles que vos perseguem e vos caluniam, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o seu sol sobre bons e maus". Daí aquela advertência terrivelmente severa do Apóstolo São João. "Todo aquele que odeia a seu irmão é um assassino. E você sabe que nenhum assassino tem a vida eterna permanecendo em si mesmo."

Nosso Senhor Jesus Cristo, ao nos ensinar como orar a Deus, nos faz dizer que desejamos o perdão como perdoamos aos outros: "Perdoa-nos as nossas ofensas como perdoamos aos que nos ofenderam." E se a observância desta lei às vezes é dura e difícil, não temos apenas a assistência oportuna da graça de Nosso Divino Redentor, mas também Seu exemplo para nos ajudar a superar as dificuldades. Pois, ao ser pendurado na cruz, Ele desculpou diante de seu Pai aqueles que O torturaram de maneira tão injusta e perversa: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." A piedade e a bondade amorosa de Jesus Cristo, cujo Vigário, sem nenhum mérito próprio, Somos; de todo o nosso coração, e seguindo o Seu exemplo, Perdoamos todos os Nossos inimigos que, consciente ou inconscientemente, amontoaram e ainda estão amontoando sobre nossa pessoa e Nosso trabalho todo tipo de vituperação, e abraçamos tudo em Nossa caridade e benevolência, e não negligenciamos nenhuma oportunidade de lhes fazer todo o bem em Nosso poder. Isso é de fato o que os cristãos dignos desse nome devem fazer para com aqueles que durante a guerra os fizeram mal.

CAPÍTULO VII

Outro dever indispensável da caridade

A caridade cristã não deve se contentar em não odiar nossos inimigos e amá-los como irmãos; exige também que os tratemos com bondade, seguindo a regra do Divino Mestre que "andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do diabo", e terminou Sua vida mortal, cujo curso foi marcado por boas obras, derramando Seu sangue por eles. Assim disse São João: "Nisto conhecemos a caridade de Deus, porque Ele deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Aquele que tem a substância deste mundo e verá a seu irmão necessitado, e lhe fechará as entranhas: como permanece nele a caridade de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade".

De fato, nunca houve um tempo em que deveríamos "esticar os limites da caridade" mais do que nestes dias de sofrimento e tristeza universais; nunca, talvez, como hoje, a humanidade teve tanto necessidade daquela beneficência universal que brota do amor aos outros e é cheia de sacrifício e zelo. Pois se olharmos ao redor, onde a fúria da guerra foi liberada, veremos regiões imensas totalmente desoladas, incultas e abandonadas; multidões reduzidas à falta de comida, roupas e abrigo; inúmeras viúvas e órfãos privados de tudo, e um número incrível de seres debilitados, principalmente crianças e jovens, que carregam em seus corpos as devastações desta guerra atroz.

CAPÍTULO VIII

A obra e o ofício que reclama para si a Igreja

Quando se olha para todas essas misérias que afligem o gênero humano, inevitavelmente se pensa no viajante do Evangelho que, descendo de Jerusalém a Jericó, caiu nas mãos de ladrões, que o roubaram, cobriram de feridas e o deixaram meio morto. Os dois casos são muito semelhantes; e quanto ao viajante veio o bom samaritano, cheio de compaixão, que curou suas feridas, derramando azeite e vinho, levou-o para uma estalagem, e se encarregou de todos os cuidados por ele; da mesma forma, é necessário que Jesus, de quem o samaritano era a figura, coloque as mãos sobre as feridas da sociedade.

Esta obra, este dever que a Igreja reivindica como sua como herdeira e guardiã do espírito de Jesus Cristo — a Igreja cuja existência inteira é um tecido maravilhosamente variado de todos os tipos de boas ações, a Igreja, "a verdadeira mãe dos cristãos no sentido pleno da palavra, que tem tanta ternura de amor e de caridade pelo próximo que pode oferecer os melhores remédios para os diversos males que afligem as almas por causa dos seus pecados". Por isso ela "trata e ensina as crianças com ternura, os jovens com firmeza, os velhos com muita calma, levando em conta não só a idade, mas também a condição de alma de cada um." Seria difícil exagerar o efeito da beneficência cristã multifacetada em abrandar o coração e assim facilitar o retorno da tranquilidade às nações.

CAPÍTULO IX

Deveres dos fiéis, dos sacerdotes, dos jornalistas

Portanto, Veneráveis Irmãos, Nós vos rogamos e exortamos na misericórdia e caridade de Jesus Cristo, esforcei-vos com todo o zelo e diligência não apenas para exortar os fiéis confiados aos vossos cuidados a abandonarem o ódio e perdoarem as ofensas; mas, e o que é mais imediatamente prático, promover todas as obras de benevolência cristã que levam ajuda aos necessitados, conforto aos aflitos e proteção aos fracos, e dar assistência oportuna e apropriada de todo tipo a todos os que sofreram de a guerra. É Nosso desejo especial que exortais os vossos sacerdotes, como ministros da paz, a serem assíduos no apelo a este amor ao próximo e mesmo aos inimigos, que é a essência da vida cristã, e "sendo todas as coisas para todos os homens" e dando um exemplo aos outros, trava guerra em toda parte contra inimizade e ódio, fazendo assim algo muito agradável ao amoroso Coração de Jesus e àquele que, embora indigno, ocupa o seu lugar na terra. Nesse sentido, os escritores e jornalistas católicos devem ser convidados a se revestir "como eleitos de Deus, santos e amados, de piedade e bondade." Que eles mostrem essa caridade em seus escritos, abstendo-se não apenas de acusações falsas e infundadas mas também de toda intemperança e amargura da linguagem, tudo o que é contrário à lei de Cristo e apenas reabre feridas ainda não curadas, visto que o menor toque é um sério irritante para um coração cujas feridas são recentes.

CAPÍTULO X

Deveres mútuos dos povos

Tudo o que dissemos aqui aos indivíduos sobre o dever da caridade queremos dizer também aos povos que foram libertados do peso de uma longa guerra, a fim de que, quando todas as causas de desacordo tenham sido, até possíveis, afastados e sem prejuízo dos direitos da justiça, podem retomar relações de amizade entre si. O Evangelho não tem uma lei de caridade para os indivíduos e outra para os Estados e nações, que na verdade são apenas coleções de indivíduos. Terminada a guerra, as pessoas parecem chamadas a uma reconciliação geral não apenas por motivos de caridade, mas por necessidade; as nações se unem naturalmente pela necessidade que têm umas das outras e pelo vínculo da boa vontade mútua, laços que hoje se fortalecem com o desenvolvimento da civilização e o maravilhoso aumento da comunicação.

CAPÍTULO XI

A Igreja proclama ainda estes deveres

Em verdade, como já dissemos, esta Sé Apostólica nunca se cansou de ensinar durante a guerra o perdão das ofensas e a reconciliação fraterna dos povos, em conformidade com a santíssima lei de Jesus Cristo e de acordo com as necessidades da vida civil e das relações humanas; nem permitiu que em meio a dissensão e ódio esses princípios morais fossem esquecidos. Com tanto mais razão então, agora que foram assinados os Tratados de Paz, proclama estes princípios como, por exemplo, o fez há pouco na Carta aos Bispos da Alemanha, e na dirigida aos Arcebispo de Paris.

E essa concórdia entre as nações civilizadas é mantida e fomentada pelo moderno costume de visitas e reuniões nas quais os Chefes de Estado e Príncipes estão acostumados a tratar de assuntos de especial importância. Portanto, considerando as novas circunstâncias dos tempos e a perigosa tendência dos acontecimentos, e para encorajar esta concórdia, não estaríamos dispostos a abrandar em alguma medida a severidade das condições justamente estabelecidas por Nossos Predecessores, quando o civil derrubado o poder da Sé Apostólica, contra as visitas oficiais dos Chefes de Estados católicos a Roma. Mas, ao mesmo tempo, declaramos formalmente que esta concessão, que parece aconselhada ou, antes, exigida pelas graves circunstâncias em que a sociedade atual se encontra, não deve ser interpretada como uma renúncia tácita aos seus direitos sacrossantos por parte da Sé Apostólica, uma vez que está consentida com a situação ilícita em que se encontra. Em vez disso, aproveitamos esta oportunidade para renovar pelas mesmas razões os protestos que Nossos Predecessores fizeram várias vezes, nem um pouco movidos por interesses humanos, mas em cumprimento do sagrado dever de seu encargo de defender os direitos e a dignidade deste. Sé Apostólica; exigindo mais uma vez, e com ainda maior insistência agora que a paz seja feita entre as nações, que "também para o Chefe da Igreja, se ponha fim àquela condição anormal que, de certo modo, prejudica gravemente a tranquilidade entre os povos."

CAPÍTULO XII

A liga das nações e a redução dos exércitos

As coisas sendo assim restauradas, a ordem exigida pela justiça e caridade restabelecida e as nações reconciliadas, é muito desejável, Veneráveis Irmãos, que todos os Estados, deixando de lado as suspeitas mútuas, se unam em uma liga, ou melhor, uma espécie de família de povos, calculada tanto para manter sua independência quanto para salvaguardar a ordem da sociedade humana. O que especialmente, entre outras razões, exige tal associação de nações, é a necessidade geralmente reconhecida de fazer todos os esforços para abolir ou reduzir o enorme fardo das despesas militares que os Estados não podem mais suportar, a fim de evitar essas guerras desastrosas ou pelo menos para remover o perigo delas, tanto quanto possível. Assim, cada nação teria a garantia não apenas de sua independência, mas também da integridade de seu território dentro de suas justas fronteiras.

CAPÍTULO XIII

A liga das nações e a Igreja Católica

A Igreja certamente não recusará o seu zeloso auxílio aos Estados sob o direito cristão em nenhum dos seus empreendimentos inspirados na justiça e na caridade, visto que ela própria é o tipo mais perfeito de sociedade universal. Ela possui em sua organização e instituições um instrumento maravilhoso para levar esta fraternidade entre os homens, não só para sua salvação eterna, mas também para seu bem-estar material, para a aquisição segura de bênçãos eternas. É o ensino da história que, quando a Igreja impregnou com seu espírito as antigas e bárbaras nações da Europa, pouco a pouco as numerosas e variadas diferenças que as separavam foram diminuindo e suas contendas se extinguiram; com o tempo, eles formaram uma sociedade homogênea da qual surgiu a Europa cristã que, sob a orientação e os auspícios da Igreja, embora preservando uma diversidade de nações, tendia a uma unidade que favorecia sua prosperidade e glória. Sobre este ponto diz bem Santo Agostinho: «Esta cidade celeste, na sua vida aqui na terra, chama a si mesma cidadãos de todas as nações e forma de todos os povos uma sociedade variada; não é atormentada por diferenças de costumes, de leis e instituições, que servem para alcançar ou manter a paz na terra; não rasga nem destrói nada, mas guarda tudo e se adapta a todos; embora essas coisas possam variar entre as nações, todas são direcionadas ao mesmo fim da paz na terra, desde que não impeçam o exercício da religião, que ensina o culto ao verdadeiro Deus supremo». E o mesmo santo Doutor assim se dirige à Igreja: "Cidadãos, os povos e todos os homens, tu, relembrando a sua origem comum,

CAPÍTULO XIV

Exortação e votos do Santo Padre

Para voltar ao que dissemos no início, dirigimo-nos afetuosamente a todos os Nossos filhos e os conjuramos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo para que esqueçam as diferenças e ofensas mútuas e nos unam nos laços da caridade cristã, da qual nenhum está excluído e dentro dos quais ninguém é estranho. Exortamos fervorosamente todas as nações, sob a inspiração da benevolência cristã, a estabelecer uma verdadeira paz entre si e se unir em uma aliança que será justa e, portanto, duradoura. E, por último, apelamos a todos os homens e todos os povos para que se unam de coração e mente à Igreja Católica e, por meio da Igreja, a Cristo Redentor do gênero humano, para que lhes possamos dirigir com toda a verdade as palavras de São Paulo aos Efésios: "Mas agora em Cristo Jesus vocês que às vezes estavam longe, são aproximados pelo sangue de Cristo. Pois Ele é a nossa paz, que fez um e quebrou a parede de separação do meio... matando as inimizades em si mesmo. E vindo ele pregou paz para vocês que estavam longe e paz para os que estavam perto."

Nem menos apropriadas são as palavras que o mesmo apóstolo dirigiu aos Colossenses: "Não vos deiteis uns aos outros: despojai-vos do velho com as suas obras. Colocai-vos no novo, aquele que se renova para o conhecimento segundo a imagem dAquele que o criou. Onde não há gentio nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro nem cita, escravo nem livre. Mas Cristo é tudo em todos."

Entretanto, confiando na proteção de Maria, a Virgem Imaculada, que há pouco dirigimos, deve ser universalmente invocada como "Rainha da Paz", como também na intercessão das três Bem-aventuradas a quem decretamos a honra dos santos, Nós humildemente imploramos ao Espírito Santo, o Paráclito, que Ele possa "graciosamente conceder à Igreja os dons da unidade e da paz", e possa renovar a face da terra por um novo derramamento de Sua caridade para a salvação de todos. Como penhor destas dádivas celestiais e como penhor de Nossa paternal benevolência, concedemos de todo o coração a vocês, Veneráveis Irmãos, a todo o seu clero e povo, a Benção Apostólica.

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO I

A desorganização atual do trabalho

Uma das consequências mais formidáveis da última guerra é a desorganização do trabalho e a consequente anarquia econômica na Europa. Os povos europeus, principalmente os do meio-dia, perderam a verdadeira noção do trabalho, desconhecendo sua necessidade absoluta e universal. Prevalece ali o domínio do comunismo, que tem suas múltiplas raízes, ou seja, no esquecimento e negação de Deus. Pois, do materialismo deriva-se, logicamente, a inobservância das leis humanas e divinas, e nasce o desprezo das obrigações e deveres recíprocos na sociedade.

Ainda que na velha Europa fora celebrado o tratado de paz de Versalhes, nem a diplomacia com seus ponderados processos, nem a política internacional inspirada nos interesses comuns e nas conveniências particulares, pode obstar ao movimento progressivo da revolução social, que, partindo dos confins da Ásia, ameaça avassalar, como os Bárbaros da Idade Média, toda a Europa, devastando a opulenta ceara da civilização moderna e os tesouros acumulados por uma cultura de longos séculos. É o extermínio, o suicida desvairado das nações, uma nova guerra contra Deus e a humanidade, cujas consequências funestas podem atingir, cedo ou tarde, o nosso florescente e próspero país. A guerra depaupera e arruína, o trabalho enriquece e faz prosperar as nações. O trabalho, porém, exige a paz, como condição essencial, para que possa desenvolver-se e frutificar. Por isso, após a leitura da Encíclica do Santo Padre, queremos dizer-vos algumas palavras sobre o trabalho enobrecido pela Religião. Todos os habitantes deste Estado, como do Brasil em geral, pertencem às diversas classes laboriosas. É preciso notar que não somente as mãos dos homens dedicam-se ao trabalho, mas que igualmente a inteligência exerce a sua atividade, e por isso, todos somos operários. Trabalho é o comércio, a indústria fabril como pastoral, trabalho é o exercício dos ofícios mecânicos, das belas artes, das funções administrativas e, principalmente, da agricultura que deriva a sua nobreza, segundo a palavra da Sagrada Escritura, do mesmo Deus: "Não aborreças as obras laboriosas nem o trabalho de cultivar a terra, que foi criado pelo Altíssimo". Qualquer que seja a nossa ocupação no meio social, todos somos operários e queremos pertencer, como instrumentos úteis, às classes trabalhadoras.

CAPÍTULO II

Os benefícios do trabalho

As obras-primas da arte, as descobertas da ciência, as maravilhas da indústria, toda a sorte de progressos do homem, são fruto do seu trabalho quotidiano. Só a Deus pertence criar e fazer o universo com uma palavra. Mas o homem, sua imagem, pode, por sua ação paciente, modificar as obras da criação e forçar a natureza a satisfazer as suas exigências. Entre os seres criados, só ele tem a missão de atuar sobre a natureza, de a cultivar, de a tornar produtiva, de a embelezar e enriquecer. As nações que obedecerem a esta lei foram abençoadas por Deus e engrandeceram-se. Segundo Santo Agostinho, os antigos romanos tinham recebido de Deus o império do mundo, em paga de suas virtudes cívicas, e uma dessas virtudes que em prêmio lhes valeu essa recompensa terrestre é, sem contradição, a sua incomparável atividade. Pelo contrário, os povos ociosos, transgredindo a lei do Senhor, o preceito do trabalho, incorrem como que em uma segunda maldição, que é a degradação, a ignorância, a miséria, um sono de morte.

A lei do trabalho é uma lei de bênção. O homem, regando com o suor do rosto suas terras, as torna férteis; aplicando-se à indústria, fabrica objetos que lhes são úteis. O trabalho converte-se numa fonte de benefícios. Dá-lhe o pão, o vestido e a habitação, o vestido e a habitação. Ajuda ao pequeno a elevar-se a ocupar um lugar conveniente na sociedade. Tira o pobre da indigência, coloca-o em um estado de abastança que lhe permite, segundo a expressão do salmista: "o fruto do seu suor e ver os seus filhos como pimpolhos de oliveiras ao redor de sua mesa."

O preguiçoso, porém, corrompe-se e sucede com os povos o mesmo que os indivíduos. Santo Agostinho observa, depois de São Paulo, que foi por causa da ociosidade que no deserto o povo de Deus se entregou à intemperança e a divertimentos ilícitos, enquanto Moisés o deixou um instante para ir falar com o Senhor no monte. Como é que Sodoma se deu a abominações até então desconhecidas e inauditas? A ociosidade foi a origem de sua perversidade. O mesmo Santo Agostinho prossegue na sua enumeração, acrescentando: sentiu David em seu coração o fogo da concupiscência, quando estava ocupado nos exercícios da guerra? Não cometeu ele o seu adultério e homicídio quando ficou ocioso em Jerusalém tempo em que, segundo observa a Sagrada Escritura, deveria estar à frente de suas tropas? Quem causou a ruína de Sansão? Esse herói do povo de Israel, sempre vitorioso dos seus inimigos, foi tomado e atado com cadeias, enquanto vivia uma vida ociosa e efeminada com Dalila. Salomão, o mais sábio dos príncipes, foi virtuoso durante os primeiros anos do seu reinado, quando se ocupava em edificar o templo; mas, terminada a sua obra, tendo querido entregar-se a um culpável descanso, deixou-se corromper pela volutuosidade, que é a filha da ociosidade.

Ah! Meus irmãos, conclui Santo Agostinho, a nossa virtude não é mais segura e mais sólida que a destes grandes homens; não somos nem mais santos que David, nem mais sábios que Salomão, nem mais fortes que Sansão, e ainda que vivamos no retiro, não temos a temer menos as desordens da ociosidade.

Entregai-vos, por isso, ao trabalho, porque é uma lei divina. Está escrita no livro de Deus; nos vossos membros que precisam de se mover; nas vossas necessidades que não podem ser satisfeitas, senão por este preço; no vosso espírito que quer um exercício. Está escrita nas vossas casas que caem em ruína, se o trabalho as não ampara; nos vossos filhos que se pervertem, se permanecem ociosos; nas vossas terras que se cobrem de espinhos e cardos, se as não cultivais.

Acomodai-vos à vossa condição; o trabalho que desprezais é a fonte da vossa riqueza material e espiritual, dar-vos-á pão para o corpo e virtudes enérgicas para a alma. Quem diz virtude, diz força, e a força adquire-se e conserva-se pelo exercício. O trabalho será para as vossas faculdades um alimento e como que um sol, que as impede de se corromper. Primeiro que tudo, sois cristãos, e visto que o trabalho foi sempre considerado, pelos moralistas católicos e pelos santos, como o preservativo do pecado, como o amparo da virtude, porque não usaríeis dum meio tão precioso para a salvação da vossa alma?

Mas não basta que trabalheis, é também necessário que conserveis e apliquemos honestamente o resultado do vosso trabalho. Quantas vezes arrisca-se o dinheiro ganho durante a semana, às vezes durante meses ou anos, em jogos aleatórios, para prejuízo do próprio indivíduo e de sua família! Quantas vezes a miséria é o resultado direto desses jogos que campeiam não somente nas cidades, mas também nas zonas rurais! Quem assim joga irrazoavelmente, torna-se escravo de um vício detestável e, por mais que trabalhe, nunca chegará a ver próspera e feliz a sua família.

Evitai, portanto, o jogo, lembrando-vos sempre dos perigos que correis de danificardes a vossa fortuna e de arruinardes a tranquilidade do vosso lar, expondo-vos às maiores misérias temporais e à desgraça eterna.

CAPÍTULO III

Os trabalhos do campo

Muitos encantos oferecem os trabalhos campesinos. Pois, o lavrador está quotidianamente em contato com as obras divinas, vê o sol cada manhã subir majestoso do seu berço de fogo, e à tarde, desaparecer no seu ocaso abrasado. Goza mais do que qualquer outro do belo firmamento estendido por cima de sua cabeça como um pavilhão azulado, matizado de grãos de ouro e do qual nenhuma dobra lhe é oculta. Segue, com solicitude, o curso regular das estações, inquieta-se todos os dias com as mudanças da temperatura, pede frequentemente esses orvalhos da manhã e da tarde, essa chuva oportuna que Deus conserva em um reservatório e cuja chave ele só possui. O lavrador assiste continuamente a este trabalho maravilhoso e divino da germinação das plantas, de seu desenvolvimento, de sua esplêndida eflorescência e de sua abundante frutificação.

A vida do campo aproxima o homem a Deus; por isso mesmo, a agricultura devia fazer parte de sua felicidade no paraíso, onde fora colocado para o cultivar. Desde o princípio da humanidade, antes que se inventassem as artes mecânicas, nós vemos os homens ocupados nestes dois grandes ramos da atividade humana: a lavoura e a indústria pastoril. Os patriarcas eram lavradores ou proprietários de rebanhos. A Noé chama a Sagrada Escritura de vir agrícola, homem lavrador, sendo que Saul e David dos seus rebanhos foram levados ao trono real do Povo escolhido.

Também a antiga Roma, antes que se entregasse aos excessos da volutuosidade e ao desprezo do trabalho, ia buscar seus primeiros reis e generais à lavoura. E diz Plínio que a terra assim cultivada pelas mãos dos mesmos imperadores parecia feliz e ufana de ser lavrada por um arado laureado e por um lavrador triunfante.

Finalmente, a mesma Igreja tem escolhido, mais de uma vez, os seus sacerdotes, os seus bispos e sumos pontífices entre os filhos de lavradores e pastores, por serem sãos de corpo e alma, de integridade moral e física.

Os antigos inferiram dali que a vida campestre era um aprendizado do governo dos homens, e chamavam irmãs a arte de guardar os rebanhos e a de reger os povos.

O lavrador e o nosso campeiro sustentam a pátria e a defendem. Não têm menos coragem para regar os campos de batalha com o seu generoso sangue, que cultivar a lavoura e dedicar-se às operações de suas vastas campinas. Por este motivo, já declarara Aristóteles que a agricultura é a arte mais justa e conforme à natureza humana; serve muito para fortalecer o corpo, como para fortificar a alma, e enquanto as outras artes o enervam e avilta, ela que não se exerce senão sob os ardores do sol e pelos mais rudes trabalhos, habitua assim o cidadão a arrostar o ataque do inimigo. E acrescenta o mesmo que o melhor povo é o que se compõe de lavradores porque, enquanto trabalham para ganhar o seu sustento, não pensam em cobiçar o alheio; apraz-lhe mais lavrar seus campos que governar a República. E ainda outro escritor pagão, Cícero, diz que de todos os meios que temos para adquirir alguma coisa, não há outro melhor que o da agricultura, nem mais agradável e digno de um homem livre. Mas, para que isto realmente se verifique, é preciso que o lavrador viva segundo os preceitos cristãos. Quando os raios ardentes do sol lhe queimam a fronte, quando o suor lhe corre pelos braços desnudados, lembre-se da sentença divina que lhe impõe o trabalho fatigante como castigo do pecado e como uma expiação salutar. "Tu tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas, em trabalho comerás todos os dias da tua vida, e no suor do teu rosto comerás o teu pão".

Cumpre, portanto, que os trabalhadores do campo amem a sua arte, e dela não façam um simples ofício, e sim a ela se consagrem de todo o coração: "Cor suum dabit ad versandos sulcos et vigília ejus in sagina vaccarum: Ele aplicará o seu coração a resolver os sulcos e seu desvelo se empregará em engordar as vacas".

Eis aqui os agricultores cristãos, eis o que vós sois, bons habitantes dos campos, eis o que não deveis cessar de ser. Conservai a simplicidade dos vossos usos e costumes, fugi do luxo, da ociosidade e da efeminação, continuai a praticar a vossa santa Religião com todo o fervor, não somente nas vossas igrejas matrizes e nas capelas dos vossos povoados, mas também nas cidades onde, por ventura, mais tarde vereis transmitir como uma preciosa herança aos vossos filhos, enquanto não chega a do céu. E o Deus que, desde o princípio do mundo, criou a agricultura, que faz chover e brilhar o sol sobre vossas lavouras e campos, vos há de conduzir para os jardins eternos do paraíso celestial.

CAPÍTULO IV

Natureza do trabalho

Não é verdade que o cristianismo busque a origem do trabalho no pecado. Antes que os nossos primeiros pais transgredissem a lei divina, ele já existia. O trabalho fora criado simultaneamente com o homem, formando como que uma exigência do seu ser. Já no paraíso era companheiro seu, por isso que "Deus pôs o homem no jardim de delícias, para que o cultivasse e guardasse". Portanto, o trabalho não era uma restrição, mas uma parte integrante de sua felicidade paradisíaca.

O trabalho tem, pois, sua origem numa disposição especial do Criador. Pelo trabalho seguimos o exemplo de Deus. Isto nos afirma Jesus Cristo, quando diz: "Meu Pai até agora não cessa de operar, e eu também incessantemente opero". As operações de Jesus Cristo eram a imitação perfeita e os trabalhos dos homens são a imitação imperfeita das admiráveis obras do Pai Celeste.

Não é o trabalho, mas a sua amargura que a fé atribui ao pecado, como a sua causa. Pelo fato de terem Adão e Eva desobedecido a Deus, ficaram sujeitos a ganhar o seu pão à custa dos suores, fadigas e sacrifícios. É esta a razão por que o trabalho, ainda que penoso no seu exercício, é próprio do homem.

Não raro ouve-se dizer que a Igreja despreza o trabalho e o trabalhador, visto que considera os bens terrenos sem valor real e passageiros e só grandes as coisas eternas e divinas, pelo que sobrecarrega os fiéis de obrigações religiosas e os constrange a se absterem de todo o trabalho servil nos domingos e dias santificados, não lhes sendo possível em face desse rigor, dedicar-se devidamente às suas ocupações quotidianas.

Este juízo é totalmente falso. É justamente a fé que nos oferece os maiores estímulos para o trabalho e nos impele a trabalharmos com alegria e amor. Não há trabalho, por mais árido e modesto que pareça, o qual seja vil e ignóbil, iluminado pela luz da fé. Segundo as leis da moral cristã, devemos consagrar nosso tempo principal aos trabalhos da nossa profissão, consista ela no desempenho de algum cargo público, no exercício de trabalhos intelectuais, em ofícios mecânicos, ou na cultura dos campos. As nossas obrigações profissionais e os deveres de nosso estado são compreendidos na admoestação do divino salvador: Unum est necessarium, é necessária uma só coisa, que é a salvação da alma imortal.

O cumprimento destas nossas obrigações, santificado e nobrecido pela oração, pelos atos do nosso culto e pela recepção dos santos sacramentos, é o preço pelo qual se deve alcançar, não somente uma recompensa terrena, mas também a salvação eterna.

Assim é que o ferreiro, malhando o ferro incandescente sobe à bigorna; o camponês, arando sua lavoura; o jornalista, escrevendo seus artigos; o magistrado zelando a justiça; o comerciante, comprando e vendendo mercadorias; os chefes de estado, dedicando-se ao bem público das nações; o operário trabalhando na fábrica; a mãe de família, educando seus filhos; o estudante, aprendendo suas lições: todos, enfim, pelo exato cumprimento das obrigações de seu estado e dos deveres de sua profissão, poderão alcançar a vida eterna, sem prejuízo de suas justas aspirações temporais.

O descanso dominical e a prática da Religião, em geral, dignificam o trabalho e nobilitam o operário. O cristianismo não é inimigo do trabalho, nem a Igreja é contrária ao trabalhador. Pois o berço do cristianismo teve seu lugar na casa dum pobre operário, e seu fundador, apesar de ser o Filho de Deus, era chamado, durante a sua vida terrestre, filho de carpinteiro.

Em forma de servo andou pela terra e enalteceu os trabalhos mais modestos. Os primeiros que escolheu para seus discípulos, a fim de anunciarem o Evangelho, eram trabalhadores; e em primeiro lugar, ensinou sua doutrina celeste ao povo laborioso e a operários. O cristianismo, desde o seu início, glorifica o trabalho.

CAPÍTULO V

Desprezo e enobrecimento do trabalho

Naqueles tempos, o mundo pagão desdenhava o trabalho, e seu desprezo era sinal de fina cultura e esmerada civilização. Apenas o trabalho intelectual merecia alguma consideração. Os próprios artistas, cujas obras se consideravam objeto de admiração, eram votados ao desprezo. O trabalho braçal desonrava os homens livres e era imposto aos escravos, privados da dignidade humana e dos direitos do homem. Por isso, dizia Cícero, o filósofo e orador romano: "Nenhuma coisa nobre se pode encontrar nas oficinas de trabalho". O filho do trabalhador trazia na fronte o estigma aviltante de sua baixa origem.

Era naquela época que o cristianismo apresentou as credenciais da religião do trabalho. Enobrecendo o trabalho manual em todas as suas formas e libertando-o da escravidão, criou o estado dos trabalhadores livres. Em nome de Jesus, o Apóstolo São Paulo, que mesmo exercia a profissão de fabricador de tendas, escreveu aos cristãos de Tessalônica: "Nós vos rogamos, irmãos... que procureis viver quietos e que trateis do vosso negócio, e que trabalheis com as vossas mãos, como vô-lo temos ordenado". "Quando estávamos convosco, vos denunciávamos; que se alguém não quer trabalhar, não coma. Porquanto, temos ouvido que andam alguns entre vós inquietos, que nada fazem, senão indagar o que lhes não importa. A esses, pois, que assim se portam, lhes denunciamos, e rogamos no Senhor Jesus Cristo, que comam o seu pão, trabalhando em silêncio."

A Igreja nunca desviou sua doutrina destes princípios fundamentais, mas sempre concita seus filhos, com severidade, ao trabalho. Talvez objete alguém: Que benemerência conquistou a Igreja para o homem com este seu procedimento, aumentando ainda mais, em nome da Religião, o peso do trabalho, já por si quase insuportável? A Igreja não dificulta, e sim alivia o trabalho: ela transforma o jugo do trabalho em jugo de Cristo, que é leve, e o ônus do trabalho em ônus de Cristo, que é suave.

CAPÍTULO VI

O gravame do trabalho

Que é que torna muitas vezes o trabalho tão pesado? É a lei férrea da necessidade que algema uma grande parte da humanidade com suas cadeias. É a chibata escravizante da fome, a luta pela vida, que impele ao trabalho. É a repartição desigual de seu ônus. É a convicção de termos por patrões homens como nós mesmos, e não raro duros tiranos, que agravam o jugo do trabalho, sem motivo justo, ou diminuem arbitrariamente o salário. É muitas vezes o gênero esterilizante e não satisfatório do trabalho. É porque centenas têm a certeza apremiante de passarem toda a vida numa estreita oficina ou fechados na atmosfera viciada de fábricas, considerando-se para sempre presos ao colosso da máquina.

É preciso que procuremos aliviar esse tremendo gravame ao operário, melhorando sua penosa situação; mas nunca se poderá completamente aplainar a desigualdade das condições humanas. Só há um poder que resolve essa dificuldade e torna suportável essa situação, um poder que liberta o trabalho das cadeias da escravidão, que lhe salva a liberdade e a alegria e lhe infunde, nas formas mais rudes e penosas, uma satisfação, uma felicidade íntima. Esse poder é a fé cristã!

Já em seu aparecimento no mundo, ela exerceu sua força libertadora sobre o trabalho, na forma aviltante e opressora da escravidão. Conseguiu infiltrar nas almas escravizadas tanto amor ao trabalho, tanta paciência e tanta magnanimidade, que elas mesmas envergonhavam os orgulhosos libertos e lhes incutiam respeito. Ensinava, segundo as palavras de Orígenes, aos pobres escravos a maneira de poderem conseguir a liberdade dos seus sentimentos humanos e a nobreza da lama pela palavra.

CAPÍTULO VII

A lei fundamental do trabalho

Qual era essa palavra libertadora e nobilitante? Era a palavra da fé. Era a palavra do Apóstolo: "Cada um conforme o Senhor lhe haja repartido, cada um conforme Deus o haja chamado, assim ande: e isto é como eu o ordeno em todas as Igrejas. Por preço fostes comprados, não vos façais servos dos homens. Cada um, pois, permaneça diante de Deus no estado em que foi chamado. Tudo o que fizerdes, fazei-o de boa mente, como quem o faz pelo Senhor e não pelos homens: sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança. Servi a Cristo, o Senhor, pois, o que faz a justiça receberá o pago do que fez injustamente, porque não há acepção de pessoas em Deus. Servos, obedecei a vossos senhores temporais, como a Cristo, servindo-os com boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, sabendo que cada um receberá do Senhor o pago do bem que tiver feito, ou seja escravo ou livre. E vós outros, ó senhores, fazei isso mesmo com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto vosso como deles, está nos céus, e que não há acepção de pessoas diante dele."

É esta a lei fundamental do trabalho que o cristianismo promulgou: Todos vós que tendes uma vida de trabalho, e a ela está obrigado todo o cristão, servi com o mesmo, seja ele da natureza que for, não à necessidade, não à tirania, não ao destino fatal, não aos homens e ao mundo, nem às máquinas, nem aos donos das fábricas, mas servi com vosso trabalho a Deus e ao vosso Salvador Jesus Cristo. Deus vos designou o estado da vida, ele, vosso Senhor e Juiz, vos dará também a paga e a recompensa. Sois seus servos, e servos e servir a Deus não é escravidão, mas é reinar. Sois seus servos, por isso fazei do vosso trabalho um culto divino, pela oração quotidiana, pelo meio tão simples e eficaz da boa intenção, pela santificação dos domingos e dias de festa, e pela recepção frequente dos santos sacramentos.

O operário, compenetrado fundamente desta doutrina e resolvido a servir a Deus, achará leve o peso do trabalho, não tentará, criminosamente, livrar-se dele por meios subversivos da ordem estabelecida; mas estará contente com a sua sorte e entregar-se-á com alegria aos misteres de sua condição social, suportando gostosamente o trabalho mais pesado. Ele achará o trabalho mais humilde enobrecido; o mais árido, espiritualizado; o mais triste, confortante; e vitalizado o mais material. Desta maneira, torna-se também livre, enobrecido e clarificado o trabalho manufatureiro, que pela indústria fabril conseguiu uma difusão enorme.

CAPÍTULO VIII

O trabalho dignificado

Não é nada agradável trabalhar, dia por dia, na atmosfera abafada das fábricas, no calor insuportável das caldeiras, a ouvir constantemente a música enervante de pesados martelos, das rodas volantes, dos teares chiantes, dos fusos sussurrantes, atendendo sempre com a mesma pontualidade e cuidado a um serviço desconsolador e monótono.

Os operários, porém, não serão escravos, mas príncipes do trabalho, honrados e dignos de consideração, quando diariamente, animados de viva fé, se põem ao serviço de Deus, começando e terminando as suas labutações diárias, dizendo: A vós, divino Salvador, a vós quero servir, em vossa honra e pelo vosso amor quero trabalhar e cumprir meus deveres, embora minhas forças diminuam e a paciência me ameace fugir; o pensamento da eternidade, um olhar ao céu, a lembrança da vossa vida terrestre e a recordação dos vossos padecimentos em favor da salvação da humanidade, me darão novo alento, novo ânimo e coragem.

Não há trabalho, por elevado que pareça, que não necessite de ser enobrecido pela fé cristã, nem há trabalho, por modesto que se apresente, que pela mesma fé não se possa dignificar. O trabalho que leva impresso o selo áureo do serviço divino, é também para o homem o mais frutificante e compensador, porque a palavra de Deus lhe reconhece e garante que aquele que trabalha é digno da sua paga.

Além disso, aqueles que trabalham animados do espírito da fé e bem intencionados, colhem ainda outros frutos preciosos, quer cultivem terras recém-desbravadas, ou o campo das ciências, quer sirvam as máquinas ou exerçam um ofício mecânico, quer se consagrem ao estudo das belas artes ou ao magistério e à cura de almas; porque, assim, todos trabalham simultaneamente para o seu próprio aperfeiçoamento espiritual e sua educação moral, amanham ao mesmo tempo a lavoura de sua alma, lutando pela sua liberdade interior e pela sua paz e garantem sua salvação eterna, guardando para si um tesouro no céu, que nem a ferrugem, nem a traça poderá destruir e nem os ladrões poderão roubar. Nestas abundantes graças consiste a bênção perfeita do trabalho cristão. Esses inefáveis benefícios deve o trabalho à fé católica. Oxalá, todos se dispusessem a alcançar essa bênção celestial! A todos repetimos as palavras do Salvador: "Tende a fé de Deus"! Guardai-a com o vosso tesouro mais precioso e deixai penetrar sua luz e sua bênção em vossos trabalhos quotidianos. Guardai a fé em Deus e não vos deixeis iludir; não é verdade que o operário pelo desprezo da Religião possa tomar o trabalho mais profícuo ou próspero; só poderá resultar aí prejuízo: o trabalho perderá sua dignidade, sua liberdade e sagração; o operário perderá a paz da consciência e sua felicidade interior; será privado do melhor auxílio nas suas ocupações, será privado do socorro das graças sobrenaturais e frustrará o fruto mais precioso do trabalho, que é a recompensa eterna.

Guardai a fé em Deus! Porque a fé é vossa protetora fiel e poderosa aliada durante a vida; ela vos ensina o amor ao trabalho e vo-lo torna leve; ela vos enxugará o suor da testa e infiltrará em vossos corações o doce bálsamo da consolação. E depois de inscrever os vossos trabalhos como merecimentos preciosos no livro da eternidade, aliviará as vossas mãos do jugo do trabalho, e quando terminardes a vossa carreira terrestre, vos conduzirá, como caridoso anjo custódio, para o descanso sem fim e às alegrias eternas, obtendo do juiz supremo em favor de cada um a sentença beatificante: "Eia, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes, entra no gozo de teu Senhor." Guardai a fé em Deus! Porque a fé é vossa protetora fiel e poderosa aliada durante a vida; ela vos ensina o amor ao trabalho e vo-lo torna leve; ela vos enxugará o suor da testa e infiltrará em vossos corações o doce bálsamo da consolação. E depois de inscrever os vossos trabalhos como merecimentos preciosos no livro da eternidade, aliviará as vossas mãos do jugo do trabalho, e quando terminardes a vossa carreira terrestre, vos conduzirá, como caridoso anjo custódio, para o descanso sem fim e as alegrias eternas, obtendo do juiz supremo em favor de cada um a sentença beatificante: "Eia, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência dos grandes, entra no gozo do teu Senhor."

CAPÍTULO IX

O lucro

Ao trabalho, batizado, por assim dizer, e santificado pela fé, reúne-se, desde logo, qual irmã fidelíssima, a filha do céu chamada esperança, que o consola e anima, lhe ajuda a suportar o peso e o calor de cada dia, e lhe limpa as lágrimas do rosto, permanecendo ao seu lado, até que esteja concluída a missão quotidiana. Oxalá todo o nosso trabalho e todos os nossos diocesanos gozassem sempre da presença, do auxílio e da consolação desse bom anjo! É esse o íntimo desejo do vosso Arcebispo, que ama o trabalho e estima os trabalhadores. Por isso, ele ora com o Apóstolo: "Ó Deus de esperança, vos encha de todo o gozo e de paz na vossa crença, para que abundeis na esperança e na virtude do Espírito Santo." Sem esperança, nenhum homem pode, por muito tempo, trabalhar nem viver. Quem trabalha, espera um resultado, algum fruto, uma compensação, o que é necessário e natural: "porque aquele que lavra, deve lavrar com esperança; e o que debulha, devo-o fazer com esperança de perceber os frutos." Já a esperança de um lucro temporal, de sucesso e de salário é uma poderosa força instintiva na vida do trabalho. O cristianismo não desconhece nem desvirtua esta esperança, mas lhe faz justiça, a protege e alimenta. O Salvador mesmo proclamou o seguinte princípio: "O trabalhador é digno do seu jornal." No Antigo como no Novo Testamento é estigmatizada a retenção do justo salário como um pecado que brada ao céu. A Igreja aprova e auxilia as reclamações razoáveis de melhorar as condições do salário por meios lícitos. Por isso, ela reúne os trabalhadores em associações e ligas, não excluindo o fim de reclamar, com mais eficácia, a melhoria dos salários justos e equitativos.

Por isso, o grande Papa Leão XIII diz: "Entre os deveres principais do patrão é necessário colocar em primeiro lugar o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão que explorar a pobreza e a miséria, e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que seria crime de clamar vingança ao céu defraudar a qualquer no preço de seus labores. Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós, e o seu clamor subiu até aos ouvidos do Deus dos exércitos."

CAPÍTULO X

A recompensa futura

Contudo, se a única aspiração do trabalhador consistir na esperança de adquirir lucros temporais, será sempre um homem pobre. Quantas vezes ilude essa esperança? Quantas vezes corresponde a colheita à semente plantada, o lucro ao trabalho, o resultado à expectativa?! E se alguém pudesse sempre tirar do seu trabalho carroças cheias de preciosos cereais ou de barris de capitoso vinho, se pudesse colher sempre louros e condecorações, nem assim seria completamente feliz. Por isso, a Igreja ensina aos seus filhos: Sursum corda, mais alto os corações, para cima a vossa esperança, não vos contenteis só com o lucro terreno, visto que podeis obter uma recompensa eterna; não trabalheis unicamente por salário temporal, porque podeis ganhar outro muito mais precioso e imperecível.

Seja a esperança cristã vossa colaboradora; ela vos facilita o jornal da semana e vos garante o celeste. A maldição da infecundidade, como consequência do pecado, esteriliza completamente muitos esforços e trabalhos dos homens; para os filhos de Deus, porém, essa maldição é relevada. "Os meus eleitos não trabalham em vão", diz o Senhor. Guiados pela esperança, não nos veremos obrigados a repetir a queixa: "Trabalhamos em vão toda a noite e nada conseguimos". E embora nos falhe todo o lucro terreno, o nosso trabalho será notado no registro da eternidade e como capital seguro renderá juros na vida futura.

CAPÍTULO XI

Certeza da recompensa

Certamente ainda não vemos essa recompensa: "porque, na esperança, como diz o Apóstolo, fomos feitos salvos. Ora, a esperança que se vê, não é esperança, porque o que qualquer vê, como o espera? E se o que não vemos, esperamos, por paciência, pois, esperamos."

Deus nos garante infalivelmente a promessa de uma recompensa eterna e nos deu uma testemunha fiel e veraz, seu Filho Unigênito. Ele desceu da mansão celestial e conhece a recompensa futura, o reino que Deus preparou aos seus filhos desde o princípio do mundo. Ele vos diz: "Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso nos céus."

Ele mesmo é nossa esperança. Sua encarnação, sua vida na terra, suas palavras, seus milagres, seus padecimentos, sua morte, sua ressurreição e ascensão são outros tantos penhores e garantias da realização da nossa esperança. Portanto, a nossa esperança não é fictícia ou fantástica, mas tomou forma e vida na pessoa divina de Jesus Cristo. Ela se baseia na sua palavra, alimenta-se com sua carne e sangue, vive sua vida gloriosa e nos leva ao seu lado, a passos seguros, pelos confins das coisas passageiras e visíveis, para aquele reino, aonde ele foi primeiro, a fim de preparar-nos nossas moradas. O Redentor fortalece as esperanças tímidas e trêmulas do pobre coração humano. "Deus nos regenerou", diz o príncipe dos Apóstolos, "para a esperança da vida, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos." O Salvador ressuscitado e glorioso dá à nossa esperança vida, pulso e certeza absoluta.

CAPÍTULO XII

O poder da esperança

Mas, dirá alguém, esse fim, de que a Religião nos fala, fica muito distante, acha-se além da vida presente, e a expectativa da recompensa eterna enfraquece o braço para o trabalho, impede ao homem de trabalhar com dedicação e perseverança neste mundo real. O contrário é verdade. A esperança da eternidade nos abre horizontes mais amplos, nos torna mais resistentes e perseverantes.

Conheceis os fios metálicos que conduzem poderosas correntes de força elétrica a grande distância. A esperança cristã é semelhante a uma transmissão de força sobrenatural do céu à vida presente. Com o auxílio dessa força, o homem vencerá as dificuldades em que se lhe destrói a alegria do trabalho. Não há trabalho tão pesado, tão tristemente monótono, tão insípido, baixo e vil, ao qual a esperança não possa infundir consolação e prazer. O bom cristão dirá: também com este trabalho sirvo a Deus, que não se deixará vencer em generosidade. Realmente, a quem é dado trabalhar com tal esperança, já é abundantemente recompensado.

Sem a esperança cristã nunca satisfatoriamente é resolvida a questão do salário. Não há dúvida que o Estado e a Igreja e todos os interessados devem auxiliar o trabalhador nas suas justas reclamações acerca do trabalho, do socorro que precisa, da falta inculpável de serviço, da melhoria de condições precárias de salário. Mas nenhum poder do mundo jamais aplainará completamente todas as desigualdades, nem satisfará a todas as reclamações e desejos, ou garantirá a cada trabalho uma paga adequada e condigna. Pois, o trabalho do homem é demasiado nobre e espiritual para que possa ser recompensado integralmente com o valor do frio metal. Há só uma compensação que pode saciar o anelo da alma humana. É a consciência de que a recompensa melhor e suprema do meu trabalho ninguém me poderá tirar ou diminuir. Estou no serviço de Deus que abençoa o parco salário terreno e lhe acrescenta o eterno. Esta esperança, continuamente fortalecida pela oração, pela reta intenção, pelo culto divino e pela recepção dos sacramentos, inspira à alma paz, constância e contentamento. Diz o Apóstolo: "A piedade é um grande lucro com o que basta."

CAPÍTULO XIII

A confiança em Deus

Quando contemplamos as maravilhas da criação, então lembremo-nos das palavras do divino Salvador: "Não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem do vosso corpo, que vestireis. Não é a alma mais que a comida e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam nem segam, nem fazem provimentos no celeiro, e, contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Porventura, não sois vós muito mais do que elas? E por que andais vós solícitos pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam. Digo-vos que nem Salomão, em toda a sua glória, se cobriu jamais como um destes."

Esta confiança não paralisa o zelo do trabalhador cristão, mas lhe dá novo ânimo; alivia o peso dos cuidados excessivos, que lhe comprimem o peito; tira a impaciência e sofreguidão que lhe consomem a vida. E nos dias do infortúnio, esta confiança se transforma em paciência heroica, suportando com grande resignação os revezes da vida humana e os acidentes no mundo do trabalho. Por este motivo, dirige o Apóstolo o seguinte apelo a todos os cristãos: "Portanto, meus amados irmãos, estai firmes e constantes, sabendo que os vossos trabalhos não são vãos no Senhor."

CAPÍTULO XIV

A revolta contra a esperança

Quantas vezes, entretanto, levantam-se, nos tempos que correm, vozes blasfemadoras contra a esperança cristã que, durante séculos, foi companheira fiel do trabalho! Ouvem-se gritos desvairados: Fora a esperança de uma eternidade, fora o céu de além-túmulo, fora a recompensa terna, porque tudo isto não passa de ilusão e mentira. São fábulas ensinadas ao povo para apaziguá-lo. Hoje, já não tem mais eficácia nem valor. Já passou o tempo do obscurantismo, o século XX quer gozar o céu aqui na terra.

Assim falam homens ímpios às classes populares. E que vantagens lhes oferecem em troca da esperança cristã que lhes roubam? Também uma esperança, a esperança de possuírem o céu na terra, de gozarem o paraíso neste mundo. A esperança falaz de uma idade de ouro, dum estado social sem diferença entre pobre e rico, entre operários e patrões, sem superiores e súditos, onde tudo é repartido em quinhões iguais: os bens de raiz, as alegrias e os prazeres do mundo, e em que triunfará a humanidade de todas as misérias, cuidados e necessidades, começando uma nova era, sem fim, de paz, de alegria e liberdade.

Um exemplo desse sistema de tornar felizes os homens tendes atualmente, na Rússia, onde o bolchevismo triunfante quer estabelecer os princípios do comunismo e arvorou a bandeira dessa esperança ilusória. Bem conheceis os tristíssimos resultados dessa tentativa, que cobriu aquele vasto país com ruínas e fez correr rios de sangue, derramado pelas vítimas da revolução social.

CAPÍTULO XV

Um triste exemplo

Uma Comissão do Partido Trabalhista Norte-americano permaneceu longo espaço de tempo na Rússia, este ano, com o encargo de estudar e informar a situação daquele país sob o ponto de vista do regime dos sovietes, agora ali reinante. Dentre outros interessantes períodos daquela peça, já agora amplamente divulgada, se encontram alguns que merecem especial atenção do trabalhador brasileiro. Diz o relatório: "A situação econômica da Rússia dos sovietes está piorando de dia para dia, pois todos os ramos da indústria e do trabalho continuam sendo sujeitos aos anteriores processos de destruição. E esta destruição tem sido levada tão longe, que qualquer medida parcial de reconstrução não pode ser eficaz".

Estes processos de destruição, que os relatores chamam de "catástrofe", têm, dentre outras, as seguintes causas: A insuficiência na remuneração do trabalho, que não atinge nem à metade das despesas necessárias para o sustento da vida.

A fome e doenças crônicas, males terríveis e generalizados. A falta de segurança individual, que campeia por toda a parte.

Isto quer dizer a ruína de um povo, o esfacelamento de uma nação. O relatório continua dando as seguintes informações: Os operários têm sido, por uma série de decretos, transformados em servos adstritos a empresas, onde foram surpreendidos pela promulgação do correspondente decreto: são escravos sem a possibilidade de melhorar a sorte e sem o direito de mudar não só de empresa, mas do próprio gênero de trabalho na mesma empresa". Assim obtiveram uma sorte lastimosa, ou seja, a escravidão em vez da liberdade que os pregoeiros do mal tanto lhes prometeram com o advento da política bolchevista. Enganosa perspectiva!

"Os operários atualmente estão desertando das usinas e das fábricas. É uma deserção em massa, que atinge mesmo aquelas regiões onde a indústria se tinha desenvolvido espontaneamente sob a forma de indústria de família, como por exemplo, na região de Pavlovo (Governo de Nijnti Novgorod). Ali não há mais indústria metalúrgica, aldeias inteiras estão vazias com as casas fechadas: uma parte de sua população morreu, outra emigrou para o sul. Embora severamente punida, como crime de deserção, o êxodo das usinas e fábricas da grande indústria, hoje nacionalizadas, vai aumentando sem cessar".

"O material das minas e das fábricas está sendo delapidado pelos operários famintos em troca do pão, sal, etc.". O que efetivamente, o relatório, com clareza matemática, demonstra: "Com a queda da capacidade para o trabalho e a deserção dos operários, o rendimento das usinas da República dos Sovietes está decaindo ao ponto de os perigos julgarem impossível atingir como produção normal a 10% da de antes da revolução, embora nos relatórios, que estão sendo falsificados, se fale em se ter atingido de 25% a 30% da produção anterior".

Os algarismos seguintes são bem eloquentes: "O número de locomotivas novas que saem das oficinas diminui constantemente; a média de sua construção é de 3 a 4 por mês, isto é: de 40 a 50 por ano, em vez de 800 a 1000 que se construíam anualmente no tempo do Império".

Em deploráveis condições de insuficiência está igualmente a questão dos transportes, cuja utilidade não é preciso encarecer.

"Quanto ao transporte por via da água, este está numa desorganização maior: apenas 3% dos vapores existentes acham-se em bom estado. Em geral, na República sovietista, a tonelagem atual atinge a 4% da que existia em 1913".

Mais adiante refere o relatório: "Nas usinas – Tendo-se apoderado os bolchevistas da religião do Ural, tudo ali foi logo destruído. É sobre aquela região que se dirigem agora os maiores esforços dos bolchevistas que se vangloriam de criar nessa região um concorrente para os Estados Unidos no "trust" sovietista. Debaixo da ameaça de fuzilamento e bastonadas, estão trabalhando ali as usinas de Ijevsk, que produzem diariamente 2000 fuzis".
Outrora, os escravos lavraram a terra para lhe colherem o fruto, o alimento; hoje, sob o vergalho, no odioso regime das "bastonadas", trabalham forçados na produção dos fuzis que hão de trucidar os seus irmãos nas garras inclementes da guerra! E por aí vai a descrição desoladora do relatório.

"As usinas do Ural, por muito tempo, têm que ficar inativas. Quanto a outras: as da região de Petrogrado estão destruídas totalmente; as de Moscou quase completamente, as de Nigni Novgorod-Sormovo fabricam um pouco de material ferroviário e algumas armas e munições; -- ao todo, 8% da produção de 1914. O grupo das usinas de Tichino quase não trabalha. O grupo de Kolomina produz 18 locomotivas por ano, em lugar de 250.
Não há mais combustível: durante o último inverno, acumulou-se apenas uma décima oitava parte do mínimo previsto para as necessidades anuais; foi isto devido à falta de cereais, forragem, cavalos, instrumentos e também à nova psicologia dos operários e camponeses que perderam a capacidade para o trabalho.

A turfa está sendo extraída apenas na região de Moscou e a sua produção atingiu a 20% da normal, causando esta baixa grave detrimento para a indústria têxtil e outras usinas da Capital, privadas da energia elétrica.

CAPÍTULO XVI

A política dos sovietes

Constituída assim a religião em fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações mútuas a estabelecer entre os membros para alcançar a paz e a Baseia-se sobre o estabelecimento de privilégios em favor do proletariado urbano, em detrimento dos camponeses. Ela começou a se manifestar essa fixação dos preços dos produtos da indústria manufaturada na proporção muitíssimo superior aos dos produtos agrícolas. Naturalmente, os camponeses não se sujeitaram de boa vontade a esta espoliação e os Sovietes tiveram que recorrer às requisições "manu militari", para obterem alguns viveres dos campos. Ensinados por esta experiência, os camponeses só produzem agora o que lhes é estritamente necessário para não morrerem de fome, dentro dos limites que os Sovietes consideram a produção inalienável.

Começou, então, a desenfreada especulação, subindo os preços em Moscou, no princípio do corrente ano, à altura vertiginosa: uma libra de pão, 200 rublos; uma libra de cevadinha, 260 rublos; uma libra de carne de cavalo, 400 rublos; uma de carne de vaca, 800 rublos; uma de porco, 100 rublos; uma libra de banha, 1200 rublos; uma de manteiga, 2000 rublos. Tais preços, aliás, correspondem aos preços por que se vendem os produtos manufaturados: 1 archin (0,6m) de tecido de algodão estampado, cujo valor antes da guerra não passava de 8 cop., 400 rublos; 1 caixa de fósforos (1 cop. antes da guerra), 75 rublos; um par de botas 17000 rublos!

Está, destarte, asfixiada a vida econômica da Rússia, pela morte que lhe vai instilando o regime político dos sovietes, estrangulando desapiedadamente os dois principais elementos da riqueza de um povo – a lavoura e a indústria. Exemplo eloquente.

CAPÍTULO XVII

Ilusão completa

Onde, pois, fica essa decantada felicidade? Quais são os benefícios que essa vã esperança de nivelar todas as classes sociais e todas as condições humanas trouxe aos infelizes daquelas terras ensanguentadas? A desorganização social, o desamor ao trabalho, a desolação da família, a tirania, a desgraça geral, a morte! Infelizes aqueles que não acreditam na vida eterna, que não nutrem em sua alma a esperança da suprema salvação! Sim, infelizes; infelizes neste mundo e infelizes durante toda a eternidade!

Por isso: "Conservemos firme a profissão da nossa esperança, porque fiel é o que fez a promessa: não queirais perder a vossa confiança, que tem um crescido galardão porque vos é necessária a paciência, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de um pouquinho de tempo, o que há de vir, virá, e não tardará".
"Obedecei a esta exortação do Apóstolo, e quando alguém vos disser como ao piedoso Tobias: onde está a vossa esperança? Vossa esperança é vã! Então respondei com o mesmo: "Não faleis assim; porque somos filhos dos santos e esperamos aquela vida que Deus há de dar aos que dele nunca mudam a sua fé".

"Tendo por elmo a esperança da salvação" perseverai no combate e ponde os olhos no autor e consumador da fé e da nossa esperança! Sim, Jesus Cristo, Senhor e Salvador é e será sempre a nossa esperança; ele nos dirige sua palavra grave e consoladora: "Eis aqui que de pressa virei e o meu galardão anda comigo para recompensar a cada um segundo as suas obras".

CAPÍTULO XVIII

A natureza da caridade

Diz o Apóstolo São Paulo em sua Epístola aos Coríntios: "Agora permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a caridade". Sim, todas as coisas neste mundo se transformam e passam constantemente. E quando tudo em redor de nós treme, vacila, baqueia e desaparece, só estas virtudes dão à nossa vida um valor constante e imperecível. Elas permanecem também no mundo do trabalho e constituem o maior arrimo e as melhores forças auxiliares dos operários.

Agora permanecem estas três virtudes; porém, a maior delas é a caridade. A ela compete a primazia, por ser a mais preciosa, assim no céu como na terra. O maior predicado que podemos dar a Deus é dizer: "Deus é caridade"; e maior elogio não podemos tecer à caridade, que dizendo: "A caridade vem de Deus", é de origem celeste e de natureza divina. Caridade é a essência e a vida do Deus trino, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Caridade é a primeira e última palavra das revelações de Deus, a alma e o selo das obras divinas. A caridade chamou à existência todas as criaturas, todas as gerações humanas e cada um de nós. Os admiráveis desígnios e os sangrentos mistérios da redenção só explicam esta palavra: "Assim amou Deus ao mundo, que lhe deu ao seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna". A justificação e santificação da alma humana são obra do Espírito Santo, que mesmo é o amor pessoal do Pai e do Filho e que derrama a caridade de Deus em nossos corações, e que dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus.

A caridade de Deus é a vida superior e sobrenatural da nossa alma. Conservar-nos, confirmar-nos e aperfeiçoar-nos no mesmo amor de Deus, é o fim de todos os meios de salvação e da educação que a Igreja dá aos seus filhos. Nós todos devemos estar arraigados e fundados na caridade e alcançar essa inabalável certeza, de que nos fala o Apóstolo, "que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem as Virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a violência, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura alguma nos poderá apartar no amor de Deus, que está em Jesus Cristo Senhor Nosso.

CAPÍTULO XIX

Influência do amor de Deus

Quanto esta caridade, já infundida na alma pelo Batismo, tiver tomado posse do coração e da vida do homem, dominará e porá ao seu serviço todos os nossos atos. Torna-se, na expressão de São Gregório Nazianzeno, uma doce e santa tirania; não descansa, antes que tenha colocado sob seu poder todas as manifestações de nossa vida interior e exterior. Ela antepõe a todas as leis o seu preceito: "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento".

Ele incorpora no preceito do amor a lei do trabalho, igual para todos os homens e que a muitos oprime. Rainha e soberana por natureza, compenetra, de modo especial, com seu poder e anima com seu espírito o trabalho, o tesouro mais precioso da vida humana; transforma as laboriosas ocupações em trabalho de amor, educando o homem, de maneira que, livremente e de coração, cumpra a vontade de Deus.

O trabalho e o amor de Deus devem celebrar uma aliança para toda a vida. Quando o trabalhador começa o seu labutar quotidiano, dizendo que tudo fará pelo amor de Deus, suas obras serão santificadas e enobrecidas no seu íntimo ser. Neste caso o operário não é mais uma máquina de trabalho ou a parte animada de um mecanismo, nem representa a engrenagem nas rodas da indústria, mas é um autônomo, digno e livre no serviço do Altíssimo, em condições de filho e não de escravo.

Segundo esta doutrina, não importa a forma exterior do trabalho, só o amor determina sua natureza e seu valor. O trabalho corporal não está inferior ao espiritual, quando espiritualizado pelo amor de Deus, quando o trabalhador atende à advertência do Apóstolo: "Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo". As ocupações mais insignificantes e modestas transformam o fogo do amor em puríssimo ouro, dando-lhe um valor seguro e inalterável, que resiste às oscilações do câmbio e aos jogos cambiais do mundo.

Se já sob o ponto de vista natural, não se deve desprezar nenhuma espécie de trabalho honesto, quanto mais se torna respeitável o trabalho que é feito com os olhos levantados ao céu e em união com Deus pelo amor!

Disse um grande general do século passado: "Honra a quem trabalha"! Realmente, não importa que sua mão empunhe o cetro ou a pena, a espada ou o martelo, que se curve sob os cuidados de uma posição de responsabilidades ou sob o peso de uma viga de ferro, corte com o machado árvores seculares das nossas florestas ou capine com a enxada plantações de milho ou feijão: honra lhe seja feita! O amor de Deus o nobilita, a presença e a complacência de Deus o fortifica e alumia.

CAPÍTULO XX

Necessidade do amor de Deus no trabalho

É de suma importância que o amor ao trabalho não enfraqueça ou acabe no meio dos homens. Mas, o que o conserva animado e pronto para novos cometimentos, é o trabalho por amor. Trabalhai por amor de Deus, e aprendereis a amar o trabalho. Esse amor será o vosso melhor companheiro no desempenho das vossas obrigações e a fonte inesgotável de nova força e de nova alegria. Quanto poder exerce o amor natural sobre o homem, e de quantos sacrifícios não é capaz o amor de esposo, o amor de mãe e o amor de filho? Quantas ações heroicas inspira o amor da pátria? E mesmo quanto poder se encerra na paixão que impropriamente tem o nome de amor? Que poder não se acha nas próprias aberrações do amor humano? E quantos excessos e loucuras, às vezes, não pratica?

A Sagrada Escritura diz que o amor de Deus é forte como a morte e que tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo sofre. Diz Santo Agostinho que nada é tão duro e férreo, que não seja abrandado ou derretido pelo fogo do amor.

"O amor é deveras grande, é um bem superior a todos os demais. Só ele torna leve o que é pesado e permite suportar com igual ânimo as vicissitudes da vida. Carrega o peso sem o sentir e dulcifica o que há de mais amargo. O amor de Jesus é generoso: faz compreender grandes coisas e conduz sempre ao que há de mais perfeito. Quem ama, corre, voa. Vai alegre, livre, nada o detém. Dá tudo para possuir tudo; possui tudo em tudo, porque acima de tudo repousa no Ser Soberano, de quem deriva e corre todo o bem. O amor vigia sempre: mesmo no sono não dorme. Não há cansaço que o fatigue, laço que o algeme, terro que o perturbe, mas, como única chama penetrante e viva, sobe ao céu e abre caminho seguro através de todos os obstáculos".

CAPÍTULO XXI

Necessidade do amor de Deus no trabalho

O discípulo predileto do Salvador tinha razão quando escreveu: "Este é o amor de Deus, que guardemos os seus mandamentos; e seus mandamentos não são custosos; porque todo o que é nascido de Deus vence ao mundo e esta é a vitória que vence ao mundo, a nossa fé". Na aceitação voluntária e na observância fiel dos mandamentos de Deus e principalmente da lei do trabalho, se manifesta claramente e se excita o amor que votamos a Deus. Mas, o trabalho aceito por amor de Deus, não é pesado, porque o amor oriundo do Pai celeste vence todos os obstáculos, e outro auxiliar mais poderoso que ele não há nos árduos combates da existência e nas lutas do trabalho.

Temos nós também em nossos trabalhos quotidianos a assistência desse amor de Deus? Talvez muitos pensem, descontentes, nada sinto desse auxílio; também sou cristão e quase sucumbo ao peso insuportável do trabalho. Neste caso, convém perguntar: Porventura, levas uma vida cristã, vives tu também no amor de Deus? Por outra, achas-te no estado de graça santificante? Se não estás no estado de graça, não vives no amor de Deus, que não pode existir simultaneamente com o pecado grave, com o vício, com os maus costumes e paixões impuras. Se esse for o estado de tua alma, então atende à palavra da Santa Igreja, que, em nome de Cristo, te pede: reconcilia-te com Deus!

Se, porém, conservas ou recuperas a graça santificante e com ela o amor de Deus, então depende só de ti aproveitares desse poder como auxílio nos trabalhos da tua vida. Certamente, não deves considerar o estado de graça como uma veste dominical, que se enverga em certas festas, para depois a depor durante as tuas ocupações de cada dia. É preciso conservares esse precioso estado durante todo o tempo, para que os teus trabalhos sejam coroados de frutos sobrenaturais.

Como poderemos conservar essa preciosa dádiva? É pelo culto do amor. Cultivemos a devoção do Espírito Santo, que é por essência o divino amor, a devoção ao Santíssimo Sacramento e ao Sagrado Coração de Jesus, que nos abrem os tesouros do amor de Deus: dirijamo-nos a Maria Santíssima, a Mãe do amor formoso, e ao glorioso São José: todas estas devoções têm por fim aumentar e consolidar em nossas almas o amor de Deus.
Assim armados, começai o vosso trabalho quotidiano. E quando o suor cair em bagas da vossa fronte, e quando a mão vos tremer, segurando a ferramenta, e quando a impaciência trabalhar no vosso interior como um vulcão, não alivieis o vosso coração com blasfêmias e depravações, mas dizei: todos os meus suores e minhas fadigas, todos os meus ímpetos e mortificações, sacrifício a Deus, como holocausto de amor, por amor de Deus quero trabalhar. Se assim procederdes, vos exercitais na prática do amor de Deus e todos os vossos atos e trabalhos frutificarão sob o seu domínio, e para vós se realizará a palavra do Apóstolo: "Aos que amam a Deus, todas as coisas lhe contribuem para o seu bem".

À medida que cresce ou diminui o amor de Deus, cresce ou diminui também o verdadeiro amor ao trabalho. Trabalhai, portanto, cumpri exatamente os deveres do vosso estado e da vossa condição social. Exercei os ofícios da vossa vocação com religiosa escrupulosidade e guardai amor constante, operoso e dedicado ao trabalho. Amai o trabalho como um dever imposto por Deus e, por isso, com o Apóstolo vos dizemos: "Vigiai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente e fortalecei-vos. Todas as vossas obras sejam feitas por motivos de caridade".

CAPÍTULO XXII

Caridade e justiça

Diz o Apóstolo São João Evangelista que "temos de Deus este mandamento: que o que ama a Deus, ama também a seu irmão". A virtude teologal da caridade tem por objeto a Deus, o próximo e a nós mesmos. Estes três objetos parciais da caridade são intimamente entre si unidos. A verdadeira caridade é uma; e, como o amor de Deus eleva, anima e liberta o trabalho do homem, assim também o amor para com o próximo opera maravilhas no meio das classes trabalhadoras.

É exato que a justiça deve ser ouvida em primeiro lugar quando se trata de colocar o fundamento das relações sociais entre operários e patrões e de garantir ao trabalhador o direito de um salário razoável. O trabalho requer uma paga justa e não uma esmola; ao trabalhador deve-se justiça e não misericórdia. É o que a Igreja sempre acentua e o Papa Leão XIII ensinava tão brilhantemente nas suas Encíclicas.

Mas a justiça não é suficiente; seu exercício nem sempre resolve todas as dificuldades. Com a melhor vontade, não poderá solucionar todos os problemas opostos, nem acabar com todas as misérias existentes no mundo; pois Jesus Cristo já dizia: "Pobres tereis sempre convosco". A justiça deve colocar o fundamento e levantar as paredes do edifício da sociedade humana, mas torná-lo habitável e dotá-lo do necessário conforto só pode fazê-lo a caridade.

Em verdade, não se pode bastantes vezes repetir nos tempos hodiernos: "Amarás a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo". Pela influência salutar da caridade, a palavra trabalho alcançará a união das diferentes classes sociais. Sob seu domínio esclarecido, se resolverá a questão social, que não é apenas uma questão do estômago, mas também do coração: "não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus". Sim, também o coração necessita de caridade, de afeto, e vive da palavra que vem da boca do Eterno e de cada frase caridosa que o amor de Deus põe sobre os lábios do homem. A caridade consegue o que as leis de ferro e contratos lavrados em papel não obtêm. Só ela pode vencer e afugentar os espíritos maus, os principais perturbadores da comunhão social: o ódio, a inveja, o egoísmo, a maledicência, a calúnia, o desprezo.

CAPÍTULO XXIII

O dever do auxílio mútuo

Sob o regime suave da caridade cristã acham-se patrões e proprietários. Ela obriga a ambas as classes a reconhecerem mutuamente seus direitos de dignidade de homem, a sentirem solidariamente, a entrarem em boas relações sociais e a se unirem para uma colaboração pacífica, a fim de atenderem aos seus interesses comuns.

Orientado pela caridade, o patrão vencerá a tentação de dominar sobre um exército de escravos, de rebaixar o trabalhador à categoria de máquina humana ou de homem-máquina. Ao contrário, se ufanará de ter operários livres ao seu serviço e de lhes aliviar o jugo da dependência. Nunca olvidará que é responsável pela felicidade deles, que do cumprimento desse dever depende sua sorte pessoal, e que tudo quanto empregar na moralização do trabalho e no enobrecimento do trabalhador reverterá em benefício de seu próprio bem-estar. Na escola da caridade cristã, o operário não aprende só o uso de seus direitos, mas também o respeito aos direitos dos seus patrões. Leva o peso do trabalho sem protestos, não abandona sem motivo justo a sua ocupação, nem espera de atos violentos a melhoria de sua situação. Reconhece na prosperidade dos bens de seu superior a condição essencial da sua felicidade, e quando for necessário defender os seus interesses, usará de processos lícitos.

Assim, a caridade cristã, onde quer que exerça sua profícua influência, derrama raios de luz e de benefício calor sobre todos os gêneros e formas de trabalho, sobre todas as condições sociais, ensinando aos patrões, amos e superiores que respeitem nos trabalhadores, criados e inferiores, a dignidade humana, não esqueçam sua alma e dignifiquem e elevem sua vida, não lhes diminuam o salário razoável, e lhes deem o bom exemplo de amorosa providência e os meios de uma conveniente educação.

A caridade deve influir beneficamente sobre as duas classes. Ou, por ventura, a questão social não será suscetível da influência da caridade? Deverá haver sempre guerra contínua entre as duas classes sociais? Porém, não existe entre ambas uma grande comunhão de interesses recíprocos? Não dependem elas completamente uma da outra?

Realmente, como pode o dono de uma fábrica ou de uma usina ficar indiferente em face da situação precária dos operários, se deles depende o progresso e a prosperidade de suas oficinas? E como o operário poderá ser negligente no cumprimento de seus deveres, não se importando com os negócios do seu patrão, quando da boa marcha deles depende sua própria felicidade e bem-estar?

Certamente, não pode ser o fim do futuro abrir ainda mais o abismo existente entre as duas classes, mas remediar esse grande mal com o auxílio dos ensinamentos da caridade cristã. Só a caridade, arraigada na justiça cristã acalentada pelo amor de Deus, nos trará a solução da questão social. Destas potências benfazejas deve-se esperar a paz, a salvação, e não do desencadeamento das paixões ferozes, não do ódio, da ira e da inveja, do mútuo desprezo e inimizade, elementos destruidores da tranquilidade da família e da sociedade.

O dever do auxílio mútuo inculca o Apóstolo São Paulo aos Gálatas: "Cada um levará a sua carga; levai as cargas uns dos outros, e desta maneira cumprireis a lei de Cristo". Estes dois deveres não se contradizem. O primeiro e imediato consiste em que cada um leve pessoalmente a carga que lhe impõem aos ombros as condições da sua vida, e que cada um tome parte no trabalho que Deus ordenou à humanidade, considerando a ociosidade como um grande mal. O segundo dever consiste em que cada um ajude ao seu próximo a levar a sua carga. Não basta que cada um leve a sua própria carga, é preciso que ajude ao seu irmão.

Assim o trabalho não se torna insuportável para nós, mas até mais leve, visto que uma segunda força, o amor ao próximo, nos alivia o peso do trabalho alheio. Assim, a carga própria e a alheia tornam-se mais leves e o trabalho unido obtém a melhor segurança do auxílio mútuo.

CAPÍTULO XXIV

O exemplo de Cristo

Quando levarmos a carga do próximo, enquanto nos for possível, então é que cumpriremos o preceito de Cristo, que é o amor de Deus, a caridade em pessoa, e qual nos deu, durante a sua vida terrena, o exemplo mais formoso de caridade servidora. Com razão, pode Ele declarar: "que não veio para ser servido, mas para servir", dizendo: "eu estou no meio de vós outros, assim como o que serve". E profere a seguinte admoestação: "Se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos".

O interesse que Ele tomava para inculcar esta doutrina aos seus discípulos manifestou, de um modo tocante, na última ceia, por palavras e pelo seu exemplo. Naquela hora solene, imediatamente antes da instituição do Santíssimo Sacramento e na plena consciência de sua divindade e de sua origem eterna e prestes a deixar esta vida, torna-se Ele o servo de todos, levanta-se da mesa, depõe sua capa, cinge-se de uma toalha, derrama água numa bacia e começa a lavar os pés dos seus discípulos. A este ato de caridade acrescenta claramente esta advertência: "Eu dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais vós também". Com zelo admirável, tantos santos e bons cristãos seguiram o exemplo de Jesus Cristo, sacrificando-se ao serviço do próximo. E quantos existem ainda hoje que abandonam o mundo para imitarem o exemplo do Salvador, dedicando seus bens, suas forças, seu tempo, seu amor e vida ao próximo. São eles uma bênção para a humanidade, uma bênção para o mundo do trabalho.

Mas lembrai-vos bem que todos aqueles que querem ser discípulos de Cristo têm o dever da caridade, devem romper as cadeias do egoísmo, que só pensa em si e nos seus próprios interesses, contempla, descontente, o peso do próprio trabalho e se dirige ao próximo com pensamentos invejosos e sentimentos faltos de caridade.

Devemos acostumar nosso coração a ter compaixão com o próximo, a fim de não lhe dificultar, mas aliviar a vida, ajudando-lhe a levar a carga quotidiana e infundindo-lhe ânimo, força e consolação, quando disso necessitar, segundo a palavra do Apóstolo: "na esperança alegres, na tribulação sofridos, na oração perseverantes".

CAPÍTULO XXV

Necessidade do amor de Deus no trabalho

Segundo a mesma medida que aliviarmos os trabalhos ao próximo, diminuiremos o peso dos nossos: quando lhe fazemos algum benefício, sentimos a felicidade de dar; quando lhe tiramos a tristeza do coração, nossa própria alma estará mais satisfeita e alegre.

Esta caridade prestada segundo o modelo e o espírito de Jesus Cristo, esta serva humilde e amorosa, ao mesmo tempo resoluta e forte, carrega heroicamente a cruz, tem recursos para alisar as asperezas do trabalho, impede a sobrecarga das labutações e une os filhos do trabalho entre si pelo sacrifício mútuo e solicitude previdente. Onde tal caridade exerce seu poder sobre as relações entre criados e amos, entre trabalhadores e patrões, operam-se maravilhas de reconciliação e resolve-se a questão social. Esta caridade cristã encoraja o fraco, o desanimado, dizendo-lhe com poder superior: "Levanta-te e caminha", e o habilita novamente para o trabalho e para prover suas necessidades.

E quando o socorro dos particulares não chega, reúne almas nobres em associações caridosas para a ação comum da caridade servidora. Muitas dessas associações existem e é útil e necessário promovê-las e coadjuvar os fins que se propõem alcançar.

O amor nos torna amável o trabalho, e isto também se pode dizer do amo para com o próximo que chamamos caridade. Por isso, vos repetimos as palavras de São Paulo: "Sede pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados, e andai em caridade, assim como também Cristo nos amou, e se entregou a si mesmo por nós outros, como oferenda e hóstia a Deus em odor de suavidade".

Ninguém se subtraia ao trabalho, ninguém ao dever cristão da caridade, nem o mais rico nem o mais pobre. Infeliz o rico que está ocioso e pobre em caridade e misericórdia! Infeliz o pobre que não quer trabalhar, porque também é pobre em caridade, sempre pronto a receber e nunca para dar! Cada um leve sua carga e auxilie ao próximo a carregar a sua. "Não vos esqueçais de fazer bem e de repartir dos vossos bens com os outros, porque com tais oferendas é que Deus se dá por obrigado".

Ninguém é tão rico que não necessite de caridade, ninguém tão pobre que não possa fazer bem aos outros. Cada um procure ocasião para se tornar útil pela caridade e ofereça seus serviços e meios às associações beneficentes.

Quando dás esmola, oferece-a com caridade. Se não podes dar muito, darás pouco, mas com carinho. Se tuas posses não te permitem a esmola, oferece a tua oração com amor, e muito terás oferecido. Esta caridade, exercida por milhares e milhares de pessoas, traz a solução da questão social e lança uma ponte áurea sobre o abismo aberto pela luta das classes sociais. Também neste século e no mundo do trabalho conserva seu valor e eficácia a palavra do Apóstolo: "Agora permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a caridade".

CAPÍTULO XXVI

Conclusão

Terminando, ordenamos que esta nossa carta pastoral seja registrada e arquivada como de costume, e lida, integralmente e por partes, em nossa Catedral Metropolitana, em todas as igrejas matrizes, capelas públicas e semi-públicas, em nosso seminário provincial e em todas as comunidades religiosas da nossa Arquidiocese.

Em todos os trabalhos da nossa vida, guie-nos sempre a tríplice estrela da fé, esperança e caridade, com seus divinos fulgores, e levantemos diariamente nossos corações ao Pai celestial, dizendo: Eterno e onipotente Deus, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade, e fazei que amemos o que mandais, para que mereçamos alcançar o que prometeis.

Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.

Dada e passada sob o Nosso sinal e selo das Nossas armas nesta cidade de Porto Alegre, a 13 de setembro de 1920, 12º aniversário de Nossa Sagração Episcopal.

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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