
O SACERDOTE NA SOCIEDADE HUMANA
TRIGÉSIMA QUARTA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1946)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
Situação Universal
Era de tarde, no último domingo de julho de 1896. Acabávamos de sair da velha catedral, onde, como de costume, como seminarista, assistíamos à bênção do SSmo. Sacramento. No trajeto ao Seminário, meninos vadios atiraram algumas pedras aos seminaristas. Como éramos um dos maiores, fomos destacado pelo prefeito para repreender os pequenos malandros.
Na volta, depois da ceia, fomos chamado pelo Sr. Bispo Diocesano ao seu gabinete. Tendo entrado, disse-nos:
O Sr. Dom Cláudio: "Assente-se, meu filho; você tem medo de bombas?" Respondemos, lembrando-nos das pedradas dos meninos: "Não, Senhor, não tenho medo de ninguém". "Pois bem, disse-nos ele, então comece hoje de noite o seu retiro espiritual: no outro domingo, 2 de agosto, como já é diácono, vou lhe conferir a ordem sacerdotal, e no domingo seguinte, 9 de agosto, tomará posse da paróquia do Menino Deus. Se de fato estourasse uma bomba, não teríamos levado maior surpresa e susto."
Com efeito, começamos na mesma tarde o nosso retiro espiritual e fomos ordenado sacerdote no domingo 2 de agosto, sozinhos, na capela do Antigo Seminário. No dia seguinte, segunda-feira, celebramos a nossa primeira missa na mesma capela, com assistência do Reitor do Seminário, Revmo. Sr. Padre Jacó Faeh, na presença dos seminaristas.
No domingo, 9 de agosto, fomos tomar posse da paróquia do Menino Deus. Em companhia de um Padre Palotino fomos à igreja. O nosso antecessor não estava mais. Fora nomeado Vigário de Nossa Senhora do Rosário nesta Cidade. Celebramos missa rezada. Ao evangelho fizemos, bem ou mal, a seguinte alocução:
"Sic nos existimet homo ut ministros Christi et dispensatores mysteriorum Dei: deste modo nos considerem os homens como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus."
Caríssimos paroquianos. A quadra mais deliciosa da vida do sacerdote é, sem dúvida, sua estada no Seminário. Embalado pelos cuidados paternais dos superiores, no seio da paz e do sossego, vive ele a vida das virtudes e dos estudos. Porém, o tempo, ó tão cedo, vem com mãos desapiedadas arrancar-nos das brandas almofadas do berço da nossa formação, põe-nos nas fracas mãos o pesado bordão de missionário e, apontando para a estrada poeirenta da vida, brada com voz imperiosa: marcha, vai desempenhar a tua missão apostólica. Despedindo-nos, com os olhos marejados de lágrimas, do santuário de nossa juventude, encetamos confiados em Deus a nossa marcha penosa.
Se este pensamento não me entristece e aflige o coração, é principalmente porque o terreno destinado à minha atividade não está inculto e estéril, mas em estado verdejante, produzindo já flores fragrantes e frutos deliciosos.
Refiro-me aos trabalhos salutares do apostolado da oração que em mim achará sempre um humilde mas assíduo protetor, e o qual deve a sua fundação e próspero desenvolvimento aos desvelos carinhosos do meu muito digno antecessor.
Além disto, a magnanimidade, a reconhecida generosidade, a nobreza de caráter e os sentimentos religiosos desta paróquia inspiram-me confiança e ânimo.
Porém, não obstante, sinto-me angustiado e trêmulo, se considero a missão difícil e árdua que me cumpre desempenhar ao tomar posse do governo pastoral desta paróquia. Entretanto não me apresento a vós como simples homem, pois reconheço muito bem a minha deficiência pessoal em face da grande responsabilidade que hoje tomo sobre mim. Mas, segundo a palavra de São Paulo, venho como ministro de Jesus Cristo e como dispensador dos mistérios de Deus: sic nos existimet homo ut ministros Christi et dispensatores mysteriorum Dei.
Quais serão minhas obrigações ou deveres? Como ministro de Jesus Cristo procurarei sobretudo o vosso bem espiritual. A vossa alma imortal resgatada pelo sangue de Jesus Cristo, está entregue aos meus desvelos pastorais. Deverei velar sobre vós, para que o inimigo dos homens não semeie má semente em vossos corações. Pois vem o mundo com suas aliciadas e seduções, vem a concupiscência dos olhos, da carne e da soberba da vida, e pretendem vos seduzir e levar para o abismo da perdição. A essas potências do mal tenho de opor resistência, impedindo seus ataques e curando seus maus efeitos. Vim para procurar a vossa salvação eterna. Pois é por isso que me tornei sacerdote, por isso fui mandado para aqui, munido de poderes espirituais, como representante de Jesus Cristo.
Outro dever meu é pregar o evangelho e ensinar a verdade, pois o ministro de Jesus Cristo tem esta estrita obrigação: Ide, disse o divino Mestre, ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura: aquele que crer e for batizado, será salvo. Consequentemente, ao dever do sacerdote corresponde também por parte dos paroquianos boa disposição e docilidade.
E disse Jesus: "Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza. E quem despreza a mim, despreza aquele que me enviou", isto é seu Pai, a Deus mesmo. Se pois os fiéis ouvem a voz do seu pároco, cumprem a vontade de Deus.
Quantas vezes tenho a obrigação de oferecer por vós o santo sacrifício da missa, pedindo a Jesus Cristo sacramentado que vos proteja e conduza à salvação eterna. A isto deve acrescentar frequentes orações para implorar a bênção do céu sobre vossas pessoas e vossos empreendimentos.
Porém, para que eu possa cumprir, devidamente, meus deveres, necessito também da vossa oração, do vosso auxílio. E neste momento, tão solene, peço-vos, encarecidamente, o favor de não me privar deste benefício, porque mutuamente devemos ajudar-nos. Pois, quanto mais graças Deus me conceder, tanto mais benefícios celestes poderei comunicar-vos.
O pároco é também dispensador dos mistérios de Deus, isto quer dizer que ele deve administrar aos fiéis os santos sacramentos. Vemos o sacerdote ao lado do berço da criança para lhe administrar o batismo; vemos como ele se aproxima do leito da morte para confortar os moribundos; confere imensos benefícios aos fiéis pela administração da Sagrada Eucaristia, da Penitência, da Extrema Unção, do Viático; deve celebrar casamentos e abençoar as novas famílias. Em todas as passagens mais importantes da vida, o sacerdote deve ser um amigo fiel do povo, tomando parte nas suas adversidades e nas horas felizes.
Por isso, logicamente devem os paroquianos contribuir para que o Vigário possa proficuamente exercer as funções de dispensador dos mistérios de Deus, aproveitando-se dos grandes benefícios que se lhes concedem na frequência dos sacramentos.
São estes pois os deveres do pároco, indicados em breves e toscas palavras. E prometo-vos, neste dia memorável, que jamais pouparei nem esforços nem fadigas para cumprir este meu sagrado ministério. Para esse fim imploro o auxílio da Mãe do céu e do Menino Jesus, nosso padroeiro.
E, caríssimos paroquianos, se no decorrer do tempo o cumprimento dos nossos deveres se tornar pesado e penoso, recorramos ao divino Coração de Jesus, busquemos ali força e alívio nas lutas e pesares da vida. Ele ensina a mim os meios de santificar-vos, pois ele é o manancial inexaurível de graças; inspira o amor que vos devo dedicar; pois Jesus como Bom Pastor deu sua vida pelo seu rebanho amado.
E a vós Jesus inspira, da mesma maneira, santos sentimentos de reverência, docilidade e amor para com seus ministros. Pois sabemos que ele fazia em tudo a santa vontade do seu Pai divino, e era sujeito e dedicado à sua Mãe Santíssima e a São José seu pai nutrício. Era dócil aos seus acenos.
Sim, Jesus deve ser nosso mestre e nosso guia. Seguindo a ele, passaremos vitoriosos pela senda da santidade e da justiça, e chegaremos, indubitavelmente, à glória eterna, ao paraíso celestial. Amém.
Depois da missa fomos cumprimentado na sacristia por algumas pessoas. Serviram-se uma bandeja de doces e vinho do Porto. Ao meio dia voltamos ao Seminário para almoçar. No dia seguinte fizemos a nossa solene mudança: uma carroça levou a nossa cama e uma mala. Ocupamos os modestos consistórios da igreja.
Assim fizemos nossa mudança para a paróquia do Menino Deus, onde ficamos doze anos, reformamos o templo e levantamos a majestosa torre, realizando ainda outras obras.
Em 25 de novembro de 1907 chamou-nos novamente o nosso Bispo. Entramos no seu gabinete, no mesmo em que nos comunicara a nossa ordenação sacerdotal e a nomeação de pároco do Menino Deus. "Ajoelhe-se, disse-nos ele, a fim de fazer o seu juramento prescrito para primeiro Bispo de Florianópolis em Santa Catarina." Com medo e emoção obedecemos.
No dia 13 de setembro de 1908 fomos sagrado Bispo na igreja das Dores, por Dom Cláudio, sendo bispos assistentes Dom João Braga e Dom João Pimenta. Em 4 de outubro de 1908 partimos para Florianópolis, tomando posse da nova diocese no dia 12 de outubro. Permanecemos naquela diocese cerca de quatro anos, sendo nomeado Arcebispo de Porto Alegre em 1.º de agosto de 1912.
Partimos de Florianópolis para Porto Alegre no dia 3 de dezembro de 1912, tomando posse da Arquidiocese em 8 de dezembro do mesmo ano, saindo processionalmente da igreja de Nossa Senhora da Conceição. Desde então nos achamos à frente da Arquidiocese de Porto Alegre.
CAPÍTULO II
Do Sacerdócio em geral
A própria natureza das coisas nos autoriza a deduzir com toda a segurança que na Igreja fundada por Jesus Cristo há de existir um sacerdócio visível. Não houve nunca uma sociedade religiosa sem sacerdotes, isto é, sem pessoas que tivessem o encargo especial de ordenar tudo que se refere à honra e culto da divindade, em especial de oferecer os sacrifícios públicos estabelecidos.
O sacerdócio entre os povos antigos tinha os seus sacerdotes e ainda hoje os encontramos entre os chineses, japoneses, índios e outras nações gentias.
A própria sã razão ditou aos homens que o culto público da divindade, qualquer que se julgasse que esta fosse, devia ser colocado nas mãos de pessoas determinadas e escolhidas para este fim, e dedicadas em especial à divindade, para que tudo fosse disposto e executado de uma maneira conveniente e digna.
Mas, entre todos os povos, em nenhum se vê melhor expressado o sacerdócio visível e a sua instituição que no povo de Israel. No tempo dos patriarcas, estes eram ao mesmo tempo sacerdotes e chefes de família; mas quando aumentaram estas famílias patriarcais e se converteram em numeroso povo, o Altíssimo, que se dignou dar-lhe leis, ordenou um sacerdócio especial para solenizar o serviço divino prescrito.
Aarão e sua descendência foram escolhidos e consagrados para o sacerdócio, o qual foi mantido escrupulosamente até à abolição do Antigo Testamento.
Era, pois, natural que Jesus Cristo, ao fundar a sua Igreja, estabelecesse um sacerdócio visível. Jesus Cristo, mediador entre Deus e os homens, foi constituído Sacerdote Sumo pelo próprio Pai celestial, segundo a ordem de Melquisedec. Melquisedec foi rei de Salém, isto é, rei de justiça e de paz. Pois, segundo o hebraico, Melquisedec significa rei de justiça, e Salém paz. Era ao mesmo tempo sacerdote do Altíssimo e como tal oferecia pão e vinho em sacrifício. Assim também Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote eterno não só na Última Ceia ofereceu, mas continua a oferecer o sacrifício do seu sacratíssimo corpo e sangue sob as espécies de pão e vinho, cumprindo a palavra do profeta que disse: "Jurou o Senhor e não se arrependerá: tu és eternamente Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec."
A cruz no Calvário foi o altar em que Jesus Cristo mesmo se ofereceu em sacrifício ao Padre Eterno, tirando os pecados do mundo pelo derramamento do seu sangue e reconciliando os homens com Deus seu Pai. E não contente com ter-se oferecido uma vez em cruento sacrifício e ter operado a remissão dos pecados, quis sacrificar-se de um modo incruento até ao fim dos séculos em nossos altares, para nos aplicar sempre os frutos do seu primeiro sacrifício cruento. Ele quis continuar a lavar os pecados daqueles a quem tinha remido, santificando-os pela virtude reconciliadora do seu sangue.
Para levar a cabo este seu plano divino cheio de misericórdia em favor do seu reino visível, a Igreja, que devia durar até ao fim do mundo, antes de deixar os homens, transmitiu aos seus Apóstolos o poder de celebrar o sacrifício incruento da Nova Aliança, e fez os seus lugartenentes no sacerdócio, que até ali tinha exercido em pessoa. Quis continuar a sacrificar-se na mão dos sacerdotes e por meio deles desatar os laços dos nossos pecados e comunicar-nos as suas graças e bênçãos.
Este sacerdócio visível da Nova Aliança passado para os Apóstolos, não podia acabar de maneira nenhuma com a morte deles. Pois, a Nova Aliança e a Igreja deviam durar até à consumação dos séculos, por isso, faltando os Apóstolos, haviam de substituí-los os seus legítimos sucessores no ofício sacerdotal, continuando desta maneira de geração em geração até ao fim dos tempos.
Assim é que o Concílio de Trento pronunciou anátema contra os que sustentassem que "na Nova Aliança não há sacerdócio exterior e visível".
Quando foi que Jesus Cristo instituiu o novo sacerdócio? Foi quando disse aos Apóstolos e nas pessoas deles aos seus sucessores: "Assim como meu Pai me enviou, também eu vos envio: ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo. "Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados." E ainda depois da consagração e da mudança do pão e do vinho no seu corpo e sangue, na Ceia: "Fazei isto em memória de mim".
Ensina-nos São Paulo nas suas epístolas que os Apóstolos transmitiam aos seus discípulos pela imposição das mãos os poderes que eles próprios tinham recebido do seu divino Mestre. "Exorto-vos a que conserveis fielmente a graça que vos foi conferida pela imposição das minhas mãos", escreve ele ao discípulo Timóteo.
Jesus Cristo que estabeleceu verdadeiramente na sua Igreja um sacerdócio próprio e visível. Não deu a cada um dos fiéis, sem distinção, o poder espiritual, nem a todos em geral, mas a alguns escolhidos. Com este fim lhes concedeu o ofício espiritual, isto é, o ofício de ensinar, reger e santificar, para que eles transmitissem a outros esse tríplice poder de ensinar, governar e santificar os outros, escolhendo-os e separando-os dos seculares, de sorte que, o tríplice ofício continuasse nos seus sucessores até o fim dos séculos.
Este fato resplandece não só na Sagrada Escritura, mas também nos mais antigos manuscritos eclesiásticos e nos testemunhos de toda a história.
Em todos os tempos, desde Jesus Cristo e os Apóstolos até nossos dias, em toda a Igreja espalhada pelo mundo, no oriente e no ocidente, vemos um sacerdócio próprio e claramente distinto do estado secular e dos demais fiéis: um sacerdócio, a quem só compete oferecer o santo sacrifício e perdoar os pecados em nome de Cristo; um sacerdócio, a quem devem recorrer todos os fiéis para receber os santos sacramentos, a doutrina salutar e a direção espiritual, o que corresponde ao tríplice ofício de ensinar, de santificar e dirigir.
Esta já foi a doutrina de Santo Inácio Mártir, bispo de Antioquia, que a inculcou nas suas epístolas aos maquesianos, tralianos e aos de Esmirna. Todos os fiéis deviam seguir estes ensinamentos e estar submissos aos seus bispos como a Cristo, e aos sacerdotes como aos próprios Apóstolos. Nada se deve fazer acerca das coisas da Igreja sem os bispos e os sacerdotes que lhes estão subordinados. Sem eles não deve celebrar-se festa alguma, e somente de suas mãos devem os fiéis receber a Sagrada Eucaristia.
Existe pois na Igreja Católica um verdadeiro sacerdócio.
CAPÍTULO III
A Vocação Sacerdotal
Existem nesta Arquidiocese, além do nosso Seminário Arquidiocesano em Gravataí e do Seminário Central em São Leopoldo para formação do clero secular ou diocesano, muitos Institutos ou Colégios Apostólicos para formação do clero regular ou religioso. Graças a Deus, são em número elevadíssimo os meninos que em toda a Arquidiocese pedem admissão tanto em nossos Seminários como nos diferentes Colégios Apostólicos.
Que disposições são necessárias a um menino que pretende entrar no Seminário ou num Instituto Religioso? Serão desejos e impulsos vindos do Divino Espírito Santo, que o inclinam a escolher o estado sacerdotal ou religioso, e aos quais não é lícito contradizer? Houve quem erradamente tal afirmasse.
Semelhante ponto de vista nos parece fundamentalmente inexato e oposto ao conceito que sobre a "vocação" a Igreja sempre seguiu e ultimamente de novo aprovou com extraordinários encômios dispensados ao livro "La Vocation Sacerdotale", do Cônego José Lahitton.
Toda essa obra é consagrada ao intento de provar que a "vocação", requerida para o sacerdócio, não consiste, de forma nenhuma, no menos necessariamente e por lei ordinária da Providência, em alguma aspiração interna do candidato ou em convites do Espírito Santo para o sacerdócio. Insiste o autor citado, de todos os modos, em que se deve abandonar a teoria relativa à vocação inteiramente subjetiva ou pessoal, segundo a qual os possíveis desejos interiores e inclinações para a vida sacerdotal são manifestações da voz de Deus ou do Espírito Santo. Nega de mil maneiras que a "vocação" ou chamamento de Deus seja intimado ao indivíduo por meio de atrativos, gostos ou inclinações tais que revelem a ele e àqueles de quem depende (pais, párocos, professores, etc.) que está divinamente destinado ao sacerdócio.
A obra aludida refuta irrespondivelmente a opinião de que, como consequência de um chamamento anterior do Espírito Santo, aos diretores de Seminários e aos Bispos caiba unicamente o dever de descobrir semelhantes vocações ou chamamentos para, uma vez comprovada a sua existência, terem que inclinar-se diante de uma vontade e autoridade superior, ordenando a quem Deus chamou sem sua mediação.
Qual é então a verdadeira doutrina sobre a vocação? Se Deus é quem chama para o sacerdócio, segundo o ensinamento de São Paulo "Nec quisquam sumit sibi honorem, sed qui vocatur a Deo tamquam Aaron: ninguém, porém, arroga para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Aarão", de que modo manifesta Ele o chamamento àqueles, a quem é dirigido? De maneira como o explicou a Igreja pelo Catecismo do Concílio de Trento: "Vocari autem a Deo dicuntur, qui a legitimis Ecclesiae ministris vocantur, diz-se porém, que são chamados por Deus aqueles que foram convidados pelos legítimos ministros da Igreja".
O chamamento divino para o sacerdócio chega aos candidatos em virtude do chamamento que lhes dirigem os legítimos ministros da Igreja, os que têm jurisdição no foro externo, que são o Papa e os Bispos, por si ou por seus delegados.
Ainda que os chefes da Igreja pronunciem o chamamento, o que se faz formalmente na colação das Ordens Maiores, não existe nos candidatos "vocação" propriamente dita. Podem existir aptidões e atrativos para o sacerdócio os quais, entretanto, não são o chamamento ou a vocação formal, nem sinais ou provas da mesma; apenas podem ser sinais ou provas de idoneidade ou vocabilidade para receber o sacerdócio, verificados os quais o Bispo chama ou não chama, ordena ou não ordena, conforme julgar conveniente, sem cometer injustiça ao candidato, nem desobedecer ao Espírito Santo, qualquer que seja a decisão. Deus chama para o sacerdócio como chamou Aarão, e este chamamento, como foi dirigido a Aarão mediante Moisés, na Nova Lei é feito mediante os Bispos, que escolhem os candidatos para a ordenação, em virtude do poder que têm de reger a Igreja de Deus.
Seria um equívoco, portanto, falar em vocação propriamente dita antes da escolha do Bispo que faz a vocação, quando chama os candidatos que julga idôneos para receber o ônus do sacerdócio. Requer-se da parte destes não uma voz interior divina, inclinações ou impulsos, cuja existência nem necessita ser investigada, mas é indispensável a idoneidade para o múnus sacerdotal, a qual consiste na reta intenção, na ciência e na virtude suficientes, segundo as exigências da Igreja.
A vocação ou chamamento direto para o sacerdócio é um fato exterior: é a decisão do Bispo que escolhe os que quer e os que julga idôneos. Deus não dá a vocação a não ser por intermédio do Bispo que chama para as ordens: "Vocari autem a Deo dicuntur, qui a legitimis Ecclesiae ministris vocantur."
Não nos cabe aduzir as provas das nossas afirmações. Pois, o que dissemos não representa opiniões pessoais adotadas para defender a tese que nos interessa, mas são as ideias mestras da obra de Lahitton, calorosamente aprovada pela Igreja. Não nos fiamos, portanto, nas fracas e apoucadas luzes do nosso raciocínio, nem sequer nos argumentos irrefutáveis que Lahitton deduz ampla e vitoriosamente do ensino e da prática da Igreja sobre o chamamento ao sacerdócio, nem nos que tira da razão teológica. A convicção com que falamos se deriva da aprovação expressa que a Igreja, "columna et firmamentum veritatis", coluna e firmeza da "verdade", concedeu à obra e aos ensinamentos do referido autor.
De fato, em 1.º de julho de 1912 o Cardeal Merry Del Val, Secretário de Estado de Sua Santidade, dirigiu a Monsenhor De Cormont, Bispo de Aire, a seguinte carta:
"Devido às dissensões que se originaram por ocasião das duas obras do Cônego José Lahitton sobre a vocação sacerdotal e em vista da importância da questão nelas discutida, nosso Santo Padre Pio X dignou-se nomear uma comissão especial de Eminentíssimos Cardeais. Essa Comissão, depois de haver examinado maduramente os elementos que militam em favor de uma e outra tese, em sua reunião plenária de 20 de junho último, pronunciou o seguinte juízo:
"Opus praestantis viri, Josephi Canonici Lahitton, cui titulus "La Vocation Sacerdotale", nullo modo reprobandum esse; imo, qua parte adstruirt:"
— Neminem habere umquam jus ullum ad ordinationem antecedentem ad liberam electionem Episcopi.
— Conditionem, quae ex parte Ordinandi debet attendi, quaeque VOCATIO sacerdotalis appellatur, nequaquam consistere, saltem necessario et de lege ordinaria, in interna quadam adspiratione subjecti seu invitamentis Spiritus Sancti, ad sacerdotium ineundum.
— Sed e contra, nihil plus in ordinando, ut rite vocetur ab Episcopo, requiri quam rectam intentionem simul cum idoneitate in iis gratiae et naturae dotibus reposita, et per eam vitae probitatem ac doctrinae sufficientiam comprobata quae aprem fundatam faciant fore ut sacerdotii munera recte obire ejusdemque obligationes sancte servare queat: ESSE EGREGIE LAUDANDUM"
Em português: "A obra do distinto varão Cônego José Lahitton intitulada "La Vocation Sacerdotale", não deve ser de maneira alguma reprovada; pelo contrário, na parte em que afirma:"
— que ninguém jamais tem direito algum à ordenação sacerdotal antes da livre eleição do Bispo;
— a condição a que se deve atender da parte do ordinando e que se chama vocação sacerdotal, de maneira alguma consiste, pelo menos necessariamente e por lei ordinária, em alguma interna aspiração do candidato ou convites do Espírito Santo para abraçar o estado sacerdotal;
— mas, pelo contrário, nada mais se exige no ordinando, para que seja devidamente chamado pelo Bispo, do que a reta intenção, juntamente com a idoneidade apoiada em tais qualidades de graça e de natureza, e comprovada por tal probidade de vida e tal medida de ciência, que se possa ter esperança fundada de que seja capaz de desempenhar convenientemente as funções do sacerdócio e observar santamente suas obrigações, DEVE SER LOUVADA DE MODO PARTICULAR."
E continua a carta do Cardeal Merry Del Val: "Sua Santidade Pio X, na audiência de 26 de junho, aprovou plenamente a decisão dos Eminentíssimos Cardeais e me encarrega de o avisar a V. Excia. que o queira comunicar ao seu súdito o Cônego José Lahitton e manda-lo inserir integralmente na "Semana Religiosa" da diocese".
A teoria da vocação diretamente notificada ao indivíduo por Deus é rejeitada e abandonada definitivamente como contrária à mais pura doutrina da Igreja, da Sagrada Escritura e da teologia católica, como oposta, igualmente, à experiência universal. A Igreja, sob o nome de exame de vocação, outra coisa não faz, em última análise, do que investigar as aptidões mais ou menos proporcionais aos encargos do sacerdócio.
Os sinais tidos por alguns como provas do chamamento direto do Espírito Santo e dos quais pretendiam deduzir que alguém está divinamente marcado para o sacerdócio, não são outra coisa que sinais de idoneidade ou de vocabilidade, isto é, de vocação possível, a ser atualizada, ou não, pelo Bispo. Nem que alguém possuísse todos os indícios e sinais em grau eminente, ainda assim não teria direito à ordenação, não porque o Bispo tenha autorização para desobedecer ao Espírito Santo, mas porque semelhantes sinais não representam nem denunciam chamamento divino algum anteriormente à livre escolha do Bispo.
"Nec quisquam sumit sibi honorem, sed qui vocatur a Deo tamquam Aaron: nenhum, porém, arroga para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Aarão."
"Vocari autem a Deo, dicuntur, qui a legitimis Ecclesiae ministris vocantur: diz-se, porém, que são chamados por Deus aqueles que foram convidados pelos legítimos ministros da Igreja."
CAPÍTULO IV
Continuação da Doutrina da Vocação Sacerdotal e Religiosa
Devemos fazer distinção entre Seminários e Colégios Apostólicos. Temos na Arquidiocese o Seminário Menor de São José, em Gravataí, e o Seminário Central, em São Leopoldo. Contentem-se os Religiosos, para seus Institutos de preparação, com o título de Colégios Apostólicos e não de Seminários, para não causar confusão.
Os argumentos e conclusões da obra de Lahitton, os quais se reportam explicitamente à vocação sacerdotal, valem a pari et a fortiori da vocação religiosa, como frisa expressamente o autor: "Assim também sucede com o estado religioso; todo o cristão é livre para entrar nele e pode mesmo considerar-se chamado por Nosso Senhor Jesus Cristo, assim como o pode fazer particularmente os três votos de religião; mas o estado religioso se acha cristalizado em várias Ordens e Congregações de origem eclesiástica."
"Quem quiser entrar em uma ou outra destas formas de vida religiosa, deve sujeitar-se a provas, exames, tratamentos particulares chamados provações e que se fazem no noviciado. Jamais poderá exigir sua admissão como um direito, mas deve esperar a eleição e o chamamento dos superiores legítimos, que não admitem indivíduos senão segundo as necessidades da Ordem, mostrando-se ora fáceis, ora exigentes, segundo o número e o valor dos candidatos. Este chamamento dos superiores legítimos se faz por autoridade eclesiástica."
Devemos ser imensamente gratos a Deus por tudo ter disposto desta maneira. Obrigados a discernir se as inclinações, propósitos, atrações, etc. ao estado sacerdotal ou religioso são de origem divina ou se devem explicar-se naturalmente, jamais, nem depois de muitos anos de sacerdócio ou vida religiosa, poderíamos ter certeza da nossa vocação, e nunca sairíamos do terreno das probabilidades e das conjeturas quanto a nós e muito mais quanto aos outros.
A ação contínua do Divino Espírito Santo na alma do justo, como tal, não está sujeita ao nosso exame introspectivo e menos ainda pode ser surpreendida nos outros. Quem, por isso, se julgasse chamado e escolhido por Deus de uma maneira imediata e direta, sem interferência ou mediação dos legítimos ministros da Igreja, deveria demonstrar a existência de um chamamento ou missão divina extraordinária, o que só por um milagre lhe seria possível.
É assim que ensina Santo Tomás e a teologia católica, a saber, que é impossível conhecer com certeza os desígnios particulares de Deus com relação a nós, sem revelação. Que influência tem a graça divina na formação desta idoneidade em que tanto temos insistido?
"Desde os primeiros desejos e os primeiros pensamentos do sacerdócio até a perfeita florescência da idoneidade, se os atos do candidato são executados "ut oportet, como convém", coisa de que não há segurança, isto é, se os seus atos são verdadeiramente sobrenaturais, não se fazem sem a influência contínua da graça, primeiro motor de toda a atividade sobrenatural.
"Esta graça, como todas que encaminham as almas para um fim sobrenatural, pôde chamar-se vocação, por analogia com a vocação para a salvação eterna, de que fala a Escritura. Neste sentido, teremos uma vocação interior ao sacerdócio, como há para o batismo, a confirmação, a Eucaristia... etc. Tal vocação se confunde com as disposições sobrenaturais requeridas para a boa recepção dos sacramentos, sem que haja razão para chamá-la com um nome especial, tratando-se das disposições para o sacerdócio."
"A vocação entendida desta maneira acha-se em todos os estados, e há tantas vocações quantos fins sobrenaturais se podem desejar e procurar."
Mas, o que dirá o diretor espiritual do Seminário aos alunos que manifestam inclinações ou desejos de escolher o estado religioso?
Respondendo, abstrairemos dos casos em que as perplexidades e dúvidas dos alunos neste particular foram suscitadas por convites, preferências, sondagens e influências de prefeitos, professores e espirituais, no Seminário.
Em verdade, pouco senso psicológico se requer para explicar a gênese de tais desejos, sem interferência alguma, mas que realmente não são prova do Divino Espírito Santo, assim como se explica a origem de inclinações para o sacerdócio nos meninos que assistem a uma primeira missa, convivem com os seminaristas nas férias, ouvem na família expressões respeitosas aos sacerdotes etc. Pois, suposto que reine bom espírito, o convívio diário com os Religiosos que administram o Seminário, cria necessariamente entre eles e os alunos sólidos laços de estima e afeição. Seria sumamente estranhável se assim não fora e se os superiores não conseguissem cativar a admiração e a amizade dos educandos.
Nenhuma maravilha, pois, que venha naturalmente a lembrança e também o desejo de pertencer ao instituto religioso de que fazem parte.
Repetimos, qual será a atitude dos diretores espirituais em casos semelhantes? A explicação nos parece facílima: Guiem-se pelo que a Igreja já resolveu. Façam ver aos seminaristas que tais desejos e inclinações, segundo o ensino da Igreja, de modo nenhum são indícios ou sinais de que Deus os quer na vida religiosa. Mostrem-lhes a sublimidade do estado sacerdotal, a perfeição e a virtude que exige, a felicidade interior que propicia, enrijeçam a vontade dos alunos, preparando-os para os contínuos e dolorosos sacrifícios, como o requer a dedicação integral ao ministério das almas, descrito por aquele que foi Apóstolo por excelência: "Impendar et superimpendam pro animabus vestris: sacrificarei tudo e me sacrificarei também a mim mesmo pelas vossas almas".
E não procede a Igreja muitas vezes do mesmo modo como o estamos exigindo no Seminário? Com o máximo rigor e severidade intransigente manda ela e exige que sejam privados de ordens, embora sintam a mais veemente inclinação e gostos persistentes, de que a Igreja no caso nem se ocupa, os candidatos, mesmo ótimos sob todos os pontos de vista mas desnecessários, para o governo e administração da Diocese?
E não afasta sumariamente todos aqueles que ela mesma declara irregulares, quase sempre sem nenhuma culpa deles? Porque, antes de fazê-lo, não manda investigar se não existem neles "sinais e provas de vocação do Espírito Santo"?
E aqueles que são investidos da plenitude do sacerdócio, os Bispos, será que a Igreja requer neles uma "vocação" direta do Espírito Santo, cognoscível por desejos interiores e inclinações? Nada disso. Que diria o Santo Padre a quem lhe pedisse a sagrada episcopal, alegando desejos sinceros e atrativos irresistíveis?
Não é com os desejos e nem com as relutâncias dos candidatos possíveis que a Santa Sé se preocupa, mas examina unicamente a idoneidade, verificada a qual, sem ciência até do candidato, faz o chamamento, muitas vezes contra todos os gostos e inclinações do interessado. Quem escolhe e chama os candidatos para o episcopado, quer tenham desejos quer sintam até pavor, é o Papa, em virtude do poder que recebeu do Divino Salvador para governar a Igreja.
Tal chamamento, evidentemente, é mediato e indireto, como o estamos defendendo com relação a toda vocação para o sacerdócio e a vida religiosa, e, contudo, destes que são chamados, da maneira indicada, pelo Sumo Pontífice para o múnus episcopal diz o Apóstolo São Paulo: "Quos Spiritus Sanctus posuit regere Ecclesiam Dei: os quais o Espírito Santo constituiu bispos para governar a Igreja de Deus".
Quem os escolhe é o Divino Espírito Santo, não diretamente, o que seria absurdo afirmar, mas pelos ministérios dos legítimos ministros da Igreja. "Vocari autem a Deo dicuntur qui a legitimis Ecclesiae ministris vocantur: diz-se porém, que são chamados por Deus aqueles que foram convidados pelos legítimos ministros da Igreja".
Toda a doutrina sobre a vocação sacerdotal e religiosa repousa, em verdade, sobre estes dois textos:
"Nec quisquam sumit sibi honorem, sed qui vocatur a Deo tamquam Aaron: nenhum, porém, arroga para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Aarão."
"Vocari autem a Deo dicuntur, qui a legitimis Ecclesiae ministris vocantur: diz-se porém, que são chamados por Deus aqueles que foram convidados pelos legítimos ministros da Igreja."
CAPÍTULO V
Análise da Vocação Sacerdotal
Ao comparar o número avultado de seminaristas provenientes de uma freguesia com o número menor de candidatos oriundos de outra, quiçá maior e muito boa, urge investigar a causa deste fenômeno surpreendente. Prescindindo de circunstâncias locais e sociais, um fator poderoso se esconde no conceito da vocação sacerdotal que o pároco da freguesia formou no seu espírito, durante a sua carreira eclesiástica.
Alguns sacerdotes defendem o sistema de espera, persuadidos de que o Espírito Santo tem de inspirar ao menino o desejo do sacerdócio, atribuindo-se a si tão somente à tarefa de descobrir a vocação. Outros seguem o sistema de cultura, sabendo por feliz experiência que o espírito dócil da juventude, ajudado pela graça divina, se deixa levar por conselhos, tendo-se em consideração as condições pessoais e sociais do menino.
A obra do Cônego Lahitton que defende o sistema de cultura, depois de muitos e veementes ataques provocou o célebre Decreto de Pio X, exposto no capítulo III.
Este Decreto facilita a escolha de bons seminaristas, livrando a consciência dos zelosos sacerdotes de um receio e constrangimento infundados, a respeito das vocações sacerdotais. Geralmente, a confusão e mesmo interpretações falsas se originam do pouco conhecimento que se tem de vocação canônica, vocação sacerdotal extraordinária e de vocação sacerdotal ordinária.
A vocação canônica emana do Bispo. Pois, reza o Decreto de Pio X: "Ninguém jamais tem direito algum à ordenação sacerdotal antes da livre eleição do Bispo". Em termos positivos o teor do Decreto é o seguinte: Só o Bispo tem o direito de admitir o candidato às ordens sagradas.
A praxe da Igreja não admite dúvida alguma a este respeito. O pontifical, que contém a mais antiga doutrina concernente ao nosso assunto, autoriza o Bispo a declarar na presença dos candidatos: "Com o auxílio do Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo elegemos os subdiáconos aqui presentes para a ordem dos diáconos". Portanto, o Bispo elege. E, lembrando a sua autoridade divina, chama os eleitos "in nomine Domini huc accedite, em nome do Senhor aproximai-vos". Logo, o Bispo escolhe em nome de Deus.
A escolha do Bispo não se baseia numa vocação interna, mas na verificação de qualidades perceptíveis, na idoneidade; pois, ele se dirige ao arcediago e pergunta: "Scis illos dignos esse, sabes se eles são dignos?"
O Concílio de Trento enumera as condições que se exigem dos candidatos ao sacerdócio, outorgando ao Bispo o direito e a obrigação de exigi-las.
No capítulo 4 trata dos tonsuristas. Ao Bispo e só a ele compete indagar, se os ordinandos não escolheram a carreira eclesiástica por motivos mundanos, mas unicamente pela honra da Divina Majestade.
No capítulo 5 exige dos candidatos o testemunho favorável do seu pároco e dos professores, obrigando o Bispo a "tomar informação por pessoas dignas de fé, do seu nascimento, idade, costumes e vida" e "investigar e examinar com diligência o nascimento dos ordinandos, e suas pessoas, idade, instituição, costumes, doutrina, e fé", não lhe pedindo conta alguma "sobre convites do Espírito Santo", que deem um direito "à ordenação antes da livre eleição do Bispo".
Prescreve o mesmo Concílio que as ordens maiores "só devem ser assumidos os dignos, cuja probidade de vida tenha lugar de idade avançada", acrescentando que "só serão admitidos às ordens de subdiácono e diácono os que tiverem boa reputação, de que terão já dado provas nas ordens menores, e que se acharem suficientemente instruídos nas boas letras e no que pertence ao exercício da ordem a que aspiram, e esperem com a ajuda de Deus, poder viver em continência."
De acordo com o mesmo Concílio, o Bispo só pode admitir à ordem do presbiterado aqueles que após "diligente exame forem achados idôneos".
Manda ainda o Concílio Tridentino que o Bispo admita para o seminário jovens "cuja índole e desejo deem esperanças de que se empregarão perpetuamente nos ministérios eclesiásticos". Preceitua outrossim que "nenhum clérigo secular ainda que seja idôneo quanto aos costumes, ciência e idade, seja promovido às sagradas ordens, sem primeiro constar legitimamente que possua pacificamente o "benefício eclesiástico" e que "não se poderão ordenar senão aqueles que o Bispo julgar se devam assumir conforme a necessidade, ou utilidade das suas Igrejas".
Portanto o Bispo é que julga do ordinando, sem lhe averiguar uma vocação divina, interna; e, conforme a opinião comum de todos os canonistas, não há nem sequer apelação ao Sumo Pontífice da decisão do Bispo.
Nem a devoção nem a sincera vontade de ser sacerdote são para o Bispo um motivo que lhe coarcte a "livre escolha".
O Concílio Tridentino concede ao Bispo o direito de obrigar o beneficiado que não é sacerdote, a receber as ordens, sem que fale de "convites do Espírito Santo" que se devessem verificar.
A doutrina do Concílio de Trento não é outra coisa senão o resumo da praxe da Igreja Católica. Ela se julga, infalível como é, autorizada a rejeitar a quem não precisa e assumir de quem tem mister, de maneira que obriga a varões aptos a aceitar o sacerdócio e o episcopado. Deste modo de proceder já nos fala Santo Agostinho que diz "que muitos, a fim de receberem o episcopado, são retidos contra a sua vontade, são levados à força, internados, guardados em custódia, padecem muitas coisas até terem a vontade de aceitar o bom ofício".
Santo Tomás de Aquino diz: "Se não se pudesse obrigar a alguém a aceitar o governo da Igreja, esta não se poderia conservar, visto que, não poucas vezes, os que são idôneos para tal, não o quererem aceitar a não ser obrigados".
Ora, todos os teólogos concedem que a vocação "divina", necessária para os sacerdotes, é ainda mais indispensável para quem tem a plenitude dos poderes sacerdotais, os Bispos. A Igreja porém não pede informações a respeito de "qualquer aspiração interna do sujeito" que desse "algum direito".
Daí segue a conclusão que o Bispo tem completa liberdade na escolha dos ordinandos e ninguém possui o direito de obrigá-lo a conferir-lhe as ordens sagradas, referindo-se a uma vocação independente da sua escolha.
Mas escolha livre não diz escolha arbitrária, de sorte que o candidato, pelo menos do seminário maior, em virtude de um quasi-contrato, ensinado pelos canonistas e baseado na admissão ao seminário, não se pode demitir sem razão grave.
Por vocação sacerdotal extraordinária entende-se aquela que é feita por convites do Divino Espírito Santo. Não se deve confundir com a "vocação divina", termo muito usado pelos Papas e Doutores, e que se compõe da vocação canônica e da vocação sacerdotal ordinária, sendo esta por assim dizer a sua matéria, aquela a forma.
A vocação extraordinária, julgada antigamente necessária por diversos autores, como por exemplo Kroust, em oposição a Santo Tomás, São Carlos Borromeu, Berardi, Lehmkuhl, Vermeersch, etc., foi pelo Decreto de Pio X considerada "de nenhuma maneira necessária".
Por revelação, Moisés foi incumbido da vocação para guia do povo de Israel, dizendo-lhe Deus: "Enviai-te-ei a Faraó, para que tires do Egito os filhos de Israel, o meu povo". Pela mesma maneira o Senhor conferiu a Ezequiel a vocação de profeta: "Filho do homem, envio-te aos filhos de Israel". Isaías, Jeremias e outros Profetas foram chamados por revelação, diretamente, sem intervenção de uma pessoa medianeira.
Diretamente Nosso Senhor chamou os Apóstolos, e especialmente a São Paulo para o sacerdócio e apostolado: "Não vós me escolhestes a mim, mas eu vos escolhi a vós".
Deus não chama a alma, pelo menos não necessariamente e por lei ordinária, com alguma interna aspiração ou convites do Espírito Santo.
Os Doutores dizem que este convite envolve o impulso interno, uma inclinação espontânea, uma viva predileção pelo sacerdócio, anterior a qualquer reflexão. A alma parece ser criada só para o sublime estado clerical; tudo quanto tem conexão com o sacerdócio lhe constitui; sem possuir ideia clara das obrigações, sente-se afeiçoada à virgindade sacerdotal, aos mistérios sacros, não experimenta aversão aos sacrifícios futuros, ao muito trabalho e cansaço, às difamações e injustas perseguições: uma ideia predomina, disputando a soberania a qualquer outro sentimento: Quero ser sacerdote.
Não sempre, mas frequentemente, este instinto divino é acompanhado da inclinação de servir ao altar, ajudando à missa e contribuindo de uma maneira qualquer para a pompa religiosa, ou de exercer as incumbências de um apóstolo, convidando companheiros e irmãos para atos religiosos, instruindo-os a seu modo nas verdades eternas.
Tal vocação, porém, por mais desejável que seja para o Bispo e consoladora para o futuro levita, de modo algum constitui o requisito indispensável das ordens sagradas. As provas positivas e decisivas estão contidas na Doutrina do Concílio Tridentino que exige informações do "nascimento, idade, costumes, vida, doutrina, fé, etc." dos ordinandos sem mencionar a "aspiração interna". Ora, se tão necessária fosse a interna aspiração ao sacerdócio, como alguns teólogos opinaram, a Igreja teria deixado de prescrever informações completas, suficientes e seguras, o que é inadmissível.
A mesma consequência inaceitável emana dos documentos históricos da Igreja relativos à imposição autoritativa da dignidade sacerdotal e episcopal a varões aptos.
Razões de conveniência para corroborar esta doutrina não faltam.
A Igreja Católica é uma sociedade perfeita, com todos os poderes e elementos necessários para sua existência. Ora, é essencial a uma sociedade perfeita escolher os seus membros, excluir indignos, nomeá-los para certos cargos. Realmente a Igreja exerce estas funções sublimes ordenando os sacerdotes, promovendo-os à dignidade episcopal, munindo-os da missão canônica, e tudo isto em nome de Deus. Porque não poderia escolher, também em nome de Deus, os candidatos para o sacerdócio? Deus negaria à Igreja um direito muito importante, prejudicando muito a perfeição desta sociedade divina?
O sacerdócio do Novo Testamento sem dúvida é muito superior ao sacerdócio levítico. Ora, os sacerdotes do Antigo Testamento reconheciam só uma vocação visível, a descendência de Aarão. Portanto a dignidade do sacerdócio católico exige a vocação externa, para não desmerecer o seu brilho, a sua formosura.
O Decreto de Pio X, na sua terceira parte, diz: "Pelo contrário, nada mais se exige no ordinando, para que seja devidamente chamado pelo Bispo do que a reta intenção, juntamente com a idoneidade apoiada em tais qualidades de graça e de natureza e comprovada por tal probidade de vida e tal medida de ciência que se possa ter esperança fundada de que seja capaz de desempenhar convenientemente as funções do sacerdócio e observar santamente suas obrigações".
Tendo-se excluído a necessidade de uma inspiração divina, o Decreto prossegue, propondo a verdadeira doutrina sobre a vocação sacerdotal.
A expressão "reta intenção" compreende dois elementos constitutivos da vocação sacerdotal: 1.º o caminho para chegar a esta vocação: neste caso intenção encerra o conceito de escolha; 2.º uma qualidade necessária, em oposição à má ou perversa intenção.
Se nem revelação nem inspiração proveniente são as fontes únicas, necessárias e ordinárias, forçoso é conceder que uma fonte verdadeira, e a única fonte ordinária é a eleição.
Pois, segundo a doutrina de Santo Inácio, proposta no seu livro de exercícios, aprovado pela Santa Sé depois de detido exame, a alma se determina a uma resolução devido a três causas: ou por uma revelação ou por desejos anteriores a qualquer deliberação, ou por atento exame das razões em favor e desfavor do objeto.
"O terceiro modo, diz São Inácio, é tranquilo. O homem considerando primeiro porque foi criado, a saber para louvar a Deus Nosso Senhor, e salvar a sua alma, e movido pelo desejo de alcançar este fim, escolhe, como meio, um dos modos de vida aprovados pela Igreja, a fim de trabalhar com mais proveito no serviço do seu Senhor e na salvação de sua alma; chamo tempo tranquilo aquele, em que a alma não é agitada por espíritos contrários, fazendo livre e tranquilamente uso das suas faculdades naturais".
Ora, "um dos modos de vida aprovados pela Igreja" é a vida clerical. Se portanto o candidato, "considerando porque foi criado, a saber, para louvar a Deus e salvar a sua alma" "em tempo tranquilo", isento de uma tentação momentânea, sugerida por ventura por uma leitura menos conveniente ou um amigo mundano, compreendendo e convencendo-se de que, na qualidade de sacerdote, melhor pode louvar a Deus, servir-lhe com mais perfeição e conseguir uma felicidade mais gloriosa, resolve entrar no santuário, a sua vocação sacerdotal possui todos os caráteres de vocação verdadeira, muito boa, sobrenatural, segura e, suposta a vocação canônica, realmente divina: "nada mais se exige no ordinando do que a reta intenção".
A "vocação" nascida da reflexão e eleição é muito boa por ser sobrenatural, originária de uma raiz sobrenatural, da fé viva em Jesus Cristo e sua Igreja, e porque dirige a alma para um fim sobrenatural, previsto e intencionado ao menos confusamente, à glória de Deus e ao bem das almas. "Deus é o que obra em vós tanto o querer como o executar". "Não que sejamos capazes de formarmos algum pensamento por nós mesmos, como próprio; mas nossa capacidade vem de Deus".
A "vocação", como fruto da eleição, é segura e até mais segura do que a extraordinária, enquanto não baseada em razões convincentes. As revelações privadas não constituem fonte segura. Não só a doutrina dos Santos, que receberam tais revelações, também a experiência prova-o abundantemente, impondo a regra por todos adotada: em geral deve-se desconfiar das revelações e tomar as resoluções com referência a razões e ponderações.
As aspirações da graça, prescindindo-se da deliberação dos motivos, tão pouco formam uma base sólida para a vocação sacerdotal. Os indícios da vocação extraordinária, absolutamente falando, são condições juvenis, pelo menos na primeira época da sua manifestação, podem originar-se de inclinações puramente naturais.
Vê-se que a vocação extraordinária, para consolidar-se, tem de recorrer aos motivos da vocação ordinária, ao passo que esta é por assim dizer independente e por isso mais segura.
Santa Teresa, quando resolveu entrar na Ordem de Nossa Senhora do Carmo, longe de sentir um "convite do Espírito Santo", experimentou uma repugnância invencível contra a vida religiosa. Mas a reflexão de que o estado religioso lhe era mais seguro e perfeito, determinou a sua decisão definitiva de maneira que a sua vocação religiosa era resultado só da fé e da razão.
A vocação sacerdotal proveniente da deliberação é verdadeira e legítima, por nascer de fonte autorizada pela Igreja. Tratando da admissão dos clérigos ao seminário, o Concílio Tridentino menciona expressamente a eleição geradora da vocação: "Não sejam iniciados com a primeira tonsura senão aqueles de que haja alguma conjetura provável, que elegem este modo de vida, para darem a Deus um fiel culto, e não por se subtraírem com fraude à jurisdição secular".
O Pontifical Romano insinua o mesmo nas palavras dirigidas aos subdiáconos: "Se desejais perseverar no vosso piedoso intento, aproximai-vos em nome do Senhor".
A vocação sacerdotal como consequência de maduras ponderações, junto com a chamada do Bispo, é divina. A vocação canônica só não se pode chamar divina, porque o Bispo pode-se enganar quanto à idoneidade do candidato, impondo assim sua mão a um candidato "sem vocação"; nem a "vocação sacerdotal" só é divina, porque um candidato pode ser idôneo para o sacerdócio, sem que seja chamado pelo Bispo ao serviço eclesiástico.
Deve-se porém notar que na época anterior ao Decreto de Pio X, a vocação divina abrangia não raras vezes a idoneidade. Neste sentido chama São Cirilo de Alexandria a vocação: "Eleição divina e instituição canônica".
Não será escusado mostrar que a vocação sacerdotal deve ser divina. O próprio Jesus Cristo foi sacerdote só por vocação divina: "Cristo não se glorificou a si mesmo para se fazer pontífice, mas sim aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei". Portanto foi chamado por Deus Padre a ser "Sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec". Se o Sacerdote eterno, apesar de possuir todos os dotes da natureza: "Não qual estando encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência", e os dotes de graça: "Pontífice santo, inocente, imaculado", não entrou no santuário sem vocação, muito menos os "filhos da ira".
"O Senhor é que escolhe os que quer ter como seus e dispensadores dos seus mistérios", diz o Concílio Latino Americano.
São Crisóstomo diz: "A dignidade do sacerdócio é tanta e tão admirável, que realmente é necessário um oráculo divino, para que a assumam só dignos".
Quanto ao modo como se revela este "oráculo divino", ensina São Paulo: ""Nenhum arroga para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Aarão". Aarão, chamado ao sacerdócio por um oráculo divino, "por Deus", recebeu a vocação sacerdotal de Deus não diretamente, mas indiretamente, por intermédio de Moisés encarregado pelo Senhor desta santa missão.
Logo, a vocação é verdadeiramente divina, embora Deus chame por intermédio das criaturas, indiretamente. Pelo que ensina o Catecismo Tridentino: "São dizem chamados por Deus os que são chamados pelos legítimos ministros da Igreja". Isso é a expressão fiel da doutrina de São Paulo.
Supostos estes preliminares, a vocação sacerdotal baseada em reflexões sérias e aprovada pela admissão da parte do Bispo, apresenta-se-nos com a legítima auréola de uma vocação divina.
Divina, porque sobrenatural, é a resolução de ser sacerdote na qualidade de ato da virtude cardial da prudência cristã.
Divina é a idoneidade, porque só Deus dá os talentos indispensáveis para o estudo, a saúde corporal, as virtudes, etc.
Divina é a eleição para o sacerdócio da parte do Bispo: ""Se dizem chamados por Deus os que são chamados pelos legítimos ministros da Igreja". "Quem a vós ouve, a mim ouve".
"O Prelado na Igreja faz as vezes de Deus... na pessoa de Deus determina o que é agradável a Deus", diz Santo Tomás.
Passamos a tratar da "recta intentio"", enquanto constitui uma qualidade da vocação sacerdotal.
Em breves palavras resume a parte negativa desta qualidade o Papa Sixto V: "Muitos, às vezes também inábeis e indignos, não chamados por santa vocação de Deus, mas antes... sob o pretexto de devoção e piedade, desejando inconsideradamente alguma coisa sagrada ou propondo-se alguma comodidade ou lucro temporal, contrariamente às premissas das ordens, ou por mímia simplicidade e ignorância, malícia ou fraude".
Uma síntese dos fins elevados e da dignidade sacerdotal, constitutivos da parte positiva da "recta intentio", que devem antepor-se ao intuito do candidato, encontram-se nas palavras seguintes citadas por Santo Agostinho: "Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, lâmpada ardente, cidade situada sobre um monte, colunas do templo, árvore em crença no meio do paraíso, patronos e reitores da terra, cidadãos dos céus e do paraíso, filhos dos profetas, sucessores dos Apóstolos, oráculos do Espírito Santo, pais das almas, pastores da Igreja, esponjas dos pecados do povo, inimigos da doutrina perversa"".
Diz o Decreto de Pio X que o ordinando, "para poder ser chamado pelo Bispo, deve ter a reta intenção juntamente com a idoneidade apoiada em qualidades de graça e de natureza"". Estas qualidades são por assim dizer, a raiz natural, a matéria prima indispensável à formação de um sacerdote segundo o coração de Deus.
Quanto à vontade, o candidato deve ser dotado de um caráter franco, brioso, corajoso, mas ao mesmo tempo dócil e humilde, excluindo-se intrigantes, hipócritas, mentirosos por hábito, ladrões, obstinados, atrevidos, desleixados e comodistas, imprudentes, inúteis.
Neste fundamentos naturais a graça pode construir o edifício das virtudes, que formam o dote do "dispensador dos mistérios de Deus". "É necessário que o Bispo (o mesmo vale do sacerdote simples) seja sem crime, como dispenseiro que é de Deus; que não seja soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cubiçoso de sórdidas ganâncias", "os diáconos do mesmo modo sejam castos, não dobros nas palavras, não dados ao vinho, não aspirem a lucros torpes".
Quanto à inteligência o pretendente deve ser favorecido de suficiente talento para a formação científica e isento de leviandade incapaz de refletir tranquilamente e de prestar atenção.
A mesma doutrina acima exposta encontramos na Encíclica Ad Catholici Sacerdotii de Pio XI. Diz Sua Santidade:
"Não será difícil ao olhar vigilante e esperto de quem preside ao Seminário, de quem acompanha e estuda amorosamente um por um os moços, as convicções e suas inclinações, não será difícil, dizemos, acertar se alguém tem ou não uma verdadeira vocação sacerdotal. Esta, como bem sabeis, Veneráveis Irmãos, mais do que num sentimento do coração e num atrativo sensível, que às vezes pode faltar ou desaparecer, se revela na reta intenção de quem aspira ao sacerdócio, unida ao complexo de qualidades físicas, intelectuais e morais que o tornam idôneo para este estado.
Quem aspira ao sacerdócio unicamente pelo nobre motivo de consagrar-se ao serviço de Deus e à salvação das almas, e ao mesmo tempo tem ou ao menos seriamente procura adquirir uma sólida piedade, uma pureza de vida a toda a prova, um preparo suficiente no sentido por Nós acima exposto, mostra ser chamado por Deus ao elevado estado sacerdotal.
Quem, ao invés, impelido talvez por pais mal-avisados, quisesse abraçar este estado, tendo em vista vantagens temporais e terrenas esperadas no sacerdócio, como acontecia mais frequentemente no passado; quem é habitualmente refratário à sujeição e à disciplina, pouco inclinado à piedade, pouco amante do trabalho e pouco zeloso pelas almas; quem, principalmente, é inclinado à sensualidade e com nenhuma experiência não mostrou havê-la vencido; quem não tem aptidão para o estudo de maneira que se prevê que não será capaz de seguir satisfatoriamente os cursos prescritos, todos estes não são idôneos para o sacerdócio e o deixá-los avançar até quase os umbrais do santuário sempre mais difícil lhes torna o retrocesso e talvez os faça transpor por respeito humano, sem vocação e sem espírito sacerdotal."
E mais adiante diz Sua Santidade: "Mas a responsabilidade principal fica sempre a do Bispo, que, segundo a gravíssima lei da Igreja, "não deve conferir as ordens sacras a ninguém, se não esteja moralmente certo, por argumentos positivos, da sua idoneidade canônica; de outra forma, não só comete um gravíssimo pecado, mas se expõe também ao perigo de participar dos pecados de outros".
Terminamos este capítulo com a exortação dirigida aos párocos pela Pastoral Coletiva de 1915, n.º 325:
"Acolham os Revdos. Párocos com paternal caridade os meninos que manifestam aptidão e desejo de seguir a carreira eclesiástica, principalmente os pobres de boa família e boa índole. Esforçando-se para conhecer e assegurar sua vocação, com incansável vigilância os afastem das más companhias e seduções do século; com habilidade desenvolvam neles o gosto das coisas santas, ocupando-os no serviço do altar, tanto nas festividades da paróquia, como fora delas; generosamente lhes facilitem os estudos, e sobretudo os incitem à frequência dos sacramentos da Penitência e Eucaristia."
CAPÍTULO VI
A escolha dos candidatos ao seminário
É opinião comum que a vocação sacerdotal, por ser uma graça outorgada por Deus, deve concordar nos pontos essenciais com outras vocações sobrenaturais, por exemplo a de um herege para a verdadeira Igreja, de um pecador para a conversão, de um católico para a ordem religiosa, sendo diferente tão somente o fim próximo, terminus ad quem.
Como é que a Providência divina põe em prática o desígnio de chamar um herege à verdade?
Por via de regra prende as suas graças a meios externos, por exemplo à leitura de um bom livro, ao bom exemplo de católicos, aos conselhos de um amigo, ao ato de ouvir a doutrina católica no catecismo ou em conferências, de assistir à missa, a uma festa, uma procissão.
Esta graça é uma luz, iluminando a alma de sorte que principia a duvidar da legitimidade da sua seita, compreendendo aos poucos as suas contradições, a beleza dos dogmas católicos e da sua perfeita harmonia com as exigências da razão e da palavra divina depositada na Sagrada Escritura.
Mas esta graça não é só luz, é também força, influindo sobre a vontade, determinando-a a prosseguir nas suas pesquisas, a consultar um sacerdote católico e a procurar meios para achar a paz do coração.
Deus atrai a alma. "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair", assim como, seguindo a exemplificação de Santo Agostinho, podem ser atraídos os meninos, mostrando e dando-se-lhes nozes. Se tal pessoa não põe impedimento por faltas graves, pouco a pouco chegará a resolver: Serei católico.
De modo semelhante, Deus consegue as vocações sacerdotais, isto é a resolução: Serei sacerdote.
Os meninos assistem à missa rodeada de cerimônias tão majestosas, sabendo que Deus, Jesus Cristo, desce do céu sobre o altar, iluminado às vezes por uma profusão de luzes, presenciando o respeito profundo do povo e o zelo com que aflui de longe, a veneração tributada ao pároco considerado pai dos pobres e aflitos, consolador dos doentes, conselheiro dos rudes, amigo da juventude, tomando parte, com o coração cheio de sentimentos de fé imperturbada, de devoção sensível nas procissões, nas solenidades promovidas por ocasião da vinda do Bispo, ouvindo o elogio da religião na igreja e talvez em casa, observando o ódio dos maus e a sua sanha em perseguir os sacerdotes mártires.
A resultante destas várias influências é uma estima alta do sacerdote e do sacerdócio, tão venerado dos bons, tão malquisto dos inimigos. Quase sem o perceber, nasce-lhe o desejo de ser também tal herói de caridade, primeiro vago e tímido, pouco a pouco mais claro e não precisa mais do que o convite do cura, do Bispo, a palavra da mãe, de um amigo, o exemplo de um seminarista da paróquia, para ele formar a resolução: Quero ser padre, como uma nuvem carregada de vapores de água o menor desequilíbrio de temperatura dá-lhes ensejo de se condensar, produzindo a chuva, fruto da nuvem.
Sendo indubitável a possibilidade de despertar e cultivar as vocações sacerdotais e perdendo-se muitas, abandonadas ao Deus dará, surge a questão do legítimo auxiliar da vocação sacerdotal.
O primeiro sem dúvida é o Bispo. Bento XIV diz: "Os bons sacerdotes e esforçados operários (na vinha do Senhor) não nascem, mas se formam; para que se formem, depende principalmente do zelo e do empenho dos Bispos."
O Catecismo de Pio X pergunta: "Pode qualquer um aproximar-se das ordens à sua vontade? Resposta: Ninguém pode aproximar-se das ordens à sua vontade; mas deve ser chamado por Deus por intermédio do próprio Bispo."
Em segundo lugar foram encarregados da formação das vocações sacerdotais os diretores e professores dos seminários. Por grande que seja a sua responsabilidade, têm de limitar-se a guardar conscienciosamente os candidatos recebidos pelo Bispo e desenvolver-lhes a vocação.
O terceiro lugar compete aos curas de almas. Diz o Concílio Latino Americano: "Esforcem-se os párocos e confessores para que os meninos e adolescentes que lhes pareçam ser chamados por Deus para o ministério sagrado, sejam afastados dos perigos do século, os incitem à piedade e aos estudos, e fomentem neles o germe da vocação divina."
Antigamente eram os párocos encarregados de escolher jovens idôneos, instruí-los e apresentá-los ao Bispo para serem sagrados.
A parte ativa que teve S. Carlos Borromeu nos decretos do Concílio Tridentino sobre a formação dos clérigos e especialmente sobre a fundação dos seminários; o zelo infatigável deste piedoso Arcebispo na execução das prescrições do Santo Concílio, nos convidam a investigar de que maneira ele provia o recrutamento do clero na sua arquidiocese de Milão.
Admirável foi o zelo de S. Carlos neste particular. Numerosas e detalhadas prescrições sobre a formação do clero encontramos nos seus decretos sinodais. Todo o processo de recrutamento de alunos para o santuário se reduz unicamente ao afã de buscar meninos bem dotados e formá-los com o maior cuidado.
Distingue ele os meninos em três categorias: 1.ª aqueles que por sua espontânea vontade querem ser adscritos à milícia clerical; 2.ª aqueles que desde sua tenra idade são destinados para o sacerdócio pelos seus pais; 3.ª aqueles que são recrutados pelo zelo dos párocos e sacerdotes em geral.
A segunda categoria consagra uma prática em uso já na Idade Média e defendida por Santo Tomás de Aquino. Os pais, pois, têm o direito de destinar os seus filhos para o sacerdócio.
Ouçamos a palavra do grande e santo Bispo de Milão: "Logo que o Bispo ou o pároco conhece alguém que espontaneamente deseja ser adscrito à milícia clerical, ou que desde a infância a ela foi destinado pelos pais, cerque-o com todo o cuidado, para que desde logo seja amestrado com toda a diligência nas práticas da disciplina eclesiástica e da vida religiosa; com mais frequência vá à igreja, em especial às funções e mistérios a cargo dos clérigos; faça com que o maior número possível seja preparado para o ministério da Igreja, que desde a mais tenra idade cuidadosamente instruídos na piedade e na inocência da vida juntamente com o estudo das ciências, possam depois santa e utilmente servir à Igreja. Cada pároco tenha a preocupação de conquistar para o sacerdócio o maior número possível de meninos; procure-os de preferência entre a classe pobre, escolhendo os que são de boa índole e dos quais se possa esperar que um dia sejam úteis ministros da Igreja."
Que importância liga o santo Bispo à atividade dos párocos!
Deve ser um axioma santo: Cada sacerdote, formador e educador de sacerdotes! Assim é justo. Quem cuidará dos sucessores dos sacerdotes senão os sacerdotes?
Um Bispo zeloso exclama: "Desejaria que na minha diocese não houvesse um sacerdote sequer que antes de comparecer perante o tribunal de Deus, não pudesse dizer: "Non omnia mihi, não morrerei totalmente", pois deixo após de mim um outro "eu", herdeiro do meu pensamento, continuador da minha missão sacerdotal."
Outro Bispo afirma o seguinte: "O sacerdote que prepara meninos para os seminários menores, é dez vezes mais sacerdote."
O Bispo Dupanloup escreve: "Dizem, e com razão, que é muito formar um homem, e que a vida inteira de uma mãe cristã está nisso bem empregada: mas eu digo que é incomparavelmente mais, formar um sacerdote e que um ministro de Jesus Cristo não teria perdido a sua vida, se tivesse feito durante a sua existência só isto."
"Muitos meninos que teriam sido sacerdotes e bons sacerdotes, não o foram, por não se achar um pároco, um coadjutor atento e zeloso, para revelar-lhes a eles mesmos e aos pais a vocação nascente e cultivá-la."
Estas palavras autorizadas não precisam de explicações.
Cada sacerdote, formador e educador de sacerdotes!
Não será difícil demais.
O pároco procura na aula, no catecismo, onde os meninos não pensam em dissimular o seu caráter e sentimentos, os candidatos para o altar, escolhendo os mais aptos quanto a três pontos: inteligência, piedade e educação, "dotes gratiae et naturae".
Um menino inteligente, de caráter dócil e franco, considerado dos companheiros, piedoso, de família honesta, sempre justifica a esperança de que será um digno clérigo. Preciso é dirigir a alma em direção ao sacerdócio, não se importando entretanto com impulsos da graça. "Vocatio sacerdotalis nequaquam consistit in interna aspiratione."
Pois, o pároco é exatamente o instrumento de que Deus se serve para dar o primeiro impulso da graça, porque o menino "a legitimis Ecclesiae ministris vocatur".
Com cuidado especial deve-se examinar a família, por depender dela em grande parte a vocação do menino. Se a mãe é piedosa, recolhida, há esperança de obter-se um seminarista. Se porém o ambiente familiar não dá garantia suficiente, em geral é preferível desistir de outros esforços, ainda que o menino mostre inclinação para o sacerdócio; pois, mais dia, menos dia, a resistência da família irá aniquilar-lhe a carreira...
Antes de tudo não se deve esperar que o menino tome a iniciativa; pois seria exigir uma vocação extraordinária. Mesmo quem se achasse animado de tal desejo, muitas vezes não teria a coragem de manifestá-lo ao sacerdote.
A pergunta: "Não querias ser padre?" também supõe a vocação preexistente e deve-se evitar.
Falará primeiro em geral por ocasião das orações pelos ordinandos, da explicação do sacramento da ordem na dignidade sacerdotal, depois de algum tempo em particular com o escolhido sobre a beleza do sacerdócio ou outro assunto apto sugerido pelo zelo e prudência.
Cumpre paralisar o mau influxo de companheiros levianos e chamar em auxílio a mãe, se esta é piedosa e prudente.
Mais comum do que o método de persuasão que acabamos de propor, é o método da autoridade aplicando-se o sistema do divino Redentor: "Vinde e vede... vem, segue-me".
Estando o pároco seguro, talvez previamente, do consentimento dos pais e da docilidade do menino, pode chamá-lo à parte, exortando-o a assinalar-se na aula, no catecismo, na frequência dos sacramentos, por ser ele destinado a entrar no seminário. Em geral o menino não resistirá.
A experiência feita no Brasil e na Europa ensina evidentemente, que tais vocações são boas, duradouras, legítimas e divinas.
E devem-no ser. Pois nelas se verifica: "Nenhum arroga para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Arão", sendo o candidato chamado "como Arão", isto é, indiretamente pelo Superior hierárquico delegado.
Verifica-se "Se dizem chamados por Deus os que são chamados pelos legítimos ministros da Igreja", sendo o pároco legitimamente encarregado da cura das almas em nome do Bispo.
Verifica-se o Decreto "nada mais se exige do que a reta intenção juntamente com a idoneidade".
Verifica-se a doutrina de S. Cirilo: "Ninguém por própria escolha assume o ofício sacerdotal, mas espere que seja chamado".
Becano ensina que a vocação sacerdotal abrange em primeiro lugar "eleição ou designação da pessoa", mencionando o clero, "ao qual toca eleger pessoas idôneas para o ministério eclesiástico".
Este método é muito louvável. Santo Tomás pergunta: "Deve alguém induzir a outros para que entrem no estado religioso?" e responde: "Os que induzem a outros a abraçarem o estado religioso, não só não pecam, mas merecem um grande prêmio".
O mesmo vale do sacerdócio. Deve-se porém notar que os Religiosos encarregados da direção de um Seminário diocesano, não podem usar as palavras de Santo Tomás para uma indevida propaganda no referido Seminário, a favor de sua Ordem ou Congregação.
Em último lugar quanto à autoridade, mas quanto à importância em primeiro lugar, devem cuidar das vocações sacerdotais os pais. São eles que devem entregar a Deus os seus filhos.
O Cardeal Bourret disse aos paroquianos de uma freguesia estéril em sacerdotes: "Quereis que eu vos mande vigários; mas onde achá-los-ei, se não me derdes vossos filhos para serem sacerdotes?"
Os deveres dos pais a respeito das vocações para o altar são primeiro que tudo negativos, de não oporem obstáculos. É falsíssima a opinião que é preciso fazer ver ao menino todas as dificuldades futuras possíveis. Tal procedimento pode-se taxar de supérfluo e imprudente. Para examinar e fortalecer as vocações sacerdotais, a Igreja possui órgãos autorizados, o Bispo e seus delegados, sendo impróprio exigir desde o princípio uma vocação tão acentuada, que possa vencer contínuas e sérias objeções.
Os deveres positivos são oração e boa educação.
A vocação sacerdotal é uma graça que Deus concede a quem quer. "Chamou para si aos que ele mesmo quis", "Os que dentre eles forem salvos, eu os enviarei às gentes de além mar... e eu escolherei dentre eles para sacerdotes e levitas, diz o Senhor."
Esta profecia se refere aos sacerdotes do Novo Testamento. Ora, as graças devem-se pedir. "Pedi e recebereis".
A vocação sacerdotal pode ser fruto da educação. S. Gaudêncio diz: "Os pais sem dúvida não podem ordenar aos filhos a castidade perfeita, sabendo-se que deve ser voluntária. Mas podem dirigir-lhes a vontade para o que é melhor, devem exortá-los, animá-los neste sentimento, devem fazer o possível para oferecer a Deus na pessoa destes entes, nascidos do seu sangue, ministros do altar".
Especialmente devem educá-los ao pudor. Como é possível ser milagre que uma mãe mereça a vocação sacerdotal para um dos filhos, se os deixa brincar despojados até do último fio de linho?
Onde não for observado o decreto do Concílio Latino Americano que proíbe a familiaridade com pessoas do outro sexo, por expor a sérios perigos a virtude dos meninos, e que reprova o intolerável abuso de ir às praias onde não se respeita a lei da modéstia ou onde há promiscuidade de sexos: lá não pode germinar a vocação sacerdotal.
O Decreto de 1912 facilita portanto a ação dos sacerdotes em favor das vocações sacerdotais:
1.º Não exigindo uma vocação interna tão dificilmente cognoscível que alguns sacerdotes, na ânsia de evitar a admissão às ordens de um candidato sem verdadeira vocação, não ousam assumir a responsabilidade por nenhum seminarista; 2.º Estabelecendo unicamente a necessidade de idoneidade quanto às qualidades da natureza e da graça, não difíceis de averiguar e cuja verificação está a cargo do Bispo e seus delegados.
O exame do menino quanto à reta intenção se reduz essencialmente a três perguntas: a) Conheces os deveres e a dignidade do sacerdote católico, ao menos confusamente? b) Queres ser tal sacerdote? c) A tua vontade é séria e firme?
Nem se deve exagerar esta firmeza da vontade. O Concílio Tridentino exige jovens "cuja índole e desejo deem esperanças de que se empregarão perpetuamente nos ministérios eclesiásticos", e S. Carlos Borromeu que deem esperanças de que pelas ordens sacras serão úteis ministros da Igreja", e Pio X menciona "esperança fumante".
O Decreto porém não facilita nada quanto às qualidades do coração. Não diz que no candidato não se exige uma inclinação mui pronunciada ao sacerdócio ou íntima estima da dignidade sacerdotal, porquanto estas virtudes são partes essenciais da "reta intenção", mas nega que elas necessariamente devam nascer de uma fonte extraordinária, sendo ordinariamente resultados da fé sobrenatural e da razão por ela ilustrada.
CAPÍTULO VII
A Ordem Sacerdotal
A Ordem é um sacramento pelo qual é comunicado aos que o recebem, o poder sacerdotal, e mediante ele, uma graça especial para desempenhar o ofício do sacerdócio.
Pela Ordem sacerdotal recebe-se aquele poder transmitido pelo Salvador aos Apóstolos, em virtude do qual e pelas palavras de Cristo, o sacerdote pode converter o pão e o vinho no Corpo e Sangue do Senhor, oferecendo o Santo Sacrifício, assim como o poder de perdoar os pecados, em vez de Cristo, aos pecadores arrependidos.
Portanto, é a Ordem o sacramento instituído por Jesus Cristo para comunicar o poder sacerdotal e a graça de o exercer de um modo agradável a Deus; é o meio ordenado por Jesus Cristo para propagar na Igreja o sacerdócio visível da Nova Aliança.
Por isso, diz o Concílio de Trento: "Se alguém sustentar que a consagração do sacerdote ou a santa ordenação não é verdadeira e propriamente um sacramento instituído por Jesus Cristo, ou que é somente uma invenção humana, excogitada por homens ignorantes das coisas da Igreja, ou que é uma simples cerimônia para escolher os ministros da divina palavra e dos sacramentos, seja anátema."
A prova de que a consagração do sacerdote na Igreja Católica não é, como sustentam os hereges, pura cerimônia ou invenção humana, mas um sacramento instituído pelo próprio Jesus Cristo, deduz-se em parte do fato já provado em todos os séculos, que Jesus Cristo Senhor Nosso estabeleceu um sacerdócio visível para todos os tempos vindouros, e que deu aos sacerdotes o poder de oferecer o Santo Sacrifício e perdoar os pecados.
Pois, se o sacerdócio é visível, é claro que tem de comunicar-se de um modo visível ao que é consagrado sacerdote aquele poder, de si invisível, de oferecer o Santo Sacrifício e perdoar os pecados. Este modo ou sinal visível requer-se por ser a Ordem sacerdotal um sacramento, e também para que quem a recebe, esteja certo de tê-la efetivamente recebido, e o povo o reconheça como sacerdote e o distinga dos seculares.
É, pois, impossível que algum poder humano possa unir a uma cerimônia qualquer, ou a um sinal exterior, o poder sacerdotal, pois este é, sem dúvida, maior que o poder de ressuscitar os mortos; é um poder que só Deus pode comunicar.
"Por isso, diz S. João Crisóstomo, o sacerdócio exerce-se em verdade sobre a terra; não obstante, segundo a sua importância e excelência, deve contar-se entre as dignidades celestiais; pois, nem um homem, nem um anjo, ou arcanjo ou potestade criada instituiu este ofício. O Espírito Santo é quem tornou capazes de tanta grandeza criaturas, que ainda vivem em carne mortal."
Ora bem: visto que por um lado é certo que só Deus pode unir a um sinal exterior a comunicação do poder sacerdotal, e, por outro lado, que semelhante sinal exterior é indispensável e necessário para propagar o sacerdócio, prescindindo até de outras provas, devemos concluir com toda a certeza que o Homem-Deus instituiu na verdade tal sinal visível, e que deve existir na Igreja e estar em uso quando se transmite o poder sacerdotal.
Ora, não há nela outro sinal visível a que se possa atribuir esta comunicação do poder divino e da graça, senão a empregada pelos Apóstolos, como diremos depois, isto é, a consagração ou santa ordenação, usada tanto na Igreja do Oriente como na do Ocidente desde o princípio, ordenação pela qual os que a recebiam eram separados e distintos dos leigos e alistados no sacerdócio.
Com efeito, os Santos Padres S. Leão e S. Gregório Magno, chamam a ordenação simplesmente sacramento; outros, como Santo Ambrósio e Gregório Niceno, atribuem-lhe um efeito de graça invisível que só compete a um sacramento; outros, como S. Jerônimo e Santo Agostinho, dizem claramente que é um sacramento como o Batismo.
O poder sacerdotal consiste 1.º no poder de converter o pão e o vinho no Corpo e Sangue do Senhor; 2.º no poder de perdoar os pecados.
O poder de converter o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo ou de celebrar o augusto sacrifício da Nova Aliança, conferiu-o o próprio Jesus Cristo aos seus Apóstolos na Última Ceia, dizendo-lhes: "Fazei isto em minha memória"; e o poder de perdoar foi-lhes comunicado depois da Ressurreição, quando bafejou sobre eles e lhes disse: "Recebei o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados".
Em virtude destes poderes, os Apóstolos foram, no sentido amplo e próprio da palavra, sacerdotes, e o mesmo que eles, o são também todos os que recebem o sacramento da Ordem, pois nele se lhes comunica aquele duplo poder.
O poder de consagrar não é diferente do de oferecer o Santo Sacrifício, pois, o essencial do Santo Sacrifício da Missa acha-se na consagração; e o poder comunicado ao sacerdote, de perdoar os pecados, estende-se não só ao perdão dos pecados pelo santo sacramento da Penitência, mas também ao que se verifica na Extrema-Unção, que é como que complemento e extensão do primeiro.
Neste duplo poder põe o Concílio de Trento a essência do sacerdócio do Novo Testamento, quando no lugar citado diz que no "Novo Testamento existe um sacerdócio exterior e visível com o poder de consagrar e oferecer o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor, e de perdoar e reter os pecados".
É verdade que, além destes dois poderes, há outras coisas espirituais que respeitam ao ofício do sacerdote. Assim o sacerdote batiza, liberta, administra a Sagrada Comunhão, anuncia a palavra de Deus, preside ao povo cristão, etc., segundo o encargo ou a missão que recebe do Bispo.
Porém, o poder para estas e outras coisas está em parte incluído no de consagrar e perdoar os pecados, e em parte refere-se a coisas que em certos casos poderiam ser feitas pelos não sacerdotes. Assim, no caso de necessidade, um secular pode batizar, e o diácono, em virtude da sua ordem, com a devida permissão, pode pregar e distribuir a Comunhão.
A ordenação sacerdotal se confere mediante a imposição de mãos e a oração do Bispo, e a entrega do cálice com o vinho e o pão.
A Sagrada Escritura fala em diferentes lugares da oração junto com a imposição de mãos, como sinal exterior da ordenação. Os Atos dos Apóstolos referem-nos a ordenação de Saulo e de Barnabé com estas palavras: "Eles, os encarregados da Igreja da Antioquia, oraram, impondo-lhes as mãos"; e S. Paulo, escrevendo ao seu discípulo Timóteo: "Eu te exorto a que ressuscites a graça de Deus, que está em ti, pela imposição das minhas mãos".
Digno de nota é também aquele lugar da primeira epístola a Timóteo: "Não imponhas as mãos a ninguém prontamente"; com o que, é claro, o Apóstolo exorta Timóteo a comunicar a sagrada ordenação só àqueles de quem tenha já prova de serem dignos.
A imposição das mãos usou-se em todos os tempos na ordenação do sacerdote, e ainda hoje se usam várias imposições de mãos. Já desde o princípio das cerimônias da ordenação, o Bispo estende em silêncio as mãos sobre a cabeça de cada um dos ordinandos, e depois dele também os sacerdotes presentes.
Em seguida estende o Bispo e os sacerdotes a mão direita sobre todos, e o Bispo reza em voz alta uma oração implorando a plenitude dos dons celestiais sobre os ordinandos, para que eles possam cumprir santa e fielmente os deveres da dignidade sacerdotal.
Ao fim da Missa, enquanto os sacerdotes rezam juntamente com o Bispo consagrante, este põe de novo as duas mãos sobre a cabeça de cada um e diz: "Recebe o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e a quem os retiveres, ser-lhes-ão retidos".
Além destas imposições de mãos, há também outras cerimônias de suma importância: a unção com o Santo Óleo no polegar e indicador de ambas as mãos, que devem tocar o sacratíssimo Corpo do Senhor, como também na palma das mãos, enquanto o Bispo diz: "Dignai-vos, Senhor, consagrar e santificar estas mãos por esta unção e nossa bênção. Amém." Depois faz o Bispo o sinal da cruz sobre as mãos do ordinando, dizendo: "A fim de que tudo o que estas mãos bendigam, seja bendito, e o que elas consagram, seja consagrado e santificado em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Não menos significativa que a imposição de mãos é a tradição ou entrega dos vasos sagrados. Ao fazê-la, o Bispo obriga cada um dos ordinandos a tocar, no cálice com vinho e água e na patena com a hóstia, dizendo: "Recebe o poder de oferecer o Sacrifício a Deus, e de celebrar a Missa, tanto pelos vivos como pelos defuntos, em nome do Senhor. Amém".
A Igreja não decidiu qual das duas imposições de mãos, com as suas correspondentes orações, sejam a matéria e forma essencial deste sacramento, nem decidiu se, e até que ponto, a unção das mãos e a entrega dos vasos sagrados, com as orações correspondentes, pertençam propriamente à essência do sacramento. A Igreja contentou-se com prescrever uma e outra com a maior severidade.
As cerimônias e orações prescritas na ordenação do sacerdote, não só significam a comunicação do poder sacerdotal, mas própria a da graça especial para desempenhar os graves deveres inerentes a este estado e para viver uma vida piedosa e santa, como requer a sua dignidade.
Desta graça fala S. Paulo nos lugares citados das suas Epístolas a Timóteo, numa das quais lhe diz que não seja negligente em usar do dom da graça, e noutra que ressuscite o dom da graça que tinha recebido em virtude da santa ordenação.
Demais, a razão basta para nos convencer da comunicação desta graça, pois sempre se deve esperar da bondade e liberalidade divina que dará a graça necessária àqueles a quem impõe um cargo especial ou comunica um particular poder, para usar justamente deste e desempenhar aquele convenientemente. E isto deve-se afirmar tanto mais quanto, segundo a expressão dos Santos Padres, ele é tão santo e elevado, que os próprios anjos o receberiam com temor e receio.
CAPÍTULO VIII
O capital e a propriedade
Todas as sociedades religiosas ou religiões tiveram seus sacerdotes ou pessoas que trataram das relações que os homens têm com o ente supremo, Deus. Verificamos pela história que a situação do sacerdote, no meio de qualquer povo, é privilegiada. Por isso, nos povos primitivos como nas nações mais civilizadas ou cultas o sacerdote goza de respeito especial e consideração. Os antigos gregos e romanos tributavam-lhe reverência especial e consideração fora do exercício do culto.
Causa, assim, grande estranheza que nos povos cristãos, cuja cultura religiosa é mais elevada do que a dos pagãos, não se registre sempre o mesmo acatamento aos sacerdotes de Deus.
Jesus Cristo foi injuriado e perseguido por seus inimigos e profetizou que a mesma sorte teriam os seus discípulos, os sacerdotes: "Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a vós me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu: mas, porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. Lembrai-vos daquela palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós".
De fato, durante toda a existência da Igreja, os sacerdotes têm sido alvo de injúrias, calúnias e perseguições. Quando os ímpios e hereges querem ensaiar uma perseguição à Igreja, escolhem primeiro o sacerdote para objeto de suas críticas e censuras para, depois de atacados os seus representantes, com mais facilidade poder invectivar a doutrina e as leis da santa Igreja.
Nenhum representante da Igreja, seja Bispo ou o Sumo Pontífice, está livre de ser atacado. Os inimigos da religião católica, sempre de novo, apresentam razões que já mil vezes foram refutadas. Mas, à semelhança de Voltaire, nutrem a esperança de que possam causar algum dano à Igreja e infligir-lhe alguma mácula.
Assim é que quando alguém quer proferir alguma calúnia contra a Igreja, começa em primeiro lugar a fazer a apologia dos seus exercícios religiosos. Salienta o que tem feito pelos padres e pelo culto, de maneira a que o fariseu no templo de Jerusalém poderia ter-lhe inveja. Então começa a exagerar, atribuindo uma suposta falta de um sacerdote a todo o clero. No seu afã de maldizer e caluniar, chega a perder todo o pudor e vergonha. Dificilmente deixará convencer do contrário. Julga perfeito e santo e com direito de prejudicar a boa fama e a boa reputação de um sacerdote que nem sempre tem o poder de defender-se. E quando se publica alguma calúnia pela imprensa, não há quase possibilidade de retratação, porque o que está escrito, escrito está.
Quando um cidadão tem alguma desavença com algum sacerdote, embora não tenha razão, retira os filhos dos colégios católicos, em sinal de vingança, como se a Igreja perdesse alguma coisa com isto. E quando tem algum insucesso político, longe de atribuí-lo à falta de prestígio político, lança a culpa sobre todo o clero.
Em geral, tudo isso provém da falta de fé.
Não se lembram os inimigos gratuitos do clero que o sacerdote recebeu de Jesus Cristo poderes sobrenaturais, de celebrar a santa missa, de perdoar os pecados pela confissão e de dirigir na Igreja as funções que lhe compete.
Não se lembram da palavra de Jesus Cristo: "Aquele que vos ouve, a mim ouve; aquele que vos despreza, a mim despreza". Ele dirigiu a todas as nações do universo esta advertência: "Livrai-vos de tocar nos meus cristos, isto é, nos meus sacerdotes. Aquele que neles toca, toca na menina dos meus olhos".
Já não admira que no Concílio de Niceia, o senhor do mundo, o grande Constantino, não quisesse ocupar senão o último lugar depois de todos os sacerdotes. Já não admira que S. Francisco de Assis recusasse toda a sua vida, por humildade, a honra do sacerdócio e dissesse: "Se eu encontrasse, juntos, um anjo e um sacerdote, dobraria primeiro o joelho no sacerdote do que no anjo". Já nada admira de tudo isto; o que porém nos causa espanto é ver aí homens, mesmo meninos, que insultam e desprezam os sacerdotes.
O sacerdote é o benfeitor da humanidade por suas orações, instruções e obras de caridade. O mundo é um vasto campo de batalha. Aí andam os homens a braços com as potências do inferno e com as suas próprias paixões. Perderiam sem dúvida a vitória os tristes filhos de Adão, se os sacerdotes não orassem por eles. A terra culpada envia de dia e de noite ao céu milhares e milhares de crimes, que vão pedir vingança ante a justiça de Deus. Como no dia da tempestade, desfaria Deus a cada instante o raio sobre a cabeça dos culpados, se os sacerdotes, por suas orações e sacrifícios, não lho extinguissem nas mãos.
Os homens indigentes e iníquos já não têm o pão necessário à sua existência; e como poderão pecadores indignos solicitá-lo à bondade do Pai que não cessam de ultrajar? Mas, o sacerdote ora por eles, levanta para o céu suas mãos e o orvalho benéfico vem fecundar os campos e a abundância sucede à carestia.
O mundo é um vasto deserto. Mil caminhos se cruzam nos quais, confundindo o viandante, o conduzem para o abismo; mil abismos estão abertos, onde inúmeros monstros aguardam sua presa.
O homem que nasce é um viandante obrigado a transitar pela perigosa terra da vida. Donde vem ele? Não o sabe! Para onde vai? Não o sabe. Que caminho deve seguir? Não o sabe. Logo, perder-se-á sem remédio?
Não; lá está o sacerdote, o guia fiel que o toma pela mão, que lhe mostra o caminho e vai com ele sem o desamparar jamais, até que o ponha em segurança.
Eis o serviço que presta o sacerdote a todo o homem que venha a este mundo. Eis o que ele faz a toda a humanidade, a este grande cego que andava de tal modo desvairado que há dezenove séculos já não sabia caminhar senão de abismo em abismo.
Foi o sacerdote que o livrou dos erros grosseiros, cruéis e ignóbeis de que era vergonhosa a triste vítima. Foi o sacerdote que tirou o homem da barbárie; é o sacerdote quem o impede de cair no mesmo estado; é o sacerdote que a preço do seu sangue e de sua vida civiliza ainda todos os dias as nações selvagens, como antigamente civilizou os nossos antepassados.
Admira pois e espanta que haja ainda homens que insultam e procuram desprestigiar o sacerdote.
Percorrei as cidades e as aldeias e perguntai: Quem foi o fundador e o sustentáculo de quase todas as instituições verdadeiramente úteis à humanidade, à infância que entra na vida, à velhice que dela está prestes a ausentar-se? Nomear-vos-ão algum padre. Chegai-vos à cabeceira do doente, do doente de que toda a gente foge, quem é o anjo consolador que verte no seu coração o bálsamo da consolação e da esperança: é algum padre. Subi ao patíbulo do justiçado. Quem vedes ao lado da vítima? É um padre que com uma das mãos lhe mostra a cruz e com a outra o céu. Discorrei por todas as misérias espirituais e corporais da triste humanidade: não encontrareis uma só que o sacerdote não alivie todos os dias, e isto sem ostentação e esperança ou gratificação humana.
Entretanto, há pessoas que injuriam e desprezam o benfeitor da humanidade.
Nós somos obrigados a amar os nossos inimigos como a nós mesmos. Porém, hoje não se estima nem se ama o padre: muitos o aborrecem. É ele objeto de zombarias sacrílegas e de um rancor ímpio. Mas o padre não se queixa: o discípulo não é superior ao Mestre!
Quando por infelicidade algum sacerdote comete uma falta ou um erro, ele tem seus superiores hierárquicos para corrigi-lo e avisá-lo, e isto não compete aos seus adversários e inimigos.
Sempre fica de pé a palavra de S. João Crisóstomo: O que honra o sacerdote, honra a Deus, honra a Jesus Cristo de quem é lugar-tenente e fiel retrato; mas se tu o desprezas, não desprezas somente a ele, mas a Deus que lhe deu a consagração. Entre os Apóstolos do Senhor houve um Judas e entre os anjos do céu um Lúcifer: não seria um crime que bradaria ao céu, ter todos os Apóstolos por traidores e os anjos fiéis por rebeldes?
CAPÍTULO IX
A Divina Instituição da Igreja
A Igreja foi instituída por Jesus Cristo; os Apóstolos foram somente executores da sua vontade.
Jesus Cristo não quis pregar somente por si a divina verdade, nem também somente pelos seus Apóstolos, apesar de ocuparem fielmente o lugar dele mesmo; mas quis, além disso, fundar sobre a terra um reino espiritual, e unir perpetuamente neste reino, que é a sua Igreja, todos os fiéis que recebessem a sua doutrina.
Esta intenção de Cristo claramente se manifesta na Sagrada Escritura tanto do Antigo como do Novo Testamento. Já os Profetas predisseram repetidas vezes, e de uma maneira solene, que o Messias fundaria um reino que se estenderia "de mar a mar até aos confins do universo", um reino que viria depois das quatro monarquias e absorveria a última dos Romanos.
E Cristo Senhor Nosso falou frequentes vezes do seu reino. Diante de Pilatos confessou claramente que era Rei, e que para esse fim tinha nascido e vindo ao mundo. E de pouco antes tinha dito "o meu reino não é deste mundo", contudo não negou de maneira alguma, diz Santo Agostinho, que o seu reino estivesse neste mundo; com aquelas palavras quis dizer somente que o seu reino era espiritual e sobrenatural, e que este reino não o recebia do mundo nem dos homens, mas do seu Pai celestial.
E por isso também noutro lugar chamou-o reino dos céus, não aludindo com isto ao reino eterno nos céus mas ao reino que ia fundar sobre a terra e que devia ser um vislumbre, e como que o pórtico ou porta do reino celestial e eterno; um reino, finalmente, que sobreviria a todos os reinos do mundo e se elevaria até ao reino dos céus na outra vida.
E que este seja o verdadeiro sentido das palavras do Salvador, demonstra-o também a circunstância de Cristo comparar o seu reino com um campo, no qual ao lado do trigo está a zizânia, e com uma rede, onde entram peixes bons e maus, e com as dez virgens, cinco loucas e cinco prudentes.
Por aqui claramente se vê que neste seu reino sobre a terra haveria bons e maus, o que de modo nenhum se pode entender do reino dos céus na outra vida.
De mais disso, quando o Salvador disse "o reino dos céus", também não deu a entender o reino da graça nos corações dos justos, como claramente se deduz do que acabamos de dizer, segundo as parábolas do Senhor.
Por conseguinte, o reino de Cristo sobre a terra não é senão a Igreja, que Ele prometeu fundar sobre a Pedra.
Assim o entenderam os Apóstolos, e com eles todos os Padres da Igreja. A isto devemos acrescentar que a existência duma Igreja, cujo fundador é Cristo, assim como a sua propagação sobre a terra, é um fato histórico inegável.
Mas se Jesus Cristo — e esta foi a sua intenção e a sua promessa — fundou um reino, que é a Igreja, como o atesta esse fato histórico tão palpável, também mediante a sua divina sabedoria, deu a este reino, sem a menor dúvida, uma constituição ou instituição duradouras, e uma autoridade legítima, pois família nenhuma, e menos um reino, tão vasto como o universo, pode existir sem elas.
Por conseguinte, obra de Cristo é a constituição da Igreja. Os Apóstolos pela sua parte, conservaram e executaram as ordens de Cristo, foram os executores plenipotenciários da sua divina vontade, e como tais se houveram com palavras e obras.
"Os Apóstolos do Senhor, diz Tertuliano, nos servem de garantia de que o que eles introduziram não foi criação do seu arbítrio, mas transmitiram aos povos as ordens recebidas de Cristo".
Cristo, dando aos Apóstolos o seu próprio poder e enviando-os por todas as partes: primeiro, a pregar; segundo, a batizar; e terceiro, a governar os batizados sob a direção suprema de S. Pedro, deu a constituição à sua Igreja.
Enquanto Cristo viveu sobre a terra, Ele mesmo, como ungido de Deus, exerceu os ofícios de Mestre, de Sacerdote e de Pastor ou Rei. Porém, depois que se ausentou do mundo e o privou da sua presença visível, quis servir-se para estes três ofícios de homens por Ele escolhidos que fossem como que instrumentos seus.
Com este fim, antes de voltar ao Pai, comunicou aos Apóstolos o poder e a missão que do mesmo Pai tinha recebido. Em virtude desta missão e destes plenos poderes, os Apóstolos, em nome e por encargo de Cristo, deviam exercer os três ofícios de mestres, sacerdotes e pastores até ao fim dos séculos.
"Foi-me dado todo o poder no céu e na terra," disse aos seus Apóstolos. Por isso, "ide e ensinai todas as nações e batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinai-as a observar tudo o que eu vos mandei, e eis que eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo."
De modo semelhante já lhes dissera antes: "Assim como meu Pai me enviou, assim eu vos envio a vós. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos". E já muito antes lhes tinha dito: "E em verdade vos digo que tudo o que vós ligardes sobre a terra, será ligado no céu, e tudo o que desatardes na terra, será desatado no céu".
Nas palavras "ensinai a todas as nações", e nas que refere S. Marcos: "pregar o Evangelho a toda a criatura", já se encontra suficientemente determinada a transmissão do ofício de mestre; de maneira que desde aquele momento cada um dos Apóstolos podia dizer como Paulo (chamado de uma maneira especial por Cristo): "Somos embaixadores de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós".
As palavras "batizai-as..." e as outras: "àqueles a quem perdoardes", etc., assim como também as que Nosso Senhor disse aos Apóstolos, depois da instituição da Eucaristia: "Fazei isto em minha memória", significam o ofício de sacerdotes, em virtude do qual os Apóstolos, como lugar-tenentes do supremo e eterno Sacerdote, Jesus Cristo, deviam oferecer a Deus o mais puro sacrifício e dispensar aos fiéis os sacramentos por Ele instituídos. Por este motivo disse com razão S. Paulo, como que em nome de todos os Apóstolos: "Assim cada um nos considere como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus".
Finalmente, as palavras "ensinai-as a observar tudo o que vos tenho mandado", demonstram claramente que Jesus Cristo comunicou aos Apóstolos o pleno poder e direito de exigir, de todos os homens, submissão e obediência a todas as ordens e prescrições relativas à vida cristã, enquanto que aquelas outras: "o que vós ligardes sobre a terra", etc., denotam o poder que lhes foi conferido de obrigar os rebeldes à devida obediência por meio de penas espirituais.
Por conseguinte, o que Jesus disse aos setenta e dois discípulos, quando os enviou a pregar o reino de Deus, vale com mais razão a respeito dos Apóstolos, seus lugar-tenentes: "o que vos ouve, ouve-me a mim, e o que vos despreza, despreza-me a mim".
Porém, entre os Apóstolos, Jesus escolheu a um, Simão Pedro, por ser vigário sobre a terra, e quis que juntamente com os três ofícios indicados, tivesse o supremo poder e dignidade eclesiástica e que sob a sua direção e inspeção exercessem os demais Apóstolos os ofícios que lhes confiava de mestres, sacerdotes e pastores.
De mais disso, deve notar-se que uma tal inspeção e direção do Vigário de Cristo para o exercício daqueles cargos, não deviam durar enquanto viviam os Apóstolos, mas deviam prolongar-se depois da sua morte até ao fim dos séculos, como, sem antecipar outras razões, o demonstram as seguintes palavras: "Eis que eu estou convosco até ao fim do mundo".
Por tudo isto se vê muito claramente, que Jesus Cristo Senhor Nosso foi quem, por pleno poder divino-humano, e não os Apóstolos, por seu arbítrio, deu à Igreja, para todos os tempos presentes e futuros, uma perpétua e invariável constituição e instituições, pelas quais se cuidasse do modo melhor e mais eficaz da verdadeira fé, da reta dispensação dos meios de salvação, e da unidade na conservação, cuidado e perfeição da disciplina eclesiástica e da vida cristã.
O ofício de mestre consiste no poder e no dever correspondente de pregar as verdades reveladas por Cristo, de continuar o seu divino ensino em toda a sua extensão e perfeita integridade, e propagá-las cada vez mais, para que deste modo todos os homens conheçam o único verdadeiro Deus e Aquele que Ele enviou, que é Cristo Nosso Senhor, verdade eterna.
A este ofício de mestres pertence também o poder e o dever de preservar os fiéis dos erros contrários a este divino ensino, chamar a atenção sobre eles, refutá-los e condená-los publicamente. Também corresponde a este poder e dever de mestres o pronunciar decisões infalíveis sobre as dúvidas que ocorrerem acerca da fé, aplanar as dificuldades relativas a ela, e terminá-las com uma sentença inapelável.
Foi assim que os Apóstolos entenderam o ofício e encargo de mestres, e assim o exerceram desde o princípio por todo o decurso dos séculos, como o atesta a história eclesiástica.
O ofício de sacerdote abraça na sua perfeição o pleno poder de oferecer o sacrifício incruento da Missa; de perdoar os pecados; de comunicar aos fiéis o Espírito Santo pela imposição das mãos; de consagrar novos sacerdotes para oferecer o Santo Sacrifício, e seus sucessores no tríplice ministério mencionado; de, finalmente, dispensar todos os outros meios de salvação e as bênçãos da Igreja.
Todos estes poderes foram exercidos pelos Apóstolos, assim como pelos seus sucessores no ofício sacerdotal, e jamais o foram pelos leigos ou simples fiéis, visto que estes não são sacerdotes no sentido próprio.
O ofício de pastores tem relação com a direção interior e exterior do rebanho de Cristo pelo caminho da vida eterna. Consiste no pleno poder de reger tanto os fiéis em particular, como todo o rebanho, em nome e por encargo de Jesus Cristo; de conservá-lo unido por mandados e proibições; de afastá-lo dos perigos e caminhos perigosos; e quando não quiser seguir de bom grado a voz dos pastores, excitá-lo para o bem e afugentá-lo do mal por meio de penas, como que servindo-se do cajado ou báculo pastoral.
Demais disso, está nas atribuições do pastor, e para maior bem de todo o rebanho, apartar dele as ovelhas rebeldes ou contagiosas, e também receber as que não pertenceram ao rebanho de Jesus Cristo, se nele querem entrar com sentimentos sinceros e leais, e nele permanecer como ovelhas dóceis e obedientes.
Do mesmo modo toca ao pastor tornar a receber no divino aprisco as ovelhas que tiver expulsado em virtude do seu poder vigilante, as quais voltam já arrependidas e corrigidas pela pena ou castigo que se lhes impôs.
Por aqui se vê que falam de um modo pouco racional os que dizem, que o poder penal eclesiástico é contrário à palavra de Cristo, que disse aos seus Apóstolos: "Os reis dos gentios dominam sobre eles... mas não assim vós". Pois, podemos responder-lhes, que, certamente, a conduta dos pastores neste ofício deve ser modesta e cheia de mansidão e piedade como lho prescreve o Apóstolo, mas não deve ser fraca e desleixada.
Um pastor que, por uma mal entendida indulgência para com uma ovelha, deixa que se contamine todo o rebanho, não é benigno, mas cruel para com ele.
S. Paulo era suave e cheio de piedade e caridade; mas quando se tratou de preservar a Igreja de Corinto do contágio da luxúria, procedeu com severidade inexorável; porém, apenas tinha conseguido o seu fim de salvar, por meio do castigo, a ovelha desgarrada, e de preservar do mal toda a Igreja, trocou imediatamente a sua severidade em amor paternal, e como o tinha castigado em nome de Cristo, assim perdoou logo em nome de Cristo.
Foi assim que o entendeu o Apóstolo, e assim o entenderam e praticaram depois todos os sucessores dos Apóstolos, como muito bem se pode demonstrar pela história da Igreja, e também pelos inumeráveis lugares dos Santos Padres e autores eclesiásticos até aos primeiros séculos.
CAPÍTULO X
O primado da Igreja
Jesus Cristo nomeou S. Pedro seu Vigário sobre a terra, e Cabeça visível da Igreja universal, para nela conservar a unidade e a união.
Necessidade de um Vínculo Comum
Para que houvesse unidade e união na Igreja de Cristo deviam todos os fiéis formar um corpo, e todas as igrejas particulares uma só e grande Igreja, e para isto era absolutamente necessária uma cabeça, um vínculo comum para todos os fiéis do universo, pois, a não ser assim, teriam existido tantas igrejas quantas as nações e os pequenos povos cristãos, e nunca uma Igreja de Cristo, uma Igreja Católica.
Ainda, disse, para que nessa Igreja de Cristo se não dessem disputas intermináveis e divisões, devia haver um juiz supremo, que decidisse, em última instância e sem apelação, as controvérsias, e a quem todos deviam estar obrigados a submeter-se.
Esta única cabeça, este vínculo único, este único juiz supremo, foi S. Pedro, ao qual Jesus Cristo, antes de subir ao céu, declarou e constituiu seu Vigário sobre a terra e a cabeça visível de toda a Igreja.
Por conseguinte, em redor de Pedro deviam reunir-se e agrupar-se como no seu centro de unidade, os Apóstolos e demais membros da Igreja; a ele deviam aderir como ao mesmo Cristo.
E em consequência desta obediência ordenada por Jesus Cristo, nenhum dos Apóstolos devia fundar uma Igreja senão sobre a pedra que era S. Pedro, nem reger nem governar nenhuma Igreja independentemente da direção de S. Pedro; e a mesma fé de cada um dos Apóstolos em particular não podia ser fundamento de uma Igreja particular, se não estava de acordo com a fé de Pedro.
Absolutamente falando, Jesus Cristo é a cabeça da Igreja, mas invisível.
Jesus Cristo é o Mestre Supremo, o Sumo Sacerdote, o Rei Supremo, o Pastor dos Pastores, a cabeça da Igreja posta por Deus e o será eternamente. Porém, desde que Jesus Cristo subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai, é invisível para a Igreja militante, e por isso chama-se cabeça invisível.
Contudo, na pessoa de S. Pedro, constituiu e nomeou o chefe supremo do seu reino sobre a terra, o qual, como cabeça visível, se pode ver e a sua voz ouvir-se.
E, não é de outro modo que costumam proceder os monarcas na terra, se alguma vez devem estar ausentes por largo tempo, pois estabelecem e designam um governador do reino, um vice-rei, que faça as vezes do rei ausente, e a quem hão de respeitar e obedecer os súbditos como ao próprio rei.
Mas, assim também o Vigário de Cristo, a cabeça visível da Igreja, tem o dever de governá-la segundo a vontade e disposições do rei ausente, e dar-lhe depois estrita conta da sua administração; assim também o Vigário de Cristo, a cabeça visível da Igreja, tem o dever de governá-la segundo a vontade e as ordens de Jesus Cristo, que é a cabeça invisível, e dar-lhe um dia conta estrita do seu governo.
E visto que falamos deste, é preciso não esquecer que também os reis deste mundo, e geralmente todos os superiores legítimos, são como lugares-tenentes de Deus, Rei invisível e Senhor de todo o mundo, e que no dia do juízo todos terão que dar estrita conta do seu governo ante o divino tribunal.
Sendo a Igreja um corpo visível, deve ter também uma cabeça visível.
A Igreja é uma associação ou corporação visível, por isso que se não compõe de espíritos invisíveis, mas de homens, que em carne visível peregrinam por este mundo; e assim como o corpo tem a sua cabeça visível, visível deve ser também a cabeça deste grande corpo ou congregação de homens.
A razão disto está na própria natureza das coisas e na ordem da divina Providência, de que Jesus Cristo não quis afastar-se no estabelecimento e instituições da sua Igreja. Em parte nenhuma do mundo pode achar-se uma associação de homens que não tenha a sua cabeça visível; à família preside o pai visível, ao exército o general visível, ao reino o rei igualmente visível.
E ainda que sabemos que Jesus, como Rei supremo e Senhor do mundo, tem a sua mão estendida sobre todos e sobre tudo, dirigindo os destinos humanos, assim mesmo acusaríamos de néscio o que se esforçasse em sustentar que uma nau chegaria, em bom estado e muito seguramente, ao porto sem piloto que a governasse, ou que um reino se conservaria e floresceria melhor sem um rei que o mandasse.
Ora bem: Jesus Cristo, como cabeça invisível, dirige do alto a barquinha da sua Igreja, mas não o faz sem a mão aqui na terra de um piloto escolhido. Conduz os seus à vitória, mas não o faz sem um bem provado chefe supremo. Conserva, estende e governa o seu reino, mas não o realiza senão por meio de S. Pedro e seus sucessores, Vigários visíveis.
Sabemos que Jesus Cristo nomeou a S. Pedro cabeça visível da Igreja, porque: 1.º estabeleceu a sua Igreja sobre Pedro, como sobre Pedra fundamental; 2.º porque a ele em especial entregou as chaves do reino dos céus; 3.º porque só a ele encarregou a direção de todo o rebanho.
Quando Cristo chamou Simão Pedro para o apostolado, já o distinguiu entre todos os outros que tinham esta dita, mudando o seu nome de Simão, dizendo-lhe: "Tu és Simão, filho de Jonas, e tu deves chamar-te Kephas; isto é, Pedro ou pedra."
E disse depois o que este nome significava. Porquanto, achando-se perto de Cesareia de Filipe, Jesus interrogou os seus discípulos, dizendo: "Quem dizem os homens que é o filho do Homem?" E eles disseram: "Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, e outros que é Jeremias ou algum dos profetas". E Jesus disse-lhes: "E vós quem dizeis que sou?" E respondendo, Simão Pedro disse: "Tu és Cristo, filho de Deus vivo". E Jesus disse-lhe: "Bem-aventurado és, Simão Bar-Jona, porque não foi a carne nem o sangue quem t'o revelou, mas meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares sobre a terra será ligado nos céus, e tudo o que desatares na terra será desatado nos céus".
Estas palavras do Salvador contêm as promessas de dois grandes privilégios, pois Cristo primeiramente promete solenemente a Pedro que sobre ele, como sobre pedra inabalável, edificará a sua Igreja, que será invencível. Jesus é a Pedra fundamental invisível da sua Igreja; porém Pedro será a pedra visível que repousa sobre a invisível.
Sobre Pedro, como supremo e infalível Mestre, deve apoiar-se imediatamente a Igreja sobre a terra, e por participação da sua firmeza resiste ao poder do inferno, ao erro e à mentira.
Em segundo lugar Jesus promete a Pedro as chaves do reino dos céus. Dar as chaves a alguém, por exemplo, de uma cidade, significa, segundo a linguagem oriental e também segundo o uso dos povos civilizados, entregar-lhe o supremo poder, o governo da cidade.
Em vista disto, Pedro deve receber o poder supremo na Igreja, o poder de abrir aos dignos e fechar aos indignos as portas da Igreja, e com isto o poder de fechar a estes e abrir àqueles o reino dos céus. As palavras "o que tu ligares sobre a terra", etc., contêm a confirmação e explicação do poder das chaves.
Ora bem; tudo isto que Jesus Cristo prometeu a S. Pedro foi concedido antes da ascensão aos céus. Aparecendo a S. Pedro à beira do mar de Tiberíades, e em presença dos outros Apóstolos, Jesus ressuscitado perguntou a S. Pedro por três vezes: "Amas-me, amas-me mais do que estes?" E tendo Pedro respondido afirmativamente, disse-lhe Jesus: "Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas..."
Quer dizer, apascenta todo o meu rebanho, governa como Pastor supremo a toda a cristandade.
É verdade que também os demais Apóstolos são chamados na Escritura "fundamentos da Igreja", e também eles receberam o poder de atar e desatar; pois, segundo S. Mateus no capítulo XVI, Jesus Cristo concedeu a S. Pedro este poder; porém, depois, no capítulo XVIII, concedeu-o aos demais Apóstolos juntamente com S. Pedro, e por isso mesmo também a eles confiou o cargo de Pastores.
Não obstante isto, S. Pedro é fundamento de outra maneira que os demais Apóstolos. O poder de S. Pedro é maior e mais extenso.
Pedro é só por si a Pedra fundamental da Igreja, independentemente dos outros Apóstolos. Estes são fundamento da Igreja coletivamente em união com Pedro e dependente dele. Pedro, só por si é o fundamento, de tal maneira que toda a Igreja está em pé ou cai com ele. Só e exclusivamente a Pedro, disse Jesus: "Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja".
Somente por Pedro pediu Cristo a firmeza na fé, e, sabemos, as suas orações foram infalivelmente atendidas: "Simão, Simão, eis que Satanás desejou joeirar-te com o trigo, porém eu roguei por ti para que te não falte a tua fé".
Somente a Pedro deu Jesus o encargo de, depois de convertido, "confirmar os seus irmãos na fé". Somente a S. Pedro, e anteriormente aos demais Apóstolos, como notamos, foi conferido o poder de atar e desatar.
Pedro recebeu as chaves do reino dos céus, de maneira que usasse delas independentemente; os Apóstolos com dependência de Pedro, que as tinham recebido de Cristo, e tinha sido por este colocado na posse delas.
"A Pedro, diz S. Cirilo de Alexandria, legou Cristo os seus plenos poderes sobre toda a Igreja, como os tinha recebido do Pai, e a nenhum outro senão a ele". Eis aqui as suas belas palavras: "Petro plenissimum commisit, et nulli alteri, Christus, quod suum est plenum, sed ipsi soli dedit".
E assim como deu o poder das chaves, assim também deu a Pedro o ofício de Pastor, em toda a extensão possível e sem a menor limitação.
Observa muito bem a este propósito um antigo Padre da Igreja (julga-se que é Santo Euchério), no seu sermão sobre S. Pedro e S. Paulo: "Cristo constituiu a S. Pedro não só Pastor, mas Pastor dos Pastores. Pedro apascenta não só os cordeiros (os fiéis); mas também as ovelhas (os Bispos); dirige os súbditos e os Prelados; ele é o Pastor de todos; a Igreja compõe-se de cordeiros e ovelhas".
Do que fica dito, claramente se deduz que Jesus Cristo escolheu a São Pedro para cabeça visível da Igreja e só a ele, como Cabeça, lhe conferiu o Primado, isto é, toda a plenitude dos ofícios de Mestre, Sacerdote e Pastor.
CAPÍTULO XI
Os Bispos
O tríplice ofício de mestre, sacerdote e pastor, que era comum a todos os Apóstolos, devia continuar sempre na Igreja. Pois, segundo a disposição de Jesus Cristo, aquele tríplice ofício devia passar dos Apóstolos para os seus sucessores e nestes permanecer até ao fim dos séculos.
Isto se demonstra pelas palavras que disse o mesmo Cristo, concedendo-lhes aqueles poderes: "Eis que eu estarei convosco até à consumação dos séculos". E é claro que isto não se refere somente aos Apóstolos, que não iriam viver até ao fim do mundo, mas aos seus sucessores.
Jesus Cristo veio ao mundo para reconciliar com Deus os homens de todos os tempos e fazê-los venturosos. Por conseguinte, a sua doutrina de salvação devia ser pregada, não só durante o tempo da vida dos Apóstolos, mas por todo o decurso dos séculos, e do mesmo modo deviam, durante todos os tempos, ser administradores dos sacramentos e demais meios de salvação, e os fiéis excitados à observância dos divinos mandamentos e máximas do Evangelho.
E, por conseguinte, claro que, quando Jesus Cristo transmitiu aos Apóstolos, como a lugar-tenentes, os ofícios de mestre, sacerdotes e pastores, teve indubitavelmente intenção de lhes conferir de maneira que deles passassem para os seus sucessores até ao fim do mundo.
E esta intenção vê-se claramente expressa nas suas palavras: "Ide, e ensinai a todas as nações... batizando-as... e ensinando-as a observar tudo quanto vos mandei; e eis que eu estou convosco até ao fim do mundo".
Pois, apesar da promessa, de estar com eles até ao fim do mundo, se referir geralmente à Igreja, não há dúvida nenhuma de que a mesma se verifica de um modo especial com relação aos que estão encarregados daqueles ministérios indispensáveis à Igreja. E como se lhes dissesse: "Eu estou convosco; pois, ainda que vos privo da minha presença corporal visível, não vos abandono, porque o meu espírito estará sempre convosco. E ainda que o cumprimento dos empregos que eu vos dei vos traga penas e sofrimentos, ainda que vos custe penas, sacrifícios e perseguições, e vos acheis em perigos, não trepideis, porque eu estou convosco, com os meus auxílios e com a minha graça, por meio da minha direção e do meu governo, para defender-vos e salvar-vos. Eu estou todos os dias convosco, isto é, sempre; não em certos tempos e horas, mas em todas as horas e tempos, sem que até ao fim do mundo se dê um momento em que eu não esteja convosco."
E visto que os Apóstolos deviam morrer, esta promessa do Senhor, cheia de consolação, referia-se também a todos os sucessores no ofício de mestres, sacerdotes e pastores.
Por conseguinte, assim como a S. Pedro devia suceder o seu sucessor no cargo supremo de cabeça visível e Vigário de Cristo, assim também aos Apóstolos deviam seguir-se os seus sucessores naqueles três ofícios referidos.
Esta necessidade se faz sentir tanto mais quanto é certo que os sucessores de S. Pedro eram menos capazes do que ele, para exercer por si sós, e sem a ajuda de mestres, sacerdotes e pastores subordinados, os seus ofícios na Igreja, estendida por toda a terra, e para dar remédio aos males que no decurso dos séculos haviam de surgir da fraqueza ou malícia dos homens, adotando reformas, segundo os tempos e as necessidades.
A instituição da Sinagoga durou uns dois mil anos. Como, pois, se poderia sequer pensar que as instituições da Igreja, fundada pelo mesmo Filho de Deus, instituições que são perfeitíssimas e divinas, teriam de mudar a cada passo e ser corrigidas e emendadas como as obras incompletas dos homens? Onde estaria a ciência e a sabedoria do Fundador?
De tudo o que fica dito se infere, portanto, que a instituição da Igreja dada por Cristo deve durar até ao fim dos séculos.
Os Bispos legitimamente consagrados e que estão em comunhão com o Chefe supremo da Igreja, e Sumo Pontífice, isto é, os Bispos da Igreja Católica são os sucessores dos Apóstolos.
É coisa universalmente conhecida, e também expressamente declarado pelo Concílio de Trento que os Bispos são sucessores dos Apóstolos. Os Santos Padres e escritores eclesiásticos, como Irineu, Cipriano, Eusébio, Jerônimo, Gregório e outros supõem isto como uma verdade provada e fora de toda a dúvida. Pelos Atos dos Apóstolos e pelas suas Epístolas, sabemos que os mesmos Apóstolos estabeleceram Bispos para as Igrejas particulares com o encargo e pleno poder de apascentar em seu lugar os rebanhos particulares que lhes eram confiados.
Estes Bispos exerciam também, depois da morte dos Apóstolos, os seus três ofícios de sacerdotes, mestres e pastores, e os mesmos de novo consagravam a outros em seu lugar, transmitindo-lhes, segundo o uso dos Apóstolos e as ordens de Jesus Cristo, o poder que tinham recebido. E se algumas vezes eram chamados sucessores dos Apóstolos sacerdotes que não eram Bispos, isto era somente enquanto participavam do tríplice encargo dos mesmos Bispos.
Para que um Bispo possa ser chamado sucessor dos Apóstolos, deve:
1.º Estar legitimamente consagrado, quer dizer, deve ter recebido a consagração episcopal de outro validamente consagrado, no modo e forma ordenados por Cristo, e que a Santa Igreja usa; pois, só os Bispos podem comunicar a consagração tanto episcopal, como sacerdotal.
2.º Estar unido ou em comunhão com o Pai comum dos fiéis, isto é, com o Sumo Pontífice Romano. Pois, ainda que um Bispo estivesse validamente consagrado, e tivesse por tal consagração o caráter indelével de Bispo, e ainda que ocupasse uma das Sés chamadas apostólicas, como, por exemplo, a de Jerusalém ou de Alexandria, apesar disso, careceria de todo o direito e jurisdição para exercer os seus ofícios, e por conseguinte, não seria legítimo sucessor dos Apóstolos, enquanto estivesse ou permanecesse separado da Santa Sé Romana.
Pois, na verdade, como poderia ter direito à administração eclesiástica, quando, separado da cabeça, nem sequer é membro da Igreja? Não seria um absurdo palpável que administrasse a Igreja, ou nela exercesse um emprego qualquer, quem está fora da Igreja ou a ela não pertence?
E que todo aquele que está separado do Papa está fora da Igreja, e é um ramo cortado da árvore, deduz-se claramente do princípio de S. Ambrósio, por todos admitido: "Onde está Pedro, ali está a Igreja". Pois como o Papa, cabeça visível, não pode estar separado da Igreja, assim também os membros visíveis da Igreja não podem estar separados ou separar-se do Papa, sua cabeça, sem deixarem de ser membros dela.
Por conseguinte, o que não tem nenhum direito de exercer na Igreja os ofícios de pastor, sacerdote e mestre, não pode ser verdadeiro sucessor dos Apóstolos; pois, na ideia de legítimo sucessor estão incluídos, não só a dignidade mas também os direitos do seu predecessor.
Demais disso, aos Apóstolos e aos seus sucessores não foi concedido poder algum senão sob a dependência daquele a quem Jesus Cristo comunicou o supremo poder sobre toda a Igreja. Quer dizer, que os Apóstolos não puderam comunicar aos seus sucessores maior autoridade do que a que tinham recebido de Jesus Cristo.
Ora bem, eles não receberam, como vimos, o ofício de mestres, sacerdotes e pastores independentes do Pastor supremo, de S. Pedro; portanto, eles não puderam transmitir aos seus sucessores aqueles poderes, senão com a mesma dependência de S. Pedro, isto é, do Pontífice Romano.
Daqui se infere que o que exerce por autoridade própria aqueles ofícios, aquele que ensina sem a subordinação ao Papa, o que dispensa os santos sacramentos e apascenta o rebanho que lhe não foi confiado, mostra só por isto que não é sucessor dos Apóstolos, pois exerce temerariamente um direito que os mesmos Apóstolos não tiveram, não exerceram, nem puderam comunicar aos seus sucessores.
Por isso, o verdadeiro sucessor dos Apóstolos reconhece e admite com S. Cipriano a Sé Romana "como um corpo de luz, do qual saem muitos raios; como um tronco, donde nascem muitos ramos; como uma fonte, donde fluem muitos arroios".
Por conseguinte, o que se separa da Sé Romana e permanece em manifesta separação dela, é, segundo a expressão do mesmo Santo Doutor, como um raio de luz que se dissipa por não estar em união com o sol; como um ramo cortado que se seca e não produz fruto, por lhe faltar a seiva do tronco e da raiz; como um arroio que, separado e cortado da fonte, não leva águas; não é, finalmente, sucessor dos Apóstolos, como, com efeito, o não são os bispos cismáticos gregos, russos, anglicanos e outros apóstatas.
A missão e o pleno poder de ensinar, de dispensar os meios de salvação e de dirigir os fiéis, não foi conferido por Jesus, divino Fundador, exclusivamente a S. Pedro, pois disse a todos os Apóstolos: "Ide, ensinai, todas as gentes, batizai e fazei com que observem os meus mandamentos", e a todos prometeu a sua assistência perpétua.
A mesma missão e pleno poder passou aos sucessores legítimos dos Apóstolos, os Bispos. Por este motivo diz o Apóstolo "que os Bispos são constituídos pelo Espírito Santo para governar a Igreja". "Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado".
Os Bispos têm exercido sempre este poder pastoral, e tanto os Papas como os fiéis o têm reconhecido sempre. Possuímos ainda as sete cartas que o Bispo e mártir S. Inácio escreveu a diferentes igrejas, e por elas vemos que em nenhuma coisa insiste tanto como em que "os fiéis estejam submissos aos Bispos que os governam no lugar de Deus", recomendando-lhes perfeita concórdia com eles; que todos obedeçam ao Bispo como Cristo ao Pai celestial; que o sigam com inviolável fidelidade...; que todos o honrem como a Cristo.
Por conseguinte, os Bispos, como legítimos sucessores dos Apóstolos, são também chamados a tomar parte no governo da Igreja; para isto têm missão divina, porém com um poder subordinado ao Pontífice Romano, como Pastor dos pastores.
Ora bem, ainda que o Papa em união com os Bispos, ou, melhor, os Bispos em união com o Papa, e com o último dos Papas, governem a Igreja, não obstante sempre fica intacto, segundo a ordenação divina, o caráter essencial deste reino de Deus na terra, que é o de monarquia, pois é próprio deste regime o mandar um só a todos, a quem todos são obrigados a obedecer.
E isto é o que sucede na Igreja, na qual, assim como Cristo é a cabeça invisível, assim o Papa é a única cabeça visível, ao qual todos devem obediência.
Os Bispos governam a Igreja enquanto cada Bispo administra a parte da Igreja universal ou Bispado designada pelo Papa.
Quando Jesus Cristo deu aos Apóstolos a missão e plenos poderes, não indicou a cada um deles a parte do mundo onde deviam exercer a sua missão e os poderes recebidos, nem lhes designou os limites dentro dos quais deveriam conter-se. Mas antes assinalou a cada um deles o mundo todo como campo dos seus trabalhos apostólicos; pois, a todos e a cada um deles dirigiu as palavras: "Ide e pregai o Evangelho a toda a criatura" etc.; sede mestres, sacerdotes e pastores de todo o mundo.
Porém esta sua missão ilimitada com o seu respectivo poder, depois da morte dos Apóstolos, passou na verdade para o Episcopado, tomado coletivamente, mas não para cada um dos Bispos em particular.
Pelo contrário, a cada Bispo se foi designando um distrito ou província determinada, dentro de cujos limites somente podia e devia exercer e usar dos seus poderes de mestre, sacerdote e pastor. Isto exigia-o a boa ordem; pois, sem isto se teriam dado grandes perturbações e discórdias entre estes e os fiéis, e isto tanto mais, quanto é certo que os Bispos não são pessoalmente infalíveis como o eram os Apóstolos.
Por isso os mesmos Apóstolos tomaram logo a disposição de assinalar a cada Bispo uma diocese, como se lê na Sagrada Escritura, e se praticou no decurso de todos os séculos, como o mostra a história eclesiástica. Unicamente ao Papa é que está reservado o poder supremo em todo o mundo católico, ou sobre todas as igrejas em geral e em particular.
Ao contrário, o poder dos Bispos estende-se somente até onde o Papa quer, isto é, a uma parte da Igreja universal, que costuma chamar-se diocese ou bispado, que o Papa confia à sua direção e cuidado, e tais dioceses ou bispados têm ordinariamente o nome da cidade onde habitualmente reside o Bispo.
Os Bispos também tomam parte no governo da Igreja, quando se reúnem para consultar sobre o bem universal da Igreja e tomar junto com o Papa as disposições e determinações convenientes.
Sucede às vezes nos tempos mais difíceis e cheios de perigos que, convocados pelo Papa e sob a sua direção, os Bispos se reúnem de todas as partes do mundo em assembleia numerosa, que toma o nome de Concílio.
E quando assim se reúnem em Concílio, é para deliberar sobre negócios que dizem respeito ao bem da Igreja universal, para aplanar dificuldades, para condenar com maior solenidade e com maior energia os erros dominantes, para pôr termo a cismas, para tirar alguns abusos ou preveni-los; e para conservar ou promover a disciplina eclesiástica e a ordem conveniente, de acordo com o Sumo Pontífice, por meio de disposições e decretos que obriguem a todos os fiéis.
Estas assembleias ou Concílios gerais chamam-se assim para distingui-los das reuniões menos numerosas dos Bispos de um reino ou de uma província, que se chamam nacionais ou provinciais, e da reunião do clero com o seu próprio Bispo, que se chama Sínodo diocesano.
Os Bispos exercem os seus ofícios nas diferentes igrejas das suas dioceses por meio dos sacerdotes ou párocos por eles enviados.
Depois que Jesus Cristo chamou e enviou os doze Apóstolos a pregar a aproximação do reino de Deus, escolheu também outros setenta e dois discípulos como auxiliares dos Apóstolos, e enviou-os dois a dois diante de si para as cidades e lugares aonde Ele queria ir.
É uma ótima ideia dar continuidade à revisão do texto. A seguir, apresento a correção do Capítulo XII (parte final), Capítulo XIII e Capítulo XIV para adequação à norma culta contemporânea do português (ortografia, acentuação, pontuação e gramática), preservando o significado teológico original.
Segundo o exemplo de Cristo, também os Apóstolos puseram junto aos Bispos, sacerdotes, que deviam ajudá-los na administração dos seus ofícios pastorais. Se por isto se quiser dizer que os simples sacerdotes são os sucessores dos setenta e dois discípulos, pode admitir-se, geralmente falando, mas não no mesmo sentido em que se diz que os Bispos são sucessores dos Apóstolos.
Porquanto os setenta e dois discípulos não receberam de Jesus Cristo nenhum poder espiritual pleno que eles devessem transmitir aos seus sucessores, como se efetuou nos Apóstolos com relação aos que lhes sucedessem.
Por conseguinte, o poder e a missão dos sacerdotes não vêm originariamente dos setenta e dois discípulos, mas do Episcopado, a cuja frente está S. Pedro, na pessoa do Pontífice Romano.
Em conformidade com esta doutrina, só pode exercer a cura de almas nas paróquias o sacerdote que tiver sido enviado e autorizado para esse fim pelo seu próprio Bispo.
Portanto, se um sacerdote pretende exercer o ofício de pároco ou coadjutor numa paróquia sem ter recebido autorização do Bispo, ou depois que este lha tiver retirado, neste caso os fiéis não o devem considerar como seu pároco, nem assistir aos ofícios divinos que ele celebrar, nem pedir-lhe nem receber dele os sacramentos. E se este tal desse a absolvição no tribunal da penitência, ela seria inválida e nula, exceto no caso de necessidade extrema ou em artigo de morte.
Pois, ainda que o sacerdote, em virtude da consagração sacerdotal, recebe o poder de consagrar e de perdoar os pecados, contudo não pode validamente absolver senão enquanto tem autorização ou jurisdição do Bispo da diocese em que se encontra.
Mas, como por outro lado todo o poder que um sacerdote ou cura de almas recebe do seu Bispo, vem originariamente de Deus, que fundou o Episcopado e confiou aos Bispos o poder de consagrar e enviar sacerdotes, estes que recebem o poder e a missão dos Bispos, ou do Sumo Pontífice, Bispo dos Bispos, são "enviados de Deus e Deus nos exorta, digamo-lo, por meio deles", e a todos eles se refere o que Jesus Cristo disse aos seus discípulos: "O que vos ouve, a mim ouve, e o que vos despreza, a mim despreza; e o que a mim despreza, despreza Aquele que me enviou".
Manter-se-á firmemente a unidade e a boa ordem em toda a Igreja, se os simples fiéis estão subordinados aos sacerdotes, os sacerdotes aos Bispos, e os Bispos ao Sumo Pontífice com obediência voluntária.
A Igreja de Cristo sobre a terra está em luta perpétua com as potestades infernais, e por isso chama-se com razão Igreja Militante; é semelhante a um exército bem ordenado, cujo chefe invisível é o Rei dos Reis, Jesus Cristo, e cujo lugar-tenente e chefe visível é o Papa. Já o Pontífice S. Clemente, discípulo do Apóstolo S. Pedro, e também S. Paulo, de quem devia ser perfeitamente conhecida a constituição primordial da Igreja, se serviram desta comparação.
Num exército nem todos são generais, nem todos oficiais, nem todos comandantes; há também nele soldados. E assim acontece na Igreja que milita sob a direção de Cristo, o qual não comunicou a todos os membros da Igreja iguais direitos e igual poder, mas assinalou a cada um o seu posto segundo a sua santíssima vontade, ordenando que uns fossem Apóstolos, outros profetas, outros doutores... para a perfeição dos Santos, para o exercício do ministério, para a edificação do corpo de Cristo.
Num exército não vem do soldado o direito de mandar; este não sobe de baixo para cima, mas desce de cima para baixo; do rei para o general e deste para os demais até ao último grau.
Deste modo também na Igreja o poder não procede de cada um dos fiéis ou de todos coletivamente, mas de Cristo, e dele desce com diferente medida, primeiro para o Papa, seu vigário, depois para os Bispos, para os sacerdotes etc.
E se alguma vez nos primeiros séculos da Igreja os fiéis assistiam à eleição dos Bispos e sacerdotes, isto não era, como observa S. Cipriano, senão para que "em presença do povo se manifestasse e reprovasse o delito do mau, se havia, e se louvasse o merecimento do bom; e com isso se evitava que entrasse para o serviço do altar ou chegasse ao sacerdócio algum que não fosse digno".
O povo pôde em certos casos designar o que era tido por mais digno para um emprego ou dignidade eclesiástica; mas só o Espírito Santo, por meio do Pastor supremo que havia na Igreja, pôde comunicar ao designado o poder espiritual.
Ademais disso, assim como no exército seria impossível a unidade e a ordem indispensável para conseguir a vitória, se os soldados, qualquer que fosse a sua condição, resistissem ou recusassem a obediência, por exemplo, os soldados aos centuriões, e estes aos chefes superiores, assim é; a unidade, a ordem, a disciplina necessária para a glória e triunfo da Igreja faltariam, se os fiéis recusassem a obediência devida aos sacerdotes, estes aos Bispos, e os Bispos ao Papa. Até o rei mais poderoso, enquanto membro da Igreja, com relação aos Prelados, não tem outro caráter senão o de cordeiro dócil à autoridade de S. Pedro.
Por isso o Papa S. Clemente, escrevendo aos de Corinto, falando da divisão entre eles, lhes dizia: "Considerai os soldados que servem as ordens dos seus capitães, com que pontualidade, com que obediência, com que submissão executam as suas ordens, cada um na sua classe e no seu posto executa o mandado do rei e dos seus chefes. Assim obedecei vós ao Sacerdócio; recebei com arrependimento a correção, humilhai os vossos corpos, e aprendei a ser submissos, depondo toda a arrogância e soberba".
Ai daqueles que desprezam o sacerdócio e introduzem cismas! Seguem o caminho de Caim e baixam ao abismo com Coré... São estrelas errantes às quais estão reservadas as trevas eternas.
Coré, Datã e Abirão, sob pretexto de que todo o povo era santo e consagrado a Deus, e que por isso eram todos iguais diante de Deus, rebelaram-se contra Moisés e Aarão; porém, abriu-se a terra e os devorou vivos, e saindo do fogo do Senhor, consumiu os seus sectários.
Antes de lhes sobrevir este terrível castigo, já Moisés, por ordem de Deus, tinha feito com que os rebeldes se separassem do povo, para que, como observa S. Cipriano, o povo, de mistura com os rebeldes, não fosse com eles envolvido na ruína. "Afastai-vos, acrescenta o Santo Doutor, em todo o lugar, irmãos, de semelhante gente; evitai os maus discursos, com que tratam de vos excitar à desobediência contra as autoridades espirituais, fugi deles como de peste."
Pelo contrário, alimentemos nos nossos corações um profundo respeito e submissão, especialmente para com o Sumo Pontífice.
"No Sumo Pontífice, em Pio IX está sentado S. Pedro na sua Cadeira Apostólica; Pedro ata e desata por Pio IX, por ele rege S. Pedro o timão da Igreja; Pedro fala por sua boca; Pedro abençoa por sua mão; Pedro vive e abençoa por Pio IX. Por isso Pio IX, como sucessor do Príncipe dos Apóstolos, é a cabeça visível da Igreja Católica, o guarda principal da fé, o principal administrador da casa de Deus, o dispensador das suas graças e meios de salvação, o possuidor supremo da ordem eclesiástica, o pastor dos pastores, o pai espiritual de todos os que são filhos de Deus pelo batismo. Todos somos seus filhos espirituais."
O mesmo que este ilustre purpurado dizia de Pio IX em 1858, entenda-se hoje do seu sucessor na Cadeira de Pedro, o atual Pontífice Pio XII, a quem Deus guarde. Todos lhe devemos respeito, obediência e amor.
Respeitai e amai também os vossos Bispos e os sacerdotes seus delegados, e obedecei às suas ordens, pois também eles têm o lugar de Deus com respeito a vós, e em seu nome vos prodigalizam os tesouros das suas graças. Recebei também as suas exortações e correções com humildade, pois Deus é quem por meio deles vos admoesta e corrige.
Quem sempre observar estas prescrições, alcançará a paz e as bênçãos de Deus. Mas, ao contrário, severo juízo espera um dia o que despreza as admoestações do sacerdote, não cuida de observar os seus conselhos salutares ou resiste às suas ordens. Pois, se Jesus, Juiz dos vivos e dos mortos, olha como feito a si o bem ou o mal que se fez ao menor dos nossos irmãos, quanto mais sucederá isso com respeito aos que ele pôs em seu lugar como pais e Pastores das nossas almas?
CAPÍTULO XII
Quem pode ordenar sacerdotes e sagrar bispos
Somente os Bispos, os quais recebem o poder mediante uma consagração especial, podem administrar validamente o sacramento da Ordem.
A decisão de fé do Concílio de Trento sobre este ponto diz assim: "Se alguém disser que os Bispos não são superiores aos sacerdotes, ou que não têm o poder de confirmar e consagrar (a outros), ou que o poder que têm lhes é comum com os sacerdotes, seja anátema".
Esta doutrina tem firme apoio e confirmação na Sagrada Escritura, na tradição e no uso constante da Igreja Católica, assim como na circunstância de que as antigas seitas separadas da Igreja conservam o costume de consagrar sacerdotes somente por meio dos Bispos, como se vê pelos seus livros litúrgicos.
Segundo o testemunho dos Atos dos Apóstolos, aos sete varões escolhidos pelos cristãos de Jerusalém só os Apóstolos fizeram diáconos: com quanto mais razão seriam só eles os que ordenassem os que eram escolhidos para sacerdotes? Efetivamente, sabemos pelos mesmos Atos Apostólicos que S. Paulo e S. Barnabé "foram ordenados sacerdotes" para os povos cristãos da Ásia Menor.
As Cartas de S. Paulo referem também que este Apóstolo consagrou S. Timóteo, sacerdote e Bispo, e que a ele e a Tito lhes deu o encargo de consagrar a outros e de colocar, de cidade em cidade, anciãos, isto é, sacerdotes e Bispos.
Na Escritura Sagrada não se acha indício algum de que um simples sacerdote haja ordenado de sacerdote um secular. Na História Eclesiástica, achamos, contudo, o seguinte caso, único no gênero, juntamente, porém, com o fato de que a validade desta ordenação não foi reconhecida pela Igreja.
Quando os arianos acusavam Santo Atanásio de ter quebrado o cálice do sacerdote chamado Ischyras, o Sínodo de Alexandria rejeitou a acusação, declarando que Ischyras não era sacerdote, porque tinha recebido a ordenação de Calixto, que não era Bispo, mas simples sacerdote.
Pela mesma razão também não foram reconhecidos como sacerdotes outros, que foram igualmente ordenados pelo mesmo Calixto, como é conhecido e sabido, e por ninguém posto em dúvida.
No mesmo século apresentou-se um certo Cério, o qual desgostoso por não ter sido eleito Bispo, sustentava que o Bispo não tinha preeminência alguma sobre os sacerdotes, e que o seu poder e dignidade não eram diferentes dos do sacerdote. Por isso, segundo o testemunho do Santo Epifânio e Santo Agostinho, foi olhado por toda a Igreja como herege; e contra ele disse Santo Epifânio as seguintes notáveis palavras: "O grau dos Bispos é destinado principalmente a ordenar sacerdotes; o sacerdote, pelas águas do Batismo, dará somente filhos à Igreja, porque não pode ordenar padres".
A consagração episcopal, pela qual o simples sacerdote é elevado à dignidade de Bispo e tornado capaz de administrar a ordenação ou o sacramento da Ordem, é também uma consagração sacramental, que lhe comunica o poder superior de sacerdote, o qual é próprio do Bispo, e a graça especial de exercer retamente este emprego.
Com respeito à consagração do Bispo, o primeiro Concílio geral de Niceia deu a seguinte opinião: "É conveniente que o Bispo seja consagrado por todos os Bispos da província, e no caso de isto ser difícil, faça-se a consagração ao menos por três Bispos".
Mas isto não quer dizer que cada um dos três Bispos sucessivamente tenha de realizar a cerimônia da consagração, mas que esta se faz pelo Bispo consagrante em presença e com a assistência dos outros.
Na consagração do Bispo não se lhe ungem somente as mãos, mas também a cabeça, dizendo: "Seja ungida a tua cabeça e consagrada com a bênção celestial para a dignidade episcopal".
A sublime e misteriosa oração que o Bispo consagrante reza depois de concluída a unção, dá-nos a conhecer a grandiosa significação desta cerimônia: "Que esta santa unção corra, Senhor, abundante sobre a sua cabeça, que desça até aos seus lábios, que se estenda por todo o corpo, a fim de que a virtude do teu Espírito encha o seu interior, e proteja o seu exterior. Que abunde nele a constância da fé, a pureza do amor, a sinceridade da paz, etc."
Ainda que a consagração sacramental, pela qual o simples sacerdote é feito Bispo, seja diferente daquela pela qual alguém é ordenado sacerdote, contudo, as duas pertencem ao mesmo e único sacramento da Ordem.
Cristo comunicou aos seus Apóstolos toda a plenitude do sacerdócio e lhes deu o encargo de transmiti-lo a outros, já plenamente, já de um modo menos pleno, segundo fosse mais conveniente para o maior bem da Igreja, e segundo a sua divina constituição.
Assim fizeram, efetivamente, os Apóstolos, comunicando aos escolhidos para Bispos a plenitude do poder sacerdotal, tornando-os capazes de consagrar outros; e aos que elegiam somente para o ofício de simples sacerdotes e como auxiliares dos Bispos, comunicavam-lhes o que é da essência do sacerdócio, o poder de consagrar ou oferecer o santo Sacrifício incruento e de perdoar os pecados.
Da doutrina exposta acerca do dispensador do sacramento da Ordem seguem-se duas consequências sumariamente importantes:
Primeiro, como se disse, ninguém pode chegar a ser sacerdote senão por ordenação sacerdotal, e esta só pode ser conferida validamente por um Bispo, o qual, por seu lado, haja obtido de um Bispo validamente consagrado o poder de conferi-la.
Desta maneira o sacerdócio, por uma sucessão não interrompida de Bispos legitimamente consagrados, chega até aos Apóstolos, e pelos Apóstolos até Jesus Cristo, que comunicou a estes últimos o poder sacerdotal e episcopal, juntamente com o encargo de transmiti-lo a outros e assim sucessivamente.
"Assim como o grande Pontífice não foi o tronco segundo a carne de todo o sacerdócio do Antigo Testamento, assim Jesus Cristo é o princípio e cabeça do sacerdócio da Nova Aliança, o Sumo Sacerdote santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e mais alto que os céus".
Quão venerável não é, pois, o Sacerdócio da Igreja Católica aos olhos da fé; quão venerável cada um dos membros desta divina hierarquia, cada um dos sacerdotes! Quão superior é este ao sacerdote do Antigo Testamento, pois pode-se gloriar de ser vergontea espiritual do Sumo e Eterno Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec!
Segundo, da doutrina — que somente o Bispo pode administrar a Ordem e comunicar o poder sacerdotal —, segue-se legitimamente que nem o povo cristão, nem o poder temporal podem conferir nenhum poder sacerdotal, assim como também não podem impedir com a sua desaprovação que tal poder seja conferido pelo Bispo a quem dele julgue conveniente transmiti-lo; pois, segundo a doutrina do Concílio de Trento, a validade do sacramento da Ordem não depende de modo algum da nomeação e autorização do povo ou do governo temporal, mas só e exclusivamente do juízo do Bispo, legítimo dispensador da Ordem.
E ainda que nos primeiros tempos da Igreja, o povo tomasse parte na eleição e indicação do sacerdote, isto não sucedia de maneira nenhuma porque tal participação se considerasse necessária para a validade da consagração, mas só com a aprovação das autoridades eclesiásticas.
Acontecia então o que ainda hoje se usa, com respeito aos direitos concedidos a certos seculares, de propor e apresentar determinadas pessoas para um ofício ou benefício eclesiástico.
Além disso, deve-se notar aqui que as autoridades temporais ou o povo cristão, não só não podem comunicar nenhum poder próprio do sacerdócio, mas nem sequer nenhum que se refira ao magistério e ministério pastoral; numa palavra, não podem comunicar poder algum espiritual, porque não o têm.
Assim como o reino de Cristo não é deste mundo, também não o é o poder da Igreja; por conseguinte, esse poder só poderiam tê-lo os reis e príncipes, as autoridades civis e o povo, se Jesus Cristo, fundador do seu reino, que é a Igreja, lhes tivera concedido. Ora bem: Jesus Cristo não comunicou estes poderes de magistério, sacerdócio e ministério pastoral aos príncipes e governos temporais, nem ao povo, mas sim a S. Pedro e aos outros Apóstolos, e aos legítimos sucessores destes. "Apascenta as minhas ovelhas", dissera a S. Pedro; "apascenta as minhas ovelhas"; "a ti, Pedro e aos Apóstolos: "Como meu Pai me enviou a Mim, assim Eu vos envio".
O povo cristão, o rebanho, de modo nenhum recebeu o encargo de apascentar-se a si mesmo, de escolher pastor ao seu arbítrio e de lhe dar o poder necessário para este fim. Muito menos os poderes temporais foram autorizados por Cristo, nem mesmo com a mais leve indicação, para exercer poder algum espiritual como mestres, sacerdotes ou pastores do povo cristão.
Não a eles, "mas aos Bispos, pôs o Espírito Santo para governar a Igreja de Deus". Por conseguinte, tanto o povo como as autoridades temporais carecem absolutamente de poder espiritual, e, carecendo dele inteiramente, é-lhes impossível comunicá-lo.
Por isso, o Concílio de Trento declara "que todos aqueles que, chamados e postos pelo povo ou pelo poder e autoridade temporal, se atrevem a exercer poder espiritual, e todos os que por sua própria temeridade o arrogam, não sejam tidos por ministros da Igreja, mas por ladrões e assassinos que não entraram pela porta".
Isto quer dizer que aquele que não recebeu de seu legítimo superior espiritual missão e poder, este não entra no aprisco pela porta, mas penetra nele violentamente, é, segundo a expressão do próprio Jesus Cristo, "deve ser tido POR LADRÃO E ASSASSINO, PORQUE NÃO USA DO PODER QUE SE ARROGOU para conservação, mas para ruína do rebanho; não para salvar, mas para assassinar as almas."
CAPÍTULO XIII
O celibato eclesiástico
O celibato eclesiástico é o estado de continência absoluta e perpétua, a que são obrigados os que receberam a ordem do subdiaconato na Igreja latina, e os que fizeram voto solene de castidade numa Ordem Religiosa dita; o qual torna não só ilícito, mas ainda inválido o matrimônio ulteriormente contraído.
Na Igreja oriental, o celibato apenas é imposto aos bispos e aos monges, mas o matrimônio contraído depois da ordenação do diaconato (e não só que o diácono se tenha reservado a faculdade de casar antes de receber a ordem do sacerdócio) é inválido, como na Igreja ocidental.
A doutrina fundamental nesta questão do celibato é a que foi ensinada por Jesus Cristo. A uma pergunta dos fariseus, Jesus respondera que o matrimônio é indissolúvel. Os discípulos de Jesus, impressionados com esta doutrina, assim falam: "Se assim é a condição do homem com a mulher, não convém casar", ao que Jesus respondeu: "Nem todos são capazes desta resolução, mas sim aqueles a quem foi dado". E, depois de afirmar que é possível ficar em estado de virgindade também por amor do reino dos céus, acrescentou: "Quem for capaz de compreendê-lo, compreenda-o".
Não menos explícita é a doutrina de S. Paulo: "Quero pois que vós estejais sem inquietação. O que está sem mulher está cuidadoso das coisas que são do Senhor, de que modo agrade a Deus. Ao contrário, o que está com mulher está cuidadoso das coisas que são do mundo, de que modo agrade à mulher; e está deste modo dividido".
Por mais santo que seja o matrimônio cristão, é sempre o estado do comum dos homens: para as almas escolhidas, para a flor dos crentes, que não querem viver divididos, que querem ser unida e inteiramente de Deus, há o estado de virgindade, de continência absoluta, de renúncia aos vínculos, bens e efeitos do matrimônio.
O celibato guardado por serviço e amor de Deus é incomparavelmente superior ao mais puro matrimônio.
É este o sentido do célebre Cânon X da sessão XXIV do Concílio de Trento: "Se alguém disser que o estado conjugal se deve antepor ao estado de virgindade e celibato, e que não é melhor, nem mais louvável permanecer no estado de virgindade e celibato, do que contrair matrimônio: seja excomungado."
E quem há que não veja a perfeita conveniência do celibato religioso com o exercício dos ministérios sacerdotais? O próprio Paganismo a entreviu; porque ela é, na verdade, tão natural, que não escapa às vistas de nenhuma alma pura e delicada.
A lei de Moisés, ainda que admitia o sistema de um sacerdócio hereditário por via de geração carnal, impunha ao sacerdote de serviço ao altar, a obrigação da continência.
Jesus Cristo, o único e eterno pontífice da Lei Nova, ele de quem os Bispos e os sacerdotes do Novo Testamento não são mais que representantes e delegados, nasceu de uma Virgem, permaneceu sempre virgem, mandou aos seus Apóstolos que guardassem o celibato, quando respondeu a Pedro que lhe perguntara qual seria o prêmio dos Apóstolos que tudo haviam deixado para segui-lo: "Em verdade vos digo, que vós, que me tendes seguido na regeneração, quando o Filho do Homem se tiver assentado na sede da sua majestade, estareis assentados também vós em doze sedes, julgando as doze tribos de Israel. E todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos ou as irmãs, ou o pai ou a mãe, ou a mulher ou os filhos, ou as fazendas, por causa do meu nome, receberá o cêntuplo, e possuirá a vida eterna."
Jesus Cristo, o único e eterno pontífice da Lei Nova, criou um sacerdócio, a que os homens são chamados por vocação divina, e cuja propagação não é obra da carne, nem do sangue.
É também uma opinião sólida e confirmada por trabalhos de teólogos de renome que o celibato é de instituição apostólica para os diáconos, sacerdotes e bispos.
Em coro com os santos doutores, a legislação canônica ocidental afirma muito claramente esta obrigação, desde o princípio do século IV, não como uma instituição nova, mas como uma tradição santa, que a relaxação dos costumes tendia a corromper.
Se a legislação oriental é atualmente menos severa, e admite ao subdiaconato, ao diaconato e até ao sacerdócio, clérigos já casados, não impondo o celibato senão aos Bispos e aos monges, não faltam documentos históricos de toda a autoridade, que mostram que isso é uma decadência, e que, neste particular, a antiguidade foi tão rigorosa no oriente, como no ocidente: e a sã lógica exige aliás que de um princípio comum se deduzam consequências comuns ao episcopado e às ordens sagradas inferiores.
Mas voltemos à Igreja latina, e notemos que os ataques tantas vezes dirigidos à lei do celibato não têm tido outro efeito, do que corroborá-la cada vez mais.
Às arremetidas dos protestantes respondeu o Concílio Tridentino com o Cânon IX da sessão XXIV: "Se alguém disser, que os Clérigos, constituídos em Ordens sacras e os Regulares que professam solenemente castidade, podem contrair matrimônio, e se o contraírem, é válido, não obstando a lei eclesiástica, ou o voto; e que o contrário disto não é outra coisa, senão condenar o matrimônio; e que podem todos contrair matrimônio, que não sentem ter o dom da castidade, ainda que a tenham votado: seja excomungado. Pois Deus não nega este dom a quem piamente lho pede, nem consente que sejamos tentados mais do que podemos ser tentados".
A agitação anti-celibatária de Wurtemberg e do país de Baden, no primeiro terço do século XIX, respondeu Gregório XVI com a Encíclica de 15 de Agosto de 1832. Pio IX, na sua Encíclica de 9 de Novembro de 1846 e na sua carta apostólica de 10 de Junho de 1851, ambas encaminhadas no Syllabus de 1864, defendeu mais uma vez a superioridade da virgindade e do celibato em relação ao matrimônio.
Não são poucos os ataques feitos à instituição do celibato eclesiástico e monástico.
Historicamente, tem-se pretendido que semelhante instituição não tem por si a antiguidade, e que deve a sua origem à política ambiciosa e implacável de Gregório VII; afirma-se que este famoso Pontífice viu nela um meio de ser senhor absoluto do clero e de o subtrair à autoridade temporal.
Mas, a verdade é que Gregório VII não inovou nesta matéria; não fez mais do que exigir com um justo rigor a observância de uma disciplina perfeitamente determinada pelos seus antecessores; e nenhuma pessoa de mediana instrução pode afirmar em boa fé que dele partisse alguma inovação.
Os sacerdotes judeus, dizem, estavam sujeitos a esta lei. Mas tinham obrigação de guardar continência, pelo menos no tempo do seu ministério: ora, o ministério dos sacerdotes católicos não é intermitente, é de todos os dias e, por assim dizer, de todas as horas.
O princípio judaico conclui, pois logicamente ao celibato perpétuo dos nossos ministros sagrados. E, por outro lado, o altar cristão não é mais santo do que o de Moisés? Não é a perfeição da Nova Lei superior à da antiga? Não é preferível um sacerdócio independente dos laços da família e não restrito aos limites de uma tribo?
Os orientais, acrescentam, não têm esta lei draconiana. Mas, há a certeza disso? Não a impõem eles aos Bispos e aos monges, e ainda aos sacerdotes e diáconos que ficam viúvos depois da ordenação, de modo que não podem contrair novas núpcias?
Demais, estas conveniências com a fraqueza comum não provam mais contra a antiquíssima instituição do celibato, do que prova a legitimidade de tais matrimônios o terem sido casados alguns Bispos e sacerdotes, de que a história dos primeiros séculos cristãos nos conservou a lembrança.
A existência de uma lei não é menos afirmada pelas contradições de que ela é objeto, do que pela obediência que lhe é prestada.
A castidade perfeita é um adjutório eficacíssimo para o cumprimento das virtudes e ministérios sacerdotais.
Considerada a questão no seu aspecto propriamente eclesiástico, tem havido escritores, a quem parece que o celibato impede que o sacerdote tenha do mundo, que é chamado a dirigir, conhecimento suficiente; e que o não deixa exercer nele uma influência tão prática e tão íntima, como é de desejar.
Quanto a nós, ignoramos quanto possa a ciência prática do clero casado exceder a do celibatário, ao qual o estudo dos livros e das almas é certamente mais fácil. Mas, em paga, sabemos bem que a influência e os exemplos de um clérigo casado não poderiam contribuir muito para o desenvolvimento das virtudes grandes e heroicas, e que os exemplares procedimentos domésticos dos padres casados, quais alguém os sonha, não haviam de conjurar as desordens e escândalos dos matrimônios mal avindos.
Deixando agora os clérigos hereges ou cismáticos, sabemos que, até entre os orientais unidos à Igreja romana, os sacerdotes casados têm uma influência muito pequena nas consciências, e que o ministério de confissão só é frutuosamente exercido pelos monges e Bispos.
Sabemos que o estado de matrimônio é um grande obstáculo, e a continência perfeita um adjutório eficacíssimo para a oração, para a cultura das ciências, para a educação da juventude, para o apostolado e administração dos sacramentos, para o governo espiritual das nações, para a independência das paixões, interesses e influências do mundo, para o espírito de desprendimento e sacrifício absolutos, em suma, para o cumprimento das virtudes e ministérios sacerdotais, como Jesus Cristo os entende e prescreve.
Sabemos que sem a continência as vocações são menos puras, a vida menos desinteressada e o nepotismo mil vezes menos fácil de reprimir.
Segundo os apologistas da clerogamia, o número das vocações eclesiásticas, insuficiente para as necessidades da religião, aumentaria depressa, se fosse quebrado o intolerável jugo do celibato. Não queremos discutir este efeito, hipotético demais, e contentamo-nos com a Igreja, com vocações menos numerosas, mas mais generosas, e consequentemente mais úteis.
Também se têm invocado razões políticas contra o celibato dos sacerdotes e religiosos: fora dos vínculos do matrimônio e das condições ordinárias da vida civil, como não haviam eles, padres e religiosos, de ter ideias contrárias ao espírito moderno, à submissão ao Estado, à civilização e progresso?
Mas este modo de considerar as coisas não se pode dizer que é muito justo; pois não é o celibato, senão os princípios de que ele é simplesmente uma consequência lógica, o que repugna a essas tendências de alguns espíritos modernos, tendências com que muitos enchem tanto a boca, mas de que convinha, antes de mais nada, averiguar a legitimidade. Se isto se fizer, achar-se-á sem custo o que não são as que se opõem, não a um sistema de política humana, mas aos ensinamentos e moral do soberano Mestre.
Mas não causa o celibato, pelo menos, um dano real à Sociedade, retardando o aumento da população? Este aumento é sem dúvida desejável, mas há bens superiores, que ainda o são mais. E que para assegurar estes, o Estado não receia impor o celibato a centenas de milhares de cidadãos, por que é que a Igreja não há de poder impô-lo a seus ministros, não já contra a vontade deles, pois que os não compele a receberem a ordenação, mas segundo sua livre escolha, para prover aos interesses mais altos, mais importantes, mais necessários, que se podem conceber? E donde vem a desaprovação, que tanto lhes dói? É somente do celibato? E então querem-no substituído pelo matrimônio universalmente obrigatório?
Ah!, mas o matrimônio, ainda obrigatório, ainda universal, havia de iludir as esperanças da estatística, seguindo as doutrinas do materialismo e de uma economia social que procuram lisonjear, como que em competência, aos mais baixos instintos da humanidade decaída e aviltada pela infecundidade.
A fecundidade do matrimônio, em França, era muito maior, quando o clero e as Ordens Monásticas ali gozavam de completa liberdade de expansão. E quem sabe se esta não é uma das condições mais favoráveis, a respeito de economia, para o desenvolvimento daquela.
As famílias numerosas sabiam que a falta do lar paterno, tornado demasiadamente estreito, a Igreja e o mosteiro eram abrigos abertos às vocações sinceras e elevadas, quais a Providência não deixa de suscitar nas condições que nascem de sua inspiração, a que sempre abençoa.
Cortem-se os passos ao crime dentro do matrimônio e fora dele; e depois ver-se-á se a virtude merece censuras.
Uma opinião médica, cujas queixas não é mau que ouçamos por um momento, declara que o celibato é contrário à natureza, que é perigoso, que leva à imoralidade e desonra do clero.
Mas, se o celibato é contrário à natureza, outro tanto se há de dizer da continência, que se impõe em muitos casos às próprias pessoas ligadas em matrimônio; há a repreender-se aos viúvos, desaconselhar-se à mocidade; quer dizer: é preciso largar rédeas à devassidão mais completa, e fazer da traição matrimonial, do adultério e do amor livre, um sistema de moral universal. Nada mais evidentemente absurdo.
E se o celibato pode ter seus perigos, o que todavia se não pode afirmar nos termos da opinião que combatemos, não os tem também o casamento regular ou irregular, mas mais certos e maiores? Há então de proibir-se igualmente a continência e a incontinência?
Há quem recuse admitir a possibilidade do celibato. Estes têm razão, se se trata do celibato imposto inconsideradamente a quem quer que seja, mormente ao luxurioso, sem o elemento sobrenatural da oração e da graça, da prudência e da mortificação, do trabalho e do recolhimento.
A Igreja dá aos seus ministros um grande número de preceitos e conselhos, uma espécie de código de higiene pública e moral que asseguram à alma uma verdadeira preponderância sobre o corpo e, quando, depois de uma experiência rigorosa, numa idade em que cada um sabe de quanto é capaz com o auxílio da graça de Deus, ilustrado por conselhos prudentes e desinteressados, um mancebo se compromete espontaneamente a observar a castidade perpétua, e cumpri-la, ninguém tem o direito de o julgar segundo a sua própria fraqueza, e desordens, e dizer-lhe: Tu não hás de ser casto, e o teu voto de celibato será um laço, em que fatalmente hás de cair, porque a mim me faltam forças para semelhante compromisso.
Se a medicina incrédula alega provas em abono das suas afirmações, tais provas são apenas escândalos de perjuros ou temerários, e talvez ainda algumas confidências de covardes e miseráveis.
Mas os escândalos do matrimônio são bem mais numerosos do que os do celibato religioso: e ninguém pretenderá por isso, que seja abolida a sua instituição.
Haja pois um pouco de boa fé, e discorra-se segundo os mesmos princípios "a fortiori" no tocante ao celibato religioso.
Quanto às raras confidências, que tão gostosamente invocam, devem lembrar-se de que "ab uno disce omnes, de um conheça a todos", é um sofisma, e de que os diretores e confessores das almas podiam opor-lhes outras confidências incomparavelmente mais numerosas e mais honrosas: as dos sacerdotes e religiosos fiéis ao seu voto de castidade e vencedores daquelas tentações e inimigos, que podiam embora esbofetear o Apóstolo, mas nunca vencer a graça que Deus lhe dava em grau bastante, como a todos os que a imploram com humildade: "E para que a grandeza das revelações me não envaideça, me tem sido dado um estímulo da minha carne, o anjo Satanás, para que me esbofeteie. Por cuja causa roguei ao Senhor três vezes, para que se apartasse de mim. E me disse: "Basta-te a minha graça; porque a virtude se aperfeiçoa na enfermidade".
CAPÍTULO XIV
As ordens e as congregações marianas
Para conseguir a perfeição cristã, Jesus aconselhou principalmente aqueles meios que chamamos conselhos evangélicos, que são: pobreza voluntária, castidade perpétua e obediência perfeita sob um superior espiritual.
Os meios para conseguir a perfeição cristã são muitos e de diferentes espécies. Alguns são indispensáveis, como a oração fervorosa, a abnegação constante de nós mesmos, o exercício ou prática assídua de boas obras; há outros que, se não são necessários para a perfeição, são muito convenientes.
Entre estes meios de perfeição, recomendados e aconselhados por Jesus Cristo e pela Igreja, encontram-se três conselhos evangélicos. Chamam-se conselhos, para distingui-los de preceitos que obrigam sob pena de perder a felicidade eterna, ao passo que a observância dos conselhos, apesar de expressamente recomendados, fica livre.
Jesus Cristo, Senhor nosso, indica esta diferença entre o preceito e o conselho. Pois sobre o preceito diz: "Se queres entrar no reino dos céus, observa os mandamentos". E, com respeito ao conselho da pobreza voluntária, diz: "Se queres ser perfeito, vende tudo... e assim terás um tesouro no céu".
Também o Apóstolo S. Paulo declarou esta diferença, dizendo: "Com respeito à virgindade (ou castidade perpétua) não tenho preceito do Senhor, mas dou-vos conselho... sinto que isto é bom. O que não segue o conselho, "não peca", mas o que o pratica, "faz melhor".
Estes conselhos chamam-se evangélicos porque Jesus Cristo os deu e ensinou no Evangelho. No Antigo Testamento Deus não deu estes conselhos que são frutos do Evangelho de amor, e desde o princípio da Igreja Católica foram fielmente observados por almas inumeráveis.
Pratica a pobreza voluntária o que voluntária e livremente renuncia à posse real de bens temporais e até à esperança e desejo de adquiri-los e possuí-los, e isto com o fim de que nenhum temor nem esperança, nenhum cuidado dos bens temporais detenha o coração de aspirar constantemente à posse dos bens imortais do céu.
Pois não há dúvida que não só os cuidados e solicitude por adquirir os bens deste mundo, mas também a posse deles causam mil distrações e mil cuidados, que embaraçam o espírito e afastam os seus pensamentos e desejos dos bens eternos de Deus, únicos capazes de encher e satisfazer os desejos imensos do nosso coração.
Ademais disso, é mui difícil possuir riquezas e não pôr nelas o coração, apartando-o do Bem sumo e infinito, que é Deus. "Muitos, diz o Sábio, pereceram por amor ao dinheiro". "Bem-aventurado o rico que se achou sem culpa, sem mancha, que não correu atrás do ouro, nem esperou no dinheiro e nos tesouros. Quem é este, e o louvaremos? E se existe, por que fez coisas maravilhosas na sua vida."
O conselho evangélico da pobreza voluntária é, em vista disto, a livre e voluntária renúncia aos bens temporais para buscar com mais facilidade os eternos.
Foi este o conselho que Jesus Cristo deu ao jovem do Evangelho, e nele a todos os fiéis de todos os séculos, dizendo: "Se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens, reparte-o com os pobres". E para excitá-lo e animá-lo a isso, põe-lhe ao mesmo tempo diante da vista a recompensa dizendo: "E fazendo isto, terás um tesouro no céu". E também aquelas outras palavras: "Vem e segue-me" contêm não só um convite para seguir o conselho dado e fazer-se assim mais perfeito, mas também indicam o exemplo que do mesmo lhe dava o Salvador, e neste sentido tem a mesma significação como se dissesse: vem e segue-me na pobreza de que eu, que sou teu Senhor e teu Mestre, te dou o exemplo.
Este conselho do divino Mestre foi, com efeito, seguido nos primeiros tempos da Igreja por inumeráveis fiéis, que nisto não imitaram o jovem a quem foi dado, pois este não teve ânimo para abandonar e renunciar a tudo.
Já a história apostólica, testifica que muitos fiéis vendiam os bens e punham o preço aos pés dos Apóstolos para uso comum. Por isso, com muita razão dizia o santo Abade Barlaam ao seu discípulo Josafá, aconselhando-lhe a renúncia de todos os bens temporais: "Não te ensinei um costume que data de ontem, mas uma doutrina recebida por tradição dos Apóstolos". "Muitos seguiram a Cristo na sua pobreza, e são também muitos os que seguem seus passos".
Entre milhões que no decurso dos séculos, segundo o conselho de Jesus Cristo, venderam todos os seus bens e os deram aos pobres, conta-se também Santo Agostinho, que procurava conduzir outros à pobreza para seguirem a Jesus Cristo pobre. E escrevendo a Hilário diz: "Eu pela minha parte exorto e aconselho a outros a pobreza voluntária, e vivo em comum com aqueles, que em nome do Senhor se decidiram a escutar as minhas palavras".
Castidade perpétua é renunciar perpetuamente, por toda a vida, não só aos prazeres impuros, mas também ao matrimônio, para poder servir a Deus com o coração inteiro.
O divino Salvador deu este conselho; pois, dizendo-lhe os seus discípulos: "Se o homem não pode abandonar a mulher, então não é bom casar-se", o Senhor, não assentindo incondicionalmente, deu a entender com bastante clareza, que era melhor ficar sem se casar, ou por outras palavras, que o matrimônio em si é bom, porém em consideração da excelência da virgindade, é mais perfeito não casar-se: "Nem todos, acrescentou, compreendem estas palavras de que é melhor não contrair matrimônio fazendo profissão de castidade, mas somente aqueles a quem é dado; há porém alguns que por próprio e livre impulso se abstêm do matrimônio para conseguirem o reino dos céus, isto é, para conseguirem mais fácil e seguramente o reino celestial".
O Senhor concluiu com estas palavras: "O que puder entender isto, entenda-o; e com isto não restou dúvida alguma no ânimo dos seus discípulos de que o divino Mestre tinha o matrimônio por menos perfeito que a virgindade, e que os exortava a preferir esta àquele.
Também disto mesmo os devia persuadir a predileção que o divino Salvador mostrou em toda a ocasião a S. João, que era virgem, como que indicando-lhes por este modo que o seu desejo era que todos seguissem os passos deste discípulo amado.
E como pensou o divino Mestre, assim depois os Apóstolos e discípulos o ensinaram. "Enquanto à virgindade, dizia S. Paulo, não tenho preceito do Senhor, mas dou-vos o conselho... O que casa a sua filha, faz bem, mas o que a não casa, faz melhor".
E logo em seguida dá a razão desta preferência, dizendo: "O que não tem mulher cuida do que diz respeito ao serviço de Deus e como lhe há de agradar. Porém o que a tem, cuida do que é do mundo, como agradará à sua mulher, e por este modo o seu coração está dividido. Porém uma pessoa virgem pensa no que é do Senhor, procurando fazer-se santa no corpo e na alma; e pelo contrário, a casada pensa no modo de agradar ao seu marido".
Como pensaram e ensinaram Jesus Cristo e os seus Apóstolos, assim pensou e ensinou sempre a Igreja Católica com relação à preferência e excelência da virgindade.
Os Santos Padres louvam, à porfia, o estado da virgindade, e muitos de entre eles, como Santo Atanásio, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, S. Crisóstomo, S. Basílio, S. Jerônimo e outros, escreveram livros inteiros, recomendando o estado de virgindade.
"Ó virgindade! exclama entre eles Santo Atanásio, tesouro imenso, coroa imarcescível, templo de Deus, trono do Espírito Santo! Ó virgindade, pérola preciosa, oculta a muitos e por poucos achada! Ó continência virginal, amiga de Deus, objeto dos louvores dos Santos! Ó continência por muitos aborrecida, porém reconhecida e abraçada por aqueles que são dignos de ti! Ó continência que escapas à morte e ao inferno e tens parte com os imortais! Ó continência, alegria dos Profetas, glória dos Apóstolos, coroa dos Santos! Bem-aventurado o que te possui, feliz o que suporta com constância as penas que trazes contigo: depois de um breve trabalho, em ti se regozijará por toda a eternidade".
Também nos séculos posteriores a Igreja Católica deu a conhecer o aprecio extraordinário que fazia do estado virginal, e isto de muitas maneiras e mui especialmente no Concílio de Trento, onde por um cânon especial declarou e estabeleceu a preferência do estado de virgindade sobre o estado de matrimônio: "Se alguém disser que o estado de matrimônio deve ser preferido ao estado de virgindade, e que não é melhor e mais grato a Deus o permanecer na virgindade do que ligar-se pelo matrimônio, seja anátema".
As palavras, pelas quais Cristo, os Apóstolos, os Santos Padres e toda a Igreja exortam e excitam à virgindade, hoje como nos séculos anteriores, não caíram nunca em terreno estéril, mas foram admitidas e seguidas por inumeráveis fiéis de um e de outro sexo. E o mimosa lírio da castidade e da virgindade foi em todos os tempos o mais belo ornamento no jardim da Igreja Católica.
Jesus, jardineiro celestial, plantou-o na terra, neste vale de lágrimas, e continua sempre a regá-lo com o orvalho das suas graças mais abundantes, a nutri-lo com os raios do seu divino amor.
Esta amável açucena destinada para o banquete das bodas celestiais, floresceu em todos os tempos e em todos os climas onde se anunciou a boa nova do Evangelho, no coração de milhares de pessoas de todo o estado, idade e condição.
Os desertos do Egito espalhavam o cheiro suave desta flor celestial, e ainda mesmo no meio dos espinhos dos vícios e da corrupção pagã desenvolvia-se de mil maneiras com pureza singular, e um sem-número de santas virgens consagradas a Jesus, seu celestial Esposo, mostraram-lhe fidelidade inquebrantável, selando não poucas vezes com o seu sangue o vínculo do seu amor angelical. Nem adulações, nem promessas, nem ameaças foram capazes de fazer perder nem desfolhar o lírio da virgindade. Jesus era o Rei dos seus corações e a Ele se consagravam com amor indivisível.
O terceiro conselho evangélico, a obediência perfeita, sob um superior espiritual, consiste em o homem renunciar à sua própria vontade, para cumprir com maior segurança a vontade divina sob um superior que ocupa o lugar de Deus.
O amor que forma geralmente a perfeição cristã, não pode existir enquanto a nossa vontade não se conformar perfeitamente com a vontade divina; e por isso é que quem deseja conseguir a perfeição, deve renunciar à sua própria vontade e dirigir a sua vida e o seu coração sempre para Deus, para em todas as coisas fazer a sua divina vontade e o seu beneplácito.
E isto, segundo os Santos Padres, aquela inteira abnegação de nós mesmos à qual Jesus Cristo nos exorta, dizendo: "Se alguém quiser vir após de mim, renuncie a si mesmo, leve cada dia a sua cruz e siga-me". Pois, como observa S. Gregório Magno, "negar-se a si mesmo não é outra coisa mais que abandonar a sua própria vontade para cumprir a divina".
A vontade santíssima de Deus dá-se-nos a conhecer em muitíssimos casos pelos mandamentos de Deus e da Igreja; não obstante, há muitas ações que nem estão mandadas nem proibidas por estes preceitos, e nas quais, se queremos a perfeição, devemos olhar ao maior agrado de Deus.
Ora bem: se o homem se fia do seu próprio parecer e toma como regra delas o seu próprio juízo e o seu gosto, sucede muitas vezes que, obcecado pelo seu amor próprio, em vez de fazer o que agrada a Deus, faz o contrário.
Por isto S. Bernardo não hesitou em assegurar que "o que quer ser seu próprio mestre, se torna discípulo de um néscio". E nisto concorda com S. Basílio que diz: "É coisa difícil conhecer-se e dirigir-se a si mesmo, porque cada um é um juiz muito indulgente para consigo mesmo, e tem por útil o que lhe é agradável; é porém mais fácil ser conhecido e dirigido por outro".
É, portanto, mais seguro e conveniente, especialmente nas coisas espirituais, deixar-se reger e governar por um superior espiritual e seguir o caminho da obediência em tudo o que não é claramente pecaminoso ou contrário a um preceito de Deus ou da Igreja, deixado à nossa eleição e vontade.
O conselho de Cristo de fazê-lo assim, encontram-no os Santos Padres nas palavras: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me". "Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai e mãe, sua mulher e filhos, seus irmãos e irmãs, e ainda mesmo a sua vida, não pode ser meu discípulo"; "Assim pois, qualquer de vós que não renuncia a todas as coisas que possui, não pode ser meu discípulo"; "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu: depois vem e segue-me".
Por estas palavras Nosso Senhor Jesus Cristo nos estimula à abnegação perfeita de nós mesmos. E esta abnegação de todos os dias, que se não está mandada sob pena de perdição eterna, é, porém, muito conducente para conseguir a perfeição cristã, e nos faz semelhante a Jesus que se fez obediente até à morte e morte de cruz.
Desta abnegação perfeita nos diz o divino Redentor, nosso modelo: "De mim mesmo nada faço, porque não busco a minha vontade, mas a d'Aquele que me enviou"; quer dizer, do Pai celestial.
Seguindo, portanto, este chamamento do Senhor, houve, desde o princípio do cristianismo até aos nossos dias, inumeráveis almas que aceitaram e levaram com alegria o jugo suave da obediência.
Os desertos e as cidades foram testemunhas da prontidão e alegria com que os imitadores do obediente Jesus, Filho de Deus, executaram os preceitos e até os sinais ou simples indícios dos seus superiores espirituais em que não viam senão a pessoa de Cristo, os intérpretes da vontade divina, os mediadores entre os súditos e Deus.
Desta maneira imitaram por muitos modos o admirável espetáculo que nos oferece o céu estrelado, onde os inúmeros corpos celestes, a um sinal do seu Criador, percorrem com bela e inalterável ordem os seus caminhos, girando em torno do sol, seu centro.
Sobre o fundamento dos conselhos evangélicos fundaram-se na Igreja Ordens Religiosas, masculinas e femininas, desde o princípio do cristianismo.
Vemos assim na Igreja dos primeiros séculos a ordem de S. Bento e dos Carmelitas.
Mais tarde fundaram-se as Ordens dos Franciscanos e dos Jesuítas e outras mais.
Nos últimos séculos fundaram-se as Congregações Religiosas: dos Lazaristas, por S. Vicente de Paulo; dos Redentoristas, por Santo Afonso de Liguori; dos Salesianos, por S. João Bosco; e muitas outras mais.
Existe uma grande variedade de Ordens Religiosas, que se podem reduzir a três categorias gerais:
I — Às Ordens contemplativas, ocupadas de preferência na contemplação das verdades divinas.
II — Às Ordens ativas, sobretudo ocupadas de preferência nas necessidades humanas.
III — Às Ordens mistas, unindo contemplação da verdade às obras múltiplas da caridade.
Em todas as épocas as Ordens Religiosas desempenharam grandes e dispendiosas funções de caridade, de educação, de trabalhos intelectuais ou materiais.
E quando algum Estado imaginou que sairia de seus embaraços financeiros, pelo confisco dos bens monásticos ou congreganistas, fez a experiência singular do agravamento de seus encargos por este meio tão exaltado de os aliviar: a bancarrota do confiscador seguiu de perto a ruína do confiscado.
Os serviços prestados pelas Ordens monásticas são inegáveis e são imensos. A civilização europeia foi em grande parte obra sua: durante longos séculos os Religiosos foram quase os únicos educadores, os únicos agricultores, os únicos letrados. A própria Igreja era como que sua tributária, numa larga medida.
Disse, com razão, o eminentíssimo sr. Cardeal Arcoverde em 1915:
"Permiti que com o mesmo interesse apostólico, que reconheço em todos vós, eu reclame, para maior brilho e esplendor dos Institutos Religiosos, no Brasil, que eles conservem sempre o espírito e as regras de seus Fundadores, não excedendo nunca, por nenhum motivo, os limites e as conveniências que lhes são prescritas; jamais esquecendo que, quaisquer que sejam, no regime doméstico, as faculdades de seus superiores, estes, em toda a esfera da ação diocesana, estarão sempre sujeitos à autoridade dos Bispos."
CAPÍTULO XV
O exemplo de São Paulo
Disse Nosso Senhor a seus Apóstolos, discípulos e sacerdotes em geral: "Ide pois, ensinai a todas as gentes... ensinando-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado".
S. Paulo, obediente às palavras do Divino Mestre, começou a sua grande tarefa e mereceu o nome de Apóstolo das Gentes.
Peregrinando de cidade em cidade na Ásia Menor e pregando o novo Evangelho nas sinagogas, nas casas particulares e mesmo nas praças públicas, veio S. Paulo à Grécia. Em companhia de alguns cristãos de Bereia ele se dirige a Atenas, onde Silas e Timóteo tinham ordem de se reunir a ele.
Atenas tinha sido o ponto da reunião geral dos mais belos espíritos e dos maiores filósofos; e era ainda a cidade mais civilizada e amante das belas letras. O fruto, porém, que disto tinha tirado, era não haver cidade, exceto Roma, mais cheia de ídolos e superstições. Adoravam-se ali todos quantos falsos deuses se sabia serem adorados pelos outros povos; e receosa a cidade de ter esquecido algum que não conhecia, tinha levantado uma ara com esta inscrição: Ao Deus desconhecido.
O zelo dos atenienses pelo erro, animava o de Paulo pela verdade, a ponto de consumir-se de dor. Pregava aos judeus nas sinagogas todos os sábados, e todos os dias na praça aos que ali se encontravam, e nunca lhe faltavam ouvintes; porque os habitantes de Atenas pareciam não ter outra ocupação mais, que a de passear e espairecer a sua ociosidade em dar e saber notícias.
Era a cidade igualmente povoada de estoicos e de epicuristas, homens curiosos de toda a nova doutrina, e vinham por isso em multidão ouvir o discursador, que era este o nome que davam ao Apóstolo. A princípio contentaram-se com rir dele; mas depois o conduziram ao Areópago, para que ali desse razão da sua doutrina.
O Areópago era o Senado de Atenas; e nada há mais célebre na história do que esta ilustre assembleia, considerada como oráculo da verdade e do bom gosto.
Também poderíamos dizer que nunca houve sessão mais célebre do que aquela em que Paulo apareceu diante desta Academia. O cristianismo e o paganismo, que desde longo tempo pareciam procurar-se, iam medir-se, finalmente, em luta decisiva.
De um lado viam-se os representantes de todas as seitas filosóficas da antiguidade, com o coração túmido de orgulho, a cabeça cheia de preconceitos e argumentações, e a língua hábil em tecer o sofisma. Do outro lado estava um estranho, um judeu de pequena estatura e cujo exterior nada tinha que pudesse impor respeito. Que poderia haver mais dramático e interessante do que semelhante contraste?
Logo que todos os juízes se assentaram, Paulo aparece à barra: que irá ele dizer?... Para sentir-se toda a sublime simplicidade do seu discurso, cumpre notar bem que cada uma das suas palavras é como um golpe de martelo, que reduz a pó alguém, e mesmo muitos dos sistemas que eles tinham de Deus, do homem e do mundo, e de que os seus juízes eram partidários afeitos.
A fim, porém, de os não atacar de frente, Paulo não combate diretamente a filosofia, nem o paganismo: expõe simplesmente a verdade; e deixa aos seus ouvintes tirar as consequências. Eis aqui o seu admirável discurso:
"Cidadãos de Atenas, tudo quanto aqui vejo, me anuncia que sois excessivamente religiosos; pois que, percorrendo a vossa cidade, e examinando os simulacros dos vossos deuses, encontrei um altar, no qual li esta inscrição: Ao Deus desconhecido."
"Ora, o que vós adorais sem o conhecer é o que vos anuncio: é o Deus que fez o mundo e tudo quanto há nele. Senhor do céu e da terra, não habita em templos fabricados por mãos de homens; e se recebe as homenagens dos mortais, não é porque tenha precisão de coisa alguma, pois que só ele dá a todos a vida, o alento e todos os mais bens."
"E Ele que de um só homem fez sair todo o gênero humano, para habitar a terra, marcando a cada homem o tempo da sua vida, e a cada povo os limites de suas possessões. Eis o seu desígnio: que os homens o buscassem em suas obras e que, depois de o haverem encontrado, lhe tributassem as suas adorações; porque ele não está longe de cada um de nós. É por ele que temos a vida, o movimento e o ser; e é neste sentido que alguns dos vossos poetas disseram: "Nós somos da linhagem de Deus."
"Ora, sendo nós filhos de Deus, não devemos crer que a divindade seja alguma coisa semelhante aos simulacros de ouro, prata ou pedra, obras de arte e da invenção dos homens."
"Deus, porém, depois de ter dissimulado estes tempos de ignorância e cegueira, manda agora anunciar a todos os homens e em todos os lugares da terra, que lhes importa fazer penitência dos seus voluntários desvarios; porque ele tem determinado um dia, em que julgará todo o mundo com uma suprema justiça, pelo ministério de um homem, a quem deu o seu poder, e disto nos deu indubitável prova, ressuscitando esse homem dentre os mortos."
É impossível imaginar coisa mais proporcionada à disposição dos ouvintes, e mais conforme às suas presentes luzes, do que este discurso do grande Apóstolo.
Tinha ele visto na cidade de Atenas um altar erigido ao Deus desconhecido, e daí tira ocasião para despertar no ânimo dos atenienses idólatras e supersticiosos a ideia tão natural, que as obras de Deus produzem em todos os homens, de um Criador, Senhor e juiz; fazendo-lhes sentir deste modo, quão desviados andavam da primeira de todas as verdades.
O Apóstolo trabalhava juntamente com eles; porque em Corinto, muito mais que em outra parte, não queria receber o seu sustento daqueles a quem pregava. A abnegação, as orações, o zelo do novo missionário produziram o seu efeito; apesar de todos os obstáculos Paulo implantou a fé em Corinto.
A missão de instruir e ensinar os povos, convém também hoje ao sacerdote. Ele é como os Apóstolos, a luz do mundo e o sal da terra. Ele deve ter o seu emulo na pessoa dos Apóstolos.
CAPÍTULO XVI
A conquista de Roma pagã
Após setecentos anos de contínuas guerras, estavam os romanos senhores do imperium do mundo. Seguindo o espírito de todos os povos pagãos, não tinham eles combatido senão para conquistar e fazer escravos. Para eles era a terra uma ovelha, que não se contentaram com tosquiar, senão que também a esfolavam.
Subamos ao Capitólio, e vejamos o que faziam dos seus imensos despojos.
Lá se divisa uma cidade imensa; no seu âmbito se agitam mais de cinco milhões de habitantes: nada iguala o número dos seus palácios e templos. É espantoso que o mundo tivesse tanto ouro como o que foi preciso para os construir e adornar.
Estava Roma edificada sobre sete colinas; mas tanto se estendeu no tempo dos Césares, que já cingia esta coroa imperial a fronte de doze montanhas.
Dividia-se em quatorze bairros, cuja total circunferência era de duzentos e quatro mil, novecentos e quinze pés, contendo quarenta e oito mil, setecentos e dezenove casas. Deste número, dois mil eram palácios da mais incrível magnificência, formados de abóbada até certa altura, e construídos de pedra, que resistia ao fogo. Eram todos separados uns dos outros e sem muro intermédio: cada um era como uma cidade completa. Aí se achavam os fóruns, ou amplas praças, circos, pórticos, banhos, vastos jardins e ricas bibliotecas.
Para satisfazer a moleza e nutrir a ociosidade dos seus voluptuosos habitantes, tinha Roma novecentos estabelecimentos de banhos, duzentos e noventa celeiros, e quarenta e cinco palácios destinados à dissolução. Em sua vasta circunferência se erguiam quatrocentos e vinte templos de ídolos, nos quais se adoravam trinta mil deuses.
Havia ainda em Roma cinco naumaquias, ou espécies de lagos, onde se representavam batalhas navais; estátuas e obeliscos inumeráveis, trinta e seis arcos de triunfo de precioso mármore, ornados de esculturas; vinte e quatro cavalos de bronze dourado, e noventa e quatro de marfim; muitos anfiteatros, em um só dos quais cabiam oitenta e sete mil espectadores assentados; o grande Circo, onde havia lugares para cento e cinquenta mil pessoas, pela menor ponta, pois dizem alguns que tinha quatrocentos e oitenta e três mil lugares.
O que porém não havia era hospital, ou coisa semelhante. Enfim o palácio imperial, construído por Nero, muito menos notável pelo ouro e pedrarias prodigalizadas em seus ornamentos, do que pelas campinas, florestas e lagos de que era cercado. Vinte e quatro estradas, calçadas de grandes lajes, e guarnecidas de soberbos mausoléus, saíam das vinte e quatro portas de Roma e conduziam da capital do mundo às províncias do império.
Descemos agora do Capitólio, e penetremos no interior das casas: antes de chegar a seus donos, veremos milhares de escravos, que de dia estão à disposição de todos os seus caprichos, e de noite são fechados em uma espécie de prisões soturnas e infeitas, chamadas ergastula. A plebe que ferve pelas ruas, de noite dorme debaixo de alpendres, ou onde pode; de dia aglomera-se no anfiteatro ou nos lugares de devassidão: ela não quer mais que duas coisas; não tem mais que duas precisões: pão e prazeres.
Quanto ao rei, esse habita em quartos, cujas paredes são pintadas a fresco; o soalho, formado de ricos mosaicos; os tetos, cobertos de ouro, de maneira que não seriam hoje e para nós outra coisa, senão palácios da maior magnificência.
A história e os monumentos que ainda subsistem, atestam que o ouro, a prata, o marfim, as pedrarias, as madeiras mais raras e preciosas se empregavam na mobília com a mais larga profusão.
Cícero, o modesto Cícero, tinha uma mesa de cidreira, que custara duzentos mil sestércios. Uma simples casa, que ele comprou, de Crasso, custou-lhe três milhões e meio de sestércios.
Júlio César tinha duas mesas, que lhe custaram um milhão, novecentos e vinte mil sestércios: este mesmo César assistia aos jogos públicos assentado em uma cadeira de ouro maciço.
Contemos ainda a fortuna de alguns destes cidadãos de Roma.
Crasso possuía dois bilhões de sestércios, tanto em terras como em dinheiro, sem contar os seus móveis e os seus escravos. Por isso dizia ele modestamente, que nenhum homem podia chamar-se rico, se não estava em estado de sustentar com seus rendimentos uma legião; ora, é sabido que uma legião romana contava quase dez mil homens.
E assim havia muitos outros.
De que serviam aos romanos estas enormes riquezas, e o mundo inteiro submetido às suas leis?... Serviam-lhes, em relação a Deus, para o sacrilégio; em relação a si, para a imoralidade; a respeito dos outros, para a mais bárbara opressão. Nas mãos destes seres aviltados todas as criaturas se convertiam em instrumentos do crime.
A sua religião era uma grande infâmia; os seus templos, outras tantas paragens do vício; as suas festas, escolas de lubricidade; os seus deuses, modelos de quantas paixões tinham no coração.
Nada dizemos dos seus mistérios e suas ocultas insinuações, todo o homem honesto sabe porque o não fazemos. Diremos somente, que os exemplos de seus deuses serviam-lhes de incentivo a todos os crimes, conduzindo cada um como melhor os imitaria; e como se ainda fosse pouco a multidão de deuses de Roma, adotavam todos os das nações conquistadas, de maneira que se viam dentro em seus muros divindades de todas as figuras, de todos os nomes, e sacrifícios e religiões de todas as espécies.
Ali se oferecia o demônio, debaixo de mil e mil diversas formas, à adoração dos mortais. Roma era o centro do império, o templo e o céu de satanás.
Nutridas as paixões pela opulência, favorecidas pela religião, julgue-se quais seriam os costumes dos romanos, debaixo do ardente clima da Itália. O seu luxo e insensatas profusões excedem tudo quanto possa dizer-se. Calígula gastou, em menos de um ano, dois bilhões e setecentos milhões de sestércios, que o imperador Tibério lhe havia deixado.
Simples particulares, vindos das suas expedições, excediam em magnificência e luxo aos maiores monarcas; tal foi o famoso Lúculo. Além dos seus jardins, tão célebres na história, tinha muitos salões, a cada um dos quais deu o nome de uma divindade; e este nome era para o seu mordomo o sinal da despesa que ele queria fazer. Um dia visitando-o de improviso Pompeu e Cícero, Lúculo disse que jantaria no salão de Apolo, e se lhes serviu uma refeição que custou dez mil cruzados. Outra ocasião enfureceu-se contra o seu mordomo, porque, sabendo que tinha de jantar só, mandara preparar uma comida menos suntuosa. Não sabias tu, lhe diz aquele honesto homem, que Lúculo havia de jantar com Lúculo? Os seus excessos transformaram-lhe o juízo e morreu doido.
Ora, coube aos Apóstolos e sacerdotes a missão de introduzir o cristianismo em Roma e modificar radicalmente os costumes.
O trabalho foi extraordinário, de maneira que já dizia Tertuliano: "Nós ainda somos de ontem, e já enchemos toda a extensão dos vossos domínios; as cidades, villas, fortalezas, colônias, tribunais, campos, tribos, decurias, o palácio, o senado e o foro. Apenas vos deixamos os vazios os templos". "Ousais dizer, acrescenta o mesmo apologista, dirigindo-se aos pagãos, ousais dizer, que somos inúteis ao Estado; como assim?... Habitamos convosco, sem nenhuma diferença, tanto na matéria dos alimentos como do vestido, com os mesmos móveis e as mesmas precisões; porque não somos Brâmanes, nem Gimnosofistas da Índia, que habitemos as matas, separados do comércio dos homens.
Não nos esquecemos de pagar a Deus o tributo de reconhecimento, por todas as obras de suas mãos. Nada rejeitamos do que ele fez; e só sim cuidamos em não usar de coisa alguma excessiva e desnecessariamente, sem contudo nos privarmos do que é preciso à vida. Nós vamos ao foro como vós outros, vamos aos mercados, aos banhos, às feiras públicas, às lojas e hospedarias; navegamos convosco, servimos no exército, cultivamos a terra, finalmente exercemos as mesmas profissões como vós".
Com efeito, em todos os estados havia cristãos; como foram: na jurisprudência: Minúcio Félix, os senadores Hipólito e Apolino; na oratória: Quadrato, Aristides, Atenágoras, S. Justino e Tertuliano; na medicina: S. Lucas, S. Cosme e S. Damião; na arte militar: Cornélio, a Legião Fulminante, a Legião Tebana e aquele célebre capitão Dario, cuja inscrição, achada nas Catacumbas, é a seguinte: "Aqui jaz Dario, moço capitão do imperador Adriano, o qual assaz viveu, pois deu o sangue e a vida por Jesus Cristo. Os seus amigos, em meio de aflições e sustos, lhe levantaram esta lápide".
Encontram-se ainda muito maior número de cristãos em condições menos importantes; pobres, pela maior parte, que ganhavam a sua vida pelo trabalho de seus braços, como eram ferreiros, correeiros, tecelões, carvoeiros, lavradores, alfaiates, marceneiros, sapateiros e pescadores. Em todos os estados tem havido santos.
Deus o permitiu assim para nos ensinar, 1.º que a religião é bastante poderosa para santificar todas as profissões e condições do homem, e que lhe não é necessário retirar-se para o deserto, para obter a salvação; 2.º que se queremos salvar-nos no nosso estado, devemos imitar aqueles que vivendo nele, tiveram a felicidade de operar a sua santificação.
Entremos nos desígnios desta amável Providência, e vejamos como nossos pais desempenhavam os seus deveres em suas diferentes ocupações, para que tais exemplos nos sejam de proveito.
Antes de começar a trabalhar faziam sempre o sinal da cruz, acompanhando ordinariamente o serviço com cânticos sagrados. Ao seu trabalho presidia a boa fé, o ardor e a paciência, não havendo em todo o império gente mais assídua e honesta do que os cristãos.
Ao meio dia suspendiam suas fadigas, porque era a hora da comida; e antes de ir para a mesa, novamente faziam o sinal da cruz, invocando o nome do Senhor, tendo para si que primeiro convinha confortar a alma que nutrir o corpo, e assim liam também algumas passagens da Escritura Santa.
Acabada a leitura faziam o sinal da cruz sobre os alimentos, sobre o vinho e a água, e dizendo uma curta oração, começavam a comida.
Eis a fórmula dessa antiga bênção, cuja conservação se deve ao célebre Orígenes: "Ó vós, que dais sustento a tudo quanto respira, concedei-nos a graça de usar santamente destes alimentos, que a vossa misericórdia nos concede. Vós dissestes, ó meu Deus, que ainda quando os vossos discípulos bebessem algum veneno, nenhum mal lhe faria, se tivessem cuidado de invocar o vosso nome, porque vós sois infinitamente bom e poderoso; tirai, pois, deste alimento tudo quanto possa prejudicar o corpo e a alma de vossos servos."
Foi a obra dos sacerdotes que transformou a Roma dos deuses e dos vícios na Roma dos Papas, no centro do cristianismo.
CAPÍTULO XVII
Sobre as ruínas do Império Romano
Enquanto S. Leão se opunha com uma das mãos às assolações dos hereges, com a outra fazia parar os bárbaros, que vinham sobre o Império.
Com efeito, vemos no quinto século assomar no norte da Europa e da Ásia nuvens de bárbaros, dar sobre o império romano, abalá-lo por toda a parte, apoderar-se das mais belas províncias, trucidar seus habitantes e plantar suas tendas vagabundas sobre as ruínas das cidades e dos palácios.
Pelo ano 408, os Alemães se estabeleceram nas margens do Reno, desde Basileia até Mogúncia. Os Burgúndios ocuparam a Suíça e todo o território até às nascentes do Sena e do Loire. Os Vândalos devastam toda a Gália, país florescente, que dentro de pouco reduzem a um montão de cinzas e ruínas. Depois de o assolarem foram contra a Espanha, e ali se estabeleceram, expulsando os Romanos.
Por dois motivos o permitiu Deus assim: Primeiro para punir aquela velha sociedade, que se tinha inebriado com o sangue dos mártires, oprimido o mundo por espaço de muitos séculos, e que, apesar dos constantes rogos dos cristãos, tinha fechados os olhos à luz do Evangelho.
Em segundo lugar, para fazer passar a sagrada luz da fé a novos povos, que se aproveitassem dela. Tal a invariável Providência de Nosso Senhor: quando um povo recusa converter-se, ele o abandona, e chama outro que, por sua docilidade, venha a ser a consolação da Igreja. Nem tarda a cair o castigo sobre o povo réprobo, cujas ruínas e infortúnios, tornando-se monumento da sua justiça, contribuem para fortalecer o seu reino.
Dos formidáveis guerreiros que, durante o quinto século, foram o terror e desolação do império romano, houve dois, cujos nomes só nos fazem tremer ainda: Alarico e Átila.
Alarico, rei dos Godos, arremessou-se contra a Itália, como torrente que rompeu os diques, destruindo e assolando tudo por onde passava. No ano 410 estava ele às portas de Roma. Aquela orgulhosa cidade, soberba senhora do mundo, depois de sofrer um prolongado cerco, e os mais cruéis horrores da fome, rendeu-se de noite ao vencedor.
Alarico a pôs à discrição de seus bárbaros soldados. O saque e a matança foram horríveis, não escapando senão aqueles que se refugiaram nas igrejas de S. Pedro e de S. Paulo. Ao ferro se juntou o fogo. Os incêndios que crepitavam, e davam em terra com os edifícios, os insultos, os gritos, os alaridos, e as torturas, a toda a parte levavam a confusão e o pavor.
E, como se o mesmo céu se armasse para castigar esta culpada Babilônia, sobre o furor dos Godos acresceu tempestade horrível. Os raios despedidos das nuvens, derrubaram muitos templos, e reduziram a pó os outros adorados ídolos, que os imperadores cristãos tinham conservado para adorno de Roma. Assim perdeu a cidade em um só dia aquela magnificência que a tornava a primeira do universo, e a majestade do nome romano ficou para sempre obscurecida.
A religião que, nesta conjuntura, preservou Roma de ser completamente destruída, a salvou segunda vez sob Átila; e bem se pode dizer com toda a verdade, que foram os Papas os conservadores da cidade eterna.
Átila, rei dos Hunos, depois de ter passado o Danúbio e o Reno à testa de um inumerável exército, pôs todas as Gálias a fogo e sangue, e se dirigiu para a Itália. Este príncipe, enviado por Deus para castigar a moleza e corrupção dos romanos, tinha a consciência da sua terrível missão.
Intitulava-se em suas cartas, "o terror do universo e o açoite de Deus".
Costumava dizer que com a sua presença faria cair as estrelas, temer a terra, e que era o martelo do universo. Por espaço de vinte anos não fez mais que destruir cidades, e derribar tronos, não se aproveitando da maior parte das riquezas dos palácios dos reis, senão para distribuir pelos seus soldados.
Quando terminava as suas excursões, repousava na sua móbil tenda, onde lhe serviam de comer em pratos de pau. Era ele de pequena estatura, mas mui robusto, e tinha a voz forte e sonora. Diziam os seus reis vassalos, que consigo trazia, que não podiam suportar a severidade de sua catadura.
Na primavera do ano 452, Aquileia, Milão e todas as cidades da alta Itália caem com estrondo sob os golpes violentos do Bárbaro. As legiões romanas ficam espantadas, e a torrente devastadora corre para Roma com rapidez sempre crescente.
S. Leão acha na sua fé coragem para lhe opor um dique. Parte. Roma acompanha-o com a oração, e, a 11 de Junho de 452, chega ao acampamento de Átila, quase nas margens do lago da Guarda, nas ribeiras do Míncio, não longe da pequena cidade de Peschiera.
Aqui se oferece um dos mais grandiosos espetáculos que a imaginação pode conceber. A barbárie e a civilização, o paganismo e o cristianismo, o homem do espírito e o homem do sangue, o poder moral e a força material, em uma palavra, S. Leão e Átila estavam em presença um do outro.
Qual deles foi o vencedor? Antes de responder, cumpre advertir que aquele Deus, que vela pela Igreja, é o mesmo que marcou ao mar o seu limite com um punhado de areia, e lhe disse na sua onipotência: "Até aqui chegarás, mas aqui quebrará a impetuosidade de tuas ondas".
Na presença de Leão, o Bárbaro ficou imóvel, mudo, e não acha uma palavra senão para dizer aos seus oficiais espantados que ele via de pé ao lado do Pontífice um outro Pontífice cheio de majestade a ameaçá-lo de morte, se não obedecesse a Leão. E Átila, aterrado, manda tocar a retirar, retrocede e deixa a Itália.
Três anos depois, pouco mais ou menos, outra vez salvou este santo Pontífice a cidade de Roma; pois, havendo-a tomado Genserico, rei dos Vândalos, pediu-lhe S. Leão que a não pusesse a ferro e fogo, o que lhe foi concedido.
Neste mesmo tempo, uma simples pastora, Santa Genoveva, preservou a cidade de Paris dos furores de Átila, obtendo de Deus com suas orações, que o bárbaro conquistador não entrasse na cidade.
Desta arte em todos os tempos concede Deus defensores à sua Igreja, e aos povos filhos da Igreja; e estes defensores da fé, da vida, da civilização (ó, vergonha!) o mundo despreza-os!
Apesar dos esforços dos santos doutores e das orações dos solitários, continuavam os hereges e pagãos a fechar os olhos à luz, procurando ainda os sectários engrossar suas fileiras. Assim todos estes se tornaram indignos da verdade, e não tardou que a justiça de Deus lhes tirasse a tocha da fé, que lhes pusera diante por sua misericórdia, e a levasse a outros povos.
Porquanto nada deve perder a Igreja; novos filhos consolaram sempre esta terna mãe da apostasia daqueles que a abandonam.
Abala-se repentinamente o norte da Europa e Ásia. Inumeráveis hordas de bárbaros são dali enviadas a recolher o maná precioso da verdade, que o velho paganismo desdenha. Dois são os fins da sua missão; pois por uma parte haviam de punir a ingratidão, os crimes e a contumaz revolta do império romano contra o Cordeiro dominador do mundo; e por outra, consolar a Igreja, tornando-se dóceis filhos seus.
Aquela primeira parte é por onde começam; e eis que o vasto colosso, que por tanto tempo suplantara o mundo, e estivera por três séculos bebendo o sangue dos mártires, cai por terra sob o peso de seus golpes, ficando o seu despedaçado e disforme cadáver a clamar aos séculos futuros: "Assim será tratado o império que disser: Não quer que o Cristo reine sobre mim".
Sobre as ruínas do velho mundo se estabelecem os bárbaros. Então o amável filho do céu, a religião da caridade, se lhe apresenta; a sua doce voz de mãe teme os ouvidos e os corações dos formidáveis conquistadores, e doma aqueles leões indômitos. Primeiro os converteu ela em homens, esperando o tempo de os transformar em cristãos. Foi-se operando o milagre insensivelmente, e apareceu criado enfim um mundo novo.
Enquanto isto se passava, operava-se outro prodígio.
Não é mais exato o sol que alumia o mundo em passar de um ponto do céu a outro, do que o sol da verdade em ir iluminar novas nações, quando um povo indigno rejeita a sua luz.
Desta arte, no preciso momento em que as heresias estavam a ponto de arrebatar à Igreja numerosos filhos, pôs Deus a tocha sagrada nas mãos de um santo mancebo, para que a levasse a esclarecer uma nação inteira. S. Patrício, tornando-se apóstolo da Irlanda, conquistou para Jesus Cristo uma das mais fervorosas porções, e talvez a mais fiel do divino rebanho.
Nasceu este Santo em uma aldeia da Inglaterra, sendo de origem romana, e se crê que sua mãe fosse sobrinha de S. Martinho, bispo de Tours.
Foi Patrício educado na religião cristã. Aos quinze anos cometeu uma falta que todavia não parece de grande consideração, mas de que teve tão grande pesar, que a chorou toda a sua vida. Em breve, porém, se lhe ofereceram meios de dar a Deus maior glória do que lhe tinha tirado.
Andava ele ainda nos seus dezesseis anos quando foi levado em cativeiro por um bando de bárbaros, juntamente com muitos vassalos de seu pai. Conduziram-no à Irlanda, onde se viu obrigado a guardar rebanhos pelas montanhas e bosques, maltratado e sofrendo fome, sede, chuvas, neves e gelo. Porém Deus se compadeceu de sua alma; deu-lhe a conhecer toda a extensão de seus deveres, e lhe inspirou a vontade de os cumprir fielmente.
Obedecendo à graça, aceitou Patrício o seu estado como cristão, e não cuidou mais que dos meios de o santificar. A resignação e a oração fizeram com que suportasse seus males com alegria.
Passados seis anos de cativeiro pôde voltar à sua pátria, porém Deus lhe deu a saber por muitas visões, que se serviria dele para converter a Irlanda. Entre outras coisas, pareceu-lhe ver todos os meninos daquele país estendendo para ele os braços desde o ventre de suas mães, e implorando o seu auxílio com gemidos que partiam da alma.
Refere S. Próspero que Patrício recebera a sua missão para a Irlanda do Papa S. Celestino, que o sagrou Bispo daquela nação. Cheio de espírito apostólico, o Santo, tornando à pátria, abandonou heroicamente a sua família; vendeu, como ele mesmo diz, a sua nobreza, para servir a um povo estranho.
Passando pois à Irlanda, para trabalhar na extinção da idolatria, percorreu toda aquela ilha, embrenhando-se pelos sítios mais remotos, sem temer nenhum dos perigos a que se expunha. As suas pregações, fortificadas pela angélica paciência com que levava os trabalhos e adversidades, produziam assombrosos efeitos; de sorte que ainda antes de morrer teve a consolação de ver quase toda a Irlanda adorar o verdadeiro Deus. Foi sua preciosa morte no ano 464.
Salve, santa igreja d'Irlanda, virgem do norte, coroada de lírios e rosas, símbolos da integridade da tua fé e constância do teu valor nas sanguinosas perseguições que tens sofrido. Espera no Deus dos oprimidos e dos mártires, Aquele que quebrou o cetro dos Neros e Dioclecianos, saberá despedaçar o jugo, que há tantos séculos tem feito pesar sobre tua inocente cabeça os espoliadores e os tiranos.
Das mãos de Patrício passou o facho do Evangelho para as de uma jovem princesa, conservada, por milagre, de atrozes morticínios de sua família. Foi esta Santa Clotilde, que qual novo apóstolo, converteu os Francos e lhes assegurou mais glória que todas as conquistas de seus esforçados e valorosos guerreiros.
Era Clotilde filha de Chilperico, irmão de Gondebaldo, rei dos Burgúndios. Este último ensopou as mãos no sangue de seu irmão e cunhado e no dos príncipes filhos destes, para se fazer senhor de seus domínios. Poupou a vida porém a duas meninas, filhas de Chilperico, por serem de rara formosura, e porque de sua tenra idade nada receava.
Destas encerrou a mais velha em um mosteiro, onde ela se fez religiosa; e Clotilde, que era a mais nova, ficou na corte de seu tio.
Teve ela a fortuna de ser educada na religião católica, suposto ser obrigada a viver no meio de arianos.
Quase desde a infância Clotilde se acostumou a desprezar o mundo, e fortificar a sua piedade com a prática das obras de misericórdia. A sua inocência conservou-se intacta, no meio dos sedutores encantos da vaidade, que por toda a parte a rodeavam.
Clóvis, rei dos Francos, destruidor do romano poder nas Gálias, a mandou pedir em casamento. Foi bem recebida a sua pretensão, mas puseram-lhe a cláusula, que a princesa teria liberdade de professar a sua religião.
Ele a esposou solenemente em Soissons no ano 493. Mandou Clotilde construir no palácio de seu marido um pequeno oratório, onde passava muito tempo em oração, praticando além disso secretamente muitas mortificações. Todavia, a estes exercícios presidia a prudência, e à rainha não faltava a nenhuma das conveniências do seu estado.
A igualdade do seu caráter, a sua benignidade e condescendência cativaram a afeição de seu marido; e tanto que ela viu que dominava inteiramente o seu coração, não cuidou mais que de executar o projeto que trazia, de o lucrar para Jesus Cristo.
Falava-lhe muitas vezes da validade dos ídolos e da excelência da religião cristã. Clóvis a ouviu sempre com prazer, mas ainda não era chegado o momento da sua conversão.
De feito, passados poucos anos, estando Clóvis em guerra com os Alemães, deu-lhes batalha em Tolbiac, perto de Colônia. Sobrevindo a desordem no seu exército, e não tardou que ele mesmo se visse a ponto de cair nas mãos de seus inimigos. Ele invoca os seus deuses, mas eles são surdos, e nada pode conter os soldados, que de toda a parte fogem.
Neste aperto se lembra Clóvis do Deus de Clotilde, ao qual chama, e lhe promete adorar a ele só, se o fizesse vitorioso. De repente mudou o aspeto do combate, e os Alemães foram destroçados com grande mortandade.
Expediu-se logo um correio, para anunciar a Clotilde o que se tinha passado. A piedosa princesa, transportada de alegria, saiu logo ao encontro do rei, ao qual veio esperar em Reims.
S. Remígio, Bispo daquela cidade, acabou de instruir o fero conquistador. Clóvis não hesitou mais na sua conversão; reuniu seus soldados e os exortou a que seguissem o seu exemplo, renunciassem à vaidade dos ídolos e adorassem o verdadeiro Deus, a quem eram devedores da vitória. De repente foi interrompido pelas aclamações dos Francos que de toda a parte bradaram: "Renunciamos aos deuses mortais; estamos prontos a adorar o verdadeiro Deus, o Deus, que Remígio prega".
Designou-se para o dia do batismo a vigília do Natal. Remígio que desejava deslumbrar os olhos dos Francos com o que a religião tem de mais augusto em suas cerimônias, nada omitiu, para que esta festa fosse esplêndida. Mandou adornar a igreja e o batistério com as mais ricas tapeçarias e acender grande número de círios, cuja cera tinham misturado com preciosos perfumes, de sorte que todo o lugar sagrado parecia exalar celestial fragrância.
O solene dos catecúmenos foi dos mais luzidos. As ruas e praças públicas estavam ricamente adornadas, e o cortejo, saindo processionalmente com a cruz e os santos evangelhos do palácio do rei, dirigiu-se à igreja, cantando hinos e ladainhas.
S. Remígio levava o rei pela mão, seguia-se a rainha com as duas princesas, irmãs de Clóvis, e por último três mil homens do seu exército, pela maior parte oficiais, que o seu exemplo ganhou para Jesus Cristo.
O rei, tanto que chegou ao batistério, pediu o batismo. Então o Santo Bispo, ostentando aquela autoridade que convém ao ministro do soberano Senhor do céu e da terra, e assumindo uma linguagem de que a história própria não tem exemplo, disse ao monarca: "Príncipe Sicambro, baixa a cabeça; adora o que tens queimado; queima o que tens adorado".
Clóvis, convertido em manso cordeiro, inclinou-se sob a mão do pontífice. Depois, tendo confessado a Trindade Santíssima e os mistérios da fé, recebeu o batismo e a unção do santo crisma. Foi isto no ano 496.
Os três mil Francos que o acompanhavam, não contando suas mulheres e filhos, foram ao mesmo tempo batizados pelos Bispos e ministros que para esta cerimônia concorreram a Reims.
Todos esses povos bárbaros, Francos, Burgúndios, Godos, Vândalos, Hunos, Alanos, Lombardos e tantos outros, que por espaço de mais de um século afluíam das extremidades do norte, todos deviam entrar sucessivamente no grêmio da Igreja. E enquanto não chegava este momento cumpriam sem descanso a tremenda missão, que tinham, de destruir o mundo antigo.
Foram os sacerdotes e os Bispos que converteram os bárbaros e fundaram a nova cristandade.
CAPÍTULO XVIII
Missão do Sacerdote
O sacerdote é por sua vocação e divino mandato o principal apóstolo e o promotor incansável da educação cristã da juventude. O sacerdote, em nome de Deus, abençoa as núpcias cristãs e lhes defende a santidade e indissolubilidade contra os atentados e as aberrações sugeridas pela cobiça e pela sensualidade.
O sacerdote traz a mais valiosa contribuição à solução ou ao menos à mitigação dos conflitos sociais, pregando a fraternidade cristã, lembrando a todos os deveres mútuos da justiça e da caridade evangélica, pacificando os ânimos exasperados pela ruína moral e econômica, indicando aos ricos e aos pobres os únicos bens a que todos podem e devem aspirar.
O sacerdote, afinal, é o mais eficaz pregoeiro daquela cruzada de expiação e de penitência, para a qual convidamos todos os bons, a fim de repararem as blasfêmias, as torpezas e os crimes que desonram a humanidade na hora que passa, hora que, como poucas outras na história, tem tão grande necessidade da misericórdia divina e de seu perdão.
E os inimigos da Igreja bem conhecem a importância vital do sacerdócio, contra o qual, como aconteceu no México, na Espanha e outros países, dirigem em primeiro lugar os seus golpes, para fazê-lo desaparecer e abrir o caminho da sempre desejada e nunca conseguida destruição da Igreja.
O gênero humano experimentou sempre a necessidade de de ter sacerdotes, isto é, homens que, em virtude de uma missão oficial recebida, fossem os medianeiros entre Deus e os homens, e inteiramente dedicados à tal mediação, fizessem dela o munus de sua vida: destinados a oferecer a Deus orações públicas e sacrifícios em nome da sociedade, que, como tal, também tem o dever de render a Deus culto público e social, de n'Ele reconhecer seu Senhor supremo e primeiro princípio, de aspirar a Ele como seu último fim, de lhe dar graças e torná-lo propício.
Realmente, em todos os povos, cujos hábitos conhecemos e não obrigados pela violência a renegar as leis mais sagradas da natureza humana, encontramos sacerdotes, embora muitas vezes a serviço de falsas divindades: por toda a parte onde se professa uma religião, por toda parte onde se erigem altares, lá se encontra um sacerdote, cercado de honra e de veneração.
Às luzes porém da divina revelação, o sacerdote aparece revestido de uma dignidade incomparavelmente superior, prenunciada de um modo misterioso na figura veneranda de Melquisedeque, sacerdote e rei, cujo exemplo o Apóstolo S. Paulo refere à pessoa e ao sacerdócio de Jesus Cristo.
O sacerdote, segundo a magnífica definição do mesmo São Paulo, é sem dúvida um homem "assumido do meio dos homens", mas "constituído em benefício dos homens naquelas coisas que se referem a Deus". A sua missão não tem por objeto as coisas humanas e transitórias, ainda que pareçam elevadas e dignas de apreço, mas as coisas divinas e eternas; coisas que, por ignorância, podem ser escarnecidas e desprezadas, que podem ser também hostilizadas com maldade e furor diabólico, conforme uma triste experiência muitas vezes o provou e o prova ainda, mas que ocupam sempre o primeiro lugar nas aspirações individuais e sociais da humanidade, a qual sente irresistivelmente ter sido criada para Deus e não poder achar socego senão n'Ele.
Nos livros do Antigo Testamento, ao sacerdócio instituído pelas normas que Moisés promulgou, sob a inspiração de Deus, são atribuídos peculiares ofícios, encargos e ritos. Parece que Deus, na sua solicitude, quis imprimir um espírito ainda primitivo da nação judaica, uma grande ideia central que, na história do povo eleito, irradiasse a sua luz sobre todos os acontecimentos, as leis, as dignidades, os ofícios: o sacrifício e o sacerdócio, a fim de que, pela fé no futuro Messias, se tornasse fonte de esperança, de glória, de força, de libertação espiritual.
O templo de Salomão, admirável pela riqueza e esplendor e ainda mais pelas suas instituições e ritos, erigido ao único verdadeiro Deus como tabernáculo da divina majestade sobre a terra, representava também um altíssimo poema composto em louvor do sacrifício e do sacerdócio que, apesar de sombra e imagem, encerraram tanto mistério que o próprio Alexandre Magno, na presença da figura do Sumo Sacerdote, inclinou reverentemente a fronte vencedora, e o mesmo Deus fazia sentir sua indignação ao ímpio rei Baltasar, por ter, banqueteando-se, profanado os vasos sagrados do templo.
Contudo, o antigo sacerdócio não derivava a sua glória e majestade senão da representação que era do sacerdócio cristão, do sacerdócio do novo e eterno Testamento confirmado com o sangue do Redentor do mundo, de Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
O Apóstolo das Gentes, em traços lapidares, resume quanto se pode dizer a respeito da grandeza, dignidade e as atribuições do sacerdócio cristão, com estas palavras: "Assim todos nos considerem como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus".
O sacerdote é ministro de Jesus Cristo; é pois instrumento nas mãos do divino Redentor para a continuação da sua obra redentora em toda a sua mundial universalidade e eficácia divina, para a continuação daquela obra admirável que transformou o mundo. E até o sacerdote, como com razão se costuma dizer, é um "outro Cristo", porque representa a sua pessoa, segundo aquelas palavras: "Como o Pai me enviou, Eu também envio a vós", também ele, como seu Mestre, entoa "glória a Deus nas alturas" e recomenda a paz "aos homens de boa vontade".
Como ensina o Concílio de Trento, primeiro, Jesus Cristo na última Ceia instituiu o sacrifício e o sacerdócio da Nova Aliança... "Pois, Ele, pois, Deus e Senhor Nosso, posto que mediante a morte sobre o altar da cruz, se havia de oferecer uma vez ao Eterno Pai, para n'Ele obrar a redenção eterna; contudo como pela morte se não havia de extinguir o seu Sacerdócio, na última Ceia, em cuja noite foi entregue, para deixar à sua dileta esposa, a Igreja, um sacrifício visível, como é exigido pela natureza dos homens, e em que se representasse aquele que se havia de obrar na cruz, e a memória dele durasse até o fim do século, e a sua virtude se aplicasse em remissão dos pecados que cada dia cometemos, declarando-se Sacerdote perpétuo, seguindo a ordem de Melquisedec, ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue debaixo das espécies de pão e vinho; e o deu aos Apóstolos, que então constituiu sacerdotes do Novo Testamento debaixo dos símbolos destas mesmas coisas; e a eles e seus sucessores no sacerdócio, mandou que o oferecessem com estas palavras: "Fazei isto em memória de mim".
E desde então os Apóstolos e seus sucessores no sacerdócio principiaram a levantar para o céu aquela "oblação pura", predita por Malaquias, pela qual grande se torna o nome de Deus entre as nações, e que está sendo oferecida em todos os lugares da terra e em todas as horas do dia e continuará a sê-lo até o fim do mundo.
É verdadeira ação sacrifical e não um mero símbolo, e possui uma eficácia real para a reconciliação dos pecadores com a divina Majestade, "pois, o Senhor, aplacado por esta oblação, concedendo a graça e o dom da penitência, perdoa também as culpas e os pecados mais graves".
A razão disto tudo é apontada pelo mesmo Concílio Tridentino: "Uma só é mesma é a vítima, e Aquele que agora a oferece mediante o ministério dos sacerdotes, é aquele mesmo que então se ofereceu a si mesmo sobre a cruz, sendo diferente só a maneira".
Daí ressalta luminosamente a inefável grandeza do sacerdócio humano que tem poder sobre o próprio corpo de Jesus Cristo, tornando-o presente sobre os altares e oferecendo-se em nome do mesmo Cristo vítima sumamente grata à divina Majestade. "Admiráveis são estas coisas — exclama com razão S. João Crisóstomo — admiráveis e cheias de estupor".
Além deste poder que exerce sobre o corpo real de Cristo, o sacerdote recebeu outros poderes excelso e sublimes sobre o seu corpo místico que é a Igreja. Não é necessário estender-nos na exposição desta bela doutrina do corpo místico de Jesus Cristo, tão cara a S. Paulo e que nos mostra a pessoa do Verbo feito homem, juntamente com seus irmãos, aos quais chega o influxo sobrenatural que dele deriva, formando com Ele como cabeça um só corpo do qual eles são os membros.
Pois bem. O sacerdote é constituído "dispensador dos mistérios de Deus" em benefício destes membros do corpo místico de Jesus Cristo, na qualidade de ministro ordinário de quase todos os sacramentos que são os canais pelos quais corre em bem da humanidade a graça do Redentor.
O cristão, nas horas mais importantes da vida, encontra a seu lado o sacerdote para conferir ou aumentar, com poder recebido de Deus, aquela graça que é a vida sobrenatural da alma.
Apenas nascido, o sacerdote o regenera com o batismo para uma vida mais nobre e mais preciosa, a vida sobrenatural, e o torna filho de Deus e da Igreja de Jesus Cristo; para fortalecê-lo no combate generoso das lutas espirituais, um sacerdote revestido de dignidade especial, o faz soldado de Cristo na crisma; apenas é capaz de discernir e estimar o Pão dos Anjos, o sacerdote lho distribui, alimento vivo e vivificador, descido dos céus; caindo em pecado, o sacerdote o levanta em nome de Deus e com Ele o reconcilia por meio da penitência; se Deus o chama para constituir família e colaborar com Ele na transmissão da vida humana no mundo a fim de aumentar, primeiro, o número dos fiéis na terra e, segundo, o dos eleitos no céu, o sacerdote deve abençoar as suas núpcias e o seu casto amor; e quando o cristão, nos umbrais da eternidade, precisa de força e de coragem antes de apresentar-se ao tribunal do Juiz divino, o sacerdote se inclina sobre os membros sofredores do enfermo e o consagra novamente e conforta com o Óleo Santo.
Depois de ter acompanhado assim o cristão na peregrinação terrestre até às portas do céu, o sacerdote acompanha seu corpo à sepultura com os ritos e as preces da esperança imortal e segue a sua alma até além das portas da eternidade para lhe prestar socorro com os sufrágios cristãos, se porventura ainda necessita de purificação e de alívio.
Desta maneira, do berço ao túmulo, e mesmo até ao céu, o sacerdote acha-se ao lado dos fiéis como guia, consolador, ministro de salvação, distribuidor de graças e de bênçãos.
Porém, entre todos estes poderes que o sacerdote possui sobre o corpo místico de Cristo em benefício dos fiéis, há um sobre o qual não podemos nos contentar da simples menção feita pouco antes: aquele poder, "que Deus não deu aos Anjos e aos Arcanjos", conforme diz S. João Crisóstomo, isto é, o poder de perdoar os pecados: "A quem perdoardes os pecados, serão perdoados, a quem os retiverdes, serão retidos".
Poder formidável tão próprio de Deus, que o mesmo orgulho humano não chegava a compreender como era possível que ele fosse comunicado ao homem: "Quem pode perdoar os pecados senão só Deus?"
Certamente, vendo este poder exercido por um homem, como o é o sacerdote, somos forçados a perguntar, não por escândalo farisaico, mas cheios de respeitosa admiração: "Quem é este que até perdoa os pecados?"
Mas por isso mesmo o Homem-Deus que tinha e sempre tem "sobre a terra o poder de perdoar os pecados", quis transmiti-lo aos seus sacerdotes para ir ao encontro, com divina liberalidade e misericórdia, à necessidade de purificação moral que está íngênita em a natureza humana.
Extraordinária consolação daí se deriva ao pecador que atormentado pelo remorso e arrependido, ouve a palavra proferida em nome de Deus: "Eu te absolvo dos teus pecados". Já o fato de ouvi-la da boca de alguém que, por sua vez, terá necessidade de pedi-la a outro sacerdote, não só não degrada o dom misericordioso de Deus, mas antes fá-lo parecer maior, deixando entrever, além da frágil criatura, a mão de Deus, cujo poder opera esta maravilha.
E é por isso que — fazendo nossas as palavras d'um ilustre escritor (Alexandre Manzoni) que trata também das coisas sagradas com uma competência rara entre os leigos — "quando um sacerdote, fortemente comovido em sua alma por se julgar indigno e se não achar na altura de suas funções, estende sobre nós suas mãos consagradas; quando humilhado por exercer as funções de dispenseiro do Sangue da Aliança, assombrado todas as vezes que profere as palavras que dão a vida, pecador ele mesmo, absolve um pecador, nós, levantando-nos de seus pés, sentimos não ter cometido nenhuma vileza... Estivemos aos pés d'um homem que representava Jesus Cristo... lá fomos para adquirir a qualidade de libertos e de filhos de Deus".
Estes poderes excelso conferidos ao sacerdote em um sacramento especial, não são nele transitórios e passageiros, mas estáveis e perpétuos, oriundos como são de um caráter indelével impresso em sua alma e pelo que se tornou sacerdote eternamente, à semelhança d'Aquele de cujo sacerdócio participa; caráter que o sacerdote, mesmo entre as mais lamentáveis aberrações em que por fragilidade humana possa cair, nunca poderá cancelar de sua alma.
Mas juntamente com este caráter e estes poderes, o sacerdote, pelo sacramento da Ordem, recebe nova e especial graça com especiais auxílios, por meio dos quais, se com sua livre e pessoal cooperação fielmente seguir a ação divinamente poderosa da mesma graça, poderá ele dignamente cumprir os difíceis deveres do estado sublime para o qual foi chamado e levar, sem ser esmagado, as tremendas responsabilidades inerentes ao ministério sacerdotal, e que fizeram tremer até os mais fortes atletas do sacerdócio cristão, como C. João Crisóstomo, Santo Ambrósio, S. Gregório Magno, S. Carlos e tantos outros.
Mas, o sacerdote católico é ministro de Cristo e dispensador dos mistérios de Deus também com a palavra, com o "ministério da palavra", que é um direito inalienável e ao mesmo tempo um dever imprescritível que lhe foi imposto pelo próprio Jesus Cristo: "Ide e ensinai a todos os povos... ensinando-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado".
A Igreja de Cristo, depositária e guarda infalível da revelação divina, por meio dos seus sacerdotes distribui os tesouros da verdade celeste, prega Aquele que é a "luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo", e espalha, com divina profusão, a semente, pequena e desprezada ao olhar profano do mundo, mas que, à semelhança do evangélico grão de mostarda, deita raízes sólidas e profundas nas almas sinceras e sequiosas de verdade e as torna, como árvores fortes, invencíveis também em meio das mais violentas tempestades.
No meio das aberrações do pensamento humano embrião de uma falsa liberdade sem lei e sem freio, no meio da corrupção espantosa da maldade humana, se ergue como farol luminoso a Igreja que condena qualquer desvio para este ou aquele lado longe da verdade e mostra a todos e a cada um o caminho reto a seguir. E ai de nós, se também este farol, não dizemos se apagasse, o que é impossível por causa das promessas divinas em que se baseia, mas fosse impedido de espalhar profusamente a sua luz rutilante!
Já vemos com nossos olhos o abismo para onde foi arremessado o mundo por ter rejeitado orgulhosamente a revelação divina e ter seguido, embora sob o espetaculoso título de ciências, falsas teorias filosóficas e morais. E se no precipício do erro e do vício não se desceu mais baixo ainda, este se deve aos raios da verdade cristã que são difundidos por toda parte.
Ora, a Igreja desempenha o seu "ministério da palavra" por meio dos sacerdotes, distribuídos sabiamente pelos diversos graus da sagrada hierarquia, que ela envia para todos os lugares, arautos incansáveis da boa nova que só tem o poder de conservar, levar ou fazer ressurgir a verdadeira civilização.
A palavra do sacerdote desce nas almas e lhes traz luz e conforto; a palavra do sacerdote, também no turbilhão das paixões, se faz ouvir serenamente, anuncia sem temor a verdade e inculca o bem; a verdade que esclarece e resolve os mais graves problemas da vida humana, o bem que nenhuma desgraça, nem sequer a morte, pode arrebatar, e que, ademais, a morte garante e imortaliza.
Se pois se considerarem uma por uma as mesmas verdades que o sacerdote deve mais frequentemente inculcar para ser fiel aos deveres do seu ministério, e se delas ponderarmos a íntima força, bem se compreende quão grande seja e proveitoso, para a elevação moral e a pacificação e tranquilidade social dos povos, o influxo do sacerdote: quando, por exemplo, recorda aos grandes e aos pequenos a fugacidade da vida presente, a caducidade dos bens terrestres, o valor dos bens espirituais e da alma imortal, a severidade dos divinos juízos, a santidade incorruptível do olhar divino que perscruta os corações de todos e "retribuirá a cada um conforme suas obras".
Nada mais próprio que estes e semelhantes ensinamentos para mitigar a febril avidez de gáudio, a desenfreada cobiça dos bens temporais que hoje degradam tantas almas e impelem as várias classes da sociedade a se guerrearem como inimigas em vez de se ajudarem reciprocamente pela mútua colaboração.
No meio pois do choque de tantos egoísmos, no deflagrar de tantos ódios, em face de tantos desejos nefastos de vingança, nada mais oportuno e de mais eficaz do que proclamar, alto e bom som "o mandamento novo" de Jesus, o preceito da caridade, o qual se estende a todos, não conhece barreiras nem confins de nações ou de povos, e não exclui nem mesmo os inimigos.
Uma experiência gloriosa de já vinte séculos demonstra toda a eficácia salutar da palavra sacerdotal, que sendo eco fiel e repercussão daquela palavra de Deus "que é viva e eficaz e afiada como uma espada de dois gumes", também chega "até a divisão da alma e do espírito", desperta heroísmo de todo o gênero, em todas as classes e lugares, e cria a ação desinteressada dos corações mais generosos.
Todos os benefícios que a civilização trouxe ao mundo, se devem, ao menos na sua origem, à palavra e à obra do sacerdote católico. E tal passo por si só seria penhor suficiente para o futuro, se não tivéssemos "uma palavra mais segura" nas promessas infalíveis de Cristo.
Também a obra missionária, que patenteia de modo tão luminoso o poder de expansão de que por virtude divina é dotada a Igreja, é promovida, e coroada de esforços pelos sacerdotes que, pioneiros da fé e da caridade, à custa de inúmeros sacrifícios, estendem e dilatam o reino de Deus sobre a terra.
CAPÍTULO XIX
Medianeiro entre Deus e os homens
O sacerdote, perpetuando também nisso a missão de Cristo, o qual "passava a noite em oração", e "sempre vive para interceder por nós", é, por ofício, intercessor público de todos perante Deus e tem o encargo de oferecer a Deus em nome de Igreja não só o sacrifício propriamente dito, mas também o "sacrifício de louvor" com a oração pública e oficial; ele, com salmos, preces e cânticos, tirados em grande parte dos Livros inspirados, rende a Deus cada dia, mais vezes, o devido tributo de adoração, cumprindo o ofício necessário de pedir pela humanidade, hoje mais que nunca aflita e atormentada, e carecedora do auxílio de Deus. Quem poderá dizer quantos castigos a oração sacerdotal afasta da cabeça da humanidade pecadora e quantos benefícios lhe proporciona e alcança?
Se já a oração privada tem promessas divinas tão magníficas e tão solenes feitas por Cristo, mais poderosa será, sem dúvida, a prece feita oficialmente em nome da Igreja, Esposa dileta do Redentor.
O cristão, frequentemente esquecido de Deus na prosperidade, guarda no fundo da alma a confiança na oração, sente que a oração tudo pode e, como que instintivamente, em todas as dificuldades, em qualquer perigo público ou privado, recorre com singular confiança à oração do sacerdote.
A ela pedem conforto os fiéis de toda espécie, a ela recorrem para implorar auxílio divino nas diversas vicissitudes deste exílio terreno.
Em verdade, "o sacerdote está no meio entre Deus e a natureza humana, trazendo-nos de uma parte os benefícios de Deus, e de outra apresentando a Ele as nossas orações, reconciliando-nos com o Mesmo se indignado contra nós".
De resto, os próprios inimigos da Igreja, a seu modo, mostram ser compenetrados da dignidade e da importância do sacerdócio católico, dirigindo contra ele os seus primeiros e mais ferozes golpes, bem compreendendo quão íntimo é o nexo que existe entre a Igreja e seus sacerdotes.
Os mais encarniçados inimigos do sacerdócio católico são hoje os mesmos inimigos de Deus: eis pois um título de honra que torna o sacerdócio mais digno de respeito e veneração.
Sublimíssima, pois, é a dignidade sacerdotal, e as faltas, embora deploráveis e dolorosas de alguns indignos, cometidas por fraqueza humana, não podem escurecer o esplendor desta elevadíssima dignidade, como não devem fazer esquecer as benemerências de tantos sacerdotes insignes por virtude, ciência, obras de zelo e pelo martírio.
Acresce que a indignidade do indivíduo não torna inválida a ação do seu ministério: a indignidade do ministro não vicia a validade dos sacramentos que auferem sua eficácia do Sangue de Cristo, independentemente da santidade do instrumento, isto é, consoante à expressão da linguagem eclesiástica, exercem sua ação "ex opere operato".
No entanto, é evidente que esta dignidade por si mesmo exige de todos que dela se acham revestidos, uma elevação de mente, uma pureza de coração, uma santidade de vida correspondente à grandeza e santidade da missão sacerdotal. É o que, como dissemos, constitui o sacerdote mediador entre Deus e os homens, em representação e por ordem d'Aquele que é "o único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus". Deve, por conseguinte, avizinhar-se quanto possível da perfeição d'Aquele de quem faz as vezes e tornar-se sempre mais agradável a Deus com a santidade da vida e das obras; visto que, mais do que o perfume dos incensos, mais do que o esplendor dos templos e dos altares, Deus ama e aceita com agrado a virtude. "Tornando-se (os ordenados) medianeiros entre Deus e o povo, diz Santo Tomás, devem resplandecer pela pureza da consciência diante de Deus e pela boa fama diante dos homens".
Pelo contrário, se quem trata e administra as coisas santas, leva uma vida censurável, as profana e se torna sacrílego: "Aqueles que não são santos, não devem tratar as coisas santas" (Decretals).
Por isso, já no Antigo Testamento Deus ordenou aos seus sacerdotes e levitas: "Sejam santos, porque sou santo também eu que os santifico".
E Salomão, o mais sábio dos reis, no cântico da dedicação do templo, pede isto mesmo ao Senhor para os filhos de Aarão: "Os teus sacerdotes se revistam de justiça e os teus santos exultem".
Pois bem, "se tanta perfeição, santidade e disposição — diremos com S. Roberto Belarmino — se exigia naqueles sacerdotes que sacrificavam ovelhas e bois e louvavam a Deus por benefícios temporais; que se não deverá exigir dos sacerdotes que sacrificam o Cordeiro Divino e lhe rendem graças por benefícios eternos?"
"Realmente grande, exclama S. Lourenço Justiniano, é a dignidade dos Prelados, porém, maior é o peso dela: colocados como estão em grau tão elevado diante dos olhos dos homens, é mister que também se elevem ao sublime vértice de todas as virtudes aos olhos d'Aquele que tudo vê; do contrário, estão acima dos outros não para seu proveito, mas para sua condenação".
Na verdade, todos os títulos por nós referidos para provar a dignidade do sacerdócio católico, agora recordamos como outros tantos argumentos para demonstrar aos sacerdotes o dever que lhes incumbe de adquirir uma santidade sublime.
Pois, como ensina o Doutor Angélico, para exercer devidamente as sagradas ordens não basta uma virtude qualquer, mas se requer uma virtude eminente; assim como aqueles que recebem as ordens sagradas ficam constituídos, por razão das mesmas, num nível superior ao povo, assim também lhes cabe serem superiores na santidade.
Com efeito, o sacrifício eucarístico, em que se imola a Vítima imaculada que tira os pecados do mundo, de modo particular exige que o sacerdote com uma vida santa e intemerata, se torne, o menos possível, indigno de Deus, a quem diariamente oferece aquela Vítima adorável que é o próprio Verbo de Deus feito homem por nosso amor. "Reparai no que fazeis, imitai o que exerceis", diz a Igreja pela boca do Bispo aos diáconos que vão ser ordenados sacerdotes.
Além disso, o sacerdote é distribuidor da graça de Deus, da qual os sacramentos são os canais; e de certo seria sumamente deplorável se tal distribuidor ou estivesse ele mesmo privado dessa graça preciosíssima ou pouco a estimasse e com descuido a conservasse.
Ele ainda deve ensinar as verdades da fé; a verdade religiosa nunca se ensina tão digna e tão eficazmente como quando é acompanhada da virtude; visto que, conforme diz o adágio comum: "As palavras movem, os exemplos arrastam".
Deve anunciar a lei evangélica; mas para alcançar que outros a abracem, o argumento mais acessível e mais persuasivo, com a graça de Deus, é ver aquela lei atuada na vida de quem inculca a sua observância. S. Gregório Magno acertadamente assinala a razão desse fato: "Mais facilmente penetra no coração dos ouvintes aquela voz que tem para seu abono a vida do pregador, porque, mostrando com o exemplo a maneira conforme a qual se deve agir, auxilia a fazer o que inculca".
Diz a Sagrada Escritura do divino Redentor que "começou a fazer e a ensinar" e as turbas aclamam-no não tanto porque "nunca ninguém falou como este homem", mas antes porque "fez tudo bem".
Pelo contrário, "aqueles que dizem e não fazem" se tornam semelhantes aos escribas e fariseus que o divino Redentor, ressalvando entretanto a autoridade da palavra de Deus que anunciavam legitimamente, condenou com estas palavras dirigidas ao povo: "Sobre a cátedra de Moisés se sentaram os escribas e os fariseus; observai, portanto, e fazei tudo o que eles vos dizem; mas não agi segundo as suas obras".
Um pregador que não se esforçasse por confirmar com o exemplo da vida a verdade que anuncia, destruiria com uma mão o que edifica com a outra.
E Deus, pelo contrário, largamente abençoa as fadigas dos arautos do Evangelho que antes de tudo atendem seriamente à própria santificação; vêem eles desabrochar copiosamente as flores e os frutos do seu apostolado e no dia da colheita "voltando, trarão com alegria os seus feixes".
Seria um erro gravíssimo e muito perigoso se o sacerdote, movido por falso zelo, descuidasse a própria santificação para se mergulhar totalmente nas obras exteriores, mesmo boas, do ministério sacerdotal. Com isto, poria em perigo a própria salvação eterna, conforme receava o grande Apóstolo das Gentes para si mesmo: "Castigo o meu corpo e o escravizo, para que não aconteça que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo me torne réprobo", e se exporia ao risco de perder também senão a graça divina, pelo menos aquela unção do Espírito Santo, que dá uma admirável força e eficácia ao apostolado externo.
De resto, se para todos os cristãos está dito: "Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai que está nos céus", quanto mais devem os sacerdotes considerar dirigidas a si estas palavras do divino Mestre, chamados como estão, com vocação especial, e segui-lo mais de perto.
Por isso a Igreja inculca abertamente aos clérigos esta gravíssima obrigação, inserindo-a no código das suas leis: "Os clérigos devem levar uma vida interna e externamente mais santa que os leigos e servir-lhes de preclaro exemplo na virtude e retidão da vida". E já que o sacerdote é embaixador de Cristo, deve viver de modo a poder repetir com verdade as palavras do Apóstolo: "Sede imitadores meus, como eu o sou de Cristo", deve viver como outro Cristo, que com o fulgor de suas virtudes iluminava e ilumina o mundo.
Mas se todas as virtudes cristãs devem florescer na alma sacerdotal, há umas porém que de modo particular convêm e mais condizem com o sacerdote. Antes de tudo, a piedade, segundo a exortação do Apóstolo ao seu dileto Timóteo: "É mister que te exercites na piedade".
Realmente, se tão íntimas, tão delicadas e frequentes as relações do sacerdote com Deus, evidentemente deverão ser elas acompanhadas e, como que embalsamadas pelo perfume da piedade: só a piedade é útil para tudo, ela é útil sobremaneira para o reto exercício do ministério sacerdotal.
Sem a piedade, as mais santas práticas, os ritos mais augustos do sagrado ministério serão executados mecanicamente e por rotina; faltar-lhe-á o espírito, a unção, a vida. A piedade, porém, de que falamos, não é aquela falsa piedade, superficial e externa que agrada mas não alimenta, excita mas não santifica. Falamos da piedade sólida, a qual, sem estar sujeita às incessantes flutuações do sentimento, é fundada sobre princípios da mais sólida doutrina e é formada, portanto, por convicções seguras que resistem aos assaltos e às lisonjas da tentação.
E esta piedade, se deve ser em primeiro lugar dirigida para o Pai que está nos céus, deve também ter por alvo a Mãe divina, tanto maior da dos simples fiéis, quanto mais verdadeiras e profundas são as semelhanças entre as relações do sacerdote com Cristo e as relações de Maria com seu divino Filho.
Não faltam testemunhos antigos de ilustres Padres Orientais que exaltam a excelência do celibato católico e mostram que havia então, nos lugares onde a disciplina era mais severa, perfeita concordância também sobre este ponto, entre a Igreja Latina e a Oriental.
Santo Epifânio, no fim do século IV, atesta que o celibato se estendia mesmo aos subdiáconos: "Quem vive no matrimônio e atende aos filhos, mesmo se uma vez só casado, não fica admitido (pela Igreja) às ordens de diácono, de presbítero, de bispo ou de subdiácono, mas somente aquele que se haja separado de sua única consorte ou dela tenha ficado viúvo; assim se procede especialmente nos lugares onde os cânones eclesiásticos são observados com exatidão".
Mas sobremodo eloquente mostra-se nesta matéria Santo Efrém Siro, o santo diácono de Edessa e Doutor da Igreja Universal, "chamado com razão cítara do Espírito Santo". Este, numa sua poesia, dirigindo a palavra ao Bispo Abraão, seu amigo, diz-lhe: "Tu bem correspondes ao nome que trazes, Abraão, porque tu também foste constituído pai de muitos; mas por não teres tu uma esposa, como Abraão teve Sara, eis que a tua grei é a tua Igreja. Educa os teus filhos na verdade; tornem-se eles para ti filhos do espírito e filhos da promissão, para que sejam herdeiros no Éden. O fruto esplêndido da castidade, em que se achou sua complacência o sacerdócio... e o corno repleto de óleo sagrado te ungiu, a mão sacerdotal se colocou sobre ti e te escolheu, a Igreja te escolheu e te amou".
E em outra passagem: "Não é suficiente ao sacerdote e ao seu nome purificar sua alma e tornar limpa sua língua e lavar as mãos e ter asseado todo o corpo no ato de oferecer o vivo corpo (de Cristo), mas em todo o tempo deve ser ele puro, por ter sido posto como mediador entre Deus e o gênero humano. Louvores sejam dados Àquele que quis fossem tão puros os seus ministros". E S. João Crisóstomo afirma que "por esse motivo, quem exerce o sacerdócio, deve ser tão puro, como se fosse colocado nos céus entre as Potestades".
De mais a mais, a própria sublimidade, ou segundo as palavras de Santo Epifânio, "a incrível honra e dignidade" do sacerdócio cristão, já brevemente expostas, demonstram a conveniência suma do celibato e da lei que o impõe aos ministros do altar, pois quem tem um ofício de certo modo superior ao dos espíritos puríssimos "que estão na presença de Deus", não é justo, porventura, que deva viver quanto é possível como um espírito puro? Quem deve ocupar-se inteiramente ""das coisas que são do Senhor", não é justo que esteja completamente desprendido das coisas terrenas e tenha sempre "a sua conversação nos céus"? Quem deve dedicar-se com solicitude diligente à salvação eterna das almas e continuar com relação às mesmas a obra do Redentor, não é justo, porventura, que se conserve alheio às preocupações de uma família própria, que absorveria grande parte de sua atividade?
É na verdade espetáculo digno de terna admiração e tão frequente o dos jovens Levitas, que, antes de receber a Ordem sacra do Subdiaconato, isto é, antes de se consagrarem inteiramente ao serviço e ao culto de Deus, livremente renunciem às alegrias e às satisfações, que poderiam honestamente usufruir em um outro gênero de vida.
Dizem "livremente", porque, se depois da ordenação não serão mais livres para contrair núpcias terrenas, à ordenação mesma não se chegam coagidos por lei ou pessoa alguma, mas de própria e espontânea vontade.
Não queremos, todavia, que os louvores feitos do celibato eclesiástico sejam interpretados como censura ou reprovação da disciplina diferente legitimamente admitida na Igreja Oriental; mas assim falamos unicamente para exaltar no Senhor aquela verdade que consideramos uma das glórias mais puras do sacerdócio católico e nos parece corresponder melhor aos desejos do Coração Santíssimo de Jesus e aos seus desígnios para com as almas sacerdotais.
Da condição em que se acha o sacerdócio católico de milícia destra e valorosa, provém a necessidade d'um espírito de disciplina, ou digamos com palavras mais profundamente cristãs, a necessidade da obediência: daquela obediência, que liga tão bem todos os diversos graus da Hierarquia eclesiástica, "de sorte que, — conforme diz o Bispo, na admoestação aos ordinandos — a santa Igreja com ela se cerca, se adorna e se governa por uma variedade de certo magnífica, enquanto nela uns são consagrados Pontífices, outros sacerdotes de grau inferior... formando-se de variada dignidade um só corpo místico de Cristo".
Tal obediência foi prometida pelos sacerdotes a seu Bispo no ato de despedir-se dele logo depois da ordenação; esta obediência por sua vez os Bispos juraram observar no dia de sua sagração ao Chefe supremo visível da Igreja, ao sucessor de S. Pedro, ao Vigário de Jesus Cristo.
A obediência pois ligue sempre mais esses vários membros de sagrada Hierarquia entre si e todos ao Sumo Pontífice, tornando assim a Igreja militante realmente terrível aos inimigos de Deus "como um exército bem ordenado". A obediência tempere o zelo porventura demasiado de uns, e estimule a fraqueza e a insuficiência de outros; coloque cada um em seu lugar, e cada um o ocupe sem resistências, que não fariam outra coisa, senão entravar a obra magnífica que a Igreja desenvolve no mundo.
Cada um veja nas disposições dos Superiores hierárquicos as ordens do verdadeiro e único Chefe, a quem todos obedecemos, Jesus Cristo, Senhor Nosso, que por nossa causa "se tornou obediente até à morte, e à morte de cruz".
Na realidade o Sumo Sacerdote divino quis que de maneira toda singular nos fosse manifestada a sua perfeitíssima obediência ao Pai Eterno, e portanto abundam os testemunhos, quer proféticos, quer evangélicos, desta completa e total submissão do Filho de Deus à vontade do Pai: "Entrando no mundo diz: Tu não quiseste sacrifício nem oferta, mas preparaste para mim um corpo... Então disse: Eis, eu venho, pois que está escrito de mim no princípio do Livro, para cumprir, ó Deus, tua vontade. "Meu alimento é cumprir a vontade de Quem me enviou."
E mesmo sobre a cruz, não quis entregar sua alma nas mãos do Pai, antes de ter feito a declaração de que havia sido cumprido tudo quanto as Sagradas Escrituras haviam dele profetizado, isto é, toda a missão que o Pai lhe confiara, até àquele último tão profundamente misterioso "Sítio", que Ele pronunciou "para cumprir a Escritura", querendo com isso demonstrar que mesmo o zelo mais ardoroso deve ser, sempre e plenamente, submisso à vontade do Pai, isto é, sempre regulado pela obediência a quem faz para conosco as vezes do Pai e nos transmite sua vontade, isto é, aos legítimos Superiores hierárquicos.
CAPÍTULO XX
O Evangelho entre os povos
À semelhança do Venerável Padre Anchieta inúmeros sacerdotes levaram o Evangelho em todos os países aos povos incultos, pregando a doutrina de Cristo e ensinando a civilização cristã.
Transcrevemos alguns trechos de Fagundes Varela sobre "O EVANGELHO NAS SELVAS".
Alma inspirada de Anchieta ilustre, — Espírito do apóstolo das selvas! — Sábio e cantor, luzeiro do futuro! — Tu, que nas solidões do Novo Mundo — Sobre as alvas areias, borrifadas — Das espumas do mar, traçaste os versos — Do poema da Virgem, e ensinaste — Aos povos do deserto a lei sublime — Que ao reino do Senhor conduz os seres: — Ensina à minha musa timorata — A linguagem celeste que falavas! — Dá-lhe a doce expressão, a graça infinda, — A força, a eloquência e a verdade — Dessas singelas narrações que à noite — Fazias nos outeiros, nas florestas, — Às multidões que ouvindo-te choravam, — E pediam as águas do batismo! — E tu, ó! desditoso exímio bardo, — Cujo leito final buscam debalde — As abelhas das verdes espessuras — Para seu mel depor, como as do Himeto — Do divino Platão sobre o malogrado... — E cada novo estio o mar procuram, — E zumbindo sobre as águas mugidoras — Que furtaram teu corpo ao pátrio solo! — Grande Gonçalves Dias! Desses páramos, — Onde viver sonhava, e vive agora — Tua alma gloriosa, envia, oh! mestre, — Envia-me o segredo da harmonia — Que levaste contigo!... Assim, apenas, — Meu santo empenho vencerei contente.
Reina fundo silêncio. Passo a passo, — O homem do Evangelho se encaminha — Para o meio das gentes reunidas, — Que o astro que as selvas ilumina — E faz abrir a flor, saltar o inseto, — Romper-se a bela e nítida crisálida, — Cantar o passarinho, e a leve corça — Pular pelas campinas orvalhadas, — Assim rebenta a vida e o movimento — À medida que o mestre se aproxima. — Sobre grande fogueira a chama brilha, — Robustas mãos arrastam duros cepos; — Outras mais frágeis pelo chão estendem — Lisas moles esteiras, ramas frescas; — Ajoelham por fim, e o missionário, — Para a imagem de Cristo se voltando, — Repete as santas orações da noite. — Da noite as orações já terminadas. — As gentes abençoa, e então começa — Da redenção a história sacrossanta, — Que a musa do poeta ornou de flores, — Tristes flores sem viço e sem perfumes.
Tudo descansa, folga e se diverte — No dia memorável do domingo; — Tudo, exceto o mesquinho encarcerado — Na fétida prisão, o pobre enfermo — Sobre o leito de angústias e martírios, — O esquálido avarento, fascinado — Pelo demônio do ouro, e o ente impuro, — Alevoso, cruel, irmão da serpe — Herdeiro de Caim, sócio de Judas! — Mas os filhos das selvas não conhecem — Marmóreos torreões, sonoros bronzes, — Áureos altares, santuários ricos; — Não têm jardins, nem primorosos parques, — Calçadas ruas e adornadas praças. — O deserto é o templo, os astros círios, — As aras os montes, e sacrário o peito, — Depois... a natureza e a liberdade!
Simples, formoso altar, limpo, e coberto — De alvíssima toalha, erguido à sombra — De graciosa tenda, entretecida — De lianas sutis e verdes palmas, — Avulta ao lado da pequena ermida. — Junto aos círios acessos, debil, frouxa, — A brisa da manhã volteia e brinca; — Sobre o missal, fechado, estende as asas — Mimosa borboleta azul-celeste, — Alada flor do mato; aos pés da imagem — Sanguenta de Jesus, voa e revoa — Esperto colibri. Cantamos à roda — Sonoros sabiás, e o manso vento, — De quando em quando, suspirando, passa, — E o chão alastra de cheirosas flores. — O ministro de Deus medita e ora — Na sossega ermida; um velho padre, — De longa barba e descorado rosto, — Antigo companheiro, hoje de volta, — Sentado à porta sobre dura pedra, — Folheia grossa Bíblia; de joelhos — A seu lado, ingênua, atenta e muda, — Considera as gravuras primorosas — Do mais belo entre os livros conhecidos.
Dos quatro pontos cardeais, aos poucos, — Vêm chegando os fiéis: o velho imbele — Pelo filho amparado, o infante frágil — Sobre os ombros do pai — Tristes extremos! — A mocidade alegre; a meia idade — Séria e calada. O caçador das brenhas, — O sagaz armador de finos laços, — Trazem para o banquete o mantimento; — As matronas selvagens, doces frutos, — Saudáveis confeições; flores as virgens; — Delicadas ofertas as crianças. — A multidão recresce, a ordem reina.
Mas, à porta da ermida, majestoso, — Trajando as sacrossantas vestimentas, — Sustendo o argênteo cálix, e seguido — Do velho companheiro, o missionário — Aparece, e caminha lentamente — Para o singelo altar. Logo sussurro, — Semelhante ao das ramas da floresta — Nas pedras rajadas da tormenta, — Corre entre as turbas, lá em mais altas frontes — Curvam-se, como as hastes da cecrópia, — Quando sopram do norte os frios ventos. — Depois tudo emudece: ouve-se, apenas, — O brando ciciar da aragem mansa — Nos taquarais viçosos, os queixumes — Do cristalino arroio entre pedrinhas, — E a voz grave, solene, vagarosa — Do sábio do Evangelho, repetindo — As palavras do santo sacrifício.
Quadro sublime! Encantadora cena! — Era assim, ao ar livre, à luz suave — Do céu da Galileia, nas encostas — De relvosas colinas, ou nas margens — Verdes, risonhas, de serenos lagos, — Que o Homem do Martírio doutrinava — Às multidões humildes que o seguiam! — Era à sombra dos altos sicômoros, — Junto das fontes gemedoras, longe, — Dos rumores das praças que o mestre se aproxima. — Os mais santos preceitos resvalavam — De seus lábios divinos! Seus olhares — Prezavam as campinas e os outeiros, — As cabanas dos vales sossegados — O retiro dos bosques, e a beleza — Do firmamento azul, vago e profundo! — Era da natureza nos altares — Que elevava su'alma ao Pai Celeste!
Ardem fogueiras: terminada a missa, — Aviam as mulheres o banquete; — De lado a lado correm as crianças — Trazendo o musgo, as parasitas rubras — Do cimo dos rochedos, e as mais lindas — Frutas e flores das escuras matas, — Que aos pés do sábio mestre depositam: — Os homens reunidos junto à ermida — Discorrem seriamente; as moças cantam, — Não as lendas das tabas belicosas, — Mas da musa cristã saudosos hinos.
Acabado o banquete, farto e simples, — Depois de alguns momentos de descanso, — Ergue-se o missionário, avisa o povo, — E continua do Senhor a história.
Atrás tormenta; inundação medonha, — Derribam a mísera cabana — Do ministro de Deus. Pesados troncos — Boiam ainda nas barrentas águas, — Represadas nos húmidos algares, — Que as enxurradas do verão cavaram. — Os arbustos vergados, encobertos — De lodo e solta argila, restos guardam — De pobres utensílios; móveis pobres, — Pelos furos da enchente arrebatados — Ao triste eremitério. Galhos secos, — Combros de areia elevam-se nos sítios — Onde mais bela a relva vicejava: — Mas, sobre a lama e sobre o lodo, — Nem sequer um sinal de humanos passos!
Senhor! que é feito do piedoso mestre? — Porque no santo dia de teu nome, — Quando os ingênuos crentes se reúnem — Para ouvir tua história e teus preceitos, — Tudo está frio, desolado e morto? — Porventura... Mas, tão suaves, — Repassadas de amor e de humildade, — Sobem aos céus as maviosas preces — Dos singelos conversos! Ei-los juntos — No topo de um outeiro, ajoelhados — À roda do piedoso missionário, — Cantando teus louvores! Ruja o vento, — Estale o raio, o temporal braveje, — Vingue a enchente voraz os altos montes, — Que importa! O zelo vencedor do tempo, — A crença viva que produz milagres, — Farão novos sacrários, novas aras, — Onde as almas fiéis, Senhor, te adorem!
Como bendito lenho, arca bendita, — Depois da horrenda convulsão das águas, Sobre risonha, plácida montanha, — Leves, tênues vapores exalando, — Ao suave calor do sol propício, — Pequena choça, sobre verde colo — Tranquila se levanta. Ali não chegam — As espumas do rio intumecido, — Pode ali meditar, dormir sem medo — O apóstolo feliz do Novo Mundo. O céu é todo paz, frescura o campo. Sossega o bosque umbroso, a tempestade — Como um sonho passou. Ei-lo, de novo — Rodeado dos seus, o mestre ilustre, — A sagrada missão continuando.
Depois dos costumados exercícios, — Dos alegres folguedos, não vedados — Pelo pio varão, a cujos olhos — Nunca o riso e o prazer foram delitos, — Quando os preceitos do moral não ferem, — À voz do mestre ajuntam-se os conversos. — Guardam silêncio, esperam ansiosos — Da narração cortada o seguimento.
...A idolatria expira entre os gentios. — O oriente, o ocidente, o sul e o norte — Exultam repetindo os hinos sacros — Dos bardos de Sião. Calam-se os ódios, — Consagram-se as nações; cessam as guerras. — Surge o mundo civil do caos profundo — Da velha barbária! A lei triunfa, — As montanhas coroam-se de altares; — A cruz domina os campos e o Evangelho — Avassala os sertões! Desde as ribeiras — Do majestoso e plácido Amazonas — Até às margens do opulento Prata, — Ressoam pelo espaço os belos cantos — Da Igreja Universal! Sobre os desertos — Abre o cristianismo o pálio augusto.
Porém, depois dos últimos sucessos — Desta história de acérrimos labores, — Decorreram dez anos. As planícies — Cobrem-se de abundantes sementeiras, — Muge o gado no campo, as ovelhinhas — Brincam nos berçais, e sobre o monte, — No sítio ameno da saudosa ermida — Do servo do Senhor, alveja agora — Entre as pobres cabanas dos conversos — A torre estreita de um singelo templo.
Põe-se o sol. Os clarões finais do dia — Morrem ao longe nas remotas serras; — Voltam os lavradores do serviço — E, chamando os filhinhos, se dirigem — À casa do Senhor; os sons do sino — Pela primeira vez ressoam — Crespos — Naquelas solidões. Um pobre padre, De venerando rosto, ergue-se e canta — As preces melancólicas da tarde.
Ó! não é ele o apóstolo das selvas! — Musa dos ermos, o profeta é morto!... — Não! inda brilha, descorado embora, — O astro das missões! Inda derrama, — Bela estrela da fé, a luz propícia — Que as trevas espancou do Novo Mundo! — Espírito do amor e da saudade, — Leva o gênio do bardo aos longes climas, — Onde os ecos acordam da maviosa — A doce voz que clama no deserto! — Onde vagueia convertendo os povos — O sucessor egrégio do Batista!
A noite passa. O astro da saudade — Atocha-se nos mares. — O oriente — Abre-se de flores purpurinas. — Surge, filha da luz! Última aurora da estação da inocência e da esperança! — Ó! vem! clareia o céu, anima os bosques, — Aviventa os sertões e as cordilheiras!
Mas, à beira do rio deslembradas, — As canoas estão dos pescadores; — Das cabanas abertas não se expande — O fumo que anuncia a paz e a vida! — Os cantos virginais — não se misturam — Ao borborinho trépido das fontes — Nem as vozes vibrantes dos mancebos — Ao golpear sonoro dos machados — Nos grossos troncos dos ipês frondosos!
Entretanto, ao redor do pobre templo, — As mulheres soluçam; tristes padres, — Sócios e amigos do inspirado Mestre, — Chegam de longes terras, incansáveis, — E param nos degraus do presbitério, — Receosos de entrar; falam, baixinho — Aos humildes conversos que os rodeiam, — E penetram, por fim, no santo asilo, — Onde o ilustre varão prostrado aguarda — O momento supremo. Quão serenas — São as feições do lúcido profeta! — Quão suaves as palavras e os votos que dirige — Aos lacrimosos velhos companheiros!...
Pátria querida, pátria gloriosa! — ...Se meu berço não foi teu grêmio ilustre, — As primícias te dei da mocidade, — Os labores do estudo, as flores d'alma, — O sentimento e a vida! Abre-me o seio, — Tu, que foste a visão de meu futuro; — Tu, que serás o templo onde meu nome — Triunfará do frio esquecimento! — Como através do tempo enxergo longe!
Mas um suspiro trêmulo e sentido — Interrompeu-lhe a voz. Ó! santo Mestre! — O que tendes? perguntam seus consócios, — Erguendo-se assustados. — Nada. É cedo... — Responde-lhes sorrindo; é cedo ainda. — Depois, volvendo os olhos às campinas, — Belas campinas que prezava tanto, — Assim continuou: Não tarda o dia — Que estes amplos sertões, estes desertos — Se cobrirão de granjas e herdades, — De férteis plantações. Um povo livre — Será senhor das terras planturosas, — Onde pobres romeiros, levantamos — Nossas precárias, miseráveis tendas. — Não importa! Lançamos, os primeiros, — As sementes da fé por estes ermos! — Hasteamos o lábaro divino — Sobre estes verdes montes; conquistamos em nome de Jesus — Estes desertos, — E o deserto maior das consciências — Desta raça feliz! Ó! meus amigos! — Não ouvis um rumor festivo e ledo — No perpassar dos zéfiros suaves — Que sopram do ocidente? Nos vapores, — Que o sol tinge de púrpura brilhante, — Não vedes o painel de um novo mundo, — Coberto de não de aldeias belicosas, — Porém de vastos templos e castelos, — Ginásios e arsenais, belas estátuas, — E aquedutos cobertos? Salve! ó gênios — Que afastais as cortinas do futuro! — O Senhor permitiu que, antes das sombras — Pavorosas da morte, se aclarassem — Os olhos de seu servo! Hora suprema! — Hora da liberdade, sê bem-vinda!
...A voz sumiu-se — No seio enfraquecido do profeta, — As pálpebras cerram-se tranquilas, — Os lábios entreabriram-se, e um sorriso – Ditoso, de criança que adormece, -- deixou passar o alento derradeiro...
Assim muitos sacerdotes têm procedido para fundar e propagar o reino de Cristo.
CAPÍTULO XXI
Ação de graças
Antes de terminar esta nossa Carta Pastoral, levantamos os nossos olhares ao céu para agradecer a Deus as graças e benefícios durante tão longo tempo.
Doze anos passamos na paróquia do Menino Deus, tempo esse que consideramos como a primavera da nossa vida sacerdotal. No meio de gente boa vivemos e desenvolvemos a nossa atividade.
A paróquia do Menino Deus abrangia Belém Novo, Belém Velho, Vila Nova, Arraial do Espírito Santo, etc., etc. Apesar de exigir a boa administração bastante serviço e trabalho, restava-nos muito tempo para estudar. Lembrávamo-nos da palavra do nosso Bispo Dom Cláudio que nos dissera na hora dos nossos exames finais aprovados plenamente: "Deve agora continuar os seus estudos e aprofundá-los sempre mais".
Deus abençoou todos os nossos empreendimentos, de maneira que devemos dizer: "Te Deum laudamus, te Dominum confitemur: a vós ó Deus louvamos, a vós por Senhor confessamos".
Depois fomos para Florianópolis onde inauguramos a nova Diocese. Era um novo campo de trabalho. O povo e o clero eram bons e dóceis. Realizamos o primeiro congresso sacerdotal e o sínodo diocesano.
Em visitas pastorais visitamos Laguna, Guarupaya, Braço do Norte, Lages, S. Joaquim, Curitibanos, Canoinhas e todo o Estado de Santa Catarina. As viagens todas, com exceção de algumas curtas, eram feitas a cavalo.
O povo das cidades e do sertão era carinhoso. As autoridades civis nos tratavam por toda a parte com distinção e cumulavam-nos de atenções e finezas. Foram quatro anos e meses abençoados de que sempre nos lembraremos com saudades.
Agradecemos, de coração, a Deus o bem que quis por nosso intermédio praticar em favor da religião e da Pátria. "Te Deum laudamus, te Dominum confitemur: a vós ó Deus louvamos, a vós por Senhor confessamos".
Depois voltamos para esta Arquidiocese de Porto Alegre onde avultados trabalhos nos esperavam. A organização do Seminário Central, a construção do Seminário Menor de Gravataí e a construção da nova Catedral ocuparam intensamente a nossa atividade.
Além disso, a nossa contribuição para o Pontifício Colégio Pio Brasileiro em Roma, a organização das escolas particulares, a administração paroquial e outras obras de vulto ocupavam a nossa atenção.
Em todas as nossas atividades fomos abençoados por Deus e tivemos sorte feliz. Por isso devemos dizer: "Te Deum laudamus, te Dominum confitemur: a vós ó Deus louvamos, a vós por Senhor confessamos".
Não podemos porém esquecer aqui de agradecer também à excelsa Mãe de Deus, que em toda a nossa vida nos assistiu com verdadeira solicitude maternal.
Já no início de nossa vida sacerdotal, o divino orago do nosso primeiro lugar de atividade, o Menino Deus, nos lembrava constantemente a grande Mãe de Deus. Maria, sob o título de Nossa Senhora do Desterro, é a padroeira de Florianópolis, nosso primeiro campo de ação como Bispo. E sob o título de Mãe de Deus, a mais bela e mais significativa de todas as invocações de Maria, é a excelsa padroeira desta nossa cidade arquiepiscopal de Porto Alegre, onde há quase trinta e quatro anos trabalhamos.
É ela a Medianeira de todas as graças e é, portanto, por seu intermédio que nos vieram de Deus tantos benefícios. Além disto, como diz S. Bernardo, "não há dúvida que todos os louvores que tributamos à Virgem, pertencem ao Filho, e que se queremos prestar honra ao Filho, não podemos recusá-la à Mãe".
Maria aparece no meio dos tempos, entre as fronteiras da Antiga e Nova Aliança; explica aquela, fortalece e presagia esta; recebeu ela a mais sublime bênção, com a qual Deus bendisse na Antiga Aliança a bênção da maternidade segundo a carne. Com ela e por meio dela se introduziu no mundo a bênção sobrenatural da Nova Aliança, o carisma, a graça virginal da maternidade espiritual. Ela é a mais fecunda das mães e a mais pura das virgens, da qual como de árvore imperecível, para todo o sempre, se destacam ramos de perpétua virgindade.
É a última profetisa e rainha dos profetas; porque nela não foi só insuflado o Verbo, mas o concebeu encarnado e o trouxe no seu seio. É por isso que, arrebatada em espírito, profetizando exclamou: eis aqui que d'ora avante todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
E todos os dias, e desde milhões deles, do alto de inumeráveis torres o bronze sagrado anuncia, e milhões de crentes do fundo do coração correspondem, confirmando, à assombrosa profecia: Ave Maria!
É ela só, e só ela a testemunha do mistério da Encarnação do Homem-Deus, e da sua boca os Apóstolos o ouviram, e no-lo transmitiram.
Ela é a Suma Sacerdotisa, sagrada pelo Espírito Santo mesmo, em quem se vê encimada a coroa sacerdotal da Antiga Aliança. É um Santo dos Santos vivo, tabernáculo construído pela mão de Deus, onde habita o Santíssimo Sacramento do corpo de Jesus Cristo, mistério oculto desde a eternidade.
Foi ela que trouxe em seus braços o grande e eterno Cordeiro do sacrifício, e introduziu-o no santuário, depondo-o no altar nesse dia espantoso, singular e memorável de conciliação no monte Calvário. É com o sangue dele, com que o mundo inteiro foi aspergido, que foi enviada a redenção ao gênero humano.
"Bendita sejas tu, sagrado trono de Deus, tesouro do céu, casa da glória, altar da reconciliação do mundo", exclama S. Germano, endereçando-se a Maria.
Ela é a Mãe e Rainha da Nova Aliança, porque assim a designou seu Divino Filho na hora extrema. Se a vida da Igreja não é mais do que uma continuada Encarnação do Senhor, na mística união dos crentes com Ele, por meio dele e n'Ele, todos nós formamos um só corpo, e por isso nós que somos irmãos do "Primogênito", olhemos para o céu para a Mãe dele, que é também a nossa Mãe.
Ela é Mãe do Chefe da Igreja e Mãe, por conseguinte, de todos os seus membros, refúgio estabelecido por Deus para todos os pecadores, nova Eva, Mãe de vida e dos vivos. O sangue, que se derramou do lado de Jesus, atravessado pela lança, firmou a nova aliança e nos alimenta no Santo Sacramento; e esse sangue e esse corpo atravessado foram tomados de Maria. A carne de Cristo, disse Santo Agostinho, é a carne da Virgem.
Ela é Mãe do verdadeiro corpo de Cristo, e por consequência Mãe do seu corpo místico, a Igreja, a qual aumenta de século para século; grande e santa família, sob o seu patrocínio e proteção estende cada vez mais as suas tendas e adquire continuamente novos filhos.
Todas as maravilhas da graça, que se têm cumprido, e as que no futuro se cumprirão, desde que o Verbo se fez carne, Deus as tem concedido a Maria, são a sua glória e satisfação de Mãe, recompensa das suas dores maternas, antes e depois do seu parto.
"Ó Virgem Mãe, que do teu Filho és Filha, A maior, mais humilde creatura, Dos eternos conselhos maravilha."
"À humana raça deste formosura Tão sublime que até Deus infinito Não desdenhou tomar nossa figura."
"Acendeu-se em teu seio amor bendito, Junto ao eterno Pai perene, ardente, Brotou formosa flor, fato inaudito."
LAUS DEO VIRGINIQUE MARIAE!
Esta nossa Pastoral será lida, registrada e arquivada, como de costume.
Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.
Dada e passada em nossa residência Arquiepiscopal de Porto Alegre, sob nosso selo e sinal, aos 2 de agosto de 1946.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.