O SACERDÓCIO E O TEMPLO

NONA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1921) 

Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Expondo ao Clero e aos Fieis de sua Arquidiocese a Encíclica Rerum Novarum do Sumo Pontífice Leão XIII


CAPÍTULO I

Prólogo: jubileu e pedra fundamental

A ocorrência de dois fatos notáveis na nossa vida episcopal nos convida, de um modo especial, a vos dirigir, novamente, nossa humilde palavra pastoral: nosso Jubileu sacerdotal e a colocação da pedra fundamental da nova Catedral Metropolitana. Se o primeiro desses fatos se reveste mais de caráter íntimo e pessoal, é o segundo que interessa, diretamente, o nosso respeitável clero e o bem geral da Arquidiocese. Vinte e cinco anos já passaram desde que recebemos o sacramento do presbiterado, na capela do antigo Seminário nesta capital.

O mesmo Antístite que nos administrou todas as ordens menores e sacras, conferiu-nos, mais tarde, a plenitude do sacerdócio, quando fomos investidos, pelo Sumo Pontífice, da insigne honra do episcopado, a fim de sermos o primeiro Prelado diocesano do novo Bispado de Florianópolis. Ordenado sacerdote, em 2 de agosto de 1896, fomos nomeados vigário da paróquia do Menino Deus, no dia 7, e tomamos posse do nosso primeiro cargo eclesiástico, em 9 do mesmo mês. Após doze anos de paroquiato, inauguramos a nova Diocese de Florianópolis, cujo governo assumimos no dia 12 de outubro de 1908. E, assim, como o Santo Padre Pio X, de saudosa memória, resolvera distinguir-nos com a dignidade de primeiro Bispo da referida Diocese, sem nos ouvir, houve por bem, sem o nosso prévio conhecimento, transferir-nos, em 1º de agosto de 1912, para esta Arquidiocese, vaga por renúncia do venerando senhor Arcebispo, que nos havia conferido todas as ordens, e da qual tomamos posse solenemente no dia 12 de dezembro do mesmo ano. Portanto, todos os anos da nossa vida sacerdotal, com exceção de quatro, consagramos ao serviço da Igreja, principalmente nesta Capital. E se é certo que outros, em nosso lugar, teriam reunido maior soma de obras brilhantes e de títulos de benemerência, sem dúvida alguma, nenhum nos lavara a palma em dedicação e amor à sagrada causa que desde a nossa juventude, com carinho, abraçamos.

Por uma coincidência feliz, celebramos, na comemoração do nosso Jubileu, a solenidade da colocação da pedra fundamental da Catedral Metropolitana, depois de haver-se consumido mais de um ano de trabalhos preliminares. Chegou, pois, o dia almejado do início definitivo do novo templo. Cheio de esperança, repetimos aqui as palavras que, há dois anos, vos endereçamos: "Confiamos no Senhor, in Domino confido", cujo auxílio supremo suplicamos, para que abençoe o início da nova Catedral, dirija a marcha de sua edificação e coroe de feliz êxito os nossos esforços. Será, pois, de bom alvitre que consideremos de modo simples e claro o estado clerical e a missão do sacerdote com referência especial aos tempos atuais. Com efeito, se, de um lado, convém que os ministros da Igreja se compenetrem cada vez mais da nobreza e santidade do seu ministério, de outro é necessário que os fiéis saibam, devidamente, aquilatar a dignidade do cura das almas e apreciar os benefícios que dele recebem. Os homens nascem para a vida social, e toda sociedade bem ordenada procura seu aperfeiçoamento físico, intelectual e moral, por obediência aos seus legítimos superiores, que devem legislar ou mandar, não segundo sua vontade própria, com suas conveniências particulares, mas em conformidade com a lei divina, para o bem comum dos povos.

Esta lei divina, porém, não é outra coisa senão a vontade de Deus, imposta às criaturas racionais, e nela devem os dirigentes das nações calcar suas leis e preceitos, a fim de que o exercício de sua autoridade seja uma derivação do poder de Deus, como legislador supremo. Esse fato inegável supõe a ideia de um Deus, de uma providência, de uma religião. Consequentemente, não pode haver sociedade bem ordenada sem religião, nem religião sem Igreja, nem Igreja sem sacerdotes, perpetuados pelo sacramento da ordem. O sacerdote assiste aos homens nas emergências mais notáveis, como testemunha, como conselheiro ou como ministro, em todos os atos solenes da vida religiosa, e sem ele não é possível viver nem morrer cristãmente. Ele é o intermediário entre a opulência e a indigência; o rico a ele recorre para distribuir secretamente as esmolas, e o pobre, para recebê-las sem rubor. É o consolador por excelência de todos os sofrimentos da alma e do corpo. Atende, com igual solicitude, a todos. É autorizado para lhes ensinar a verdade, pura e clara, sem respeito humano, e sua palavra sacerdotal cai sobre as inteligências e os corações, com toda a persuasão e autoridade de sua missão divina, como a chuva suave e benéfica em campos áridos em dias de primavera.

Por ser o sacerdote o benfeitor da sociedade, merece e recebe o doce nome de Padre. Pois bem, no desempenho do nosso múnus episcopal e no governo desta Arquidiocese, nos ajudam, como amigos e auxiliares operosos, dois grupos seletos de sacerdotes, respeitáveis pelas suas virtudes e saber: o clero secular e as ordens e congregações religiosas. Eles fazem parte dessa falange, quase inumerável, dos ministros da Igreja e beneméritos da sociedade humana. E a eles é que significamos, com abundância de alma, os sentimentos da nossa profunda estima, respeito e gratidão, na data argêntea do nosso jubileu sacerdotal.

Em outra Pastoral, quando levantamos a ideia da construção da nova Catedral Metropolitana, já nos referimos à necessidade dos templos, à sua arquitetura e diversos estilos; descrevemos o simbolismo da casa de Deus e lembramos os motivos que exigem e reclamam a pronta edificação da igreja principal da Arquidiocese. Se a Igreja Católica fosse constituída somente de anjos ou espíritos imateriais, não teria necessidade de levantar templos, a fim de congregar os fiéis e exercitar os seus atos cultuais. Mas, desde que ela tenha de ensinar e dirigir os homens, seres compostos de corpo e alma, no caminho do bem e da salvação, não pode prescindir de edifícios onde seus sacerdotes celebrem os sagrados mistérios. A construção dos templos, portanto, impõe-se como indispensável.

A nova Catedral, cuja pedra fundamental agora lançamos, é uma consequência da necessidade do culto externo e público, é um postulado das condições religiosas da nossa capital e uma das exigências impostas pelo nosso progresso material e social. Por isso, dois impulsos nobres, dois sentimentos profundamente radicados em nossos corações, nossa fé e nosso patriotismo, devem cooperar para a realização completa das obras do templo, que lembrará aos pósteros o espírito de sacrifício, os rasgos de generosidade e o gosto artístico da geração presente. Portanto, principiemos, continuemos e terminemos a nova Catedral Metropolitana, com todo o amor, solicitude e constância, por Deus e pela Pátria! Hoje vos falaremos sobre o templo em relação à vida social e à cultura dos povos, e em seguida faremos menção do projeto definitivo da nova Catedral, estudando o estilo escolhido e as formas arquitetônicas a que deverá obedecer. Assim, pois, o assunto desta Pastoral será: o sacerdócio e o templo, ou mais explicitamente: o sacerdote e sua missão social; o templo na vida dos povos católicos e a arquitetura da nova Catedral. À exemplo de São Gregório Papa, pretendemos tratar desse assunto, de tal maneira que sua exposição seja proveitosa aos que o ignorem e não fastidiosa àqueles que o conheçam, visto que somos, como São Paulo, devedores a sábios e iletrados: sapientibus et insipientibus debitor.

CAPÍTULO II

O medianeiro entre Deus e os homens

A presença do sacerdote, que enverga a veste talar, causa, não raras vezes, estranheza no meio da sociedade moderna. Na vida quotidiana, não falta quem, por motivos mais ou menos reprováveis, queira disputar ao sacerdote o direito de existir, negando-lhe a devida atenção ou dirigindo-lhe vitupérios, segundo grau de sua cultura e educação. Acontece que, em centros de civilização adiantada e também atrasada, o sacerdote, por mais digno e benemérito que seja, tenha de enfrentar dificuldades só por trajar a batina, e ouvir motejos que lembram a palavra da Horácio: "hic niger est, hunc tu, Romane, caveto"! Ali vem um padre, fulano, toma cuidado! E parece que, depois de vinte séculos de existência, o sacerdote deva ainda pedir licença para transitar pelas ruas e praças públicas. Esses casos, entre nós, constituem, felizmente, verdadeiras exceções, porque são poucos os que desrespeitem o sacerdote e desconhecem sua nobre missão social.

Sim, a nossa população, em geral, estima e acata o ministro da Igreja. E com razão, visto que os sacerdotes formam a legião de honra do Salvador do mundo e levam na alma, em virtude da ordenação sacramental, o caráter indelével do seu estado. Estão encarregados de administrar os bens da graça e ensinar as verdades consoladoras da santa Religião. Pelo sacramento do matrimônio, continua a propagação natural do gênero humano, e, da mesma maneira, pelo sacramento da ordem, opera-se o renascimento sobrenatural dos homens. No reino da natureza, um homem gera a outro homem, segundo as leis do Criador; no reino da graça, de modo semelhante, um homem dá vida sobrenatural a outro, de acordo com os preceitos do Santificador das almas. Os progenitores espirituais da humanidade renascida são os sacerdotes, como dispensadores dos mistérios divinos e ministros de Cristo.

A missão nobilitante que o Filho de Deus conferiu aos Apóstolos e seus discípulos de ensinar e batizar impõe também aos homens a obrigação de receberem o batismo e de ouvirem sua doutrina. Portanto, existe, por vontade divina, uma distinção real entre a Igreja docente e a discente, distinção que não foi inventada pela classe sacerdotal. O poder celebrar o banquete eucarístico em memória de Jesus Cristo foi outorgado ao número escolhido dos Apóstolos e seus sucessores, e não à multidão que, por ventura, rodeasse, naquela ocasião, o Cenáculo. Na administração dos sacramentos, os sacerdotes são, pois, distintos do povo fiel, e seu ministério é essencial ao cristianismo desde a sua origem. O mesmo Deus, que instituiu na série dos dias da semana o domingo como o seu dia, dies Domini, que no meio das habitações humanas levantou o templo para ser sua casa, domus Dei; o mesmo Deus colocou o sacerdote como o seu ungido, christus meus, no meio das diversas classes sociais. O sacerdote católico é, por isso, ministro da Religião, por mercê de Deus, não por vontade dos homens.

A Religião é a coluna mais sólida da ordem pública. Quando a fé em Deus é destruída no coração humano, rui por terra o edifício social como o palácio dos filisteus, privado dos seus pilares, pelos braços hercúleos de Sansão. Colocados em outro fundamento, as nações mais cultas e adiantadas tremem e se agitam, como os muros trepidantes de uma cidade em dias de terremoto. E mais de uma vez foi dito com razão que os maiores inimigos do povo são, justamente, as pessoas que lhe querem roubar a Religião, e que os indivíduos mais perigosos para os homens são aqueles que não professam nenhuma crença religiosa. Claro está que, quanto menos respeito se tributa à Religião, tanto menos são considerados os seus ministros. O apreço que se tem à classe sacerdotal aumenta ou diminui na proporção da estima que se vota à Religião.

Mas o que não conhecemos tão pouco apreciamos ou consideramos. Torne-se, por isso, conhecida a missão de que o sacerdote está incumbido no meio da sociedade, a fim de que possa, com proveito, exercê-la. Excelsos são os poderes espirituais que os sacerdotes reconhecem pela imposição das mãos do Bispo. Consagram o corpo e sangue de Jesus Cristo, absolvem os pecados e abençoam o povo. São os ungidos do Senhor e enviados para anunciarem aos pobres e ricos as verdades consoladoras do Evangelho, como verdadeiros arautos da salvação humana, transmitindo-lhes as bênçãos da caridade divina do Salvador. As chaves do templo e do sacrário acham-se nas mãos do sacerdote, para abrir aos carregados de trabalhos e misérias as portas do santuário da felicidade. Recebe as sagradas ordens, a fim de poder, as manchas, distribuir ao povo as graças divinas, pelo que seu ministério não separa, mas une os leigos e clérigos entre si. Na direção dos fiéis, os sacerdotes são delegados e auxiliares dos Bispos, de quem recebem o poder de jurisdição, necessário a eles além do poder de ordem.

Sim, nenhum sacerdote pode exercer o seu ministério sem que o Bispo lhe conceda as necessárias faculdades. Os padres são os cooperadores dos Bispos, pelo que devem reconhecer sua posição canônica e agir conforme as normas eclesiásticas e os preceitos diocesanos, sem o que sua ação não se torna profícua, mas inútil e prejudicial. Quando Nosso Senhor ainda se achava neste mundo, dispensando benefícios a todos os homens, aconteceu que, com um pouco de pó da terra, e não com a luz brilhante de uma estrela, abriu os olhos a um cego de nascença, e da fímbria de seu vestido fez o condutor de uma força divina para curar a mulher enferma. Pois bem, o sacerdote é pó tirado da terra, nascido do pó, como todos os filhos de Adão; mas ele é pó nas mãos onipotentes do Salvador, para abrir os olhos aos cegos. O sacerdote é fímbria no vestido do Senhor, para comunicar aos enfermos a saúde espiritual. Eis a missão do sacerdote: Medianeiro entre Deus e os homens! É este o direito de sua existência na sociedade humana.

CAPÍTULO III

A ordem do sacerdócio

A obra de regeneração que Jesus iniciou não deveria ter por termo final os horizontes estreitos da Palestina, nem as rubras gotas do seu precioso sangue haveriam de evaporar-se, de vez, sobre o rochedo agreste do Gólgota. Também as gerações futuras, espalhadas pela redondeza da terra, haveriam, segundo a Providência divina, de caminhar na luz esplendorosa do Evangelho e beber, com alegria, as águas divinas nas fontes do Salvador. Pelo sacramento da ordem, são os jovens levitas apartados do estado laical e ungidos com a graça do divino Espírito Santo, para que, como discípulos do eterno Sumo Sacerdote, repitam seus pensamentos, continuem sua linguagem sagrada e perpetuem o ministério de suas graças.

Por isso, disse São Paulo: "os homens devem-nos considerar como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus". O dom essencial do sacramento da ordem e a tarefa principal do sacerdócio consistem em "dispensar os mistérios de Deus", na administração dos santos sacramentos. Os salutares efeitos sociais do batismo e da confirmação, dos sacramentos do altar, da penitência e extrema unção têm seu germe e sua causa no sacramento da ordem. O caráter social deste sacramento manifesta-se diretamente pela missão de medianeiro do sacerdote. Os homens hodiernos não são diretamente absolvidos dos seus pecados pelo Salvador, como Maria Madalena. Nem podem, com as próprias mãos, tirar a graça dos tesouros do reino do céu, porque não receberam as chaves necessárias.

Tão pouco os fiéis gozam do privilégio de administrarem uns aos outros mutuamente os sacramentos, visto que o Apóstolo não chamou a todos os cristãos de Corinto dispensadores dos mistérios divinos. Como o Senhor, na multiplicação dos pães, mandou entregar ao povo faminto, pelas mãos dos Apóstolos, pão e peixe, assim também manda distribuir hoje o pão dos anjos pela mão dos seus sacerdotes. O ministério sacerdotal tão pouco diminui Deus e os homens, Jesus Cristo, como os mestres e pais humanos desvirtuam a palavra do Senhor: "um é vosso Mestre, um é vosso Pai". Dali, porém, infere-se a importância social do sacerdócio: como os pais dão a vida aos filhos, como os preceptores ensinam seus discípulos, assim os sacerdotes comunicam a vida da graça aos homens e devem ser os mestres do povo em matéria de Religião. Em virtude de sua nomeação eclesiástica, os sacerdotes são sentinelas avançadas nas paróquias rurais. Lá, no meio do povo, longe do reboliço das cidades e privados de comodidades e conforto, vivem felizes no desempenho de sua penosa missão, rodeados dos fiéis. Nos centros populosos e nas cidades, sujeitam-se a privações e a sacrifícios constantes, repetindo as palavras de Cristo: "Misereor super turbam, tenho compaixão do povo".

Seja onde for, os sacerdotes oferecem pelo povo a oração quotidiana do seu breviário, o Santo Sacrifício da Missa, seus labores e, não raro, sua vida. "Entre o vestíbulo e o altar clamam os sacerdotes, os ministros do Senhor, com lágrimas: perdoai, Senhor, perdão ao vosso povo"! No trabalho contínuo do confessionário, que abrevia a vida de muitos sacerdotes, no serviço da catequese e visita aos enfermos, querem os sacerdotes, à imitação do Bom Pastor, fortalecer o fraco, salvar o doente, pensar o ferido, recolher os dispersos e reconduzir o transviado à casa paterna.

A cura das almas é uma nobre ação social, e quem separa o povo do sacerdote, do seu pároco, lesa a caridade, comete um crime social. Os sacerdotes são atalaias da vida religiosa e moral e, por isso, são guardas da ordem social e pública. Religião e moralidade são as paredes-mestras de toda a ordem social. A felicidade dos povos e os outros grandes interesses da humanidade não podem carecer das bênçãos da Religião e da lei moral, sob pena de apressarem sua ruína. Os inimigos da Religião são, simultaneamente, os destruidores da ordem pública, e o assalto às leis da moral é o início da revolução social. Mas é uma verdade inconcussa que a verdadeira moral não pode existir sem a base sólida da Religião.

Por isso, o sacerdote que protege, nas portas do santuário, a Religião e os bons costumes do povo, é o defensor sagrado da ordem social dos Estados. Sem a autoridade, periclitam e desmoronam os Estados. Com terror, assistimos ao triste espetáculo em que as vagas procelosas da indisciplina derruíram os fundamentos de nações europeias. Pois bem, o sacerdócio católico representa, na sua própria estrutura, o mais elevado pensamento da autoridade. De fato, os diversos párocos e sacerdotes prestam obediência aos seus bispos, e estes ao Sumo Pontífice, o Papa, cuja voz é ouvida e respeitada urbe et orbe, em Roma e em toda a cristandade católica.

O sacerdócio da Igreja tem o mérito, proclamado pela história universal, de haver educado os povos na obediência aos legítimos superiores. E hoje, mais do que nunca, é valiosa e necessária a ação do sacerdote, que ensina ao povo o respeito à autoridade legítima, como raio de luz divina, que tanto brilha sobre a coroa dos reis como sobre os presidentes, eleitos periodicamente para governarem as repúblicas. Por isso, não admira que os coveiros da ordem pública não persigam nenhuma classe de serventuários da pátria, nem a militar, com mais pertinácia do que a classe sacerdotal. Qual é a razão? Sabem que o ungido do Senhor, o arauto dos direitos majestáticos de Deus, é o guarda mais fiel e intemerato da autoridade humana. Eis um novo padrão de glória do sacerdote católico.

CAPÍTULO IV

O estado clerical

Existe uma distinção real entre os clérigos e os leigos, porque não se pode afirmar que todos os cristãos sejam indistintamente sacerdotes do Novo Testamento, ou que todos sejam dotados de igual poder espiritual. Na Igreja Católica há uma verdadeira hierarquia eclesiástica, estabelecida por direito divino e composta dos bispos, presbíteros e ministros. É esta uma verdade certa que ninguém pode negar. Com efeito, já na época patriarcal houve pessoas escolhidas para o desempenho das funções sacerdotais, geralmente os primogênitos, como refere São Jerônimo. Entre os próprios pagãos — egípcios, fenícios, assírios, persas, gregos e romanos — havia um certo número de indivíduos ou classe escolhida do resto da plebe, com o fim de se dedicar às funções sagradas. Sob a lei mosaica, foi designada por Deus a tribo de Levi, a qual se consagrava ao ministério dos sacrifícios e de ensinar a doutrina ao povo.

No Novo Testamento, Jesus Cristo, fundador da Igreja Católica, chamou seus primeiros discípulos, a saber, André e João, Pedro, Felipe e Natanael. Logo depois, convidou outros para o múnus especial de santificar os homens: "Vinde, eu vos farei pescadores de homens." Passado algum tempo e tendo feito oração durante toda a noite, convocou seus discípulos e deles escolheu doze, que chamou Apóstolos.

Por isso, na Última Ceia, falou abertamente aos Apóstolos: "Não fostes vós que me escolhestes, mas eu é que vos escolhi a vós e vos estabeleci para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça." Além disso, todos os sacerdotes, sucessores dos discípulos, e os bispos, sucessores dos Apóstolos, devem ser chamados por Deus, segundo São Paulo, que assim se exprime: "Nenhum usurpa para si esta honra, senão o que é chamado por Deus como Arão."

Além disso, os clérigos são consagrados por um rito especial, conforme o lugar que ocupam na hierarquia eclesiástica. E embora os diáconos, nos tempos primevos do cristianismo, fossem eleitos pelo mesmo povo, não puderam exercer suas funções senão depois que foram consagrados pelos Apóstolos mediante a imposição das mãos: "Apresentaram-nos diante dos Apóstolos, e orando, impuseram-lhes as mãos." Semelhante praxe estabeleceu-se quando os bispos e presbíteros eram deputados para as sagradas funções. Pois, assim escreve o Apóstolo das gentes ao bispo São Timóteo, seu discípulo: "Não queiras desprezar a graça que há em ti e que te foi dada pela profecia com a imposição das mãos do presbitério; advirto-te que ressuscites a graça de Deus, que está em ti pela imposição das minhas mãos; porque o Senhor não nos deu o espírito de termo, mas de virtude e de amor e de sobriedade."

Acresce que os clérigos são incumbidos de funções especiais, o que consta das palavras de Jesus Cristo, quando concedeu aos Apóstolos e seus sucessores o poder de consagrar a Eucaristia e de perdoar os pecados: "Fazei isto em memória de mim" e "Recebei o Espírito Santo; os pecados que perdoardes serão perdoados."

São Paulo procede da mesma maneira quando se dirige aos bispos das novas dioceses: "Olhai por vós e por todo o rebanho, sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para governardes a Igreja de Deus."

São Clemente Papa, que viveu no primeiro século, e São Inácio Mártir, do século segundo, ensinaram que os Apóstolos foram instituídos por Cristo Nosso Senhor, e que os presbíteros e diáconos, encarregados dos seus ministérios, foram nomeados pelos Apóstolos por vontade de Deus.

Finalmente, pela praxe constante da Igreja confirma-se esta verdade, pois nunca, nem mesmo durante as perseguições mais atrozes, permitiu que aqueles que não fossem sacerdotes exercessem as funções e os direitos próprios do sacerdócio. Tudo isso demonstra que as funções sacerdotais só podem ser exercidas por quem esteja consagrado por um rito especial.

Da exposição supra conclui-se que o estado clerical é perfeitamente distinto da classe dos leigos. Os clérigos lhes dispensam os mistérios de Deus, pela pregação e pela administração dos sacramentos, e por eles oferecem sacrifícios. Pelo fato de serem os clérigos consagrados de modo especial a Deus e destinados a exercer ministérios tão sublimes, são eles, na ordem eclesiástica, superiores aos leigos. Por isso mesmo, são obrigados a levar uma vida mais perfeita e virtuosa, de acordo com sua alta dignidade. Em atenção a isso, diz Nosso Senhor aos sacerdotes: "Vos estis lux mundi" — vós sois a luz do mundo, deveis mostrar aos homens o caminho da verdade, e como luzeiros derramar ondas de luz através da escuridão; "Vos estis sal terrae" — vós sois o sal da terra, porque deveis conservar os homens da corrupção, pela prática das virtudes cristãs e pela administração dos santos sacramentos. A dignidade de sacerdote deve corresponder, indiscutivelmente, a uma vida ilibada, pura e santa, como santa e divina é a sua vocação.

CAPÍTULO V

Os diferentes graus do sacerdócio

O primeiro sinal característico que o candidato ao sacerdócio recebe é a tonsura ou coroa clerical, que, segundo os teólogos, é a cerimônia sagrada instituída pela Igreja, mediante a qual o homem batizado e confirmado se dedica especialmente a Deus e é alistado no número dos clérigos, a fim de dispor-se para as ordens.

Já este primeiro passo que o clérigo dá lhe lembra a grandeza do sacerdócio. A tonsura, feita no vértice da cabeça, chama-lhe à memória a coroa de espinhos que foi posta sobre a cabeça do Salvador; recorda-lhe a dignidade real de que os clérigos são adornados e significa, pela subtração dos cabelos, que os clérigos devem desprezar as coisas inúteis e mundanas. Portanto, as virtudes que o clérigo deve cultivar e a missão que deve desempenhar têm sua significação na primeira tonsura.

Iniciado assim a carreira eclesiástica, o clérigo está habilitado a receber as quatro ordens menores, que são: o ostiariado, o leitorado, o exorcistado e o acolitado. O ostiariado confere o poder de abrir e fechar as portas do templo, dele afastar os indignos e guardar as sagradas alfaias, sendo as virtudes correspondentes a essa dignidade o zelo da casa de Deus, das coisas sagradas e das almas, segundo a exortação do pontífice.

O leitorado é a ordem que dá o poder de ler do púlpito, na igreja, a palavra de Deus e de catequizar o povo das coisas da fé, com o também de benzer pão e frutos novos, ficando, porém, este último poder ligado até que receba o sacerdócio. As virtudes que o leitor deve praticar são, principalmente, o amor ao estudo da Sagrada Escritura e o zelo pela santificação dos fiéis, ensinando tanto pela palavra como pelo exemplo.

O exorcistado dá o poder de impor as mãos aos energúmenos, tanto batizados como catecúmenos, e de invocar o nome do Senhor para livrá-los dos espíritos imundos. Por isso, o exorcista deve praticar, de modo especial, a pureza de coração e a mortificação das paixões, para que, na expressão do Pontifical, não sucumba às tentações daquele que, pelo seu ministério, expele dos outros.

O acolitado é a ordem pela qual se dá o poder de acender os círios, trazê-los acesos ao altar, preparar e apresentar as galhetas com vinho e água na missa. O acólito deve desprezar as obras das trevas, passar uma vida casta e edificar o povo com boas obras, conforme se colige das palavras da ordenação.

Depois de receber a tonsura e as quatro ordens menores, ao clérigo são conferidas as ordens maiores, ou sacras, do subdiaconato, diaconato e presbiterado. O subdiaconato comunica o poder de preparar a matéria do santo sacrifício, oferecer o cálice e a patena ao diácono, fornecer a água ao sacerdote quando celebra solenemente, ler a epístola na missa cantada e fazer a ablução dos corporais e sanguinhos. A ordenação impõe ao subdiácono a obrigação de rezar o ofício divino e o voto de perpétua castidade, pelo que deve ter o espírito de oração e de mortificação assídua dos sentidos, e fugir de tudo quanto possa prejudicar seus nobres encargos.

O diaconato é a ordem pela qual se dá o poder espiritual de servir imediatamente ao bispo e ao sacerdote na missa solene, nas funções sagradas, de cantar e explicar o Evangelho, de administrar o batismo, a comunhão e pregar, em casos extraordinários e com licença especial do prelado ordinário. Por força do seu ministério, deve cultivar virtudes em grau mais elevado que o subdiácono e brilhar pela prática da castidade perfeita e pelo zelo de pregar o Evangelho, não só por palavras, mas também por exemplos.

O presbiterado é a ordem pela qual se dá o poder de consagrar o Corpo e o Sangue de Cristo e de perdoar ou reter os pecados. O presbítero, ou sacerdote, oferece o santo sacrifício da missa e administra a comunhão; tem o poder de abençoar, derramando as bênçãos celestes sobre coisas e pessoas pelos sacramentos, sacramentais e outras funções sagradas. Preside aos ofícios divinos e governa o povo fiel, sob a obediência do Bispo, que lhe concede a necessária jurisdição. Deve pregar, apascentando o rebanho com a palavra de Jesus Cristo, batizar e administrar os sacramentos da penitência e da extrema unção. Estes ofícios o pontífice indica, dizendo na ordenação: "Sacerdotem oportet offerre, benedicere, praesse, praedicare et baptizare."

O sacerdote deve ser adornado de todas as virtudes, à imitação de Cristo, pois diz o Pontifical: "Mostrem (os sacerdotes), pela gravidade de seus atos e pelo seu modo de viver, que estão adiantados em perfeição, de modo que, meditando dia e noite na lei, creiam no que lerem; ensinem o que creem e imitem o que ensinam; mostrando em si a justiça, a constância, a misericórdia, a fortaleza e todas as virtudes." E, de modo especial, deve brilhar neles a caridade, que é simbolizada, na sagrada ordenação, pela veste sacerdotal.

Toda a série das ordens descritas é exercida pelo sacerdote nos seus diferentes ministérios.

Finalmente, o complemento e a plenitude do sacerdócio é o episcopado, que confere ao presbítero o poder de confirmar os fiéis, ordenar os ministros e consagrar as coisas pertencentes ao culto divino. É necessário, diz o Pontifical, que o Bispo julgue, interprete e consagre, batize e confirme. Os dois primeiros ofícios referem-se ao poder de jurisdição e importam o poder legislativo, judiciário, coativo e administrativo, como explicam os canonistas. Os outros dizem respeito ao poder de ordem. Os bispos são superiores aos simples sacerdotes quanto ao poder de ordem, por direito divino e eclesiástico, e o são em matéria de jurisdição em virtude do seu encargo de governar as dioceses por nomeação do Sumo Pontífice, que dirige soberanamente toda a Igreja e todos os bispos por direito divino.

As principais virtudes que o bispo deve cultivar acham-se indicadas nas seguintes palavras do Pontifical: "Seja nele copiosa a constância da fé, a pureza do amor, a sinceridade da paz. Sejam especiosos os seus pés para desempenhar o múnus da evangelização da paz, para evangelizar os teus bens: seja solícito, fervoroso no espírito; odeie a soberba; ame a humildade e a verdade, nem a abandone nunca, ou vencido pelos louvores e pelo termo."

Escala áurea da mais formosa das hierarquias!

CAPÍTULO VI

A dignidade sacerdotal

Pelo exposto, já se pode avaliar quão grande deve ser a nobreza sacerdotal! Segundo São Crisóstomo, ela está acima da dignidade dos príncipes da terra: "Aos reis foi confiado o domínio sobre os corpos; ao sacerdote, o poder sobre as almas: o rei perdoa as máculas dos corpos; o sacerdote purifica as manchas do pecado. Aquele tem as armas sensíveis, este, as espirituais; aquele dirige a guerra contra os bárbaros, e eu tenho de combater os demônios. É por isso que o rei curva a cabeça sob a mão do sacerdote."

A fé nos ensina que a dignidade sacerdotal é superior à dos anjos, por serem eles espíritos administradores enviados para executarem os divinos mandatos, ao passo que os sacerdotes imperam sobre o rei dos anjos e o trazem do céu à terra e o levam para onde querem.

Com razão, dizem os Santos Padres que o sacerdote é um outro Cristo: Sacerdos alter Christus. De fato, havendo na Nova Lei um único Sacerdote, segundo o atesta São Paulo, Jesus Cristo, o qual, porque permanece para sempre, tem um sacerdócio sempiterno, ninguém pode ser sacerdote sem, de algum modo, fazer-se uma coisa com Cristo. Isto se infere, por outro lado, dos ofícios que desempenha, porque, quando consagra, é o mesmo Cristo que consagra dizendo: "Este é o meu corpo." Quando batiza, é Cristo que batiza; quando perdoa pecados, é Cristo que absolve; quando anuncia a palavra de Deus, é Cristo que fala por sua boca: "Quem vos ouve, a mim ouve."

Revista-se, portanto, o sacerdote das perfeições de Jesus Cristo, e na sua mente e obras exiba-se a si mesmo como imitador de Cristo, para que possa dizer com São Paulo aos fiéis: "Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo." Dali é permitido concluir que os sacerdotes, quer em razão do sacramento da ordem, quer em razão do cuidado que devem ter das almas que lhes foram confiadas, são obrigados a alcançar a máxima perfeição.

E diz o Doutor Angélico: "Pela sagrada ordem, o sacerdote é deputado para mistérios digníssimos, com os quais serve ao próprio Cristo no sacramento do altar, e que, para isto, se requer maior santidade interior do que também a requer o estado religioso." Pelo que, os sacerdotes que têm cura de almas, posto que não estejam, como os bispos, no estado de perfeição, excedem, na verdade, aos religiosos que não têm ordens sacras, e são obrigados a serem mais perfeitos do que eles.

Segundo o mesmo Santo Tomás, os bispos estão em estado de perfeição, e quando assumem o ofício pastoral, obrigam-se a praticar a perfeição e até mesmo são obrigados a maior santidade que os religiosos, devendo não somente ser perfeitos, mas aperfeiçoadores dos outros.

Vem a propósito as palavras que São Carlos Borromeu dirigiu em um sermão ao seu clero: "Se nós, caríssimos irmãos, nos lembrássemos de quão grandes e quão sublimes coisas depositou Deus em nossas mãos, que poder não teria semelhante lembrança para nos estimular a levar uma vida digna de eclesiásticos! Que coisa haverá ali que o Senhor não tenha depositado nestas minhas mãos, quando nelas depositou o seu próprio Filho unigênito, coeterno e igual a Ele mesmo? Nestas mãos depositou todos os seus tesouros, os sacramentos e as graças. Depositou as almas, a quem ama sobre todas as coisas, a quem preferiu a si mesmo, a quem resgatou com o próprio sangue; nestas mãos depositou o mesmo céu, a fim de que o pudesse abrir e fechar aos outros. Como é então possível que eu seja tão ingrato a uma tal dignação e predileção de meu Deus, que chegue a pecar contra Ele?"

Ouçamos ainda a palavra de São João Crisóstomo, que fala em nome do próprio Deus: "Eu criei o céu e a terra; mas a ti, sacerdote, dou poder para que convertas esta terra vil e miserável em céu claro e resplandecente; eu acendi os astros no firmamento, a ti pertence acender outros astros mais brilhantes no céu da Igreja; não podes criar o homem, mas podes fazê-lo justo e agradável a Deus. Olha quanto te estimo; pois te dou poder para operares maiores prodígios do que os que eu operei na criação!"

Depois de várias ponderações na exortação que o Santo Padre Pio X dirigiu ao clero católico, diz que, no sentir da Igreja e dos Santos Padres, do sacerdote a qualquer homem de bem vai tanta diferença quanta do céu à terra; e que, por isso, a virtude sacerdotal se deve precaver de deslustrar-se não só com faltas graves, mas nem mesmo com os mais leves senões. Por isso, a vocação do sacerdote é um aviso do céu. O seu ministério é o desprendimento do que mais lisonjeia na vida. O seu préstimo na sociedade é ser a luz que mais santamente a alumia.

Mas, como é que, não obstante sua benemerência e santidade, o sacerdote bom é tantas vezes perseguido, censurado e ofendido? A resposta já nos deu o fundador da Santa Igreja, Jesus Cristo, quando falou aos seus discípulos: "Vede que vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sede, logo, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Mas guardai-vos dos maus homens, porque eles vos farão comparecer nos seus juízos. E vós sereis levados, por meu respeito, à presença dos governadores e dos reis, para lhes servirdes a Ele e aos gentios de testemunho. E quando vos levarem, não cuideis como ou o que haveis de falar, porque naquela hora vos será inspirado o que haveis de dizer. E vós, por causa do meu nome, sereis o ódio de todos; aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo."

Eis por que os sacerdotes, muitas vezes aqueles que, com mais fidelidade, cumprem suas obrigações, estão sujeitos ao ódio, às críticas injustas e às perseguições dos inimigos da Igreja. Mas os padres compenetrados de sua alta dignidade, de sua elevada missão social e da santidade da causa que representam não receiam as tormentas, porque trabalham em nome de Deus; não temem as dificuldades, porque o seu norte é a glória divina e o esplendor da Igreja Católica; não têm apreensões sobre a violência dos ataques dos inimigos da Igreja, dos apaixonados defensores da heresia, porque a verdade, os princípios religiosos e as grandes evidências do bem que a crença lhes desenvolve e fecunda consolidam no seu ânimo a certeza de que a causa santa por que têm de batalhar há de triunfar vitoriosa.

CAPÍTULO VII

Para quê o celibato eclesiástico?

Por motivos gravíssimos, a Igreja instituiu o celibato para os clérigos de ordens sacras. Se alguém tivesse a sabedoria de Salomão, a eloquência de São João Crisóstomo, a ciência de Santo Tomás ou a força de vontade de Santo Inácio de Loyola, a Igreja não o receberia no seu santuário, sem essa prévia condição como essencial. Como São João Evangelista, assim repousa o sacerdote em comunhão perpétua sobre o peito do divino Mestre, desde o dia em que recebe, pela ordenação, o cálice e a hóstia, até a hora final de sua vida, quando lhe são insculpidos o cálice e a hóstia na lápide sepulcral. As mãos que, diariamente, colocam sobre a patena e o corpo do Senhor, sob as espécies de pão, e o administram aos fiéis, devem ter algo daquelas mãos angélicas que agasalharam o corpo do mesmo Senhor no berço, em forma de criança. O sacerdote precisa assemelhar-se, na perfeição, à Virgem Santíssima, Mãe de Jesus Cristo. Sem o conhecimento da Sagrada Eucaristia, com a melhor vontade, não se compreende devidamente a necessidade do celibato eclesiástico.

Não se pense, porém, que a lei da continência perpétua envolva desprezo ao estado matrimonial. Pois, em nenhuma confissão religiosa, se atribui tamanha santidade ao matrimônio como na Igreja Católica, onde o matrimônio é coroado com a dignidade do sacramento. De outro lado, porém, é o cristianismo que, como Religião universal e a mais ideal que a história da humanidade conhece, deve abrir o caminho às aspirações mais altas da moral, sendo necessário que o Sacerdote desta Religião seja o porta-estandarte do heroísmo e da mortificação no espírito de Sacrifício e na imitação incondicional da perfeição virginal do divino Salvador. Se bem que, no caminho à eminência da perfeição, um ou outro tropece, feito vítima da fraqueza humana, na mesma lei, porém, brilha o sinal de Deus e se manifesta o caráter de força divina. Quem o puder entender, o entenda. A carne e o sangue não o podem compreender, porque a carne e o sangue não revelaram este Evangelho.

Por isso, a lei sobre a continência dos clérigos é tão antiga como a data do subdiaconato e remonta aos tempos apostólicos. Desde o princípio, a Igreja não admitia às ordens sacras senão aqueles que não eram casados ou os que tinham deixado de viver com suas esposas. Esse fato é atestado por São Jerônimo, Santo Epifânio, pelo papa São Cirício, pelo Concílio da Espanha no ano de 390, que declara: "Guardemos nós também o que os Apóstolos ensinaram e o que a mesma antiguidade observou." Desde então, a mesma lei foi confirmada pelos Papas e outros Concílios. E diz São Gregório Magno: "Aos subdiáconos não se concede o convívio marital, para que os que anteriormente estavam casados, vivam como se não fossem, e aqueles que não estão, permaneçam celibatários".

Embora no decurso dos tempos as Igrejas do Oriente se apartassem, insensivelmente, do rigor da disciplina primitiva, a Igreja latina ficou constantemente fiel à lei do celibato, renovando várias vezes certos regulamentos e publicando novos, para prevenir os abusos e abrigar seus ministros contra os perigos e as suspeitas desonrosas. Seria um crime, um sacrilégio da parte de um clérigo ligado pelas ordens sacras, a tentativa de contrair matrimônio. Seu casamento seria ferido de nulidade e não poderia atrair sobre si senão as maldições do céu e da terra. Diz o Concílio de Trento: "Se alguém disser que os clérigos constituídos em ordens sacras ou os regulares que professaram solenemente a castidade, possam contrair matrimônio e ser válido o contraído, não obstante a lei eclesiástica ou o voto, seja excomungado".

Como ninguém pode ser obrigado a abraçar a carreira eclesiástica, está claro que o sacerdote, livre e espontaneamente, aceita a lei da castidade perpétua. O curso normal no Seminário abrange doze anos. O seminarista recebe a ordem do subdiaconato na idade mínima de vinte e um anos e no fim do terceiro ano de teologia, portanto depois de onze anos de preparação.

Gedeão examinou três vezes o seu grupo de combatentes; a Igreja, durante longos anos, prova e examina os candidatos à sua milícia divina. E no dia da ordenação do novo subdiácono, o bispo lhe diz: "Ainda estás livre, podes retroceder, podes voltar para a vida profana!"

Não há, por isso, motivo para que seja vituperada a lei do celibato eclesiástico, muito menos por quem vive fora do grêmio da Igreja e pouco se importa com os preceitos da vida cristã.

A ordenação dá ao sacerdote direito a uma graça especial divina, para poder cumprir, com santidade, a sua nobre missão. Porém, não se torna, por isso mesmo, um herói invulnerável, porque os anjos sem carne e sangue não foram feitos administradores dos santos mistérios. Pode haver, e sem dúvida, tem havido escândalos. E quando um sacerdote infeliz, talvez devido à negligência com que exercia suas funções e cumpria seus deveres de estado ou por seduções dos inimigos da fé, abandona a vida eclesiástica, oh! Então é recebido pelos heréticos, com alegria e aplausos, na esperança de que ele contribua para a obra nefanda de denegrir a fama da Igreja. Mas nenhum homem razoável calcula o valor duma árvore pelos frutos que caem bichados à terra, e todos os cidadãos, felizmente, sabem que a medicina conserva sua importância, embora um ou outro módico tenha de recolher-se à enfermaria de um hospital e submeter-se a uma operação cirúrgica. Os bons católicos não perdem a sua fé nem deixam de praticar sua Religião, embora algum sacerdote, à semelhança de Judas, renegue a Cristo e atire lama à face da Igreja, que lhe dispensou inúmeros favores e carinhos.

É interessante que justamente os anticlericais, mais do que outros, lutem contra a lei do celibato, que, como está evidente, nada tem que ver com o procedimento daqueles que vivem no mundo celibatários.

Não queremos falar a respeito da possibilidade de guardar a castidade perfeita, por ser um fato provado e fora de dúvida. Mas é preciso acentuar, alto e bom som, que o passo errado de um sacerdote tão pouco importa a culpa do celibato, como ao matrimônio pode ser imputada a culpa de qualquer adultério. O matrimônio e a família conservam seu valor, importância e santidade, de bem que um ou outro casamento seja infeliz ou uma outra família desgraçada.

Suposto que haja alguns sacerdotes infiéis à sua vocação divina, nós vemos milhares e milhares de outros que, com alegria, cumprem os deveres do seu estado e as obrigações do seu ministério, e hoje, como no dia de sua ordenação, dizem com firmeza e intrepidez: Adsum, aqui estou, para cumprir minha missão, mercê de Deus, até o fim da vida.

A continência perfeita dá ao sacerdote força sobrenatural, aperfeiçoa sua vida, acrisola-lhe a virtude e o habilita para os maiores sacrifícios. É necessário que o sacerdote seja santo e de vida ilibada. O celibato lhe confere força de leão, o que não deve admirar, porque também no firmamento virgem e leão são rutilantes constelações vizinhas.

CAPÍTULO VIII

A vocação sacerdotal

Apesar da falta de sacerdote, continua o direito canônico a prescrever a máxima escrupulosidade na escolha dos candidatos ao estado clerical, e não obstante esse rigor e o espírito da época, diariamente se apresentam voluntários para serem inscritos no exército do Senhor. Não lhes acenam honras mundanas e riquezas, mas os espera uma vida de mortificações, lutas e trabalhos árduos. A bandeira do Rei desdobra-se ao sopro benfazejo da graça divina, e novas plêiades de soldados seguem, resolutos e contentes, o bendito lábaro da cruz. O maior número vem das classes populares, sob cujas mãos laboriosas amadurece o trigo da hóstia e o vinho para o cálice. Justamente com os filhos do povo, atendem, em todos os tempos, representantes das condições sociais mais elevadas ao chamamento da graça.

O seminário mais antigo é, sem dúvida, a família cristã, que nos manda seus filhos, firmes de vontade e solidamente piedosos. Depois da família, os párocos desenvolverão o máximo cuidado em prestar seu apoio e auxílio aos jovens estudantes, ministrando-lhes a primeira instrução e dispensando-lhes, nas férias, proteção e carinho, no intuito de agradecer a Deus a graça da própria vocação e terem, mais adiante, um digno sucessor no ministério sacerdotal. E é de suma importância, também, que as pessoas de fortuna ajudem a sustentar seminaristas pobres, porque praticarão uma ação muito meritória em favor não somente dum candidato, mas da própria Diocese. Quantas famílias abastadas há que facilmente poderiam aplicar parte da fortuna que receberam de Deus em benefício da formação do clero nacional, que tantos e tão relevantes serviços presta à sociedade! E certo estamos, se muitas pessoas conhecessem as dificuldades com que os bispos lutam para manterem seus seminários, não deixariam de lhes oferecer um óbulo generoso.

E no seminário que o sacerdote se formar e onde recebe a necessária cultura ascética e científica; onde deve adquirir, principalmente, o amor incondicional e heroico ao divino Salvador, a fim de habilitar-se para o exame final em que terá de responder à primeira, segunda e terceira pergunta que Jesus dirigiu ao Apóstolo: "Pedro, amas-me? Então, apascenta meus cordeiros!"

É preciso que o sacerdote seja devidamente instruído e ilustrado, porque sua doutrina deve ser medicina espiritual para o povo de Deus. E disse Oséias, por mandado divino ao ignorante: "Já que tu rejeitas a ciência, eu te rejeitarei a ti, para que não exerças meu sacerdócio". Porém, mais necessário ainda é que seja homem de virtude comprovada. Não basta folhear os livros, é preciso ser homem de oração. Só assim o sacerdote será homem de Deus, útil à Igreja e à nação.

Vejamos agora em que propriamente consiste a vocação sacerdotal. E, de boa vontade, transladamos para esta página a exposição clara e sólida de um teólogo consciencioso que estudou a fundo esta questão. Pois a necessidade de ter uma ideia exata sobre esse assunto é de grande importância. Os fiéis e os padres continuamente pedem a Deus que mande operários para sua vinha, despertando vocações sacerdotais. Nisto reconhecemos um incitamento especial do Espírito Santo, que quer socorrer a necessidade premiante de tantas almas que vivem num perfeito abandono religioso. Compete, certamente, aos membros do Apostolado da Oração aliar a esse movimento salutar suas fervorosas orações, a fim de haver bons sacerdotes.

Na literatura religiosa dos últimos tempos foram propostas, quase geralmente, opiniões discordantes da doutrina ensinada pela antiguidade cristã, relativamente a esta matéria, e não podiam ser favoráveis ao recrutamento de sacerdotes. Sem entrar em particularidades, basta, para nosso escopo, observar que a questão relativa à natureza da vocação sacerdotal está agora definitivamente resolvida por um decreto da Comissão de Cardeais constituída por Pio X, expressamente para o referido fim. Este decreto abrange os seguintes três pontos: 1) Ninguém tem direito à ordenação, antes da livre escolha do bispo; 2) a condição a que tem de atender o ordenando e que se chama vocação sacerdotal, não consiste, pelo menos necessária e ordinariamente, numa certa aspiração interior do indivíduo ou em convites do Espírito Santo para abraçar o sacerdócio; 3) mas, pelo contrário, nada mais se exige no ordenando para ser chamado legitimamente pelo Bispo, do que a reta intenção, juntamente com a idoneidade, que consiste em tais dons da natureza e da graça e provada por uma tal probidade de vida e suficiência de doutrina, que haja esperança de que possa retamente exercer as funções do sacerdócio e santamente observar suas obrigações.

O presente decreto obriga em consciência e concorda perfeitamente com o cânon 969, 1 do novo Código Eclesiástico, onde se declara que recebe licitamente a ordenação quem, conforme à norma dos santos cânones, segundo o juízo do seu bispo, é dotado das devidas qualidades e não é retido por nenhuma irregularidade ou outro impedimento.

Consequentemente, a vocação sacerdotal existe quando consta que o candidato tem reta intenção e é idôneo. Os meninos que entram no seminário geralmente se acham numa idade em que ainda precisam de direção, sobretudo nas coisas espirituais. Por isso, não lhes compete a eles manifestar a vontade de entrarem no seminário; cabe aos pais e aos curas das almas o dever de convidar a entrarem no seminário aqueles meninos em que vêm realizadas as condições necessárias, propondo-lhes motivos justos e convenientes.

No decurso dos estudos, o seminarista se empenhará para conhecer sempre mais claramente a vontade de Deus – não a vontade de Deus que manda, senão seu maior beneplácito. A razão é porque Deus Nosso Senhor a ninguém obriga, segundo a providência ordinária, ao sacerdócio, assim como a nenhum jovem dele exclui, isto é, a todos que tenham as qualidades necessárias, deixa a liberdade de escolher o sacerdócio como estado de vida.

Ao bispo incumbe envidar todos os esforços para que, por meio do seminário, prepare operários resolutos para o amanho do vinhedo do Senhor, porque, como diz o Santo Padre Bento XIV: "Operários bons e estrênios não nascem, mas devem ser formados. Porém, pertence aos cuidados e à diligência dos bispos a formação deles".

São estas as preciosas normas que devemos observar na precitada matéria. Narram as Sagradas Escrituras que o santo varão Elcana e sua piedosa mulher Ana levaram o seu primogênito Samuel, em tenra idade, para o templo de Silo, para que fosse consagrado ao serviço do Senhor por toda a vida. Samuel veio a ser um grande sacerdote e profeta da Antiga Lei. Ele instruiu o povo nas verdades e mandamentos divinos e sagrou os primeiros reis de Israel. Tornou-se, como ministro do Altíssimo, uma verdadeira glória dos seus pais e uma honra para sua nação.

Imitem os pais católicos este formoso exemplo, inspirem aos seus queridos filhos respeito e veneração às coisas divinas, infundam-lhes amor ao sacerdócio, e os levem, em idade competente, ao seminário, para que um dia sejam dignos ministros do Altíssimo e desempenhem, como proveito para si e as almas imortais, as funções do seu sagrado ministério, e serão então, certamente, uma bênção fecunda para a sua geração, uma glória para a Igreja de Jesus Cristo e uma honra para a memória daqueles que lhes deram a vida.

CAPÍTULO IX

Trabalhos sociais do sacerdote

Na pregação, o sacerdote precisa imitar o exemplo de Jesus Cristo no Evangelho, e sua palavra deve acomodar-se às necessidades dos tempos. A caridade e a prudência devem inspirar e mover o verdadeiro evangelizador. À semelhança do seu Mestre, o sacerdote, quando tem de corrigir erros e abusos, sirva-se de expressões brandas e não ofensivas. O cura das almas, animado do espírito do Bom Pastor, não chamará logo fogo do céu sobre os pecadores, nem puxará, sem mais nem menos, pela espada para ferir a orelha dos sucessores de Malco.

As mãos do sacerdote foram ungidas para abençoar e não para lançar a maldição ao povo. A maneira de ensinar a palavra de Deus, como oradores profanos defendem causas perdidas, não convém, de forma alguma, à tribuna sagrada. O Salvador dos homens não disse aos seus discípulos e, portanto, nem àqueles que continuam sua nobre missão de pregar as verdades divinas: "Vós sois o açúcar" e muito menos "vós sois a pimenta", mas "vós sois o sal da terra". Isto quer dizer que o orador sagrado não deve sacrificar as verdades do Evangelho a formas adocicadas, para só agradar aos ouvidos, nem a inventivas acrimoniosas ou seguir o exemplo dos chamados filhos do trovão e reprovado por Cristo: "Senhor, queres tu que digamos que desça fogo do céu e os consuma?"

No cuidado dos enfermos e dos pobres, o sacerdote tem magnífica ocasião de exercer um outro ramo de benéfica ação social. À cabeceira do doente na casa do desvalido, o cura das almas pratica a mais bela caridade. Ali, consola e conforta; suaviza males morais e oferece lenitivos corporais; esclarece dúvidas e ensina deveres; resolve dificuldades; encaminha as almas dos que falece ao céu e os que ficam ao cumprimento de suas obrigações. Mas também aqui é mister observar a palavra de Cristo: sede prudentes!

Mereçam os operários um cuidado especial da parte dos nossos cooperadores. Ainda no ano passado, insistimos em nossa Pastoral, de um modo muito especial, neste assunto. É preciso que o cura das almas conquiste a confiança do operário, pelo interesse que toma nos seus trabalhos, dificuldades e lutas pela vida honesta. Procure infundir no ânimo dos operários a convicção da impossibilidade de igualar todas as condições humanas e que as promessas feitas pelos destruidores da ordem pública são como a montanha de ouro numa ilha ainda não descoberta no vasto oceano, e que em todos os estados o homem pode ser feliz e conseguir seu fim supremo. De outro lado, porém, esforce-se, o mais possível, por obter dos patrões e donos de fábricas concessões a que os operários têm direito para garantir-lhes uma subsistência conveniente e digna.

O vigário não pode nem deve restringir sua atividade ao recinto da igreja e da casa paroquial. É preciso que organize também associações para fins sociais, onde possa atuar beneficamente sobre o espírito do povo em matéria que menos se preste a ser tratada em práticas dominicais. Desta maneira, arreda a juventude e os operários de reuniões perigosas e prejudiciais ao indivíduo e à família. Este trabalho não será fácil, certamente, para o sacerdote sobrecarregado de numerosas ocupações, principalmente nos domingos e dias santificados, em que deve atender às diversas funções do seu ministério.

Em tais trabalhos, porém, o sacerdote nunca deve perder de vista a dignidade de seu estado e o fim de sua elevada missão. Discreto, circunspecto e grave, desempenhará o seu cargo, evitando tudo que possa prejudicar seu prestígio e ação de ministro de Deus. Acautele-se, portanto, para que, em vez de salvar os outros do naufrágio, ele mesmo não seja arrastado e submerso na voragem do abismo.

Fundem e mantenham os senhores vigários escolas católicas, onde se ministre o ensino, de acordo com as instruções diocesanas, porque não são superiores, mas cooperadores dos Bispos, a quem, neste assunto, compete também, como constituídos pelo Espírito Santo para regerem a Igreja de Deus, dar normas e direção. Façamos, razoavelmente, o uso da liberdade de ensino que as leis do país concedem, mas, por amor de Deus, não queiram os sacerdotes e católicos dificultar aos seus bispos o exercício dessa liberdade na organização do ensino católico, que visa o bem do povo, da Igreja, da pátria. Dificuldades nesse sentido opostas prejudicam a causa católica e expõem a perigo eminente a existência das escolas cristãs.

É de muita conveniência que, nas cidades e vilas, os sacerdotes e religiosos mantenham escolas noturnas para operários e moços, impedidos de frequentarem outras escolas. Existem nesta cidade, felizmente, várias dessas aulas bem frequentadas, o que é uma prova do zelo dos nossos religiosos e vigários.

Alistem os sacerdotes os jovens de suas paróquias ou colégios em sodalícios religiosos, para que, desta maneira, conservem a fé e a piedade e sejam afastados dos perigos que ameaçam a sua idade.

Consagrem os sacerdotes um cuidado especial aos homens, que em todas as condições da vida humana, marcham na vanguarda e dirigem as classes sociais.

Aos intelectuais é preciso mostrar o perfeito acordo entre a ciência e a Religião, e que os maiores sábios do mundo não podem eximir-se de prestar culto de adoração ao Pai celeste, que é o Deus das ciências. Ensinem-lhes a deficiência da inteligência humana e a grandeza infinita do Criador de todos os seres, que julgará, na hora da morte, pelas mesmas leis do Decálogo e segundo as intenções de cada um, os sábios e os ignorantes, os letrados e os analfabetos.

Seja São Paulo o modelo dos nossos sacerdotes na ação social. No Areópago dos sábios e intelectuais, no templo e nas reuniões populares, imite o sacerdote o seu exemplo. Seja tudo para todos: omnia omnibus, a fim de conquistar a todos para Cristo.

Como São Paulo ao seu discípulo Timóteo, dizemos a cada um dos nossos presados sacerdotes: Praecipe haec, et doce!

CAPÍTULO X

O templo na vida dos povos católicos

Sacerdócio e templo representam ideias inseparáveis; um reclama a existência do outro. O sacerdote exerce ali as funções principais do seu sagrado ministério: administra os sacramentos, celebra o sacrifício da missa e, no púlpito, prega a palavra de Deus aos fiéis. O templo é o lugar em que se realizam os maiores mistérios da nossa Religião, e, com razão, se chama aula Dei, casa de Deus, mas também aula plebis christianae, casa do povo cristão. Por isso, levantam-se templos nas cidades populosas e nos campos, nos montes e no fundo dos vales, nas ribanceiras dos rios e nas regiões colonizadas. Aula Dei, casa de Deus! Por ser o templo o santuário da Divindade, é digno de toda a grandeza e suntuosidade. Aula plebis christianae, como casa do povo cristão, onde os fiéis cumprem seus deveres religiosos, o templo é um monumento de fé e de santidade, o devoto lugar da doce comunhão espiritual dos irmãos, numa fé, numa esperança e num amor.

CAPÍTULO XI

A utilidade da estatuária e da pintura

No vasto conjunto dos seres que formam o universo, existe perfeita coordenação de todos os processos mecânicos e vitais. De tal sorte é regido o mundo físico por leis constantes e sábias, que os fenômenos cósmicos se produzem e reproduzem, com máxima regularidade. O Criador conferiu aos seres uma natureza definida, sujeita às leis precisas, que os dirigem segundo o seu caráter individual e como partes componentes do universo. A Providência divina encaminha todas as criaturas, com suavidade e fortaleza, ao seu fim particular como também à consecução do fim geral e comum, que é a glória suprema de Deus onipotente. "Caeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat firmamentum: Os céus publicam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos."

Desta maneira, não existe grão de areia nem átomo que não tenha um destino designado por Deus, e tão pouco uma folha seca caia da árvore sem prévia disposição divina. De fato, Deus chamou à existência os mundos que gravitam em torno de nós, e dispôs todas as coisas segundo sua medida, peso e número. Ora, o mesmo Deus criou só o homem à sua semelhança e imagem, deu-lhe a inteligência, a vontade livre, a memória, a imaginação e o sentimento, e pôs na sua alma a potência criadora das artes liberais, a ideia do belo e da verdade, que tem seu princípio e fim nos atributos infinitos de Deus mesmo.

Quem, pois, poderá condenar as artes ou negar-lhes sua utilidade e importância, em vista da nobreza de sua origem e por serem o produto das faculdades mais distintas do homem?

Portanto, elas têm o direito de existir no convívio dos povos, por intenção divina. Seu fim precípuo não consiste numa complacência ou gozo sentimental passageiro e, muito menos, na satisfação de inclinações desordenadas, mas na elevação moral do homem, no aperfeiçoamento da sociedade humana e na glorificação do seu divino Autor. Vemos que na antiguidade as artes e a ciência eram consideradas como irmãs gêmeas, filhas da religião, e exerciam poderosa influência educativa sobre os povos. A religião lhes inspirava os sentimentos de pureza moral e de sublimes ideais. Esse fato é observado nos tempos assinalados pelo verdadeiro progresso nas artes e ciências, como seja na época de Péricles, no período do renascimento das ciências e artes cristãs.

Dali, a razão por que se considera a arte como um dos meios mais importantes de educação dos povos. Aristóteles, no ponto de vista dos seus compatriotas, diz que o pintor e o escultor ensinam a virtude, dum modo mais eficaz do que os filósofos com seus preceitos, e que aqueles têm mais aptidão para converter os viciosos, do que as melhores doutrinas da moral, sem esse auxílio.

O pensamento da Stagirita nos explica sua exigência ulterior, dizendo ser necessário que a legislação providencie, de maneira que a mocidade nada veja ou ouça que seja desonesto, e que as autoridades vigiem, a fim de que não sejam toleradas, em nenhum lugar, pinturas ou estátuas obscenas! Infelizmente, a Grécia não conservou esses nobres sentimentos de pureza e dignidade. A decadência moral de suas artes marcou o declínio de sua prosperidade nacional.

Não se pode desconhecer a influência salutar da arte da pintura e da estatuária, na sua acepção mais digna, sobre o coração humano. As suaves impressões do belo incitam a prática da virtude, influem nos bons costumes, retemperam o caráter, dignificam e elevam o sentimento. De fato, o coração dos jovens se educa e se forma, ao contemplar a glória imorredoura dos grandes homens dos tempos históricos, familiarizando-se com as virtudes de seus antepassados. A recordação dos fatos dos seus avoengos os anima e lhes dá força, para conservarem íntegra sua dignidade pessoal, no burburinho da vida, e repelirem os inimigos das tradições gloriosas de sua pátria.

A nobreza e a graça que o artista transfunde da sua alma para a obra que produz, comunicam-se ao espírito de quem a contempla. O sentimento nobilitante impresso na imagem artística, afasta pensamentos frívolos, como a proximidade de seres superiores afugenta os espíritos impuros.

Mas, quantas vezes os artistas olvidam os nobres fins da pintura e da estatuária! Seus trabalhos, em vez de enobrecerem os sentimentos daqueles que visitam os salões das obras de belas artes, oferecem um pábulo venenoso à concupiscência nascente dos adolescentes, e aos adultos um convite à prática do mal.

Diz a história que em Thespia, antiga cidade da Beóica, se venerava com culto especial uma estátua de Eros, obra escultória de Praxiteles. Eros, o deus do amor e da sensualidade, era padroeiro dos thespianos, em cuja honra celebravam, de quatro em quatro anos, as festas chamadas Erotidéias.

Ora, de fato, muitos antigos e modernos, à imitação dos thespianos, consagram um culto demasiado a esse ídolo pagão, em detrimento do ideal artístico. É que em suas telas e mármores, sobressai o elemento erótico, como se fora a ideia predominante da beleza, com desprezo dos preceitos da sã moral e da delicadeza de sentimentos da alma popular.

Esse fato lamentável observa-se, especialmente, na arte moderna do cinema, onde as figuras são animadas e, por isso, impressionam mais fortemente os sentidos.

Haja respeito à inocência, haja respeito à virtude!

Nos tempos do cristianismo, que, em seus dogmas e mistérios, apresenta ao homem as ideias mais sublimes, as artes plásticas tomaram uma direção nova, substituindo ou nobilitando os ideais antigos. No templo católico é que as artes celebram magníficos triunfos, entoando hinos de louvor ao Senhor, o Pai das luzes, de quem desce toda a dádiva excelente, e vem todo o dom perfeito, e onde dizem aos homens: adorai, amai e servi a Deus, para que sejais felizes na terra e na eternidade.

CAPÍTULO XII

A arte romana e a cultura cristã

Refugiada nas catacumbas, devido às atrozes perseguições que o paganismo lhe movia, a Igreja não pode, nos primeiros séculos de sua existência, consagrar, de um modo peculiar, as artes plásticas ao culto divino. Contudo, encontramos, nas catacumbas ou igrejas subterrâneas daqueles tempos, decorações, imagens e inscrições místicas, que fazem honra à fé dos primeiros cristãos. Basta, para nosso fim, lembrarmos as pinturas do Bom Pastor e a formosa cena do banquete eucarístico na capela grega da catacumba de Santa Priscila, onde aparece a mesa o chefe da comunidade com seis pessoas, partindo pão e tendo diante de si um cálice e peixes, enquanto ao lado se acham sete cestos místicos com pães. Esta pintura que, há pouco, foi achada, data dos primeiros decênios do século segundo.

Em Roma, pelos fins dos tempos imperiais, a cultura das belas artes ainda não estava, de forma alguma, extinta. No tríplice campo da arquitetura, da pintura e da escultura, continuava a produzir obras dignas de atenção. Tanto que a construção de numerosas basílicas generosamente providas de objetos de adorno e de utensílios do culto, muitos e preciosos, determinou uma certa reflorescência da tradicional atividade artística romana, exclusivamente devida à Igreja. As novas ideias do cristianismo reanimaram e, em parte, reformaram os elementos tradicionais. As artes, desde o princípio da transformação de Roma, sob Constantino, retiraram-se cada vez mais dos lugares da vida comum para os templos cristãos. A arte profana era cada vez menos cultivada. A arquitetura cristã desdobrava-se na construção de magníficas basílicas, batistérios, túmulos, com seus sarcófagos, e oratórios das mais variadas formas. No interior dos templos, principalmente nas basílicas maiores, nas igrejas titulares das estações, achava-se reunido tudo quanto a escultura pudesse produzir em obras de mármore e metal, a pintura pelo pincel e a musivaria pela mão dos mosaístas.

"A perseguição dos imperadores precedentes, diz o historiador Eusébio, tinha abatido todas as nossas igrejas, mas no tempo de Constantino, reparamos esta perda com vantagem. Foi um belo espetáculo e o auge da alegria para a Igreja ver e edificar e reedificar, por todos os lados, uma infinidade de templos. Todo o poder, todas as riquezas do novo imperador se ostentaram nessa ocasião. Não se via, por todas as cidades do império, senão templos soberbos que se levantavam e que os nossos Bispos dedicavam à glória de Jesus Cristo".

A Igreja procurava cristianizar as formas da arte antiga. Apropriou-se, com generosidade e com compreensão verdadeira, da expressão do belo, da herança artística dos templos clássicos do passado. Somente não lhe era possível conservar-se na mesma altura do gosto e da representação estética em consequência das perturbações da vida social e política.

Como já a arte eclesiástica no período ante-constantiniano tomara um rumo independente, em virtude do espírito que infundira nas suas obras, nos tempos posteriores a esse imperador, seguiu caminhos próprios, mais expressivamente, para que a arte existente servisse, com maior perfeição, aos seus elevados pensamentos e aos fins do culto cristão.

Entretanto, a Igreja não criou uma nova arte ou novo estilo de formas especiais, que apresentasse aos olhos da humanidade. Não, ninguém pensava que a Religião cristã tivesse de produzir tais novidades. Com formas estranhas, teria ela comprometido sua sabedoria e prejudicado sua larga visão, dificultando a si mesma a entrada na sociedade daqueles tempos.

Seus artistas, que na maior parte eram convertidos, continuavam a trabalhar, aproveitando, criteriosamente, o tesouro de elementos que já possuíam. E como a Igreja se acomodava às circunstâncias, em relação aos costumes e hábitos da vida, enquanto nada havia contrário à fé e aos bons costumes, assim também cultivava sua arte no próprio campo da arte romana, imprimindo-lhe o selo do seu espírito, de sua pureza e da abundância de seus ideais. A arte penetrou, durante a antiguidade e o primeiro período do cristianismo, tão fundamente na vida privada e pública, que sua história se tornou a verdadeira narração de sua cultura geral. Nos tempos modernos, a arte e a vida estão mais separadas entre si. A indústria e a manufatura, que hoje tudo dominam, apenas nos permitem conjecturar quão poderoso fator as artes representaram na orientação dos espíritos e na civilização da sociedade. Nelas pulsavam, verdadeiramente, todos os sentimentos que moviam o coração dos homens. Como a antiguidade clássica se identificava com a cultura do gosto estético e da beleza, assim as ideias da primeira díade do cristianismo e de sua arte, acham-se inteiramente ligadas.

Assim é que a Igreja Católica, desde o alvorecer da sua existência, procurou incrementar as artes, enobrecendo suas formas, para maior bem da sociedade humana, edificação das almas e glória de Deus.

CAPÍTULO XIII

A expressão do belo na arquitetura

Entre as artes plásticas, ocupa lugar primacial a arquitetura. A simetria, as proporções, a graça, os ornamentos e o brilho das cores são os atributos do belo. A simetria exige uma igual repartição de forças. Ela supõe o acordo, a balança. As proporções supõem este termo médio que dista muito da exageração; é a harmonia com as necessidades do indivíduo e com as relações que o ligam às outras criaturas da mesma natureza ou de natureza diferentes, mas destinadas a viver em contato entre si. A graça é a prontidão, a agilidade, é a facilidade dos movimentos, a ausência do trabalho e constrangimento. Os ornamentos são as provas de desenvolvimento e de riqueza.

O belo positivo está na natureza ou na sua imitação, notavelmente na pintura e na escultura. O sublime do belo acha-se nas obras dos artistas que melhor compreenderam as intenções do Criador; é lá que existe o ideal da beleza. O domínio das belezas relativas é vasto, porém, não exclui a existência do belo positivo. Aquelas são as partes das gradações da organização e do desenvolvimento; esta é a parte do homem moral, do homem criado à imitação de Deus, do homem sobre quem o pensamento e o sentimento exercem uma influência determinada pela intenção do Criador.

Na arquitetura, o belo é muitas vezes mais relativo do que positivo; ele tem por fim e regra a solidez e a comodidade, e depende dos costumes, do clima, das localidades e da destinação da obra. Contudo, mesmo na arquitetura, o belo relativo se liga ao belo positivo pela simetria e as proporções; ela pode exprimir a alegria pelos ornamentos, a tristeza pelas sombras, e as necessidades do descanso e do repouso pela sua grandeza; ela, enfim, tem apoio nas leis imitáveis da natureza, pela aplicação das linhas e dos princípios geométricos.

Talvez seja conveniente acrescentar as judiciosas palavras de um autor sobre o belo ideal: "A natureza tem seus defeitos: o mais belo corpo é raramente isento deles; há partes que se podem achar muitas vezes ou supor mais perfeitas em outros corpos. Em conformidade com esta experiência, o artista inteligente procede como um jardineiro industrioso, que enxerta numa vara garfos de melhor qualidade. A abelha forma o mel do suco de muitas flores. A ideia da beleza dos mestres gregos não se restringia só ao belo individual: os gregos procuravam reunir o belo de muitos corpos belos. A escolha das belas partes e suas relações harmoniosas em uma figura produziram a beleza ideal, que, por consequência, não é uma ideia metafísica."

Resumindo, pode-se dizer que o belo é a corporificação de uma ideia para o fim da complacência estética, e por isso, pode-se perguntar: Possui a arquitetura o poder de presentear uma ideia de modo visível e palpável para a fantasia e a razão? É a verdade que a linguagem das formas da arquitetura não é tão inteligível e tão determinada como a das duas artes irmãs. A pintura é habilitada a produzir imagens que em si oferecem a perfeita semelhança da realidade e expressam, com máxima segurança, a significação interior: o mesmo pode a escultura, embora em limites mais restritos, porque ela também oferece representações de objetos reais, de tal maneira que, por exemplo, o mármore já não atue mais como pedra, mas como imagem de vida, que respira e exprime sentimento, sensibilidade e paixão.

Isto não se dá na arquitetura, porque a pedra continua a mesma e, embora cortada e lavrada, suas diferentes formas não manifestam ideias definidas, nem proferem pensamentos ou palavras; sua linguagem é como a da música, que também só fala por meio de sons, sem exprimir conceitos determinados. Até a construção mais perfeita não é capaz duma expressão característica especial, como nem a sinfonia, por mais impressionante que seja, exprime claramente uma ação, mas somente um estado geral do sentimento.

E, contudo, é necessário que o templo seja um monumento estético, e suas formas representem a ideia da casa de Deus: o santuário terreno daquele que mora entre os homens, para lhes oferecer os meios divinos da salvação e conduzi-los à pátria eterna. Nenhum edifício poderá exprimir, direta e claramente, este pensamento. Mas, não obstante, há estilos arquitetônicos tão nobres, que, de certo modo, representam e interpretam tais sublimes pensamentos. Acresce que um simbolismo apropriado transforma os elementos materiais em ideias e sentimentos religiosos e sobrenaturais. Além disto, não se pode imaginar uma obra arquitetônica sem os necessários ornamentos, pelos quais o arquiteto exprime e interpreta as ideias do culto e da Religião. Enfim, a arquitetura chama em seu auxílio a pintura e a escultura, cuja linguagem é clara, expressiva e determinada.

Deste modo, a arquitetura dispõe de tantos meios e recursos, que pode perfeitamente exprimir a ideia da casa de Deus, cumprindo sua mais sublime missão, o que é provado exuberantemente pela história das belas artes.

Haja vista a grandiosa basílica de São Pedro em Roma. A ideia que o artista concretizou nas pedras do edifício, nos diz, altamente, que se trata ali da habitação terrena do Deus infinito e todo-poderoso, a qual representa, embora palidamente, a imagem da morada divina no céu, para o qual fomos destinados e aonde devemos dirigir todas as nossas aspirações e anelos.

Um único golpe de vista desse templo colossal e maravilhoso, convence os observadores de que não foi destinado a servir conveniências humanas, nem para ser a casa dum homem, por maior e mais poderoso que fosse, mas que havia de destinar-se aos fins mais nobres e sublimes. De fato, que tem o homem de mais nobre e sublime do que as relações que o prendem a Deus? E não parecem essas colunas admiráveis, essa cúpula majestosa, cuja agulha rompe as nuvens e foge do espaço, essas abóbadas magníficas, essas torres e torrões elegantes, exprimir as saudades que nossa alma tem de Deus e da pátria celestial? Essas numerosas pinturas e esse povo de estátuas que decoram as paredes da basílica, cantando a glória perene do Senhor, nos causam a impressão de nos acharmos no meio dos santos no céu, onde todos os olhares convergem para o Deus uno e trino, que recebe constantemente os hosanas e as aclamações dos bem-aventurados!

O templo, pois, destinando-se aos atos do culto divino, exprime pelas suas formas, os ideais da Religião, eleva a alma e esclarece a inteligência.

CAPÍTULO XIV

Um fator da civilização

Quando Salomão resolvera edificar um templo majestoso à glória de seu Deus, dirigiu-se a Hiram, rei de Tiro, pedindo operários e fazendo grandes encomendas de materiais: Preciso de excelentes obreiros, bem como duma grande quantidade de madeira de cedro do Líbano; só tu me podes prover de ambas estas coisas. Não quero, porém, que este obséquio te seja penoso. Estabelece tu mesmo o preço, e estarei pelo que estipulares. Hiram, agradando-se do pedido de Salomão, enviou-lhe todos os cedros e artistas mecânicos de que precisava. Imediatamente, deu-se início à obra gigantesca e se começou a desenvolver uma espantosa atividade.

Trinta mil homens se ocupavam em cortar as árvores e preparar as madeiras, indo por turnos dez mil cada mês, para o Monte Líbano; oitenta mil trabalhavam em tirar a pedra; setenta mil conduziam os materiais, e três mil e seiscentos propostos ou capatazes dirigiam os trabalhos. Todas as pedras e madeiras, quando as traziam, já vinham aparelhadas para se colocarem em seu lugar, de sorte que se não ouvia no tempo o bater do martelo ou do machado, quanto se edificava.

Salomão lançou os primeiros fundamentos desse templo imponente no quarto ano do seu reinado, e em mil antes do nascimento de Jesus Cristo. Foi construído segundo o modelo do Tabernáculo que Moisés tinha erigido no deserto, e cuja planta o Senhor lhe tinha dado. Consistia toda a diferença na magnitude das dimensões e riqueza dos ornatos. Esse movimento ativava as energias de dois povos, impulsionando o progresso comercial e industrial e desenvolvendo as artes mecânicas e liberais. Pela cultura dos vários ramos de atividade humana, recebeu a civilização daquele tempo grande incremento.

Na conquista de novas terras para a civilização, o templo católico representa um dos fatores mais notáveis. Os galeões e caravelas, com que avançaram os audazes navegadores portugueses e espanhóis, por mares agitados, em busca de novas praias, novos países e novos povos, esses galeões e caravelas que levavam por timbre a cruz de Cristo, conduziam nos seus porões a ferramenta e a pedra, para construir, pelas terras descobertas, novos templos e altares. Onde se erguia a bandeira do domínio português ou espanhol, levantava-se também uma ermida, um santuário, como monumento da Religião católica. Portugueses e espanhóis, com razão, podem dizer que a crônica de suas melhores conquistas e descobertas no vasto continente americano, não se lê somente nos pergaminhos que enchem seus arquivos, mas se aprende e se admira, talvez ainda mais, nessas páginas de pedra, nesses templos consagrados ao Altíssimo pela devoção de homens retemperados no crisol da fé, e enobrecidos com o culto do patriotismo.

Viagem por este Estado e pelo Brasil inteiro, e vereis que o centro e o início de todas as povoações e cidades, os princípios de todo o progresso e civilização, é o templo católico. Quase sempre na eminência de colinas, ergue-se, branca e resplandecente, a casa de Deus, acenando, com a cruz de suas torres, ao viandante, como para indicar-lhe um lugar de repouso e um centro de atividade humana, provido de recursos para os diversos mistérios da vida.

É, geralmente, em frente de uma larga praça que se levanta o santuário, estendendo-se pelos lados longas filas de casas. Ali se acham, como nas ruas adjacentes, as casas comerciais, os edifícios públicos, as oficinas mecânicas e talvez, algumas fábricas. É no templo católico que o povo fiel se reúne nos domingos e dias santos, para prestar homenagem a Deus, para celebrar as suas festas religiosas e as solenidades fúnebres, em memória daqueles que já deixaram esta vida.

E não é necessário fazer excursões pelo passado, basta dar uma volta pelas zonas coloniais; não há ali povoado ou linha, que não tenha sua capela ou igreja, mais ou menos rica, de acordo com as condições financeiras dos habitantes do lugar. O edifício mais importante que, em todos os lugares de colonização, se encontra, é o templo, seja ele construído de toscas tábuas de pinho ou de materiais mais resistentes às intempéries do futuro.

A máxima aspiração de um novo centro colonial é, sem dúvida, a construção de um templo que forme a sede paroquial, onde os fiéis possam receber o conforto da Religião que seja uma garantia do desenvolvimento espiritual e material. Haja vista a nova colonização dentro e fora do Estado, em que as empresas diretoras, em todos os centros mais importantes, reservam uma área especial para a construção da igreja e empregam seus máximos esforços, no sentido de conseguirem um sacerdote que se encarregue da administração do novo templo e da direção espiritual dos colonos, que, sem essa garantia, dificilmente fixam residência.

Nos arrabaldes das cidades, no meio das populações operárias, os Bispos fundam paróquias e levantam templos, a fim de oferecer a necessária assistência espiritual àqueles que vivem entregues, quase exclusivamente, ao trabalho material, sem instrução religiosa ou civil. Levanta-se o templo, pequeno ou grande, começa o sacerdote a ensinar a doutrina cristã, prega no púlpito as verdades evangélicas: bem-aventurados os pobres, bem-aventurados os puros, bem-aventurados os justos, porque possuirão os bens necessários na terra e serão felizes depois da morte. Ao lado do templo, levantam-se escolas diurnas e noturnas, para a instrução de crianças e adultos. Formam-se agremiações, cujos membros são instruídos nos assuntos mais palpitantes que agitam a vida social.

Qual é o resultado dessa ação? Pouco a pouco, transformam-se esses bairros em centros abençoados de piedade, de ordem e morigeração.

Como o grande Anchieta, o apóstolo das selvas brasileiras, reunia, à sombra da cruz, que encimava a modesta ermida; como ainda hoje, o zeloso missionário salesiano, em Mato Grosso, educa e civiliza os Bororos no santuário coberto de folhas de palmeira; como os portugueses e espanhóis, com o auxílio do tempo, criaram novas civilizações; como a antiga ermida de São Francisco de Assis, coberta de palha, há séculos passados, nesta capital, formava o centro de um povo generoso e de valor, assim o templo católico continua agora e sempre a ser um foco luminoso da verdadeira cultura humana, um fator poderoso da civilização dos povos.

CAPÍTULO XV

O templo e a democracia cristã

Não se cultiva, por ventura, nos templos católicos a verdadeira democracia cristã? Não florescem e frutificam ali a genuína igualdade, fraternidade e liberdade, sob os auspícios da fé? Transponde, pois, o limiar do templo, e logo à entrada, vereis a sagrada fonte, na qual o batismo é administrado, com as mesmas prescrições litúrgicas, ao filho do pobre e ao do rico.

Depois, avistareis o tribunal da penitência, onde o proletário, como o capitalista, se deve ajoelhar, para fazer a acusação de suas faltas e receber do sacerdote a absolvição sacramental, segundo as mesmas normas de justiça e de caridade.

Mas adiante, sob o arco-cruzeiro, acha-se a mesa eucarística, da qual se aproxima o poderoso contrito e reverente, ao lado do mendigo, sendo que o mesmo Deus desce do tabernáculo ao coração de um e de outro, a fim de lhes comunicar graças celestes, iguais em si, mas cuja eficácia depende das disposições de quem as recebe. Eis a cátedra da verdade, a tribuna da palavra divina, onde o discípulo de Jesus Cristo, em nome da Igreja, durante dezenove séculos, repete aos soberanos e presidentes de Estado, como aos seus súditos e simples cidadãos, as obrigações que têm para com Deus, seu Criador e Senhor supremo, os deveres que mutuamente lhes incumbem, as obras de caridade que devem praticar e as verdades que hão de crer, como condição essencial da vida presente e necessária para alcançarem a glória eterna.

No lugar mais visível, avulta o altar, em que o crucifixo estende seus braços, como no Calvário, em sinal de que a obra da salvação abrange todos os homens. A luz que brilha na lâmpada nos diz que no sacrário, o Salvador divino, sob os véus eucarísticos, se acha ido de noite a repetir: Vinde a mim, vós todos que estais carregados de trabalhos, pesares e dificuldades, que a vida presente vos impõe, eu vos ofereço alívio, conforto e auxílio.

E não é sobre esta ara sagrada, que o mesmo Deus se imola tanto pelas classes desprotegidas da sorte, como pelas afortunadas? Sim, o ministro da Igreja celebra ali o mesmo sacrifício e recita as mesmas preces em favor dos vivos e dos mortos, sem distinção de classes, categorias ou cores, sem estabelecer diferença entre príncipes ilustres e laboriosos agricultores.

No recinto do templo, seja sob o teto tosco de capela rural ou sob as abóbadas ricamente ornadas de igrejas das cidades, recebem os filhos dos modestos trabalhadores, como dos ricos patrões, a mesma instrução religiosa, devem aprender o mesmo catecismo, esse admirável compêndio de verdades sublimes e preceitos divinos, ouvem, enfim, as mesmas verdades e assistem aos mesmos exercícios de piedade, por terem todos o mesmo Pai comum, Deus Nosso Senhor.

É ao pé do altar, que o pároco, como representante legal da Igreja, preside, com o mesmo cerimonial, à celebração do matrimônio dos simples operários, que se dão as mãos calejadas para a aliança da vida, como dos cidadãos opulentos, lançando-lhes a bênção nupcial, como penhor de felicidade, e fazendo-lhes as mesmas exortações, relativamente aos deveres de seu novo estado.

É ainda na administração do sacramento da confirmação, que ao templo se dirigem, indistintamente, representantes de todas as classes sociais, para nele receberem os mesmos benefícios sobrenaturais, que o divino Espírito Santo infunde em suas almas, armando-os cavaleiros de Cristo e fazendo-as cristãos perfeitos na ordem sacramental, a fim de que, como soldados valentes da Igreja, possam combater o bom combate e triunfar dos inimigos de sua salvação.

Enfim, no templo, o pontífice administra o sacramento do sacerdócio a candidatos oriundos de todas as camadas sociais, desde a honrada condição de artífice, até a classe mais aristocrática, tendo todos de apresentar-se, igualmente, munidos com o imprescindível pergaminho das ciências profanas e sagradas, e cingidos do áureo diadema de virtudes acrisoladas. Revestidos da excelsa dignidade sacerdotal, ungidos do Espírito Santo e incorporados na milícia de Cristo, os ministros da Igreja, sem distinção de origens e condições sociais, estão habilitados para dirigirem, segundo o direito eclesiástico, tanto a capela situada num bairro de operários, como as igrejas matrizes, as amplas catedrais e a própria Basílica de São Pedro em Roma.

E, de fato, todos os cargos e todas as dignidades na hierarquia eclesiástica, desde a mais pequenina capelania até o episcopado, o cardinalato e a culminância do Sumo Pontificado, são acessíveis, tanto aos filhos do povo, como aos da nobreza e da alta aristocracia, conforme a história a prova brilhantemente. Iguais os homens pela sua natureza e perante Deus, é a nobreza do caráter e das virtudes que os nobilita, e é a aristocracia do saber divino e humano que os eleva e dignifica no grêmio da Igreja.

E assim, verifica-se a palavra do Apóstolo definindo o sacerdote como tirado por Deus entre os homens, para consagrar-se ao serviço das coisas divinas.

Em vista do que acima fica exposto, deve-se afirmar, indubitavelmente, que o templo católico nos ensina a mais eloquente lição de democracia, porque nele reina a fulgente tríade das aspirações modernas, tantas vezes frustradas pela política e pelo filosofismo, sendo, aliás, tão antigas como a cruz de Jesus Cristo, a cujo pé nasceram: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

CAPÍTULO XVI

A anarquia social e a nova catedral

A desorganização social é, sem dúvida, a consequência mais funesta da guerra mundial, que ainda lampeja nos longínquos horizontes da Europa. À anarquia mental dos intelectuais, que quiseram apear o Onipotente do seu trono, sucedeu a anarquia política, que se viu privada de suas bases de estabilidade e de resistência, e deu lugar à anarquia social, que transformou países inteiros num caos de miséria e em montões de destroços morais. Dificilmente, o barrete frígio pode restabelecer a ordem social ali, onde a revolução arrancou a coroa a muitos soberanos, e mal se conserva em pé a cátedra presidencial no lugar em que tronos seculares caíram despedaçados.

O eco dessa catástrofe imensa ouve-se ainda nos países americanos e na terra privilegiada de Santa Cruz. Para resistir aos impetuosos embates da anarquia social, que ameaça nivelar todas as condições sociais e derrubar a autoridade humana e divina, coluna da ordem e do progresso, é preciso congraçar o cidadão e unir todos os espíritos, pelos laços da verdadeira fé, esperança e caridade.

A fé ensina ao homem sua origem, seus deveres e o seu fim superior. Eleva, no meio da sociedade, a cruz, símbolo da salvação das almas imorredouras. A estrela da esperança mostra aos navegadores, entregues ao joguete das procelas da vida, o rumo que seu barco deve seguir, através das ondas das paixões e dos embaraços, ao porto remansoso da bem-aventurança, onde cessarão os receios e os perigos e darão lugar à paz e à tranquilidade. A caridade, que une os homens a Deus e os vincula entre si pela mútua estima e beneficência, deve, segundo as intenções divinas, transformá-los numa alma, com os mesmos afetos. A caridade deve derramar sua luz benfazeja sobre a sociedade humana, deixando-a prelibar as delícias do paraíso eterno, onde a fé é substituída pela visão clara e imediata das maravilhas divinas, a esperança pela posse perfeita dos bens e grandezas, que na terra são objeto dos nossos desejos, mas onde continuará a brilhar, em pleno fulgor, a caridade, pela qual consagraremos todo o nosso ser a Deus e nossas afeições aos companheiros da nossa ventura, durante todo o sempre.

Mercê de Deus, colocamos a pedra fundamental da nova Catedral. É esta a obra admirável, em que se empenham os piedosos esforços e se patenteiam os decididos sacrifícios dos habitantes desta valorosa capital, de toda a Arquidiocese e do Estado do Rio Grande do Sul, congraçando todos os ânimos nesse mundo ideal sublime. Todas as classes sociais serão interessadas: o comércio e a indústria, o operariado e os capitalistas, as artes e as letras, leigos e sacerdotes, dirigentes, governados e artistas mecânicos, todos, sem distinção, trabalharão para o mesmo ideal.

Nossa fé religiosa, inconcussa e sobranceira, corta e amolda as pedras que a esperança assenta, cinzeladas, e a caridade une e apruma, fundadas e cimentadas em Jesus Cristo, que é a pedra angular, reprovada, sim, pela incredulidade, mas escolhida e eleita pelo próprio Deus!

O novo edifício vai ser levantado, pouco a pouco, com o concurso de todas as classes sociais, de todos os bons cidadãos, concordes nesse nobre empreendimento, ainda que divergentes em outros assuntos, porquanto se trata de erguer, no meio desta cidade, um templo de alto valor religioso, social e patriótico, em que nós, a geração presente, entoamos, e as futuras continuarão a cantar, louvores e glórias à excelsa Mãe do Filho de Deus humanado e hinos de reconhecimento e de gratidão ao supremo Senhor dos mundos.

É certo que as solicitudes acrisoladas dos empenhos conjugados por corações bem formados, poderosos e abençoados, farão avançar este suntuoso palácio de Deus, desde os fundamentos até o seu remate final. Por isso, sempre serão relembradas, com entusiasmo e júbilo, as benemerências deste generoso povo, que quis edificar a nova casa de Deus.

Convidamos a todos, para colaborarem nesta louvável empresa, depondo os dissentimentos, e o espírito cristão fará desaparecer as dificuldades das diversas condições sociais. Será para vós um fato brilhante, uma conquista portentosa, poderdes, um dia, inaugurar, com alegria e pomposa solenidade, o templo que ora iniciamos. A voz do bronze chamará então os fiéis; o órgão encherá de piedosas harmonias o recinto em que nos reunires; o incenso que se elevará até o trono de Deus, lhe contará os nossos sacrifícios e trabalhos, e no meio do perfume das nossas orações, subirá o pontífice ao altar, para consagrar, no mistério adorável da Eucaristia, o Deus vivo que há de habitar conosco, no coração da cidade, até a consumação dos séculos.

Já o insigne Papa Leão XIII, há vinte anos passados, descreveu a natureza da democracia social que engendra a anarquia. Pois, como ele disse, a democracia social é levada por muitos de seus sectários, a tal grau de perversidade, que nada estima acima das coisas humanas; procura os bens corporais e exteriores e faz consistir a felicidade do homem no conseguimento e no gozo desses bens. Por este motivo, quereriam que no Estado o poder pertencesse ao povo, de tal modo que, sendo suprimidas as classes sociais e os cidadãos, tornados iguais, se caminhasse para a igualdade das fortunas. Pelo mesmo motivo, também quereriam que o direito de propriedade fosse abolido e que todas as riquezas que pertencem a particulares, mesmo os instrumentos da vida, fossem considerados como bens comuns.

Assim falou o grande Sumo Pontífice. E de fato, vemos como essa previsão se realizou em vários países europeus. A verdadeira democracia, porém, a democracia cristã deve apoiar-se sobre os princípios postos pela fé divina, como sua própria base, provendo aos interesses dos pequenos, de modo que encaminhe para a perfeição as almas, criadas para os bens eternos. Importa, conseguintemente, que nada lhe seja mais sagrado que a justiça; que prescreva a manutenção integral do direito de propriedade e de posse; que defenda a distinção de classes que, sem contradição, são próprias de um Estado bem constituído; enfim, que queira dar à comunidade humana uma forma e um caráter iguais àqueles que o Deus Criador estabeleceu.

Ora, a nova Catedral nos lembra a reconstrução da sociedade humana sobre as bases do cristianismo. Não somente a sua edificação nos ensina a união de todos entre si, mas também simboliza a sujeição razoável à legítima autoridade. Pois, o que é a autoridade para a vida social, são, para a construção do novo templo, as leis da matemática aplicada, às quais deverão obedecer os seus elementos construtivos e arquitetônicos, a fim de lhe garantir a solidez, a harmonia e a beleza. Como, na construção do templo, todas as suas partes devem obedecer às leis da arquitetura, assim, conforme o preceito do Apóstolo São Paulo, esteja todo o homem submisso aos poderes superiores; porque não há poder que não venha de Deus.

A reconstrução da sociedade é semelhante à edificação do templo. Sirva, pois, a nova Catedral de incentivo e estímulo para o congraçamento dos espíritos e a união de todas as classes sociais, sob a fulgente égide da cruz de Jesus Cristo. Então, reinará na sociedade a ordem, acompanhada do verdadeiro progresso, e o povo viverá, segundo a expressão do profeta, nos tabernáculos da confiança, numa prosperidade opulenta e na formosura da paz: In pulchritudine pacis.

CAPÍTULO XVII

Requisitos da arte eclesiástica

É óbvio que haja diferença entre a arte sacra e a profana. A primeira deve acomodar-se às exigências do culto, enquanto os fins da outra são diferentes. A arte sacra não somente deve representar, dignamente, os santos e os mistérios divinos, mas também há de inspirar aos fiéis sentimentos de piedade e devoção, elevando o seu espírito à contemplação das coisas sobrenaturais. Portanto, seu escopo primordial não é a complacência dos sentidos e, muito menos, a excitação de pensamentos e desejos desregrados, como pasto de paixões incontidas.

A arte sacra que desdobra os seus encantos pela estatuária e pintura, enobrece os sentimentos do coração humano, aperfeiçoa o pensamento, pelas ideias sublimes que devemos ter das verdades religiosas, e de tal dignidade deve revestir-se, que possa prestar verdadeiras homenagens ao autor da beleza eterna e aos seus santos. Em vista desta verdade, já antes do cristianismo, havia dito o Salmista: Domum tuam decet sanctitudo, Domine: à tua casa, Senhor, convém a santidade! O templo católico, muito mais do que o tabernáculo e o templo de Israel, exige a santidade dos seus ornatos e obras de arte, por ser a casa em que se acha, realmente, o Deus vivo e onde se celebram os mais sublimes mistérios.

O culto das imagens de Cristo, da Mãe de Deus e de outros santos é prescrito pela Santa Igreja e devemos tributar-lhes honra e veneração. Contudo, não se creia que neles há alguma divindade ou virtude, pela qual se hajam de venerar ou se lhes deva pedir alguma coisa. Nem se deve pôr a confiança nas imagens, como antigamente os gentios punham a confiança nos ídolos, mas porque a honra que se lhes dá, refere-se aos originais que elas representam. Dessa sorte, as imagens que beijamos, por exemplo, e em cuja presença descobrimos a cabeça e nos prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os santos cuja semelhança representam.

É doutrina católica que os Santos que reinam juntamente com Cristo oferecem a Deus, pelos homens, as suas orações. É útil e bom invocá-los humildemente e recorrer às suas preces, ao seu poder e auxílio, para alcançar benefícios de Deus, por seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor, que é o nosso único Salvador e Redentor.

Portanto, sentem impiamente aqueles que dizem que os Santos, que gozam de eterna felicidade no céu, não devem ser invocados. Do mesmo modo, erram aqueles que afirmam que os Santos não oram pelos homens ou que sua invocação é idolatria, ou oposta à palavra de Deus e contrária à honra de Jesus Cristo, o único medianeiro entre Deus e os homens. De forma alguma, é estultice suplicar, com palavras ou com pensamentos, os Santos que reinam no céu, como dizem as seitas protestantes. É este o ensino do Concílio de Trento, que todos os católicos devem, indefectivelmente, admitir.

Implicitamente, o mesmo Concílio indica também as normas que a arte sacra deve observar, pois o fim da representação dos mistérios da Redenção e dos Santos, pelas imagens, é instruir e confirmar o povo, para recordar e venerar, com frequência, os artigos da fé, como também para que os fiéis deem graças a Deus, ordenem sua vida e costumes à imitação dos Santos representados, e se excitem a adorar e amar a Deus e exercitar a piedade.

Por isso, o Bispo tem a obrigação de cuidar que, nesta matéria, nada se veja desordenado, profano ou desonesto. E estabelece o santo Concílio que ninguém possa colocar, nem procurar se coloque, imagem alguma extraordinária, em lugar algum ou igreja, ainda isenta, sem ser aprovada pelo Bispo. A mesma doutrina é confirmada pelo novo Código Canônico.

São estas as normas eclesiásticas que a arte sacra deve observar, tanto na estatuária e escultura ornamental, como nos trabalhos de pintura. As estátuas e imagens dos santos, portanto, que unicamente deleitem, pela sua beleza natural, a vista, por isso só, não são admissíveis no templo católico. O artista deve idealizar o seu objeto material, elevando-o, pela abstração intelectual, de suas imperfeições, até chegar a um tipo superior. Assim é que deve evitar o nú, até onde possa ofender o sentimento cristão de castidade e nobreza. Uma obra de arte profana ainda não é uma obra de arte cristã, quando lhe faltem a expressão de vida sobrenatural. Se já na estatuária e pintura profana se condena o elemento erotismo, que desorienta os artistas e desvirtua os nobres fins da arte, muito mais deve ser excluído do mármore e da tela, destinados a simbolizarem santos e mistérios religiosos. A verdadeira arte deleita as faculdades superiores da alma e não estimula sentimentos desordenados. A arte de pintura e da estatuária é uma espada de dois gumes, que protege e fere; é uma escola que educa e que perverte o espírito, segundo sua boa ou má orientação.

Pois bem, as imagens e estátuas colocadas nos templos católicos têm por fim ensinar aos cristãos a virtude, sob suas múltiplas formas, mostrando-lhes que o homem, oriundo de todas as classes sociais, pode chegar, auxiliado pela graça de Deus, ao grau de elevada perfeição moral e de santidade. Por isso, é lamentável que, às vezes, se encontrem, nas igrejas e nas famílias, imagens de santos que não correspondem a essas exigências da arte cristã.

Em vez de inspirarem sentimentos frívolos ou talvez sensuais, as sagradas imagens devem elevar o coração daqueles que as contemplam às regiões celestes e infundir-lhes pensamentos sobrenaturais. É, pois, igualmente necessário que os reverendos sacerdotes não admitam, nas suas igrejas e capelas, imagens sem valor artístico, feitas por amadores ou pretensos artísticos, como sejam crucifixos e outras representações ridículas ou tão imperfeitas que, longe de edificarem, provocam o riso e a indignação. São trabalhos que revelam a boa vontade ou, talvez, a insistência pertinaz de seus autores, mas não são dignos de figurar na casa de Deus.

Os santos devem ser representados segundo os seus modelos tradicionais, e inovações nesse sentido não se podem admitir. Ao verdadeiro artista, sobram meios para desdobrar os encantos de sua inspiração cristã. Assim como um pintor não pode desprezar os traços reais da pessoa que representa, da mesma sorte é impossível que, na representação dos santos, não se observe o tipo habitual. No artista cristão, requer-se, juntamente com os necessários conhecimentos técnicos, profundo sentimento religioso.

Tenham os nossos sacerdotes bom gosto artístico, isto é, procurem adquirir a faculdade de perceber a beleza na arte e observem as prescrições eclesiásticas, para que, em suas igrejas, não se encontrem bonecos e figuras ridículas com o nome de santos. Estas nossas advertências julgamos de suma importância, porque em todos os lugares da Arquidiocese são construídas novas igrejas e capelas, que recebem imagens de santos. Tenhamos sempre em vista, também neste particular, a glorificação de Deus, a honra de seus santos e a instrução e a santificação dos homens. Oxalá possam os sacerdotes e os fiéis sempre dizer, com verdade: "Senhor, eu amei a beleza de vossa casa, e o lugar onde reside vossa glória".


CAPÍTULO XVIII

A significação da pedra fundamental

Costuma a Igreja revestir de pompa e solenidade o lançamento da primeira pedra dos seus templos. Sobre esta pedra descansa e se eleva todo o edifício. Além da segurança material, a pedra fundamental representa, nos templos católicos, um simbolismo de alta significação.

Já o lugar que a pedra deve ocupar é significativo, pois é o ângulo direito da abside ou o lado do Evangelho. Cristo Senhor Nosso é a pedra fundamental do edifício místico da Igreja Católica. Ele é o seu fundamento e dele recebe sua estabilidade e solidez. E como em Jesus Cristo se baseiam todas as verdades do Santo Evangelho, assim também sobre a pedra fundamental firma-se toda a construção.

Cristo foi vítima das perseguições e, pela morte de cruz, foi como que excluído do convívio social, e ainda nos dias que correm, a incredulidade procura desterrá-lo da sociedade humana, condenando sua doutrina e opondo-se aos seus mandamentos divinos. Entretanto, esse mesmo divino Salvador, que os judeus e os incrédulos, como pedra inútil e imprestável, quiseram atirar longe do edifício da Religião e da sociedade, é a verdadeira pedra angular da felicidade dos homens e da prosperidade das nações.

O povo de Israel que rejeitou temerariamente a Jesus Cristo jamais pode congregar-se, e os homens e as sociedades que desprezam sua doutrina e leis são como o judeu errante que sempre busca, mas nunca alcança, a paz e a ventura.

É porque, se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalharão aqueles que querem edificá-la. E se o Senhor não proteger a cidade, debalde vigia aquele que a deve guardar.

Quando o Patriarca Jacó viajava pelo deserto e, extenuado pela longa jornada, encostou sua cabeça fatigada a uma pedra, a fim de tomar descanso durante a noite. De madrugada, ao erguer-se do duro leito, erigiu aquela pedra em monumento, derramando óleo sobre ela, e, fazendo um voto a Deus, disse: "Este lugar é verdadeiramente santo e eu o ignorava".

A liturgia católica lembra, na solenidade da colocação da pedra fundamental dos seus templos, essa passagem das Sagradas Escrituras, para significar que levanta um monumento de fé a Deus, consagrando-o ao seu serviço e culto. Por isso, o templo é um lugar santo, cuja importância religiosa e social muitos ignoram. Como o monumento do Patriarca Jacó no deserto lembrava a Deus, assim o templo católico, colocado no campo, nas aldeias e nas cidades, no meio das agitações profanas, dos entrechoques sociais e das perturbações políticas, prega a presença do supremo Senhor dos mundos, mostra aos homens o caminho da salvação e derrama o bálsamo da paz e da harmonia sobre as massas populares.

Quão expressiva é a oração que pronuncia o pontífice ao colocar a pedra no lugar destinado! Na fé de Jesus Cristo, assim ele fala: "Colocamos esta primeira pedra neste fundamento, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para que floresçam aqui a verdadeira fé, o temor de Deus e a caridade fraterna; e seja este lugar destinado à oração e a invocar e louvar o nome do mesmo Jesus Cristo, Senhor Nosso, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo por todos os séculos".

Como, pois, o grão de semente encerra em si a futura majestosa árvore, com sua ramagem verdejante, com suas mimosas flores e frutos delicados, assim a pedra fundamental dos nossos templos inclui, admiravelmente, toda a grandeza, toda a majestade da casa de Deus. Nela deve florescer a fé cristã e produzir seus primorosos frutos de piedade, de virtude e de salvação, sob a atmosfera perfumada da oração, do amor fraternal e do temor de Deus. Nela hão de subir ao céu, continuamente, preces e hinos para louvar o sumo Bem e invocar seu auxílio e proteção para nossas misérias e pesares. É a casa de Deus que se edifica, em nome do Altíssimo, em nome das três Pessoas da Santíssima Trindade, com que a Igreja abençoa a nossa entrada na vida presente e na futura.

O pontífice continua a orar: "Deus, que formais, pela coabitação de todos os santos, uma eterna morada para vossa majestade, concedei a esta vossa construção auxílios celestiais para que, começando-se por vossa vontade, se possa acabar com a proteção da vossa munificência".

Sim, nós iniciamos a construção da nova Catedral, por ser a vontade de Deus. Ele quer que lhe prestemos esta homenagem e, confiantes no seu auxílio, esperamos que, um dia, poderemos terminá-la. Atendei-nos, Senhor, e ouvi as nossas preces, vós que sois nosso protetor, clemente e benigno, patrocinai o início desta obra e permiti que, um dia, possamos colocar, para vossa maior glória, a cruz fulgurante no alto do zimbório, e recompensai com benefícios temporais e eternos todos os benfeitores deste difícil, mas grandioso empreendimento.

Já na véspera da solenidade, coloca-se uma alterosa cruz no lugar destinado no altar-mor, simbolizando o monte Calvário, onde Cristo Senhor Nosso ofereceu seu sacrifício sem sangue.

A cruz, marcando o lugar principal do culto, nos recorda o paraíso terrestre, onde os nossos protoparentes prestaram preito de adoração e amor ao seu Pai ou Criador; lembra-nos a montanha de Moriá, em que, por ordem divina, devia Abraão oferecer o seu misterioso sacrifício; nos fala da pedra que o patriarca Jacó consagrou a Deus em Betel, como também da sarça ardente, onde Deus apareceu a Moisés, e finalmente, nos chama à memória o grandioso templo de Salomão, em que Jeová atendia às orações do seu povo escolhido.

A liturgia faz reviver em nosso espírito a visão divina que teve o patriarca Jacó. Viu ele uma escada alta, cuja extremidade tocava o céu. Por ela subiam e desciam anjos, emissários do Todo-poderoso. No templo se levanta uma nova escada misteriosa que une o céu à terra; são as nossas orações que sobem ao Pai Celeste, o qual derrama sobre seus filhos bênçãos e graças infinitas.

O coro repete o canto do salmista: Fundamenta ejus in montibus sanctis: Os fundamentos da casa de Deus são colocados em montes santos. Pois, aos olhos do supremo Senhor, o templo católico é superior às habitações sagradas do Antigo Testamento, do Egito, da Síria, de Tiro e da Etiópia, porque nela nasce de novo o Filho de Deus humanado: homo natus est in ea.

Sobre o vértice da formosa colina consagrada por José Marcelino de Figueiredo à excelsa Madre de Deus, nós levantamos a nova Catedral, em honra dela e para a glorificação do seu divino Filho. É esta uma colina santa, em cujo seio nós lançamos os fundamentos do novo templo: Fundamenta ejus in montibus sanctis.

CAPÍTULO XIX

A arquitetura da nova catedral

A Igreja Católica não prescreve, na sua legislação, determinados estilos arquitetônicos como oficiais, mas deixa na sua escolha plena liberdade. O que as leis eclesiásticas determinam é que a construção do templo, a disposição dos seus elementos orgânicos, a instalação e ornamentação correspondam às exigências e à dignidade do culto. Portanto, observadas estas condições, a Igreja não rejeita nenhum sistema de arquitetura.

Contudo, nem sempre é fácil a escolha do estilo quando se projeta a construção de um templo. É preciso tomar em consideração sua categoria, o local, as condições climatéricas, a tradição e, sobretudo, os meios ao alcance para esse fim. Os estilos principais adotados na Igreja católica são, em ordem cronológica, o basilical, o bizantino, o românico, o gótico e o Renascença ou Renascimento, que todos apresentam características especiais, segundo a época e o país em que se originaram e se desenvolveram. Consideremos, nos seguintes capítulos, a arquitetura da Renascença sob o aspecto do seu caráter, origem, estética e valor religioso, visto que a esse estilo deverá obedecer a estrutura da nova Catedral metropolitana.

CAPÍTULO XX

Caráter da Renascença

Seu triunfo principal não celebrou a Renascença na literatura clássica, mas nas artes plásticas, representadas pela escultura ornamental, pela estatuária, pela pintura e arquitetura. A antiguidade nunca tinha alcançado semelhante beleza de formas, e o mundo jamais havia contemplado tamanha perfeição, nem igual conseguiu depois dessa época. E é de notar que a arte nessa fulgurante eminência se pôs ao serviço da Igreja, não por interesse temporal, mas procurou e achou na solução dos problemas religiosos o seu mais elevado ideal. Animada das ideias sublimes do cristianismo e dispondo da mais vigorosa potência criadora, a arte da Renascença construiu um grandioso monumento de fé e de cultura católica, justamente no momento em que a família dos povos cristãos se dissolveu e a metade da Europa apostatou do catolicismo. Pela Igreja e não pelos apostatas foi promovida àquela altura a cultura artística em que, ainda hoje, se inspiram os mestres das artes clássicas.

A Basílica de São Pedro e o Vaticano, os ciclos de pinturas iniciados por Júlio II na Capela Sistina e na Câmara della Segnatura, a Ceia de Raphael, o Moisés e o Juízo Final de Miguel Ângelo, as numerosas criações da arquitetura, escultura e pintura, que tiveram Roma por centro da Renascença clássica, proclamam com eloquência superior a todas as palavras, que a Fé cristã e a arte antiga, a teologia e a filosofia, a escolástica e o humanismo cristão, o papado e o mais apurado individualismo artístico, um infalível magistério eclesiástico e o mais fecundo desenvolvimento das faculdades do espírito humano: não são, de forma alguma, elementos irreconciliáveis, e que, de nenhum modo, fora necessário estabelecer uma apostasia e um cisma para conceder à Europa o mais amplo progresso no domínio da ciência, da literatura e das artes. Sob o governo de homens com inteligência curta e horizontes estreitos, um Miguel Ângelo ou um Raphael e nem mesmo um Ariosto teriam podido criar suas obras monumentais. Não pode ser nosso fim descrever o caráter completo do tempo da Renascença, visto que apenas queremos referir-nos ao gênero de arquitetura que tem seu nome. Entretanto, é preciso afirmar que as imperfeições e erros daquele tempo, mais devidos ao influxo político do que ao humanismo, não puderam ofuscar as linhas brilhantes e o colorido admirável do formoso quadro que a Renascença nos oferece.

Por certo, foi uma disposição da Providência divina que Júlio II tivesse à disposição o insigne Bramante, como também Raphael e Miguel Ângelo, porque tais gênios não podem ser o resultado de uma série de evoluções mecânicas ou biológicas. O fato, porém, de lhes ter assinado o lugar competente, é mérito daquele grande Papa e revela seu espírito superior e extraordinário. Os magnos problemas que a eles ofereceu tiveram sua razão de ser na significação universal do papado. Só uma igreja cujo raio de ação abrangesse todos os continentes do mundo podia exigir um templo como a basílica de São Pedro e um palácio como o Vaticano. Somente uma instituição como a Igreja Católica, que se assenhoreasse dos tempos e de todos os países, pode oferecer à revelação de ambos os Testamentos, como as ideias mais elevadas da ciência e às cenas mais sublimes da história: um centro comum de cultura intelectual, como o reclamavam aqueles grandes mestres para suas obras gigantes.

Já se vê que não é lícito condenar as artes da Renascença, se bem que não se possa aprovar o humanismo nos seus excessos de imitação pagã. Sem dúvida, Santo Inácio de Loyola, Pio V, Felipe Nery e outros homens notáveis daqueles tempos tinham, certamente, com relação à nobreza e dignidade da arte cristã, um modo de ver tão honroso e grave como, em nossos dias, aqueles que se dedicam, com maior zelo e interesse, a este assunto. Se homens são santos e de tamanha responsabilidade tiveram opiniões talvez opostas às nossas, prova isto que é preciso admitir uma diferença entre o fim e os meios, o principal e o acessório, o certo e o duvidoso. Não se deve olvidar que o gosto mais apurado e as tendências mais autorizadas de uma época não são, de forma alguma, regra imutável para todas as demais, do mesmo modo que não se pode dizer que sejam idênticas com a própria natureza da arte.

O homem de hoje tem a sua maneira de ver e a sustenta energicamente, porque a considera como a melhor. Também outros tiveram seu modo de encarar as coisas. Por isso, enquanto essas opiniões não forem contrárias à justiça, à moral e às prescrições do culto, será preciso conceder a uns e outros a mesma liberdade. O estilo arquitetônico da Renascença pode ser adotado, licitamente, nos templos católicos, máxime quando expurgado dos defeitos de sua época e plenamente sujeito às conveniências e necessidades do culto.

Entretanto, a arquitetura da Renascença nem sempre goza do prestígio a que tem direito, em consequência dos excessos dos humanistas e defeitos da época que lhe deu o nome. No meio, porém, das aberrações morais, principalmente das classes elevadas, florescia a fé e reinava a moralidade, de modo especial nas camadas populares da Itália. Papas, bispos, sacerdotes e sábios leigos houve que se distinguiram pela sua virtude acrisolada e benemerência das suas obras de caridade. Todos os grandes gênios que impulsionaram as artes professaram a fé católica e morreram como bons cristãos. Era frequente a pregação de missões para o povo nas cidades e nas aldeias, e a gente era simples, alheia ao luxo e à vida licenciosa, conservava-se profundamente religiosa.

A Renascença é o período mais brilhante das belas artes que a história universal registra. É, por isso, impossível que seus autores fossem homens despojados de todo o sentimento de moral e de fé. Com efeito, a arte Renascença "lançou suas raízes principais e mais robustas no solo da Igreja, da fé e da Religião" (Keppler). "Suas criações, portanto, oferecem uma medida apreciável para avaliar o nível religioso da época" (Pastor); e aparecem como testemunhas figurativas da fé" (Schneider). Por isso, não se deve exagerar nem generalizar os males daquela época, em detrimento da verdade e em prejuízo da cultura das belas artes.

CAPÍTULO XXI

Origem do estilo renascentista

Renascença ou renascimento é o termo adotado pelos literatos e artistas para designarem o renovamento ou a transformação das letras e das artes nos séculos XV e XVI, devida à proteção dos Medicis e dos Papas na Itália e a Francisco I e seus sucessores na França. Depois da invasão dos bárbaros do Norte, os gregos, perdendo a pátria e a liberdade, se refugiaram em Constantinopla, donde foram expulsos em 1453, por Maomé II, grão Sultão dos turcos. Quarenta mil cristãos ficaram sob as ruínas da cidade, vítimas de um formidável incêndio, depois de saqueada. Cinquenta mil foram vendidos como escravos; o resto escapou à fúria dos alfanjes turcos e fugiu em galeras venezianas para a Itália.

Os artistas, principalmente, se dirigiram para Roma, onde o Pai comum dos cristãos, na pessoa de Nicolau V, lhes estendeu os braços protetores. Os gregos fugitivos levaram consigo preciosos tesouros artísticos, em proveito de sua nova pátria; ensinaram suas ciências aos romanos e espalharam o gosto das belas artes que, dentro em pouco tempo, se difundiu por todo o Ocidente, criando um novo gênero, que se chamou da Renascença, desaparecendo o predomínio do estilo gótico ou ogival.

A escultura, a pintura e, mormente, a arquitetura, tomaram um novo caráter que se aproximou do antigo romano, conforme se observa no palácio São Marcos em Roma, nas igrejas de São Salvador em Veneza, de Santo André em Mântua, de Santo Espírito em Florença, de Santa Maria Garignano em Gênova, da abacial de Val de Grâce em Paris, e em outros edifícios.

Não se deve, porém, pensar que uma nova forma arquitetônica se inventa de um dia para outro; ela é antes o resultado da combinação de novas ideias, e o reflexo do estado intelectual dos povos e do caráter social de uma época. Com o estudo da literatura antiga, renasceu juntamente o gosto das artes clássicas. A observação e o estudo dos monumentos de arquitetura antiga determinaram o regresso às formas greco-romanas, máxime porque o estilo gótico já tinha passado o seu tempo, depois de degenerar em excessos de várias espécies. Como já vimos, tomaram os Papas parte saliente nos movimentos artísticos da Renascença. Durante sua residência em Avinhão, em 1308 a 1378, transformara-se Roma em verdadeiras ruínas. Os primeiros Papas, depois de sua volta a Roma, tiveram de concentrar toda a sua atividade nas reconstruções e reparações mais urgentes das igrejas e de sua própria residência. Nicolau V, que governou de 1447 a 1454, abriu a magnífica série dos grandes amigos e fautores das artes na Cátedra de São Pedro. Seus planos eram vastíssimos, como sejam a reconstrução das quarenta igrejas chamadas das Estações em Roma, e dos muros da cidade, a edificação da basílica de São Pedro e do Vaticano e a remodelação do Borgo para a moradia de toda a corte. Mas faltavam-lhe os indispensáveis elementos artísticos e o tempo necessário para construir, de noite para o dia, uma nova Atenas.

Igual gosto artístico tinha também Pio II, homem mais erudito de seu tempo. Dotou sua cidade natal, Corsignano, com magníficas construções. Ainda mais entusiasta pela arquitetura do que seus predecessores, foi Sisto IV. Durante seu pontificado, foram levantadas em Roma muitas igrejas de notável valor para a história da Renascença, entre as quais sobressaem a Capela Sistina, Santa Maria del Popolo, São Pedro em Montório, Santo Agostinho, e outras.

No século XVI, durante o governo dos grandes protetores da arte, os Papas Júlio II e Leão X assumiram Roma como direção suprema de todo o movimento artístico. Os maiores talentos ofereciam, de preferência, seus serviços à Santa Sé Apostólica. Júlio II, principalmente, encorajava os artistas. Ele chamou Miguel Ângelo, que era, ao mesmo tempo e em grau elevadíssimo, pintor, escultor e arquiteto. Sua natureza fogosa agradava a Júlio II. Energia e entusiasmo, prontidão e até aspereza, tais eram as semelhanças preestabelecidas entre o Papa e o artista, e parecia que ambos tinham as mesmas ideias e que um completava as obras do outro.

Este Papa confiou a Miguel Ângelo a decoração da Capela Sistina, na qual o artista trabalhou durante quatro anos e executou uma maravilha, a respeito da qual dizem os mais abalizados estetas que não seria possível criar uma obra mais grandiosa e, ao mesmo tempo, mais harmônica. Júlio II deu mais um passo gigantesco adiante. Entregou ao gênio de Bramante a execução da Basílica de São Pedro, essa construção colossal, que é o monumento mais belo do mundo católico, e até os tempos presentes. Enfim, ele organizou o Museu do Vaticano, o qual foi continuado, magnificamente, pelos seus sucessores. O mesmo possui uma coleção esplêndida de estátuas antigas, e referindo-se a ele, diz um escritor: "É ali que se acha, provavelmente, o maior tesouro de escultura antiga que há no mundo".

Causa verdadeira admiração, vendo que estes Papas, apesar das grandes lutas políticas que tiveram de sustentar, ainda houvessem tempo para volverem sua atenção à cultura das belas artes. Júlio II, como soberano genial, só é comparável a Alexandre Magno, rei da Macedônia, e a Napoleão I; como Mecenas dos mais notáveis artistas, não há outro superior em toda a história universal.

Como o sol poente doura, com seus raios luminosos, a culminância das serras, ainda projetou o brilhante pontificado de Júlio II ondas de luz sobre o seu sucessor Leão X, cujo nome designa o maior século literário e artístico da Itália, como outrora os nomes de Augusto e Péricles designaram os séculos em que viveram. Leão X reuniu em torno de si, como num foco imenso, todas as luzes esparsas do espírito humano: a teologia, a filosofia, a matemática, a escultura, a pintura, a arquitetura, a poesia, a música. Rodeado de um admirável cortejo de artistas e sábios, promoveu em Roma a escavação e o estudo das maravilhas da antiguidade, de estátuas, colunas, medalhas, camafeus, pedras e mármores ocultos nas entranhas da terra. Raphael era predileto. Formado na escola de Perugino e de Leonardo da Vinci, ele os ultrapassou na grandeza de suas concepções e obras. Fixou residência em Roma, onde Leão X o nomeou ministro das obras públicas, como hoje se diria, encarregando-o da superintendência geral de São Pedro e das ruínas da cidade antiga. Ele enriqueceu Roma e a Itália das mais belas pinturas que jamais foram produzidas por mão de homem. A Basílica de São Pedro foi principiada por Bramante em 1506 e continuada por Raphael e Miguel Ângelo, que a coroou com a extraordinária cúpula, sendo concluída por Maderna e Bernini, no século XVII.

De Roma, centro do catolicismo, se irradiou o ressurgimento das belas artes para os outros países civilizados da Europa, como a França, a Alemanha, a Espanha, a Holanda e Portugal, etc. A Cidade Eterna mostrou, mais uma vez, ser o centro fulgurante da civilização.

CAPÍTULO XXII

A arquitetura gótica e renascentista

A arquitetura da Renascença não representa propriamente uma nova fase da arte antiga, mas aproveitou seus elementos artísticos para formar, em combinação com outros, um estilo completamente novo. A arte Renascença é o expoente característico de sua época. Pelo regresso a formas anteriores, não se origina um novo gênero arquitetônico. Como já foi dito, um verdadeiro e novo estilo de arquitetura é o resultado da transformação das condições espirituais, sociais e religiosas, que determinam e exigem um gosto diferente, um outro modo de sentir, um novo meio de expressão. Os artistas e arquitetos que pretenderam ressuscitar a arte romana não conseguiram senão exprimir novos ideais, mediante as formas arquitetônicas antigas. Falam a mesma língua, mas exprimem ideias e pensamentos novos. E como o objeto é diferente e novo, adaptam-se também as formas, os motivos e suas combinações. Como, naquele tempo, os sábios usavam das línguas clássicas grega e romana para exprimirem novos pensamentos, assim as formas clássicas da arquitetura receberam novos motivos e, por isso mesmo, evoluíram e a eles se acomodaram. Além disso, eram aqueles tempos demasiadamente fecundos em artistas engenhosos e ricos de ideais elevados, para que se limitassem unicamente às formas gastas da antiguidade.

O primeiro arquiteto que tentou retomar a consciência da estética monumental dos antigos foi Brunelleschi, construindo a cúpula da Catedral de Florença. De fato, porém, a arquitetura da Renascença não foi mais do que a adaptação bastante convencional das combinações da antiguidade greco-romana, mesclada de elementos novos. Os edifícios construídos pelos florentinos Brunelleschi e Alberti são de tipo compósito, apresentando pórticos e sobreposições de ordens, arquitraves, platibandas e ornatos greco-romanos. A verdadeira arquitetura da Renascença clássica é caracterizada pelo uso construtivo das colunas e das pilastras, onde os monumentos da antiguidade romana forneceram os modelos. Dali, resulta que, com facilidade, se observa uma grande diferença entre a arquitetura gótica e da Renascença; ali unidade orgânica, aqui combinações livres; ali regras matemáticas uniformes, aqui proporções diversas no espaço e nas massas; ali severa observação de leis determinadas, aqui desenvolvimento vasto, principalmente nos ornamentos; ali, na realidade, uma única forma fundamental, aqui a mais abundante modificação e a maior variedade; ali verticalismo e espaços estreitos, aqui linhas horizontais e espaços amplos; portanto, em todas as partes, os elementos são opostos, nas linhas, na composição, na construção, na decoração e nos planos.

Se, de fato, a arquitetura gótica e da Renascença apresentam diferenças tão características e se os estilos arquitetônicos são o reflexo da cultura e da orientação espiritual dos tempos a que pertencem, então é certo que a transformação e a passagem de um sistema para outro supõem grandes modificações que, pouco a pouco, se operaram. Com efeito, o tempo da arte ogival distingue-se profundamente do período da Renascença. As duas épocas oferecem diferenças notáveis.

A transformação foi poderosamente auxiliada pela invenção da arte tipográfica e pelo descobrimento de novos continentes. Contribuíram para esse movimento as evoluções políticas e sociais. É de registrar uma outra diferença entre a Idade Média e o período da Renascença. Durante a Idade Média, em que havia muita luz e sombras, reinava a uniformidade na concepção filosófica e teológica, e o indivíduo não exagerava sua liberdade de ação. Na época da Renascença, é o caráter individual que sobressai e que se manifesta em todas as relações da vida, na ciência e na religião. O individualismo transfunde, também, seu espírito na arquitetura.

Esse individualismo artístico explica-se facilmente por terem sido os grandes artistas da Renascença gênios universais. Miguel Ângelo era exímio da arquitetura, plástica, pintura, engenharia e poesia. Da mesma forma, Raphael e Leonardo da Vinci. Devido à universalidade desses gênios, receberam suas obras de arquitetura um cunho pessoal e uniforme em todos os seus elementos construtivos e decorativos.

Por isso, embora os adversários da arquitetura da Renascença a incriminem de vários defeitos, ninguém poderá negar-lhe o grande mérito de ter criado grandiosos templos e edifícios profanos, em que se observa uma maravilhosa harmonia, assim no todo como nas suas diversas partes. O motivo se acha em que os diferentes ramos das artes plásticas obedeceram a uma única: à arquitetura.

Na arte Renascença, o arquiteto não se preocupa apenas com o problema das formas construtivas, estranho a artistas especiais à plástica, à pintura e à decoração, mas projeta a construção e a executa como uma obra já completa com todos os seus elementos arquitetônicos, pictóricos, plásticos e ornamentais. O arquiteto da Renascença imagina seu edifício com as paredes já cobertas com pinturas, os nichos com suas estátuas, enfim, ele concebe seu trabalho feito em todos os detalhes. Por isso, as construções segundo aquele estilo não somente apresentam grande nobreza nos seus projetos e uma elegante magnificência, mas ainda máxima conformidade e harmonia em todos os seus elementos. O sentimento do monumental e do grandioso impulsionava os artistas, e desde os dias dos gregos, nunca o gosto artístico se tornara, como então, um bem comum de todas as classes sociais da Itália. Mas os artistas eram inspirados pela religião, e o povo, como na Idade Média, continuava a fazer grandes sacrifícios em favor da construção de monumentos religiosos.

Portanto, sem depreciarmos a grandeza da arquitetura gótica, devemos aplaudir a arte arquitetônica Renascença e reconhecer as vantagens que oferece, na sua pureza e genialidade.

CAPÍTULO XXIII

A Igreja e a arquitetura da Renascença

Como se deve considerar a arte da Renascença em relação à religião, ao cristianismo e à Igreja? As respostas a esta pergunta são diferentes e entre si opostas. Não falta quem classifique a arte da Renascença como simplesmente pagã, imprópria e incapaz de exprimir, com suas formas, ideias cristãs, pelo que a condenam e a excluem dos monumentos religiosos, como indigna do culto católico.

Outros reclamam para a arquitetura da Renascença não somente os mesmos direitos religiosos que para os outros estilos arquitetônicos, mas, além disto, lhe atribuem qualidades superiores quanto à decoração, à liberdade de construção e de combinações e, principalmente, com relação à amplitude dos espaços talhados para os atos do culto divino. Que a arquitetura da Renascença seja indigna do culto católico é um verdadeiro anacronismo. É necessário distinguir os três períodos da Renascença propriamente dita: a Renascença primitiva, a Renascença clássica e a Renascença em declínio, e estes três períodos devemos diferenciar do barroco e rococó, que são o estilo Renascença degenerado. É preciso ainda fazer notar que as formas da primeira não falam uma linguagem tão clara e inteligível como as das outras artes.

O que lançava sombra à Renascença era o humanismo paganizante, que em muitos dos seus representantes se revelava contrário à revelação e inimigo do cristianismo, e introduziu nas ideias da vida e na criação artística um liberalismo perigoso. Mas não se pode haver muita sombra sem que haja muita luz; ao lado dos excessos e do mal, floresciam e desenvolveram-se admiravelmente as letras e as belas artes, sob o influxo de sentimentos cristãos.
Antes da reforma protestante, já existia a Renascença, por isso esta não pode ser apelidada a arte do protestantismo, que não teve arte própria.

É impossível dar à Renascença o nome de arte pagã, pois, alguém lhe dirige esta censura pelo fato de ter a arquitetura aproveitado os elementos da antiguidade romana, então, com o mesmo direito, deve-se atribuir igual defeito ao estilo basilical, ao bizantino, ao românico, como também ao gótico. Porque todos estes estilos utilizaram-se de formas antigas da arte romana, se bem que de um modo peculiar e próprio.

A arte antiga e a ciência pagã foram suscetíveis do batismo cristão, tão bem como os cultores de ambas, os gregos e os romanos. As primeiras basílicas cristãs foram antes basílicas pagãs, e até o estilo românico deriva seu nome do antigo romano. Portanto, não se pode proscrever a arquitetura do estilo Renascença, não obstante a escultura e a pintura daquela época terem criado algumas obras que menos estejam de acordo com a piedade cristã.
De fato, a Igreja Católica sempre possuiu o poder sobrenatural de transformar povos gentios, com costumes bárbaros, em cristãos civilizados, incorporando-os, como elementos preciosos, na construção do templo místico que representa; com certeza, mais fácil lhe foi aperfeiçoar e aproveitar os elementos arquitetônicos da antiguidade na edificação da casa de Deus. E como se pode condenar a arquitetura da Renascença, se os Papas, no seu desenvolvimento, tomaram parte tão saliente, e se o primeiro templo e o mais notável do catolicismo obedeceu a esse estilo arquitetônico! Quantas outras igrejas importantes adotaram esse gênero de arte em cidades daquém e além-mar. Acresce que o Concílio de Trento, celebrado na época em que a arquitetura da Renascença já não era mais servida por artistas de primeira ordem, não a reprovou, quando introduziu uma verdadeira reforma na Igreja Católica. A beleza, como a verdade, permanece sempre e eternamente a mesma; mas tempos diferentes preferem formas diversas na expressão, e não têm os mesmos ideais. Cada orientação artística tem, como todas as épocas e todas as civilizações, seu direito de existir, se bem que em sentido relativo. Ninguém poderá provar que os métodos, a construção, a decoração e os elementos essenciais da arquitetura da Renascença, a beleza das proporções e a amplitude dos seus repartimentos, correspondam menos às ideias religiosas e às concepções cristãs do que as formas de outros estilos!

As naves, amplas e claras, inspiram o sentimento do solene e do grandioso; a decoração, cheia de brilho e de encantos, pede à natureza muitos dos seus motivos; as linhas felizes e as proporções de seus corpos orgânicos deleitam, como música harmoniosa. Ora, todos estes elementos, empregados com gosto e felicidade, são de grande conveniência e utilidade no serviço religioso, e, portanto, para os templos católicos. É injusto e contraditório condenar os templos do estilo Renascença pelo seu caráter festivo e solene, porque a religião admite tão bem estas qualidades, como o rigor e a austeridade da arquitetura românica.

Também no templo podem todas as criaturas louvar a Deus: "Anjos do Senhor, sol e lua, estrelas do céu, luz e trevas, plantas da terra, peixes do mar, aves do céu: bendizei ao Senhor, louvai-o e exaltai-o por todos os séculos".

CAPÍTULO XXIV

A arquitetura primitiva dos templos no Brasil

O Brasil foi descoberto na época da Renascença. Mas não admira que os primeiros séculos de sua colonização não apresentem templos de arquitetura perfeita, pois, justamente durante o período da arquitetura clássica da Renascença, o século XVI ou cinquecento, foram lançadas as primeiras bases da civilização e cultura da futura terra da Vera Cruz. Mais tarde, no século seguinte e nos subsequentes, a arte Renascença, já em declínio, começou a perder suas formas clássicas e entrou na fase do estilo barroco que, entretanto, conservou as características do gênero arquitetônico de que se derivou.

A nação nascente, conservando fielmente a fé dos seus ancestrais portugueses, levantou, a pouco e pouco, auxiliada pelo governo da metrópole e pela generosidade de particulares, templos que, ainda hoje, nos falam bem alto dos profundos sentimentos religiosos, da piedade e do espírito de sacrifício dos nossos antepassados. Nas cidades incipientes, nos pontos principais das capitais ou províncias, ergueram-se ermidas, capelas e igrejas paroquiais, destinadas ao culto católico, em proveito dos fiéis e para a glória de Deus. Esses templos, em geral construções pesadas, manifestam o gosto artístico do seu tempo, sob a influência da arquitetura do barroco e do rococó. Este fato observa-se, por exemplo, nas igrejas antigas da Bahia, de São Francisco e São Bento, no Rio de Janeiro, onde se nota a decadência da arquitetura da Renascença pela adulteração das formas greco-romanas, retorcendo as colunas e misturando as diferentes ordens. Ocorrem ali os caracteres especiais dos mencionados dois gêneros arquitetônicos, que são, em geral, colunas e pedestais invertidos, o exagero do número e da forma dos grotescos, jarras, pâmpanos, frutos e anjos repolhudos, tudo nas mais estranhas combinações, como colunas apoiadas sobre gênios, sátiros ou delfins, rodeados de flores.

Em duas igrejas do Estado de Minas Gerais, a matriz de Mozambinho e a de Santa Rita de Cássia, cujas fotografias podemos examinar, observam-se os mesmos sinais característicos da Renascença, tanto no exterior como no interior. As fachadas principais são singelas, mas seus ornatos, a saber, os frontões, a jambagem, as cimalhas, pilastras e arcos, lembram o gênero do barroco.

O altar-mor da igreja de Mozambinho tem quatro colunas coríntias, sustentando pequenos frontões partidos. O altar da capela do Santíssimo Sacramento de Santa Rita de Cássia apresenta, igualmente, duas colunas coríntias, mas com listras, ao passo que o altar de Nossa Senhora do Rosário, na mesma igreja, se distingue por seis colunas de ordem jônica. E assim, o observador atento achará nas principais igrejas antigas do Brasil, desde o Pará até o Rio Grande do Sul, os mesmos elementos da arquitetura da Renascença, de que o barroco é a simples continuação, exceção feita, naturalmente, das ermidas e igrejas construídas de taipa e pau a pique, que foram levantadas para as primeiras necessidades de culto. Para corroborar esta afirmação, podemos ainda mencionar a magnífica Catedral de Olinda, há pouco restaurada, e a igreja de São João del-Rei, em Minas. É este um dos mais belos templos daquele Estado. O seu exterior, com suas decorações, imagens e relevos, a forma de frontão, o portal, as duas torres coroadas de pirâmides, circundadas de balaustradas, todos estes elementos manifestam claramente a arquitetura da Renascença. O interior concorda com a forma externa. As colunas torcidas e ornadas de folhagens, a abóbada artesoada, as figuras de relevo, os festões dourados, as obras de entalha do altar-mor, tudo isto revela magnificamente elementos do mesmo estilo. O arco abatido que suporta a tribuna de canto, o guarda-vento, de fina marchetaria, os seis altares laterais, enfim, todas as partes integrantes do templo demonstram, à evidência, o gênero de arquitetura da Renascença.

Por toda a parte descobrimos, sem muito trabalho, o mesmo sistema de arquitetura e igual gênero decorativo, que indicam a existência real da arte Renascença, se bem que em declínio e decadência, sob as formas do barroco e do rococó. Se dizemos em declínio e decadência, não queremos negar beleza e arte a esses dois estilos, apenas acentuamos que a arquitetura da Renascença já não se achava mais no apogeu de sua perfeição artística, por falta dos grandes gênios de tempos anteriores, como devido à evolução da época e à deficiência de recursos de toda a espécie em nossa terra.

A todas as igrejas de estilo barroco no Brasil, sobressai a de Nossa Senhora da Candelária no Rio de Janeiro, pela sua riqueza, formosura e perfeição.

Portanto, os elementos de arquitetura da Renascença predominam nos melhores templos erguidos na era colonial. É este um fato histórico inegável. Temos, por isso, ao menos, os elementos primordiais bem característicos de uma arquitetura, que, desenvolvida e aperfeiçoada, merece o nome de arte nacional. Com efeito, quem poderá negar um alto valor artístico à igreja da Candelária, construída na segunda metade do século XVIII? Pois "o vasto frontispício é de aspecto majestoso, o corpo central, mais saliente, tem três portas coroadas de belas cornijas e divididas por duas pilastras que sustentam o entablamento. Os capitéis das pilastras inferiores são dóricos, os das superiores de fantasia. O edifício é de aspecto imponente e grave". Isto quando ao exterior. O interior é riquíssimo e deslumbrante. Observadas as devidas proporções, pode-se afirmar o mesmo, pelo menos quanto à decoração interna, com relação a muitas das nossas igrejas antigas.

Temos, portanto, um rico patrimônio nacional de arte eclesiástica. Não nos faltam elementos históricos para uma arte nacional, elementos, infelizmente, desconhecidos e, por isso, menos apreciados.

Sem dúvida, aplaudimos a construção de templos que obedecem a outros estilos arquitetônicos, porque todos podem servir à Religião, e, neste particular também, a variedade agrada e deleita. Certamente, apreciamos os outros sistemas de arquitetura religiosa e admiramos as belíssimas catedrais europeias; mas, por isso mesmo, devemos conservar carinhosamente a herança que as tradições nos legaram. Por ser nossa, por ser nacional, não nos será lícito guardá-la apenas como relíquia; porém, cumpre cultivá-la com amor, dispensando-lhe toda a atenção que merece, para que, sob nosso patrocínio, cresça, se desenvolva e floresça, como a semente, ainda que pequenina, de frondosa árvore em terra fecunda e acariciada pelo calor e pela luz do sol.

CAPÍTULO XXV

Haverá um estilo nacional?

De maior interesse imediato para nós é o estudo das igrejas antigas do Rio Grande do Sul. Entre elas, avulta, pela sua antiguidade e arquitetura, a de São Miguel, no território das suas antigas missões dos Padres Jesuítas, os primeiros pioneiros da civilização rio-grandense e insignes beneméritos do Estado.

O templo de São Miguel, cujas ruínas ainda hoje proclamam sua passada suntuosidade, lembrava as grandes catedrais europeias. O espaço interior era aproximadamente de 52 metros de comprimento por 30 de largura e dividido em três naves, cujo pé-direito não correspondia, entretanto, às outras dimensões do edifício. Pode bem ser que os seus construtores receassem abalos sísmicos, frequentes em outras terras americanas. A fachada principal do templo era precedida de uma pronau ou pórtico majestosos, que ocupava a frente em toda a sua extensão, e era encimado de um ático de pouca elevação, que sustentava, sobre treze acrotérios ou pedestais, as estátuas de pedra dos doze Apóstolos, de São Miguel, que ficava no meio. O pórtico constava de dezoito colunas de ordem coríntia e se apoiava em onze arcos, montados sobre pilastras de ordem dórica, e quase todos monólitos, cinco na frente e três em cada lado.

Duas torres, uma truncada, que servia, provavelmente, de observatório, e outra em que se achavam os sinos, flanqueavam a frente do templo. Um frontão triangular, com seu competente cornijamento, tendo por timbre uma cruz de metal dourado e, em cada canto, uma jarra, rematava o majestoso frontispício.

Segundo o mesmo estilo arquitetônico, foram construídos, com mais ou menos perfeição, templos nos outros aldeamentos, sendo de todos o principal o de São Miguel, que se pode considerar como a pequena capital dos povos missioneiros, e em que os superiores tinham sua residência.

Quanto ao interior desses templos, um escritor narra em 1764: "As igrejas são esplendidíssimas por dentro. Não só os tabernáculos dos cinco altares, senão também as colunas das naves, as molduras das janelas, as abóbadas e o recinto interior resplandecem com variadas esculturas, cores e ouro, de maneira que, quando se abrem as portas e penetra a luz do sol, enche o coração de alegria tanta majestade".

Conquanto o escritor não indique claramente o gênero das formas ornamentais, pode-se, contudo, coligir da própria descrição que não destoava do estilo geralmente empregado, o Renascença. Depõe em nosso favor a escultura ornamental que se observa em nichos e altares dos templos antigos. De fato, há nichos e pias do templo de São Borja que indicam nitidamente os caracteres do estilo barroco, como sejam anjos, servindo de ornatos, ao lado de arabescos de variadas formas.

Significativa é, outrossim, uma obra escultural, representando o Sagrado Coração de Jesus, do templo de São João, onde duas mãos se aproximam do coração, ladeado de duas cabeças de anjo, e onde predominam motivos vegetais. Existia, igualmente, na sacristia da igreja de São Lourenço, um lavatório apoiado sobre dois sátiros e um gênio no centro, à maneira de colunas. O retábulo, formado de um frontão triangular, com um pássaro simbólico e duas pequenas pirâmides laterais, que conservava a data de 1694, completa esta obra artística.

Do que acima fica exposto, relativamente às igrejas antigas do nosso país, e, de modo especial, com referência aos templos mais antigos do Rio Grande do Sul, deve-se inferir que, de fato, existe um estilo arquitetônico predominante, que é o Renascença, sob a forma do barroco e do rococó. Por isso, negar que tenhamos um gênero de arquitetura especial, se bem que menos perfeito em todas as suas manifestações, é desconhecer a história primitiva da nossa pátria, ou ligar pouca importância e amor à arte nacional.

O nosso asserto é confirmado pela consideração dos templos edificados em épocas posteriores. Todos que examinarem, com atenção, por exemplo, as nossas velhas igrejas paroquiais de Taquari, Triunfo, Rio Pardo, Santo Amaro, Viamão e outras mais, devem concordar conosco que, nelas todas, sobressai a arquitetura da Renascença e predominam as formas greco-romanas.

Uma prova frisante do que afirmamos apresenta a matriz de Nossa Senhora Madre de Deus, nossa Catedral provisória, de nenhuma beleza exterior, mas que internamente obedece ao estilo tradicional brasileiro. Contemplai as colunas laterais do altar-mor. Tendes ali duas perfeitas colunas de ordem coríntia. Seu fuste estriado é esbelto, seu capitel é ornado de duas séries de flores de acanto, com caulículos, donde saem pequenas volutas. Nos altares de Santa Cecília e de Santa Rita, as colunas principais são de ordem jônica. Seu fuste é liso, descansando sobre uma base que lhe é particular, apresentando ao capitel volutas maiores. Bastam estas ponderações para provar que, em nossa Catedral provisória, salientam-se e predominam, no íntimo, elementos da arquitetura da Renascença.

Portanto, temos razões suficientes para adotar este gênero de arquitetura na construção da nova Catedral, cuja pedra fundamental agora lançamos. É o estilo de Renascença clássica que foi escolhido. A nova Catedral de Porto Alegre será um monumento de arte nacional, pois receberá todos os elementos arquitetônicos empregados nos templos pelos nossos antepassados para a glorificação de Deus. O novo templo aperfeiçoará a forma da antiga arquitetura brasileira e será, por isso, uma glória para o Rio Grande e um monumento de patriotismo, que nos recordará o passado.

E por isso, o templo de Nossa Senhora Madre de Deus, moralmente, não será destruído, mas passará, com todas as suas tradições, com as recordações históricas do nosso glorioso Estado e com os elementos artísticos nacionais, para a Catedral definitiva, que será um notável centro de belas artes e marcará uma nova fase de progresso religioso e social.

CAPÍTULO XXVI

A nova catedral

A arquitetura da Renascença oferece qualidades especiais, não desprezíveis, na construção do templo católico, por serem de alto valor estético e prático. Os templos construídos segundo esse estilo têm naves espaçosas e um corpo central que pode reunir avultado número de pessoas, que avistam, perfeitamente, o altar-mor e o púlpito. Sob este ponto de vista, a arte arquitetônica da Renascença é superior aos estilos da Idade Média.

Outra grande vantagem deste gênero de arte consiste na fácil aplicação das obras de escultura ornamental, estatuária e pintura, que, nos templos de nenhuma outra arquitetura, podem desdobrar as riquezas de suas galas e a variedade de suas formas, como nos do estilo Renascença. Não se pode negar a nenhum estilo arquitetônico o direito de existência: somente os elementos indecorosos e indignos são privados dos foros de verdadeira arte e devem ser banidos dos edifícios do culto e do serviço da Religião.

Além dos motivos alegados, neste e nos capítulos precedentes, temos em favor do estilo Renascença nossas condições climatéricas e razões de ordem local. O nosso clima, em geral quente, não admite lugares angustiosos para grandes reuniões. Por isso, nossos templos exigem espaços largos, servidos de ar abundante.

As cúpulas e os zimbórios, artisticamente decorados, condizem perfeitamente com a abóbada celeste, que se estende, cerúlea e cintilante de luz e beleza, por cima dos nossos campos e cidades. À semelhança das grandes palmeiras, das nossas árvores frondosas, os templos do estilo Renascença oferecem aos fiéis as comodidades necessárias para o piedoso recolhimento do espírito.

Foi, pois, escolhido, definitivamente, o estilo Renascença para a nova Catedral. Muitos projetos foram estudados meticulosamente. Nenhum dos anteprojetos apresentados em concurso, reuniu, porém, todos os requisitos necessários, não obstante alguns terem merecido prêmio. Pois, na realidade, é difícil elaborar o projeto duma igreja Catedral, que, por sua natureza, reclama condições especialíssimas.

Desde logo, a Escola de Engenharia desta capital incumbiu-se, de boa vontade, de dirigir e fiscalizar tanto o projeto definitivo como as obras do novo templo. O auxílio constante deste Instituto científico, de certo o mais importante do país, no seu gênero, é para o nosso empreendimento de capital importância, por nos garantir a sua perfeita execução técnica.

Na esperança de podermos inaugurar a nova Catedral nas festas do centenário da Independência, consultaremos reputados engenheiros americanos, representantes de poderosa companhia construtora, que apresentaram projetos que, entretanto, não foram aceitos. Contudo, o Cabido Metropolitano e a Comissão de obras não esmoreceram. Nomeamos, então, uma das nossas prestimosas capitulares para que superintendesse, de acordo com as nossas instruções e como representante da Comissão de obras e do Cabido Metropolitano, todos os trabalhos relativos à construção da Catedral.

Foi, depois, confiada a confecção de um novo projeto, sob a direção imediata de uma comissão de profissionais da Escola de Engenharia, a um arquiteto competente e consciencioso, que, aproveitando a ideia principal de um plano destinado a uma igreja de Patrasso, e em conformidade com nossas indicações, trabalhou, com vários auxiliares idôneos, cerca de dez meses, a fim de que preparasse um plano que correspondesse a todas as exigências reclamadas.

Para que, assim mesmo, não pudesse haver nenhuma dúvida quanto à perfeição artística do novo templo, nem surgir descontentamento da parte do público e de outros arquitetos, foram enviados os primitivos anteprojetos premiados e o projeto definitivo para Roma, ao notável arquiteto italiano comum João Batista Giovenale, membro da Comissão de Arte Sacra do Vaticano e um dos engenheiros oficiais encarregados da conservação da Basílica de São Pedro. Este insigne engenheiro arquiteto, autor do "projeto Patrasso" e de um projeto de reforma da Basílica de Santa Cecília em Roma, estudou, com carinhoso interesse, todos os planos que lhe foram remetidos, dando, a respeito de cada um, seu parecer imparcial. Fazendo justiça a todos, deu preferência ao projeto executado sob a direção da Escola de Engenharia e sob nossa própria inspeção, o qual é de grande beleza e imponência. Desta sorte, o projeto definitivo da nova Catedral nada deixará a desejar, e o público vê que foram empregados todos os esforços no sentido de edificar um templo digno de seus fins sublimes e merecedor do auxílio de todos.

A nova Catedral, de estilo Renascença, será precedida de imponente pórtico, terá duas torres majestosas, um alto zimbório central, rodeado de quatro cúpulas menores. A planta representa uma cruz latina. O interior terá três grandes naves, um vasto corpo central e várias capelas. A cripta ou igreja inferior será espaçosa e terá o mesmo número de capelas que a superior. A nova Catedral vai ocupar quase toda a área entre a praça Marechal Deodoro e o antigo Seminário, e entre as ruas D. Sebastião e Espírito Santo.

Eis, a traços largos, a nossa futura Catedral, que chamará as bênçãos do céu sobre nosso povo.

CAPÍTULO XXVII

Apelo e reconhecimento

Despedindo-se de São Paulo dos cristãos de Mileto, disse-lhes, depois de se referir à maneira de exercer o seu apostolado, que é mais agradável dar do que receber. Certamente, quem estende a mão para pedir pratica um ato de humildade. E quantas vezes aquele que pede é humilhado! Porque nem sempre o indigente encontra a caridade a que tem direito. As almas generosas dão ao pobre que implora uma esmola, de boa vontade, pouco ou muito, conforme suas posses, e o pobre, agradecido, sem ser humilhado, lhes diz: Deus vos pague!

Numa situação semelhante, nos achamos nós. Começamos a construção da nova Catedral e estendemos a mão a todos os corações bem florados, a todas as classes sociais, a todos os católicos, pedindo um donativo, uma esmola, não em nosso proveito ou utilidade pessoal, mas para um empreendimento de necessidade pública. Todos compreendem, facilmente, que isto não fazemos por gosto ou para nos divertir, porque rogamos e imploramos a caridade dos nossos concidadãos, e pedir nem sempre é agradável. É um ato de humildade da nossa parte e dos nossos dignos auxiliares que, por isso mesmo, não merecem ser humilhados. Continuaremos, pois, a nossa espinhosa tarefa de pedir e pedir sempre, até que o novo templo esteja concluído, se Aquele, em cuja honra vai ser levantado, nos conceder, até lá, saúde e vida. Sim, prosseguiremos, embora seja mais agradável, mais confortante, dar do que receber: "Beatius est magis dare, quam accipere".

E assim procedendo, "julgamos obedecer ao conselho de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque todo o que pede, recebe; e o que busca, acha; e a quem bate, abrir-se-á. Ou qual de vós, por ventura, é o homem que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou porventura, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente?"

Por isso, pedimos, confiados na bondade, na fé e no cavalheirismo do nosso povo, que, em geral, nos tem ajudado até agora, com louvável generosidade. E por que não, se também na esfera civil os cidadãos devem construir os edifícios públicos, se bem que de um modo indireto? Todos pagam impostos municipais, estaduais e federais. São impostos de décimas, de veículos, impostos sobre o comércio, as indústrias, as profissões, sobre inúmeras coisas, enfim. A justiça das leis de imposto não se pode impugnar, porque o homem que vive em sociedade tem obrigação de contribuir, a fim de que se possa manter o aparelho de todas as instituições necessárias para a estabilidade, direção e governança dos Municípios, dos Estados e da República. Estes impostos revertem em benefício da coletividade.

Pois bem, com que recursos deverão ser construídos os edifícios do culto católico, senão com o auxílio que os fiéis, para esse fim, oferecem? E se o homem, de fato, tem obrigação de professar a verdadeira Religião, como poderá eximir-se de contribuir para a construção e conservação dos templos, absolutamente necessários para o culto externo e público e indispensáveis à prática dos atos religiosos? Sim, todos têm obrigação de auxiliar, na medida de suas forças, a construção da casa de Deus. O sacrifício de cada um representa um benefício em favor da totalidade daqueles que comungam na mesma fé. E como se trata de levantar a nova Catedral Metropolitana, todas as paróquias da Arquidiocese devem cooperar para a sua construção, como, de fato, com generosidade, tem havido. Como as freguesias da capital, todas as demais de fora prontamente hão de colaborar, por ser esse templo a Igreja-Mãe de toda a Arquidiocese e, em dignidade, o principal de toda a Província Eclesiástica de Porto Alegre.

Renovamos, por isso, aqui, o nosso apelo, com humildade, mas com muita insistência e empenho, pedindo a proteção dos dignos poderes públicos, da ilustrada imprensa e de todas as classes sociais para a edificação da nova Catedral Metropolitana.

Feito nosso apelo, passamos a agradecer o valioso auxílio que já obtivemos. Com entusiasmo, recebeu a nossa população a ideia de construir-se a nova Catedral Metropolitana. Os representantes de todas as classes sociais reconhecem sua necessidade, sob o ponto de vista religioso e social. Por isso, com grande espontaneidade e satisfação, foram oferecidos os donativos que a Comissão Executiva até o presente recebeu.

Avultada já foi a despesa feita com o nivelamento e compra de casa, no lugar da cripta, e de construções complementares. Contudo, a caixa das obras acusa ainda um saldo favorável, que nos permite iniciar os trabalhos e continuá-los até certo ponto. Esse fato animador prova a boa vontade e a generosidade, nunca desmentida, da nossa população, pelo que queremos, neste lugar, manifestar a todos os benfeitores da nova Catedral Metropolitana o nosso mais sincero e profundo reconhecimento.

Todo o clero da Arquidiocese e principalmente os sacerdotes desta capital são dignos dos nossos aplausos e agradecimentos. O nosso respeitável cabido tem-nos auxiliado eficazmente nesta empresa, oferecendo-nos seu apoio incondicional, como convém à sua nobre missão de membros do nosso conspícuo Senado metropolitano.

As distintas Irmandades de Nossa Senhora Madre de Deus e do Santíssimo Sacramento, do Divino Espírito Santo, São Miguel e Almas e de Santa Cecília, existentes na matriz de Nossa Senhora Madre de Deus, animadas do verdadeiro espírito eclesiástico, procederam com suma gentileza e correção, cedendo prontamente as edificações que possuíam no terreno da nova Catedral, e por isso lhes significamos, publicamente, o sentimento de nossa sincera gratidão.

À prestimosa Comissão Executiva das obras, que, infelizmente, no decurso de um ano, perdeu seus beneméritos presidente e vice-presidente, à dedicada Diretoria da Escola de Engenharia, e à generosa classe comercial agradecemos, de coração, tudo quanto tem feito em favor do novo templo.

Deploramos o prematuro falecimento do nobre primeiro presidente da Comissão de obras, cavalheiro de elite e coração generoso, cujos relevantes serviços prestados à nova Catedral serão registrados, com caracteres de ouro, nos anais da Arquidiocese. Sentimos, não menos, a morte do insigne benfeitor que, nos últimos anos de vida, foi o primeiro vice-presidente da dita Comissão. Sua benemerência é notória e sua memória será abençoada pelas gerações do porvir.

Ambos serão lembrados sempre em nossas orações; e às suas distintas famílias e parentes apresentamos nossos sinceros agradecimentos, a que os mesmos têm indiscutível direito. Igualmente, ao patriótico Governo do Estado e à digna Municipalidade de Porto Alegre apresentamos nossos agradecimentos pelas deferências que têm dispensado ao nosso árduo empreendimento.

Às nobres famílias porto-alegrenses, nossos sentimentos de gratidão pelo dedicado patrocínio que têm oferecido à construção da nova Catedral.

À benemérita imprensa desta capital dirigimos, de modo especial, os nossos agradecimentos pelo decidido apoio que, galhardamente, tem oferecido à nossa importante iniciativa.

Os reverendos Vigários das paróquias fora da capital e as respectivas comissões auxiliares, por nós nomeadas, merecem nossos louvores e agradecimentos. Da mesma maneira, agradecemos ao Centro do Apostolado nesta capital, às Congregações Marianas e mais sodalícios religiosos, como também às associações civis e esportivas, o auxílio que prestaram em benefício da construção da Igreja Catedral.

A todos os seus benfeitores, a todas as classes sociais, enfim, endereçamos nossos agradecimentos, pedindo a Deus que lhes recompense os favores a ela dispensados, na razão de cem por um.

CAPÍTULO XXVIII

Conclusão

Terminando esta carta pastoral, rendemos infinitas graças a Deus, Pai das misericórdias, pelos inúmeros benefícios que nos concedeu durante os vinte e cinco anos do nosso sacerdócio. Embora fraco e inútil, continuaremos a consagrar-lhe, no serviço de sua Santa Igreja, todas as nossas energias físicas e forças espirituais, até o fim da nossa vida. "A ele, por meio de Jesus Cristo, seja tributada honra e glória por todos os séculos". Ao Santo Padre Bento XV, gloriosamente reinante, que, como Vigário de Jesus Cristo, quis, por um rasgo de sua benevolência paternal, participar das solenidades do nosso jubileu, honrando-nos com um precioso autógrafo, pelo qual nos felicita e nos comunica haver-nos conferido a conspícua dignidade de Assistente ao Sólio Pontifício, dirigimos, com a máxima veneração e amor filial, nossos humildes e imorredouros agradecimentos. Queira, também, seu digno representante junto ao governo do nosso país, o preclaro Sr. Núncio Apostólico Monsenhor Henrique Gasparri, receber as homenagens do nosso respeito e gratidão pelas congratulações que se dignou enviar-nos, por motivo da passagem do nosso jubileu. Esta nossa pastoral, à estação da missa, seja lida, devidamente explicada e traduzida para o italiano, o alemão e o polaco, nos lugares onde os fiéis não conhecem suficientemente a língua vernácula, na nossa Catedral, nas igrejas paroquiais, nas capelas públicas, no nosso Seminário Provincial e nas comunidades religiosas, e, depois de registrada no livro do Tombo, será arquivada. Aos reverendos Vigários permitimos a escolha dos capítulos conforme o auditório.

Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.

Dada e passada sob o Nosso sinal e selo das Nossas armas nesta cidade de Porto Alegre, aos 2 de agosto de 1921, 25º aniversário de Nossa ordenação sacerdotal.

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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