
O SACERDÓCIO DA IGREJA E O POVO CATÓLICO
DÉCIMA SÉTIMA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1928)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
Cristo e o Sacerdócio
No vigésimo aniversário da nossa Sagração Episcopal, queremos levantar os nossos olhos a Jesus Cristo, Senhor Nosso, para lhe render graças pelos inúmeros benefícios recebidos durante este prazo de tempo. É ele o pontífice eterno, o autor do sacerdócio católico, cuja atuação benéfica se faz sentir através dos séculos até ao fim do mundo. A perpetuidade desse sacerdócio é uma prerrogativa que seu divino instituidor lhe garantiu em virtude da missão universal que a Igreja deve desempenhar em todos os países e todos os tempos.
Jesus Cristo perpetua seu magistério, bem como a santificação e o governo das almas, por meio do sacerdócio. Em vida, ele mesmo exerceu as funções de mestre, ensinando os povos, de pontífice, santificando as almas, e de pastor, guiando os homens pela senda da virtude, do amor e da justiça. E quando se aproximava o fim de sua vida mortal, quando ia completar a obra da redenção, manifestou o desejo veemente de consumar a sua missão sacerdotal, morrendo sobre a cruz em resgate do gênero humano e instituindo o sacrifício incruento da nova Aliança. "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa, antes que eu padeça" (Lc. 22, 15).
Embora sua natureza humana tremesse em face dos tormentos e morte de cruz, o seu coração suspirava por esse batismo de sangue, como ele mesmo dizia: "Tenho de ser batizado com um batismo; e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra" (Lc. 12, 50). Este desejo veemente o impeliu a instituir o sacrifício incruento da Missa, no qual haviam de perdurar os frutos da morte de cruz por todos os séculos. Cristo é sacerdote eterno, e por isso, quis que a sua ação fosse continuada pelo sacerdócio confiado aos seus apóstolos e discípulos, e pelos sucessores dos mesmos. A oração mais ardente dirigia Jesus Cristo ao seu Pai eterno em favor do sacerdócio da Igreja. "Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que eles sejam um, assim como nós (Jo. 17, 17).
No dia hodierno, em que se completam quatro lustros do nosso episcopado, não poderemos, certamente, escolher assunto mais digno e nobre para propor à meditação dos nossos prezados irmãos e diletos filhos do que este a que acabamos de iludir: O sacerdócio da Igreja e o povo católico.
CAPÍTULO II
O sacerdócio em geral e a ação católica
Nas evoluções sociais e nos entrechoques dos interesses terrenos os homens esquecem-se, facilmente, do seu destino supremo. As lutas quotidianas da vida absorvem toda a sua atenção, toda a sua atividade e suas energias. Para dirigir, pois, a orientar os homens, nesse labutar constante, nessa efervescência dos espíritos, criou o divino Salvador o sacerdócio de sua Igreja, dizendo aos seus representantes: Vós sois a luz do mundo, sois o sal da terra, lux mundi et sal terrae; vós haveis de continuar a minha ação benfazeja entre os homens, sem temor e sem desfalecimentos; pois eu estarei convosco.
Um, porém, é somente o sacerdote máximo, Cristo bendito e louvado no tempo e na eternidade. "Tu és sacerdote eternamente, lhe dissera seu Pai celeste, segundo a ordem de Melquisedec" (Hebr. 5, 6). É esta a vocação e a excelsa missão do Filho de Deus humanado. Foi ele que satisfez pelos pecados de todo o mundo e só ele tinha esse poder. Em consequência do pecado pesava sobre a humanidade uma culpa infinita; porém, uma culpa infinita exigia uma reparação de valor correspondente, infinito. Ora, uma reparação em tais condições somente podia prestá-la o próprio Filho de Deus feito homem, cuja natureza divina conferia a todos os seus atos e sofrimentos uma benemerência incomensurável, sobre-humana. Unicamente os merecimentos do seu sacrifício salvaram o mundo e só pela aplicação dos frutos que brotaram no lenho da cruz, pode o homem achar perdão dos seus pecados e delitos.
Cristo alimentava no coração os desejos mais ardentes de aplicar esses divinos frutos, esses merecimentos, aos homens, sem limite de tempos nem de lugares. Pois, morreu, efetivamente, por todos, não quis que nenhum se perdesse, mas que todos fossem redimidos. Esse nobre fim ele tinha sempre em vista em todos os seus trabalhos e lutas, quer estivesse em oração noturna no alto das montanhas, quer no jardim das oliveiras, suando sangue. Sempre falava com seu Pai celeste acerca da salvação dos homens. Nessas ocasiões, via diante de si a humanidade de todos os tempos. Era o redentor do gênero humano. Que meio deveria escolher, para que sua obra se conservasse cheia de vida, produzindo continuamente frutos de salvação? A resposta é a seguinte: Pelos órgãos representativos do reino de Deus, pelo sacerdócio!
Um dia, desceu Cristo das alturas de uma montanha, onde passara a noite em oração, e deu início à construção do seu reino sobre a face da terra. Antes de tudo, colocou o fundamento, sólido e inabalável. Escolheu doze dos discípulos, que o rodeavam, nomeando-os seus apóstolos e embaixadores. A eles confiou o exercício do magistério, dando-lhes a missão de ensinar a todos os povos: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura" (Mt. 16, 15). Além disso, prometeu-lhes a assistência perpétua do Espírito Santo e a prerrogativa da infalibilidade, dizendo: "Quando vier aquele Espírito da verdade, ele ensinar-vos-á toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir; rogarei ao Pai e ele vos dará um outro consolador para que fique eternamente convosco" (Jo. 16, 13; 14, 16).
Assim como o magistério, conferiu-lhes Cristo também o encargo de pastorear o seu rebanho e lhes entregou as chaves do reino dos céus; tudo quanto eles houvessem de ligar ou de desligar sobre a terra, teria os mesmos efeitos no céu. Pois, aos apóstolos transferiu ele sua própria missão e os poderes que tinha recebido: "Assim como o Pai me enviou, assim eu vos envio" (Jo. 20, 21). E ao apóstolo São Pedro, o chefe do meu futuro reino, disse, ainda mais, que era Pedro e sobre esta rocha edificaria sua Igreja, e que as portas do inferno, todos os inimigos, nunca prevaleceriam contra ela.
É esse o fundamento do reino divino, a maior obra da misericórdia de Deus. Somente a onipotência e o infinito amor de Deus podem levantar um edifício igual, um monumento dotado de tais propriedades.
O sacerdócio de Cristo não tem fim, é eterno, o único instituído por Deus e continua, sem interrupção, a produz seus efeitos mediante o apostolado da Igreja Católica.
Existe também um sacerdócio universal que deve ser exercido por todos os fiéis, pois São Pedro elogiava, com palavras entusiásticas, o povo cristão, chamando-o de sacerdócio real: "Vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a gente santa, o povo de aquisição, para que publiqueis as grandezas daquele que das trevas vos chamou para a sua maravilhosa luz" (1. Petr. 2, 9). Como se entendem estas palavras de São Pedro? Por que falou de tal maneira? Porque todos os fiéis pertencem àquele admirável corpo místico cuja cabeça é Cristo. Porque todos os cristãos são membros vivos do organismo da Igreja. É, por isso, que sua atividade deve ser sacerdotal: sacerdotal sua oração e conduta, sacerdotal seu trabalho e sacrifício.
Esta é a dignidade sublime de cada cristão. Pelo batismo, caríssimos diocesanos, vos tornastes membros do corpo místico de Cristo e participantes de sua natureza divina. Vós todos deveis orar e sacrificar, trabalhar e sofrer para cumprir a vontade do Pai celeste. Sacerdócio significa santificação pessoal, serviço às almas, cura das almas. Não tens tu, bom amigo, também de cuidar de almas pelo menos de tua própria? Em geral, hás também de cuidar de outras almas. Como chefe de família, és sacerdote e cura das almas da sociedade doméstica. A tua sentença deve ser: "Eu e minha casa queremos servir ao Senhor" (Jo. 24, 15). És mãe de família? Pois, como tal deves ser a sacerdotisa dos teus filhos. Sobre teus joelhos precisam balbuciar as primeiras orações. De tua boca deverão ouvir os primeiros ensinamentos de Deus. Sois mestres e educadores? Sois, por isso, os curas da alma daqueles que estão confiados aos vossos cuidados. Haveis de conduzi-los ao cumprimento do dever e facilitar-lhes a consecução de seu destino supremo. Fora do âmbito da vossa vida íntima, vos compete colaborar na dilatação do Reino de Jesus Cristo e na felicidade do vosso próximo. Nisto consiste a missão do verdadeiro católico.
Os trabalhos das associações, de assistência social e de caridade, fazem parte do apostolado ou sacerdócio chamado leigo, do qual a ação social católica é uma das mais necessárias manifestações. Segundo declaração de Monsenhor Pacelli, núncio apostólico em Berlim, no congresso católica realizado em Magdeburg, no corrente ano, a ação católica não conhece determinadas formas gerais. Ela produz a forma exterior de acordo com as condições e circunstancias religiosas dos respectivos países e povos, mas incorporando-se por via de regra, hierarquicamente, nas agremiações sociais. A organização é a forma exterior. O que a ação católica quer é infiltrar nas células da vida pública a alma; a consciência católica, a fidelidade aos princípios católicos, um modo uniforme de pensar, querer e agir, segundo normas católicas.
A ação católica por isso, não destruirá nem prejudicará, de maneira alguma, organizações católicas existentes de valor com fins religiosos. Todas essas associações, conservando seu caráter e finalidades especiais, podem ser incorporados, como instrumentos, na ação católica. Portanto, ela não imporá aos católicos, em assuntos meramente políticos ou econômicos, um determinado modo de atuar, mas pretende e precisa dar ao povo católico guias e diretores que tenham sempre a visão católica das coisas do mundo, a mentalidade cristã, onde quer que a cultura, a administração pública e a política entre nos domínios da moral e da religião. É esta a palavra autorizada daquele notável representante da Santa Sé. Por isso, é necessário que a ação católica se promova, precipuamente, nas paróquias. Urge que os católicos sejam preparados para a vida social e pública. Não basta que só no recinto dos templos cumpram religiosamente seus deveres. A vida de piedade é necessária, mas não é suficiente! 'Viriliter agite'! Trabalhai varonilmente, como verdadeiros apóstolos de Cristo.
CAPÍTULO III
A Igreja e o Sacerdócio
Ao lado do sacerdócio geral existe na Igreja Católica o sacerdócio especial, conferido por Jesus Cristo somente aos apóstolos e seus sucessores. Quais sãos as atribuições deste sacerdócio? São dois os poderes que encerra o sacerdócio instituído por Cristo: É o poder sobre o seu corpo real e o poder medianeiro sobre o seu corpo místico, ou digamos, o poder de ordem e o poder de jurisdição. Assim nos ensina a sagrada teologia. Na comovedora solenidade da instituição do sacrifício eucarístico no cenáculo, deu o Salvador aos apóstolos o poder de transformar sacramentalmente pão e vinho no seu corpo e no seu sangue: "Fazei isto em memória de mim". É esse o mandato criador que, diariamente, sobre todos os altares da Igreja católica, se realiza no universo inteiro. É esse o poder sacramental sobre o corpo próprio e pessoal de Jesus Cristo.
Alguns dias depois de sua morte de cruz e de sua ressureição, deu Jesus Cristo aos apóstolos um poder exato e determinado sobre os membros do seu corpo místico, a Igreja, com referência às almas dos fiéis. Consumada a redenção no Gólgota, apareceu aos apóstolos e soprou sobre eles em sinal de que lhes comunicava, visivelmente, o Espírito Santo e disse: "Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo. 20, 23).
É esse, pois, o duplo poder do sacerdócio instituído por Cristo: O poder sobre o corpo de Jesus em ordem ao sacrifício incruento e o poder de jurisdição sobre seu corpo místico constituído dos fiéis.
O sacerdócio católico é, realmente, uma obra inefável, uma instituição maravilhosa da onipotência, sabedoria e misericórdia de Deus. Diante dessa incompreensível manifestação de amor do Sumo Sacerdote curvamos os nossos joelhos. Em face da grandeza desta tarefa, só trepidando de temor, podem os homens receber poderes de tamanha responsabilidade. Deveriam, certamente, sucumbir ao seu formidável peso, se o Salvador não os tivesse animado com suas infalíveis promessas: Não temais, eu permanecerei convosco e vos assistirei de um modo invisível, mas real e eficaz, até à consumação dos séculos (Mat. 28, 20). Por isso, Cristo como sacerdote supremo opera sempre e exerce sua missão pelos representantes da Igreja que são os seus embaixadores.
Destarte, foi plantada a árvore vital do sumo sacerdócio de Jesus. Assim, continua a correr a fonte de graças, nascida no coração do Salvador, transpassado pela lança no alto do Calvário. Assim, prossegue Jesus mesmo na sua obra salvadora por todos os tempos e em todas as terras, afim de mostrar aos homens o caminho da salvação e reconduzi-los ao reino dos bem-aventurados. Quantos tesouros foram confiados ao sacerdócio católico! Nunca nos esqueçamos dessa verdade. Vós, caríssimos irmãos e filhos, conheceis esses tesouros divinos. Ao sacerdote foi confiada a verdade eterna. Pelos lábios dos sacerdotes fala Cristo pessoalmente: "Quem vos ouve, a mim ouve. Ao sacerdócio está entregue o sacrifício eucarístico, que, constantemente, se renova, em louvor a Deus, pelos pecados dos homens e em ação de graças. O sacerdócio da Nova Aliança é o canal de graças que derivam do sacrifício da cruz e se comunicam ás almas. O sacerdócio está incumbido de levar aos corações pecadores a paz da reconciliação, infundindo-lhes a vida sobrenatural, a graça santificante. Estas maravilhas operam Cristo pelo sacerdócio.
Não é, portanto, presunção de São Paulo, quando exige reverencia ao sacerdócio e escreve: "Considerem-nos, assim, os homens como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus" (1 Cor. 4, 1). Nem é vã a pretensão de Santo Inácio de Antioquia, quando insiste na íntima união dos fiéis com os bispos e sacerdotes, declarando ser necessários que os fiéis estejam sujeitos ao bispo e ao sacerdócio, que estimem o bispo como imagem do Pai celeste e os sacerdotes como o senado d Deus e um conselho de apóstolos. Assim falou já no primeiro século Santo Inácio Mártir, e com razão. Porque, segundo a palavra de Cristo, os apóstolos e seus sucessores são seus enviados, seus cooperadores, os portadores da luz que ele trouxe do céu. Segundo as determinações de Cristo são eles os pastores de seu rebanho. São as sentinelas da cidade santa, os guardas oficiais, colocados nas ameias da Jerusalém celeste, afim de vigiarem, dia e noite, as portas da Igreja. Foram eles escolhidos para exercerem a missão de soldados na luta espiritual da verdade contra o erro, em defesa do Reino de Deus sobre a terra.
Por isso, celebrou também o Salvador uma aliança íntima com os sacerdotes, uma aliança que se renova em cada ordenação sacerdotal. Quem jamais assistiu a uma ordenação de sacerdotes nunca se esquecerá dessa solenidade.
Ouvi a palavra da sagrada liturgia em dia tão assinalado para o ordenado: Como deves ser consagrado para o ofício de presbítero, filho diletíssimo, empenha teus esforços, afim de que recebas dignamente e depois desempenhes de modo louvável. Pois, ao sacerdote incumbe sacrificar, abençoar, reger, pregar e batizar. Com grande temor, na verdade, é necessário subir a grau tão elevado e cuidar que os escolhidos para esta dignidade se recomendem por sabedoria celeste, vida ilibada e diuturna prática da justiça. Por isso, quando o Senhor mandou a Moisés que escolhesse para seus auxiliares setenta varões, aos quais comunicasse os dons do Espírito Santo, lhe sugeriu que fossem por ele conhecidos como homens graves tirados do povo. Tu, com efeito, serás do número destes setenta varões graves, se, observando o decálogo da lei com o auxílio dos sete dons do Espírito Santo, te mostrares probo e maduro tanto na ciência como na integridade de vida. Ainda sob o mesmo mistério e na mesma figura escolheu o Senhor no Novo Testamento outros setenta e dois e os enviou, dois a dois, diante de si, pregar, pela palavra e pelo exemplo, que os ministros de sua Igreja devem ser perfeitos assim na fé como nas obras, isto é, comprovados na virtude da dupla caridade, de Deus e do próximo. Cuida, portanto, que pela graça de Deus sejas digno de ser coadjutor de Moisés e dos doze apóstolos, a saber, dos bispos católicos, figurados por Moisés e pelos apóstolos.
A Santa Igreja é circundada, adornada e regida por uma variedade admirável de ministros, visto como nela uns são consagrados pontífices, outros de dignidade menor, sacerdotes, diáconos, subdiáconos e varões de diversas ordens. Do conjunto de numerosos membros e de diferentes dignidades resulta um só corpo místico de Cristo. Portanto, filho diletíssimo, escolhido pelo parecer dos nossos irmãos para seres consagrado, afim de nos ajudares, guarda em tua conduta a integridade de uma vida casta e santa. Considera o que fazes. Pratica o que ensinas. E como celebras os mistérios da morte do Senhor, procura mortificar os teus membros e dominar todos os teus vícios e concupiscências. Seja a tua doutrina medicina espiritual para o povo de Deus. O perfume de tua vida seja o encanto da Igreja de Cristo, para que com a pregação e o exemplo edifiques a casa, a família de Deus, de forma que nem nós mereçamos ser condenados por motivo de tua promoção nem tu pelo fato de teres recebido tamanho ofício, mas ambos sejamos recompensados pelo Senhor. O que Ele nos conceda pela sua graça. Assim seja. Roguemos, irmãos caríssimos, a Deus Padre Todo-poderosos, afim de que multiplique os dons celestes sobre este seu servo, que escolheu para o cargo de presbítero e guarde com o seu auxílio o que recebe pela sua benignidade.
Ouvi-nos, vos pedimos Senhor Deus nosso, e infundi neste vosso servo a benção do Espírito Santo e o poder da graça sacerdotal, para que sempre acompanheis com a largueza de vossa proteção a quem para ser consagrado oferecemos aos olhos de vossa bondade.
É verdadeiramente digno e justo, racional e proveitoso, render-vos graças em todo o tempo e lugar, Senhor santo, Pai onipotente, eterno Deus, autor das honras e distribuidor de todas as dignidades, pelo qual progridem todas as coisas, pelo qual tudo se consolida, ampliando sempre os progressos para maior benefício da natureza racional, por meio de uma disposição conveniente. Por isso também aumentaram os graus sacerdotais e os ofícios dos levitas, nomeados para o ministério sagrado, quando depois de terdes instituído os sumos pontífices com o fim de regerem os povos, escolhestes para seus auxiliares, no convívio e no trabalho, varões de ordem subsequente e dignidade menor. Assim, propagastes no deserto, pelo trabalho de setenta varões prudentes, o espírito de Moisés, que coadjuvado por eles, facilmente governava grande multidão de povo. Assim, transfundistes nos filhos de Arão, Eleazaro e Itamaro a abundancia do vosso amor paterno, para que o ministério dos sacerdotes fosse suficiente segundo a exigência do serviço dos sacrifícios e das funções religiosas. Conforme esta providencia, Senhor, concedestes aos apóstolos do vosso Filho doutores da fé como companheiros, com cujo auxílio encheram o mundo com a palavra de sua pregação. Por isso, Senhor, vos pedimos que também à nossa fraqueza concedais igual amparo, porque quanto mais fracos somos, tanto mais dele necessitamos. Dai, Pai onipotente, vos rogamos, a este famulo a dignidade sacerdotal, infundi no seu coração o espírito de santidade, para que seu exemplo seja guia dos costumes. Seja ele um cooperador prudente do nosso ministério; brilhem nele todas as manifestações da justiça, afim de que saiba dar boas contas da missão a ele confiada e alcance a vida eterna.
Depois, o bispo dá a ordenando a tocar o cálice onde está o vinho com água, e a patena com uma hóstia, dizendo ao mesmo tempo: "Recebe o poder de oferecer a Deus o sacrifício e celebrar a missa tanto pelos vivos como pelos defuntos".
Acabada a comunhão, recita o bispo a seguinte formosa antífona, composta das palavras que o Senhor dirigiu aos seus apóstolos, na efusão de sua alma, depois de os ter feito participantes do seu corpo e sangue, no cenáculo: "Eu já não vos chamarei servos, mas sim meus amigos; porque sabeis tudo quanto eu tenho feito entre vós. Recebei o Espírito Santo em vós; ele é quem o Pai vos envia. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos tenho mandado" (Jo. 15, 15).
Feita a profissão de fé, o ordenando prostra-se aos pés do bispo e este lhe impõe as mãos, dizendo: "Recebe o Espírito Santo; àqueles a quem perdoares os pecadores, lhe serão perdoados; aqueles a quem os retiveres, lhe serão retidos". E para indicar a plenitude do seu poder, desprende-lhe a casula e diz: "Deus te revista com a veste da inocência", isto é, sê puro e santo para santificar os outros.
Em seguida, o prelado lhe pergunta: "Prometes a mim e aos meus sucessores reverencia e obediência"? "Prometo", responde o novo padre, profundamente comovido. O respeito e a obediência são condições necessárias, porque a Igreja é bela e formidável como um exército bem organizado e posto em campo de batalha. Essa beleza, porém, não se pode manter sem disciplina, nem a disciplina sem subordinação. Por isso, seria incompreensível que algum sacerdote, no desempenho de suas funções, deixasse de cumprir as ordens dos seus legítimos superiores, ou se arrogasse, em qualquer situação, o direito de criticar e de censurar os atos emanados da autoridade eclesiástica. Tais sacerdotes, se os houvesse, deveriam, ante de tudo, corrigir sua conduta incorreta para que se tornasse dignos da confiança dos seus superiores. E como poderiam eles exigir para si obediência e respeito da parte dos fiéis católicos, se lhes oferecessem, evidentemente, mau exemplo? Lembrem-se do dia de sua ordenação!
A subordinação é suave na Igreja; pois, tende a unir pela caridade todos os seus membros e ministros em um só coração e uma só alma. É, por isso, que o bispo acaba todas estas belas e tocantes cerimonias dando o ósculo da paz ao novo presbítero, dizendo-lhe: "A paz do Senhor esteja sempre contigo". Finalmente, dirige-lhe ainda estas palavras: "Filho diletíssimo, considera, diligentemente, a ordem por ti recebida e o peso imposto aos teus ombros. Procura viver santa e religiosamente e agradar a Deus onipotente, para que possas alcançar sua graça, que ele pela sua misericórdia se digne conceder-te".
É esta a sublime aliança que Cristo celebra com seus sacerdotes.
Assim como Cristo amou a sua Igreja sacrificando-se por ela, da mesma maneira tinha ele um amor especial e íntimo aos sacerdotes por serem seus confidentes e representantes na Igreja; assim ama a Jesus: "Pois, o mesmo Pai vos ama, porque vós amastes a mim e crestes que eu sai de Deus" (Jo. 16, 27). Falava Jesus aos apóstolos como se quisesse dizer: Vós não podeis, certamente, duvidar do meu amor, nem é mister que vos diga com que solicitude continuarei a exercer por meio de vós o ofício de advogado e mediador junto ao Pai. Sabei, porém que só o fato de me terdes amado e me terdes crido em mim, vos dá um direito infalível ao amor e aos benefícios do Pai celestial.
Esta verdade reconhece o coração de cada sacerdote com profunda humildade. E a mesma reconhece também o povo católico e dali nascem essas respeitosas relações de amor e de reverencia entre o povo católico e o sacerdócio.
CAPÍTULO IV
O amor do povo ao sacerdócio
Efetivamente, incomparáveis são os vínculos que prendem a alma popular ao sacerdócio de Cristo. Quer pertença alguém à Igreja, quer faça parte de outro credo religioso, sempre observa e admira as relações singulares e vitais que ali existem.
Quem tem o poder de estabelecer essa aliança, de manter esses sublimes laços? Só Deus, o autor de toda a vida. Diz o Salvador; Eu quero que todos os meus tenham a vida sobrenatural. Ele abriu a fonte dessa vida, criou o organismo vivo de sua Igreja e dispôs as relações de dependência entre o povo e o sacerdócio, em que ele mesmo perpetua a sua atuação. É este o mistério do amor maravilhoso que une o sacerdócio ao povo. Em que se manifesta esse amor? A resposta acharemos, facilmente, se volvermos um olhar atento à alma popular.
Antes de tudo, deseja o povo conhecer, ansiosamente, a verdade eterna. Como no tempo de Cristo, não faltam no mundo de hoje almas profundamente céticas. Andam em procura da verdade e não a encontram nem nas ciências nem nas letras. Por onde quer que olhemos, achamos homens que, num afã constante e nervoso, buscam a verdade como um tesouro perdido. É este o caráter distintivo da vida espiritual: Fome e sede da verdade eterna. Também aqueles cuja atenção parece completamente absorvida pelos negócios terrenos, que se ocupam com as coisas matérias da vida, anseia nos recessos mais íntimos de sua alma pela posse da verdade perfeita, infinita, eterna.
A todos apresenta-se o sacerdócio ornado com o selo de sua missão divina: "Foi me dado todo o poder no céu e na terra; ide, pois, instruir a todos os povos" (Mt. 28, 18 e 19). É esta a missão que o rei da verdade eterna confiou aos apóstolos, cujo ofício continua a ser exercido pelo magistério da Igreja.
Os véus, que escondem a verdade eterna à inteligência humana, foram corridos pela revelação do Filho de Deus. Portador dessa revelação é o magistério da Igreja, que a ensina e anuncia ao povo pela boca dos bispos e sacerdotes. Eis a fonte da vida espiritual.
Enquanto a incredulidade, com sopro enregelador, paralisa toda a vida sobrenatural, nasce e surge nova vida espiritual em toda a parte onde a pregação católica acha boa aceitação.
Assim, o sacerdote é mandado à mimosa juventude para que no seu coração semeie e plante o precioso grão da fé, o qual se desenvolve em robusta e frondosa árvore. Assim, o sacerdote é enviado aos sábios e ao povo simples, afim de que lhes ministre o ensino da verdade eterna e lhes ofereça força e animo, alimento e consolação nas lutas da vida, conduzindo-os, sob a égide de sua autoridade divina, através dos caminhos da confusão e das dúvidas doutrinais à certeza e ao conhecimento perfeito de sua missão terrena. O sacerdócio torna-se o diretor espiritual do povo, o orientador dos que procuram a verdade, o báculo firme daqueles que vacilam e se abeiram do abismo. O sacerdócio é a consolação na tribulação e no sofrimento, porque só a revelação de Cristo resolve os problemas enigmáticos que o homem encontra, como espectros, no caminho da vida. Como pregador da verdade eterna, o sacerdócio não somente é luz e guia dos indivíduos, mas igualmente da sociedade humana, porque a ele incumbe a missão de defender os alicerces das instituições sociais e da ordem pública.
Onde quer que a incredulidade pretenda minar a lei moral, profanar o matrimonio e a família, destruir a dignidade dos pais ou violentar os direitos da criança, ali o magistério eclesiástico oferece defesa incondicional, constrói pelo sacerdócio um antemural para impedir a ação perniciosa das vagas ameaçadores. Anunciador das leis eternas, o sacerdócio é um esteio forte da ordem pública. Quando a anarquia e as insurreições ameaçam a ordem pública dos estados, é o sacerdote quem prega, com fortaleza invicta, que todo poder na sociedade humana promana de Deus e que, por isso, os súditos devem prestar obediência aos seus legítimos governantes por ordenação divina.
É desta maneira tão salutar, como acabamos de ver, que o sacerdócio pela pregação da verdade eterna atua e opera no seio da humanidade. Por isso, podemos dizer com toda a razão: É o Espírito da verdade que uniu com laços íntimos e admiráveis o sacerdócio à alma popular. E como são afetuosos esses vínculos! Não são verdades frias e indiferentes que o sacerdócio ensina, mas as mais interessantes e vivificadoras. Antes de tudo, quer o sacerdócio de Cristo salvar os homens da morte do pecado. Sob o terrível império deste flagelo sofre toda a humanidade e sofrem os indivíduos em particular. Quem é capaz de dominar essa potência temível e de remover da consciência esse peso enorme e aflitivo? Ouvimos da boca de Cristo que ele, como o Deus humanado, exerce esse poder por meio do sacerdócio de sua Igreja. Vede ali um mistério verdadeiramente grandioso, que estabelece as relações mais suaves e nobres entre a alma popular e o sacerdócio, relações que produzem a paz divina nas almas e profunda alegria nos corações. Deste modo, torna-se o sacerdote o médico das almas, o medianeiro da reconciliação entre os prevaricadores e o Deus ofendido. Embora o sacerdote, individualmente, não seja impecável, contudo, pelas funções do seu ministério opera o Salvador as transformações espirituais das almas.
Os laços mais santos, enfim, que o Senhor estabeleceu entre a alma popular e o sacerdócio consistem no fato admirável de ter confiado ás mãos do sacerdote o sacrifício eucarístico. O sacrifício do altar é o poderoso magnete que atrai os corações dos fiéis. Sabemos que na sua ara santa está Jesus presente em realidade. Ali, renova ele, diariamente, pelo ministério sacerdotal, o sacrifício eucarístico que santifica e salva. Ali está a fonte da nossa força, a causa de todo o amor santo. Ali, se acha o pão da vida sobrenatural, que oferece à mocidade energias para guardar a inocência, aos fracos concede alento e força, aos que sofrem consolação e coragem, a nós o penhor da imortalidade.
Ó admirável e precioso legado que o Senhor antes de sua morte confiou ao sacerdócio! Ó aliança misteriosa que une a alma popular ao ministério sacerdotal!
Quem tudo isso considera e experimenta na vida prática, compreende o sincero amor do povo católico ao sacerdócio de sua Igreja: um amor que Cristo mesmo gera nas almas e conserva por laços os mais santos. Este fato assinala a posição incomparável do sacerdócio no meio do povo cristão.
Ainda que o sacerdote viva apartado da vida mundana, contudo está no meio do povo, participa de todos os seus interesses, cuidados e tribulações. Ele passa pela vida semeando benefícios celestes e tem apenas um único prazer, aquele de que fala São João Evangelista: "Maior alegria não tenho do que esta, de ouvir que meus filhos andam no caminho da verdade" (III João, 4).
Não por motivos de vaidade fazemos estas considerações, mas porque nosso coração palpita de amor pelo ministério sacerdotal, e é um dever de gratidão reconhecermos a influência divina no sacerdócio de Jesus Cristo.
Ó, quão pobres seriam as almas, se desaparecesse o sacerdócio, se emudecesse a pregação sobre a verdade eterna, se cessasse a fonte de graças dos sacramentos! Ao contrário, como são felizes os povos que possuem sacerdotes segundo os desejos de Deus! E é, por isso, uma graça inefável que Deus concede a um jovem, quando o chama para consagrar-se ao serviço do altar, quando o convida a entrar nas fileiras dos sacerdotes de Jesus Cristo.
CAPÍTULO V
A voz de Deus
Quando o Salvador convidou os seus discípulos, afim de se dedicarem ao seu apostolado, disse a cada um: "Vem, segue-me"! Qual era o intuito de Jesus Cristo? Qual era o objetivo do seu convite? Não os chamou, certamente, para que viessem buscar riquezas e honras mundanas ou desfrutassem uma vida ociosa e de prazeres. Porque as riquezas, os gozos terrenos e a opulência de vida não são frutos que crescem na árvore do apostolado. Os apóstolos haviam de ser, no futuro, pregadores das verdades eternas; haviam de convertes os povos para a doutrina do Crucificado. Sua tarefa seria conduzir a humanidade à altura da moral cristã, salvar as almas e sacrificar seus próprios interesses e sua vida pela redenção dos seus semelhantes. Era esse o escopo de sua vocação.
Mas, se tal é o fim do sacerdócio, então é, certamente, de grande importância sabermos a quem se dirige o chamamento divino, quem é idôneo para o estado sacerdotal.
Não padece dúvida que motivos de ordem meramente natural não podem decidir alguém a abraçar esta santa e austera vocação. "Ninguém usurpa para si esta honra senão aquele que é chamado por Deus como Arão", diz o apóstolo São Paulo. Entre os Israelitas somente podia ser pontífice quem pertencia à estirpe de Arão, chamado por Deus para aquela dignidade. Da mesma sorte, na Igreja de Cristo ninguém pode ser sacerdote ou ministro do altar, sem que para esse fim Deus o chame e indique pelos superiores eclesiásticos, que, como por linha reta, descendem dos apóstolos.
No Antigo Testamento destinara Deus a tribo de Levi ao serviço do templo e os descendentes de Arão ao sacerdócio judaico. Na Nova Aliança não é o nascimento nem a descendência que determinam a escolha dos candidatos. Deus elege os sacerdotes de todas as classes sociais. O chamamento ao sacerdócio pode dirigir-se aos jovens que vivem em opulência e àqueles que lutam com dificuldades financeiras; pode ouvir-se tão bem na choupana do pobre como no palácio dos ricos. Deus não chama os candidatos pela influência de sua graça e pelo ministério dos representantes da Igreja.
Quem passa a sua infância e adolescência na escola do trabalho e do regime da obediência, facilmente se familiariza com as mortificações, renuncia aos seus pendores naturais, vence os seus apetites desregrados, e, enfim, os sacrifícios pessoais que o sacerdócio lhe impõe, tornam-se mais leves aos seus ombros. Esse fato nos é confirmado pelas palavras expressivas de São Paulo: "Vede, irmãos, a vossa vocação, pois não são nela muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres; mas Deus escolheu o que é insensato segundo o mundo para confundir os sábios, e escolheu o que é fraco segundo o mundo para confundir o que é forte, e Deus escolheu o que é vil e desprezível para o mundo e as coisas que não são, para destruir aquelas que são, para que nenhum homem se glorie na sua presença" (1 Cor. 1, 26 sg.). Queria São Paulo dizer: Atendei ao modo por que se fez a vossa vocação: quer considereis os ministros de Deus que vos chamaram, quer a vós mesmos que fostes chamados, certamente não encontrareis nem entre vós nem entre eles, muitos que tenham sido revestidos de sabedoria humana, de poder e de nobreza deste mundo. Declarava não se encontrarem muitos, visto que sempre alguns entre eles houve, como Dionísio Areopagita, Paulo procônsul e o mesmo apóstolo São Paulo.
A história da Igreja prova, brilhantemente, com os exemplos mais insignes a doutrina de São Paulo. Quantas vezes homens que aos olhos do mundo nenhum valor nem importância pareciam ter, tornaram-se luminares da humanidade e operaram as maiores maravilhas no seio dos povos. A nobreza do sacerdote consiste na virtude e no saber.
Assim quis o Salvador. Um dia, reuniu em torno de si os setenta e dois discípulos que escolhera para operários de sua messe. Contemplava, com prazer, esses homens, oriundos das massas populares. Nas suas frontes os cuidados e as tribulações da vida tinham deixado largos sulcos, e suas mãos estavam calejadas por pesados trabalhos. Eram esses os homens que haviam de operar a salvação do mundo, encaminhando-se destemidamente aos sábios da Grécia e aos orgulhosos imperadores da Roma pagã. E, por ventura, não era Jesus Cristo pobre e tido por filho do carpinteiro José? Não deverão os católicos compenetrar-se destas verdades?
Em regra geral, não se realiza a vocação ao sacerdócio por uma manifestação direta de Deus, como na escolha dos apóstolos e discípulos de Cristo, nem por meio de milagres como na vocação de Paulo, mas pelas disposições ordinárias da providência divina. A sabedoria de Deus põe o primeiro gérmen da vocação na alma da criança e lhe possibilita o seu desenvolvimento através de uma série de circunstancias que imprimem à vontade uma determinada direção, amadurecendo nela, pouco a pouco, a resolução final. "Cada um tem de Deus seu dom próprio, este, realmente, de um modo, e outro de modo diferente" (1 Cor. 7, 7).
Alguns sinais bem visíveis revelam aos pais e educadores a vocação nascente na alma do menino. Em primeiro lugar aparece uma certa inclinação ao estado sacerdotal. Não raro, nota-se nele desde a sua tenra adolescência uma disposição misteriosa, que o inclina às coisas de Deus e à atividade sacerdotal, achando nisso um prazer especial. Nos seus sonhos juvenis, afigura-se lhe a carreira do padre como um objetivo sublime, digno de suas aspirações, e no qual julga ser-lhe possível encontrar sua felicidade. Quando essa disposição perdura até encontrar sua felicidade. Quando essa disposição perdura até depois da puberdade e continua a predominar na alma do adolescente, não obstante as ilusões de suas paixões nascentes, então pode-se, com razão, supor que ele seja chamado por Deus ao sacerdócio, quando não lhe faltem os outros requisitos necessários.
De fato, além das mencionadas disposições, requerem-se outros requisitos de idoneidade para o cumprimento das funções e dos deveres sacerdotais. Quando Deus chama um menino ao estado sacerdotal, também lhe confere as qualidades necessárias. Em que consiste essa idoneidade? A piedade é condição principal, porque o exemplo exerce maior influência do que a palavra. Portanto, o menino que aspira ao sacerdócio deve ser piedoso, sentir gosto na oração e na recepção dos santos sacramentos, e comportar-se com reverencia nas igrejas, e amar e venerar intimamente, a santíssima Virgem Maria. Sobretudo, cumpre que o candidato tenha passado sua mocidade na inocência, na prática da virtude. Pois, já no Antigo Testamento disse o salmista: "Quem subirá ao monte santo do Senhor? Ou quem estará no seu santo lugar? O inocente de mãos e limpo de coração quem não recebeu em vão a sua alma, nem fez juramentos dolorosos ao próximo. Este receberá a benção do Senhor e a misericórdia de Deus, seu Salvador" (Ps. 93, 3-5). Com maior razão exigem-se estas condições dos sacerdotes da Nova Aliança, que levam nas suas mãos o Cordeiro Imaculado de Deus.
Exige-se um talento suficiente para os estudos e esta condição é igualmente indispensável, de modo especial nos tempos atuais, em que tanto se joga com a palavra de ciência, cultura e civilização. O sacerdote tem de anunciar e explicar a lei de Deus, defender a religião, formar as consciências, dirigir as almas ao seu fim supremo. Como ele poderia cumprir a obrigação sem que tivesse a necessária ciência? Por isso, amor ao estudo, tanto no Seminário como mais tarde na vida sacerdotal, é uma condição necessária.
A reta intenção é o fundamento e a coroa da vocação sacerdotal e consiste na resolução de glorificar a Deus e salvar as almas. Esta intenção manifesta-se pelo amor a Deus. Antes que Nosso Senhor confiasse seu rebanho a São Pedro, perguntou-lhe três vezes: "Simão, filho de Jonas, amas-me"? (Jo. 21, 15). O amor foi o motivo precípuo de sua escolha. E, assim, o amor a Jesus Cristo será sempre o sinal característico mais sublime daqueles que Deus chama ao sacerdócio. A resolução de tornar-se sacerdote muitos a tomaram, justamente, no momento em que seu coração ardia de amor para com Deus, por exemplo, na primeira comunhão ou em outras ocasiões idênticas. Um desejo veemente de cooperar para a glorificação de Deus e a prosperidade do seu reino na terra é que animava aquelas almas eleitas. Do mesmo modo, revela-se a reta intenção pelo amor ao próximo, donde nasce o zelo pela salvação das almas imortais. O intento de colaborar com o Salvador na redenção do próximo transviado, reconduzindo-o ao seio da Igreja, tem inflamado em todos os tempos o coração daqueles que, legitimamente, aspiram ao estado sacerdotal.
CAPÍTULO VI
A escolha dos apóstolos
Vejamos as qualidades dos tempos que Jesus convidou para serem seus apóstolos. O procedimento de Cristo é significativo. Os primeiros que se prontificaram para atender ao chamamento de Jesus, eram discípulos fiéis de São João Batista, a saber, André e João, homens de conduta irrepreensível e de séria religiosidade. Justamente sua fidelidade ao grande Batista, seus ardentes desejos da renovação moral e religiosa do povo, indicavam uma orientação decisiva, uma mentalidade de gravidade santa e de energia religiosa, -- sinais certos de vocação sacerdotal.
Depois que os dois discípulos de João Batista assistiram à descida do Espírito Santo sobre Jesus de Nazaré nas águas do Jordão, depois que ouviram da boca do Precursor as palavras: "Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo', realizou-se uma mudança radical na sua vida. Seguiram ao Messias prontamente. Então perguntaram-lhe, humildes e modestos: "Mestre, onde moras tu"? Esse procedimento dos primeiros discípulos nos descortina o íntimo de sua alma. Não procuravam bens terrenos, mas o Cordeiro que vinha tirar os pecados do mundo.
Eram aqueles discípulos homens que se sentiam felizes junto a Jesus e neste primeiro dia não se afastaram do seu lado. Eram homens sem falsidade, sem dobres nem dissimulação farisaica ou orgulho, porém, almas simples e retas. Quando Natanael foi conduzido ao Senhor, este o saudou com as palavras: "Eis aqui um verdadeiro israelita em que não se acha falsidade". Como brilhava então o olhar de Cristo e se aprofundava naquela pobre alma, e como cintilavam os olhos de Natanael, emocionado de alegria e reconhecimento! Um sinal característico da verdadeira vocação sacerdotal é a sinceridade. Aqueles discípulos eram homens do povo simples, possuídos de zelo pela glória de Deus, mortificados pelo trabalho quotidiano, homens capazes de resoluções heroicas e resolvidos a realizarem os seus nobres e ousados propósitos. E porque escolheu o mestre homens em tais condições? Porque procurava, justamente, operários para a sua vinha, trabalhadores para o seu campo, onde a messe era abundante e poucos os ceifadores.
Entre os chamados para o apostolado, enumerava-se João o discípulo predileto de Jesus, conhecido pela santidade de sua vida e juventude puríssima. Mas também eram queridos por Jesus aqueles que depois de haverem cometidos erros, puseram, definitivamente, fim ao passado, entregando-se à pratica das virtudes e da perfeição. Assim, vemos Levi, o rendeiro de dinheiros públicos, levantar-se de sua mesa para atender ao chamamento de Jesus. A voz do Salvador suscitou em sua alma as mais nobres disposições, pelo que abandonou tudo resolutamente.
Assim, procedeu Paulo, que teve de renunciar às suas ideias filosóficas e convicções religiosas, tornando-se apóstolo de Cristo, o qual antes havia perseguido. Essa resolução, essa força de vontade, essa fidelidade à doutrina conhecida e esse espírito de sacrifício e heroísmo são disposições que revelam a vocação mais sublime. Os discípulos de Jesus tremiam ante a grandeza da missão que haviam de desempenhar. Porém, o Senhor os consolava e lhes inspirava coragem e animo. Na convivência familiar com Jesus achavam a felicidade do coração e, com o auxílio de sua graça, alcançavam uma força sobrenatural. "Agora posso tudo no que me fortalece", exclamava jubiloso São Paulo. É esse um mistério que a graça opera nos corações guiados por Deus, é a força que em sai experimenta aquele que obedece a voz do Mestre divino em espírito de sacrifício e de abnegação. Sim, o candidato a o sacerdócio não vise interesses próprios, mas prepare-se para a mais profunda abnegação de si mesmo. Se esta for a sua disposição espiritual, terá uma recompensa que não se pode comparar à nenhuma felicidade deste mundo. Mas, em que consistirá essa recompensa para aqueles que abraçam a vocação do sacerdócio? É difícil concretizar este pensamento por palavras.
Recompensadora é a convicção de ser o padre o pregador da verdade eterna, da revelação divina que o rei da verdade trouxe do céu à terra. O bom padre sente-se feliz, porque pelas suas mãos continua o Sumo Sacerdote o sacrifício eucarístico, sendo ele o medianeiro entre Deus e os homens, dispensador dos benefícios celestes. Grande consolação experimenta o padre pela convicção de ser o redentor dos seus irmãos, protetor da inocência, guia dos que erram, consolador daqueles que sofrem e que gemem sob a maldição da culpa.
Recompensa incomparável oferece a união diária com Jesus, o Rei da glória, na celebração da Santa Missa. E depois da última subida ao altar, quando na eternidade Cristo se apresentar sem o véu das formas eucarísticas, receberão dele os bons sacerdotes, como recompensa final, uma coroa de incomparável fulgor, símbolo de sua felicidade e glória.
Tais são as prerrogativas e as recompensas que esperam o sacerdote e nos dão a entender a sublimidade e grandeza do estado eclesiástico. Dali, infere-se a necessidade de dispensar um carinho e cuidado especial a essa preciosíssima joia da vocação sacerdotal, para que não se perca nem diminua o seu brilho. Pois, se um dos apóstolos teve o infortúnio de ser infiel à sua vocação sacerdotal, para que não se perca nem diminua o seu brilho. Pois, se um dos apóstolos teve o infortúnio de ser infiel à sua vocação, se ele até se tornou traidor do seu Mestre, então é óbvio que os ministros de Deus tenham de ser vigilantes, afim de não lhes suceder desgraça semelhante. "Vigai e orai, para que não entreis em tentação". Estas palavras dirigiram Nosso Senhor aos discípulos adormecidos, que, ainda poucos momentos antes, lhe haviam prometido a maior dedicação, e as endereça também aos sacerdotes, porque sem vigilância e oração, para ter socorro do alto, não valem as melhores resoluções, pois que, à hora de leva-las a efeito, a natureza humana se conturba, vacila e fraqueia. Por esse motivo precisam os padres, seculares e regulares, consolidar sua vocação, crescendo em virtude santidade, e tornar-se sempre mais dignos dessa graça, à semelhança dos apóstolos que na escola de Jesus subiam progressivamente, até que chegassem à altura daquele altar que se levantava no cenáculo, e à perfeição de sua missão divina. Os candidatos ao sacerdócio, bem como os presbíteros, precisam cooperar com a graça de sua vocação, do contrário lhes minguam as foças e desfalecem no árduo caminho que trilham, tropeçam e caem nas lutas diárias. Meditem a palavra de São Paulo: "Aquele que crê estar seguro, acautele-se para não cair" (1 Cor. 10, 12).
Eis alguns pensamentos dignos de serem ponderados, tanto pelos sacerdotes como pelo povo católico. Pois, não pode ser indiferente ao povo cristão a santificação do sacerdote.
CAPÍTULO VII
A dignidade sacerdotal
O estado sacerdotal foi instituído por Cristo, o Sumo Sacerdote eterno. Aos apóstolos e a todos os sacerdotes ele disse: "Vós não me escolhestes a mim, mas eu escolhi a vós e vos constitui para que vades e deis fruto e para que o vosso fruto permaneça" (Jo. 15, 16). O sacerdote é o enviado de Cristo, seu instrumento para aplicar aos homens os frutos da salvação. Quanto mais conhecemos a excelência e a grandeza de Cristo, suas relações com Deus e os homens, tanto maior é o apreço que ligamos aos seus representantes e mais compreendemos as palavras de Jesus: "Assim como meu Pai me enviou, assim eu vos envio" (Jo 21, 21). São João Crisóstomo, considerando estas palavras, não receia dizer: "O sacerdócio, embora se exercite na terra, pertence, segundo a sua categoria, às dignidades celestes. Nem homem, nem anjo ou arcanjo, nem outro qualquer poder criado, mas jesus Cristo mesmo, o Filho de Deus, é que fundou o ministério sacerdotal" (De Sac. 3, 1).
O sacerdote é consagrado pela Igreja. Já os apóstolos escolheram da multidão dos fiéis determinados varões que, em meio de orações e solenidades religiosas, ordenavam sacerdotes pela imposição das mãos. Provas abundantes desse fato nos oferecem as Atos dos Apóstolos e as Epístolas de São Paulo ao seu discípulo Timóteo. A este São Paulo conferiu pela imposição solene das mãos a ordem sacerdotal (1 Tim. 4, 14). Por meio do sacramento da ordem perpetuou-se o sacerdócio na Igreja católica desde os tempos apostólicos até aos dias hodiernos. De todos os sete sacramentos é a ordenação sacerdotal o mais importante, porque dela depende toda a vida e organização do reino de Deus. A preparação condigna para o ministério sacerdotal exige que os candidatos subam, gradualmente, a esta elevada dignidade. Além da tonsura clerical e das quatro ordens menores, recebem eles três ordens maiores ou sacras, até que eles sejam dado ouvir da boca do bispo as palavras do Pai celeste: "Tu és eternamente sacerdote, segundo a orem de Melquisedec" (Ps. 104, 4). Durante toda a eternidade, o padre leva impresso na sua alma o sinal, o caráter sacerdotal.
"O mistério do sacerdote me impõe um respeito profundo", diz Santo Efrem. Não nos admira, pois, que vários santos, como São Francisco de Assis, considerando a sublime dignidade do sacerdócio, não quisessem receber a ordenação. Cada bom sacerdote, quando pensa no seu elevado ministério e na própria fraqueza, vê-se obrigado a dizer com São Paulo: "Temos este tesouro (o sacerdócio) em vaso de barro, para que a sua sublimidade seja atribuída à virtude de Deus e não a nós" (2. Cor. 4, 7).
Honrai os sacerdotes por motivos de sua alta dignidade! Defendei a sua honra, quando são atacados por gente que faz praça do seu ódio à religião e aos ministros de Deus, julgando perversamente, os seus atos ou constituindo-os alvo de calúnias e injúrias. Quem não quer saber de Deus e da eternidade, acha no sacerdote e nos seus ensinamentos motivo de crítica, de censura e de perseguição. E se o mundo mau perseguiu ao divino Mestre, pregando-o na cruz, certamente não poupará os seus discípulos.
Tomai sob vossa proteção os sacerdotes, quando são caluniados e perseguidos. E guardai-vos a vós mesmos de falar contra eles sem caridade nem respeito, porque o Espírito Santo vos admoesta: "Não toqueis os meus ungidos e não maltrateis os meus profetas" (Ps. 104, 15).
Sem dúvida, o sacerdote conserva a natureza humana, tem de empregar esforço no sentido de vencer suas fraquezas e de lutar para conquistar e guardar a santidade que seu estado exige. Se não tomar as necessárias cautelas, está exposto ao perigo e pode cair como vós. Mas, embora se vos apontassem alguns casos de lamentável defecção sacerdotal, a vossa fé não deveria vacilar, nem a vossa alma declinar do caminho da perfeição. Não olheis para os raros casos de infidelidade sacerdotal, porém, contemplai essas falanges gloriosas de sacerdotes fiéis, que sacrificam sua saúde e sua vida, e empenham seus melhores esforços na prática do heroísmo e das virtudes ao lado do Senhor, prosseguindo com ele a trabalhar como operários destemidos na sua imensa vinha. Não nos esqueçamos nunca de que a força santificadora das nossas almas não promana da personalidade do sacerdote, mas dos meios de santificação que ele nos administra. É o próprio Cristo, que com o auxílio dos representantes humanos do ministério sacerdotal, nos oferece os dons de sua sabedoria e as suas graças. Por isso, exige a boa razão que não se considere tanto o elemento humano no sacerdote ou a sua fraqueza, quanto a insigne dignidade do ministério que ele exerce em nome da Igreja. Pois, o apóstolo escreveu aos corintos: "Os homens devem considerar-nos como ministro de Cristo, e como dispensadores dos mistérios de Deus" (I. Cor. 4).
Não obstante, dirigimos a cada um dos nossos sacerdotes a advertência de São Paulo: "Faze-te a ti mesmo um exemplar de boas obras em tudo, na doutrina, na integridade, na gravidade; as tuas palavras sejam sãs, irrepreensíveis, para que os nossos adversários se envergonhem, não tendo que dizer de nós mal algum" (Tit. 2, 7. 8).
Cultivem igualmente os nossos sacerdotes o espírito fraterno, ajude um ao outro, frater fratrem adjuvet, e abstenham-se de censurar o procedimento de colegas, o que sempre redunda em prejuízo do ministério sacerdotal.
Convém que sacerdotes e fiéis, para melhor compreensão do ministério eclesiástico, ponderem as palavras de São Paulo: "Todo pontífice tirado dentre os homens é constituído a favor dos homens naquelas coisas que tocam a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados; o qual se possa condoer com aqueles que ignoram e erram, porquanto também ele está cerca de enfermidade; e, por esta razão, deve tanto pelo povo, como também por si mesmo, oferecer sacrifício pelos pecados" (Hebr. 5, 1 – 3).
CAPÍTULO VIII
A chegada ao altar
A escolha do caminho ao altar deve ser o resultado de uma resolução inteiramente livre. A liberdade é o primeiro degrau do altar de Deus. Tal foi a deliberação dos apóstolos. Livremente dirigiram-se João e André ao Messias e lhe perguntaram com candura infantil: "Mestre, onde moras tu"? Livremente seguiu cada um dos outros apóstolos aquele convite: "Vem, segue-me"!
Uma vez na sua vida ficou o Salvador entristecido, quando um ótimo jovem não quis aceitar o seu convite. Era um moço rico e nobre. Observava os mandamentos da lei de Deus. Mas, o amor à vida mundana não lhe permitia a renúncia aos seus bens conforme o convite do Senhor. Não quis abandonar o mundo com seus prazeres e encantos. O convite de seguir e imitar ao pobre Jesus não lhe oferecia atrativos compensadores. Não aceitou o apostolado. Poderia ser um apóstolo notável, talvez como São Paulo! O Senhor volveu um olhar cheio de tristeza ao jovem que se afastava lentamente, mas não lhe fez violência, nem insistiu no convite. Nenhum dos discípulos foi coagido. Assim, é necessário que os adolescentes, ouvindo no seu coração o chamamento da graça, livremente abracem o estado sacerdotal. Ninguém pode ser forçado ou obrigado a dar esse passo, por motivos terrenos ou conveniências temporais. Nasceriam dali as consequências mais faltas e lamentáveis. Um sério exame de si mesmo e a consulta de um sábio diretor de almas são os elementos que constituem o segundo degrau que leva ao altar. É bom expor a um amigo paternal os motivos em favor e contra essa resolução, para que os examine e devidamente pondere. Essa franqueza, talvez humilhante, será recompensada pelo Senhor.
Não se abraça o sacerdócio como a qualquer outro estado de vida, como se estivesse na mesma linha das profissões ou carreiras civis. Sem dúvida, os estados comuns da vida a que Deus destina a mor parte dos homens, merecem respeito e acatamento. Contudo, o estado sacerdotal exige reverencia incomparável maior, visto como da ação dos seus representantes depende a salvação eterna de inúmeras almas imortais. Um amor reverente ao sacerdócio é o terceiro degrau do altar de Deus. Movido pelo mais profundo respeito, exclamou São Pedro, lançando-se aos pés de Jesus: "Afastai-vos de mim, Senhor, porque sou um homem pecador" (Lc. 5, 8). E na ordenação sacerdotal admoesta o bispo os candidatos à mais profunda reverencia, quando diz: "Considerai o elevado grau a que quereis subir".
O amor ao sacerdócio deve ser íntimo e verdadeiramente religioso, pois, a vocação eclesiástico é uma pérola preciosíssima confiada àquele em cujo coração despertou o desejo de ser sacerdote. E neste caso o candidato ao sacerdócio é semelhante àquele homem da parábola de Jesus, o qual, tendo achado uma pérola de alto valor, vai vender tudo o que possui, afim de compra-la. Da mesma sorte, aquele que é efetivamente chamado, acha fácil e doce o sacrifício que o serviço do altar lhe impõe. No seu coração predomina um desejo, o mesmo desejo íntimo que o Mestre divino manifestou no cenáculo "Tenho desejado, ansiosamente, comer convosco esta páscoa antes que eu padeça" (Lc. 22, 15).
A graça da vocação é poderosa e eficiente. Quem a recebeu na sua alma precisa guardá-la com cuidado e diligencia, cooperando com suas inspirações e incitamentos. Isto fará, do melhor modo, por uma conduta imaculada e sem mancha. Quem pretende conservar-se às alturas da pureza virginal, quem sabe fazer os sacrifícios reclamados pela mesma, quem evita os caminhos do prazer e da leviandade, quem se santifica pelo sacramento da penitencia e da comunhão e procura temperar seu caráter no crisol da mortificação, esse é que se habilita para dignamente exercer as funções sacerdotais e sobre ele descansa o olhar amoroso do Sacerdote Supremo. Pois, obedece à voz do seu mestre: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si próprio e me siga" (Mt. 16, 24). É esse o quarto degrau que conduz ao altar de Cristo.
Um tal coração não conhece alegria mais íntima do que o entretenimento constante com Jesus no Sacramento do Altar. Esse amor ao Sacrário é um dos maiores dons da graça divina que, em milhares de corações juvenis, palpita e vive. Não é hipocrisia nem piedade efeminada que constitui o caráter do sacerdócio, mas o amor elevado que cultivavam os discípulos João e André. "Mestre, onde moras tu", perguntaram eles ao Senhor. "Vinde comigo e vereis', foi a resposta. Eles o acompanharam e julgavam-se felizes debaixo de sua tenda. Sim, felizes eram eles, porque o Espírito de Deus se manifesta onde quer, o seu sopro comunica as alegrias santas que reinam nos jardins dos bem-aventurados. O sopro ou a aragem do Espírito de Deus significa a vida interior, a vida de oração e as relações cordiais com o Sumo Sacerdote. É essa a fonte puríssima da ação sacerdotal, nessa vida interior está bem guardada a graça da vocação. Ali, ela continua a crescer, triunfando de todos os embaraços e dificuldades. Zeloso, pois, há de ser aquele que se sente chamado ao estado sacerdotal e deve achar alegria nos trabalhos, embora pesados. É esse o quinto degrau do altar. Não são os corações tíbios, fatigados e gastos pelos gozos mundanos que se prestam sacerdócio. Pois, Cristo, o Sumo Sacerdote, declarou: 'Eu vim trazer fogo à terra, e que quero eu senão que ele se acenda"? (Lc. 12, 49). Sim, o sacerdote deve trabalhar com entusiasmo, convencido da sublimidade de sua carreira.
Por isso, os jovens que se sentem chamados ao estado sacerdotal devem entregar-se, contentes e alegres, ao trabalho: "Deus ama aquele dá com alegria" (1 Cor. 9, 7). Somente onde predomina um zelo heroico, fortalecido por trabalho sério e estudo constante, ali, torna-se a consagração ao Sumo Sacerdote uma força invencível que torna os homens felizes.
Sigam os nossos seminaristas e sacerdotes o exemplo de Samuel, que, durante uma noite, respondeu três vezes com alegria ao Senhor: "Ecce ego, aqui estou eu". Quanto mais pronto for o zelo pelo trabalho no tempo da mocidade, tanto mais confortante será ele nos anos do ministério sacerdotal. E pode-se afirmar que a conduta dos dias da idade juvenil imprime à futura vida sacerdotal sua forma caraterística. Como se sentia feliz São Paulo, o apóstolo das gentes, que pode testificar: "Tenho trabalhado mais copiosamente e do que todos os outros, não eu, porém a graça de Deus comigo".
São estes os degraus que conduzem ao divino sacerdócio de Cristo: uma resolução nobre e livre, uma profunda reverencia à graça da vocação, um empenho constante para conseguir maior pureza e amor, a convivência com o Salvador Eucarístico e, finalmente, um zelo entusiástico pela causa da Igreja, e contração ao trabalho.
Quem por estes degraus procurar subir ao altar, conduzido pela graça divina, sentirá crescer, dia para dia, esse amor, essa dedicação à Santa Igreja, tornando-se feliz e ditoso. Um tal ama sua religião como um filho ama a sua mãe, tente-se feliz na esperança de poder, em breve, lutar em favor do reino de Cristo, e ajudar na construção do templo vivo e eterno de Deus. Toda a sua atenção concentra-se nos interesses do reino de Deus sobre a terra.
Quem dessa maneira for chamado e seguir a voz de Deus terá, certamente, por fim supremo o empenho máximo de ser útil ao seu povo, de salvar almas e espalhar as bênçãos da religião. É esse o ideal que brilha no coração do jovem que de toda a alma pretende abraçar a vida sacerdotal: O impulso ao apostolado da Igreja, ao ministério eclesiástico. E esse ideal ele bendirá cada vez que no princípio da Santa Missa disser: "Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam: Entrarei ao altar de Deus, ao Deus que alegra a minha mocidade.
Expusemos nesta página os sinais característicos da vocação eclesiástica, não somente por se tratar do sacerdócio litúrgico, mas também para conhecimento e cooperação dos leigos, afim de que estes se tornem dignos da palavra do apóstolo: "Vós sois um sacerdócio real". Por isso, nossas palavras dirigem-se a todos quantos tenham o desejo de coadjuvar aos seus irmãos no caminho da salvação.
Será infrutífera essa nobre disposição de uma mocidade eleita? Certamente que não. O próprio Salvador nos dá a resposta na sua oração sacerdotal, quando no cenáculo se dirigiu ao Pai Celeste: "Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste" (Jo. 17, 11). O olhar de Jesus pousa, amorosamente, sobre aqueles que no coração guardam a vocação sacerdotal.
Por isso, amados seminaristas e sacerdotes nossos, não tenhais receio, quando aparecem lutas e tribulações. Depositai vossa confiança na providencia e no auxílio de Deus, no poder e na eficiência de sua graça.
Ponha o povo católico maior interesse na formação de sacerdotes e apóstolos, porque a prosperidade das paróquias depende da cura espiritual. É preciso que todos os nossos diocesanos nos coadjuvem na educação de dignos e numerosos sacerdotes. Todas as boas famílias devem contribuir para a realização desse grandioso ideal. Porque, com efeito, as famílias verdadeiramente cristãs são o campo abençoado onde nascem e prosperam as vocações sacerdotais.
CAPÍTULO IX
A família e o sacerdócio
Sobremaneira ditosos são os pais, quando tem a ventura de assistir à primeira missa de um filho que abraçou o estado sacerdotal. Uma felicidade indizível sente todos os membros da família, quando recebem, pela primeira vez, a sagrada Eucaristia da mão desse neopresbítero! E grande, sem dúvida, é a gratidão do jovem sacerdote para com seus progenitores naquele dia soleníssimo! Realmente, o bom sacerdote é para sua família uma honra, uma glória.
O lar doméstico é a primeira escola, a estação de experimentação das vocações sacerdotais. Ali, elas nascem e se desenvolvem. Aos pais assiste o dever de protege-las e cultivá-las, como tenras e mimosas plantas.
Esse fato observa-se desde o princípio do cristianismo. Já na casa de Zacarias e Isabel, dominava o espírito sacerdotal e desse lar abençoado saiu o precursor do Sumo Sacerdote, o grande profeta João Batista. O mesmo espírito animava a Joaquim e Ana, os pais da Santíssima Virgem, a Rainha dos Apóstolos. E quem ofereceu à Igreja Santo Agostinho, o maior dos santos doutores? Sua mãe, Santa Monica, cujas orações, lágrimas e sacrifícios removeram todos os embaraços que impediam os passos do seu filho no caminho da virtude. A quem deve o grande pároco de Ars, São João Batista Vianney e profundo espirito de oração de sua pobre e modesta mãe. Na Alemanha, levantou-se no século passado o sacerdote Kolping, o grande organizador das classes operárias e cuja atividade mereceu os mais entusiásticos aplausos. Pois, ele mesmo num grande congresso católico declarou, comovido e com voz tremula, que sua vocação sacerdotal era o fruto das orações e da influência de sua progenitora.
Mas, não há necessidade de procurarmos exemplos em outros países. Entre nós mesmos eles não faltam. Podereis perguntar à grande maioria dos nossos sacerdotes a quem eles devem a graça de sua vocação, e eles vos responderão que às orações, aos sacrifícios e ao bom exemplo dos seus pais. E seja-nos permitido mencionar aqui a família exemplar Pedreira de Castro, do estado do Rio de Janeiro. Ambos os esposos, o dr. Jeronimo de Castro e dona Zélia Pedreira, cumpriam, com muito fervor, os seus deveres religiosos e dispensavam um cuidado especial à educação dos seus nove filhos: três meninos e seis meninas. Qual foi o resultado de sua vida edificante? Os três filhos tornaram-se sacerdotes, um missionário lazarista, outro franciscano e o terceiro jesuíta. As seis filhas entraram para ordens religiosas. O pai morreu, piedosamente, em 1909, e dona Zélia, depois de enviuvada, completou a educação dos seus filhos e, em seguida, entrou para a congregação das servas do Santíssimo Sacramento no Rio de Janeiro, fazendo sua profissão solene no leito da agonia. Morreu em odor de santidade, no ano de 1919. Exemplo edificante e belíssimo!
O Espírito Santo suscita os sacerdotes onde lhe apraz. Quantas vocações desabrocham, assim como violetas primorosas, no jardim de lares ocultas na penumbra da modéstia e da simplicidade! Muitas famílias nesta arquidiocese consagram mais de um dos seus filhos ao ministério sacerdotal e, simultaneamente, conduzem número igual ou superior de filhas a congregações religiosas, onde durante a vida prestam relevantes serviços no ensino e no serviço hospitalar. Deus Nosso Senhor tem abençoado, visivelmente, esta nossa amada arquidiocese de Porto Alegre.
Portanto, a família é a fonte e a sede principal das vocações eclesiásticas. Não há bom sacerdote que não se lembre, com profundo reconhecimento, até à idade mais avançada, de seus pais, que lhe favoreceram a formação eclesiástica e deram a mão para subir os degraus do altar.
Não obstante, é certo que Deus pode escolher os seus ministros no meio de todas as classes e condições sociais. Porém, é indubitável que a graça da vocação eclesiástica se manifesta de um modo mui especial onde reina o espírito cristão e floresce a vida católica, que lhe prepara o caminho. Tais são os lares em que se pratica a piedade e a oração em comum por parte dos pais e dos filhos. São os lares nos quais já na tarde dos sábados todos se preparam para comemorar dignamente o dia do Senhor, assistir as funções religiosas e receber os santos sacramentos. São os lares em que os dias consagrados do cultivo se tornam o eixo da vida de toda família; onde reina a disciplina e a obediência e uma educação esmerada conduz os filhos pelo caminho da castidade e da perfeição. São Pedro, apóstolo oferece-nos o mais belo ensinamento, quando diz: "Sede vós edificados como pedras vivas em templo espiritual um sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo" (1 Petr. 2, 5). É esta uma palavra de alta significação e o sinal característico da família genuinamente cristã; amor aos sacrifícios agradáveis a Deus e o desejo constante de servir, sempre de modo mais perfeito, a Nosso Senhor.
Esse espírito sacerdotal, em todos os tempos, tem enobrecido os lares dos fiéis católicos. O prazer da oração está ali aliado à nobreza de santidade imaculada e à disposição de entregar-se ao amor de Deus e à caridade do próximo.
Por isso, cabe aos pais uma tarefa importantíssima, quando observam que um filho apresenta inclinação ao estado sacerdotal. Pai e mãe devem considerar essa propensão da alma juvenil como um penho precioso, como um grau de semente vindo do céu, que precisam estimar, proteger e cultivar. Porém, é mister que se abstenham de coagir o seu filho a seguir a carreira eclesiástica. Em vez disso, lhes compete vigiar a sua educação e dirigir orações ao Sumo Sacerdote, de quem procede a graça da vocação. A mais formosa cooperação dos pais para consolidar-se a vocação sacerdotal do filho consiste em alimentar no coração infantil a fé, com perseverança suave e alegria edificante.
Sacerdotes puros e imaculados exige o sacrossanto sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo. Por isso, a gravidade do pai e a solicitude amorosa de uma boa se empenharão para que o sopro deletério da concupiscência não venha a envenenar o coração do filho, cientes de que o coração casto de um jovem é capaz da mais heroica dedicação. Por este motivo, queiram os pais cuidar, para que a mocidade se santifique pela recepção regular dos santos sacramentos e pela veneração da Mãe de Deus. Maria Santíssima é a rainha imaculada dos apóstolos e ela é também a mãe espiritual de todas as almas chamadas ao apostolado de Cristo. Quando os corações de juventude são preservados do vírus da sensualidade, reina na alma aquele espírito de verdadeira alegria de que fala o apóstolo São Paulo: "O Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rom. 14, 7).
A alegria deve impelir o sacerdote ao trabalho. O Salvador procurava operários quando chamou os apóstolos, e não homens indolentes, vaidosos, nem sonhadores, comodistas ou covardes. Na frase de Jesus Cristo: rogai ao Senhor que mande operários para sua vinha, acentuou ele, precipuamente, a palavra operários. Essa intenção de Jesus perdura na escolha de seus ministros. Se queremos resolver cabalmente o problema das vocações eclesiásticas na atualidade, é imprescindível que se atenda a esse ponto. Por isso, aplica-se a palavra do profeta Jeremias ao sacerdote futuro: "Bom é para o homem ter levado o jugo desde a sua adolescência" (Lam. 3, 27).
Todas estas considerações esclarecem a razão pela qual Deus chama o maior número de sacerdotes do meio do povo simples e modesto e de preferência dos lares onde reina a temperança, a atividade e a contração ao trabalho, das famílias em que a prática da religião e o temor de Deus ocupam lugar primacial. Com alma emocionada de gratidão, lembram-se os bons sacerdotes dos seus progenitores, que lhes ensinaram a oração e de cujos lábios nunca ouviram uma palavra desonesta. Reconhecidos, recordam-se de que na casa paterna sempre se falava com reverencia e respeito da Igreja e dos seus ministros e que os pais com olhar atento, dia e noite, vigiavam os caminhos e a conduta dos filhos. Quanta gratidão demonstram os bons sacerdotes à memória de seus progenitores, que procuravam no lar doméstico rodeá-los de alegria e contentamento, de maneira que eles nem se lembravam de seguir a senda obscura dos prazeres ilícitos.
O trabalho iniciado na casa paterna deve ser aperfeiçoado na escola, nas aulas de catecismo. Ao professor de religião, seja ele leigo ou eclesiástico, compete formar o coração dos seus alunos pela influência da moral cristã e dos sãos ensinamentos. Eles hão de nutrir e favorecer a vocação dos seus alunos e cativar-lhes o seu ideal. É na escola popular, nos ginásios católicos e nas instruções do catecismo, que se preparam os candidatos ao ministério eclesiástico. De modo semelhante, urge que o povo católico em geral colabore na formação dos seus sacerdotes, cuidando que na educação da juventude nada ocorra que possa melindrar seus sentimentos de piedade e sua inocência. Pois, com o desaparecimento dos sacerdotes acabaria também a formação cristã do povo, confiada por Cristo ao magistério e à missão de educar de sua Igreja. Portanto, seja-nos permitido insistir na admoestação de Jesus Cristo, a qual se refere ao povo católico: "Rogai ao Senhor que ele envie operários para a sua ceara".
CAPÍTULO X
A cooperação do povo católico
Numerosas e estreitas são as relações que prendem o sacerdócio ao povo, por ser a Igreja a reunião de todos os fiéis. Por isso, o empenho de conseguir sacerdotes não pode ser alheio ao povo católico. Sim, os interesses mais graves reclamam a presença do sacerdote. Que aconteceria se nas igrejas não houvesse ministros de Deus? O sacrifício da Missa não seria mais celebrado! Os enfermos não poderiam receber os últimos sacramentos! O povo não ouviria a pregação da palavra dos seus melhores educadores! Faltaria às paróquias o dispensador das graças divinas! As obras de caridade e as associações católicas perderiam a cooperação mais eficaz! Haveria, sem dúvida, um verdadeiro cataclismo social.
A falta de sacerdotes não somente se nota em nosso país, mas também em outros. O trabalho aumenta, as paroquias multiplicam-se; por toda parte, reclamam os fiéis novos vigários, quer no campo, quer nas cidades. Urge, portanto, que o povo católico se interesse pela formação de sacerdotes. A ele cabe esse dever, porque o sacerdócio é a fonte principal de sua felicidade temporal e eterna. Por isso, dirigimos um apelo ardente ao povo católico desta arquidiocese. De que maneira convém que as paróquias e as famílias, cooperem para essa obra eminentemente religiosa e social? Primeiramente, é preciso cultivar-se no seio das paróquias o verdadeiro espírito cristão. Com relação à saúde espiritual de uma coletividade e dá-se o mesmo fato que se observa com referência à saúde física. Onde há manifesta insalubridade do ar, água e modo inconveniente de vida, ali só aparecem semblantes pálidos e figuras doentias, e proliferam as epidemias. São as consequências físicas. Onde reina a incredulidade e o espírito de insurreição empunha o cetro, onde se profana a religião e se blasfema contra Deus, ali não pode florescer a perfeição cristã. Em tal lugar, está envenenado o coração e desorientado o espírito. É dificílimo que ali nasçam vocações sacerdotais.
"Custos quid de nocte, custos quid nocte, guarda, que vista de noite, guarda, que viste de noite"? Assim, falou Deus pelo profeta Isaías. "Chegou a manhã e a noite", foi a resposta (Is. 22, 11). Guardas do povo, condutores das coletividades, que vedes por toda a parte? Como se pratica a moral cristã na família e na vida pública? Custos, quid de nocte? Guarda, que viste de noite? Esta palavra dirige o bom Pastor a todos os párocos e diretores espirituais do povo. Para diminuição das vocações eclesiásticas contribui o meio ambiente em que a sociedade moderna vive e se agita. Mas, é necessário que se oponha aos males dos tempos uma resistência inabalável e uma atividade eficaz. Não nos queixamos tanto dos maus tempos, porém, procuremos corrigir-lhes os defeitos. As paróquias devem orgulhar-se de contribuir para a formação de sacerdotes, mandando aos seminários jovens esperançosos, que mais tarde farão honra à sua terra. Porque não se entusiasma também o povo pelos seminários e pelas vocações eclesiásticas?
É verdade, o nosso seminário provincial prospera e não deixa de ser um dos mais importantes da América do Sul. Considerável é o número de ótimos sacerdotes que ordenamos durante o nosso episcopado, e depois de algum tempo será suficiente o clero desta arquidiocese. Não obstante, porém, é preciso despertar o interesse do povo, é necessário chamar a atenção dos católicos para a absoluta necessidade da formação dum clero homogêneo, virtuoso e culto. E, por isso, dizemos com o apóstolo São Paulo: Não apagueis o Espírito Santo nos corações (1. Thes. 5, 19). Cuidai que ele não se retire das vossas paróquias. Despertai e cultivai o sentimento católico. Em terreno assim fertilizante, nunca atmosfera salubre e iluminada pelo sol da fé, brotará a preciosa semente das vocações sacerdotais e dará sazonados frutos.
Entre os meios para promover o espírito de piedade nas paróquias, salienta-se a comunhão frequente das crianças e dos adultos. Levem, portanto, os pais os seus filhinhos já bem cedo à sagrada mesa da comunhão. Em muitas paróquias já vigora este bom costume, mas em outras ainda deixa a desejar. Obedeçam neste particular tanto os sacerdotes como os fiéis desta arquidiocese às leis da Santa Igreja e às nossas prescrições diocesanas. É fato que as paróquias onde as crianças começam em idade inocente a receber a sagrada comunhão, dão as mais numerosas vocações eclesiásticas. Pois, a prática da piedade nas famílias e nas paróquias aplaina o caminho às inspirações do Espírito Santo.
No apostolado da oração de homens, bem como nas congregações marianas de moços, convém cultivar o interesse pelo sacerdócio, mediante a recepção dos santos sacramentos e a prática de boas obras. Onde a vida cristã pulsa com intensidade, ali surgem as esperanças, manifesta-se o amor ao estado sacerdotal. E assim é que muitas vezes uma primeira missa, uma missa nova, uma aldeia ou numa cidade, deu origem a novas vocações. Não menos a palavra prudente e inspirada de um pregador santo muitas vezes determinou jovens e até homens já formados a que abraçassem o estado eclesiástico. Destarte Santo Agostinho, assistindo às pregações de Santo Ambrósio em Milão converteu-se, tornou-se sacerdote e bispo. A palavra do bispo Colmar operou a vocação deu m jovem modesto e simples que mais tarde foi o célebre arcebispo de Colônia, o cardeal João de Geisser. A graça de Deus se manifesta de modo mais eficaz nos corações piedosos devidamente dispostos.
CAPÍTULO XI
A educação nos seminários
No seminário formam-se os sacerdotes, consagrando doze e mais anos ao estudo das ciências profanas e sagradas e à prática da virtude. Queira o povo católico cooperar para aumento e santificação dos sacerdotes com suas orações e seus donativos. Para a manutenção de um internato de mais de 400 pessoas como o nosso seminário provincial exigem-se grandes recursos. Claro está que muitos seminaristas estudam a expensas próprias. Mas, há meninos talentosos que não podem seguir a carreira eclesiástica, porque lhes faltam os meios pecuniários. Outros, na metade do caminho, por um infortúnio qualquer, perdem seus pais e vêm-se obrigados a suspender os estudos. Seria obra de grande benemerência religiosa e social oferecer a uns e outros os recursos necessários para completarem seus estudos. Esse auxílio pode prestar-se de várias maneiras. As almas generosas oferecem donativos ao nosso seminário provincial em São Leopoldo, ou mandam estudar à sua custa determinados seminaristas, ou, enfim, fundam bolsas ou becas, cujo rendimento seja suficiente para sustentar um seminarista escolhido. A importância mínima de uma bolsa é de dez contos de réis. O capital é inatingível, só os juros podem ser gastos.
Em 1840 havia na aldeia de Riesi, na Itália, um menino que tinha um desejo ardente de ser sacerdote. Fortuna não tinha, mas boa vontade e ótimo talento. Muitos corações nobres ofereciam-lhe pequenas esmolas para lhe facilitar os estudos, que, aliás, lhe impunham pesados sacrifícios. Seu desejo, porém, de servir ao Senhor era tão sincero e sua vontade tão resoluta e firme que, enfim, chegou ao termo da penosa jornada. Sua confiança em Deus e sua perseverança heroica conquistaram-lhe a vitória. O menino pobre era José Sarto, mais tarde patriarca de Veneza e o Papa Pio X, cujo pontificado marcou uma das fases mais brilhantes da Igreja católica. Seu nome glorioso imprimiu-se, indelevelmente, nos corações dos católicos. Que satisfação e alegria não teriam sentido todo aqueles que lhe ofereceram recursos para abraçar o estado sacerdotal!
Entretanto, o meio mais importante e mais eficaz é a oração do povo católico pela formação de bons sacerdotes. A vocação sacerdotal é uma das graças mais sublimes que Deus Nosso Senhor concede aos homens. Ninguém pode alcançá-la por meios naturais, nem por mero esforço próprio ou merecimentos pessoais. Esse dom celeste deve ser impetrado por todo o povo católico, porque sua felicidade depende da ação continua do sacerdócio de Jesus Cristo na terra. Por isso, não se pode repetir bastantes vezes a palavra de Jesus: "Rogai ao Senhor da seara que mande operários à sua messe" (Mt. 9, 38). Na mesma intenção oram os sacerdotes na recitação do breviário e no sacrifício do altar. Inspirados no mesmo motivo rezamos, constantemente, na formosíssima oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria "Deus e Senhor Nosso, protegei a vossa Igreja, dai-lhe santos pastores e dignos ministros".
Façamos, portanto, uma santa liga de oração em favor das vocações sacerdotais. Iniciemos uma fervorosa cruzada em prol dos nossos seminários. Todos nós, as ordens religiosas, o povo católico e os sacerdotes, continuemos a orar a Deus Nosso Senhor, afim de que conceda numerosas e santas vocações a esta arquidiocese, a todo estado do Rio Grande do Sul e a todo o Brasil. Prossigamos nesta tarefa, perseverantes na oração, orationi instantes (Rom. 12, 12). O Pastor supremo não deixará de atender a esta devota oração coletiva. A benção dessas preces descerá sobre todas vós, que sois, segundo a palavra do apóstolo, um sacerdócio real.
Segundo os desejos do Santo Padre Pio XI, procede-se à fundação de um seminário brasileiro em Roma. É uma iniciativa de grande relevância e merece o apoio decidido do clero, das ordens religiosa e de todos os católicos. A nossa pátria, fastada a um futuro glorioso, merece essa distinção. Pois, se outras nações de muito menor importância internacional mantêm seminários próprios junto ao túmulo de São Pedro, porque então o Brasil não o conseguiria? Não se pode objetar que o seminário brasileiro em Roma venha a prejudicar os interesses e justas aspirações dos nossos seminários diocesanos e provinciais. Não; se cada uma das nossas dioceses, prelazias e prefeituras, atualmente em número de quase oitenta, enviar dois outros seminaristas a Roma, já teremos ali um contingente importante. Para conseguir os recursos não falta à generosidade brasileira boa vontade nem espírito de sacrifício. De mais a mais, o seminário brasileiro em Roma representa a vontade do Sumo Pontífice e importa numa glória nacional.
Apelamos, portanto, a todas as famílias católicas e ao clero arquidiocesano no sentido de atenderem, solicitamente, aos nossos instantes pedidos em favor das vocações eclesiásticas, do nosso seminário provincial e do seminário brasileiro em Roma, e estejam todos convencidos de que realizarão obras eminentemente social, religiosa e patriótica.
E aos adolescentes e jovens da nossa arquidiocese e da vossa pátria um ardente apelo! Vós jovens que alimentais em vossas almas o ideal dá grandeza e de um futuro próspero da nossa terra, alistai-vos nas fileis inelitas da milícia de Nosso Senhor. Os filhos do Rio Grande sempre se têm distinguido pelos seus sentimentos de nobreza e espírito heroico. A história pátria lhes consagra longas páginas de merecidos louvores e a nação tem levantado mais de um monumento à memória dos seus altos feitos. Em todas as carreiras da vida social, o rio-grandense tem marchado altaneiro e conquistado imarcescíveis louros. Porque então deveriam faltar na carreira eclesiástica os nobres filhos do torrão gaúcho para continuar as nossas tradições e impulsionar sempre mais a vida religiosa e a prosperidade moral da nação? É exato, não resta a menor dúvida, que o sacerdócio exige constante e árduos sacrifícios, mais um caráter nobre, movido pelo amor de Deus e pela grandeza da nação, vencerá todas as dificuldades com o auxílio da graça divina. Em nossa pátria temos os mais belos e mais luminosos exemplos. Persuadi-vos de que os melhores esteios da felicidade do povo da ordem pública são os bons sacerdotes e os bispos. Lembrai-vos de que carreira mais bela e mais sublime não há do que a sacerdotal, nimbada pelas luzes da graça e pela benemerência social.
E fazendo abstração de todos os motivos de que acabamos de falar, erguei o vosso olhar ao céu, vossa pátria celeste, onde o Sumo Sacerdote vos reserva uma recompensa de infinito valor. Sim, também a vós se refere, neste caso, a palavra de Jesus Cristo: "Alegrai-vos e exultai, porque insigne será o vosso galardão nos céus" (Mt. 5, 12).
É exato que nem todos os seminaristas perseveram até ao fim dos seus estudos, porque também a eles aplica-se a palavra do Salvador: "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos" (Mt. 22, 14). Com efeito, a maior parte dos que entram no seminário não chegam ao sacerdócio. As causas são múltiplas. A uns falta a saúde, a outros minguam talentos; estes não cooperam com a graça que Deus lhes oferece, aqueles se deixam seduzir por promessas falazes e por ilusões mundanas. Isto acontece apesar da vigilância constante dos bispos e da solicitude da direção dos seminários. Por isso, caríssimos seminaristas, uma vez convencidos da realidade da vossa vocação ao estado sacerdotal, não deveis trepidar. Fechai olhos e ouvidos às seduções enganadoras de amigos falsos e de leituras perversas, que, talvez de contrabando, cheguem às vossas mãos. Sede fortes e inabaláveis nas vossas resoluções e não covardes atirando, no primeiro encontro de dificuldades, armas e bagagens às ortigas. Quando por motivos justos, ponderados perante Deus, e de acordo com os vossos diretores espirituais, vos resolverdes a abraçar outro estado de vida, outra carreira honesta, portai-vos como homens dignos e de caráter nobre, lembrando-vos sempre, agradecidos, dos benefícios que recebestes sob o sagrado teto do seminário. Seria triste e lamentável se vos lançásseis nos braços da impiedade e vos tornásseis inimigos gratuitos do seminário e da Igreja, de seus ministros e de suas doutrinas, como já, infelizmente, tem acontecido. Deus vos preserve de tamanha desgraça. Terminamos aqui nossas considerações e conselhos.
CAPÍTULO XII
Mandamento e conclusão
Renovamos, nesta pastoral, as nossas prescrições publicadas em circulares de 6 de janeiro de 1925 e 19 de fevereiro de 1926, com relação aos donativos e coletas em benefício do nosso seminário provincial em São Leopoldo e a respeito da pregação mensal de mais um ano sobre o sacerdócio e as vocações eclesiásticas.
Outrossim, instituímos o sistema de bolsas ou pecúlios com cujo rendimento se possa manter um aluno no seminário. A importância mínima de cada bolsa deve ser de dez contos de réis. Fica, portanto, cada paróquia desta arquidiocese incumbida de fundar uma bolsa, à qual pode dar um nome à sua escolha ou o da freguesia, por exemplo, bolsa de São Luiz, do Menino Deus, etc. As importâncias poderão ser recolhidas pouco a pouco, com o auxílio das corporações religiosas, de deverão ser depositadas num banco de confiança em cadernetas pertencentes à Mitra arquidiocesana de Porto Alegre, que as administrará. Quando o capital de dez contos estiver completo, serão os respectivos juros aplicados na manutenção de um seminarista, que pode ser indicado pelo vigário cuja paróquia fundou a respectiva bolsa. No relatório anual deverão os reverendos párocos prestar informações sobre a organização e estado desta instituição.
Inicie, pois, a nossa palavra pastoral sua viagem através das paróquias desta arquidiocese, qual hino de gratidão entoado ao Sumo Sacerdote pela instituição do sacerdócio da Igreja Católica. Ecoe nossa palavra nos corações dos sacerdotes, incitando-os a cantarem, com alegria e entusiasmo, cada dia novos louvores ao Senhor: "Cantabo tibi canticum novum"! Ressoe nossa palavra, como celeste melodia, na alma dos jovens dispostos a seguir o caminho do sacerdócio. Seja ouvida nossa humilde palavra nas famílias cristãs e desperte nelas numerosas vocações eclesiásticas. Repercute nossa despretensiosa palavra no seio de todas as corporações religiosas e as convença sempre mias da necessidade absoluta de prestarem seu concurso eficaz e constante a obra sublime da formação do clero rio-grandense.
E Vós, Senhor, que sois o Sumo Sacerdote Eterno da santa Igreja, abençoai nossa palavra, dá-lhe vida e calor vivificante, para que produza flores e opulento frutos. Ouvi, Senhor as preces que milhares e milhares de católicos vos dirigem do amago de sua alma: "Concedei-nos sacerdotes, sacerdotes segundo o vosso Divino Coração"!
Esta nossa carta pastoral, como de costume, será lida, registrada e arquivada.
Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.
Dada e passada sob o sinal e selo das nossas armas, nesta cidade de Porto Alegre, aos 13 de setembro de 1928.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.