
O COMUNISMO RUSSO E A CIVILIZAÇÃO CRISTÃ
DÉCIMA NONA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1930)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
Noções preliminar
Para melhor entendimento do assunto desta carta pastoral, queremos explicar algumas noções acerca do comunismo russo, que procura invadir todo o mundo civilizado. Que significa comunismo? Comunismo é a organização econômica da sociedade futura, em oposição ao sistema vigente do capitalismo. Assim falam os adeptos desse sistema, segundo os quais todos os bens devem pertencer a todos os cidadãos e cada um recebe da massa coletiva segundo suas necessidades. De cada qual segundo suas forças; a cada qual segundo suas necessidades. Essa sentença de Lenin é teoricamente bonita; na prática, porém, impossível.
Que é o partido comunista? É um grupo de homens que pretendem introduzir o comunismo como uma organização econômica. Praticamente, o partido comunista identifica-se com o bolchevismo, ou seja, uma minoria que pela violência, sob o regime da ditadura, quer tornar o comunismo uma realidade.
Sovietismo é a forma de governo em que o poder supremo é exercido pelos sovietes, palavra que significa conselho ou junta de cidadãos. Há sovietes ou conselhos distritais, municipais e regionais. Atualmente, os bolchevistas são os ditadores dos sovietes. Mas o partido comunista não se identifica com os mesmos.
Bolchevismo significa, etimologicamente, maioria, -- bolschinstwo em russo, de bolshce, mais. Menchevismo é o mesmo que minoria e, porém, de mensche, menor. Dali os termos bolchevistas e menchevistas ou bolchevique e menchevique. Em 1902, o congresso socialista russo, realizado em Londres, resolveu por maioria de votos que somente seriam admitidos no partido os elementos revolucionários que eram socialistas democratas, com exclusão dos outros grupos revolucionários. Lenin defendia este projeto de lei contra Plechanow, que sebatia pela proposta de incluir no partido todos os elementos revolucionários, também os burgueses, para subverter a ordem estabelecida. Lenin venceu o seu adversário, ficando Plechanow com a minoria. Desde aquele tempo chamam-se os adeptos de Lenin bolchevistas, e o grupo chefiado por Plechanow menchevistas.
Vê-se, pois, que bolchevismo significa a maioria do partido socialista e não a maioria da população russa. Esta é de 150 milhões de habitantes, enquanto o partido bolchevista terá, atualmente, pouco mais de um milhão e meio de adeptos.
O bolchevismo ou comunismo russo não se contenta com a destruição completa da civilização cristã no seu próprio país, mas intenciona subverter a ordem social estabelecida no seio de todas as outras nações. Na Rússia levanta-se esse inimigo temível, como outrora o gigante Golias, nas fronteiras de Israel. É verdadeiramente diabólico o projeto que pretende realizar. Seus planos parecem produto da fantasia de Lúcifer e seus meios de combate não poderiam ser piores se fossem forjados nas oficinas do inferno.
A cultura multissecular que o cristianismo implantou no meio dos povos é alvo das inventivas bárbaras, dos processos destruidores do malfadado comunismo russo. Para toda parte estende seus tentáculos. Os emissários russos procuram infiltrar o veneno de suas ideias e doutrinas subversivas em todas as classes e camadas sociais dos cinco continentes.
Por esse motivo, os representantes mais genuínos da civilização ocidental e os portadores da cultura cristã levantam enérgicos protestos contra essa tentativa perversa, que, à semelhança de uma avalanche avassaladora, como um novo dilúvio universal, ameaça aniquilar a ordem social universalmente estabelecida. É de modo especial o Sumo Pontífice Pio XI, gloriosamente reinante, que da atalaia do Vaticano protesta contra os hediondos crimes que o bolchevismo tem praticado contra a religião, a vida de homens inocentes e os maiores bens da cultura e da civilização.
Como também entre nós as ideias e a atuação do bolchevismo talvez já constituam um sério perigo para as nações, queremos tratar desse assunto na presenta carta pastoral, comemorando o 22º aniversário da nossa sagração episcopal. Desta sorte, obedecemos à alta orientação do Santo Padre e seguimos nosso costume de versar doutrinas de utilidade pública e de reconhecida atualidade.
CAPÍTULO II
País, povos e religiões da União Soviética
O território ocupado pelas repúblicas soviéticas abrange 21.200.000 km quadrados, ou seja, uma sexta parte da superfície de toda a terra. A imensa extensão do seu território, coberto de vastas regiões de matos, as suas grandes estepes na Ucrânia e na Sibéria Ocidental conferem à história e à cultura desse país um caráter peculiar. Sua riqueza, que excede os limites da imaginação, consiste na pecuniária, agricultura, metais e minérios de quase todas as espécies e ainda não está devidamente explorada.
A união soviética conta cerca de 150 milhões de habitantes, dos quais 12 milhões e 500 mil moram no campo e 25 milhões de 500 mil nas cidades. Destes, cerca de 2 milhões trabalham nas indústrias. A densidade da população agrária é de cerca de 18, 8 no território europeu e de 8,7 no território asiático por km². Essa população colossal de quase 150 milhões de habitantes divide-se em 195 raças e em número quase igual de idiomas.
Para evitar confusão de ideias, principalmente quanto à religião da Rússia, é necessário elucidar os seguintes pontos. No século VIII foi implantado o cristianismo na Rússia por missionários vindos da Constantinopla. Mas, somente depois da conversão da princesa Olga, esposa de Igor I, em 959, e principalmente após a conversão do príncipe Wladomiro, em 1089, intensificaram-se os trabalhos dos missionários. Foram criados vários bispados. Kiev foi a primeira sede episcopal e a metrópole mais antiga. Tempos adiante, tornou-se Moscou a sede do metropolita.
O espírito bizantino e a literatura grega caracterizavam a Igreja Católica na Rússia. Poderosos momentos políticos induziram o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, a efetuar, em 1054, a separação do império bizantino da Igreja Católica, rompendo a união existente entre ambos desde o início do cristianismo. Assim é que os bispos e o clero na Rússia atraíram o povo, a pouco e pouco, para esse cisma lamentável.
Este acontecimento religioso, caracterizado por seu espírito nacionalista, sofreu enorme influência por fatores políticos. Os tártaros, primeiro pagãos e mais tarde maometanos, conquistaram a Rússia e a dominaram desde 1224 a 1480, ano em que o grão príncipe Iwan III libertou o país. Este soberano fundou o domínio russo e foi o primeiro imperante que se deu a si o nome de czar. Morreu com o título de Iwan I, em 1505.
Já em tempo anterior a este, quando em 1453 os turcos conquistaram a cidade de Constantinopla, o czar Iwan separou a igreja russa do patriarcado de Constantinopla e teve a habilidade, como seus sucessores, de transformar a igreja russa ortodoxa sempre mais numa dependência e instrumento do Estado.
Quando o patriarcado de Constantinopla se subtraíra ao governo do Papa, declarando sua independência, intitulou a parte da igreja, que presidia, de ortodoxa, querendo assim afirmar que era a verdadeira igreja de Cristo, o que está em flagrante contradição com a história eclesiástica. Separando-se mais tarde de Constantinopla a religião que a Rússia oficialmente professava, conservou ela o título de "igreja russa ortodoxa".
O czar Iwan IV, o Terrível, maltratava durante o seu governo de 1533 a 1584, a igreja e seus ministros, do modo mais brutal. Em 1589 recebeu o metropolita de Moscou o título de patriarca. Porém, o czar Pedro o Grande, cujo governo se estendeu de 1682 a 1725, aboliu, em 1721, o patriarcado, e começou a governar a sua igreja por meio de um conselho chamado sagrado sínodo, cujos componentes eram sempre nomeados pelo próprio czar.
O cesaropapismo, isto é, a unificação do governo civil ao religioso, tornou-se, deste modo, a forma fundamental da igreja russa, e a dominou até à revolução de 1917.
Apenas em 1905 concedeu o imperador da Rússia, pela mensagem pascoal, às outras crenças religiosas maiores liberdades, como também o direito de passar do credo russo às outras igrejas, embora as leis e formalidades prescritas o dificultassem extraordinariamente.
Vê-se, por isso, que a grande maioria dos russos pertence à igreja ortodoxa.
Antes da revolução de 1917 o número dos sectários montava a um milhão. O número total dos sectários atualmente na Rússia soviética é de 6 milhões, segundo um computo publicado em 1928 pelo jornal "Trud", "O Trabalho", de Moscou. Além disso, vivem na Rússia 9 milhões de chamados velhos crentes e considerados pela igreja principal como apóstatas.
Somente 6 milhões de russos pertencem à Igreja Católica, apostólica, romana. Uma parte muito diminuta da população russa professa, pois, a religião católica. Portanto, os abusos e erros que se tem atribuído à igreja russa em geral não podem ser imputados, de forma alguma, ao clero e bispos católicos.
A catástrofe, na qual a Rússia se acha envolvida e que pulverizou a religião oficial daquela imensa nação, encontra sua última causa no divórcio da igreja russa do governo da Igreja Católica. Pois, ela se havia separado do único fundamento da Igreja estabelecido por Jesus Cristo. Esse fundamento é o Papa, a quem o divino fundador dirigiu a palavra infalível: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela".
A religião ortodoxa é um fragmento da Igreja Católica, um ramo cortado dessa árvore divina, ao qual falta, por isso, a força da resistência e a seiva vivificante do desenvolvimento, dali é que se observa um vivo contraste entre a civilização oriental e a ocidental.
Realmente a Igreja Católica, independentemente de qualquer potentado terreno, é soberana, guarda intacto o tesouro da revelação divina, mas sabe acomodar a pregação de sua doutrina e as leis de sua disciplina às conveniências e necessidades dos tempos. Imutável nos seus princípios e dogmas, em vez de recuar diante da evolução política e social, acompanha o desenvolvimento humano, imprimindo-lhe o caráter cristão, cônscia de sua missão divina de santificar e orientar as gerações de todos os séculos.
CAPÍTULO III
O atraso da cultura russa
O observador de mediana instrução deve reconhecer a diferença entre a cultura oriental e a ocidental, entre Bizâncio e Roma. É o que se verifica na Rússia em consequência de sua separação da Igreja Católica.
Há mais tempo, um representante do intelectualismo russo escreveu: "Apesar de nos chamarmos cristãos, não amadureceram para nós os frutos do cristianismo. Naquele tempo em que o mundo marchava, majestosamente, no caminho traçado pelo seu divino fundador, arrastando após se as gerações, nós, apesar de portadores do nome de Cristo, não dávamos um passo adiante" (J. Tchaadajew).
Adeptos convencidos da igreja russa, como por exemplo o antigo professor de história eclesiástica da Rússia A. Kartoschow, confessaram que sua igreja fora surpreendida de improviso pela catástrofe da revolução e que o pato feito com o bolchevismo no princípio, teve por resultado que os elementos pusilânimes e criminosos de sua religião entregassem a administração eclesiástica aos representantes do ateísmo e do materialismo histórico, bem como à ditadura do partido comunista.
Os panslavistas, que, antigamente, pretendiam submeter todo o mundo à religião russa, vêm-se agora obrigados a reconhecer que o desmoronamento de sua igreja se deve atribuir, de modo especial, à paralisia universal que, desde sempre, entrevava o seu organismo.
As raízes psicológicas dessa evolução e não menos as do movimento bolchevista nasceram da herança bizantina, desdobrando-se no caráter anárquico do povo russo. O autor acima citado, Tchaadajew, diz: "A fraqueza da nossa fé e a imperfeição dos nossos dogmas nos apartaram do movimento geral em que a ideia social do cristianismo se desenvolveu e progrediu".
Na Rússia, disse Kartochow, que conhecia bem a situação do seu país, na Rússia a sociedade que não tinha visão segura do que é o cristianismo e a igreja. De fato, se as últimas causas da decadência dos povos devem ser procuradas no desaparecimento de suas forças morais, é preciso admitir que o caráter moral de um povo decide a sua sorte final. O esfacelamento da igreja russa, sob a pressão do bolchevismo, sistematicamente ateísta e anticristão, e ligado a esses três fatores, aparece como um problema cuja importância não é lícito desprezar, porquanto representa a parte mais importante do bolchevismo.
O czarismo oprimia todas as classes. A coação oficial tinha chegado, no campo, a tal ponto que muitos lavradores preferiam o suicídio a continuarem uma vida cheia de tormentos.
A igreja russa, dócil instrumento nas mãos do governo, desempenhava papel humilhante nas suas funções. A liturgia da missa, da administração dos sacramentos e das bênçãos prescrevia, a cada passo, a glorificação do czar e da sua família.
A reverencia que se tributava ao dominador de todas as Rússias, já era uma verdadeira cesarolatria, a divinização do czar. Desta sorte, grande parte do povo considerava os abusos praticados pelo governo como impostos pela religião, resultando dessa lógica aparente o ódio simultâneo ao clero e aos potentados civis.
Faltava à religião sua força interior, o verdadeiro espírito cristão. O oficialismo sugava-lhe a vitalidade.
A instrução popular achava-se num nível muito baixo. Segundo uma estatística de 1897, apenas um pouco mais de 21 por cento dos habitantes sabiam ler e escrever, inclusive a parte da Polônia incorporada na Rússia.
O luxo e a opulência, não só na alta aristocracia, celebravam repugnantes orgias, mas igualmente nas classes médias e comerciais. A libertinagem andava de mãos dadas com os esbanjamentos.
Ora, facilmente podemos imaginar o rancor, a raiva e os sentimentos de vingança que se apoderavam, em vista desse fato, do coração dos camponeses russos que viviam sob o terror de knut, do cárcere, da força e do desterro.
Embrutecidos pelo descuido da instrução popular, pela restrição dos seus direitos e do exercício da religião, pelo excesso da bebida, pelo exemplo desmoralizador dos grandes e pelos abusos degradantes dos funcionários públicos, predispostos por todas essas circunstancias os camponeses abraçaram o bolchevismo como guia no caminho à felicidade perfeita.
O terreno achava-se preparado na Rússia para o bolchevismo 50 anos antes do seu aparecimento oficial. Pois, não é outra coisa senão o niilismo russo internacionalizado, oriundo, principalmente, do ateísmo e materialismo germânico. Os literatos russos Turgniew e Dostjevski concretizaram em vários dos seus trabalhos a filosofia niilista, que minava já naquela época as camadas superiores da sociedade russa.
O notável Padre Bernardo Duhr, da Companhia de Jesus, declara, por isso, francamente, que a raiz do bolchevismo é o ateísmo, sancionado pela filosofia germânica.
Professores ateístas durante longos anos envenenavam os seus alunos com seus ensinamentos reversos, procurando arrancar-lhes toda noção de Deus. Mas, a moralidade do povo radica na ideia da divindade e nela acha um fundamento seguro. Um povo sem Deus já não constitui mais um povo, porém, uma massa caótica em decomposição moral. Tal era, em traços gerais, a cultura russa, antes da implantação do bolchevismo.
CAPÍTULO IV
O estado czarista e o Estado Soviético
A monarquia absoluta era até 1905 o regime governativo da Rússia. O czar – palavra esta que significa imperador – governava autocraticamente seus vastíssimos domínios e chamava-se a si mesmo o imperante de todas as Rússias. Pela constituição de Outubro de 1905 tornou-se a Rússia uma monarquia constitucional, um império, conservando o direito de hereditariedade de que gozava desde 1797, dando-se a sucessão da linha masculina e no seu desaparecimento da linha feminina, da casa Romanow-Golstein-Gottorp.
Desde 6 de março de 1906 necessitava o czar para a publicação de leis do império da aprovação de duas câmaras iguais em direitos, a duma imperial que constava de 600 deputados eleitos por cinco anos, e o conselho imperial, cujos membros eram 196, sendo a metade nomeada pelo próprio czar e a outra metade eleita por várias corporações por tempo de nove anos.
O supremo poder executivo exercia o czar por meio do senado governativo, do conselho ministerial, da comissão de ministros e do sagrado sínodo. A esse aparelho acrescia o número de 25 secretários de Estado.
No fim da guerra mundial, sob o comando de Kerenski, foram os socialistas os primeiros que se apoderaram, em 1917, do governo e em 1918 lhe sucederam os comunistas. Em 15 de marços de 1917, assinou o czar Nicolau II o decreto de sua abdicação e em 7 de novembro de 1917 teve lugar a subversão bolchevista.
O programa da "Declaração dos direitos do povo produtor explorado" foi confirmado no terceiro congresso panrusso soviético, em 22 de janeiro de 1918. Dos 150 milhões de habitantes da união soviética gozam 10 milhões do direito eleitoral. O número dos comunistas propriamente ditos, segundo a mais recente estatística oficial, ascende a pouco mais de 2 milhões e 500 mil. Portanto, somente dois por cento da população total da união de todas as repúblicas russas pertencem aos comunistas. O motivo desse número relativamente pequeno reside no rigor para inclusão no partido.
Dsherschinsky, um dos corifeus do bolchevismo, criou em 1917, a corporação da polícia administrativa de caráter oficial e político, chamada Tcheka, e depois de sua reforma, G. P. U., a qual atualmente conta 150 mil homens. Esta polícia, com poderes discricionários, procura manter tanto na Rússia como no estrangeiro, por todos os meios, a prepotência do partido.
Um grande número dos 2.500.000 comunistas, que dominam ditatorialmente a população de 150 milhões de russos, são, segundo a sua descendência, de outras raças.
A União soviética compõe-se de sete estados ou grandes repúblicas: A Rússia Central, com sede em Moscou, e muitas outras províncias, a Ucrânia com sede em Moscou, e muitas outras províncias, a Ucrânia com sede em Charkow, a Rússia Branca com sede em Minsk, a Republica Transcaucasica com sede e m Tiflis, a República usbkesica com sede Taschkend, a República turkmenica com sede em Aschabad, e a República de Tadshikistan.
O Estado soviético atual é, segundo a literatura bolchevista, o poder organizado das classes produtoras. Abrange um determinado território com o povo nele residente e sustenta a conservação do seu domínio para suprimir a burguesia. A ditadura revolucionária do proletariado não quer uma situação sem leis, mas uma organização obrigatória e rigorosamente disciplinada das massas. Essa ditadura compõe-se de jornaleiros, produtores e agrários, em oposição aos que pertencem às artes liberais, aos possuidores de capitais e proprietários de bens de raiz. A ditadura bolchevista é conscientemente antidemocrática e no lugar da soberania popular, segundo a teoria de Rousseau, põe a soberania absoluta das classes proletárias. Quem não é comunista é sem partido nem pode fundar outro.
CAPÍTULO V
A concepção bolchevista do mundo
Qual é a concepção que o bolchevismo tem acerca da criação e do governo do mundo? As leis fundamentais do bolchevismo prescrevem à união das repúblicas soviéticas uma nova concepção do mundo, fundada nas teorias materialistas de Karl Marx. O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literário e artístico apoia-se no desenvolvimento econômico, ou por outra, a necessidade econômica, infalivelmente, impõe-se em última instancia. O materialismo do sistema soviético ocupa-se, portanto, somente da causa próxima de todos os fenômenos e das relações causais entre os objetos e os acontecimentos.
Sobre a matéria com seus movimentos, sobre o desenvolvimento técnico das forças produtoras funda-se, segundo a visão materialista, toda a espiritualidade, a ciência, a arte, a religião e a moral, à semelhança de uma grande superestrutura. Da simples matéria surgem e transformam-se os diversos modos de expressão dessa superestrutura, diferenciando-se em material para a prática humana, tudo em ação recíproca.
Esse materialismo dialético, portanto, está em oposição flagrante à concepção mundial do idealismo, que conhece uma tendência inata à natureza em ordem a um fim. Enquanto o idealismo, pelo reconhecimento de um destino e pela admissão de uma finalidade no desenvolvimento da natureza, como também da vida humana, formula conceitos espirituais que conduzem o homem ao supremo e último fim, que é Deus, nega o bolchevismo na concepção puramente materialista toda e qualquer substancia espiritual independente da matéria. Rejeita, portanto, a espiritualidade e imortalidade da alma, a liberdade da vontade. Repele a existência de Deus, o primeiro e supremo princípio da criação, conservação e governo do mundo, sem atender às provas que o universo, a natureza humana e a história dos povos lhe oferecem.
A concepção bolchevista do mundo quer, consequentemente, ser uma nova religião, uma mera religião daquém, isto é, da vida presente. Só reconhece uma salvação nesta terra, segundo seu pensamento materialista e coletivista em extremo: a criação de um paraíso terrestre para o proletariado. O homem é o criador de Deus e Deus não é o criador do homem.
Esse ideal bolchevista reclama um domínio absoluto sobre os bens econômicos, éticos, culturais e religiosos. Os interesses do homem coletivo da atualidade e puramente materialistas constituem a única norma para a questão econômica, a manutenção da vida, a apreciação da criança, da mulher, da família, do matrimonio, e de todas as questões intimamente ligadas à conveniência e à moral.
O sistema bolchevista não reconhece ao lado ou acima dessas ideias uma instancia superior, nenhuma lei escrita, nenhuma lei consuetudinária, nenhuma autoridade eclesiástica, nenhuma lei natural, nenhuma autoridade eclesiástica, nenhuma lei natural, nenhuma lei divina, nenhuma lei positiva.
Segundo essa teoria, falsa e iníqua, exige a ética bolchevista que, sem atender à verdade ou à falsidade, tudo se subordine aos fins das classes proletárias. Este asserto é provado pela palavra de Lenin, citada por Réné-Fulop-Miller: "Segundo nossa opinião é a ética inteiramente subordinada aos interesses da luta das classes. Moral é tudo o que é útil para aniquilar a antiga sociedade exploradora e unir os proletários entre si.
Nossa moralidade, continua ele, consiste, portanto, apenas na disciplina coesa e na luta consciência contra os exploradores. Não cremos em princípios eternos da moral e havemos de desmascaras essa impostura. Moral é o que serve ao partido comunista".
"Nossa tarefa não consiste em reformar, senão em destruir toda a espécie de moral e de religião".
O discípulo de Lenin, Preobraschenskei, afirma: "Na luta de uma classe exploradora contra um inimigo são a mentira e a fraude muitas vezes armas importantes. Todo o trabalho oculto das organizações revolucionárias consiste em ludibriar o poder público. Para a classe operária, rodeada por todos os lados de nações inimigas e capitalistas, pode ser a mentira na política exterior muito necessária e útil. Por isso, a classe operária e o partido comunista reconhecem o direito à mentira".
CAPÍTULO VI
A finalidade suprema do bolchevismo
Como as outras classes sociais, conforme o pensamento bolchevista, representam a concepção cristã do mundo, oposta à materialista e que domina como alterosa fortaleza a consciência humana, dirigem os comunistas seus perversos ataques contra a chamada burguesia, formada pela sociedade atual, com exceção dos proletários e camponeses. Eles querem que a revolução social tenha seu centro na Rússia ateísta, donde ela deve partir para suplantar a religião na Europa e destruí-la em todo o mundo. E diz o ABC comunista: "A nossa tarefa não consiste em reformar, senão em destruir toda espécie de moral e de religião".
O fim supremo que o bolchevismo intenta é, pois, a revolução universal. Em 20 de janeiro de 1930, o diário oficial de Moscou, "Prawda", A "Verdade", diz que não se devem economizar cartuchos, que a nova classe alcançará o poder e que nenhum Severing, nenhum Mussolini, nenhum Zoergiebel, nenhum Schober, poderá impedir o formidável ataque do proletariado. E o jornal "Turd", "O Trabalho", em 18 de janeiro do mesmo ano, escreveu: "Os comunistas e a comissão internacional vermelha das classes produtoras hão de reunir nessa luta os operários, os desempregados e os homens sem trabalho, levando-os em marcha forçada contra a ordem existente que é a causa da pobreza, da fome e da morte de milhões de operários. Essa luta violenta das massas proletárias de todo o mundo tem por objetivo o aniquilamento do capitalismo por meio da revolução".
Lenin, cujo nome propriamente é Wladimir Iljitsch Uljanoff, nascido em 23 de abril de 1870 e morto a 22 de janeiro de 1924, diz satanicamente: "A frente única dessa verdadeira luta revolucionária em favor da criação de um paraíso na terra é nos mais importante do que o parecer unanime dos proletários acerca do paraíso no céu.
Havemos de proclamar sempre a concepção científica do mundo e a guerra contra quaisquer cristãos é para nós uma lei inabalável. Nós dizemos que nossa moral se subordinada aos interesses da luta das classes do proletariado. Uma moral, derivada de princípios oriundos fora da sociedade humana, não existe para nós. O comunista faz consistir toda a moral na forte solidariedade de disciplina e na luta consciente das massas contra os exploradores. Nós não cremos numa morada eterna. Tal é também o fundamento da educação, da cultura e do ensino do bolchevismo. Eis, igualmente, uma resposta à pergunta como se deve aprender o comunismo".
Bukarin, o filósofo popular do bolchevismo, nascido em 1882, declara: "Todas as considerações idealistas conduzem em última razão a uma espécie de ideia de Deus e são, por isso, aos olhos dos marxistas um verdadeiro contrassenso".
Realmente, a finalidade perversa do bolchevismo exige por base uma moral sem Deus, sem justiça, sem respeito à inviolabilidade dos bens alheios.
Para conseguir os seus fins o bolchevismo dirige suas invectivas à propriedade particular, à família, à pátria e a Deus, porque considera todos esses fatores como contrários à realização dos seus nefandos projetos.
CAPÍTULO VII
A constituição do Estado moderno
A ordem social de todo o Ocidente é produto da civilização cristã, embora a forma de governo possa mudar de acordo com a evolução dos tempos. O estado político que é a sociedade civil constituída em corpo de nação, regida por leis próprias e com direito de soberania, sempre deve alicerçar-se nos mesmos fundamentos. A ideologia cristã do estado nasce dos princípios indestrutíveis do direito natural. Colocando-se o edifício do estado sobre outro fundamento, perde sua estabilidade e não alcança o seu fim. Por isso, também o estado moderno ou o estado nos tempos atuais tem de assentar sobre a mesma base. A ética natural e cristã ensina e prova, acerca do Estado, em resumo, as seguintes teses que aliás já em outras pastorais tivemos oportunidade de expor e elucidar.
A natureza humana tem necessidades inatas e inclinações racionais que induzem os homens a se unirem entre si, constituindo de modo natural uma sociedade, isto é, em consequência das propriedades inerentes à sua própria natureza. De fato, a defesa contra os agentes naturais superiores às forças de cada indivíduo, a manutenção dos direitos próprios e a sua coordenação com os direitos dos outros, o auxílio mútuo em favor da cultura necessária do espírito e da devida sustentação do corpo, este conjunto de necessidades impele o homem a procurar a união com seus semelhantes para nela achar a necessária satisfação. Notamos ali a benevolência que induz os homens instintivamente a comunicar aos outros a perfeição por nós alcançada e a estreitar vínculos indissolúveis como os da própria natureza.
Todas essas precisões e as inclinações apontadas não podem ser devidamente satisfeitas sem que muitos homens assim como muitas famílias se unam entre si e sem que uma autoridade suprema tenha cuidado dessa união para mantê-la, desenvolvê-la e defende-la. Dali se deduz logicamente que o Estado é fundado na própria natureza humana com a exigência necessária da autoridade a qual, por isso, tira sua origem do mesmo Autor da natureza, isto é, imediatamente de Deus.
A maior prosperidade de todos, sem distinção de classes ou categorias, afim de que todos possam viver e viver comodamente para procurar os bens do corpo e da alma, sejam eles internos ou externos, e, por isso, consegui-los razoavelmente, é o fim do Estado. Essa prosperidade, se bem que temporal, não é, entretanto, totalmente material. Pois, deve alcançar-se no tempo também na ordem do espírito e não somente não é contrária, mas é subordinada ao fim supremo do homem.
Leão XIII na sua monumental encíclica sobre a constituição cristã do Estado expõe magistralmente esses princípios. É natural ao homem viver em sociedade porque, não podendo no isolamento nem granjear o que é necessário e útil à vida nem adquirir a perfeição do coração, a providencia o criou para se unir aos semelhantes numa sociedade tão doméstica como civil, única capaz de nos dar o que é preciso para a perfeição da existência. Mas, como nenhuma sociedade pode existir sem um chefe supremo que imprima cada qual de per si um impulso uniforme e eficaz para um fim comum, segue-se dali que é necessário aos homens constituírem-se em sociedade com uma autoridade para os reger, autoridade que assim, como a própria sociedade, proceda da natureza e tenha conseguintemente, a Deus por autor.
Deduz-se daqui que o poder público por si mesmo só pode vir de Deus. Só Deus efetivamente é o verdadeiro e soberano senhor das coisas: todas, quaisquer que elas sejam, devem necessariamente estar sujeitas e obedecer-lhes, de forma que quem tem o direito de governar só o recebe de Deus, chefe supremo de todos. "Não há potestade que não venha de Deus".
O poder público não está necessariamente ligado a determinada forma política, pode perfeitamente adaptar-se à democracia como à monarquia, contanto que essa forma política seja realmente adequada e útil ao bem-comum. Qualquer, porém, que seja a forma de governo, todos os chefes de Estado devem fixar suas vistas sobre Deus e toma-lo por modelo e regra.
O exercício do poder público deve ser justo. Pois, o poder público deve exercer-se para a utilidade dos cidadãos, para o bem geral; pois, os depositários da autoridade dela somente se acham investidos para a defesa e promoção da prosperidade pública. Por isso, está claro que a autoridade civil não deve servir sob qualquer pretexto para vantagem de um só ou de um grupo, visto que foi constituída para o bem comum. Se os depositários do poder se deixarem arrastar para o domínio da injustiça ou da tirania, se abusarem do poder por orgulho ou egoísmo, se não providenciarem pelo bem geral do povo, tornam-se eles criminosos perante a sociedade e perante Deus e terão o castigo correspondente aos seus delitos, com certeza na sua vida futura, e muitas vezes já são punidos neste mundo pela mão do Onipotente. "Os poderosos serão poderosamente atormentados".
Mas, se de um lado a supremacia dos governantes se ampara na autoridade divina e se subordina à justiça inexorável de Deus, por outro lado a sujeição dos súditos torna-se necessária e a subversão da ordem estabelecida constitui um crime de lesasociedade.
De fato, se os súditos se convencerem que a autoridade dos imperantes provém de Deus, sentir-se-ão obrigados pela justiça a receberem docilmente as ordens dos superiores e a prestar-lhes obediência e fidelidade, porque não é mais permitido desprezar o poder legítimo, seja qual for a pessoa em que ele reside, do que resistir à vontade divina à qual os que resistem correm voluntariamente para a sua perdição. Assim, pois, negar obediência e revolucionar a sociedade por meio da sedição, é crime de lesa-majestade não só humana, mas também divina.
É essa a doutrina da filosofia cristã e da religião católica com referência à constituição dos Estados. É manifesto que a sociedade política baseada nestes princípios tem firmeza, estabilidade e duração.
CAPÍTULO VIII
Ideia soviética do Estado moderno
Os bolchevistas não aceitam as conclusões evidentes à luz natural da razão acerca da constituição do Estado. Acham-se embebidos dos princípios marxistas. É verdade que não negam a sociabilidade natural do homem nem a existência de direitos individuais, verdadeiros ou fictícios, nem o direito e o dever da autoridade de procurar o bem-estar de todos os súditos, em proporção igual.
Negam, porém, que esse direito provenha de Deus e que o dever seja imposto por ele. Asseveram ainda, como princípio certo, que o Estado moderno nas presentes condições não pode absolutamente ser a fonte da prosperidade pública. Afirmam eles que nos últimos decênios o progresso da técnica e das ciências positivas, assim como os princípios universalmente aplicados do liberalismo, a indústria e as grandes empresas tomaram um imenso incremento, reduzindo os operários e os empregados e péssimas condições. Veem-se eles, por isso, obrigados a deixar a arte própria para sujeitar-se ao trabalho assalariado, oferecido por poucos, com grave prejuízo de rendimento e diminuição da própria independência.
E não somente esses, como também os pequenos industrialistas e negociantes tem a mesma sorte. Pois, não podem sustentar a concorrência com os grandes industriais e os comerciantes favorecidos pelos meios aperfeiçoados da produção moderna. A estes os negócios filiais, a especulação dos bancos, sujeitam todo o movimento, de maneira que só há poucos riquíssimos compradores, principalmente quando constituem entre si sindicatos e formam uma só empresa coletiva.
Um efeito deplorável desse monopólio da indústria e do comércio consiste em que a mesma autoridade política não goza mais de liberdades nem dispõe dos meios necessários para procurar eficazmente a prosperidade da nação, visto que nas questões financeiras e econômicas depende de um grupo de ricos capitalistas que dirigem toda a vida pública.
É essa, em uma palavra, a ditadura do capitalismo. Ela não conhece outra lei que a vantagem e o benefício próprio em prejuízo do povo. Dirige a autoridade política suprema do Estado, de que se serve como simples meio para os seus fins. Obtém, principalmente, a legalização desse sistema e vem, assim, a determinar, a seu capricho e gosto, a vida social e econômica dos súditos, espoliando-os dos seus direitos e privilégios.
A triste experiência, dizem os bolchevistas, demonstra, verdadeiramente, que a ditadura do capitalismo é soberana nos Estados modernos e ainda que neles existam partidos com programa definido, além de associações cooperativas, sindicatos operários e outras instituições, a ditadura, não obstante, continua, desenfreadamente, o seu predomínio.
Com efeito, por meio do dinheiro são organizadas e dirigidas as eleições políticas que tem por resultado a constituição de câmaras sujeitas ao capitalismo e prontas a legislar a seu talento, transformando em leis todos os princípios de sua ditadura.
Por isso, segundo a ideologia bolchevista, deve-se abolir o Estado moderno, privado como está do elemento constitutivo essencial que é independência e inclinado a prestar-se ao abuso que do seu aparelho faz o capitalismo em detrimento dos interesses do povo.
Não contente com sua obra de subversão, o partido comunista russo inicia o levantamento de um novo edifício igual ao primeiro, com a diferença de ter-lhe trocado o teto pelo fundamento, inaugurando a ditadura do proletariado em substituição à ditadura do capitalismo.
A ideologia bolchevista consiste essencialmente em introduzir e consolidar o predomínio da classe proletária. Assim é que o congresso dos sovietes, a comissão central executiva e o secretariado, que são os três supremos órgãos políticos da república soviética, não devem gozar de plena supremacia, mas são guiados pela ditadura do proletariado, constituída de operários, camponeses e soldados. Assim, como outrora as categorias elevadas oprimiam, injustamente, a nação, é hoje chegada a vez da classe operária. Se antes eram os poucos capitalistas que regulavam toda a vida do estado, são agora inúmeros proletários que impõem à autoridade os ditames e as práticas de um novo regime.
E tal a razão do primeiro decreto que nacionalizava e socializava os bens dos particulares, os latifúndios, a indústria, o comércio, sem nenhuma compensação dos donos. Nesta obra de renovação da ditadura do proletariado, como a sua adversária não observa nenhuma lei; seu único princípio é a luta contra o capitalismo para tornar impossível a exploração de um homem por parte do outro. Para tal fim, promove uma guerra de fogo e de sangue, se o adversário resiste com as armas, ou uma luta econômica, se ele cede, não renunciando à violência, afim de obter uma única classe social.
sistir es prove que ele ilmente as ordens dos superiores e a prestar-lhes obediencia e tde forma que quem ali Este escopo depende em grande parte da existência de uma estrutura de estado sujeita à ditadura dos proletários. A própria teoria do estado soviético se contradiz. Pois, quer acabar com o capitalismo burguês por ser insuportável, e promover a supremacia dos operários. Mas, deverão participar dessa ditadura toda a massa proletária ou só alguns?
Já Lenin tinha posto como princípio que a massa inteira, ainda que bem organizada, não podia efetuar a ditadura do proletariado. Segundo seu pensamento, é necessário escolher dentre a multidão os elementos capazes, isto é, os organizados no partido bolchevista, que por muitos anos já demonstraram serem aptos para o desempenho dessa missão.
Vê-se, portanto, e compreende-se perfeitamente que o partido comunista representa apenas uma mínima parte do proletariado russo, ainda que todos os anos, servindo-se, sobretudo, dos sindicatos dos operários industrialistas, procure engrossar suas fileiras.
O aumento gradual, necessário para a vida do organismo bolchevista, é procurado mui habilmente pela teoria do próprio Lenin, segundo os princípios em que se inspiram as congregações religiosas da Igreja Católica. Por isso, os próceres soviéticos procuram com diligência as vocações, formando-as para os seus fins, preparando sócios fiéis e ativos, ligados ao poder central, com perfeita obediência e devotados ao sacrifício.
Efetivamente, o partido comunista russo representa um escol, uma seita e uma ordem. Um escol, porque a escolha dos candidatos deve ser feita, meticulosamente, entre os mais ativos e resolutos, entre aqueles que se distinguem pelas suas boas ou más qualidades diretivas. Uma seita, em vista do fanatismo e obcecação com que pretende realizar o seu intento. Uma ordem, com relação à obediência partidária, ao desprendimento e à castidade no sentido de evitar que a luxúria demasiada desacredite o partido diante do povo.
Não são votos formais que os candidatos emitem; contudo, praticamente, estão obrigados a guarda-los.
O mencionado três atributos, de escol, seita e ordem, deve o partido bolchevista possuir, para que possa, como minoria da população russa, exercer as funções tirânicas do seu predomínio.
De propósito conserva-se reduzido o número dos partidários e, sistematicamente, guarda-se o caráter de partido proletário. Os que nele pretendem incorporar-se são sujeitos a um período de provação ou de aprendizagem, cuja duração varia segundo a condição social dos candidatos.
Esse tirocínio é de seis meses para os operários e soldados vermelhos, de um ano para os camponeses e de dois anos para todos os outros.
Além disso, já a simples apresentação de um pretendente exige padrinhos sujeitos à mesma diferenciação. O operário industrial deve ser apresentado por dois comunistas que já durante um ano façam parte do partido; os outros proletários, os trabalhadores do campo e os soldados vermelhos, por três comunistas que há dois anos pertençam ao partido; os funcionários e os intelectuais, por cinco comunistas com cinco anos de serviço partidário.
Estreita é a porta da entrada e bem larga a da saída. Esta abre-se, periodicamente, a todos os elementos, julgados inúteis, egoístas e prejudiciais, por um processo violento de eliminação.
Essa organização rija e coesa mantém a força do partido, enquanto a pressão manométrica não se tornar intolerável e não produzir uma explosão. Isto tanto é verdade, quanto é certo que ainda há pouco se manifestaram, no seio do partido, facções descontentes e rebeldes.
Além do mais, torna-se hoje sempre mais difícil a educação de uma juventude desenfreada para um ideal que pela mudança de circunstancias perdeu muito de sua primeira eficácia e o entusiasmo de sua causa.
A Rússia dos presídios, das matanças sem julgamento e da fome é pior do que o império russo nos seus processos iníquos e deploráveis, porque é juridicamente o estado policial da delação, da espionagem e do terrorismo. Economicamente é o estado bolchevista o retrocesso à tirania feudal. O estado bolchevista é o pior dos despotismos.
CAPÍTULO IX
A ditadura bolchevista
A suprema instancia do partido comunista é teoricamente a assembleia plenária do comitê central, ao qual também está subordinado o governo soviético. Como esta assembleia plenária relativamente poucas vezes é convocada, elege ela dentre dos seus membros a comissão central executiva. Dessa comissão central executiva destaca-se um grupo mais limitado, chamado secretariado político, ao qual estão entregues todos os negócios e que tem a direção suprema.
Todo o poder concentra-se na vontade do secretário geral deste gabinete político. É ele o homem em cujas mãos se reúnem todos os fios da direção do partido. Esta instancia suprema do partido comunista russo tem sua representação na IIIª Internacional e, como seção do único estado comunista do mundo, ocupa uma posição dominante na sua direção.
Pois, tanto o governo soviético, como a IIIª Internacional, é dirigido pelos próceres do partido comunista, que são membros do secretariado político. Stalin e seus companheiros são membros da IIIª Internacional. Por isso, o partido vermelho russo tem tudo na mão.
Por isso, apesar de ser nomeado o secretariado político pela comissão central executiva e esta sair da assembleia plenária, acontece de que fato a direção política suprema reside no primeiro. A posição do secretário geral é privilegiada e na realidade é o único que goza, plenamente, dos direitos proclamados pelo bolchevismo. O poder do secretário geral cresce pelo fato de transitarem todas as informações pelo seu gabinete, podendo-as aproveitar conforme bem lhe parecer. De outro lado, está às suas ordens a política administrativa G. P. U. que dispõe de 150 mil homens. Chamava-se este aparelho policial antigamente Tcheka e não é outra coisa senão a polícia do estado soviético e dispõe de artilharia, tanques, aviões e dos mais modernos recursos bélicos, como ainda de milhões de agentes secretos.
Sobre esta base levanta-se o poder despótico do secretário geral do gabinete político. Quanto ao aparelho administrativo do estado soviético, pode-se emitir o seguinte juízo: Enquanto Lemine queria destruir a burocracia prepotente, tornou-se ela, apesar da existência decenal do novo regime, muito mais ampla e poderosa do que no templo dos sares. De fato, é o contrário do que o Lenine intentava, quando dizia que a administração pública devia ser simplificada, de maneira que uma cozinheira pudesse governar o estado.
Por isso, declarou Trotsky, azedado, o aparelho desenvolvido e privilegiado dos funcionários públicos devora uma parte notável do aumento das rendas provenientes da economia nacional.
Stalin é, atualmente, o secretário geral e no décimo sexto congresso do seu partido, realizado no último mês de julho, conseguiu um novo triunfo, consolidando sua posição e fortalecendo o poder nas suas mãos. Os congressos desse gênero, segundo as leis, deveriam realizar-se anualmente, mas Stalin soube protelar o último, em vista da posição difícil em que se achava.
As extraordinárias medidas de precaução, adotadas no congresso, revelam o medo que lhe inspiravam os perigos aos quais estava exposta a sua vida.
Uma correspondência de Moscou, datada de julho findo, para uma revista europeia, declara que nenhum czar, nem Lenin, quando queriam falar aos seus eleitores, precisavam empregar meios de segurança pessoal tão eficientes e diacrônicos como Stalin, que, entretanto, é considerado o condutor de amigos, de partidários desinteressados e protetor do seu povo.
Nessa grande reunião partidária, Stalin, num discurso de sete horas, não somente apresentou um relatório sobre a ação política anterior da comissão central do partido, mas quis também justificar a linha diretriz de sua conduta e, bem assim, provar a retidão de suas intenções e o perfeito acerto dos seus empreendimentos.
No intuito de convencer o auditório de tudo quanto lhe dizia, discorreu largamente sobre a situação política dos estados soviéticos, seu desenvolvimento econômico e as crises, sobre os trabalhos da industrialização e coletivização realizados sob domínio bolchevista e sobre os demais assuntos que se relacionavam com a sua pretensão, para demonstrar a infalibilidade absoluta do seu modo de agir e da sua diretriz geral.
O aparecimento de Stalin na tribuna e a sua exposição foram freneticamente aplaudidos pelos seus adeptos. Conseguiu também que vários dos seus inimigos, como Rykow, Tomski e Uklanoff se humilhassem diante dele e lhe protestassem, covardemente, reverencia e submissão.
A posição oficial de Stalin, depois desse último congresso partidário, parece exteriormente satisfatória. O partido caracterizou-se como instrumento dócil nas mãos do secretário geral, que dele dispõe despoticamente, segundo a sua soberana vontade nos manejos e processos políticos. Nenhum outro congresso do partido jamais tornara a posição do ditador soviético tão segura e inabalável como este último. Contudo, esse fato não poderá mudar a triste condição de vida para o futuro, e agravará, sem dúvida, ainda mais, a sorte da religião.
Stalin atira areia aos olhos dos seus adeptos, quando brilha com as cifras do seu plano de industrialização e coletivização. Claramente aparecem, entretanto, os cuidados de um futuro próximo em consequência da determinação da comissão central, mandando muitos milhares de proletários, trabalhadores de fábricas, para as aldeias, afim de prestarem auxílio aos camponeses na colheita de cereais. Essa resolução revela os perigos que ameaçam o regime bolchevista.
O trovejar espetaculoso desse décimo sexto congresso ecoa somente pelos bastidores do teatro bolchevista e talvez finja, no palco do mundo, novas cenas ameaçadoras da ordem social. Mas, a voz dos trovões diminui e cessa em face das apreensões resultantes das necessidades quotidianas e dos perigos no seio da própria organização soviética.
CAPÍTULO X
Defesa da ditadura bolchevista
Para se conservar no poder, necessita a ditadura bolchevista de meios adequados. No intuito de conseguir esse fim, ensina o regime o uso das armas ao escol do operariado e da mocidade, em vastas proporções. Em todos os estabelecimentos de ensino superior, nas associações operárias e até em sociedades de mulheres, encontram-se os recursos para aprender o manejo das armas.
Nos dias solenes do comunismo, por exemplo, no dia primeiro de Maio, apresentam-se nas festas as divisões proletárias munidas de armamento, formando nas fileiras também mulheres, umas armadas e outras com os emblemas da assistência voluntária aos enfermos.
Entre os meios de defesa da ditadura soviética ocupa o exército vermelho lugar de destaque. São excluídos dessa milícia os descendentes das antigas classes dirigentes. Considera-se esse exército, organizado por Trotsky, um poderoso instrumento de educação e propaganda no sentido do regime bolchevista.
Os conscritos, que na maior parte não procedem da cidade, mas sim das aldeias, são tratados com magnificência. Recebem alimentação escolhida, roupa excelente e equitação esplendida. Podem frequentar clubes admiravelmente organizados. Recebem uma instrução regular e intensiva de maneira que, no fim do serviço militar, possuem um exato conhecimento da polícia soviética e das suas instituições de que se tornam dedicados propagandistas na volta às suas casas.
Simultaneamente, o governo procura por essa força armada, na maioria de origem rural, em estreito contato com os operários das industrias. Para esse fim, determinadas fábricas servem de madrinhas às diferentes divisões do exército. Os soldados ficam, desta sorte, habilitados para passar o tempo livre em companhia dos operários nos lugares de diversões. Mais tarde, continuam a manter-se estas relações recíprocas entre os camponeses e o operariado. Segundo informações de procedência russa, a marinha e o exército da Rússia atual montam a 600 mil homens.
A outra força em que se apoia a ditadura soviética é, como já vimos, a política administrativa chamada Tcheka e depois de sua reforma G. P. U. Tcheka significa comissão extraordinária e G. P. U. administração oficial da união soviética.
A tcheka é um aparelho despótico, independente, só sujeito à lei da revolução. Dispõe de forças armadas próprias, com serviço policial secreto e terrível sistema de espionagem. Tem atribuições ilimitadas para aprisionar, encarcerar, julgar administrativamente e punir com prisão, e aplicar a pena de deportação e fuzilamento.
No tempo do czarismo, existia na Rússia uma instituição semelhante. A tcheka é uma imitação, um terrível legado, uma lei sem lei, um direito sem direito e que só reconhece as máximas da razão de estado, outrora a razão de estado do absolutismo e hoje a razão de estado da revolução. É a corte injusta da justiça comunista, o tribunal ordinário em todas as questões políticas, econômicas e sociais. A. G. P. U., apesar de não ter teoricamente os mesmos poderes da tcheka, na prática pouco dela se distingue e difere.
Todos ouvem, apavorador, pronunciar estas três letras e possuídos de terror passam os moradores de Moscou diante da gigantesca fachada do quartel central dessa polícia odienta. O edifício, cujas amplas janelas são iluminadas de noite, avista-se de longe, com espanto da população. Até mesmo homens do regime vigente pronunciam o nome de tcheka ou as três letras G. P. U. com medo, pois sabem que aquela organização policial é onipotente e ilimitadas são as suas atribuições, podendo ingerir-se na administração imediata e nos negócios da política do estado.
Stalin apoia-se nessa poderosa instituição para assegurar seu despotismo e a tirania do seu governo.
Os ditadores bolchevistas dispõem ainda de outro recurso para garantir a estabilidade e coesão do seu partido. É tschistka, ou a depuração do partido, a visita ou exame periódico a todos os departamentos e instituições da união soviética.
Quem ouve essa palavra temível, empalidece. Quem não merece a mais completa confiança da comissão central, é depurado, expulso do partido e privado do emprego que exerce. E não é somente o partido que é sujeito a esse sistema de depuração para eliminar elementos que não inspirem confiança pelo seu comportamento, pelas suas ideias e palavras, mas também o magistério e professorado, o funcionalismo em todos os ramos de administração são submetidos a esses processos de limpeza e correição.
É a espada de Damocles suspensa sobre a cabeça de todos os membros do partido bolchevista. Até julho de 1929 foram expulsos do partido 53 mil indivíduos. Em compensação, porém, apresentou-se um número maior de candidatos. A depuração geral ou correição condena milhares de homens à morte de fome e fortalece o poder de Stalin, que é a coisa principal, na sua opinião.
Com essas armas defende-se o bolchevismo.
CAPÍTULO XI
O Kremlin, sede do governo bolchevista
A bandeira vermelha tremula lúgubre sobre o Kremlin, anunciando a todo o mundo que a revolução bolchevista continua a sua nefasta obra de opressão. O Kremlin é o bairro central da cidade de Moscou, de configuração quase triangular. Antigamente era a residência dos czares.
É uma praça fortificada, onde os imperantes moscovitas construíram seus castelos e ostentavam sua grandeza e magnificência. Ali levantam-se templos admiráveis, em que eles receberam o batismo, foram coroados e dormem o último sono.
O Kremlin encerra no seu recinto catedrais esplendidas, como a da Assunção, erigida no templo de Iwan III pelo florentino Fioraventi. A catedral da Anunciação, do começo do século XIV. A Igreja do arcanjo São Miguel, encimada de cúpulas douradas e debaixo das quais se acham os túmulos da maior parte dos antigos soberanos russos.
Dentro dos muros do Kremlin levantam-se os palácios principescos, onde residiam os imperantes e recebiam os embaixadores. Ali, reuniam-se os estudos gerais moscovitas e os grandes do império prestavam homenagens aos autocratas russos.
No mesmo Kremlin instalou, em 1813, Napoleão I seu quartel general, na guerra memorável contra a Rússia. Uma fila de canhões lembra ainda a partida apressada do imperador francês. Nesta ocasião, um formidável incêndio devorou quatro quintas partes da cidade de Moscou, ficando, porém, o Kremlin poupado pela voracidade das chamas.
O Kremlin não se distingue, atualmente, no seu exterior, dos tempos czaristas. Seus edifícios principais, porém, foram transformados em grandes museus. Entre eles o antigo palácio imperial parece, como outrora, exercer seus encantos misteriosos sobre o povo. Hoje, o Kremlin é a sede central do governo das repúblicas soviéticas, que estendem seu poder sobre um vastíssimo país de 150 milhões de habitantes.
Naquele quarteirão residem as autoridades supremas da união dos sovietes. O Kremlin exerce seu domínio sobre Moscou e o vasto território russo; é o símbolo da força do bolchevismo. Nas suas praças realizam-se as manifestações populares, as paradas no exército vermelho, as reuniões do proletariado da capital. No Kremlin o povo tributa todas as demonstrações de apreço, todas as honras a detentor supremo do poder soviético: só a ele obedecem as massas populares, só diante dele se abate a insurreição.
Os chefes do bolchevismo conhecem, perfeitamente, a mentalidade do povo russo. Quando resolveram transferir a sede do governo geral para o Kremlin, conservaram as antigas tradições, no intuito de aumentar e fortalecer o seu próprio prestígio. Mas, obedecendo a prudentes ponderações e acertados cálculos, não ocuparam os aposentos luxuosos, instalando-se, ao invés, em compartimentos onde predomina a simplicidade.
A bandeira vermelha flutua sobre os muros do Kremlin, proclamando continuamente a vitória da revolução.
CAPÍTULO XII
Os próceres do bolchevismo
Vejamos os laços biográficos de alguns próceres bolchevistas. Lenin foi o primeiro ditador do regime soviético. Seu nome verdadeiro era Wladimir Iljustch Uljanoff. Russo legítimo, nasceu em 23 de abril de 1870, sendo filho de um professor de ginásio.
No princípio deste século, tomou o nome de Lenin. No ano de 1886 o seu irmão mais velho foi condenado à morte em consequência de um projetado atentado contra Alexandre III, czar de Rússia. Essa sentença deu um impulso definitivo ao jovem Wladimir, que naquele tempo cursava a faculdade de ciências jurídicas na universidade de Kasan.
Vigiado pela polícia, foi, finalmente, em janeiro de 1897, desterrado por três anos para as fronteiras da Mongólia. Terminado o castigo, permitiram-lhe deixar a Rússia; foi morar na Suíça, em Paris e, durante o movimento revolucionário de 1905, voltou, ocultamente, para a sua terra natal.
Mais tarde, novamente desterrado, tornou no princípio da revolução de 1917 a Petrogrado. Aqui foi encarregado de trabalhar na vanguarda dos bolchevistas contra os partidos moderados, dirigidos por Kerenski.
Em abril de 1917, numa conferência dos partidos socialistas, desenvolveu a tese: "Todo o poder do estado compete aos sovietes". Depois de um governo de cinco anos, sentiu-se abatido corporal e espiritualmente. Três professores alemães, notabilidades em psiquiatria, foram chamados a Moscou, mas não puderam salvá-lo. Lenin morreu em 22 de janeiro de 1925, numa propriedade rural de Gorki, perto da capital. Seu cadáver foi embalsamado e depositado num grandioso monumento diante das torres que coroam os muros do Kremlin.
Um outro corifeu do bolchevismo é Leo Trotsky. Seu nome propriamente é Bronstein. Nasceu em 1879. Frequentou uma escola profissional e tomou parte numa revolução, sendo preso em 1898. Foi desterrado para a Sibéria por tempo de dois anos. Em 1902 fugiu para o estrangeiro e residiu em Viena d'Áustria em Londres. Escreveu na revista marxista Iskra, Chispa.
Em 1905, fazia parte da diretoria dos sovietes em Petrogrado. Foi preso e desterrado, novamente, para a Sibéria. Em 1907 fugiu para o exterior e desmorou-se em Viena.
Durante a guerra publicou em Paris o jornal "Nasche Slowo", "Nossa Palavra". Combateu o patriotismo social e tomou parte em várias conferencias. Em 1916, foi expulso da França e se dirigiu para a Espanha. Preso e expulso dali, dirigiu-se para a América do Norte.
Em 1917 voltou à Rússia, tendo sido preso pelas autoridades inglesas e internado no Canadá. Conseguiu continuar sua viagem pela intervenção dos sovietes de Petrogrado. Em 1917 foi preso pelo governo de Kerenski. Organizou ao lado de Lenin o exército vermelho. Depois, ocupou, sucessivamente, posições de relevo no governo soviético e foi nomeado comissário dos negócios do exército e da armada, presidente da comissão revolucionária de guerra da república. Tornou-se membro da presidência do supremo conselho econômico. Teve, porém, de ceder à política despótica de Stalin e foi desterrado. Os funcionários da polícia, quando o prenderam em sua casa, o maltrataram barbaramente e, metendo-o num automóvel, o levaram para um carro da estrada de ferro e seguiu acabrunhado e doente para destino ignorado.
Atualmente é, de fato, Stalin o homem que tem nas mãos as rédeas do governo russo. Ele é outro déspota e se distingue pela violência. Afastou a velha guarda de Lenin, afastando do poder Bukarin, Lunatscharski e outros. Seus métodos são violentos e seus auxiliares notáveis pela tirania que exercem. A ditadura coletiva na Rússia soviética tornou-se também uma ditadura pessoal no domínio da economia política.
Stalin nasceu na Geórgia, em 1879, e seu nome é Dshugashwili. Frequentou uma escola normal, mas já em 1898 foi expulso em consequência de sua atividade revolucionária. No mesmo ano entrou para o partido bolchevista. Em 1902 foi preso e no ano seguinte foi desterrado para a Sibéria, donde fugiu. Dedicou-se, então, com ardor, à atividade partidária, sendo outra vez preso em 1908 e condenado por três anos ao degredo na Sibéria. Em 1909 fugiu para Bakun, onde foi preso e obrigado a seis anos de desterro. Depois de um não, fugiu e dedicou-se em Petrogrado à atividade do seu partido. E sendo novamente preso, passou para o desterro, donde fugiu em 1911. Preso outra vez e desterrado em 1912, fugiu para Petrogrado.
Em 1913, preso e desterrado, participou, mais tarde, da revolução de fevereiro. Redigiu várias folhas do partido bolchevista. Exerceu em 1919 e 1920 as funções de comissário popular da inspetoria dos proletários e camponeses.
Em 1920 e 1923, membro da comissão militar revolucionária da república, ocupa, hoje, como secretário geral do gabinete político do partido, o supremo cargo no governo bolchevista.
Ainda uma palavra sobre Bukarin, o filósofo popular do comunismo russo. Nasceu em 1888 e, depois de haver completado o curso ginasial, estudou nas universidades de Moscou e de Viena. Em 1906 entrou para o partido comunista e, já dois anos mais tarde, fazia parte da comissão do partido de Moscou.
Preso em 1910, passou um ano no desterro da Sibéria, donde fugiu para o estrangeiro, voltando, mais tarde, para a Rússia.
Emigrou, porém, em 1917 e tomou parte ativa no movimento operário internacional, principalmente na Áustria, Alemanha e América. É escritor do partido e teorista do marxismo. Foi eleito para a comissão central do partido e desempenhou as funções de redator no órgão oficial Prawda, A Verdade.
Tais são os chefes que dirigem a união das repúblicas soviéticas. Homens de semelhante organização moral não possuem sentimento algum de caridade ou de religião, de nobreza ou de justiça. Seu caráter parece temperado no cadinho do mal e da perversidade, como o aço candente na água fria. Assemelhando-se aos imperadores romanos que subiram ao trono, guindados pela violência de prepotentes e derrubados por outros mais fortes e mais despóticos.
CAPÍTULO XIII
Causas do bolchevismo russo
O surgimento repentino do governo bolchevista na Rússia é um acontecimento da maior significação na história universal. Efetivamente, de um dia para outro submeteu ao seu domínio despótico um país de cerca de 150 milhões de habitantes, fazendo uma propaganda tenaz entre os operários de todo o mundo, principalmente da Europa. O bolchevismo russo procura inquietar todos os povos e projeta realizar uma revolução universal de proporções jamais vistas em tempo algum.
A Rússia oferecia, de fato, uma situação propícia à implantação e progresso constante desse movimento subversivo. A condição favorável encontrava ele, sobretudo, no despotismo dos czares que durante longos séculos oprimiam o povo. O poderio moscovita não era capaz de formar homens livres no meio do povo, que pudessem dirigir e equilibrar a vida pública. Uma outra consequência desse despotismo era a apatia e a falta de energia moral das grandes massas do povo russo.
Pois, os habitantes desse imenso país, por um imperativo histórico, deixavam-se guiar pacientemente, qual rebanho sem vontade, pelos potentados. Além do mais, apareceram no império dos czares grandes dificuldades econômicas que lhe pareciam insolúveis. Pois, a maioria da população russa pertencia à classe dos camponeses que, entretanto, não tinham terras próprias, porém eram rendeiros e peões latifundiários.
A dura vontade dominadora dos czares repelia, além disso, os elementos de maior valor e inteligência que se hominizavam no estrangeiro ou tinham de sofrer o castigo do desterro na Sibéria, onde fortaleciam ainda mais a sua resistência interior e intensificavam seus sentimentos de rancor e vingança. Os revolucionários russos transformaram-se, dessa maneira, no exílio em homens empedernidos, que não recuavam diante de nenhum expediente para chegarem ao fim alvejado. Assim, foi possível a um punhado de homens alcançar o poder da Rússia, em pouco tempo, e substituir, pelo seu domínio a autocracia dos czares.
Quando, em fevereiro de 1917, rebentou a revolução civil, promovida por Kerenski e Miljukow, reconheceu a ala esquerda dos socialistas russos, claramente, o caminho que conduzia à realização do projeto intentado. Lenin e seus camaradas sabiam que o exército russo não desejava nada mais ardentemente do que paz e terra.
Kerenski cometera o gravíssimo erro, sob a influência da Inglaterra, de continuar a luta, em vez de celebrar a paz. Os bolchevistas, de seu lado, simplesmente davam a senha Paz à Terra. Esta palavra mágica, em face da mentalidade russa, teve sobre as massas populares um efeito de explosão. Dentro de poucos meses alcançaram os bolchevistas o poder supremo.
Pois, após o primeiro malogro, sobrevindo em junho de 1917, caiu-lhes o fruto maduro nas mãos. Este resultado verifica-se, perfeitamente, no novo livro de Leo Trotsky, intitulado "Minha vida" e publicado neste ano de 1930.
Os soldados e campônios, fascinados pela senha de Paz e Terra, atiraram-se aos braços do bolchevismo. Os soldados só queriam uma coisa: voltar, imediatamente, para casa. Os campônios já viam realizado seu velho sonho, sonho dourado de séculos: a expulsão dos grandes proprietários e o repartimento das terras. No princípio pouco se falava em teorias e programas. Os diferentes chefes tinham as cabeças repletas de ideias radicais. Nestas condições, o advento do bolchevismo, no seu início, não passava de um acontecimento aventureiro.
Mas, suas consequências ninguém imaginava. Segundo escritores germânicos, os erros cometidos pela Alemanha e pelas nações aliadas no fim da grande guerra, favoreceram imensamente o desenvolvimento do bolchevismo.
Pois, este conseguiu criar durante a guerra civil, consequência desses erros, o exército vermelho, organizado pela formidável energia de Trotsky. A Rússia atual surgiu da guerra civil e organizou-se uma tirania comunista.
De um lado criou-se a terceira internacional comunista, que levantou sua sede em Moscou, donde exerceu sua propaganda universal e sem limites. De outro, formou-se um novo estado russo que, não obstante os protestos que dirige contra o imperialismo, aspira ao domínio despótico do mundo.
O estado russo é a figura visível da internacional comunista. Esta desenvolve sua propaganda nos países europeus e representa, em sentido perfeito, a política externa de Moscou.
O poderio dos comunistas na Rússia diferencia-se muito pouco do despotismo czarista. Esse fato é provado pelo seu procedimento com referência aos camponeses que representam oitenta por cento da população produtora. Com grande satisfação aderiram eles aos revolucionários, com o desejo ardente de entrarem na posse das terras dos grandes proprietários. Julgavam, com isto, resolvidas todas as suas dificuldades. Mas, não era esse o caso.
Apareceram logo dificuldades quanto ao resultado do trabalho. Formaram-se, pouco a pouco, várias classes de camponeses, como o batraki ou trabalhadores do campo, os bjetnota ou camponeses pobres, os sjeredniaki ou camponeses médios, os kulaki ou grandes camponeses, que, além de lavouras, tem negócios e possuem empresas de renda, como moinhos, máquinas e animais, com que auxiliam a outros, mediante pagamento.
Dali é que resultaram constantes divergências. A produção diminuía e o provimento de viveres para a sociedade tornava-se mais difícil. Esses fatos produziram grandes mudanças na política interna da Rússia.
Os diretores atuais dos bolchevistas querem realizar as teorias do socialismo até as suas últimas consequências e prescrevem um plano econômico de cinco anos, que deve ser realizado de 1929 a 1934.
O ponto capital desse plano econômico é a desapropriação das terras todas, que há 12 anos foram concedidas aos camponeses, e a obrigação do trabalho comum nas mesmas lavouras, sob a direção dos sovietes das aldeias. Em conformidade com este plano quinquenal, concita a imprensa bolchevista para a luta contra os camponeses.
Como o governo bolchevista vê, principalmente, na classe dos kulakis, ou grandes agricultores, a célula de novo capitalismo e, por isso, um inimigo futuro do seu regime, é contra ela que dirige novos ataques, conforme os princípios marxistas.
Desta sorte chegou hoje o bolchevismo à negação completa do seu ponto de partida. A revolução ganhara pela promessa de terras, feita aos camponeses, e da espoliação dos latifundiários.
Agora coube aos camponeses a triste sorte de serem expolidos destas mesmas terras, não por capitalistas, mas pelo próprio estado, que se torna latifundiário e possuidor de todos os bens imóveis. Tanto nas cidades como no campo generaliza-se a oposição ao governo soviético. Nas zonas rurais domina, aberta e ocultamente, a guerra civil.
A dispersão das propriedades, a mudança das populações, o despotismo, o terror reinante e os assassínios praticados de ambos os lados, a luta sem igual de aniquilamento nas aldeias, tudo isso é pior do que a situação mais terrível de guerra.
A terra, pela qual o camponês lutou, é-lhe roubada. Assim é que a classe dos agricultores manifesta hoje descontentamento geral, é despojada de suas propriedades e necessita de pão.
O grito de combate Paz e Terra levanta-se como ameaça fatal contra seus arautos de outrora, contra o próprio bolchevismo.
É essa a comédia trágico-cômica dos erros bolchevistas que arrastaram o país a um problema sem solução visível. Não aparece luz sobre esse imenso caos, não se vê saída desse caminho tortuoso e íngreme. O aspecto econômico revelou-se muito pior do que o czarismo.
O presidente Hoover, da Américo do Norte, que conhece de vista a Rússia, já em 1928 escreveu: "O mundo é testemunha de uma tragédia desenrolada no meio da luta deplorável entre a vida e a morte da grande carestia reinante na Rússia; supera a todas as crueldades que a humanidade viu durante dez séculos".
CAPÍTULO XIV
A liberdade no regime soviético
Na Rússia marxista, a ditadura do proletariado, tanto na teoria como na prática, assassina a liberdade. Com efeito, a ditadura terrorista, que oprime a união das repúblicas soviéticas, é, essencialmente, uma realização do despotismo.
Da aplicação desse sistema resulta, fatalmente, a tirania exercida em grau máximo pelo secretário geral do gabinete supremo. Onde não há justiça, é impossível que reine verdadeira liberdade.
A liberdade de consciência é o direito pertencente a cada homem de conhecer a verdade natural que o guie, retamente, nas operações tendentes ao seu bem-estar e, quando revelada ou sobrenatural, o conduza à beatitude correspondente.
Ensinado por essa dupla verdade sobre o que é bom ou mal e como deve seguir o primeiro e fugir do segundo, o homem, pela liberdade de consciência, goza do sagrado direito de não ser impedido, por ninguém, nos seus movimentos de atração e repulsão, mas antes de ser coadjuvado, para que os possa, de moco conveniente e com segurança, executar.
Deve justo e exato conceito resulta que todos os homens podem livremente professar e praticar a fé, que é a primeira verdade e o supremo bem, por meio de um culto não puramente interno, mas também externo, segundo os ditames da única religião fundada por Jesus Cristo, a Igreja Católica, à qual por isso pertence, essencialmente e em rigor unicamente, este direito natural em relação a todos os seus filhos.
No estado bolchevista, em vez de liberdade de consciência, reina a licença de pensar o que a cada espírito apraz, não obstante seja objetivamente falso e rejeitado pelo bom-senso do gênero humano, e de fazer o que cada vontade deseja, ainda que abertamente mau e reprovado pelos homens honestos.
Ora, todas as formas de religião tendem a limitar essa licença desenfreada e criam com seu desenvolvimento um contínuo obstáculo à tal mal-entendida liberdade de consciência.
Por isso, deve ser proibida e combatida qualquer religião pela legislação bolchevista, que calca aos pés um direito intangível do lavrador e de todos os homens. Assim procede o ateísmo russo.
Dedicando-se ao triste trabalho de conseguir que a massa operária se afaste da religião, empenha-se o governo, com todo o artifício, no sentido de provar, por centenas e milhares de formas, que o culto de Deus é contrário ao bem do proletariado, por torna-lo escravo do Estado burguês e, portanto, do capitalismo.
Para provar tamanho dislate e erro tão crasso, alegam os bolchevistas que a religião apenas serve na mão dos ricos como freio para dominar a corrente impetuosa da onda revolucionária.
Na Rússia não há liberdade política, é interdita a organização de qualquer partido que não adote integralmente o programa soviético. Os agrupamentos que não se enquadrem nesse paradigma ou se desviem das normas traçadas, são considerados massa amorfa sem autonomia, sem vontade própria e não se lhes tolera o vínculo de organização partidária.
Foi um desastre para o próprio Trotsky o fato de ter iniciado a formação de grupos, fato que acelerou sua queda do poder e seu desterro para Sibéria. E o direito que não se concede aos comunistas de ideias divergentes, é cassado, e interdito, com maior veemência, aos democratas sociais que formam a minoria e são denominados, por isso, menchevistas.
Não há, portanto, liberdade de organização partidária, como nem existe a liberdade de pensamento. Sobretudo não há liberdade de palavra, nenhuma liberdade de imprensa. Entretanto, a imprensa vermelha tomou proporções colossais. Os jornais comunistas circulam em cerca de 8 milhões de exemplares. Há dois jornais, que se publicam nas cidades principais e cujas edições diárias montam a 500 e 700 mil exemplares.
Suas notícias e seus artigos são transmitidos pelo rádio às folhas das províncias, aos círculos e associações de leitura. Os colaboradores, correspondentes e noticiaristas desenvolvem a mais intensa atividade, tanto nas aldeias do campo, como nas cidades industriais.
Mas, ai daquele jornalista que se atreva a censurar ou a criticar um ato do governo ou que manifeste um pensamento contrário às teorias do bolchevismo! Sua sorte já está decidida e pode dar graças a Deus se a pena do fuzilamento imediato lhe é comutada em reclusão nos mais terríveis cárceres.
No jornalismo soviético e na propaganda dos ensinamentos comunistas consiste na defesa do governo tirânico dos sovietes. Não há liberdade de imprensa, portanto!
Dali a compreensão, o ceticismo, a desconfiança nas publicações, porque todos sabem que a imprensa é apenas um instrumento da ditadura governamental.
Nos cômicos políticos existe a maior liberdade de palavra, quando se trata de defender e apoiar o governo da propaganda das teorias comunistas. Se, porém, algum orador tivesse a ousadia de falar em ideias religiosas ou na defesa da verdadeira liberdade, a formidável Tcheka o arrancaria da tribuna e o meteria as trevas da prisão.
O que acima ficou dito reafirmam testemunhas insuspeitas e confirma o próprio Stalin, o chefe supremo do governo bolchevista. Efetivamente, em 1927, uma delegação de operários estrangeiros dirigiu ao secretário Stalin a seguinte pergunta: "Quais são as atribuições da polícia secreta da G. P. U. ou Tcheka? Há, porventura, julgamentos sem depoimento de testemunhas e sem defensores? Há ordens secretas de prisão? Qual é o fundamento disso? Não será necessária uma modificação ou suspensão dessas medidas"?
Na sua resposta manifestou-se Stalin, orgulhosamente, em favor da instituição da Tcheka que funcionava, como diz, segundo o grande exemplo dado pela revolução francesa.
Todos devem reconhecer, disse ele, que a Tcheka soube, e futuramente saberá, ferir os inimigos da revolução com golpes contundentes e acertados. É ela o terror da burguesia, a guarda vigilante da revolução e a espada polida do proletariado. Recuso-me, diz ainda Stalin, a compreender aquela delegação de operários que, timidamente, se informou se os numerosos conspiradores contra o poder proletário são castigados e se não era tempo que a G. P. U. oficiasse seus processos! Mas, camaradas, nós não queremos repetir os erros da comuna parisiense. A G. P. U. é necessária para a revolução e continuará a viver para terror dos nossos inimigos.
À pergunta, porque motivo não existia a liberdade de imprensa na união soviética, respondeu Stalin: "Se por liberdade de imprensa entendeis a liberdade de imprensa em favor da burguesa, ela não existe entre nós e não será permitia, enquanto existir a ditadura do proletariado". E Bukarin, o filósofo do bolchevismo, agora deposto, dizia na mesma ocasião: "Não somente na vida política continuamos com mão segura a luta pelos nossos ideais. Também em sentido ideológico existe entre nós a ditadura combativa do proletariado.
De forma alguma, estamos dispostos a espalhar panfletos clericais, permitindo que as massas produtoras sejam contaminadas por tais escritos. Nesse sentido somos intolerantes.
De todos os tesouros ideológicos da humanidade escolhemos para nós o mais precioso, que é o materialismo. Munidos com esta nobre arma, combatemos contra as influências ideológicas estrangeiras.
Nós cremos ser obrigação nossa abafarmos em seus gérmens tudo o que enerva e dissolve a classe operária. Nós transformamos o marxismo na teoria do nosso estado político e, de forma alguma, nos envergonhamos, quando alguém nos diz que somos parciais.
Nossa parcialidade consiste na fidelidade à luta proletária e na inimizade contra qualquer influência burguesa". Cf. René-Fuloep-Miller, Espírito e Fisionomia do Bolchevismo. 1928).
O bolchevismo é a destruição completa da liberdade humana.
CAPÍTULO XV
A degradação da mulher na Rússia
A já afamada viúva de Lenin, madame Krupskaha, escreveu com hipócrita entusiasmo: "O país soviético é o primeiro Estado que concedeu à mulher igualdade de direitos. O governo dos proletários e dos camponeses libertou-a da escravidão doméstica".
Esta frase não passa de uma farsa mentirosa. Acenaram à mulher da Rússia com a promessa de liberdade e igualdade, mas, de fato, o regime soviético a reduziu à mais vergonhosa escravidão.
Sim, os bolchevistas prometeram à mulher da Rússia dar-lhe liberdade e perfeita igualdade diante dos homens. Porém, é o contrário que se pratica e se observa. Jornais russos procedentes de Moscou e Petrogrado, hoje chamado Leningrado, em homenagem a Lenin, publicam as mais amargas queixas sobre a situação infeliz e degradante da mulher.
Ela já não goza dos encantos de um lar, onde faça parte integrante de uma família. Os homens, dominados pelas paixões desregradas, brincam de tal forma com o que chamam amor, que a mulher se torna objeto de caça de livres atiradores. Sem o conhecimento da mulher casada, pode o marido repudia-la. Basta que ele se desagrade do almoço servido pela esposa, para pô-la na rua.
Uma mulher, interrogada sobre o meio de conseguir a felicidade no casamento, respondeu: "Fartai o animal, mas na Rússia é difícil saciar os brutos".
As professoras de modo especial, são escravizadas. Quando elas não cedem às exigências selvagens e libidinosas dos funcionários soviéticos, são perseguidas e marcham para o desterro. Na mulher não se reconhece nem honra nem dignidade.
Em consequência da facilidade do divórcio, tornou-se o casamento um verdadeiro escarnio. Um comunista chegou a ter sucessivamente 150 mulheres. Num único dia se casou seis vezes. Como, porém, esses excessos poderiam prejudicar a fama do governo soviético, interveio o tribunal.
O mais repugnante neste fato consiste em ter aquele monstro explorado a miséria de jovens aristocratas, a quem prometera liberta-las do cárcere e da morte no caso de casarem com ele. As pobres criaturas, no auge do desespero, aceitaram o oferecimento da facínora.
As chamadas leis matrimoniais das repúblicas soviéticas abriram a porta a todas as imoralidades. Entre os povos selvagens da África, Ásia e América não há nenhum que apresente uma degradação igual. A Rússia atual fica abaixo do nível dos selvagens negros.
O jornal russo, intitulado "Estrela Vermelha", escreveu, em outubro de 1928, sobre os casamentos que se realizam no exército vermelho: "Os soldados russos fazem em geral casamentos de estação; quando o regimento é transferido para outro lugar, casam-se de novo com outras mulheres".
Os soldados, terminado o serviço militar, procuram novo casamento. Quando se despedem do quartel e seguem viagem, esperam as mulheres ludibriadas na entrada ou nas salas das estações ferroviárias, para altercarem com os maridos que as abandonam. As mulheres, exasperadas e furiosas, dirigem-se aos oficiais para que impeçam a partida dos maridos ou, pelo menos, lhes seja indicado o endereço, afim de poderem reclamar dinheiro para o sustento dos filhos abandonados. Tais cenas são comuns, reproduzam-se constantemente.
As mulheres infelizes da Rússia amaldiçoam o dia da proclamação da revolução em outubro de 1917. Seu prestígio transformou-se em desonra e sua dignidade em aviltamento. Tornaram-se míseras escravas modernas que, dominadas por imensa saudade, suspiram pelo dia da libertação.
Somente a religião cristã pode salvar a dignidade da mulher, santificando sua união com o homem, por meio de um sacramento. Só a religião divina tem o poder de conferir à esposa e à mãe uma posição social aureolada de respeito e honra, só ela possui o condão de lhes proteger a dignidade no conceito da sociedade humana.
Em face da degradação da mulher generalizou-se de um modo espantoso a peste da imoralidade. Rapazelhos comunistas, formando bandos turbulentos, assaltam nas ruas, de dias e de noite, meninas e mulheres adultas, que tem de travar luta com seus perseguidores ou devem sucumbir aos instintos perversos da canalha.
O impudor desses depravados não conhece limites e não poupa crianças nem octogenárias. Esses garotos perversos não querem compreender que alguém lhes possa proibir os excessos de libidinagem, porque alegam que lhes foi ensinado não existir lei moral, não haver Deus nem autoridade alguma que lhes possa proibir a desenvoltura e a satisfação dos seus instintos. São lógicos. Os próceres bolchevistas não lhes podem responder. De mais a mais, os funcionários do Estado soviético dão-lhes o exemplo.
Pela vulgarização da literatura imoral cultivam-se os piores vícios. Existem corporações especiais encarregadas de propagar nas escolas e colégios revistas e livros pornográficos são lidos, devorados, em massa pelos alunos imberbes e inexperientes.
Os comunistas maltratam suas mulheres. Há verdadeiros dramas. Não faltam operárias que morrem debaixo das surras dos maridos, sem que as autoridades, aliás devidamente informadas, tomem providências alguma. Há cidades industriais onde as mulheres por via de regra são vítimas de pancadas. Em outros lugares são encarceradas e recebem piores castigos do que os nossos antigos escravos. Na província de Tula um empregado de escritório soviético derrubou sua mulher por terra com uma barra de ferro, porque tinha presidido a uma reunião. As mulheres são, muitas vezes, sujeitas a duros castigos corporais.
Nisto consiste a decantada igualdade das mulheres.
CAPÍTULO XVI
A família no Estado Soviético
O bolchevismo solapou os fundamentos da família. Pai, mãe e filhos, segundo a doutrina comunista, não pertencem uns aos outros, mas são propriedade do Estado. Marido e mulher devem ser livres de quaisquer vínculos no intuito de se tornarem mais hábeis para a luta de classes. "O partido comunista deve substituir a família", na expressão de Gorkberg.
A criança, em vez de receber amor e caridade dos pais, precisa estar desde o berço até à fábrica entregue aos cuidados do Estado. A dignidade da família é considerada como preconceito burguês e deve ser relegada ao esquecimento.
A lei matrimonial bolchevista de 1º de janeiro de 1927 cortou a raiz, feriu o cerne da família. O casamento, do qual apenas ficou o nome, teve de ceder o lugar ao amor livre. Todas as uniões maritais têm valor de matrimonio. O fato de conviverem homem e mulher ou de auxiliar um homem a uma mulher é quanto basta para conseguir os direitos conjugais.
O homem pode manter, simultaneamente, várias uniões, como também a mulher, pois, o sistema da poligamia e da poliandra é permitido. Isto declaram os juristas soviéticos explicitamente. Pois, dizem que, não sendo a poligamia e a poliandra como tais proibidas pelo código criminal, deverão ambas ter efeito e valor de matrimonio com todas as consequências jurídicas.
No cartório civil pode-se registrar só uma união por vez. A mulher exige, razoavelmente, o registro, para que o marido, no caso de divórcio, tenha de pagar a alimentação dos filhos. Outra significação não se atribui ao registro.
Casamento entre irmãos, entre pai e filha, entre mãe e filho, são permitidos, mas não são registrados no cartório civil. A tal ponto chegou a devassidão oficial!
O Estado soviético coloca-se em oposição direta aos princípios do matrimonio cristão. Ele dissolve e nega todos os postulados da lei moral natural. Para ele só é imoral e criminosos o que ameaça a sua estabilidade e desenvolvimento.
A aliança matrimonial é frouxa e dissolúvel. O menor pretexto de um dos desposados pode destruí-la. Qualquer declaração feita pelo homem ou pela mulher, sem ciência e mesmo sem a presença de uma das partes, diante do funcionário público, é suficiente para anular o casamento. Imediatamente, sem mais nem menos, gozam da faculdade de convolar a novas núpcias.
Nos conúbios que não foram registrados basta que um dos interessados comece uma nova união marital. A Rússia tornou-se, pela legislação matrimonial do governo vermelho, o paraíso dos dissolutos e dos libertinos sem consciência.
Prometeu à mulher liberdade plena, mas na prática esta lhe é cerceada: quase não lhe assiste direito algum. Sobre sua cabeça paira sempre a espada ameaçadora do divórcio. Declarada a anulação do casamento, ela e os filhos são jogados à mais deplorável miséria. O marido, segundo a lei, deveria pagar-lhe a alimentação. Mas, como ele nada possui, ninguém lhe pode impor o pagamento do que deve. Outras mulheres e outros filhos consomem, completamente, seus poucos haveres.
Em janeiro de 1927 foram, em Leningrado, feitos 2000 casamentos segundo a nova lei matrimonial e foram anulados 1701, portanto oitenta por cento. Acresce que as mulheres em certas circunstancias, correm ao estabelecimento público onde médicos, verdadeiros assassinos, lhes matam as crianças antes do nascimento. Já em 1925 em Leningrado, sobre 1000 nascimentos houve 302 abortos praticados por médicos do governo. O aborto é permitido por lei.
Logo que as mulheres passaram o tempo efêmero de sua beleza, é-lhes quase impossível escapar a uma sorte miseranda. Tornam-se, na maior parte, verdadeiras escravas. De tal modo são oprimidas e dependem do capricho despótico do seu amo, que perdem o exercício de sua vontade, todo o domínio sobre si mesmas. Esse fato se observa tanto nas cidades como nas aldeias, onde os camponeses egoístas não têm compaixão das mulheres fracas e doentes, e explorem a legislação soviética em prol do seu egoísmo e dos seus grosseiros interesses pessoais. Com o desaparecimento da religião espalhou-se por todo o país uma inexprimível dureza de coração, uma falta de caridade sem nome.
CAPÍTULO XVII
A educação na União Soviética
Nas escolas populares da Rússia recebem apenas 50 por cento das crianças o benefício do ensino público. A outra metade não é contemplada pelo Estado. E não se pode duvidar que as crianças abandonadas pela instrução bolchevista sejam as mais felizes.
O Estado comunista considera os filhos como sua exclusiva propriedade. No primeiro livro oficial do ensino comunista exige-se, no parágrafo 77, que se destrua o direito que a família reclama sobre os filhos, porque estes, que são os futuros cidadãos, pertencem à sociedade bolchevista. O direito pátrio, respeitado em todas as legislações humanas, foi ab-rogado, não existe mais na Rússia.
Nem a própria mãe tem direito sobre o filho. O seu amor materno, segundo a doutrina bolchevista, é um instinto egoísta e irracional, só digno de animais. Se o governo soviético dispusesse de recursos para construir prédios suficientes, afastaria da família todos os filhos, logo que nasçam, no intuito de educa-los em estabelecimentos públicos e de preserva-los, assim, da influência perniciosa dos pais.
Na impossibilidade material de realizar esse plano, viu-se o governo obrigado a indeferir o pedido a ele feito pela comissão econômica neste sentido, alegando falta da necessária verba. A escola, portanto, deve provisoriamente preencher essa lacuna nos ideais bolchevistas. Ela deve inculcar no espírito das crianças que o Estado soviético representa seu pai e sua mãe. Deve provar-lhes que o lugar de Deus é ocupado pelo homem coletivo.
A escola tem a obrigação de instruir, bem cedo, as crianças sobre as funções sexuais, declarando-lhes que isso não significa mais do que saciar a sede ou a fome, bebendo um copo de água ou comendo uma fatia de pão. A missão da escola, portanto, consiste em formar os cidadãos comunista, imoral e ateu, sem amor aos pais e sem religião.
Às organizações religiosas é vedada a frequência da escola. Segundo decreto de 26 de abril de 1929 o ensino religioso até é proibido nas escolas particulares. Ordens ou congregações religiosas não podem manter comunicação com a mocidade. O bolchevismo lhes proíbe as reuniões de instrução religiosa para crianças e jovens, as diversões musicais ou literárias, os cursos de línguas e trabalhos manuais, excursões, a fundação de asilos para órgãos e sanatórios, a organização de bibliotecas e salas de leitura.
A felicidade da família desmoronou, ruiu por terra. Pais e filhos lutam entre si. Os filhos não obedecem ao pais e preferem o retrato de Lenin e a revista chamada "O Ateu" às imagens dos santos e aos livros que tratam de assuntos religiosos. Reina uma dissolução formidável de costumes no meio da sociedade russa. A coeducação de alunos de ambos os sexos é prescrita em todas as escolas. Durante o recreio divertem-se, a seu modo, nos corredores e lugares escuros com o beneplácito dos seus mestres.
Nem ginásio de meninos e meninas celebrou-se o encerramento das aulas. O diretor, digno das teorias bolchevistas, teve o impudor de louvar, de modo especial, as alunas pelo bom aproveitamento do tempo e por terem demonstrado seu patriotismo, de forma que 32 meninas se achavam estado de contribuírem, em breve, para o aumento da população comunista.
Tais fatos são autênticos e não raros, segundo testemunhas fidedignas. Os alunos na maioria tornam-se feras e as alunas raparigas perdidas.
Os fins instrutivos nada conseguem melhoras. Ao contrário, os jovens frequentadores dos cinemas aprendem sempre coisas novas e imitam os maus exemplos.
A escola transforma, além disso, os alunos em traidores de pai e e mãe e perverte a alma infantil. Às crianças arranca-se do coração o respeito e o amor aos seus progenitores. É isto o mais infame.
Na aula, como em qualquer assunto, devem as crianças responder às perguntas que seus mestres lhes dirigem sobre as coisas mais íntimas da origem da vida humana.
No dia de Natal de 1929, em Moscou, como em centenas de outras cidades, as crianças formaram préstitos carnavalescos, blasfemando contra tudo o que era santo e tinha caráter religioso. Cuspiam nos crucifixos e praticavam os atos mais vergonhosos. Tudo isto fora-lhes ensinado pelos professores.
A escola soviética é, de fato, um centro de impiedade e de perversão.
Não obstante tudo isso, a infância vermelha é obrigada a cantar nas escolas: "O partido comunista é nosso pai; a seção feminina dos sovietes é nossa mãe"!
CAPÍTULO XVIII
O paraíso bolchevista do operariado
No mês de agosto último, publicou o jornalista Leopoldo Lugones em "La Nacion" de Buenos Aires, um artigo sob a epigrafe "Os escravos vermelhos", no qual ele descreve a situação do operário russo.
Antes de tudo advirta-se que o comércio monopolizado pelo Estado coloca a fixação do preço dos produtos nacionais à discrição dos sovietes, permitindo-lhe comprar tão barato quanto queira, pois que o isolamento do país, a ignorância do campônio e a oficialização da imprensa não admitem nem o mero paradigma das cotações.
Se o lavrador não vende ao Estado o produto de suas fadigas, fica com a colheita e, todavia, quando recusa a negociar, aquele declara-o inimigo e burguês, confiscando lhe em seguida os produtos.
Mas o governo não somente fixa os preços da colheita como também o quantum dos salários e o valor da moeda, de sorte que, segundo se calcula, obtém na operação 75 por cento de lucro sobre o preço real do trigo determinado pela sua cotação internacional e assim se explica, diga-se de passagem, a prodigalidade nas subvenções de propaganda.
O jornalista argentino lamenta a influência bolchevista sobre o comércio internacional e levanta sua voz contra a tirânica exploração do trabalho russo. Como o agricultor, assim continua ele, terá de abastecer-se nos armazéns do Estado, cujas mercadorias são caríssimas e de péssima qualidade, este acaba de reduzi-lo à miséria. Basta saber que um par de toscar botinas custa 32 pesos e cerca de 5 pesos um par de meias de algodão.
A alimentação está racionada em 1 kg de pão por dia e meio kg de açúcar por mês para os operários da cidade que são os amos, os que exercem a ditadura proletária e que reduzem a uma verdadeira escravidão 100 milhões de camponeses.
Tais são as condições do "dumping", ou a manobra da concorrência desleal mediante preços arbitrariamente rebaixados, que nos ameaça e que se efetua já, graças a essa exploração de escravos no paraíso vermelho do trabalho organizado sob o império marxista.
É o que o povo pode dar no exercício de sua absoluta soberania ou seja este resultado: servidão, inquietude, incapacidade, crueldade, miséria. Eis aí, em suma, o que nos quiseram dar, propiciando o mesmo sistema, os ideólogos que por despeito pessoal e por diletantismo revolucionário se tornam agentes desse grosseiro mercantilismo amanhado com sangue e lagrimas de escravos contra os próprios trabalhadores do seu país.
É preciso ser pertinaz o fanatismo, desapiedada a vaidade para fugir à evidencia desse insucesso sem exemplo.
Acresce que a capitalização das formas econômicas, empregada pelo governo soviético, teve por resultado um poderoso aumento do número de operários sem trabalho. Como a indústria oficializada deve manter-se a si mesma e, além disso, dar lucro, são despachados os operários desnecessários num dado momento. Em consequência disso, cifra-se, segundo informações oficias russas, o número de operários sem trabalho em cerca de 1.250.000. É verdade que o Estado oferece aos homens sem trabalho algum auxílio que, entretanto, não corresponde a uma quarta parte do salário médio.
Trotsky manifesta o seu desapontamento sobre essa evolução com palavras amargas: "O atraso crônico da indústria, dos meios de transporte, da eletrificação e da atividade construtora prejudica o bem-estar da população e da economia política, põe a circulação econômica numa camisa de ferro, restringe a produção agrária e sua exportação, estrangula a importação e forceja os preços, cria uma constante instabilidade da valorização monetária, trava o desenvolvimento das forças produtoras, diminui o crescimento da prosperidade material do proletariado e das massas agrícolas, conduz a um crescimento ameaçador da falta de trabalho e de habilitação, solapa a união da indústria com a agricultura e enfraquece a força e a resistência defensiva do país.
O andamento insuficiente no desenvolvimento da indústria atrasa o aumento da agricultura, sendo impossível uma verdadeira industrialização sem o aumento da produção agrária".
Vê-se que, não obstante as reiteradas promessas e a legislação da república soviética, a condição do operário, em vez de melhorar, visivelmente tem piorado no seu aspecto geral. A situação dos operários tão pouco melhora em países onde se pretende introduzir o comunismo.
Assim é que em 22 de julho do corrente ano, um telegrama de Paris, publicado pela imprensa desta capital, diz: No campo comunista lavra grande discórdia, o que já levou numerosos grevistas a abandonar o partido. Essas divergências começaram a manifestar-se há já alguns dias e tiveram como causa principal e talvez única as injustiças verificadas quando se procedeu à partilha dos auxílios pecuniários aos paredistas.
Nesta ocasião o partido, depois de raspar bem as gavetas, declarou que não lhe era possível dar mais de 20 francos a cada homem para a primeira quinzena ou seja pouco mais de um franco por dia para cada família.
Os operários comunistas ao terem conhecimento da situação, fizeram caretas e depois ficaram exasperados, quando souberam que os companheiros filiados à confederação do trabalho receberiam, diariamente, 18 francos por cabeça e que os sindicatos cristãos distribuiriam a mesma soma para cada um dos seus aderentes.
O descontentamento dos trabalhadores comunistas transformou-se então em cólera e muitos perguntaram aos chefes que destino tinham dado ao dinheiro, porque deviam ter em caixa quantia suficiente para atender as necessidades do momento, visto que cada operário filiado, com tempo de trabalho regular, entrava todas as semanas com a sua contribuição.
Devia, pois, existir em caixa uma soma respeitável. Que fizestes desse dinheiro, perguntavam os velhos militantes vermelhos? Foi gasto, respondiam os chefes, na propaganda do partido, na impressão de cartazes, na publicação de numerosos boletins. Tudo isto custa dinheiro. Nestas condições não podemos fazer por vós mais do que estamos fazendo".
Ora, se os operários franceses passam por tão tremendas decepções, é fácil de imaginar-se a situação dos operários sem trabalho na Rússia.
Um outro mal para os operários na Rússia soviética é a falta e o atraso dos seus pagamentos. Só alguns exemplos. Conforme o jornal "Trud", de 24 de setembro de 1926, em 16 províncias os professores esperavam pelo pagamento de 500.000 rublos.
Os trabalhadores da fábrica de vidros de Pskow esperam, diz o mesmo jornal em outubro de 1926, dois, três meses e mais pelo pagamento dos seus salários. Os operários promoveram processos, mas sem resultado, para obter o pagamento dos seus trabalhos. Na província do Ural os pedreiros não foram pagos durante nove meses e na mesma província os trabalhadores florestais, há mais de 100 dias, ficaram no desembolso do seu salário. Conforme notícias do "Jornal de Genève" está a Rússia absolutamente esvaziada sob o aspecto econômico. Devido à excessiva exportação dos produtos reina a fome nas classes operárias e a miséria entre os camponeses.
Um inquérito oficial declara que não há nenhum contrato coletivista que não fosse violado pelos respectivos diretores.
Em tais condições acha-se o paraíso prometido aos camponeses e proletários. Engano e exploração.
CAPÍTULO XIX
As condições de habitação
Em 3 de janeiro de 1930, o jornal oficial "Woprossy Trud", "A Questão Operária", escreveu sobre as condições em que se acham as moradias na Rússia soviética e acentuou a falta de espaço necessário para residir.
Calcula-se, oficialmente, para a população urbana 6 metros quadrados de espaço habitável por cabeça. Tomando-se esta medida por base, faltam para a população total das cidades, na Rússia comunista, cerca de 20.800.000 metros quadrados de habitação e somente para o operariado faltam 8.800.000 metros quadrados.
A falta de moradias varia nas diferentes regiões. A maior existe na região de Moscou, onde alcança um déficit total de 19,3 por cento para a população urbana e 21,5 por cento para a população operária.
O jornal soviético "Trud", "O Trabalho", de 5 de dezembro de 1929, fala sobre a insuficiência das habitações dos mineiros e se queixa contra a direção das minas, dizendo: Numa moradia coletiva destinada a 200 operários não há aquecimento no inverno, nem móveis, nem lugar para lavar roupa, nem privadas, mas em compensação uma quantidade enorme de animálculos que morrem de amores pelo gênero humano.
O mesmo jornal, em 21 de fevereiro de 1930, ocupa-se das condições defeituosas das novas casas de moradia e diz: A sorte das mulheres não melhorou depois de sua mudança para as novas habitações. É hoje, como dantes, semelhante à condição dos escravos.
Nas casas não há lavandarias e, se uma ou outra existe, não é suficiente para atender às necessidades dos moradores. No aldeamento "1905", acha-se uma só lavanderia, que deve servir a 15.000 famílias, mas só pode contentar a oitenta. As mulheres lavam nas cozinhas. Nas pequenas cozinhas destinadas a 3 ou 4 famílias, lavam 3 ou 4 mulheres a roupa servida. No mesmo espaço prepara-se a comida e as crianças se arrastam pelo chão. Isto afirma o jornal russo soviético.
Não somente nas grandes cidades a miséria das moradias é extrema, mas igualmente nas províncias. Referindo-se a uma aldeia chamada Osery, sede de grandes estabelecimentos, industrias, de importantes fábricas de tecidos de algodão, perto de Moscou, o jornal oficial "Isvestijia' revela fatos deploráveis a respeito de um albergue para operários.
No pátio, diz ele, encontramos um pequeno galpão sem janelas; dentro, sobre esteios, achavam-se pregadas tábuas que serviam de cama. Em todo galpão achavam-se 11 destas camas, entre as quais apenas um homem podia passar. Cada serve a uma família operária inteira: marido, mulher e filhos. No mesmo galpão vivem 11 famílias. Sobre estas camas dormem e comem. Os leitos não têm lençóis. Durante a noite ficam as diferentes camas de famílias separadas por meio de farrapos de fazenda suja.
Cada operário paga, mensalmente, pelo seu leito 5 rublos. Portanto, como o galpão é ocupado por 11 famílias, recebe o Estado mensalmente 55 rublos. No tempo de inverno recolheram-se as famílias a uma outra pequena casa de 4 quartos. Ali, as camas são suspensas uma por cima da outra. Nas de cima dormem meninas e rapazelhos.
Numa dessas casas de inverno dormem 15 famílias de operários com 40 pessoas. Só há uma cozinha para todas. Cada família coloca sua panela sobre a chapa do fogão.
Os insetos, em número infinito e espécies diferentes, impedem o sono. Os operários levantam-se de manhã cansados e vão sonolentos para o trabalho.
Sobre este assunto escreveu, em 1920, o dr. Ludwig Meyer, que este algum tempo na Rússia: O Estado apoderou-se de todas as casas de propriedade particular de outrora. Cada operário e qualquer cidadão russo é, portanto, obrigado a alugar sua moradia ao Estado.
Numa casa, que antigamente teria sido bastante para um casal, devem agora morar 20 a 25 pessoas. Cada quarto tem 2 ou 3 inquilinos. Existem ali, principalmente em sentido higiênico e moral, condições insuportáveis.
Explica-se a falta de moradia nas cidades pelo fato da imigração de muitos camponeses nos núcleos industriais, como também pelo aumento da natalidade sobre a mortalidade da população, pelos numerosos e espaçosos compartimentos dos funcionários públicos e repetições oficiais, pela má conservação dos prédios.
Um outro escritor recente afirma o seguinte, em relação à agricultura: A sorte da agricultura russa, a sorte da mesma Rússia, que outrora era considerada como o empório da exportação europeia e que agora se transformou numa terra de eterna infranutrição e contínua penúria, pode ser considerada como uma experiência para todos os povos e países.
A sorte da Rússia ensina que uma classe não pode sobrepor-se ao Estado e que os interesses das classes não podem ser superiores aos interesses do povo, sendo que, com esse procedimento, uma classe que pretenda dominar todas as demais e o país prepara a perdição de si mesma e também a desgraça das outras.
CAPÍTULO XX
O ateísmo bolchevista
Seria grande erro se considerássemos o bolchevismo apenas como um perigo político. Pois, esse movimento russo consiste, em primeira linha, numa concepção do mundo, nascida dos princípios do ateísmo. Jamais um espírito tirou consequências tão radicais da teoria materialista como o bolchevismo.
Ele tomou a peito, de um modo terrível, não somente a negação do cristianismo senão a negação de qualquer princípio espiritual, a negação da alma imaterial, como da própria divindade.
O princípio fundamental do pensamento bolchevista é o materialismo crasso. Sua única esperança reside na matéria, no instinto e na técnica. Dos elementos da matéria se deriva tudo. O que não se pode explicar como projeção da mesma, não se considera como existente.
Já Lenin não queria saber nada dos pensadores. Para ele eram os filósofos como Hume, Kant, Berkeley e outros, apenas traidores do proletariado que, como bons servos da burguesia, desenvolveram doutrinas contrárias à sã razão humana, com o fim premeditado de conservar o proletariado na escravidão.
Por isso, os bolchevistas consequentes rejeitam todas as doutrinas que divergem desse materialismo grosseiro e iníquo, apesar de ter sido mil vezes refutado cientificamente. Sob a palavra burguesa entende-se tudo e tudo se condena que não concorda com o culto e a adoração da matéria bruta.
As obras de filósofos respeitáveis foram retiradas das bibliotecas públicas e proibida sua leitura. A viúva de Lenin, Krupskaha, que esteve à frente da comissão principal da instrução popular, fez pessoalmente uma lista dos filósofos cujos trabalhos deveriam considerar-se como proscritos. Entre essas obras achavam-se as de Kant, Platão, Schopenhauer, Herbet, Spencer, Ernst Mak, Nietzsche. "Abaixo os letrados"! grita o bolchevismo.
O mesmo destino tiveram as mais notáveis obras clássicas da Rússia. Até as obras de um Dosdojewski e de um Tolstoi foram proibidas. Por isso, é desnecessário falar das de religião e de filosofia cristã, cuja sorte facilmente se pode imaginar.
Em 1929, os professores das escolas superiores da Rússia receberam ordem para se submeterem a um exame presidido pelos próprios alunos, afim de se verificar que mais ideias eram perfeitamente bolchevistas.
A aprovação do professor dependia do parecer os estudantes, que se arvoraram em juízes dos seus mestres. Um grande número de professores, entretanto, teve a hombridade de renunciar às suas cadeiras em vez de submeter-se a um exame tão vergonhoso e deprimente, sob a presidência dos estudantes.
Maior desprezo, certamente, não se pode lançar à face dos sábios, nem impor humilhação mais vexatória à classe dos intelectuais.
Talvez seja interessante saber que o ateísmo russo tem suas raízes no monismo realista de Ernesto Haeckel. No sistema doutrinário do professor de Jena o mundo, a matéria é tudo e Deus nada, não existe. Várias de suas obras, que todas primavam pela superficialidade científica e deturpação da verdade, foram traduzidas pelo idioma russo.
Os emissários demagogos do monismo espalharam, com facilidade, principalmente os livros intitulados "História da criação natural" e "Os mistérios do universo", nos quais Haeckel pretende destruir a criação divina do mundo e do homem e, consequentemente, toda a ordem sobrenatural. Segundo ele, tudo isso é um mito romântico; não existe Deus e o homem é apenas um aglomerado de matéria organizada e o macaco mais desenvolvido na escala da animalidade.
Esse ateísmo crasso, propagado na Rússia, produziu efeitos perniciosos nas massas populares incultas, desejosas da subversão da ordem existente. Não havia naquele país quem levantasse a voz, como em outras nações, para profligar a falsa ciência de Haeckel, nem no parlamento ou na imprensa se fizeram ouvir protestos contra uma doutrina própria para enganar o povo sem instrução e desorientar os semissábios.
Na Rússia não repercutiu a voz autorizada de um Hermann v. Ilhering que, do Brasil, condenou a teoria da descendência que Haeckel popularizou para combater o cristianismo.
"Para mim, declarou o eminente v. Ilhering, as supremas conquistas da ciência, os aspectos filosóficos dali resultantes, são santuários e joias. Mas, ninguém gosta de atirar pérolas aos suínos. Pode ser que minha palavra seja dura, porém, confesso, abertamente, que, raras vezes, aqui no estrangeiro senti maior repulsa de coisa alguma do que desse ateísmo brutal e mal compreendido de homens incultos e semicultos".
Com o fundamento social do bolchevismo assenta sobre as teorias de Engels e Marx, assim baseia-se, em última análise, a sua concepção do mundo no ateísmo de Haeckel.
Sobre este duplo alicerce, quer o comunismo construir, na Rússia atual, um Estado sem religião, sem templos, sem educação religiosa das crianças e sem família.
Mas, como estes fundamentos não possuem a necessária solidez e consistência, o edifício bolchevista há de cair, forçosamente, por terra.
CAPÍTULO XXI
O combate ao cristianismo
O sistema bolchevista procura a destruição de todo o mundo espiritual e se esforço por realiza-la com um fanatismo sem igual. O progresso técnico, a mecanização do trabalho, as máquinas, os tratores, a eletrificação, tudo isso lhe supre as manifestações da vida espiritual.
Os bolchevistas querem tudo americanizar. A técnica dos Estados Norte-americanos é por eles considerada como o meio mais eficaz para conseguir o seu predomínio no mundo. Uma aliança entre a América e o comunismo russo é o fim que eles visam nas suas aspirações. Divinizam a máquina.
A salvação da humanidade pela máquina é o novo dogma dos bolchevistas. Em lugar do altar se colocará no futuro uma máquina nas igrejas. Deve-se, por isso, também mecanizar o homem. O que o homem individual sente e pensa é indiferente aos bolchevistas. Para eles só tem importância a massa, o homem coletivo que possa ser movido e orientado por um sistema de fios movidos pela vontade onipotente dos dominadores.
O coletivismo impessoal constrói o paraíso para os proletários ou antes ele é o império milenário no qual não haverá mais miséria, onde todos os homens em doce harmonia gozarão dos frutos do seu trabalho.
Entretanto, os fatos provam o contrário, e nenhum homem sensato acredita nesses admiráveis frutos, a não ser talvez os comunistas sonhadores. Desses princípios materialistas nasce, logicamente, a mais pronunciada oposição a Deus e a qualquer religião.
De preferência queriam os bolchevistas destruir com um golpe todas as religiões. Lenin escreveu a Lunatscharski: "Todo o homem que se ocupa com a construção de um Deus ou só admite sua existência, cospe sobre si mesmo do modo mais asqueroso, porque, em vez de trabalhar, entretém-se com considerações e autossugestões, procurando divinizar seus traços fisionômicos mais imundos, estúpidos e escravizantes. Em sentido social e não pessoal, a criação de divindades não é outra coisa senão uma projeção do homem mesmo, da burguesia imbecil. Os burgueses todos são demônios abjetos, em toda a parte a pequena burguesia é ignóbil e vil. Essa burguesia democrática que se ocupa com o contágio ideológico é três vezes abjeta". No seu livro "Socialismo e religião" declara o mesmo: "Religião é ópio para o povo e uma espécie de álcool espiritual".
São estas as opiniões dos profetas do bolchevismo relativamente à religião. A sentença de Lenin, "A religião é ópio para o povo", está escrita no frontispício do Kremlin e é repetida a cada instante pelos oradores petroleiros.
Como os bolchevistas não reconhecem o dever de professar a verdade, procuram demonstrar ao estrangeiro que deixam plena liberdade ao exercício de qualquer religião. Isto é simplesmente falso. Eles negam a realidade dos fatos, como ficou provado pela sua conduta em face dos protestos do Santo Padre e das igrejas cristãs.
Os acontecimentos mais positivos demonstram, claramente, e que a liberdade religiosa foi aniquilada na Rússia e que todas as religiões, quaisquer que elas sejam, são alvo dos mais perversos ataques dos bolchevistas, que declaram, estupidamente, guerra ao próprio Deus.
A imprensa nacional, assim como a estrangeira, tem publicado constantemente notícia sobre o vandalismo louco contra todas as crenças religiosas. Muitos milhares de russos, fiéis às suas crenças, foram encarcerados e mortos pela violência soviética. Bispos veneráveis pelas usas altas virtudes, sacerdotes, monges e freiras, simplesmente porque não quiseram abjurar a usa religião, foram internados nos cárceres mais terríveis.
Conhecemos pela história as perseguições que o paganismo promoveu contra os primeiros cristãos. A tirania russa, no entanto, pode gloriar-se de ser mais atroz do que a fúria pagã. Os bolchevistas têm a vã presunção de destruir o conceito de Deus, enquanto os pagãos adoravam seus deuses nacionais, embora imaginários. Os detentores do poder soviético são, por isso mesmo, réus de crime maior do que Nero e Diocleciano, nos tempos antigos.
Dizem autores europeus que atualmente gemem nas masmorras da Rússia cerca de 48 bispos, 3.700 sacerdotes e 8.700 monges e religiosas e, não obstante, o governo bolchevista tem o descaro, a desfaçatez de proclamar aos quatro ventos que não existe perseguição religiosa, enquanto enterra os pés no sangue de sacerdotes e enxota milhares de crentes para o desterro.
Nos tribunais iníquos, nas horas do suplício, esses heróis cristãos, mostram-se dignos êmulos dos mártires dos primeiros séculos.
CAPÍTULO XXII
A guerra contra Deus
Como já em outro capítulo dissemos, quer o governo bolchevista tirar as últimas consequências das teorias materialistas. Por isso, introduz o ateísmo prático com todas as suas formas e manifestações na vida social. A Rússia bolchevista não somente declarou guerra à Igreja Católica, mas estendeu o seu furor iconoclasta a todas as religiões, a todas as agremiações que manifestam alguma fé sobrenatural.
O objetivo desse ódio demolidor é a própria divindade, o ódio satânico a Deus. Eis porque o bolchevismo russo assesta as suas armas contra o cristianismo da mesma maneira que persegue a religião judaica e a muçulmana.
No Mar Branco existe uma ilha que se denomina "Ilha do Demônio dos bolchevistas". Nessa ilha solitária, até à revolução de 1917, achava-se o mosteiro Solowetzky, que depois foi transformado em presídio de criminosos políticos. Antigamente florescia nesse mosteiro uma santa vida de mortificação e só aqueles que pretendiam santificar-se pela penitencia e glorificar a Deus, por uma vida austera, é que se internavam, voluntariamente, naquele santuário.
Aconteceu, muitas vezes, que, num ano só, peregrinos em número de 15.000 visitavam aquela ilha, por espírito religioso, e prestavam reverencia àqueles monges penitentes, que no rigor dum clima glacial e em completa solidão serviam e amavam a seu Deus.
Agora o mosteiro está transformado em cárcere, principalmente para religiosos, padres e prelados. As condições de vida naquela ilha são horrorosas. Os presidiários estão sujeitos a trabalhos forçados e tormentos cruciantes, que, pouco a pouco, os enfraquecem e lhes infligem a morte, se antes não são fuzilados
Não obstante a vigilância da polícia bolchevista, conseguem, de vez em quando, alguns presos fugir pela Finlândia e narram os horrores por que passam os sentenciados.
A guerra contra os representantes das religiões acompanha a destruição de muitos templos e objetos cultuais. O furor vandalismo do governo bolchevista demoliu belíssimas igrejas, sequestrou artigos de culto e incinerou carradas de imagens sagradas ou ícones.
A mudança política na Rússia, que em 1929 firmou o celebrado Stalin na suprema ditadura, foi funesta para a religião.
Os despostas do Kremlin observavam que no meio do povo se avolumava sempre mais o sentimento religioso, como também que no próprio exército vermelho crescia o número dos crentes, tanto que metade de alguns regimentos já frequentava, novamente, as igrejas. E ainda mais! Notavam os ditadores que até nas organizações comunistas da mocidade havia associados que participavam de solenidades religiosas.
O desejo veemente, a saudade intensa que o povo tem de praticar a religião, torna-se sempre mais sensível. Apesar dos esforços e auxílios oficiais, a "Liga dos ateus" conseguia resultados sempre mais insignificantes e em certos lugares vários ateístas foram fustigados.
Os jornais russos chegavam a dizer que o bolchevismo em sentido religioso tinha aberto falência. Os tychoconianos, ou adeptos da igreja ortodoxa ganhavam, por sua vez, constantemente novo terreno.
Em vista desses fatos infligiu Stalin um novo e acertado golpe à religião. Em 8 de abril de 1929 publicou o Estado uma nova lei religiosa, com 69 parágrafos, na qual sobressai a proibição de qualquer propaganda religiosa e ação de caridade. Estão expressamente proibidas às mulheres, à mocidade e às crianças todas as reuniões para fazer oração.
Esta recente lei antirreligiosa deu um novo impulso à perseguição. Desse 1929 aumentou a luta contra todas as religiões de uma maneira inaudita. De modo igual são perseguidos os católicos, os ortodoxos, os judeus e os maometanos. O governo mandou fechar uma igreja depois da outra e procura provocar o povo fiel, demolindo de preferência templos e conventos de grande estima e veneração.
Esses fatos são públicos e foram até publicados por folhas de Moscou e Leningrado. Entretanto, o governo soviético os nega diante dos representantes das outras nações. A mentira vil foi sempre uma arma poderosa do governo ateísta de Moscou contra os justos reclamos da consciência universal. Mas a verdade abre-se caminho e fará conhecer ao mundo a delinquência do governo soviético, os bárbaros crimes do bolchevismo e o ódio a Deus e às instituições religiosas da Rússia comunista.
Capítulo XXIII
Deus ainda vive
O Sumo Pontífice Pio XI, a maior autoridade moral, protestou perante o tribunal das nações civilizadas contra os desmandos praticados pelo comunismo russos. Urge, de fato, que o povo conheça os fins perversos que os bolchevistas intentam: a destruição radical da civilização cristã em todas as usas formas e instituições.
E não se compreende como ainda possa haver homens refletidos e sensatos que desejem introduzir o regime bolchevista em nossa terra. É certo que todo o povo brasileiro, desde o Rio Grande do Sul até ao Amazonas, se conhecer as intenções do bolchevismo e os processos vândalos de que lança mão, há de levantar-se em peso contra os propagandistas russos, repelindo todas as tentativas de sua nefasta propaganda.
O bolchevismo teme que o mundo chegue a conhecer o seu banditismo e sua perversidade. Pois, sabe, perfeitamente, que não pose haver melhor meio de combate-lo do que divulgar o que, na realidade, ocorre no paraíso vermelho. O mundo civilizado precisa exigir-lhe respeito às traições cristãs e às conquistas culturais de muitos séculos. Cumpre que cesse, de vez, o seu domínio de terror sobre as consciências.
Resultará dessa verberação solene algum proveito? Certamente! Uma minoria criminosa não pode atribuir-se o direito de oprimir todas as classes sociais e todas as nações do mundo.
Todos os perseguidores da religião acabaram miseravelmente. O Deus dos cristãos, o Deus do universo pode retardar sua intervenção, mas em tempo oportuno desbarata a iniquidade, vindo em auxílio dos oprimidos. Quem é Lenin, quem é Stalin comparados com nosso Deus a quem querem destronar? São menos do que vis insetos que o pé do transeunte esmaga. Assim como já aconteceu com Lenin, Stalin, os seus sucessores e todos os atores dessa tragédia bolchevista serão varridos do teatro da humanidade, quando Deus o houver por bem.
O Onipotente não permite a destruição de sua obra. Lúcifer, que teve a louca pretensão de colocar-se acima de Deus, foi precipitado nos abismos do inferno. A ditadura bolchevista, no afã de destruir a fé em Deus, cairá do seu poder como um aerólito chispante.
Sempre que se achava a barca da Igreja em perigo, Cristo dominou os vendavais. Quem, estuda a história, deve encher-se de confiança; pois, as portas do inferno não poderão destruir a Igreja de Deus.
Contudo, Deus salva os homens sem dispensa-los de sua cooperação eficaz. Com outrora os cruzados, hoje as nações civilizadas devem exclamar: "Avante, Deus o quer"!
Contudo, a nossa frouxidão, a nossa acídia deve transformar-se em zelo e atividade apostólica para que a civilização cristã em nosso país não sucumba às maquinações solertes dum inimigo universal.
Dois mundos se enfrentam: a fé e a incredulidade; a civilização cristã e o bolchevismo vermelho; a luz e as trevas; a vida e a morte. Esses dois poderes travam luta encarniçada pela sua existência e supremacia não somente na Rússia, mas ainda nos outros países.
É preciso decidir-nos. Homens indecisos, vacilantes não resolvem o problema. A escolha não é difícil. Não queremos que se apague a luz da verdade e que fogos fátuos conduzam a humanidade paga o terror da loucura. Não queremos que a cultura crista ceda o lugar ao barbarismo tártaro.
Não queremos que um punhado de tirano imponha à maioria o jugo da escravidão. Não queremos que o abuso do poder vilipendie a dignidade das mulheres e das virgens. Não queremos que os filhos sejam contaminados pela doutrina deletéria do ateísmo e se tornem vítimas do despotismo soviético.
A civilização cristã está diametralmente oposta ao comunismo. Estamos ao lado de Deus. Como suas criaturas somos bastante humildes para nos curvar ao seu domínio supremo. Queremos estar com Cristo, porque fora dele não há outro salvador.
Nós estamos ao lado da Igreja, nossa Mãe, coluna e fundamento da verdade. Quando o organismo social estremece e se abate, ela continua firme como um rochedo. Ela é um farol indestrutível, cuja luz guia a humanidade e salva os náufragos.
Somos cristãos e, com orgulhoso jubiloso, dizemos a todo o mundo: Nosso coração pertence a Deus, a Cristo e à Igreja. Deus nos acorda pelos seus inimigos. Eles semeiam o mal, mas Deus faz a colheita.
Capítulo XXIV
Confronto de duas situações
A implantação do regime comunista na Rússia achou, desde o início, terreno fertilíssimo. Os imperadores russos, durante o seu governo secular, caracterizavam-se pelo absolutismo e seu domínio autocrático. A liberdade, nas classes agrícolas e proletárias, era oprimida, quando não extinta, pela violência e o despotismo.
As massas populares, em geral, eram ignorantes e no meio delas não se formavam, ou raras vezes, homens que pudessem influir social e politicamente sobre o seu destino. O estudo era privilégio das altas categorias sociais. A liberdade vivia coatada e era atributo duma grande oligarquia, cujo expoente máximo era o próprio czar.
O desterro para a Sibéria, o encarceramento nas fortalezas, a pena capital, eram os meios para se manter o czar no seu trono. Do seu lado, as populações produtoras formavam uma massa ignara, obediente à chibata.
O sistema agrário dividia a população em grandes proprietários e camponeses, que erma verdadeiros servos da gleba e escravos dos latifundiários. A ignorância corria parelha com a superstição de grande parte dos habitantes.
O clero ortodoxo inferior, em consequência de suas tradições seculares, constituía uma classe que não gozava de nenhum prestígio, em vista dos seus costumes e falta de instrução, ao passo que o clero superior se achava estreitamente ligado ao governo imperial. Pois, o czar era o chefe civil e religioso da nação russa.
Entretanto, o povo guardava seus sentimentos de fé e cultivava a religião dos seus antepassados. Nos mosteiros e conventos praticava-se o ascetismo e havia monges notáveis pela sua virtude santidade. Havia, principalmente, os ascetas chamadas estarzas, que eram guias espirituais do povo e não raro os procuravam literatos, membros da alta aristocracia e professores de universidades.
Com a queda do império moscovita, depois da grande guerra, toda a organização política do país estremeceu nos seus fundamentos e baqueou. Os comunistas russos, tanto do exterior como no mesmo país, que todos espreitavam uma ocasião oportuna para a execução dos seus planos, prevaleceram-se do momento próprio e derrocaram o regime existente.
De fato, conseguiram com relativa facilidade hastear a bandeira vermelha no edifício do Kremlin, iniciando a conhecida guerra de extermínio contra as antigas instituições vigentes.
Confrontando esta situação da Rússia imperial com a situação do nosso país, não há espirito imparcial que não reconheça uma diferença profunda entre uma e outra.
Com efeito, o Brasil, desde o seu descobrimento, nunca se achou sob o regime do absolutismo. O culto e o exercício da liberdade formavam sempre o apanágio dos brasileiros no decurso de nossa história. E quando se manifestavam atos despóticos, a alma popular se insurgia contra a violência.
A constituição do império era liberal e os nossos imperantes, longe de serem tiranos, eram amigos verdadeiros da nação. O regime republicano, ampliando as liberdades políticas e sociais, consagrou o regime democrático.
Todos os cidadãos têm o direito de ascender às posições mais elevadas da nação.
Quanto à religião, a Igreja Católica desde os primórdios da nacionalidade, tem contribuído, poderosamente, em favor da instrução do povo, da catequese dos índios e na defesa dos direitos de todas as classes sociais. Subordinada ao Sumo Pontífice, a Igreja Católica tem mantido a sua independência e autonomia no Brasil.
Durante a monarquia, celebrava concordatas com o governo imperial, que respeitava os compromissos dali decorrentes. Da mesma maneira, as controvérsias acerca dos privilégios concedidos, manifestavam a autonomia da Igreja, como sucedeu na malfadada questão religiosa. E quando disposições legalistas pretendiam separar a religião dos brasileiros de Roma ou coatar a sua liberdade, a Igreja Católica não se sujeitava às imposições governamentais, reclamando sua independência e liberdade. É porque mantinha intacta a sua autoridade divina.
Como é sabido, durante o regime republicano, que sancionou a liberdade de culto, a Igreja Católica não somente conservou a sua independência absoluta, como também a sua liberdade dentro da constituição federal.
Não obstante isso, a religião católica tem prosperado e dispensado relevantíssimos benefícios à nação, tal qual em todos os tempos anteriores.
Com referência à economia política as condições do Brasil são profundamente diversas da situação da antiga Rússia. Aqui no Rio Grande predomina o sistema das pequenas propriedades. Cada agricultor ou colono possui terras próprias que pode cultivar à vontade; possui casa, com mais ou menos conforto, e benfeitorias; tem os animais e instrumentos agrários necessários; enfim, é senhor independente e governa os seus destinos.
Na campanha, os fazendeiros embora possuidores de latifúndios, não exploram os seus agregados e servos, antes lhes facilitam as condições de vida, dão-lhes ocasião para se tornarem proprietários de gado ou rendeiros de campos.
Acresce que os grandes latifúndios, em vista das leis de hereditariedade, se fragmentam ou subdividem constantemente, tornando-se pequenas propriedades acessíveis à posse de todos.
Nas cidades, onde predomina a indústria fabril, os operários gozam de conceito, tem um salário justo e cada um pode adquirir facilmente uma casa de moradia, com jardim ou pequena chácara. A sua vida é independente e livre e à semelhança dos outros homens, goza do direito de concorrer às eleições e de ocupar posições políticas ou administrativas.
O que se verifica com relação ao Rio Grande pode-se afirmar a respeito de todo o Brasil.
Quanto à liberdade de pensamento e de imprensa, quem teria o mau gosto de colocar o Brasil no mesmo nível da antiga Rússia? Nas duas câmaras do congresso federal, nas assembleias estaduais, nas praças públicas, nas colunas dos jornais gozam todos os cidadãos de uma liberdade amplíssima, que, não raro, ultrapassa os limites do direito alheio.
As escolas, os ginásios e as academias multiplicam-se constantemente. E se em muitas regiões do nosso vastíssimo país a instrução popular ainda deixa muito a desejar, devemos lembrar-nos que os governos da República e dos Estados se empenham no sentido de difundi-la e intensifica-la sempre mais.
Quem, portanto, tiver uma pequena parcela de boa vontade deve, de fato, confessar que a situação do Brasil, em particular a do Rio Grande do Sul, difere grandemente das condições em que se achava a Rússia imperialista antes de 1917.
Embora o aspecto geral da nossa pátria não seja igual ao da antiga Rússia, verifica-se entre nós um fato triste desolador. É, sobretudo, o ensino leigo com suas diversas modalidades e consequências que está preparando o caminho à anarquia comunista. Realmente, o ensino oficial baniu a religião do recinto da escola. A constituição federal impôs ao país o ensino leigo, que naturalmente educa uma geração indiferente em matéria religiosa, quando não declaradamente ateia.
Por mais que se aperfeiçoem e modernizem os métodos pedagógicos, uma educação que não assenta sobre o fundamento da moral cristã é imperfeita e prejudicial ao povo. A ciência pode dotar a inteligência de copiosos conhecimentos, mas não forma o caráter, não incute no coração a virtude indispensável, nem imprime, por isso, à vontade uma orientação segura nas operações humanas.
O benemérito governo do nosso Estado, reconhecendo os benefícios da educação cristã, faz, louvavelmente, aos estabelecimentos de ensino as concessões que o Estatuto da República lhe permite. Minas, igualmente, segue este exemplo patriótico. Mas, esse fato, de natureza quase particular, revela, justamente, a necessidade de ser modificado o ensino público em todo país.
A Igreja Católica emprega sues maiores esforços no sentido de instruir a infância e a juventude nas máximas da fé e nos preceitos divinos, prestando assim à nação um serviço de incalculável valor social e político.
Videant cônsules, vejam os dirigentes da nação! A religião é a coluna mais forte da ordem e da prosperidade da pátria.
Capítulo XXV
O bolchevismo não salva, destrói as nações
Um escritor fluminense emitiu os seguintes judiciosos conceitos, referindo-se a um manifesto bolchevista que circulou pela imprensa: Parece que o destino dos brasileiros foge sistematicamente às diretivas imaginadas pelo neo-preconizador da revolução agrária.
O descobrimento do nosso país resultou de um fato aleatório. Foram do mesmo caráter a sua independência política e a recomposição do sistema democrático sob a forma republicana. Realizamos todas as nossas conquistas por soluções incruentas, podendo dizer-se que apenas a abolição da escravatura teve uma propaganda, uma jornada preparatória.
O feitio psicológico da nossa gente desautoriza a concepção nos termos desse manifesto, que admite deva ser ilegal, clandestina ou invisível a ação revolucionária destinada a construir um regime comunista.
Aliás, se a tese contestável da existência de oprimidos e opressores pode determinar uma revolução no sentido objetivado, não é crível admitir que o autor do manifesto confie em tais elementos para mais alguma coisa que não seja o golpe de força, a execução material da revolução.
A vitória seria seguida do domínio de um indivíduo, ou de um pequeno grupo, tirado aquela vanguarda e que, necessariamente, passaria a exigir a mesma obediência, a mesma disciplina de todos nós.
Opressores e oprimidos sempre existiram sobre a terra, através de diferentes gradações de costumes e regimes, sendo irrefutável que o sovietismo sob esse aspecto está em plano inferior ao das chamadas democracias burguesas.
Finalizando, diz o articulista: Se acaso a implantação do bolchevismo entre nós não fosse uma utopia, temos a certeza que o autor daquele manifesto, se lhe não confiassem o papal de ditador, voltaria ao exílio para continuar a luta contra as tiranias insuscetíveis de regeneração.
Os homens retos e probos, mais do que os sistemas políticos, fazem o bom governo dos povos.
Se temos a lamentar erros na nossa vida econômica, social e política, há outros recursos para corrigi-los. Processos desumanos e bárbaros não podem solucionar os nossos problemas nacionais. É contraproducente a inoculação da toxina bolchevista nas veias da nossa população. A tentativa de sanar um mal por meio de uma catástrofe geral é um crime e uma monstruosidade.
Males dessa natureza não se curam pelo aniquilamento e destruição da própria sociedade.
O Grande prelado Dom Antônio de Macedo Costa exclamou um dia: "Ó cara pátria! Convence-te bem que só serás um povo grande e próspero pela prática da verdadeira liberdade, que tem por base a religião e a justiça.
Sem justiça, sem religião serás escrava, vil escravas dos mais vis despotismos, do despotismo da força, do despotismo da corrupção, do despotismo das paixões sem freio. O que mata as nações são os falsos princípios, e só estes é que a Igreja combate.
Sou brasileiro. Amo do fundo da alma esta terra do meu berço. Quero-a grande, livre e próspera. Estou convencido de que todas as formas políticas, apesar dos defeitos inerentes às coisas humanas, podem abrir às nações amplo e auspicioso futuro, contanto que o governo e o povo sejam fiéis à religião".
Estas palavras, proferidas há muitos anos, hoje como naquele tempo, exprimem a verdade, condenam o comunismo russo, o inimigo encarniçado da família, da prosperidade da pátria e de Deus.
A solução dos nossos problemas acha-se na observância das leis divinas e, por isso, na formação da vida pública segundo os moldes traçados pela doutrina de Jesus Cristo.
Por esse motivo, impõe-se a necessidade absoluta e urgente de se difundir pela ação católica os ensinamentos de Jesus Cristo no ensino particular, no exército e na armada, no congresso legislativo e nos costumes políticos, na família e na vida pública, afim de que a nação, já enfraquecida por doutrinas ímpias e ateístas, não caia nos braços do Moloch bolchevista.
Capítulo XXVI
A propaganda internacional do comunismo
O comunismo é propagado em todos os países do mundo por meio da Associação Internacional Operária, que se chama também Associação Internacional Comunista, ou simplesmente, Internacional. A história conhece três.
A 1ª Internacional, fundada em Londres no ano de 1864, por iniciativa de Karl Marx e do russo Bukarin, inscreveu no seu programa a seguinte lei: "A emancipação da classe operária deve ser conquistada pelos próprios operários". Uma divergência de ideias em questão de método determinou a dissolução do conselho geral da 1ª Internacional.
A 2ª Internacional, criada em Paris no ano de 1889, recebeu formas mais aperfeiçoadas em Londres no ano de 1890 e em Paris em 1900, sendo estabelecido em Bruxelas o secretariado socialista internacional de caráter permanente. Esta 2ª associação internacional excluía os anarquistas e só incorporava nas suas fileiras os grupos de operários que procuravam transformar a propriedade do capitalismo em propriedade socialista e consideravam a coparticipação na atividade parlamentar como meio necessário para a implantação do socialismo. A guerra europeia não tardou em pôr fim à "confraternização internacional".
A 3ª Internacional, organizada nas conferencias de elementos radicalmente revolucionários, realizadas em Zimmerwald e Kienthal, na Suíça, sob a direção dos bolchevistas Lenin e Trotsky, visava a subversão violenta da ordem existente, por meio da ditadura do proletariado para "expolir os espoliadores" e transformar a propriedade capitalista em propriedade socialista.
A legislação agrária da república soviética foi publicada no congresso soviético realizado em 1918.
A fundação formal, porém, da IIIª Internacional data do "1º congresso da união comunista internacional" de Moscou, efetuado em 2 a 6 de março de 1919, sendo sua organização interna completada no IIº congresso comunista que teve lugar em 17 de julho de 1º de agosto de 1920.
O 1
º parágrafo declara: A nova associação operária internacional foi criada com o fim de unificar as atividades dos operários dos diversos países, no intuito de conseguir a destruição do capitalismo, o estabelecimento da ditadura do proletariado e uma república soviética internacional para nivelamento das classes e a realização do socialismo, que é o primeiro grau da sociedade comunista.
Esta comissão chama-se a IIIª Internacional Comunista.
Para maior clareza transcrevemos nestas linhas o que o citado programa, mais amplamente, diz a respeito da natureza e dos fins e meios dessa instituição comunista: "A Internacional comunista é a internacional das associações operárias, unindo além das fronteiras o proletariado militante, sem distinção de nacionalidade, raça, religião, sexo ou profissão. A Internacional comunista abrange todos os partidos comunistas do mundo, sendo ela mesma um partido político: o Partido Internacional de combate do proletariado.
A sua tarefa é libertar os trabalhadores do jugo capitalista, preparando e organizando a queda violenta do regime burguês por meio da revolução proletária.
A Internacional comunista combate qualquer influência burguesa sobre o proletário, lutando contra a religião, contra qualquer filosofia que não seja o materialismo marxista integral, contra as doutrinas que apregoem a união entre o capital e o trabalho, contra o oportunismo socialista. Ela prega sobretudo a luta acérrima das classes.
Uma condição indispensável da passagem da organização capitalista para o comunismo é a ruina do estado burguês pela violência e a assunção do poder pelos operários. A ditadura do proletariado é a condição primária da evolução social.
A assunção do poder pelo proletariado é a destruição da organização burguesa e a concentração das armas nas mãos dos proletários. O desarmamento da burguesa e o armamento do proletariado é um dos primeiros fins da luta.
O proletário deve expropriar os expropriadores; normalmente, essa expropriação tomará a forma de confisco puro e simples dos meios de produção e entrega ao Estado proletário".
A Associação Internacional comunista divide-se em muitas agremiações, de acordo com as diferentes classes sociais e fins que pretende alcançar. Desta sorte, organiza-se a Internacional em associações para a mocidade, as mulheres, os camponeses, o ensino, esportes, assistência, cooperativismo, etc. Sua atuação consiste, enfim, na bolchevização de todas as camadas e categorias da sociedade. Como a erva de passarinho, pouco a pouco, destrói a árvore mais robusta, assim o bolchevismo pretende lançar suas raízes em todas as ramificações do organismo social, afim de lhe sugar a seiva vital e arruína-lo lentamente.
Por duas maneiras procuram os comunistas realizar os seus planos: Pela bolchevização direta e indireta. A bolchevização opera-se no seio do partido comunista de todos os países. A bolchevização indireta consiste em fazer penetrar o espírito bolchevista nas organizações operárias, sejam elas católicas ou socialistas moderadas. Essa bolchevização indireta obteve resultados notáveis na França, Noruega, China, África, Alemanha, Austrália, América Latina e em outros países.
No Brasil existe a "Confederação Geral do Trabalho do Brasil", fundada no congresso trabalhista de 1929, continuada no segundo congresso trabalhista de 7 de julho de 1930, filiada à Confederação Sindical Latino-Americana pelo congresso sindical de Montevidéu, organizada pela Internacional Sindical Vermelha sob a alta direção da Internacional comunista que é o secretariado especial para a América Latina, fundado em 1925.
Não queremos entrar em particularidades ou pormenores sobre as associações operárias que constituem a confederação brasileira que tem seus baluartes no Rio, em São Paulo e Porto Alegre, conforme se pode verificar pela imprensa e manifestos comunistas publicados. Sim, é fácil pôr-se ao par do movimento pela consulta da imprensa favorável ao movimento comunista e revolucionário. Dizemos movimento revolucionário, não somente porque as operações do bolchevismo são revolucionárias por princípio e devem, segundo o seu programa, aproveitar-se de todas as revoluções políticas, mas sobretudo porque as revoluções latino-americanas são dirigidas por um secretariado especial dependente a Internacional Sindical Vermelha. Dizemos ainda também comunista porque, embora não seja possível afirmar que todos o os membros da confederação brasileira sejam bolchevistas, contudo não há negar que os princípios, a linguagem oficial e a orientação dos próceres são comunistas.
Em confirmação desse asserto basta citar o seguinte trecho do manifesto do Comitê pró-confederação do trabalho no Brasil, preparando o primeiro congresso trabalhista de 26 de abril de 1929:
"Concentração das forças proletárias contra a concentração das forças burguesas significa o aumento das possibilidades de vitória do proletariado, significa a arregimentação segura do exército proletário para a vitória. Esta obra será a da confederação geral do trabalho. E para completa-la é preciso que nos unamos continentalmente ao proletariado da América Latina".
Portanto, em vista do exposto, não se pode duvidar que, infelizmente, o comunismo pretende estabelecer-se na república brasileira.
Capítulo XXVII
O direito da legítima defesa
Conforme se pode inferir do exposto nos capítulos anteriores, é o bolchevismo, sem dúvida, o sistema da violência e do terror, a exploração dos direitos alheios. Portanto, assiste a cada um o direito da sua própria defesa contra um regime perverso que visa a desgraça da nação.
Com efeito, é fato provado e, absolutamente certo, que o comunismo russo é o roubo da propriedade, a dissolução da família, a escravidão do povo, a destruição da pátria. Para ele não há razão de espécie alguma, não há lar, não há nação, dentro dos seus princípios, doutrinas e práticas.
Procura-se apagar a ideia de Deus na vida pública e particular. A ideia da civilização cristã não existe. A ideia de propriedade é um crime, a ideia de família é uma desonra, a ideia de liberdade é um delito no caso de não aprovar os desvarios, os crimes, a tirania do governo soviético.
Meia dúzia de sectários ferozes, como são os ditadores de Moscou e os comissários vermelhos das outras cidades e aldeias, fazem do povo um rebanho sem vontade própria, exploram na escravidão mais bárbara as massas trabalhadoras, envelhecem e depauperam todo o país, porque, sendo inimigos da civilização, da liberdade individual e do bem-estar coletivo, são incapazes de dirigir, construir, aperfeiçoar, mas há um único objetivo que os orienta na sua trágica desorientação, a saber a barbárie mais negra, na servidão mais cruel.
É deplorável, portanto, que emissários bolchevistas pretendam submeter e escravizar aos tiranos vermelhos o nosso glorioso Brasil, acabar com a nossa pátria, aniquilar a nossa liberdade, destruir a nossa família, desorganizar o nosso trabalho, extinguir a nossa propriedade, aviltar a religião dos nossos maiores e ludibriar as nossas massas operárias, tão livres e tão pacíficas.
Esse grito de alerta que se levantou na capital federal, deve ecoar por todo o Brasil, afim de chamar a sua atenção para o perigo que nos ameaça. A terra do cruzeiro está de posse secular dos bens da civilização e da cultura cristã, que ninguém lhe pode disputar. Faz, portanto, uso de um direito sagrado, do direito da defesa própria, defendendo-se contra um regime tão pernicioso.
Cabe aos poderes públicos a obrigação de defender seus súditos contra essa tirânica espoliação. O glorioso exército e nobre armada, talvez já vítimas da tentativa bolchevista, devem defender o pavilhão auriverde, ao qual juraram fidelidade e não permitir que se arvore o pendão vermelho nos quarteis e navios de guerra.
As classes conservadoras, cuja existência se ameaça destruir, compete agir com serenidade, firmeza e justiça. As instituições públicas não podem dormir em face da onda vermelha que no seu advento as pretende destruir.
As dignas classes operárias, que na Rússia tem servido de joguete nas mãos da tirania comunista e de ludibrio do governo soviético, não se deixem iludir. Seu futuro feliz depende da manutenção da ordem social estabelecida, de sua fidelidade à lei de Deus. E se for necessário melhorar as suas condições, acharão, facilmente, dentro da ordem e da lei, meios conducentes ao fim desejado. Os proletários são cidadãos brasileiros, como os outros habitantes do país, e lhes assiste o direito de salvaguardar seus direitos segundo as leis.
As classes trabalhadoras do campo, os camponeses ou os colonos, senhores independentes de formosas propriedades, tem de repelir, baseados no direito de sua própria defesa, a invasão das ideias e os ataques do bolchevismo, sob pena de serem reduzidos à condição de vis escravos.
Os fazendeiros, que constituem com a sua desenvolvida indústria pastoril preciosa fonte de riqueza pública, devem empregar esforços para conservarem a sua independência e liberdade de ação.
Aos intelectuais, os mentores espirituais do povo, cumpre o dever de instruir a sociedade, certos de que sua ação será coroada de opimos frutos.
A imprensa, tão livre e acatada em nossa terra, deve continuar sua luta antibolchevista, porque viveria, no regime soviético, sob o guante da tirania e das algemas do despotismo.
Vigiem, de modo especial, as supremas autoridades dos Estados e da República, porque a elas está confiada a manutenção da ordem pública e a prosperidade da nação.
Toda a população, governantes e governados, unidos pelo mesmo ideal, que é a salvação e a grandeza da pátria, devem protestar pela palavra, pela ação e pelo exemplo, contra a introdução do comunismo russo, que visa, unicamente, a destruição catastrófica da civilização cristã e das nações cultas.
É, por isso, que todos os brasileiros, amantes de sua grande pátria, protestam contra a supressão da liberdade e da justiça, praticada pelo governo soviético contra seus métodos violentos sem exemplo.
Protestam contra a perseguição religiosa, o fechamento dos templos e a destruição dos santuários pela mão vandálica do comunismo russo. Protestam contra a ruina do matrimonio cristão e da família, contra a educação ateísta e antirreligiosa da mocidade pela lei, pela escola, pela palavra, pelo filme, na Rússia soviética.
Protestam contra o plano de cinco anos para incrementar a luta religiosa e desarraigar todos os sentimentos da fé do coração do povo, sob o grito de guerra: Por Moscou ateísta e pela aldeia coletiva sem Deus.
Protestam contra a propaganda dirigida a subvencionada por Moscou, com o fim de revolucionar, por meio dos princípios envenenadores do bolchevismo, o Brasil, lançando-o no caos da anarquia.
Protestam contra o embuste oficial que nega a perseguição movida aos cristãos. Protestam contra os estragos culturais e econômicos, operados na Rússia soviética pelos ditadores bolchevistas e suas obras.
Capítulo XXVIII
A paz de Cristo
"Pax Christi in regno Christi – A paz de Cristo no reino de Cristo". Foi esta a saudação que o Sumo Pontífice Pio XI dirigiu ao mundo, logo depois de sua ascensão ao trono de São Pedro.
Durante o seu glorioso governo, não cessou, um só momento, de dilatar o reino espiritual de Cristo entre os homens e de tornar efetiva a paz do Redentor no meio das nações. Como outrora a voz dos Apóstolos, chega a sua palavra paternal aos confins da terra, ensinando aos povos as condições e os preceitos da paz.
Desde o início do seu pontificado, volve, continuamente, sua atenção às populações sofredoras da Rússia, multiplicando esforços para sustar as terríveis perseguições de que são vítimas e pedindo a Deus que lhes venha em socorro.
Ninguém ignora os grandes benefícios de ordem espiritual e material que ele tem dispensado aos habitantes da Rússia, sem distinção de classes e credos religiosos ou políticos.
Salvador do mundo, salvai a Rússia, é a prece que o Santo Padre endereça ao céu, acompanhado pelos católicos do universo.
Na alocução que pronunciou no consistório secreto de 30 de junho de 1930, ele disse aos cardeais: "Atribuímos à bondade de Deus misericordioso que esta grande e unanime cruzada de orações não foi vã ou infrutífera e é lícito esperar que para o futuro se torne ainda mais fecunda de benefícios, embora ultimamente naquelas mesmas regiões tenha recrudescido a perseguição da Igreja, por parte dos inimigos de Deus e do culto divino. Instemos, portanto, na oração a Cristo, redentor do gênero humano, para que seja restituída aos filhos perseguidos da Rússia a tranquilidade e a prática livre de sua fé. E afim que todos possam continuar sem fadiga e incomodado nesta santa empresa, ordenamos que as preces cuja recitação Nosso antecessor Leão XIII, de feliz memória, prescreveu ao clero e aos fiéis para depois da Missa, sejam ditas nesta intenção, a saber, pela Rússia. Os Bispos e o clero secular e regular com muito empenho comuniquem esta disposição aos seus fiéis e a todos que assistem ao santo sacrifício e muitas vezes chamem a atenção dos mesmos sobre este ponto".
Qual será o futuro destino que a Providência divina reservou ao desventurado povo russo? Até agora, não apareceram sinais certos que a essa nação infeliz anunciassem a formosa aurora de sua pronta redenção religiosa, social e política.
O governo bolchevista levantou-se sobre cadáveres e regou de sangue humano o caminho percorrido em doze anos. Apresenta às nações civilizadas um exemplo tétrico, um espelho em que se podem mirar.
Permita Deus que, em breve, se resolvam os problemas internos daquele país, que são a situação econômica, social e doméstica, o estado moral e educacional, e, sobretudo, a importantíssima questão religiosa. Pois, a solução destas questões oferece os elementos básico e primordiais que condicionam a estabilidade e o progresso de toda a sociedade humana.
Terminamos esta nossa carta pastoral comas palavras do Santo Padre Pio XI, tiradas de sua epistola dirigida ao sr. Cardeal Vigário de Roma.
"Seguro de que a divina Providência, no momento por ela estabelecido, preparará e dará os meios necessários para reparar as ruinas morais e materiais daquelas imensas regiões que formam a sexta parte de terras do orbe universo, Nós havemos de perseverar, com todo empenho da alma, nesta oração de reparação e propiciação, que chamará, confiante estamos, a divina misericórdia sobre o povo russo".
Dessa maneira, começará a reinar, assim confiamos, na Rússia a paz de Cristo, e no reino de Cristo ressurgirá a felicidade do povo. A paz de Cristo no reino de Cristo.
Esta nossa carta pastoral deve ser lida, registrada e arquivada, como de costume.
Et benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.
Dada e passada sob o sinal e selo das nossas armas, nesta cidade de Porto Alegre, aos 13 de setembro de 1930, vigésimo segundo aniversário de nossa sagração episcopal.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.