
O ANO SANTO
DÉCIMA PRIMEIRA QUARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1925)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
Roma, a cidade dos Césares e a cidade dos Papas
"Roma a triunfante, a dominadora das nações!" Exclama Louis
Veuillot na sua admirável obra Le Parfum de Rome. Triunfava, sim, e
dominava as nações a Roma dos Césares. Mas, seus triunfos e seu predomínio
mundial duraram apenas alguns séculos. Desde Otávio, que se fez imperador, até
Constantino Magno, Roma viu os dias de suas maiores glórias, e o mundo, turba
salutatrix, lhe rendia as mais entusiásticas homenagens. Os conquistadores
das províncias cingiram-lhe a fronte de louros viridantes e as cadeias áureas
que apertavam o pulso dos reis e príncipes prisioneiros emprestavam à sua
majestade um brilho singular. Os grandiosos sacrifícios oferecidos no Capitólio
aos deuses, em ação de graças pelas vitórias obtidas sobre os povos bárbaros e
pela incorporação de novos reinos, que equivaliam a outras tantas fontes de
riqueza e de fausto, mereceram à cidade de Rômulo o nome de rainha do mundo e o
lema ab ære vinces, vencerás eternamente.
Os Césares desapareceram e de suas glórias e do seu orgulho nos falam ainda as
ruínas e o pó da antiga Roma.
Entretanto, Roma ainda continua a ser a rainha do mundo. Não é a cidade dos Césares, mas a cidade dos Papas. Por isso, já lemos nos primeiros anos do Cristianismo que Roma fora criada por Deus para a sua Igreja e que tudo nela, desde as suas grandes linhas até os seus menores detalhes, desde a púrpura dos seus cônsules e dos seus Césares até a beleza de suas colinas e de seus horizontes, foi predestinado para adornar o trono em que havia de assentar-se o Vigário de Jesus Cristo.
Com efeito, a Itália, sede da Igreja universal, é, no dizer de um notável autor, o centro geográfico do mundo, equidistante do oriente e do ocidente. Deus a estendeu em forma feliz de península, em meio de dois mares, apoiando sua cabeça nas altas montanhas que a unem à França, Suíça e Áustria, e por isso, a todo o continente europeu, estendendo seus pés para o lado da Ásia e do Egito. Seu flanco esquerdo é banhado pela luz do sol nascente e oferece aos barcos que vêm do oriente uma multidão de golfos encantadores, desde Veneza a Brindisi. E quando o sol lança seus raios sobre o outro flanco da Itália, doira, com seus últimos esplendores, os magníficos golfos de Gênova, de Livorno, de Gaeta e de Nápoles, que atraem a si os navios do ocidente. "Deste ponto de vista, disse Napoleão, nenhuma terra está tão admiravelmente situada. Tem, compreendidas as suas grandes e pequenas ilhas, mil e duzentas léguas de costa, quer dizer um terço mais do que a Espanha e o dobro da França".
É, pois, uma situação única. Nessa terra admirável acha-se Roma, a cidade dos Papas. A sua posição geográfica se presta de um modo especial para o centro de uma Igreja universal, e Deus organizou na mesma ordem de ideias os seus arredores e horizontes. A cidade eterna está envolvida em contornos de solidão e silêncio que salientam ainda mais o seu caráter e destino espiritual. Muitas horas antes de se chegar às portas de Roma, quer se entre do lado de Florença, quer do lado de Nápoles, aparecem imensas planícies incultas, vastos campos sem aldeias nem granjas, apenas com alguns raros rebanhos. Este emolduramento, divinamente preparado para a cidade santa, em vista de sua missão sobrenatural, embaraçava profundamente a Roma imperial e humilhava a Roma antiga.
Por várias vezes, a poderosa rainha das nações tentou reformar, mas em vão, aqueles lugares desertos, que tão mal lhe ficavam. Conseguiu traçar através daqueles sertões suas estradas triunfais, cruzou-os com soberbos aquedutos e erigiu neles majestosos mausoléus; mas não logrou transformar a aridez de suas terras sáfaras. Pelo contrário, aumentou-lhe o aspecto tristonho e nostálgico, a partir do dia em que foram interceptadas suas vias públicas, destruídos seus aquedutos e profanados os seus monumentos funerários. Os escombros de suas ruínas intensificaram a tristeza e o aspecto de abandono desses ermos. Assim é que a harmonia entre a austera capital do catolicismo e o seu fim sobrenatural alcançou sua perfeição. A alma eleva-se da meditação das coisas terrenas que passam e se reduzem a pó, às verdades eternas, ao céu, nossa pátria definitiva e destino supremo.
É esta a cidade dos Papas, aonde, durante doze meses, afluem milhares e milhares de romeiros e se dirigem peregrinações procedentes de todos os países, a fim de ganharem o jubileu do Ano Santo.
CAPÍTULO II
Origem do Ano Santo
O Santo Padre Pio XI, por ocasião da festa da Ascensão do Senhor, a 29 de maio findo, anunciou, da Basílica do Vaticano, o Ano Santo, para 1925.
O ato do Chefe da Igreja Católica, declarando santo o ano de 1925, não é uma inovação, sim a continuidade de uma tradição que vem atravessando séculos e cuja origem se baseia no Antigo Testamento, no ano jubilar instituído por Moisés.
A Santa Igreja, sempre fiel e inexcedível guardiã na execução das tradições piedosas, também adotou este uso, sendo ele introduzido pelo Papa Bonifácio VIII, que anunciou para 1300 o primeiro Ano Santo.
Por essa ocasião exortava todo o povo católico a ir, em peregrinação, ao túmulo do príncipe dos apóstolos São Pedro.
O mesmo Papa ordenou, outrossim, que esse jubileu fosse comemorado de cem em cem anos.
Entre o grande número de peregrinos que foram a Roma, achava-se Dante Alighieri.
O Papa Clemente VI, que residia em Avignon, acedendo aos rogos de uma grande comissão romana, da qual faziam parte Cola de Rienzi e Petrarca, fixou para 1350 o segundo Ano Santo, estabelecendo, na mesma ocasião, que essa solenidade fosse repetida de 50 em 50 anos.
O Santo Padre Sisto IV, no ano de 1476, adotou o sistema de celebrar-se o Ano Santo de 25 em 25 anos.
O rito atual e com especialidade a abertura da porta santa, foi instituído pelo Papa Alexandre VI, no ano de 1500.
Dali por diante os jubileus se foram sucedendo ininterruptamente até 1775.
No ano de 1800 não foi possível comemorar-se o jubileu devido às guerras napoleônicas, sendo que só no ano de 1824 pôde o Santo Padre Leão XII anunciar o XX Ano Santo.
O penúltimo jubileu foi anunciado no Pontificado do Santo Padre Leão XIII, e o último recentemente, pelo Sumo Pontífice Pio XI, como acima dissemos.
A afluência de peregrinos para assistirem a essas solenidades é incalculável e, no penúltimo jubileu, ascendeu a mais de um milhão, motivo por que, muitos antes de ser anunciado o atual jubileu, já em Roma se cogitava dos meios de dar-se alojamento a tão avultado número de fiéis.
Eis, pois, em resumo, o que significa o Ano Santo, como diz com acerto um jornal da capital federal.
CAPÍTULO III
O tesouro espiritual da Igreja
Os méritos acumulados pelo divino Redentor durante sua vida terrestre e, principalmente, na sua paixão e morte, bem como os merecimentos da Santíssima Virgem e de todos os santos, constituem o tesouro espiritual da Igreja. Esta soma imensa de merecimentos é aplicável a toda a alma cristã que se ache na graça de Deus, em virtude do dogma consolador de nossa Fé, chamado Comunhão dos Santos, isto é, da Igreja militante, paciente e triunfante, e por força da qual a oração, as boas obras e os merecimentos de uns podem ajudar, e de fato ajudam, aos outros.
Esta doutrina, ensinada pela Igreja desde o alvorecer do cristianismo e solenemente confirmada pelo Concílio de Trento contra a negação do protestantismo, é exposta de um modo claro e preciso na Bula com que o Papa Clemente VI, em 1349, determina que de cinquenta em cinquenta anos, seja celebrado o ano jubilar.
"O Filho Unigênito de Deus, assim diz o Papa Clemente VI, dignou-se baixar no seio do Padre Eterno ao seio de sua Mãe, no qual ajuntou, em união inefável, a substância da nossa natureza mortal à sua divindade em unidade de pessoa, continuando a ser o que já era e assumido o que não era, a fim de que pudesse remir o homem caído e satisfazer por ele ao seu Eterno Pai. Quando chegou, pois, a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, criado sob a Lei, nascido de mulher, para que remisse aqueles que estavam sujeitos à Lei, de maneira que os mesmos receberam a adoção de filhos seus... Porquanto ele nos remiu não por meio de objetos sujeitos à corrupção, como o ouro ou a prata, mas com o Sangue precioso do Cordeiro incontaminado e imaculado, que, sendo inocente, se imolou por nós na cruz. E não somente uma gota de sangue derramou ele, o que, aliás, em virtude da sua união com o Verbo Eterno, teria bastado para a redenção de todo o gênero humano, mas derramou-o copiosamente e à maneira de amplo lavacro, assim que dos pés à cabeça nenhuma parte se encontrou nele que estivesse sem ferida.
Não podendo ficar tão grande efusão de misericórdia nem inútil, nem vã, nem supérflua, devemos admitir que com isto ele adquiriu um tesouro imenso para a Igreja, e como um pai extremoso que quer tornar ricos os seus filhos, assim pôs à disposição dos homens um tesouro imenso, por meio do qual todos que dele se queiram aproveitar, se tornam participantes da amizade de Deus.
E esse tesouro não o envolveu em uma mortalha, nem o escondeu num campo, mas confiou-o a São Pedro, que possui as chaves do reino dos céus, e aos seus sucessores, a fim de dispensá-lo em benefício dos fiéis e de aplicá-lo, segundo as circunstâncias, para a remissão, ora total ora parcial, da pena temporal devida aos pecados, e de modo geral ou particular, conforme no Senhor julgarem ser de maior utilidade, em favor dos mesmos fiéis que se tenham arrependido e confessado de seus pecados.
E para esse tesouro imenso contribuem também os merecimentos da excelsa Mãe de Deus e de todos os eleitos, desde o primeiro até ao último, pelo que não há absolutamente a recear que o mesmo possa esgotar-se ou sequer diminuir, já porque, como dissemos, os merecimentos de Cristo são infinitos, já porque quanto maior é o número de pessoas às quais é aplicado e que são conduzidas à justiça e à santidade, tanto maior se vai tornando a soma dos mesmos merecimentos.
Belíssima e não menos exata é essa última observação, acrescenta o boletim "Ano Santo", a saber que as almas que se purificaram na penitência e que por meio das indulgências readquiriram todo o fulgor da sua justiça batismal primitiva, contribuem, com os merecimentos que resultam das boas obras que vão praticando, para um novo aumento do tesouro dos merecimentos de que dispõe a Igreja, de sorte que este, longe de diminuir com o aparente dispêndio de merecimentos que são aplicados aos que a ele recorrem, na realidade é reforçado e aumenta, devido ao bem que pratica aquele que por meio desses merecimentos logrou uma vida religiosa mais intensa e, por isso mesmo, sente a necessidade de exercitar-se em numerosas obras de piedade e de caridade.
E a esta observação junta-se mais outra, que neste assunto é de capital importância e que, aliás, os protestantes tanto se comprazem em esquecer, considerando a indulgência como um meio mecânico e puramente exterior oferecido pela Igreja aos fiéis para obterem o perdão de seus pecados. Podia ser que houvesse, da parte de pessoas rudes e ignorantes, algum mal-entendido, alguma interpretação errônea; mas a doutrina da Igreja sobre esse assunto foi sempre muito clara, a saber que com o exercício das obras de piedade e de penitência prescritas para se lucrarem as indulgências plenárias ou parciais, não se obtém o perdão do pecado quanto à culpa. Para isso, é necessária a penitência interior, o desprendimento sincero e completo da alma do pecado e de todo afeto pecaminoso e sua conversão sincera a Deus, como claramente se diz na Bula acima mencionada: ...em favor dos fiéis que se tenham arrependido e confessado de seus pecados".
CAPÍTULO IV
A potencialidade religiosa do Ano Jubilar
Houve quem observasse haver praticamente pouca ou nenhuma diferença entre as indulgências do ano jubilar e dos tempos comuns, visto que a Igreja, nos últimos séculos, costuma concedê-las, com generosidade, aos fiéis. Também a indulgência plenária, à semelhança do Ano Santo, podem os fiéis lucrar muitas vezes, confessando-se e comungando nas devidas disposições, com relativa facilidade.
Por isso, poderia parecer, pelo menos segundo a disciplina atualmente em vigor, que o Ano Santo não seja portador de graças e privilégios extraordinários e excepcionais, por ser fácil ao fiel obter, nas circunstâncias ordinárias e sem grande dificuldade, toda aquela soma de graças e indulgências que se deveriam considerar como privilégio característico do Ano Santo.
A esta objeção feita a respeito da potencialidade religiosa, por assim dizer, do Ano Santo, é preciso ter presente uma distinção de máxima importância. Ou se trata de almas habitualmente unidas a Deus pela graça, isto é, daquelas almas que são chamadas justas, e para estas, às quais se pode aplicar a palavra da Sagrada Escritura "quem é justo, torne-se ainda mais justo"... "irão de virtude em virtude" etc. "todos os tempos, tanto os ordinários como os extraordinários, são propícios para se unirem sempre mais a Deus e para aumentarem indefinidamente o tesouro de suas riquezas espirituais". Não se pode negar, contudo, que também para elas as circunstâncias excepcionais que se verificam nos tempos extraordinários muito contribuem para avivar o seu fervor, para intensificar a sua piedade e, por isso, para lhes oferecer uma quantidade de bens espirituais superiores, se é lícito dizer assim, à medida que se obtém nas circunstâncias comuns.
Ou se trata de almas que vivem afastadas de Deus e, consequentemente, em estado de pecado e sujeitas a hábitos culpáveis e inveterados. Sem analisarmos minuciosamente o estado lastimável em que tais almas se acham, diremos somente, considerado o assunto sob o ponto de vista da cooperação humana com a graça divina – a qual é o elemento preponderante na justificação sobrenatural do homem – que as dificuldades que devem ser vencidas por quem deseja seriamente sacudir o jugo do pecado são bastante graves, e em face delas não se pode falar de maior ou de menor facilidade de cumprir aquelas obras externas, prescritas como condição para obter a purificação perfeita e a isenção completa de todo o resto da pena.
Cada conversão traz consigo uma profunda renovação da vida do espírito. E, as mais das vezes, essa renovação não se realiza senão por meio de um árduo trabalho interior, de uma luta penosa consigo mesmo, quase sempre prolongada.
As aspirações, os novos desejos que a graça divina suscita na alma acham uma oposição formidável nos afetos que de longos tempos se radicaram no coração, nos hábitos que facilmente não se emendam de um só golpe, no orgulho secreto que, há muito, afirmou sua liberdade e independência da lei divina, e por isso, de má vontade, se prontifica a sujeitar-se ao influxo da graça, que ele ainda não compreende e cujas doçuras ainda não experimenta.
Ora, esse grandioso trabalho de reforma interna requer em todos os tempos um esforço de vontade não comum, uma vitória sobre si mesmo, que é o epílogo de longas e penosas lutas que apresentam, sempre e por toda a parte, a mesma dificuldade. E esse trabalho, esse esforço especial, como é evidente, constitui a atividade principal da alma que quer sinceramente livrar-se do pecado e converter-se a Deus. Neste caso, pois, admitidas também todas as facilidades de ordem exterior indicadas na objeção acima referida, a comparação que nela se estabelece entre as condições dos tempos ordinários e aquelas que a Igreja ofereceu nos Anos Santos perde todo o seu valor.
A graça, todavia, como afirmam todos os teólogos, costuma operar por vias misteriosas sobre o coração humano, e se prevalece frequentemente de circunstâncias exteriores, algumas vezes também de valor mínimo aos olhos humanos, para penetrar nos profundos recessos de uma alma e despertá-la do letargo em que caiu. E parece que a graça, em algumas circunstâncias especiais, por exemplo em ocasião de missões e em tempos determinados, como nos Anos Santos, torna mais frequentes e mais fortes seus apelos ao coração humano, tendo por resultado numerosas e assinaladas conquistas.
O grito material da Igreja que se dirige a tantas almas transviadas que, em várias e tristes atividades, longe dela se afastam; a voz paternal do Vigário de Cristo, que aos homens desiludidos e desanimados mostra como somente no místico reino de Jesus se encontra e se opera aquela paz segura e estável que é o suspiro perene dos corações humanos; aquela atmosfera de piedade e de fervor que se forma pelo acendrado entusiasmo e pela operosidade intensificada das almas boas, tem uma repercussão mais forte do que se pensa, nos corações de tantas e tantas pobres criaturas humanas combatidas, aqui e acolá, pelas furiosas tempestades da vida. Muitos desses homens sentem um impulso divino para abandonarem as coisas caducas, a vida frívola e mundana de todo o dia para abraçarem a verdade eterna e imutável que a nossa Fé lhes põe ante os olhos. Assim aconteceu no primeiro jubileu de 1300, conforme testemunha Dante. Dos outros jubileus se poderia dizer o mesmo, porque neles se notou uma renovação extraordinária da fé. O Cardeal Wiseman, referindo-se ao que havia visto no jubileu de 1825, disse, numa conferência polêmica contra os protestantes: ''Eu desejaria que vós tivésseis visto a numerosa fileira daqueles que se ajoelhavam à sagrada mesa, que cercaram os confessionários, que rodeavam os altares. Eu desejaria que tivésseis visto como se reparava o mal feito, como obstinados pecadores se convertiam; então vós compreendereis porque homens e senhoras fazem essa peregrinação incômoda, então podereis julgar se essa instituição seja uma perigosa condescendência aos pecadores e um passaporte para o pecado''. No tempo do jubileu de 1775, D'Alembert lamentara-se amargamente dos efeitos produzidos pelo mesmo jubileu, afirmando que este tinha retardado a revolução por uns vinte anos. E Voltaire manifestou, com frase mais incisiva, seu pensamento: ''Ainda um jubileu como este, e a Filosofia está em breve despachada''.
Nos domínios da política nacional, giram em torno da palavra amnistia as mais fagueiras esperanças. A família brasileira reclama a paz. A nação agitada e sobrecarregada de pesados encargos necessita de tranquilidade, para que possa encetar seus trabalhos em toda a esfera de sua atividade e satisfazer seus compromissos. Dizem, aqui e acolá, que a condição essencial para o restabelecimento da paz nos departamentos da Pátria, é a amnistia política. Dali, as esperanças! Permita Deus que a paz venha e seja duradoura e imperturbável no futuro! Aqui trataremos da amnistia espiritual, do perdão dos pecados e das penas temporais. É uma amnistia individual, mas que se entende e se generaliza à medida que os católicos dela queiram fazer uso.
O Santo Padre a proclamou e depende só da vontade de cada um e não de injunções políticas. Diz, com efeito, a Bula Pontifícia de 29 de maio do ano passado que todos os fiéis cristãos que, confessando-se e recebendo a sagrada Comunhão, visitarem, orando segundo a intenção do Santo Padre, as Basílicas de São Pedro, São Paulo, São João de Latrão e Santa Maria Maior, ao menos uma vez por dia, durante 20 dias para os romanos ou pessoas residentes em Roma, e 10 dias para os peregrinos, podendo ser esses dias sucessivos ou intercalados e computados segundo o uso civil ou eclesiástico, podem lucrar a indulgência com a remissão de todos os pecados. Para os forasteiros, portanto, que vão como peregrinos a Roma, bastam dez dias das referidas visitas, quando não tenham obtido outra redução, que não pode torná-las inferiores a três. Quando devem ser feitas as visitas?
Durante o ano santo; mas cada uma das visitas às quatro Basílicas mencionadas deve realizar-se no mesmo dia, pelo que não se podem visitar, por exemplo, num dia as duas primeiras e noutro os restantes. Esse dia se computa, segundo a norma do Código canônico, do meio-dia precedente à meia-noite do dia seguinte. Assim, pois, quem pelas onze horas termina a visita às quatro Basílicas, por exemplo, à de São Paulo, pode, depois das doze horas, ali mesmo recomeçar a visita correspondente à série seguinte. A palavra ''romanos'' indica não somente os naturais de Roma, mas também todos os que lá tenham domicílio ou quase domicílio, como ainda aqueles que residem nos subúrbios dentro dos limites das paróquias da cidade eterna. Todos os outros podem ser chamados forasteiros ou peregrinos, também se moram no campo.
Quando alguém vai a Roma, não como peregrino, mas somente para outros negócios, pode ganhar o jubileu, fazendo as visitas prescritas para os romanos, ao passo que aquele que for com o fim de lucrar o jubileu e, na mesma ocasião, pretende tratar de negócios, pode considerar-se peregrino, contanto que não demore mais de seis meses em Roma. Como devem ser feitas as visitas a cada uma das Basílicas? É prescrito somente que nas visitas se faça alguma oração vocal, ou mental acompanhada de outra vocal, rezando-se pela paz universal, pela reconciliação dos dissidentes com a Igreja e pela sorte dos cristãos da Terra Santa. Não é, por isso, necessário, embora seja muito conveniente, andar a pé, entrar pela porta santa, caminhar orando, visitar altares determinados, rezar de joelhos, recitar determinadas orações. É opinião aceita de ser preciso no mínimo o tempo que se ocupa com a recitação de cinco Pai-nossos e Ave-marias. E está claro, porque a brevidade da oração tem sua causa no pouco fervor. Convém acrescentar que nas visitas basta orar em geral segundo a intenção do Romano Pontífice, não sendo necessário especificá-la.
Os peregrinos que adoecem em Roma seu durante a viagem ou ainda os que estejam impedidos por grave causa não necessitam da dispensa dos confessores ou da Santa Penitenciária, ficando eles dispensados, de todo ou, em parte, das visitas, pela Bula de promulgação e, sendo-lhes impossível fazer outra coisa, basta que recebam os sacramentos da penitência e da comunhão. Na visita das Basílicas é indiferente a ordem que se queira observar. Além disso, pode-se repetir a visita no mesmo dia, fazendo uma às quatro igrejas segundo o dia civil, e uma outra depois das doze horas, antecipando-a para o dia seguinte conforme o dia eclesiástico, porque dando-se liberdade de computar o dia civil ou eclesiasticamente, concede-se também a faculdade de antecipar as visitas para o dia seguinte do meio-dia em diante. A confissão prescrita para o jubileu pode ser feita em qualquer lugar e com qualquer confessor. Só aqueles que tiverem necessidade de serem absolvidos de casos reservados, deverão confessar-se com sacerdote que tenha a respectiva faculdade, a qual tem agora em Roma todos os confessores aprovados pelo vicariato.
Assim também, a comunhão, que deve ser sacramental e não espiritual, pode ser feita em qualquer lugar, ainda fora de Roma, não havendo a respeito disso nenhuma prescrição. Contudo, tanto a confissão como a comunhão devem ser feitas especialmente para ganhar o jubileu, não sendo suficientes para isso a confissão anual e a comunhão pascal. Basta, contudo, a comunhão recebida por viático. O penitente também deve confessar-se, ainda que tenha só pecados veniais. Neste caso, porém, não é necessária a absolvição. Os que fisicamente, por exemplo por doença, estiverem impedidos de comungar, poderão obter comutação, fazendo uma comunhão espiritual.
Os adultos não podem ser dispensados da confissão nem da comunhão. Pode-se ganhar mais de uma vez o atual jubileu? Eis, uma nova questão! Com referência à indulgência plenária, pode esta só uma única vez cada um lucrar para si, e depois pode aplicá-la às almas dos defuntos tantas vezes quantas praticar, em Roma, as obras prescritas ou reduzidas; fora de Roma, porém, só uma vez para lucrar para si e uma vez para as almas dos defuntos. Convém ainda notar que as condições impostas podem cumprir-se na ordem que mais agradar a cada um, e por isso é permitido ao peregrino fazer primeiro a confissão e a comunhão ou primeiro as visitas às Basílicas, como quiser. Mas, há de saber: 1º que as visitas devem ser feitas às quatro Basílicas no mesmo dia e 2º que a última das obras impostas, à qual está ligada a aquisição da indulgência plenária, deve ser feita em estado de graça. São estas as condições para os fiéis obterem a indulgência plenária do ano jubilar – a amnistia espiritual.
Pela Constituição Apostólica Ex quo primum de 5 de julho último, suspende o Santo Padre várias indulgências e privilégios durante o Ano Santo. Sisto IV, em 1473, publicou um decreto, suspendendo, fora de Roma, as indulgências e as faculdades de dispensar e de absolver no foro interno e externo, durante o ano jubilar que então se celebrava. Essa disciplina observada também nos tempos posteriores tem o duplo fim de unir mais fortemente os fiéis do orbe católico à Sé Apostólica, convidando-os para obterem na cidade eterna os privilégios suspensos, e de excitar nos acatólicos, pela concorrência extraordinária de peregrinos, o desejo de voltarem para a verdadeira Igreja. Esses dois fins, de unir os católicos sempre mais, pelos vínculos da fé e de amor, ao Sumo Pontífice, e de chamar os dissidentes para o grêmio do catolicismo, foram sempre, mais ou menos, alcançados. Por isso, os sucessores de Sisto IV confirmaram o referido decreto, feitas algumas modificações. O Santo Padre Pio XI segue a mesma disciplina secular, tanto mais que a rapidez e a comodidade das viagens, bem como o sistema de peregrinações, torna hoje mais fácil que em outros tempos a visita ao centro do catolicismo. Portanto, ficam suspensas, fora de Roma por todo o Ano Santo, as costumadas indulgências e faculdades concedidas, com exceção das seguintes: 1. As indulgências lucráveis in articulo mortis. 2. A indulgência anexa à recitação do Angelus ou das outras orações prescritas pela liturgia do tempo para o toque de sinos da manhã, de meio-dia e de tarde. 3. As indulgências das Quarenta Horas. 4. As indulgências concedidas aos que acompanhavam o Santíssimo Sacramento levado aos enfermos ou que, com esse fim, oferecem a vela ou a tocha. 5. A indulgência concedida aos visitantes da Porciúncula, na Igreja de Santa Maria dos Anjos, em Assis. 6. As indulgências que costumam ser concedidas pelos Eminentíssimos Cardeais, pelos Ilustríssimos e Reverendíssimos Núncios da Sé Apostólica, Arcebispos e Bispos nos pontificais, quer lançando a bênção, quer de outra forma costumada.
Todas as demais indulgências plenárias ou parciais concedidas diretamente pela Santa Sé, ou de qualquer outro modo concedidas ou ainda por conceder, seja por lei, seja por indulto, não serão aplicáveis, por todo o Ano Santo, aos vivos, mas somente aos defuntos. Do mesmo modo ficam suspensas, durante o Ano Santo, fora de Roma e de seus subúrbios, todas as faculdades e os indultos, concedidos de qualquer forma que seja, para absolver também dos casos reservados à Santa Sé, para dispensar ou comutar votos, para dispensar de irregularidade e impedimentos. Também neste ponto existem exceções e são: 1. Ficam em vigor todas as faculdades de qualquer modo concedidas em virtude do Código do direito canônico, não, porém, as faculdades provenientes do privilégio, como nos cânones 4 e 613. 2. Ficam também em vigor as faculdades de qualquer modo concedidas pela Sé Apostólica pro foro externo aos Ilustríssimos e Reverendíssimos Ordinários e Prelados das Ordens religiosas para com os seus súditos. 3. As faculdades concedidas pela Santa Penitenciária aos Ordinários e aos Confessores pro foro interno, ficam em vigor mesmo fora de Roma, com a condição, porém, de serem aplicadas a tais penitentes que, no momento da Confissão e a juízo do Ordinário ou do Confessor, não possam ir a Roma sem grande incômodo.
A Constituição Apostólica Muneri, de 30 de julho do ano passado, concede privilégios especiais às pessoas impedidas, por graves razões, de empreender a peregrinação romana ou de visitar as quatro Basílicas. A benigna concessão do Santo Padre estende-se não somente às comunidades religiosas, mas também a todas as pessoas que, achando-se em Roma ou fora, estejam impossibilitadas de satisfazer às condições prescritas para ganhar a indulgência jubilar. Os membros, pois, dessas comunidades e as referidas pessoas podem lucrar todas as graças do Ano Santo, com tanto que tenham as devidas disposições interiores e observem o que a citada Constituição prescreve.
Das referidas concessões podem gozar as seguintes pessoas: 1. As monjas de clausura, as suas aspirantes, petulantes e noviças, bem como as educandas e outras pessoas que por legítima causa moram nas mesmas casas religiosas, ao menos a maior parte do ano. Gozam do mesmo privilégio as mulheres empregadas como serviçais ou que entram na casa por motivos das esmolas que para as religiosas pedem. 2. As irmãs de votos simples, pertencentes a Congregações de direito pontifício ou diocesano, ainda que não obrigadas à clausura; as suas aspirantes, postulantes e noviças; as suas educandas, compreendidas as chamadas semiconviventes; as demais pessoas que moram nas mesmas casas religiosas e que ali têm o domicílio ou quase domicílio. São excluídas, portanto, as conviventes externas. 3. As oblatas, isto é, as pessoas piedosas que levam juntamente vida comum, mesmo sem os votos, cujos estatutos, porém, sejam aprovados provisória ou definitivamente pela Autoridade Eclesiástica; as suas aspirantes, postulantes, noviças, educandas e as outras pessoas que coabitam juntamente, como está indicado para o n. 2. 4. As que pertencem a qualquer das Terceiras Ordens Religiosas, fazendo vida comum, com aprovação eclesiástica: as outras classes de pessoas que vivem juntamente com elas, como reza acima o n. 2. 5. As moças e senhoras que moram nos colégios, mesmo que não pertençam à classe das pessoas acima mencionadas. 6. Os anacoretas e eremitas que, em contínua, posto que não perpétua, clausura e solidão, levam vida contemplativa, professando uma Ordem monástica ou regular, como os Cistercienses reformados da B. V. M. da Trappa, os Eremitas Camaldulenses e Cartusianos; são, portanto, excluídos os que vivem em Comunidade ou solitários sem leis de clausura, posto que debaixo de certas regras e sob vigilância do Ordinário. 7. Os fiéis de ambos os sexos, detidos em prisão inimiga ou guardados no cárcere ou exilados ou confinados ou condenados a trabalhos forçados; assim também, os eclesiásticos ou os religiosos conservados em casas religiosas para correção. 8. Os fiéis de ambos os sexos que por enfermidade não possam ir a Roma dentro do Ano do Jubileu, ou não podem fazer as visitas prescritas às Basílicas patriarcais ou que assistem aos doentes nos hospitais, quer ganhando, quer como voluntários; os operários que ganham a vida com o trabalho quotidiano, que não o podem deixar por muitos dias ou por muitas horas; finalmente, os velhos que já completaram 70 anos de idade. Todos quantos acima foram mencionados poderão lucrar a indulgência do jubileu, se, arrependidos dos seus pecados, se confessarem e comungarem, orando, com fé e piedade, segundo a intenção do Papa, principalmente pela paz universal dos povos, pela conversão dos acatólicos e pela sorte dos lugares da Terra Santa. Quanto às visitas das quatro Basílicas, poderá o Ordinário, por si ou por prudentes confessores, comutá-las por outras obras de religião e caridade, conforme a condição, a saúde de cada um e circunstâncias do tempo. O Santo Padre quer, desta maneira, demonstrar seu grande amor aos seus filhos espirituais; mas espera que estes, com muito fervor, se dediquem às obras de piedade, à sua própria santificação.
De modo especial podemos neste ano repetir a palavra que São João Crisóstomo proferiu na sua 22ª epístola: Non ita splendet coelum cum radios sol emitit, ut romanorum urbs: o céu não brilha tanto, quando derrama os seus raios, como a cidade dos romanos. Com efeito, Roma, com a distribuição de graças extraordinárias, com a canonização de vários santos, com a afluência de centenas de milhares de peregrinos procedentes de todos os países, com a grandiosa exposição missionária, prova visível e palpável de sua benemerência na civilização dos povos, com a santificação de tantas almas – Roma, com esse conjunto de obras brilhantes, reveste-se de um esplendor que passa os limites da Itália e da Europa refletindo-se nos confins do mundo cristão.
O Santo Padre, nesse certame de fé, de amor a Deus e de caridade aos homens, tem o desejo ardente, a intenção magnânima de restabelecer a paz entre os homens, a paz mundial que ainda não existe, apesar dos jogos políticos, das conferências diplomáticas que constantemente se realizam. Por isso, diz ele textualmente: ''Qual seja, aos demais, a intenção geral do Sumo Pontífice, certamente o não ignorais, filhos diletíssimos; há, porém, uma intenção especial que formamos por ocasião do ''Grande Jubileu'' e cuja realização conosco haveis de pedir. Queremos dizer: a paz. Não a paz impressa em documentos, mas gravada nos corações, a paz que deve reinar entre as nações e que, menos afastada, talvez hoje do que há pouco, parece ainda ausente em relação ao grau dos nossos desejos, dos desejos de todos. Se, porém, vós, habitantes da cidade ou peregrinos vindos a Roma, com a alma purificada de todos os pecados e ardendo em chamas de caridade, implorardes ao Céu essa graça sobre os túmulos dos Santos Apóstolos – não deveis esperar firmemente que Jesus Cristo, Príncipe da Paz, que outrora apaziguou com um gesto as ondas do Mar da Galileia, tendo enfim piedade de nós, igualmente ordene às tempestades que há tanto tempo convulsionam a Europa, que se acalmem e fiquem em paz''? Sem dúvida, o Ano Santo oferece condições especiais para a pacificação dos indivíduos e dos povos. Haverá, por ventura, meio mais indicado para refrear a indisciplina e os movimentos revolucionários do que o espírito de mortificação e de penitência, a remissão das penas e a expiação das faltas cometidas, que o Ano Santo ensina e promove? As opiniões não se formam pela força.
A reforma do coração depende essencialmente do desengano do espírito, fruto da persuasão. Ora, em Roma, durante o jubileu, se presencia a mais bela confraternização de representantes de todos os povos. O mesmo ideal os inspira e conduz aos pés do Pai comum, onde devem cessar os rancores, os ódios e as dissensões. São irmãos de diferentes países e línguas, que se encontram diante do trono pontifício e visitam as mesmas basílicas repetindo a oração dominical: Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Como poderão, pois, esperar o perdão das culpas próprias, se não quiserem perdoar aos seus inimigos?
As pregações, as preces públicas, os luminosos exemplos de penitência, as conversões, as demonstrações de fé e piedade estabelecem, forçosamente, entre os peregrinos relações de amizade, aumentam o respeito mútuo e a consideração recíproca. A visita das catacumbas, das praças públicas, dos anfiteatros em ruínas nos lembram o heroísmo dos primeiros cristãos, que perdoaram aos seus próprios algozes, respeitaram as leis justas do império romano e derramaram seu sangue em testemunho da mesma fé que também nós professamos. O sangue, as orações e os gritos lancinantes dos mártires pregarão aos peregrinos o amor fraterno, a caridade cristã, a obediência à lei de Deus e aos que legitimamente exercem o poder da sociedade humana. Dali, sob o poderoso influxo da graça divina, que todos hão de implorar, nascerá a reflexão, ressurgirá, com a troca de ideias e demonstrações de benevolência mútua, a pacificação dos ânimos, condição e garantia da paz internacional.
É essa paz que o Sumo Pontífice tanto deseja e implora, com ardor, à misericórdia divina. E não poderemos nós, os brasileiros, esperar que o Ano Santo nos proporcione a paz definitiva em todo o território nacional? Assim cremos, assim esperamos! Pois, os motivos acima expostos militam também em favor da pacificação da grande família brasileira. E qual é a nossa situação? É de todos conhecida! Levantes militares, movimentos de forças legais e revolucionárias, invasão de propriedades alheias, combates e encontros sanguinolentos, assaltos e chacinas, a morte de ilustres oficiais do exército nacional e de pranteados esposos, pais e jovens esperançosos, o luto no lar, o estado de sítio, os enormes gastos do tesouro público e a ruína das finanças do país, todos esses fatos tristíssimos e outros mais reclamam a pronta pacificação da nossa Pátria. Não terá o Deus misericordioso compaixão do nosso povo? Durante o corrente ano irão tantos católicos brasileiros, em peregrinação e isoladamente, aos santuários mais célebres da Europa e visitarão os lugares santos da Palestina, onde Nosso Senhor Jesus Cristo viveu e morreu sobre a cruz para salvar o gênero humano, e lá, em Lourdes, Lisieux, Loreto, Assis, Roma, Pompéia, Nazaré, Belém e Jerusalém, subirá em oração ao céu pela felicidade e pela paz da Pátria comum, e a bendita Terra de Santa Cruz. Entretanto, é preciso que todos os brasileiros cumpram o seu dever. Seja, sobretudo, respeitada a autoridade do supremo magistrado da Nação e dos governantes dos Estados. Sem disciplina, sem obediência às leis do país, é impossível que haja tranquilidade social.
Deus, o juiz máximo da humanidade, reprova e condena a revolução contra os legítimos poderes públicos. Mas, é necessário também que os dirigentes da Nação e dos Estados procurem meios para um entendimento com os revolucionários, fazendo-lhes concessões razoáveis e temperando o rigor da justiça com os sentimentos da caridade e fraternidade cristã. Terminar pacificamente, não por meio do extermínio, essa luta é um grande ato de são patriotismo e aqueles que se empenham na solução desse gravíssimo problema nacional têm direito ao título de beneméritos da Pátria. Os patrióticos governos da União e deste Estado já manifestaram, nesse sentido, sua boa vontade e, de outro lado, os chefes revolucionários já se inclinam a um acordo mútuo. Permita Deus que essas tratativas e boas disposições sejam eficazes e que o Ano Santo restabeleça a paz em todo o Brasil.
CAPÍTULO V
A Exposição Missionária Vaticana
Um dos maiores atrativos do Ano Santo, tanto para os romanos como para os numerosos peregrinos que irão a Roma, oriundos de todas as partes do mundo, será, sem dúvida, constituído pela Exposição Missionária Vaticana, assim diz, com razão, o boletim "Ano Santo", que nos fornece as seguintes informações. Já existiam, tanto em Roma como em outras cidades, pequeninos mostruários e coleções de objetos referentes às missões e à sua história; a exposição do Ano Santo, porém, representa o que de mais interessante se tem feito nesse terreno, já pela profusão de objetos e curiosidades que se poderão admirar, já pelo critério científico que presidia à distribuição e catalogação dos mesmos. Como se sabe, a exposição foi instalada em uma parte dos jardins do Vaticano, no pátio da Pigna e no da Corazza. A entrada principal é a dos jardins, passando-se depois aos dois mencionados pátios. A construção dos numerosos pavilhões de que se compõem o notabilíssimo certame já deve estar pronta; alguns deles apresentam um aspecto elegante e sóbrio. Dentre as principais seções da Exposição destaca-se, sem dúvida, aquela que é destinada à "História Retrospectiva das Missões", na qual o visitante poderá ter facilmente uma impressão do desenvolvimento que, através dos séculos, vem operando a atividade missionária no seio da Igreja Católica.
Essa história retrospectiva abrange quatro grandes períodos: o primeiro, dos tempos apostólicos até o século V era vulgar; o segundo, do século V a fins do século XII, em que são exibidos documentos curiosíssimos da formação da Nova Europa sob os influxos do Cristianismo; o terceiro, do século XIII ao século XV, correspondente às Missões dos Frades Menores e dos Frades Pregadores, principalmente na Ásia Central e Oriental. O quarto período será o da nova era das Missões nos Continentes asiático, africano, americano, desde o começo do século XVI até o princípio do pontificado de Pio IX (1846). Nos pavilhões destinados a essa seção são exibidos os retratos dos fundadores das Missões e dos mais célebres missionários, cartas geográficas com os itinerários das viagens empreendidas, curiosidades dos países percorridos, reproduções das primeiras casas e igrejas das missões, etc.
Uma sala especial será destinada a ilustrar o heroísmo de numerosos missionários que, com insuperável abnegação e apreço do próprio sangue, propagaram e disseminaram a fé pela superfície do globo. A segunda seção é destinada à etnografia e se divide em duas partes. A primeira é de ordem geral e científica e nela se mostra o desenvolvimento das diversas civilizações do mundo, começando pelas primitivas, como também a antítese existente entre o desenvolvimento da cultura religiosa, étnica e social e o da cultura material e técnica. A segunda parte, de ordem mais especial e de caráter mais popular, se refere aos diferentes costumes das populações onde presentemente se acham estabelecidas as missões católicas. Figuram, de modo particular, nesta seção os templos, os lugares destinados ao culto, os emblemas que se referem ao chamado totemismo, os objetos pertencentes aos vários cultos, como sejam altares, vestes, ídolos, etc. São representados os vários ritos dos cultos pagãos com referência ao matrimônio, sepultura, magia, etc. A terceira seção, chamada de estatística, compreende uma síntese geral da atividade missionária de cada ordem e congregação religiosa, seminários, associações auxiliares, suas instituições e obras; a Sagrada Congregação de Propaganda Fide, sua história, seu funcionamento, suas missões especiais e obras.
Enfim, quis o Santo Padre que figurasse na exposição uma seção médica, para dar uma ideia das doenças nos países das missões, dos perigos a que os missionários se sujeitam e do papel importante que a medicina representa no exercício do apostolado católico entre os pagãos. Essa exposição revela a grande atividade civilizadora e a benemerência dos missionários, bem como a vitalidade indestrutível e divina da Igreja.
CAPÍTULO VI
Nossa próxima viagem a Roma
Anunciamos ao nosso amado Clero e aos fiéis desta Arquidiocese a nossa próxima viagem a Roma, em obediência às leis canônicas, a fim de visitarmos o Sumo Pontífice e os túmulos dos santos apóstolos Pedro e Paulo. Esta visita é cognominada, no direito eclesiástico, -- ad sacra Apostolorum limina. Na hora solene e inolvidável de sua sagração, o Bispo jura obediência, devotamento, assistência e submissão ao Papa, chefe supremo da Igreja Católica e, entre outros, assume o compromisso da referida visita que deve realizar em determinados tempos. Este juramento indica o vínculo sagrado que une todos os Bispos ao Sumo Pontífice e manifesta, claramente, a unidade da Igreja.
O Episcopado católico oferece aos tempos atuais, dominados pelo espírito revolucionário, um brilhante exemplo de obediência e disciplina. Centenas de Bispos, de vários países, vão à Cidade Eterna, sujeitando-se a muitos incômodos, a fim de apresentarem as homenagens de sua veneração e do seu respeito ao Santo Padre, prestando-lhe contas de sua administração. A autoridade, tão desprestigiada hoje em todo o mundo, recebe uma nova consagração. Na autoridade há uma coisa mais elevada que a personalidade, a fonte de que ela dimana. A origem divina e imediata do poder eclesiástico é o fundamento glorioso e inabalável de toda a submissão e obediência. Dali, a prontidão com que obedecem os Bispos à voz do supremo Hierarca. Conquanto houvesse o costume antiquíssimo de recorrerem os Bispos em seus negócios à Sé Apostólica, todavia não existia, nos primeiros séculos, obrigação universal de visitarem eles, em tempos determinados, os túmulos dos Apóstolos. Esta obrigação foi introduzida pouco a pouco e prescrita para certas províncias eclesiásticas e regiões, até que, por fim, se generalizasse e se tornasse disciplina universal.
Foi Sisto V que, em 1585, na sua constituição Romanus Pontifex, fez dessa obrigação um preceito rigoroso. Ordenou, de fato, que o bispo, em sua sagração, prestasse o juramento de cumprir esse dever, e marcou para cada região a época de visita. O novo código de Direito Canônico, modificando, neste particular, a praxe antiga, prescreve que os Bispos europeus façam a visita a cada quinquênio e aos outros permite que, de dez em dez anos, se dirijam a Roma. É a disciplina atual. A viagem que os Bispos devem fazer a Roma tem por fim o cumprimento de três obrigações: a visita das Basílicas de São Pedro e de São Paulo, a apresentação de um relatório sobre o estado e a administração da Diocese, e a visita pessoal ao Sumo Pontífice. Na visita das Basílicas de São Pedro e de São Paulo devem os Bispos reverenciar os túmulos destes dois apóstolos que, com o seu sangue, santificaram a cidade de Roma, morrendo o primeiro crucificado e o segundo pelo gládio. Ambos são príncipes da Igreja; Pedro, o fundamento e o chefe supremo, Paulo, a coluna inabalável e o grande mestre dos gentios. E os Bispos, orando ali pelos interesses dos fiéis que Deus lhes confiou, readquirem novas forças e energias, consolam-se dos seus pesares e, fortalecidos, continuarão sua espinhosa missão, que, hoje como sempre, acha um forte estímulo, um modelo acrisolado e consolo confortante na vida, nos trabalhos, nas lutas e no martírio desses santos Apóstolos.
No relatório diocesano prestam os Bispos contas da sua administração e dão informações minuciosas sobre o estado moral e material de sua Diocese à Sagrada Congregação Consistorial, cujo prefeito é o próprio Santo Padre. Além disso, os Bispos se apresentarão pessoalmente ao Sumo Pontífice, Sucessor de São Pedro, para falar-lhe, de viva voz, sobre as obras e dificuldades das dioceses e ouvir seus conselhos e avisos paternais. Desta sorte, tornam-se mais estreitos, mais íntimos os laços de amor filial que prendem os Prelados ao Sumo Pastor da Igreja, o Vigário de Cristo na terra, e, por isso mesmo, eles voltarão para suas dioceses, reanimados e cheios de novo zelo pela causa de Deus e pela salvação das almas. Chegou agora também a nossa vez.
É a primeira viagem que empreendemos a Roma durante os dezesseis anos de nosso episcopado. Visitaremos as Basílicas de São Pedro e de São Paulo, que são os padroeiros principais da cidade e dos seus túmulos, implorando seu auxílio e proteção sobre esta Arquidiocese, os fiéis e seu apostólico Clero, sobre as Ordens e Congregações religiosas, os sodalícios e instituições pias, sobre o Seminário Provincial, os colégios, escolas e todas as obras diocesanas, e, não em último lugar, pediremos pela felicidade total do nosso amado Estado de São Pedro do Rio Grande do Sul e de toda a Pátria. Pelo nosso relatório quinquenal ficará a Santa Sé ciente da prosperidade religiosa da Arquidiocese, bem como das faltas existentes e das obras e trabalhos de que ela ainda carece. Iremos, enfim, à presença do Santo Padre Pio XI e lhe renderemos homenagens respeitosas de veneração, amor e obediência, em nosso nome e no do Clero e dos católicos desta Arquidiocese. Pediremos, então, ao Santo Padre a graça de abençoar-nos a nós todos para nosso bem espiritual e temporal. Depois de cumprirmos a grave obrigação da visita preceituada pelos sagrados cânones, pretendemos lucrar o jubileu do Ano Santo e agregar-nos em Roma à peregrinação nacional. Tal é, em síntese, o nosso projeto, cuja execução, entretanto, depende da vontade de Deus. Desde já, porém, rogamos ao nosso respeitável Clero, às veneráveis Ordens, Congregações e associações religiosas, bem como aos nossos amados diocesanos em geral que peçam ao bom Deus para que a nossa viagem seja feliz e coroada de ótimos resultados.
CAPÍTULO VII
Instruções e mandamento
Terminemos, ou antes, dentro em pouco terminarão os folguedos e as loucuras do carnaval, triste herança do paganismo, lamentável eclosão de misérias e fraquezas humanas, que nem respeita o tempo da quaresma consagrado à penitência e à comemoração da sagrada paixão e morte do Salvador do mundo. É o delírio da parte fraca da natureza humana, a carne triunfa sobre o espírito. "Panem et circenses", banquetes, bailes burlescos e noites sem dormir, como na antiga Roma, e talvez pior! "Ecce nunc tempus acceptabile, ecce nunc dies salutis: eis aqui agora o tempo propício, eis aqui agora o dia de salvação", como diz o Apóstolo São Paulo. Sim, o tempo quaresmal, que a Igreja inicia com a admoestação: "memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris", lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó hás de converter-te – e sobre o seu destino supremo, e aproveitam os meios da salvação que Nosso Senhor lhes oferece. A palavra de São Paulo tem, entretanto, aplicação mais ampla ao Ano Santo, que, de fato, é um tempo excepcionalmente propício à conversão dos homens, e um luminoso e longo dia de salvação.
Queiram, por isso, os reverendos sacerdotes ocupados na cura das almas instruir, devidamente, os fiéis sobre as graças que o ano jubilar lhes proporciona e a necessidade de conformarem sua vida com os preceitos de Jesus Cristo, e realizem para esse fim séries de pregações nas diversas funções religiosas, principalmente durante a quaresma. Já numa longa circular, lida em todas as paróquias da Arquidiocese, recomendamos, com máximo empenho, a peregrinação nacional, que em 6 de maio partirá do Rio de Janeiro com destino a Roma. Esperamos que a leitura do referido documento tenha produzido bons resultados e os desejados efeitos. As pessoas que, todavia, não puderem tomar parte naquela grande manifestação de fé, oferece-se outra ocasião esplêndida. Pois, em vista de certas circunstâncias em que se acha o nosso Estado, monsenhor Luiz Mariano da Rocha, nosso vigário geral, está organizando um grupo de romeiros que, no mês de julho vindouro, irá em piedosa peregrinação a Roma e a vários santuários europeus.
É a primeira peregrinação rio-grandense a Roma, que, naturalmente, se deve considerar para ou complemento de outra acima recomendada. Vamos, pois, a Roma! No capítulo VIII desta pastoral foram indicadas as pessoas que podem ganhar o jubileu do Ano Santo, sem que lhes seja imposta a obrigação de irem a Roma. As outras obrigações para elas subsistem, como foi explicado. Como os Bispos receberam a faculdade de comutarem as visitas às Basílicas romanas, prescrevemos a seguinte norma para os que estão compreendidos na bula pontifícia Apostolico muneri: os relacionados nos números 1 até 6, inclusive, do dito capítulo farão quatro visitas durante dez dias à capela dos estabelecimentos em que se acham, orando segundo a intenção do Sumo Pontífice; e quanto às pessoas a que se referem os números 7 e 8, delegamos aos seus confessores poderes para que comutem por outras obras de piedade as referidas visitas, conforme a condição dos penitentes. Assim, também os impossibilitados de irem a Roma poderão lucrar a indulgência do jubileu. Esta nossa carta pastoral seja lida na forma do costume, bem como registrada e arquivada em nossa cúria e nas paróquias.
Et benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.
Dada e passada sob o sinal e selo das nossas armas, nesta cidade de Porto Alegre, aos 25 de fevereiro de 1925, quarta-feira de cinzas.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.