O laicismo repugna à observação psicológica

Ao laicismo pode-se aplicar a palavra de Pio X, com referência ao modernismo: "é um agregado de todas as heresias". De fato, o ideal laico aparece, de mais a mais, como uma simples construção do espírito, feita fora de toda a observação da humanidade, tal como ela é. As fórmulas, de que ele se serve, aparecem hoje, apesar dos aplausos que colheram, durante os últimos anos, nos centros chamados culturais, como símbolos antiquados, uma fraseologia vazia, sem significação real. Essas fórmulas são: "O homem não deve depender senão de sua razão e de sua consciência; ele pertence a si e deve somente pertencer a si mesmo; a ele compete procurar sua própria felicidade e libertar-se de qualquer poder ou influencia estranha à sua pessoa.
Em primeiro lugar vemos que o sistema do laicismo está em completo desacordo com a mais elementar observação psicológica.
Com efeito, não é verdade que o homem seja livre de pensar o que ele quer. Nada é mais falso na ordem dos conhecimentos usuais. Nenhum homem, mentalmente são, tem a liberdade de pensar que três mais quatro perfaçam oito, ou que a linha curva seja o caminho mais curto entre um ponto a outro, que Pedro II jamais existisse, que Montevidéu seja a capital do Brasil.
Na ordem dos conhecimentos científicos, o postulado do livre pensamento até parece destituído de sentido. Que significa a palavra de livre pensamento em face do menor manual de geometria, de química, de história natural? Quem conhece o resultado das ciências, não pode ter a tentação de afirmar que seja livre pensador; ele dirá: "Eu sei; isto é assim". E eis tudo!
O livre pensamento desaparece simplesmente diante da ciência. O ideal, o fim da inteligência humana não é aumentar sua liberdade, mas inclinar-se, mais e mais, ao rigor e à precisão do saber.
É esta, a falar com acerto, uma liberdade, a única verdadeira liberdade, aquela que liberta da escravidão dos preconceitos, da ignorância e do erro.
Não é verdade, de forma alguma, que o homem só deva depender de sua própria razão nem apelar a outras luzes que não sejam as suas e tirar tudo do fundo de suas próprias riquezas. À medida que os ramos do saber se diversificam e se distribuem em especialidades mais claramente separadas, é necessário dar crédito às luzes de outrem, a não ser que se queira tudo ignorar.
O historiador, o naturalista, os físicos se acantonam em terrenos sempre mais limitados, pois que é essa a condição da competência seria. Mas, daí resulta também a necessidade de aceitar, de alguma maneira, a olhos fechados, as conclusões dos sábios, quando eles se mantem estritamente no seu domínio. Multiplicam-se, assim, entre nós e a realidade, os intermediários pelos quais chegamos a conhece-la. Quanto mais o passado se abre às nossas pesquisas, mais aumenta o número de manuscritos e de testemunhos, aos quais é preciso apelar e, ao mesmo tempo, prestar crédito.
O presente, desde o fato mais simples até à catástrofe mais dramática, nos chega da mesma maneira pelo conduto da imprensa. Ora, podemos, certamente, submetê-la ao exame mais exigente e o devemos. Mas, à medida que se desenvolvem com extensão e rapidez os meios de informação, a imprensa merece sempre mais a nossa confiança, que, cada dia, aumenta, e ela permite exercer, na nossa vida pública e particular, uma missão de incalculável alcance.
Assim, o progresso não consiste em desprezar a autoridade dos outros, mas em multiplicar os nossos recursos, aumentando, ao mesmo tempo, as nossas dependências.
O que é verdade na ordem dos conhecimentos científicos e das informações quotidianas, não menos se verifica em relação à religião e à moral. "Tudo, escreve um dos protagonistas do ideal laico, tudo nos deve ser licito pensar, dizer, escrever, sem que intervenha poder restritivo ou repressivo. A ideia subversiva e abominável de hoje será, talvez, a legalidade de amanhã e a consciência da gente honesta do século próximo terá talvez por objeto o que a gente honesta de hoje chama de sonhos falsos ou de doutrinas celeradas".
Tais declarações são absurdas. A humanidade, porventura, nada terá aprendido depois de tantos séculos e após tantas experiências? Não oferecerá ela às gerações futuras nenhuma lição proveitosa nem terá conselhos a dar, nem virtudes a ensinar?
Não saberá ela hoje melhor do que há vinte séculos o que é bom o que é honesto, o que ´belo, o que é o dever? Não terá ela feito, no domínio religioso e moral, algumas conquistas; conseguindo alguns recursos e não estará ela habilitada a oferecer a menor diretiva à juventude que demanda a senda da verdadeira vida?
Não teve ela, antes de nós, santos e heróis de consciências delicadas, homens simples e honestos, que, a preço dos seus esforços, nos desbravaram o caminho? Não teremos nada a aprender dos seus exemplos? Não nos deixaram eles um conjunto de ideias admiráveis e noções definitivas na sua essência sobre as palavras de devotamento, de grandeza de alma, de piedade filial, de patriotismo, de desinteresse, de pureza moral, de respeito a si mesmo, de amor ao próximo, de fidelidade à sua palavra?
Que o homem se esforce por revestir de novas formas todas essas virtudes, nada há de melhor. Mas, o que a alma é hoje, será amanhã, o mesmo que era ontem. De todas as maneiras inesperadas, que se puderem achar para amar o próximo, não haverá nenhuma que consistirá em castiga-lo injustamente, em roubar-lhe os bens, em prejudicar a sua honra e em querer-lhe o mal.
Ao frenesi de um livre exame, que não quer reconhecer nenhuma barreira, que quer chamar ao seu julgamento todas as noções adquiridas e revistar todos os antigos valores, o universo opõe suas relações e leis universais.
Sempre haverá famílias, pátrias, pais e filhos, esposos e esposas, propriedades, frutos do trabalho, contratos válidos, debaixo de todos os céus e em todos os tempos, apesar das fantasias laicistas.
O próprio homem, à meia distância entre o anjo e o irracional, nem sequer muda. A perfeição para ele não consiste em destruir, mas em melhorar o que ele é. O universo, enfim, está fora do alcance das nossas críticas. Pelas suas leis, suas contingencias, suas harmonias e suas vicissitudes, ele continua a proclamar, que ele mesmo não é obra de sua própria atividade, nem conseguintemente, seu senhor supremo.
Ora, se ele atesta, por tudo, o que ele é, que vem de um outro, que podemos nós mudar nisso? Demais, neste universo é a história que se desenvolve, é Jesus Cristo, é a Igreja Católica, nos fatos e acontecimentos, que se subtraem, na sua essência, ao poder das nossas apreciações.
Todas as denegações, todas as revoltas do espírito humano não podem transformar esses fatos positivos em outros que eles são. É isto que importa saber. O pensamento, portanto, não pode ser livre; ele tem de corresponder à realidade, deve exprimir os fatos tais quais eles são.
Mais ainda! Como pretender que o homem seja livre de pensar e fazer tudo o que ele quer? Sua inteligência não é superior ao universo. Ela não tem de reconhecer senão o que ele é. E assim acontece com a consciência humana. Ela não tem mais a criar novos deveres, de que ela só será juiz. A realidade deve-lhe ensinar o que precisa proibir ou ordenar. Não há outra coisa com que se deva conformar.
São esses os axiomas mais banais do bom senso, que refutam o laicismo.