Cristo, modelo de perfeição moral

A Sagrada Eucaristia não é somente um sacramento mas também um sacrifício. Como sacramento, ela foi instituída para santificação dos homens; como sacrifício, tem por fim principal a glória de Deus. Como sacramento, nutre e fortifica-nos a alma; como sacrifício, rende a Deus a honra que lhe é devida.
Digamos primeiro o que é sacrifício. O sacrifício é um ato religioso por excelência. É a oferta de uma coisa sensível com sua destruição ou mudança, feita só a Deus por legítimo ministro, em reconhecimento do supremo domínio divino sobre todos os seres criados.
Em todos os tempos e em todos os povos, se ofereceram a Deus sacrifícios e sempre consistiram em coisas sensíveis como animais, perfumes, licores e frutos da terra. Estes objetos sofriam na presença de Deus uma mudança e algumas vezes destruição total. Os animais eram mortos, os perfumes queimados, os licores espargidos, os frutos do campo comidos pelos sacerdotes ou pelo povo.
A oferenda e a destruição dos seres, quaisquer que fossem, na presença de Deus, atestavam o seu soberano domínio sobre tudo e particularmente sobre o homem, cujo lugar ocupavam as vítimas.
Apresentando-se a Deus e destruindo-as diante dele, o homem confessava bem alto que tudo vinha de sua majestade divina e tudo a ela devia referir-se.
O gênero humano, assim como jamais pode passar sem Deus, tão pouco prescindiu nunca da ideia de sacrifício.
Já Plutarco ensinava que, peregrinando pela terra e observando as mais afastadas regiões do globo, é fácil ver cidades sem muros, sem reis, sem palácios, sem riquezas, sem moeda própria, sem ginásios e sem teatros, porém que jamais se encontra uma só cidade sem templos e sem deuses; que não use de preces, de juramentos e oráculos; que não ofereça sacrifícios para alcançar bens e evitar males.
Esta unanimidade manifesta bem claramente que, não por invenção humana, mas por exigência da nossa natureza, se prostra o homem diante de Deus e lhe oferece sacrifícios. Assim se explica o fato constante e universal de que todas as religiões têm tido por objeto principal a expiação e que todas elas indicam o sacrifício como o meio mais eficaz de entrar em relações com Deus.
Os livros sagrados das nações idólatras estão de acordo com esta interessante doutrina. Todas elas assinalam o sacrifício como o ato mais sagrado da religião, como o meio mais apropriado para conciliar entre si os atributos divinos e fazer as pazes entre um Deus justiceiro e santo e os homens réus e criminosos.
A mesma Escritura Sagrada, essa carta do Onipotente à sua criatura, como a chamou S. Gregório, nos apresenta os primeiros filhos de Adão, Caim e Abel, sacrificando e oferecendo a Deus os frutos da terra e as primícias do seu segado. No povo de Israel era considerado o sacrifício como o ato mais imponente do culto.
As vítimas significavam ainda, que havia no mundo culpados, e culpados que mereciam a morte, mas a quem Deus se dignava perdoar na sua misericórdia, aceitando, em seu lugar, vítimas sobre as quais exercia o rigor da justiça.
Enfim, para oferecer os sacrifícios, eram precisos homens deputados para isto. Nas primeiras idades do mundo eram os chefes, os primogênitos ou antes, homens especialmente escolhidos por Deus, para cumprirem tal ministério, como Melquisedec, sacerdote do Altíssimo. Sob a Lei de Moisés foram os descendentes de Aarão.
O sacrifício só pode ser oferecido a Deus, único criador e conservador do que existe. É a expressão do culto de latria, de adoração. Oferecido a outrem que não a Deus, toma tal conto o nome, de idolatria.
No Antigo Testamento eram inumeráveis os sacrifícios. O próprio Deus lhes tinha regulado a natureza, a ordem e os ritos. Mas no Novo Testamento só há um sacrifício que substitui todos os antigos. É o sacrifício da missa, isto é, a Eucaristia considerada não como sacramento mas como sacrifício.
Declara o concílio de Trento: "Como durante o Antigo Testamento, segundo testifica o Apóstolo, por causa da fraqueza do sacerdócio levítico, não havia perfeição, convinha, ordenando-o assim Deus-Pai nas suas misericórdias, se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, Nosso Senhor Jesus Cristo, que pudesse consumar e fazer perfeitos a todos que se houvessem de santificar.
"Este Deus pois é Nosso Senhor, posto que mediante a morte, se havia de oferecer uma vez ao eterno Pai no altar da cruz, para nele obrar a redenção eterna; contudo, como pela morte se não havia de extinguir o seu sacerdócio, na Última Ceia, em cuja noite foi entregue, para deixar à Igreja, sua amada esposa, (como pede a natureza humana), um sacrifício em que se representasse aquele que se havia de operar na cruz e a memória dele durasse até o fim do século; e a sua virtude se aplicasse em remissão dos pecados que cada dia cometemos, declarando-se sacerdote perpétuo, segundo a ordem de Melquisedec, ofereceu a Deus-Pai seu corpo e seu sangue debaixo das espécies de pão e de vinho; e o deu aos apóstolos que então constituía sacerdotes do Novo Testamento debaixo do símbolo destas mesmas coisas; e a eles e seus sucessores no sacerdócio mandou que o oferecessem, com estas palavras: "Fazei isto em minha lembrança"; como a Igreja sempre entendeu e ensinou."
Depois o mesmo concílio de Trento definiu as seguintes verdades: "Se alguém disser que na missa não se oferece a Deus verdadeiro sacrifício; ou que oferecer-se não é outra coisa que dar-se-nos Cristo para comungarmos: seja excomungado."
"Se alguém disser que Cristo não instituiu os apóstolos sacerdotes naquelas palavras: "Fazei isto em minha comemoração", ou que não ordenou que eles e os mais sacerdotes oferecessem o seu corpo e sangue: seja excomungado."
"Se alguém disser que o sacrifício da missa é só de louvor e ação de graças ou mera comemoração do sacrifício da cruz; mas não propiciatório; ou que só aproveita ao que comunga; e que se não deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades; seja excomungado."
Até aqui o concílio de Trento. A Eucaristia na verdade, isto é, o corpo e sangue de Jesus Cristo sob as espécies sacramentais, constitui um verdadeiro sacrifício, o sacrifício da Nova Lei.
O concílio de Trento definiu assim contra os protestantes que, negando a presença real de Nosso Senhor no Sacramento do Altar, negavam também o sacrifício que se lhe une. É o sacrifício figurado no de Melquisedec de quem Jesus Cristo se diz sucessor: "Tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech".
O profeta Malaquias fala deste sacrifício como devendo substituir os antigos e ser oferecido em todo o mundo, desde a aurora ao pôr do sol: "Meu nome é grande entre todas as nações e em toda a parte é oferecida e imolada ao meu nome uma vítima pura."
S. Paulo opõe-no aos sacrifícios dos judeus e dos pagãos: "Temos um altar a cuja participação não tem direito os que se abrigam no tabernáculo da Antiga Lei."
É o sacrifício que todos os concílios, todos os santos padres, todas as liturgias proclamam desde os primeiros séculos do cristianismo até hoje.
Na verdade, o sangue de Cristo foi derramado só uma vez no Calvário. Nessa montanha santa é que foi oferecido o único e verdadeiro sacrifício; foi lá no meio dos tempos que foi apresentada a Deus a grande e única vítima, o Filho de Deus feito Homem. Todos os sacrifícios e vítimas que o precederam, se referiam a ele como figuras; e os sacrifícios que se lhe seguiram e que hão de surgir, não são mais que o sacrifício da cruz, renovando-a continuamente sobre nossos altares. Que bela, magnífica e imponente unidade!
Para lá do Calvário, Jesus Cristo figurado pelas vítimas antigas; para cá, imolado realmente como o fora na cruz pela continuação da mesma oblação!
Jesus Cristo assim em toda a parte, no passado, no presente e no futuro, ocupando todos os tempos com o seu sublime e imortal sacrifício!
Na santa missa há o mesmo sacerdote da cruz, Jesus Cristo; a mesma vítima, ainda Jesus Cristo. O sacerdote mortal que se vê revestido dos ornamentos sagrados, é um simples representante de Jesus Cristo. É em nome de Jesus Cristo que ele fala: "Isto é o meu corpo, este é o cálice do meu sangue." É evidente que quer falar do corpo e do sangue do Salvador.
Uma única diferença existe entre o sacrifício da cruz e o do altar: na cruz, Jesus Cristo foi imolado de um modo visível e cruento, e no altar imola-se escondido sob as espécies de pão e de vinho e de um modo incruento.
No primeiro caso, é mortal e sofre realmente a morte; no segundo, é imortal e sua morte é apenas mística. É preciso não concluir disto que o sacrifício da missa é uma simples comemoração do sacrifício da cruz. Não, tal doutrina está formalmente condenada pelo concílio de Trento, como vimos.
A missa é um verdadeiro sacrifício, porque contém todos os elementos: a vítima, o corpo e sangue de Jesus Cristo; forma sensível, as espécies eucarísticas; ministro legítimo, o sacerdote para isto especialmente ordenado; a mudança ou destruição total, ao menos moral da vítima; finalmente esta vítima só oferecida a Deus para atestar o soberano domínio sobre todas as criaturas.
E como se opera a destruição da vítima, necessária para que haja sacrifício?
A opinião mais provável é que a destruição moral requerida e por isso a essência do sacrifício, está na consagração, pela qual o sacerdote consagra, separadamente, o corpo e o sangue de Jesus Cristo.
Se Jesus Cristo não fosse imortal, se pudesse ainda morrer sobre o altar como na cruz, a força das palavras sacramentais separar-lhe-ia o corpo, do sangue, colocando d'um lado o corpo, quando o sacerdote diz: "Isto é o meu corpo" e do outro, o sangue, quando diz: "Este é o meu sangue"; de tal forma que Jesus Cristo seria verdadeiramente morto pelo gládio da palavra santa. Como o corpo e o sangue de Jesus Cristo não se podem separar, o sangue encontra-se no corpo, não pela virtude das palavras da consagração, mas pela lei da concomitância, como se exprimem os teólogos; e o corpo no sangue do mesmo modo. A morte de Jesus Cristo no altar é pois apenas mística e é quanto basta para constituir verdadeiro sacrifício.
Considerai ainda que as espécies ou aparências sob as quais Cristo reside, o apresentam no estado de insensibilidade, e imobilidade e de morte; além de que as espécies são consumidas e, por consequência, destruídas pela comunhão do sacerdote e dos fiéis.
É pois o sacrifício da missa o verdadeiro e único sacrifício dos cristãos. Constavam as vítimas do Antigo Testamento, de animais, touros, carneiros, cordeiros, frutos do campo e produtos da terra. A vítima oferecida nos nossos altares, é um Deus, Deus-Homem que se imola para a salvação do gênero humano.
O sacrifício da missa tem por objeto como os antigos sacrifícios, render homenagem à majestade soberana de Deus, agradecer-lhe os inumeráveis benefícios, aplacar-lhe a justiça, obtendo-nos o perdão dos crimes, e implorar as bênçãos e graças de que temos necessidade. Desta maneira, o sacrifício da missa é como o da cruz: latreutico, eucarístico, propiciatório e impetratório.
É bom, contudo, observar que o sacrifício da missa não perdoa diretamente o pecado. Só produz este efeito pela graça que nos obtém e pelos sentimentos de penitência que faz nascer nas almas. Tais sentimentos são preciosas disposições para o sacramento da penitência que apaga os pecados cometidos depois do batismo.
Conforme a tradição dos apóstolos, diz o concílio de Trento, oferece-se o sacrifício eucarístico não só pelos pecados, penas, satisfações, e outras necessidades dos fiéis que ainda vivem, mas também pelos mortos em Jesus Cristo e que ainda não estão inteiramente purificados.
Assistamos ao santo sacrifício da missa com as disposições, sentimentos de fé, de amor e de reconhecimento com que assistiram, no Gólgota, ao sacrifício da cruz, a Virgem Maria, as santas mulheres e o discípulo amado. Assistamos pecadores com o arrependimento e confiança do insigne pecador convertido na cruz junto à de Cristo: "Memento mei, lembrai-vos de mim".
Assistamos com a fé, ainda que tardia, do centurião impressionado com a morte admirável do Salvador e que, descendo do Calvário, batia no peito, dizendo: "Na verdade ele era o Filho de Deus."
Enquanto o centurião e os judeus tornados fiéis, se retiravam com o coração contrito, proclamando a divindade daquele que acabavam de crucificar, outros, perseverantes na impiedade, continuavam a menear a cabeça em volta da cruz de Cristo.
Assim é hoje ainda. Hoje como então não faltam ímpios e blasfemadores em volta dos altares onde se imola o Redentor do mundo. As blasfêmias e impiedades contra Jesus, contra a Igreja e seu Chefe venerável, oprimamos nossa fé e nossas homenagens. Enquanto tantos maus cristãos, tantos católicos apenas de nome e tantos escritores desonestos vomitam ultrajes ao que há de mais santo na religião, protestemos nós contra insultadores tão audaciosos.
Saindo dos templos e do sacrifício, onde se reanima nossa fé, entrando em casa e misturando-nos de novo no mundo, nos negócios e no trabalho, digamos bem alto perante nossos irmãos menos firmes, talvez menos convencidos: Na verdade, ele era o Filho de Deus.
Sim, os maus, por mais que digam, os filosofantes por mais que exclamem, os romancistas e jornalistas, por mais que blasfemem, aquele que durante dezenove séculos, se imola sobre tantos altares e em tantos lugares para salvação da humanidade, não é só homem, é Homem-Deus: na verdade ele era o Filho de Deus, vere Filius Dei erat iste.
"Em figura assinalado, como Isaac é imolado, é o pascoal Cordeiro considerado, a Israel dado Maná: In figuris praesignatur, cum Isaac immolatur, Agnus paschae deputatur, datur manna patribus."
+ Dom João Becker | Pascam in Judicio