A Autoridade de Pedro e a Hierarquia

A Pedro, primeiro Sumo Pontífice, Cristo diz: "Tu és Pedro, um rochedo, e sobre esse rochedo edificarei a minha Igreja, e todos os poderes da iniquidade não prevalecerão contra ela. Eu te entrego as chaves do Céu, e tudo o que ligares sobre a Terra será ligado no Céu, e tudo o que desatares na Terra será desatado no Céu. Pedro, amas-me mais do que os outros? Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas. Simão, Simão, eis aqui Satanás, que vos pediu com insistência para vos joeirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, depois de convertido, conforta os teus irmãos."
São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, recebeu, pois, de Cristo, a plenitude do poder apostólico, o poder supremo das chaves do Céu, e de apascentar o rebanho universal, ou, por outra, recebeu o tríplice ofício de ensinar, santificar e governar os fiéis. Ele é o rochedo inabalável que sustenta a Igreja e, de encontro ao qual, as parcelas dos hostis internos são arremessadas, mas recuam esboroando-se. Pedro, fortalecido de modo especial pela oração do Salvador, deve confortar os seus irmãos vacilantes na fé, continuando a viver na cadeia ininterrupta dos bispos de Roma, que lhe sucedem no seu trono. Eles falam em seu nome, dirigem como seus representantes a nossa Igreja e empunham o báculo pastoral do supremo Pastor dos pastores.
A missão sublime de Mestre, Santificador e Diretor dos fiéis não foi exclusivamente confiada a São Pedro e seus sucessores, mas também ao colégio dos Apóstolos, debaixo de sua soberana autoridade. "Eu vos escolhi", diz o Redentor, "para que vades e deis frutos, e para que vossa fé permaneça; e deis testemunho de mim na presença dos reis e poderosos. Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. Tomai e comei, que isto é o meu Corpo; bebei, que este é o meu Sangue; fazei isto em memória de mim; toda vez que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a minha morte até que eu volte. Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra; ide e ensinai todos os povos e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinai-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos. O Consolador, porém, o Espírito da Verdade, que o Pai vos mandará em meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito. O Evangelho deve ser pregado a todos os povos, e vós dareis testemunho do Rei. Mas não sois vós que falais, e sim o Espírito Santo. Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza. Quem não obedecer à Igreja, deve ser considerado como pagão e pecador público. A paz vos deixo, a minha paz vos dou, para que não se aflija o vosso coração e não temais."
Assim, vemos, irmãos e filhos diletos, que Jesus Cristo conferiu aos Apóstolos igualmente o poder e o dever de desempenhar a tríplice missão de Mestre, Santificador e Diretor da Igreja. Em obediência a essa ordem, vão eles pregar o Evangelho a todos os povos, e sua voz repercute nos confins da terra. Denominam-se dispensadores dos mistérios de Deus, transformam o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, impõem em Antioquia as mãos aos batizados, comunicando-lhes o Espírito Santo, dão preceitos, aplicam penas e castigos, e milagres inexplicáveis confirmam a legitimidade de sua missão.
Quando, ao longo dos anos, os Apóstolos, à vista do número sempre crescente das Igrejas particulares e do encargo de propagar a fé por todo o mundo, não puderam pessoalmente governar as Igrejas recém-fundadas, procuraram provê-las de sacerdotes dignos, a quem sagraram bispos, dando-lhes o poder de reger, a faculdade de ordenarem outros sacerdotes e de constituírem bispos, a fim de continuarem a missão recebida do divino Redentor.
Não obstante, é preciso notar, irmãos e filhos diletos, que o episcopado foi instituído por Jesus Cristo e não pelos Apóstolos, sendo, por isso, de origem divina.
Isso coincide com a disposição do Redentor de salvar todos os homens pelo mencionado tríplice ministério de Mestre, Santificador e Diretor: "Ensinai todas as nações, o Espírito Santo vos ensinará toda a verdade, estarei convosco até o fim dos séculos." Portanto, assim como a São Pedro devia seguir o seu sucessor no cargo supremo de cabeça visível da Igreja e vigário de Cristo, da mesma forma haviam de suceder os bispos aos Apóstolos no referido ministério.
Contudo, embora os papas sucedam a São Pedro na plenitude do poder apostólico, os bispos receberam, com restrição, o poder dos outros Apóstolos. De fato, quando Jesus Cristo conferiu aos Apóstolos a sua missão, não indicou a cada um deles a parte do mundo onde deviam exercer suas funções nem lhes designou limites para a sua atividade. Pelo contrário, assinalou-lhes o mundo todo como campo de seus trabalhos apostólicos, pois a todos e a cada um dirigiu as palavras: "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura, ensinai, santificai e governai todo o universo."
Essa missão ilimitada, com seu respectivo poder, após a morte dos Apóstolos, passou, na verdade, para o episcopado tomado em sua coletividade, mas não a cada bispo em particular. Pelo contrário, a cada bispo foi designado um distrito ou província determinada, dentro do qual somente podia exercer a missão de Mestre, Santificador e Diretor. O Sumo Pontífice tem o poder supremo sobre todos os fiéis da Igreja, ao passo que os bispos só têm jurisdição nas dioceses cuja administração ele lhes confere sob sua suprema direção.
As Sagradas Escrituras nos ensinam a veracidade dessa doutrina. São Paulo escreve a Tito: "Eu te deixei em Creta, para que regulasses o que falta e estabelecesses presbíteros nas cidades, como também te ordenei. Convém que o bispo seja, como dispensador de Deus, irrepreensível, mas justo e santo, para que possa exortar conforme a sã doutrina e convencer os que a contradizem." Ao discípulo Timóteo diz: "Guarda o depósito, evitando as profanas novidades de palavras e as contradições de uma ciência de falso nome. Guarda o mandamento sem mácula, nem repreensão até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pregue a palavra, quer agrade ou desagrade, repreenda, reze, admoeste com toda a paciência e doutrina. Tu, porém, vigia, trabalha em todas as coisas, faze as obras de evangelista, desempenha o teu ministério. Os homens devem considerar-vos como ministros de Cristo e dispensadores do mistério de Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para governardes a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu sangue."
Os bispos são, pois, os sucessores dos Apóstolos, e perpetuam entre os homens a missão de Jesus Cristo. Nas vagas rugidoras do mar, lançou Cristo Nosso Senhor o rochedo granítico, Pedro, na sucessão dos papas constitui o fundamento indestrutível da Igreja, e sobre esse rochedo colocou o Espírito Santo os bispos, para que, quais majestosas colunas de pedra inteiriça, sustentassem esse maravilhoso templo, elevando-se até o grandioso zimbório, sobre o qual fulgura a cruz como símbolo de luta e de vitória.
Como ação comum dos membros de um corpo, sob o domínio da inteligência que produz o seu bem-estar, assim os bispos unidos entre si, sob a autoridade suprema do Papa e em união dos sacerdotes, seus cooperadores, dão lugar à estabilidade e prosperidade da Igreja Católica. São os bispos que derivam a vida espiritual da única e eterna fonte, assegurando-lhe a continuação, e exercem o poder que o Chefe supremo lhes comunica. Legados de Deus e dispensadores dos seus dons e graças, os bispos, no meio do rebanho divino, ensinam e guardam a doutrina celeste, administram os santos sacramentos, ligam, desatam, admoestam, punem, lutam, triunfam, governam; são tenentes dos Apóstolos, continuam sua missão de geração em geração.
+ Dom João Becker | Pascam in Judicio