IMPERATIVOS DA ATUALIDADE

VIGÉSIMA SÉTIMA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1937)


Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.


CAPÍTULO I

O sentido desta pastoral

Quem observa a situação mundial e o aspecto que apresenta o nosso país, recebe a impressão de nos acharmos em véspera de acontecimentos gravíssimos, se a Providência divina não indicar aos homens uma solução cabal dos grandes problemas que agitam a sociedade hodierna.

Deveríamos pensar que a lição impressionante da grande guerra fosse suficiente para cimentar, com o sangue derramado por milhões de feridas, uma duradoura aliança de paz internacional. Por outro lado, as contínuas revoluções que conturbaram a tranquilidade social da nação brasileira, deveriam ensinar-nos que as comoções intestinas sempre arrastam em seu séquito males enormes, cujos efeitos maléficos perduram longos anos.

É verdade os progressos materiais que a humanidade tem realizado, marcam uma época nos anais da história. Não é preciso mencionar a navegação marítima, nem a viação férrea que cruza os continentes. O telégrafo, o telefone, o rádio, o cinema, a aeronáutica são troféus admiráveis que a inteligência humana conquistou em todos os ramos do saber humano.

Entretanto, todos estes inventos, admiráveis na sua concepção, que deveriam servir como meios de aperfeiçoamento da vida humana, são empregados na destruição da paz e da prosperidade dos povos.

A ciência ateísta, velha na sua origem e vestida de europeus modernos, procura arvorar-se em estrela orientadora dos indivíduos e das sociedades. O paganismo antigo e o paganismo novo infestam a imprensa, o livro, o ensino elementar, médio e superior.

O materialismo ateu, no combate iniquo a todas as instituições cristãs, implanta a anarquia e o despotismo sanguinário na Rússia, no México, na Espanha e em outros países. Os nossos estadistas e políticos acentuam, nos seus discursos e programas, que a origem dos males da nação, reside não tanto nos sistemas governativos, como nos costumes e hábitos dos homens.

É o comunismo russo, o marxismo tártaro, que pretende destruir a civilização cristã, e fundar sobre suas ruinas ensanguentadas o reinado da tirania universal.

No intuito de realizar este projeto nefasto, a Rússia Soviética gasta anualmente muitos milhões de rúbios na propaganda de sua obra diabólica. Envia seus emissários e agentes para todas as nações. Pelo folheto, pelo jornal, como pelo ensino oral, eles infiltram e inculcam ideias subversivas em todas as classes sociais, intrometendo-se nas escolas elementares e superiores, nas associações esportivas, recreativas e até religiosas. Organizam listas de assassinatos, dividem cidades e vilas em quarteirões, para lhes facilitar os assaltos, em dado momento, aos governos, bancos, telégrafo e telefone. Desse modo querem ganhar, com mais facilidade, terreno e garantir o seu domínio.

Os sucessos verificador em novembro de 1935, as contínuas descobertas de células comunistas na capital federal e nas cidades de outros Estados, a vigilância dos poderes públicos, as somas das quantias que a propaganda bolchevista distribui pelo Brasil, e outros fatores conhecidos, tudo isso nos fala da audácia criminosa do inimigo universal e do perigo que ameaça a nossa pátria.

É este um quadro sintético, uma imagem pálida da situação que atravessamos, a atualidade do Brasil e do mundo.

Quais são as exigências dessa situação crítica, anormal e perigosa? Quais são os imperativos que a atualidade impõe, já não dizemos aos católicos, mas a todos os cristãos e homens bem-intencionados, e tanto aos que dirigem, com honra e patriotismo, a nação brasileira e aos outros povos, como a todos os cidadãos do Brasil e aos governados em geral?

A resposta a esta interrogação será o assunto desta pastoral. Neste documento, como em todos os nossos trabalhos, visamos instruir o povo confiado à nossa solicitude pastoral, e promover a glória de Deus e a salvação das almas imortais.

E se nossos esforços não alcançarem o fim desejado, revelarão, ao menos, nossa boa vontade e as intenções que nos animam de ser útil à sociedade hodierna, à qual a Igreja não pode negar conselhos oportunos, sugestões ou diretrizes seguras.

Nossas pastorais, portanto, não pretendem armar ao efeito, mas revestem-se da simplicidade e modéstia. Seu fim é estabelecer e ampliar o reino de Nosso Senhor Jesus Cristo entre os homens, o reino da paz da justiça e de caridade cristã. Se nossa atitude merecer interesse ou aplausos, tudo oferecemos ao divino Mestre; se, porém, nossas intenções não forem, devidamente, compreendidas ou mal interpretadas, repetiremos a palavra que São João Batista, nosso glorioso patrono, proferiu em relação a Jesus Cristo: "Illum oportet crescere, me autem minui: Convém que ele cresça e que eu diminua".

Ouvi, pois, prestimosos auxiliares e amados fiéis, os princípios imperativos da atualidade, escutai a voz dos tempos hodiernos!

Encerra-se hoje, nesta capital, o primeiro Congresso Eucarístico Estadual do Rio Grande do Sul, ao qual precederam missões populares em todas as igrejas matrizes e várias capelas de Porto Alegre, como também semanas eucarísticas e outros atos religiosos em todo o Estado gaúcho.

Este fato auspicioso é para nós sumamente consolador e nos oferecer a garantia de que Deus nosso Senhor continuará a proteger e abençoar o nosso querido povo.

CAPÍTULO II

Reconhecimento da existência de Deus

Um dos imperativos da atualidade é crer no Deus eterno, todo-poderoso e infinito. Esta fé deve ser uma convicção firme e inabalável. Há de penetrar em todos os corações, em todas as camadas sociais. Não crê na divina majestade quem emprega a palavra Deus em discursos, em artigos de jornais e páginas de livros, sem dar-lhe a devida significação, sem professar que Deus é o fundamento insubstituível de toda a religião e a base mais segura da ordem social.

Dar um outro sentido à palavra de Deus, é uma mistificação, é a repulsa da divindade. Quem identifica, numa confusão panteística, o universo com Deus, rebaixa Deus a dimensões do mundo ou dá ao mundo as propriedades de Deus. Um tal não crê no verdadeiro Deus.

Na vida pública e particular, procedem muitos como se Deus não existisse. Outros combatem sua existência de uma maneira que denota perversidade e loucura. O desconhecimento de Deus nos diferentes setores da vida humana abre a porta ao infortúnio do indivíduo e às desgraças dos povos.

A necessidade de provar a existência de Deus é sinal de que a sua imagem se tem obscurecido entre nós por modo inexplicável, mas, reavivar a convicção de sua existência é prova de que ela não se obliterou ou apagou completamente.

O apóstolo São Paulo afirma a possibilidade de conhecimento de Deus sem a revelação, pela observação refletida da natureza: a natureza invisível de Deus manifesta-se ao espirito pela obra da criação. Pois que as perfeições invisíveis de Deus, o seu eterno poder, a sua grandeza infinita se fez visíveis desde a criação do mundo, pelo conhecimento que dele nos dão as criaturas. Deus brilha naturalmente no espírito e no coração dos homens, visto que por meio de suas obras externa lhes faz conhecer a sua existência e os seus atributos.

O filósofo pagão Aristóteles diz textualmente: "Embora invisível a toda natureza mortal, Deus manifesta-se nas suas obras". E Cícero: "Tu não vês a Deus, mas o conheces pelas suas obras".

Com efeito, Deus, princípio e fim de tudo quanto existe, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão, mediante as criaturas, porque as coisas invisíveis dele se veem depois da criação do mundo, compreendidas pelos seres que foram feitos. Contudo, aprouve à sua sabedoria e bondade, por outro meio, e este sobrenatural, revelar-se a si mesmo e os eternos decretos de sua vontade ao gênero humano.

Em virtude desta revelação, cremos que Deus, por sua bondade infinita, destinou o homem a um fim sobrenatural, para participar dos bens divinos, que excedem absolutamente a inteligência do espirito humano, pois que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem jamais sentiu o que Deus preparou em favor daqueles que o amam.

Esta revelação sobrenatural é contida nos livros escritos e nas tradições não escritas, as quais, recebidas pelos apóstolos da boca do próprio Jesus Cristo ou pelos mesmos apóstolos, sob a inspiração do Espirito Santo, transmitidas, com ode mão em mão, chegaram até nós.

É esta a doutrina da Igreja católica, ensinada pelo Concilio do Vaticano, que declara: "Se alguém disser que Deus único e verdadeiro, criador e senhor nosso, não pode, por meio das coisas que foram feitas, ser conhecido com certeza, pela luz natural da razão humana, seja excomungado, anátema.

Se alguém disser que não é possível ou conveniente que o homem seja instruído por meio da revelação divina, a respeito de Deus e do culto que lhe deve prestar, seja excomungado. Se alguém disse que o homem não pode ser, divinamente, elevado a um conhecimento e uma perfeição que excedem a natural, mas que pode e deve por si mesmo chegar, finalmente, à posse de toda a verdade e de todo o bem, por meio de um progresso continuo, seja excomungado. E finalmente, se alguém não receber por sagrados e canônicos os livros da Sagrada Escritura, inteiros com todas as suas partes como os enumerou o santo sínodo de Trento, ou negar que foram divinamente inspirados, seja excomungado".

Aos estudiosos de boa vontade indicamos alguns argumentos filosóficos que provam a existência de Deus. Os argumentos metafísicos, em resumo, são os seguintes: Se no mundo existe movimento ou mudança, como de fato existem, deve haver um motor imóvel que é Deus. Se existem causas segundas, a causa primeira é aquela que chamamos Deus. Se existem seres contingentes, que podem existir ou deixar de existir, eles devem depender de um ser absolutamente necessário, que é Deus. Se existem vários ou diversos graus de perfeição, é preciso que exista um ser infinitamente perfeito, que é Deus. Se existem verdades absolutas e necessárias, deve existir uma inteligência absoluta e necessária, que é Deus.

Os argumentos físicos baseiam-se em fatos da natureza. Pois, se existe uma ordem maravilhosa no mundo e nas operações dos agentes irracionais, deve existir um ordenar infinitamente sábio e poderoso, que é Deus. Para isto basta estudar a ordem cósmica, a finalidade das operações dos seres irracionais vivos.

Os argumentos morais fundam-se na existência de uma lei moral e a convicção de todos os povos de haver um ente supremo. O autor dessa lei moral é Deus. E o consenso unanime, constante e universal dos povos deve radica r na verdade e não no erro, porque só a verdade pode ser unanime, constante e universal.

O grande naturalista Linneu escreve: Quando acordei, o Deus eterno, imenso, onisciente, onipotente, acabava de passar. Vi-o ao longe e fiquei profundamente maravilhado. Segui os vestígios dos seus passos, através das obras da criação e por toda a parte, mesmo nas coisas mais pequeninas, que poder observei, que sabedoria, que inefável perfeição! O sol e todo o sistema planetário, imenso, incalculável, apareceram-me suspensos pelo primeiro motor, causa das causas, governador e conservador do universo. Todas as coisas são, pois, testemunho da sabedoria divina e a beleza, a harmonia, as justas proporções das criaturas, proclamam o poder do grande Deus.

Outro sábio de fama imortal, o astrônomo Keppeler, conclui sua grandiosa obra intitulada "Os quatro livros da harmonia celeste", com estas sublimes palavras: "E agora só me resta a levantar as mãos e os olhos para o céu, e dirigir ao autor de toda a luz a minha humilde oração: "Ó vos que pelos esplendores sublimes que derramastes sobre toda a natureza, elevais os nossos desejos até à divina luz, a vossa graça, sede bendito.

Senhor e criador de todas as consolações que experimentei no êxtase a que me elevou a contemplação da obra das vossas mãos, eis acabado este livro, que contém o fruto do meu trabalho, e de toda a inteligência que me destes. Proclamei diante dos homens, mostrando-lhes na medida de minhas forças, a sua imensa perfeição. Esforcei-me por chegar até à verdade, afim de conhece-la o mais perfeitamente possível e, se me escapou alguma coisa indigna de vós, fazei que a conheça para eliminá-la.

Ter-me-ei deixado seduzir pela presunção, na presença da beleza maravilhosa das vossas obras? Terei eu procurado a minha glória entre os homens, levantando este monumento que só devia ser consagrado à vossa honra; ah, se assim foi, tende clemencia e misericórdia de mim, e concedei-me a graça de que o meu trabalho não produza mal algum, mas concorra para glorificação do vosso nome e salvação das almas".

Assim falam homens do quilate de Linneu e Keppeler. Os nossos cientistas e intelectuais deveriam imitar o seu exemplo. Pois, verifica-se a palavra de Bacon "A pouca ciência afasta de Deus e a muita conduz a ele".

São, pois, insanos todos os homens que não tem conhecimento de Deus e que pelas coisas criadas que se veem, não puderam conhecer aquele que é, nem considerando as suas obras, conhecerem quem era o artífice. O insensato disse no seu coração: não há Deus.

Na presente época urge que façamos, como cristãos e brasileiros, destemidamente, nossa profissão de fé. Cremos e confessamos que existe um Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito pela inteligência e vontade e por toda a perfeição; o qual sendo uma substancia espiritual, singular, absolutamente simples e imutável, deve ser pregado como real e essencialmente distinto do mundo, beatíssimo em si e de si, e inefavelmente excelso acima de toda as coisas que existem e podem ser concedidas fora dele.

Este único verdadeiro Deus, por usa bondade e virtude onipotente, não para aumentar a sua felicidade ou para adquiri-la, mas sim para manifestar a sua perfeição pelos bens que outorga às criaturas, e com libérrimo conselho, desde o princípio do tempo criou do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, a angélica e a mundana, e por fim a humana, como comum, constituída de espirito e de corpo.

E todas as coisas que Deus criou, ele as conservas e governa por sua providencia, tocando de fim a fim fortemente, e dispondo todas as coisas com suavidade. Pois todas as coisas estão nuas e descobertas aos seus olhos, ainda mesmo aquelas que hão de acontecer pela ação livre das criaturas.

É esta a fé dos nossos antepassados; esta fé que queremos guardar e esta fé constitui um imperativo da atualidade!

CAPÍTULO III

A repulsa do ateísmo

Ateísmo é o erro daqueles que não reconhecem ou negam a existência de Deus. Divide-se o ateísmo em teórico e prático. O prático é o erro daqueles que, embora afirmem a existência de Deus pela razão, porém a negam pelos seus atos, porque vivem como se Deus não existisse. O teórico é o erro daqueles que com sua razão não admitem a existência de Deus. O ateísmo prático é possível, pois, não é uma depravação da inteligência, mas da vontade. Como a vontade está sujeita a depravar-se, afim de que o homem mais livremente se entregue às desordens e paixões, pode este deixar de pensar em Deus e de prestar-lhe as devidas homenagens de obediência e subordinação.

A respeito, diz um filósofo: Os que não servem a Deus e que antes o ofendem com uma vida cheia de crimes e vícios, são uma espécie de ateus, professam o ateísmo dos libertinos e devassos. Pois, efetivamente, vivem como se não houvesse Deus, sem medo de sua justiça, sem gratidão para com sua bondade, sem respeito para seu nome, sem obediência às suas leis, e ainda que pudesse tomar Deus do seu trono para o esmagar sob os pés e aniquilar para sempre, não viveriam com mais licença e ousadia. São ateus pelas suas ações; reconhecem a Deus com a língua, mas o negam com os costumes; falam como crentes, mas agem como incrédulos.

O ateísmo teórico pode ser negativo ou positivo. O primeiro é o erro dos que afirmam a existência de Deus, porque não o conhecem. Este erro não é possível nos homens adultos. Pois, a existência de Deus, apesar de não ser de imediata evidencia, contudo se descobre logo que começamos a aplicar os primeiros princípios da razão. Porquanto sendo natural e facílimo deduzir da existência dos efeitos a existência da causa respectiva, é claro que contemplando o universo, não podemos deixar de reconhecer uma causa que o produziu e o formou.

O ateísmo teórico positivo é o erro daqueles que, depois de terem conhecido a Deus, estão, séria e sinceramente, convencidos de que ele não existe. Esta classe de ateísmo não é admissível. Pois, é impossível que o homem esteja, seria e sinceramente, convencido da falsidade de uma coisa, cuja existência é atestada pela voz da natureza, como o é a existência de Deus. De fato, ela é admitida por todos os homens, em todos os tempos, em todos os lugares.

Em geral, os que se dizem ateus, são céticos ou panteístas. O espirito nunca poderá, séria e sinceramente, convencer-se de que Deus não existe. Pelo menos com suas dúvidas protestará sempre contra as estultas afirmações do coração. Já no seu tempo, Sêneca dizia: Mentem os que dizem estar convencidos de que Deus não existe. Pois, se por vezes o dizem, todavia de noite, quando estão sós, começam a duvidar".

Com efeito, as dúvidas acerca da existência de Deus derivam da superficialidade do pensamento, e sobretudo, da corrupção da vontade. Pois, há uma classe de espíritos cientificamente desorganizados, hábeis para compreender os fenômenos e as leis nas diversas ordens da realidade, na natureza ou na história, mas incapazes, por causa de uma inércia sistemática que se toma por uma força, de se elevar à concepção da causa que é a razão última das leis naturais, assim como as leis são a razão dos fatos.

Mas, as dúvidas derivam, principalmente, da corrupção da vontade. Não é na inteligência que o ateu nega a existência de Deus ou dela dúvida, porém no coração. O homem cuja vida seja pura e ordenada, nem se quer duvida da existência de Deus. Desejava ouvir, escreve um autor, a um homem sábio, moderado, casto e justo, que Deus não exista ou que a nossa alma não seja imortal; ele falaria sem interesse, mas esse homem não se encontra.

O ateísmo é a destruição da ciência. Efetivamente, a ciência verdadeira é o conhecimento da causa dos seres e não só o conhecimento de efeitos e fenômenos. Se, por hipótese, Deus não existisse, os problemas mais importantes e fundamentais ficariam insolúveis. Pois, na ordem física seria inexplicável a origem do mundo, da vida, da alma humana, a uniformidade e constância das leis físicas. Na ordem lógica faltaria a base da possibilidade das coisas, da eternidade e necessidade das essências, da imutabilidade da verdade. Na ordem ética seria inexplicável a existência da lei moral; a virtude não teria um prêmio, nem o crime um castigo e o bem não diferiria do mal.

O ateísmo é a destruição da sociedade, porquanto esta não pode subsistir sem que haja fidelidade e respeito nos súditos, desinteresse e justiça nos governantes. Porém, uma sociedade sem Deus é reino da anarquia, tendo por direito a força material e por lei o despotismo. O próprio Voltaire declarou: Eu não quereria ser súdito de um príncipe ateu, porque se encontrasse o seu interesse em me esmigalhar, com certeza me esmigalharia. Eu não quereria, se fosse soberano, ter cortesãos ateus, pois, se tivessem interesse em me envenenar deveria eu todos os dias tomar contravenenos.

O ateísmo é a destruição da natureza humana, e assim o homem seria a mais desgraçada das criaturas. Porque depois de ter suportado tantos sofrimentos e decepções e depois de ter suspirado tanto pela felicidade sem nunca a encontrar na vida presente, não haveria nenhuma recompensa para seus méritos e nenhum descanso ou satisfação para suas tendências.

Todas estas consequências confirmam o que no capítulo anterior declaramos.

O materialismo é um verdadeiro ateísmo. Entende-se por materialismo o sistema dos que pensam que tudo no universo é mateira e excluem, por isto mesmo, toda a substancia espiritual criada ou incriada. Segundo esta falsa teoria não existe Deus. Ou, se o admite, não é ele senão a mesma matéria que compõe a natureza. Afirma que não há na homem alma propriamente dita, espiritual e imortal, mas o que se chama alma humana é apenas a própria matéria, que se desenvolve e forma a organização do corpo, por meio de fatores químicos e biológicos. Ora, isto é um erro grave e evidente, segundo as demonstrações das respectivas ciências naturais.

O materialismo é uma forma do ateísmo cientifico, que tem tido seus defensores em todos os séculos.

O bolchevismo russo pregão ateísmo e baseia seu sistema no materialismo crasso. Não somente nega a Deus, mas o combate de um modo estulto e satânico, pela imprensa, pelo rádio, pelo cinema, tanto nas escolas primárias como nas academias cientificas. Organizou um exército de ateístas combatentes para destruir a ideia de Deus e qualquer religião, assim como todos os monumentos e instituições que lembram e ensinam a fé sobrenatural.

A existência de Deus é a verdade fundamental que o universo e a humanidade altamente proclamam. O ateísmo em todas as suas formas e modalidades é um erro gravíssimo, é um insulto à história, à natureza e às lis do espirito humano.

O nosso Deus não é um ídolo surdo e insensível que habita em regiões inacessíveis e entregue o mundo ao acaso. Mas ele está acima do mundo, onde dirige os homens com amor e justiça e prescreve aos astros suas órbitas. Com sabedoria e força.

Os nossos ateístas modernos vivem no passado e desconhecem o presente. Pois, ignoram os filósofos mais conspícuos da atualidade, embora não sejam católicos, manifestam, claramente, tendências espiritualistas e procuram solucionar problemas de alta importância de acordo com as ideias católicas.

Reconhece-se a metafisica e a filosofia cristã, a filosofa perene triunfa. Passou o tempo em que Hipólito Taine afirmava que a lei e o vício são produtos como o açúcar e o vitriolo.

Ouçam os nossos intelectuais a voz de Bergson, Chesterton, Gabriel Marcel, Lavelle, Blondel, Picard e muitos outros. Os poucos filósofos hodiernos que negam a Deus, desaparecem diante do grande número de cientistas e intelectuais que rejeitam e reprovam o ateísmo.

Por isso, podemos afirmar, sem ferir os sentimentos da caridade cristã, que o ateísmo atual é um privilégio dos semicultos e apanágio dos maus e perversos.

CAPÍTULO IV

A observância das leis de Deus

Tomando a palavra a lei na sua significação mais ampla, os impulsos de agir, provenientes da eterna vontade legislativa de Deus e postos nas coisas criadas, formam as diversas espécies de leis temporais. Estas são, em certo modo, emanações da lei eterna, pela qual as coisas criadas recebem o impulso de cooperar para a realização do plano divino universal.

O princípio de atividade, comunicado às criaturas e nelas imanente, é, antes de tudo, a própria natureza, com todas as suas tendências às aspirações unitivas e ordenadas. Deus move as coisas não só externamente, como o atirador a flecha, mas nela põe inclinações, mediante as quais tendem, por sua própria natureza, ao seu fim.

Segundo o diverso grau de sua natureza, as criaturas participam, de modo vario, da lei eterna. Os seres inorgânicos são governados por forças puramente mecânicas, físicas e químicas, e tem uma parte autônoma mínima, no ordenamento prescrito a eles.

As plantas participam, de modo mais elevado, da lei eterna. Aqui estamos diante de um princípio vital sermovente, que opera internamente, e faz a planta crescer e desenvolver-se por si mesma, segundo um plano bem ordenado. De uma maneira ainda superior, participa na lei eterna o reino animal que, dotado de conhecimento sensitivo, é capaz de distinguir, por si, o que lhe é útil e de procura-lo de longe.

Mas, infinitamente superior é a participação dos seres racionais na lei eterna. Estes não são movidos por forças cegas, nem impelidos por estímulos inconscientes a cooperar para a realização do plano providencial divino, mas pela razão. A estes unicamente Deus fez conhecer sua vontade mediante o conhecimento natural na forma de mandamentos e proibições, a esta participação dos seres racionais na lei eterna é a lei ética natural.

A lei ética natural se pode, portanto, definir como a luz da razão gravada em nós pela natureza, mediante a qual conhecemos o que devemos fazer e o que devemos evitar; ou seja, o conhecimento a nós comunicado pelo Criador por meio da natureza, a saber, que em nossos atos devemos observar a ordem correspondente à nossa natureza.

Tudo o que conhecemos mediante a razão natural, prescindindo de qualquer preceito ou proibição positiva, pertence à lei ética natural que, simplesmente, se pode chamar lei natural.

Deus, havendo, pois, criado do nada os diversos seres que compõem o universo, lhes imprimiu leis necessárias para a sua existência, conservação e perfeição. A ordem devia ser o resultado destas leis, fielmente, observadas. As criaturas irracionais que constituem o reino mineral, vegetal e animal, observam estas leis por necessidade de sua natureza, operam segundo suas propriedades essenciais e nunca se afastam da ordem na qual Deus as criou e estabeleceu.

Mas, assim já não acontece com as criaturas inteligentes. O homem, dotado de liberdade, pode a seu arbítrio observar ou violar as leis que Deus lhe impôs. De modo diferente dos seres irracionais, dominados pelo instinto, e que ignoram as leis que os rege, o homem conhece os preceitos que devem governa-lo. Para que as observe é preciso que os conheça e se submeta aos mesmos.

Eis a razão porque Deus, quando criou o homem, escreveu no seu coração os princípios supremos da moral ou a lei que devia rege-lo e regular-lhe as relações, quer com o seu criador, quer com os homens, seus semelhantes, quer consigo mesmo. É o que se chama a lei ética natural, ou simplesmente lei natural de que fala São Paulo na epistola aos romanos, referindo-se aos gentios, fiéis às revelações primitivas: os quais mostram que o que a lei ordena, está escrito nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua própria consciência.

Esta lei, porém, o homem não tardou em infringi-la: Adão e Eva, no que tocava às suas relações com Deus, Caim no que dizia a respeito a seu irmão Abel e seus semelhantes. Multiplicou-se a humanidade. As infrações repetiram-se e as contínuas transgressões obscureceram as luzes e abafaram a voz da consciência, apagando quase até os últimos vestígios dessa lei que o próprio Deus tivera o cuidado de ela inscrever. Toda a carne corrompeu o seu caminho. O dilúvio, triste castigo de tantos crimes, não pode fazer que a humanidade se conservasse por muito tempo nos tramites da obediência e do dever.

O orgulho, a revolta, a corrupção ultrapassou todos os limites. O bem e o mal, o justo e o injusto, a virtude e o vício, tudo ficou confundido nas ideias e nos costumes dos homens.

Afim de não perder, completamente, os seus direitos e conservar ainda alguns servos fiéis na terra, Deus escolheu uma família, a família de Abraão, um povo, o pouco no qual manteve por meio de milagres, revelações e profecias alguns vestígios de uma lei que desaparecia cada vez mais do coração dos homens.

Não obstante isso, dada a liberdade humana, houve murmurações, revoltas, violações flagrantes e reiteradas dessa lei natural, tão geralmente esquecida, ainda mesmo no povo eleito.

Deus resolveu então escrever a lei em duas tábuas de pedra, entregando-as a Moisés, para que fossem guardadas na Arca da Aliança. A promulgação da lei divina, feita no monte Sinai, revestiu-se grande majestade.

Esta lei chama-se decálogo, porque contém dez mandamentos, fonte, como diz Santo Agostinho, e sumário de todas as leis. Esta lei escrita não é outra coisa senão a lei natural condensada e resumida em dez preceitos.

Os três primeiros mandamentos do decálogo referem-se aos deveres que os homens têm para com Deus, e os outros sete ao próprio homem e ao seu próximo. Eis uma síntese da legislação divina: amarás a Deus sobre todas as coisas; não tomarás seu santo nome em vão; guardarás os domingos e festas; honrarás pai e mãe; não matarás; não pecarás contra a castidade; não furtarás; não levantarás falso testemunho; não desejarás a mulher do próximo; não cobiçarás as coisas alheias.

A lei dada a Moisés no monte Sinai, veio confirmar e completar a religião primitiva, transmitida por intermédio de Adão aos patriarcas e por estes ensinada aos seus descendentes. Quer Deus promulgue suas ordens de viva voz, quer pela palavra escrita, a sua vontade soberana é sempre a única regra dos atos humanos.

Deus impôs o decálogo à serviço de todos os homens, sejam eles revoltosos ou submissos. O Deus que falou no monte Sinai, é Deus transcendente e inefável, o Deus do céu e da terra, o Deus de todos os povos e nações, o Deus de todos os indivíduos e de todas as classes humanas. Ele impõe sua vontade onipotente com indiscutível autoridade, exclusividade e universalidade, visto ser o Deus único e seus direitos se estendem a todos os seres.

O decálogo apela não somente para a consciência de alguns, mas se dirige à consciência de todos os homens.

As palavras e as lutas dos profetas tiveram em vista manter a observância da lei divina nos corações dos israelitas e preparar o reino do Messias.

A Jerusalém do tempo messiânico era para eles a visão de uma pátria, sobretudo espiritual, de uma pátria das almas.

Jesus Cristo, na sua passagem pela terra, não aboliu, de forma alguma, o decálogo. Bem longe disso, ele o confirmou e exigiu seu cumprimento. "Não julgueis, declarou ele, que vim destruir a lei ou os profetas; pois, não vim para os destruir, mas sim para os cumprir". Contudo, então Cristo não aboliu algumas leis do Antigo Testamento? Sim, porém o que ele ab-rogou foram as leis rituais e cerimoniais, conhecidas pelo nome de lei judaica ou mosaica.

Todos os homens são, pois, obrigados a observar o decálogo, já porque fora, segundo a sua essência, escrito nos corações, já porque foi promulgado pelo próprio Deus no monte Sinai, já porque foi confirmado e de novo promulgado pelo próprio Jesus Cristo. Não há, portanto, lei mais respeitável nem mais digna da nossa submissão do que esta.

A justiça, o reconhecimento e o nosso próprio interesse nos impõem o dever de cumprir os preceitos do decálogo.

Que é Deus em relação ao homem e o homem confrontado com Deus? Deus é rei, criador e pai. O homem é súdito, servo, criatura e filho.

Qual o rei que não impõe lei aos súditos? Qual o senhor que não dá ordens aos sevos. Qual o artista que não imprime sua vontade na própria obra? Qual o pai que não quer que seu filho lhe obedeça?

Ora, ninguém é soberano como Deus, mestre como Deus, criador nem pai como Deus. Toda a realeza emana da sua majestade, toda a soberania se deriva da sua autoridade suprema e toda a paternidade provém dele, como diz São Paulo: "Do qual toda a paternidade toma o nome nos céus e na terra".

Portanto, em virtude de todos este título possui Deus o direito de mandar ao homem e este tem o dever de obedecer a Deus. De outro lado, o nosso reconhecimento exige a observância do decálogo. Pois, porventura, foram os homens que a si próprios deram a existência? "Estes membros são de Deus que os recebi", disse um dos Macabeus, morrendo pela Lei antiga que o tirano Antioco queria fazer-lhe violar. E a mãe excepcional destes heróis, naquela dura emergência, declarou aos seus filhos: "Não fui eu que vos dei a vida, não fui eu que reuni e adaptei os vossos membros uns aos outros; foi o Criador do mundo que formou o homem no seu nascimento, que fez todas as coisas; é ele que, na sua misericórdia, vos há de restituir esta vida que agora desprezais.

De fato, Deus é nosso criador. Ele nos dá a vida e a saúde. Dirige os homens pela sua providencia inefável. Deus os sustenta com seu concurso, para que não recaiam no abismo do nada. Todos estes benefícios reclamam, certamente, o nosso sincero e constante reconhecimento.

Enfim, o nosso próprio interesse exige que observemos os preceitos do decálogo. Pois, de sua observância depende a sorte dos indivíduos e das sociedades. Quando Deus promulgou a sua Lei sobre o monte Sinai, cerrou-a das mais brilhantes promessas e das mais terríveis ameaças. Se ouvires a voz do Senhor teu Deus, cumprindo e guardando todos os seus preceitos que hoje te prescrevo, o Senhor teu Deus te exaltará sobre todas as nações que há na terra, e todas as bênçãos descerão sobre ti. Tu serás bendito na cidade e no campo, benditos serão os teus descendentes e o fruto da terra e o fruto dos seus animais, as manadas dos teus bois e os rebanhos das tuas ovelhas. O Senhor derramará a sua benção sobre os teus celeiros e sobre todas as obras das tuas mãos. O Senhor fará cair diante dos teus olhos os seus inimigos, que se levantarem contra ti, e eles, vindo por um caminho contra ti, por sete fugirão da tua presença.

Porém, se tu não quiseres ouvir a voz do Senhor teu Deus e não praticares todos os preceitos que eu te prescrevo hoje, todas as maldições cairão sobre ti e te oprimirão: serás maldito na cidade e maldito no campo; maldito o teu celeiro, maldito o fruto do teu ventre, o fruto da terra, as manadas dos teu sois e os rebanhos das tuas ovelhas; tu serás maldito ao entrar e maldito ao sair. O Senhor mandará sobre ti a indigência e a fome, e a maldição sobre todas as tuas obras, até reduzir-se a pó e acabar-te, dentro de pouco tempo, por causa dos teus péssimos desígnios, em que tu me abandonaste.

Não somente devemos esperar benção da terra, mas, de modo especial, uma abundante recompensa no céu, uma medida bem calcada, bem cumulada e a transbordar por todos os lados: a glória eterna. Assim, também, as maldições temporais menos do que o castigo eterno, devem compelir-nos à observância das leis divinas.

A história prova a eficácia da sanção divina. Homens, individualmente, bem como povos e nações provam esta verdade no decurso dos séculos. Se a lei de Moisés teve uma sanção tão severa de toda a infração que lhe fizeram, foi punida como escaparão à mão vingadora de Deus aqueles que desrespeitam os seus preceitos e os ensinamentos do seu Filho divino? E aqueles que obedecem à voz do evangelho, terão grande recompensa no céu e serão abençoados na terra.

Na realidade, os mandamentos do decálogo são de grande importância social e publica, porque consistem em o fundamento da sociedade humana e protegem os seus bens supremos. Os três primeiros mandamentos têm por objeto direto e imediato a Deus. Formam o que se chama a primeira tábua. Os outros sete preceitos referem-se ao homem, e tem por fim assegurar a união dos homens entre si e a ordem social. São as leis da segunda tábua. O quarto mandamento defende a autoridade paterna e social, alicerce da família e do Estado; o quinto e oitavo protegem a vida e a fama do próximo; o sétimo e o décimo, o direito da propriedade; o sexto e o nono defendem o matrimonio e a virtude da castidade.

É esta alta significação do decálogo, insubstituível por qualquer lei ou ordenação humana. Digamos com Santo Agostinho: "Dai-me, Senhor, o que vós ordenais, e ordenai-me o que quereis: Da quod jubes et jube quod vis".

CAPÍTULO V

Necessidade de conhecer as condições do homem

Grande soma de erros promana do desconhecimento das condições do homem. Sua origem é divina, pois Deus o criou nos primórdios dos tempos. Adão e Eva chamam-se os nossos primeiros pais, criados pelo Onipotente. E deste casal único descende toda a humanidade, dividida em raças, povos e nações. É esta uma verdade ensinada pela fé e jamais refutada pela ciência.

Nossos protoparentes eram isentos da ignorância, da concupiscência, da dor e da morte. Receberam de Deus, desde o princípio, a ciência infusa, quer natural, quer sobrenatural, proporcionada ao seu estado, o que quer dizer que tinham o conhecimento das coisas religiosas e morais necessário para a sua instrução e a de seus filhos, da mesma maneira que a ciência das coisas físicas, suficiente para a sua vida no paraíso.

Como os nossos primeiros pais estavam destinados a um fim sobrenatural, por isso seus conhecimentos abrangiam não só o que a razão alcança, mas também as verdades que ultrapassam as suas limitadas forças. O conhecimento dos nossos primeiros pais estava isento de ideias falsas, juízos errôneos e de todo o engano.

E se de fato, apesar de tudo, foram enganados por satanás, que exteriormente tentou seduzi-los, isto não sucedeu por deficiência do conhecimento intimo da verdade, mas por soberba voluntária e por propósito deliberado de se apartarem de Deus e converterem seu coração à mentira. Pois, diz Santo Agostinho: Eva não teria crido nas palavras da serpente, se para isso não tivesse contribuído o amor próprio e um certo impulso e arrogância.

E não admira, pois, o primeiro humano, como cabeça física e moral de todo o gênero humano, era destinado para instruir os outros homens em assuntos de fé e em ciências naturais. Mas, não poderia, retamente, instruir os seus descendentes, se não fosse adornado de uma ciência bastante perfeita, visto que não lhe era possível adquiri-la, desde logo, por suas próprias forças. Como, porém, não houvesse necessidade, para a reta instituição de sua vida, do conhecimento de todas as ciências naturais que agora são cultivadas pelos cientistas, não se assevera que sua cultura intelectual tivesse a mesma extensão.

Da mesma maneira eram eles isentos da concupiscência, ou seja, dos movimentos desordenados com que o apetite sensitivo é levado às coisas sensíveis, ainda mesmo contra a ordem da razão. A concupiscência é como uma fonte donde derivam todos os pecados, como ensina São Tiago. "Cada um é tentado pela própria concupiscência que o atrai e alicia. Depois a concupiscência, quando concebeu, dá à luz ao pecado e, o pecado, quando estiver consumado, gera a morte".

São João fala no mesmo sentido e diz que tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, dos olhos e soberba da vida. A concupiscência obscurece a razão e falseia seus juízos. Dominados pela paixão, os homens consideram honesto e permitido tudo quanto cobiçam. A concupiscência sufoca a palavra divina que o Salvador semeia em nossas almas. Lê-se no evangelista São Marcos: "O grão semeado entre espinhos é figura dos que ouvem a palavra de Deus, mas que a sufocam e inutilizam, por causa dos cuidados da vida, da ilusão das riquezas e dos outros efeitos da concupiscência.

Nossos protoparentes, antes do pecado original, não sentiam os estímulos da concupiscência. De modo nenhum eram moralmente cegos, nem careciam do sentimento do pudor, mas não tinham experimentado os impulsos da incontinência. Por isso, diz o Concilio de Trento que a concupiscência fora chamada pecado pelo apóstolo São Paulo "porque provém do pecado e inclina ao pecado". E na verdade, ela provém do pecado, não existia antes dele.

De fato, no estado de inocência a vontade do homem estava perfeitamente sujeita a Deus. Mas, era conveniente que, quanto o homem permanecia submisso a Deus, suas forças inferiores obedecessem à razão e o corpo a alma, para que, desta sorte, a ordem fosse perfeita. Efetivamente, a isenção da concupiscência está posta na sujeição destas forças inferiores.

A esse respeito ensina o teólogo Suares: Deus providenciava, afim de que não ocorressem objetos que perturbassem a paz e a tranquilidade da alma. Ele aperfeiçoava as faculdades do homem por meio de hábitos extrínsecos, de maneira que a razão se inclinasse a julgar retamente, a vontade a seguir a razão, e o apetite sensitivo a obedecer, prontamente, a uma e a outra. Daí é que o primeiro homem tinha um domínio tão perfeito sobre suas baixas inclinações que estas nunca se rebelaram contra sua senhora, a razão, e assim a sua vontade não foi tentada pelos apetites desordenados.

No seu interior não havia nada desordenado, nem sinal de maus desejos ou apetites rebeldes. A sua vontade achava-se perfeitamente submetida à do Criador e as inclinações e impulsos dos sentidos mantinham-se nos seus limites pela graça, e obedeciam, de bom grado, à razão. Assim é que o coração do primeiro homem era semelhante ao céu estrelado e sereno onde reina a ordem mais bela e inalterável. Ou parecia-se com um reino florescente, cujo habitantes não conhecem nem cumprem outra vontade senão a de um rei bom e justo. Ou, finalmente, o coração do primeiro homem era como uma imitação dos anjos, que obedecem ao menor sinal do seu Deus e Senhor. Era assim o primeiro homem uma magnifica semelhança de Deus infinitamente santo, e sua vida era inocente, feliz e mui parecida à divina.

Além disto, os primeiros homens eram isentos da morte do corpo no sentido de que, cumprindo o tempo da provação no paraíso terrestre, passariam vivos para a vida imortal. Esta doutrina é de fé, segundo o Concilio de Trento, e tem seu fundamento na Sagrada Escritura e na Tradição. Só pelo pecado original, é que a morte entrou no mundo. Com a morte vieram todas as misérias e enfermidades, penas e dores que, pouco a pouco, a trazem ou acompanham.

Fora destes privilégios, possuam os nossos primeiros pais a graça santificante. Por este dom foram elevados a um estado de nobreza divina e destinados ao lugar dos príncipes do céu com o fim de contemplarem um dia a Deus com os anjos na bem-aventurança eterna. Esta graça chama-se santificante, porque não se limita como a nobreza terna, a comunica título e dignidade ou direitos e prerrogativas exteriores sem tornar o homem virtuoso, mas sublima e dignifica, efetivamente, a alma com intima santidade e justiça. Pois, sem a graça santifica não pode o homem ser santo, enquanto que pela mesma graça se lhe infundem todas as virtudes que o tornam grato aos olhos de Deus e justo, participando de sua natureza divina.

Porque, quando nós dizemos que o primeiro homem, ao princípio, foi santo e justo, não só se entende que saiu isento de todo o pecado da mão do Criador, mas que estava também adornado da divina graça e da virtude, objeto da complacência de Deus e que por sua santidade era imagem sobrenatural e semelhança do Eterno.

Que Adão, antes da sua queda, possuísse esta santidade e justiça, é um artigo de fé católica definido pelo Concílio de Trento e deduzido das palavras de São Paulo: Renovai-vos no espirito da vossa mente e revesti-vos do homem novo que segundo Deus foi criado na justiça e verdadeira santidade".

Com a graça santificante está inseparavelmente unida a filiação divina e o direito à herança do Pai e do reino dos céus.

A graça habitual ou santificante é um hábito entitativo que não opera imediatamente e, por isso, devem dispor-se as faculdades nativas com virtudes sobrenaturais para atos do mesmo gênero. As virtudes que de si não importam nenhuma imperfeição, como a caridade e a justiça, existiam em Adão simplesmente, quando ao hábito e quanto ao ato. As virtudes que envolvem alguma imperfeição como a fé e a esperança, mas que de modo nenhum são contrárias ao estado de inocência, existiam igualmente nele quanto ao ato e hábito; porquanto a perfeição do primeiro estado não se estendia à visão de Deus pela sua essência.

Finalmente, as virtudes que repugnavam à perfeição do primeiro estado, como a penitencia que supõe o pecado, estavam em Adão inocente quanto ao hábito, quer dizer que ele estava de tal maneira disposto que, no caso de pecar, se arrependeria de sua falta. Do mesmo modo, segundo Santo Tomás, os protoparentes como estavam em estado de provação, podiam merecer a graça e nela crescer.

Santo Agostinho descreve da seguinte maneira a felicidade dos nossos primeiros pais: No paraíso vivia o homem como queria, enquanto a sua vontade se conformava com as ordenações divinas. Criado bom pelo supremo Bem e regozijando-se em Deus, viva sem necessidades, estando na sua mão o vier sempre assim. Tinha comida preparada para não padecer fome, e bebida para não sofrer sede, e a árvore da vida para que a velhice não o consumisse.

Não havia corrupção no seu corpo e não sofria moléstias nos seus sentidos. Nenhuma enfermidade do interior, nenhuma ferida temia do exterior, pelo contrário, o seu corpo gozava perfeita saúde e sua alma plena, paz e serenidade. E assim, como no paraíso não havia calor nem frio, naqueles felizes moradores não estava a reta vontade perturbada pela cobiça ou pelo temor.

Nem a tristeza, nem a alegria vã tinham ali entrada, mas uma verdadeira e constante alegria promanava de Deus como de fonte abundantíssima, conservando a alma e o corpo em perfeita e recíproca harmonia. Deus era o centro dos seus afetos. Para ele tendiam os seus corações que ardiam na caridade, que brotava de uma alma pura, de uma consciência boa e de uma fé que não era fingida. Os primeiros homens formavam uma sociedade fiel, nascida do amor honesto dos cônjuges entre si, onde a vigilância concorde do espirito e do corpo, e a observância do mandado sobre o trabalho existiam em perfeita harmonia. O trabalho em vez de fatigar, animava e a necessidade do sono nunca se impunha contra a vontade do homem. Tudo era fácil e por toda a parte se apresentavam gozo e prazer.

Em tais condições criou Deus os primeiros homens. O reconhecimento desse fato é de suma importância.

CAPÍTULO VI

A admissão do pecado original

Um dos dogmas mais impugnados pelo naturalismo moderno é o pecado original, com que, exceto a Virgem Santíssima, todos os homens nascem, como descendentes de Adão e Eva, que são a origem comum e única de todo o gênero humano.

O naturalismo nega, explica ou implicitamente, este dogma e supõe, erradamente, que a natureza humana, tal como se acha em nós todos, é integra e perfeita.

Deus concedeu os dons sobrenaturais ao primeiro homem, para si e deus descendentes por ser a cabeça e tronco da linhagem humana. Por isso, não somente os dons naturais, mas também os sobrenaturais deveriam transmitir-se a todo o gênero humano. Adão não perdeu só para si, mas também para nós, seus descendentes, a santidade e a justiça que de Deus tinha recebido. Esta doutrina ensina o Concílio de Trento.

Um pai perde os bens de sua casa ou os bens de família, para si e seus filhos, mas não para os estranhos. Pois, aqueles bens que tinham o destino de passar aos filhos e não estranhos que não pertenciam à família. Portanto, se Adão, segundo a doutrina dos concílios, perdeu para nós os dons sobrenaturais, é claro que os tinha recebido como pai comum e cabeça do gênero humano para os transmitir a nós como a filhos.

Deus tinha colocado os nossos primeiros pais, num jardim de delícias, o paraíso, deu-lhes, porém, o seguinte preceito: "Da árvore da ciência do bem e do mal não comereis, pois, no dia em que o fizerdes devereis morrer". Transgrediram eles este preceito e cometeram um grave pecado de desobediência. Deus queria que passassem triunfantes por essa prova. Ela continha uma tríplice prescrição, consoante a tríplice direção da vida humana: a prova da vontade que procura resistir ao que se lhe ordena; prova da inteligência que pretende uma ciência divina; prova contra a sua natureza sensual, que procura os prazeres.

Independência, incredulidade e sensualidade, é o tríplice modo pelo que a tentação acomete o homem. E são estas as provas pelas quais os primeiros homens tiveram de passar. Esta obediência era o ato mais sublime e religioso do primeiro homem, o ato único do seu culto, e, ao contrário, pela transgressão do preceito, apoderou-se dele a tentação de julga-se igual a Deus e de negar-lhe a soberania.

O preceito divino, olhado pelo lado material, podai aparentar pouca significação, mas era da mais grave importância com relação ao lado moral. Deus impôs um preceito, cuja observância devia declarar a sua soberania, para que o homem compreendesse quanto era grande o preceito da obediência, diz Santo Agostinho. Só lhe foi proibido o gozo do fruto de uma árvore, não por mero capricho da parte de Deus, porém, para o maior bem do homem obediente, visto nada lhe poder ser mais útil do que a sujeição à vontade de Deus.

A violação do preceito divino foi com certeza, pecado grave. Pois, o Criador tinha dito: "Da árvore da ciência do bem e do mal não comereis, pois, no dia em que o fizerdes, devereis morrer". O demônio, porém, minou, astutamente, a fé na veracidade divina e atreveu-se a acusar a Deus de mentiroso, dizendo: "Não morrereis". Subtraiu também à Eva a confiança e o amor de Deus, inspirando-lhe a suspeita criminosa de que Deus fizera uma tal ameaça por ciúmes e para impedir que ela e Adão conseguissem o sumo bem, a felicidade de serem como Deus. Porque o demônio acrescentou: "No dia em que comerdes o fruto proibido, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deus, conhecendo o bem e o mal".

Eva, que tinha um alto conhecimento de Deus, devia ter pressentido que, pela boca da serpente, falava um ser mau e inimigo de Deus e que era para ela um dever sagrado de afastar-se, imediatamente, daquele blasfemo tentador.

Mas, a soberba se introduziu no seu coração. A esperança fagueira de ser como Deus, a curiosidade atrativa de conhecer o bem e o mal, a bela aparência do fruto proibido, tudo isto fez vacilar-lhe a fé nas ameaças de Deus e nela despertou o desejo de comer o pomo fatídico.

Eva titubeou e caiu. Em seguida, foi oferecer daquele fruto ao marido, que também dele comeu. Adão, pois, sem pensar na sua inadiável obrigação de cumprir a vontade do seu Criador e Senhor, olvidando os inumeráveis benefícios recebidos, e as penas temporais e eternas, com que o havia ameaçado, só por soberba, pelo seu desejo desordenado de saber, por sua criminosa complacência com Eva, tornou-se réu do pecado horrível de desobediência, da mais negra ingratidão e da maior neciedade.

Assim, pois, os nossos primeiros pais se deixaram arrastar à rebelião contra Deus, altíssimo Senhor; contra Deus infinitamente voraz; contra Deus, princípio da sua vida, e se deixaram seduzir por aquele que, segundo o testemunho do Filho de Deus, "é mentiroso e pai da mentira e homicida desde o princípio".

Que é o pecado original? Pecado grave em geral é o afastamento de Deus, último fim do homem. Divide-se em pecado atual e habitual. O primeiro é o mesmo ato que transgredimos a lei e nos afastamos de Deus; o segundo, porém, é o estado de afastamento de Deus o qual continua depois do ato pecaminoso até que se faça a devida penitencia. O pecado original não é pecado atual, mas pecado habitual ou um certo estado pecaminoso no qual o homem permanece afastado de Deus, como seu fim sobrenatural. Por isso, pode definir-se o pecado original como privação da graça santificante pela qual nos afastamos de Deus como nosso fim sobrenatural, e a qual nos é de algum modo voluntária pela nossa conexão com Adão. Diz o Concílio de Trento: "Se alguém disser que o primeiro homem, quebrando o preceito no paraíso, não perdeu instantaneamente a graça e a justiça em que tinha sido constituído, seja anátema". Perderam, pois, a graça santificante, aquela graça pela qual eram propriamente santos, filhos de Deus e herdeiros do reino dos céus.

Pela perda da graça santificante, Adão e Eva foram privados da vida sobrenatural, ficaram espiritualmente mortos. O homem justo tem com relação à alma duas vidas: a natural e a sobrenatural. A alma não perde nunca a vida natural, porque é imortal por natureza. Mas, pode perder a vida sobrenatural, a vida da graça, e assim morrer de morte espiritual. Como o corpo, privado da alma, fica impotente de dar o menor sinal de vida, assim a alma despojada da graça divina, torna-se incapaz de praticar obra alguma agradável aos olhos de Deus e meritória da vida eterna.

Com a graça santificante, perderam Adão e Eva também os restantes dons sobrenaturais. Perderam o dom da ciência e da sabedoria, o domínio admirável do espirito sobre os sentidos e as inclinações inferiores. Perderam a prerrogativa da imortalidade do corpo e a serena felicidade que gozavam na imortalidade do corpo e a serena felicidade que gozavam no paraíso. Em consequência dessas perdas debilitaram-se as forças naturais das suas almas. Pois, diz o Concílio de Trento que pela violação do preceito divino, Adão quanto ao corpo e à alma, ficou mudado para pior. E embora nossos primeiros pais vivessem por longo tempo, sem demora foram sujeitos à sentença inapelável de Deus: "És pó e em pó te converterás".

Desde aquele momento o homem teve de ganhar o pão no suor do seu rosto. A sua vida, cheia de penalidades, deviam terminar com a mais dolorosa decomposição e destruição do corpo pela morte. "Por um homem, diz São Paulo, entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte; e deste modo passou a morte a todos os homens, que com ele pecaram".

Desde aquele dia começou o homem a caminhar para a corrupção e sua vida tornou-se uma peregrinação penosa em direção ao sepulcro. A paz tranquila, o gozo puro que até então tinham feito a sua felicidade, desapareceram. Desde então o temor, o arrependimento, os remorsos de consciência, a confusão e a vergonha martirizaram seu coração.

Entretanto, o pecado grave cometido pelos primeiros pais e que lhes mereceu o castigo eterno, lhes foi perdoado em vista do seu arrependimento e penitencia.

Como os primeiros homens, pela sua obediência a Deus poderia conservar todas as prerrogativas recebidas, não só para si, mas também para os seus descendentes, assim, pela sua desobediência formal, as perderam para os seus filhos e pósteros, precipitando todo o gênero humano na maior miséria desgraça. Em consequência do pecado original todos os homens ficaram privados da graça santificante e dos benefícios preternaturais e sobrenaturais.

Esta doutrina é dogma de fé católica. Pois, o Concílio de Trento o formulou nos seguintes termos: Se alguém disser que o pecado de transgressão de Adão somente a ele condenou a não toda a sua posteridade, e que ele perdeu a santidade e justiça que só recebeu de Deus para si e não para os outros, seja anátema.

Contudo, o Concílio de Trento declarou que não era sua intenção incluir neste número a bem-aventurada Virgem Maria. E mais tarde, e em 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX declarou e decidiu que a doutrina que sustenta que a Santíssima Virgem Maria no primeiro instante da sua conceição, por uma graça especial e privilégio de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo Redentor do gênero humano, foi preservada de toda a mancha da culpa original, que esta doutrina é revelada por Deus e por isso todos os fiéis a devem crer firme e constantemente.

Portanto, se Adão não tivesse cometido o pecado, a graça santificante com todas as suas prerrogativas teria passado aos seus filhos. Mas, daí não a se pode concluir que cada um em particular não pudera cair depois, pessoalmente, em pecado, perdendo por sua própria culpa a graça. De maneira que podemos dizer com Santo Tomás que neste caso cada um teria sido provado e, para conservar os dons sobrenaturais, deveriam ter mostrado a sal obediência a Deus, cumprindo pessoalmente o preceito divino.

Deus, na sua infinita misericórdia, porém, prometeu um Redentor na pessoa do seu Filho divino. É ele uma fonte superabundante e inesgotável de justiça, de santidade e de graças. A última razão neste como em todos os mistérios da divina providência, achamos nas palavras do apóstolo: "Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os teus juízos, quão investigáveis os teus caminhos! Quem conheceu o pensamento do Senhor, ou quem foi seus conselheiros?

Não se podem explicar as misérias que atormentam a humanidade, sem que se admita o dogma do pecado original, tal qual o ensina a Igreja católica.

Seu reconhecimento é um imperativo da atualidade.

CAPÍTULO VII

Prudência, justiça e veracidade

As virtudes morais têm por objeto as inclinações e propensões do homem, são as que lhe aperfeiçoam a vontade pela prática do bem e pelo reto uso da razão. Se o homem as exerce por meros motivos naturais, não passam elas de virtudes humanas e estéreis para a salvação. Se são exercidas por motivos da fé, tornam-se sobrenaturais, cristãs e meritórias para a vida eterna.

São elas quatro assim coordenadas: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Chamam-se virtudes cardeais, porque são como que os princípios, as fontes ou os fulcros das outras virtudes. A prudência dirige o entendimento, a justiça a vontade, a temperança o apetite concupiscível.

A primeira é a ciência prática do que devemos fazer ou evitar, o conhecimento do que é bom ou mau. O seu ofício é mostrar-nos em tudo o que dizemos, fazemos ou defendemos, o fim a que devemos encaminhar-nos, os meios convenientes do tempo, lugares e outras condições semelhantes, para que as nossas ações sejam boas em todo o sentido. É, por isso, que se chama a prudência a mestra das virtudes. Ela é em relação às outras virtudes como os olhos no corpo, o sal nos alimentos, o sol no mundo.

Nada mais necessário do que esta virtude, formalmente recomendada por Nosso Senhor: "Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas". É a verdadeira ciência dos santos. A prudência influi em todas as faculdades da alma e de todas se serve para chegar ao seu fim: da memória, recordando-nos a experiência própria e alheia, os erros em que temos caído e visto cometer os outros, afim de nos premunir contra novas quedas. A prudência serve-se do entendimento para nos esclarecer sobre o que nos é preciso pensar dos homens e de suas disposições. Ela aproveita-se da vontade para dirigir-nos em todas as suas operações.

Jesus Cristo chama a nossa atenção sobre a falsa prudência dos filhos do século, a qual consiste em serem infatigáveis para aplicar os meios para conseguir os seus fins. O divino Mestre narra a parábola do administrador infiel e conclui com uma exprobração significativa para muitos cristãos, dizendo: "Os filhos do mundo são, a seu modo, maus prudentes, mais hábeis do que os filhos da luz" no negócio infinitamente mais importante da salvação de suas almas.

A prudência estende-se a tudo e toma diferentes nomes segundo os objetos a que se aplica. Assim a prudência pessoal ensina a cada um o que lhe cumpre fazer a respeito de si mesmo, de sua alma e de seu corpo. A prudência doméstica ensina aos pais e mães a maneira de educar seus filhos e de tratar os seus negócios temporais e espirituais, e de cumprir suas obrigações um para com o outro.

A prudência política ensina aos chefes das nações, seja na ordem temporal ou espiritual, a governar, devidamente, seus súditos, a fazer observar as leis divinas e civis. A prudência legislativa ensina aos legisladores a fazer leis sábias, justas, convenientes e aptas para produzir o bem público dos povos. A prudência militar ensina aos generais e aos comandantes as regras que devem seguir para combater com bom êxito e triunfar com moderação.

Da prudência nascem virtudes particulares como de sua fonte e com ela se relacionam. Tais são a previdência que conjectura os acontecimentos e conhece de antemão os meios para conseguir um êxito feliz; a circunspecção que, pesando tudo com madureza, nada deixa correr ao acaso; o discernimento que calculado o pró e o contra, conhece o partido mais conveniente e os meios mais aptos para conseguir o fim desejado. Ainda podemos acrescentar a desconfiança de si mesmo e a docilidade em seguir os conselhos e avisos dos sábios e homens conspícuos pelo saber e experiência da vida.

A prudência como todas as virtudes morais, consiste em seguir o meio termo, evitando os extremos. Há duas espécies de vícios opostos à prudência, uns por defeito, outros por excesso. À primeira categoria pertencem os seguintes: a precipitação, que consiste em fazer tudo sem consultar a ninguém; a inconsideração, que julga, decide e opera sem exame suficiente; a inconstância, que abandona sem motivo justo uma resolução deliberadamente tomada; a negligencia, que omite os meios convenientes à execução de um projeto formado; a imprudência, que não atende a dificuldades, nem a perigos, nem a advertências.

Os vícios por excesso são: a prudência carnal, pela qual o homem opera segundo os desígnios e desejos da natureza corrompida; a astucia, que é a arte de descobrir os meios de enganar o próximo; o ardil, que põe em prática estes meios quer consistam em palavras quer em obras; a fralde, que é a extinção por fatos positivos da astúcia e do ardil, como é o uso, por exemplo, de medidas falsas; enfim, a demasiada solicitude nas coisas passageiras deste mundo.

Como é triste ver os prudentes do século que, referindo tudo ao seu interesse pessoal sem que sinta escrúpulo nem da natureza dos seus projetos, nem da escolha dos meios. Certamente, virá um dia em que eles hão de reconhecer que foram os mais imprudentes de todos os homens, quando virem que em troca de bens inconstantes e manejos ilícitos perderam sua felicidade suprema.

Como a prudência cristã tem seu trono no entendimento, descendo dali como luz e guia da vontade e das nossas operações, assim a justiça tem sua sede na vontade, fazendo-a pronta e propensa a dar a cada um o que lhe corresponde segundo a lei de Deus.

A justiça é, pois, a virtude pela qual damos a cada um o que lhe pertence, segundo a definição de Santo Agostinho. Ela serve para estabelecer e conservar a igualdade nos contratos, fundamento da paz e tranquilidade pública e doméstica. Na verdade, se cada um se contentasse com o que lhe pertence, sem cobiçar os bens alheios, concessões injustas e honras indébitas, jamais haveria discórdias ou guerras.

Esta virtude absolutamente necessária, obriga os particulares a dar à alma o que lhe compete e ao corpo o que lhe pertence, a respeitar os direitos alheios e reparar os danos causados. Obriga os chefes de Estado e os poderes públicos a administrar a justiça a todos, porque nem para outra coisa estão investidos no poder; obriga-os a retribuir empregos, dignidades e honras, não por favor ou capricho pessoal, mas conforme o merecimento real e os ditames da equidade e da legalidade. Numa palavra, é preciso observar a justiça comutativa, distributiva e legal.

Além disso, a justiça internacional obriga os povos, uns para com os outros, a observar os tratados e não fazer guerra sem justificação dos motivos, impõe moderação nas lutas justas, respeito às leis da humanidade, tais como o cristianismo as tem estabelecido entre os povos civilizados.

A justiça obriga, enfim a todos os homens a prestar a Deus o culto e as homenagens que lhe são devidas. Daqui o preceito fundamental do divino Mestre: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". E diz São Paulo: "Dai a todos o que lhes é devido: a quem é devido tributo, tributo, a quem é devida contribuição, contribuição, respeito a quem é devido, honra a quem é devida honra".

Quanto aos vícios opostos à virtude da justiça, são eles de duas espécies, uns por excesso e outros por defeito. A superstição e o fanatismo exageram e desfiguram o culto que devemos a Deus. A usura nos contratos e a prodigalidade excedem ambas os direitos que temos em nossos bens e nos do próximo, cuja administração nos é confiada.

Os vícios que pecam por defeito são a irreligião, a qual compreende a impiedade, a indiferença, a dureza do coração e das palavras para com o nosso próximo, a desobediência aos superiores, a ingratidão aos benfeitores, a mentira ao nosso semelhante, a inimizade aos amigos; enfim, para dizer tudo numa só palavra, a injustiça sob todos os pontos de vista.

De que maneira devemos adquirir esta virtude? Os meios mais eficazes são: a oração, o desapego das honras humanas e dos bens temporais, a esmola e a humildade. De fato, o egoísmo, a soberba, são a causa direta da rebeldia, da irreligião, da fraude e de todos os vícios opostos à justiça.

A veracidade é uma virtude anexa à justiça. Consiste em que se transmite ao próximo a verdade. É uma virtude indispensável nas relações humanas. A linguagem foi dada ao homem, para que pudesse comunicar os seus pensamentos aos outros. O pensamento é a palavra do espirito humano. Ela se expressa pela palavra oral ou escrita, e por meio de gestos. Todas estas manifestações se compreendem sob a designação da linguagem.

A linguagem é o fundamento das relações da sociedade humana. Os animais, ainda aqueles que vivem em agrupamentos, podem prescindir da linguagem, porque não tem nada que dizer-se mutuamente. Além do mais, cada um deles faz exatamente tudo o que pode e lhe pertence, movido a isso pela pressão natural do instinto.

Na convivência humana não há nada disso. O homem ao entrar no mundo, não traz consigo esta educação instintiva. Necessita recebe-la dos seus pais, em grande parte, por meio da palavra e desta ele precisa para manifestar suas indigências e desejos ao próximo. A veracidade não se pode dispensar na vida familiar, no ensino, na educação e na vida pública.

A veracidade tem o ofício de amar a verdade nas palavras e nos fatos, de cuidar para que nada se diga contra o juízo do entendimento, se não ocultar aos outros a deliberação do espirito nas devidas circunstancias, de inquerir a verdade quando se deve afirmar ou negar em absoluto alguma coisa, de cumprir os compromissos. À veracidade, opõe-se a mentira, que é a linguagem contra a verdade, quer por palavras ou ações.

A prática da veracidade constitui um bem imenso para a vida social. Mas, quantas faltas se cometem contra esta virtude em todos os ramos da atividade humana! A sua inobservância deprime o caráter, infunde a dúvida e a incerteza na palavra dos nossos semelhantes, motiva dissenções e lutas.

Quanto à justiça, na sua amplitude, reina nos tronos dos reis e nas cátedras presidenciais, quando ela dá leis e preceitos salutares, recompensa o verdadeiro mérito e castiga o vício, mantém a palavra dada e cumpre os contratos; quando ensina os súditos a guardar a fidelidade jurada aos governantes e a estimar as autoridades postas por Deus, a pôr em prática o que convém, a amar a Igreja e a Pátria e a cooperar com seus deveres e esforços para o seu bem-estar e a sustentar os seus direitos, então haverá, na sociedade paz, concórdia e felicidade, porque sobre ela desce e repousa a benção de Deus.

A prudência, a justiça e a veracidade na vida quotidiana são outros imperativos da atualidade.

CAPÍTULO VIII

A fortaleza e a temperança

A prática de todas as virtudes morais, especialmente de longa duração, está sempre ligada com grandes obstáculos e dificuldades. Portanto, quem anela pela virtude e quer alcançar o bem que ela visa, deve ter animo esforçado e varonil para suportar qualquer trabalho e vencer todos os embarques, deve, enfim, estar dotado de fortaleza cristã.

Neste sentido, a fortaleza não somente é uma virtude especial, mas uma condição sem a qual não pode existir genuína virtude cristã. Como virtude especial, a fortaleza tem por objeto principal vencer os trabalhos e dificuldades que se oferecem de fora aos que praticam a virtude, como penas temporais, esforços, perseguições, opressões, cárceres, tomentos, perigos de morte.

Pela virtude da fortaleza, portanto, superamos todos os obstáculos que nos embaraçam de praticar o bem e de suportar o mal e a adversidade. Com o auxílio da mesma nos abalançamos a novos empreendimentos e, apesar dos perigos e dificuldades, conseguimos, efetivamente, cumprir os nossos deveres para com Deus, para conosco mesmos, para com o próximo, tanto na vida particular como na vida social.

Pela virtude da fortaleza, os cristãos vencem a cada instante a perseguição espiritual e a repugnância do corpo, a tibieza espiritual e a tibieza do coração, as seduções da carne e do mundo. Os soldados que pela honra e glória da pátria afrontam as fadigas da guerra, as privações mais duras e a morte, são outros tantos modelos de fortaleza. Os sacerdotes e missionários, os religiosos e as religiosas que se dedicam ao bem espiritual e corporal da humanidade por motivos sobrenaturais, recebem o inflame dessa virtude. É pela fortaleza que também suportamos corajosos, sem murmurações e cristãmente, as perseguições, calunias, vitupérios e injurias, as doenças e os sofrimentos. Os heróis do cristianismo, pela influência dessa virtude, sujeitaram-se as perseguições, a tormentos atrozes e à própria morte. Os mártires são exemplo acrisolado e modelo perfeito de fortaleza.

A virtude da fortaleza é indispensável ao cristão, pois, segundo Cristo Nosso Senhor, o reino dos céus sofre violência e somente aqueles que sabem triunfar de si, o conquistarão. O reino dos seus sofre violência e os violentos arrebatam-no". E São Paulo ensina: "Ninguém será coroado sem que haja legitimamente combatido".

Várias são as virtudes que nascem da fortaleza e a tornam mais perfeita. Entre elas podemos enumeras: a confiança que não receia afrontar e vencer os perigos e os obstáculos de uma empresa razoável; a magnanimidade, que empreende e opera grandes e gloriosos feitos; a magnificência, que desprende em tempo oportuno e com mão larga para produzir os resultados que deseja; a perseverança, que marcha firme no caminho do bem e da justiça, não obstante as dificuldades que lhe embarguem o passo; a paciência, que sofre tranquila e com serenidade e as aflições e as doenças.

São vícios opostos à fortaleza por excesso, a saber: a temeridade e a audácia, que se atiram aos perigos sem necessidade, sem calcular os obstáculos nem os meios de os vencer; o atrevimento e a presunção, com que empreendemos coisas superiores às nossas forças. Os vícios por defeito não são menos prejudiciais. São o medo, a pusilanimidade, a covardia, a preguiça, o respeito humano, com que recuamos ante os obstáculos e nos rendemos ao inimigo, à tentação e às paixões sem combate ou quase sem combater.

Sim, o exemplo mais glorioso, digníssimo de imitação, no-lo deu o divino Salvador, submetendo-se às mais amargas penas, à morte mais afrontosa, no meio dos mais cruéis tormentos, para cumprir a vontade do seu Pai Celestial. Este exemplo de admirável fortaleza foi imitado por inúmeros santos.

Para adquirir e conservar a virtude da fortaleza, como somos obrigados, cumpre recorrer à oração e à consideração de modelos de coragem nos trabalhos e de resignação no sofrimento; não devemos esquecer-nos dos mártires, dos apóstolos, e, especialmente da vida e paixão de Nosso Senhor.

A temperança é uma virtude que modera o homem no uso dos prazeres da vida, com relação aos sentidos do gosto e do tato. As inclinações e os desejos desordenados dos sentidos apartam a vontade do caminho das virtudes cristãs. Como os expressos vapores que, subindo de lugares pantanosos, envolvem a luz do sol, assim as paixões em face do espirito humano, fazem à vontade tíbia e rebelde para seguir o impulso dirigido às coisas espirituais e superiores, e a seduzem, afim de pôr o último fim no gozo dos sentidos.

Este apetite pernicioso, desenvolvido pelo pecado original e alimentado pelas paixões pessoais, é o objeto contra o qual se dirige a temperança cristã, que consiste em domar as inclinações e desejos sensuais que nos afastam do bem e nos contem dentro os limites prescritos pela razão e pela fé.

Não consiste a temperança em abster-se de toda a sorte de prazeres, mas em regular o seu uso pela boa razão e pela lei de Deus. À temperança assim definida, é impossível desconhecer a sua necessidade.

A temperança se refere aos deleites provenientes das ações que pela sua natureza se destinam à conservação odo indivíduo e da espécie. Pois, Deus aliou aos atos necessários para conservar e propagar o gênero humano certos deleites, sem os quais os homens, dificilmente ou de nenhuma forma, se submeteriam a tamanhos trabalhos e sacrifícios. Portanto, segundo a intenção do autor da natureza nada impede que o homem, no exercício dos seus direitos experimente determinadas deleitações, contanto que não elimine o fim principal, nem implícita nem explicitamente, e se reja segundo os preceitos da razão e as leis divinas.

A temperança é a virtude que refreia e modera as inclinações dos apetites desordenados, e as concupiscências e volúpias do corpo que, principalmente, afetam o gosto e o tato. A obrigação desta virtude está declarada pelos diferentes nomes de mortificação, abstinência, continência e sobriedade, que a cada passo se encontram nas Sagradas Escrituras, na vida de Nosso Senhor e dos santos.

A abstenção modera o uso dos alimentos e das iguarias. Ela nos faz, especialmente, observar as leis da abstinência e do jejum estabelecidas pela Igreja. A sobriedade modera o uso das bebidas, sobretudo espirituosas e a ela se opõe o vício da embriaguez. A continência modera e reduz aos limites do dever a inclinação ao prazer genésico.

Outras virtudes nascem e florescem sob o escudo e influxo da temperança. A modéstia, que regula os movimentos interiores e exteriores do homem. Pela humildade nos apoucamos, reconhecendo a nossa própria miséria, nos conformamos com a disposição da Providencia e referimos a Deus todo o bem que podemos fazer. A brandura modera os ímpetos da alma, evita a impaciência e a cólera, conserva a paz e a tranquilidade do espirito e nos inclina a tratarmos sempre o próximo com a mesma suavidade. A clemencia adoça, enquanto a razão e justiça exterior o permitem, as penas merecidas pelos culpados até lhes perdoa, já por causa do seu arrependimento já por outros motivos legítimos. A verecunda, ou pudor perturba o nosso espirito em face de circunstancias ou ações que possam ofender a castidade. A honestidade é a perfeiçoa moral que averte o homem de volutuosidades indecentes e o inclina ao respeito de si mesmo e dos outros. A honestidade toma-se também no sentido de honrados e probidade. A mansidão por excesso, opõe-se à iracundia e, por defeito, a nímia indulgencia ou nimialenidade.

À virtude da temperança opõe-se o vício da intemperança que é o amor desregrado dos prazeres com que o homem se excede no comer, no beber e na satisfação dos sentidos. A intemperança traz consigo a glutoneria, a embriaguez, a incontinência e os mais pecados que destes vícios se derivam.

A história nos fala da intemperança dos romanos, no tempo da sua decadência. O luxo dos banquetes e das festas esgotava os tesouros do Estado e a fortuna das famílias. Longe de reprimir este luxo que arruinava o rico e despojava o pobre, eram os imperantes os primeiros que davam o mau exemplo.

Os povos volutuosos sempre foram cruéis. A depravação é filha e mãe do egoísmo ou do amor exclusivo de si próprio. Milhares de escravos foram vítimas dos despotismos dos seus donos. A plebe fervia pelas ruas. De noite dormia debaixo de alpendres e de dia aglomerava-se nos anfiteatros e nos lugares de devassidão. O povo, em geral, só queria duas coisas, só tinha duas precisões: pão e prazeres.

Os gladiadores divertiam, à custa de sua vida, os imperadores e os ociosos, e antes de entrarem em luta gritavam desesperados: Ó César, os que vão morrer, te saúdam. Os banquetes particulares até eram realçados por este prazer de sangue. Quando os convivas estavam saciados e começava a embriaguez, chamavam-se os gladiadores e a sala retinia de aplausos quando um dos combatentes era morto.

A imoralidade praticada nos banquetes, como nas bacanais e saturais excedem qualquer termo de comparação.

A temperança faz os homens sóbrios, justos, moderados e castos. É um imperativo da atualidade.

CAPÍTULO IX

Cristo o Salvador do mundo

O fato mais grandioso, importante e sublime da história universal é a existência de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem. Ele apareceu neste mundo, quando o gênero humano, desesperado de si mesmo, se havia engolfado no ardor de paixões vergonhosas que tudo devoravam.

Cristo insuflou um novo alento regenerador em todos os domínios da existência humana, da família e do Estado, da ciência e da arte. Sua doutrina penetrou na vida oculta da alma e na opinião pública.

A pessoa do Redentor é o centro do cristianismo. Dele derivam todas as forças espirituais e morais e para ele revertem. O código de sua moral reformou o mundo antigo, muito semelhante ao atual. Seus ensinamentos criaram uma nova civilização.

Porque então Jesus Cristo não poderá ser o Salvador da humanidade hodierna? É preciso que o Brasil, que todos os povos recorram a Jesus Cristo, protestando-lhe submissão e fidelidade incondicional.

O Filho de Deus nasceu como verdadeiro homem na Palestina. Ali passou a sua santa juventude, andou pelos caminhos pedregosos daquelas paragens. Nas colinas e rochas da Palestina ressoou a sua voz, ensinando, dando leis e consolando os aflitos. Naquele país, ele regou com sangue de seu coração as encostas do Calvário e morreu para remir os homens dos seus pecados. Ressuscitado dos mortos, instituiu a Igreja para continuar sua obra redentora. Subiu ao céu. Está sentado à direita de Deus Padre, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.

Os antigos povos civilizados, as grandes monarquias dos egípcios, assírios, babilônios e persas já tinham desaparecido do cenário mundial. Três povos somente foram interessados de modo imediato pela vinda de Cristo, os gregos, os romanos e os judeus. Estes três povos ofereceram o ambiente em que se operou a renovação do gênero humano.

O grego era o tipo do homem individual, como filósofo e como artista. Jamais chegaram os helenos a formar uma nacionalidade grande e harmônica. Para o grego a personalidade era tudo. O gozo da existência terrena mediante a contemplação artística e intelectual do mundo era o fim supremo da vida.

A beleza estática, a harmonia possível no concerto das almas era o ideal de sua moralidade. Sua religião se reduzia a uma pura deificação da natureza. A moral autocrática, os vínculos relaxados da vida de família, o egoísmo depravado e a inveja mesquinha conduziram, pouco a pouco, a formosa Helade ao ocaso completo de sua vida privada e civil.

O sol da arte fez com seus raios brotar, como que por encanto, uma dupla primavera que deu glória à Grécia e ao mundo inteiro, por meio de suas obras magistrais de poesia, de arquitetura e de escultura. Mas, no tempo de Jesus a arte grega entrava já no outono da vida.

Havia vários sistemas filosóficos. Entre os extremos da filosofia grega, o mito dos deuses de Homero e os sistemas filosóficos, encontram-se provas surpreendentes do alcance da razão humana e também provas bem tristes de sua incapacidade para conhecer a verdade. Os gregos não resolveram o enigma do mundo por meio de sua arte de sua filosofia.

Outro havia de vir para solucionar o problema. Mas a linguagem, a ciência, a arte e a filosofia dos gregos dominaram, desde os tempos de Alexandre Magno, o mundo todo, sem excluir os romanos, mais tarde senhores do universo. Nem se quer o judaísmo se viu livre da influência da civilização grega como o provam a aparição da seita dos saduceus e o uso geral da tradução da bíblia para o grego, feita em Alexandria por ordem do rei egípcio Ptolomeu II. Em virtude destes fatos, foi o helenismo, em certo modo, o guarda e o protetor da antiga revelação.

O povo romano era de outra índole. De intelectualidade mais precária que o grego, o romano superava a este em força moral. Nele se encarnavam o poder moral e o material, a ideia de uma unidade política muito grande e a soberania universal.

Com a espada talhou povos e nações, como pedras megalíticas do seu edifício, e os ligou entre si pela unidade da língua, da lei e da administração. Em nenhum outro povo do mundo antigo se revelou com aquela intensidade a convicção da própria força. Sua força, porém, residia na sua religiosidade severa, sua inteligência prática, na solidez da vida de família e na submissão ao Estado.

Mas, na medida que Roma estendia suas conquistas e canalizava a riqueza das províncias para a metrópole, assimilava novos costumes, entregou-se ao fausto e ao luxo, a religião nacional cedeu o lugar a uma idolatria universal com todos os perniciosos feitos. O ouro, os escravos e os gozos da vida que afluíam à Roma de todos os povos conquistados, produziram o empobrecimento, a volutuosidade e a corrupção dos costumes. Os imperadores romanos escreveram uma página bem triste da história universal.

O povo judaico, por sua vez, era religioso e neste sentido era superior a todas as demais nações com as quais, entretanto, não se podia comparar em força, arte e ciência. Deus mesmo elegeu este povo tenaz, de dura cerviz e fronte de ferro, educando-o para que fosse a nações escolhida, que desse ao mundo o Redentor.

O povo judaico foi depositário da Lei divina e das revelações de Deus. Os israelitas esperavam o Messias, o Salvador do mundo, mas a genuína ideia sobre o Redentor estava obscurecida. Os fariseus esperavam não um Redentor dos pecados, mas um libertador da opressão política de Roma. Este Messias não era mais do que uma quimera, uma caricatura de suas paixões.

Entre aquela gente desmoralizada havia não obstante um núcleo bom e ortodoxo, formado de toda as classes sociais, que suspirava pelo verdadeiro Messias; porém, era pequeno e não predominava no país. A maior parte do povo sentia com os fariseus.

Em tais condições achava-se o mundo quando apareceu o Salvador. Apesar de tanto esplendor, de tanta força e de tantos prazeres mundanos, a época do Messias era uma idade de pobreza, de crepitude e de decadência. Tudo estava para o refazer e reunir.

Os homens mais discretos se desviavam com repugnância o enfado. Pois, em parte alguma se vislumbrava um ideal ou uma esperança, tudo era dúvida, tédio e desprezo da vida, e angustia mortal. Enquanto os artistas, os filósofos e os políticos discutiam, o vício e o descontentamento ruíam a medula do gênero humano.

Veio o Salvador como Deus e como homem e satisfez as aspirações da humanidade. Ao heleno ofereceu mais sabedoria e mais ciência do que todos os seus filósofos, a maior beleza do que todos os seus artistas.

Cristo é o rei dos povos e o soberano do universo e realizou a ideia de Roma conquistadora, porém, em sentido mais elevado e mais valioso. Fundou um reino universal como Roma jamais o sonhara, no qual o próprio mundo romano constituía uma província insignificante. Transformou a cidade das setes colinas numa metrópole magnifica, da qual já não saíam cônsules e pretores com a espada e o livro da lei para submeter e algemar os povos, mas partem exércitos de mensageiros da paz com a cruz, o báculo e o evangelho para fazer a todos os homens participantes dos benefícios da redenção.

Também para Israel veio Jesus como Messias, afim de cumprir todas as promessas feitas ao povo eleito. Veio, mas não como o esperava o sento carnal do povo, como Messias da grandeza terrena, do dinheiro e da vingança, mas como o haviam anunciado as profecias, glorioso e paciente, humilde e de autoridade soberana; como Redentor, não da escravidão terrena, mas dos pecados, como consolador dos aflitos, dos pobres e dos pequenos.

Veio Jesus Cristo para toda a linhagem humana, como homem novo, como o segundo Adão e fez florescer na terra uma nova primavera, muito mais bela e muito mais gloriosa do que os felizes dias de paz e justiça da primeira aurora do mundo. Já não há mais distinção entre grego e romano, entre judeu e bárbaro, pois, o mesmo Cristo é o Senhor de todos, rico para todos que o invocam.

Este Jesus protege e salva o Brasil. No tope do Corcovado eleva-se a majestosa estátua de Cristo Redentor. De longe se avista a imponente imagem. Reconheça, pois, a nação brasileira, representada pelos seus governantes e governados, em Jesus Cristo seu protetor e soberano, e invoquem, em todas as dificuldades, o seu poderoso nome, porque todo aquele que o invocar o nome do Senhor, será salvo.

CAPÍTULO X

A obra perene de Cristo

No obelisco da praça de São Pedro em Roma, acha-se gravada a inscrição seguinte: "Christus vincit, Christus regnat, Christus populum suum ab omni malo defendit: Cristo vence, Cristo Reina, Cristo defende seu povo de todo o mal. Estas palavras formam um breve compendio de toda a história do mundo. Cristo continua a viver na Igreja que é seu Reino. Ela é a continuação de sua obra entre os homens, o corpo orgânico, vivificado pelo seu espirito e santificado pela sua graça.

Em virtude da união hipostática do Filho divino com a natureza humana, é Cristo realmente o homem de Deus; da mesma sorte a Igreja, em virtude da sua unidade real com Cristo seu Chefe, é verdadeiramente uma instituição humano-divina.

A Igreja é sempre o corpo místico do Senhor, sua esposa única, amada e a ele inseparavelmente unida, quer no estado de luta, perdendo o seu brilho por causa dos pecados e das misérias de seus membros, quer no momento em que adquire toda a sua perfeição, toda a sua glória, quando já não haja mancha que a desfigure, nem perigo que a ameace.

Como corpo vivo que é, consta a Igreja de corpo e alma. Constitui a alma da Igreja a habitação do Espirito Santo e seus dons íntimos, a fé, a esperança, a caridade, a graça santificante que faz os membros participantes da natureza divina. O corpo da Igreja é constituído pelo laço exterior da fé e da sociedade visível. Assim, o doutor da Igreja Belarmino com Santo Agostinho.

Cristo fundou a Igreja para conduzir por seu intermédio todos os homens à eterna salvação. Pela sua paixão e morte completara a obra da redenção; tinha merecido às homens graças inumeráveis e a felicidade eterna. Porém, estes merecimentos infinitos deviam aplicar-se, sucessivamente, a cada um dos homens em particular para dirigi-los ao seu destino supremo.

O próprio Jesus Cristo tinha anunciado a sua doutrina divina na Judeia, aos seus contemporâneos, mas a sua luz devia iluminar a todos os homens de todos os países e de todos os séculos. Portanto, depois de sua ascensão aos céus, ela devia ser pregada a toda a criatura. Além disso, Cristo tinha instituído em favor dos homens os sacramentos que fossem como outras tantas fontes visíveis de graças. Estes sacramentos deviam ser de utilidade, em todos os lugares e em todos os tempos, aos homens e haviam de levar suas águas salutares ao coração de cada um dos fiéis. Por último Jesus durante a sua vida mortal, tinha sido pastor divino das suas ovelhas. Estas, porém, necessitavam, igualmente, depois da sua partida deste mundo, de uma direção visível, tanto mais quanto o seu número havia de crescer em grau muito elevado.

Para alcançar todos estes fins que visam a salvação dos homens, instituiu Jesus Cristo a sua Igreja. E ainda que seja o Espirito Santo quem opera, de uma maneira invisível, em cada um dos fiéis a reconciliação, a ilustração, a santificação e a direção, não obstante, tudo isto se faz por meio ou com a intervenção visível da Igreja. Porque uma santificação e direção visível, com a qual está inesperadamente a invisível, era mais apropriada e conveniente à natureza humana. Pois, por isso mesmo o Filho de Deus se fez homem para remir como homem os homens e para ensiná-los, santifica-los e dirigi-los visivelmente.

Daí se conclui que a Santa Igreja ocupa o lugar de Cristo e, como tal, ela está destinada a continuar a sua obra, para conduzir, até ao fim dos tempos, os homens à felicidade eterna. É esta a sua missão, é este o cargo que deve desempenhar neste mundo. O seu divino fundador não podia proscrever-lhe outro fim senão aquele pelo qual tinha vindo ao mundo e que era o de salvar os que estavam perdidos.

Quando Deus confere a um homem um destino e um ofício, opõe-lhe ao mesmo tempo na mão os meios apropriados para desempenhá-lo. Isto verifica-se também com relação a Igreja, a qual deve ensinar, em vez de Cristo, os povos da terra, e por isso, lhe confiou a sua doutrina. Ela deve santificar os homens em lugar de Cristo pela administração dos santos sacramentos e por isso a fez depositária dos frutos de sua redenção dos tesouros dos seus merecimentos e dos meios de aplicá-los aos fiéis.

A Igreja deve dirigir os homens em lugar de Cristo pelo caminho da salvação, é por isto confiou-lhe o poder pastoral. Este consiste particularmente no tríplice oficio de mestre, sacerdote e guia. O ofício de mestre abrange o poder e o dever correspondente de pregar as verdades reveladas por Cristo e de preservar os fiéis dos erros contrários aos ensinamentos divinos. Foi assim que os apóstolos entenderam o ofício, o encargo de mestres e, assim, o exerceram os seus sucessores desde o princípio por todo o decurso dos séculos, como o atesta a história eclesiástica.

O ofício de sacerdote abraça na sua perfeição o pleno poder de oferecer o sacrifício incruento da missa e de santificar as almas. O ofício de pastores tem relação com a direção interior e exterior do rebanho de Cristo pelo carinho da vida eterna. Consiste no poder de reger os fiéis, tanto em particular como todo o rebanho, em nome e por encargo de Jesus Cristo, de conservá-lo unido e afastá-lo dos perigos de caminhos perniciosos.

Este poder pastoral foi confiado à Igreja por Nosso Senhor. Foi exercido pelos apóstolos e continua a sê-lo pelos Sumos Pontífices que designam aos bispos suas dioceses e estes nomeiam os sacerdotes para a direção das paróquias.

Mas, para que a Igreja, composta de homens por si mesmos fracos e expostos ao erro, pudesse cumprir retamente, o seu destino para o bem de todo o cristianismo, Jesus Cristo concedia-lhe a existência continua do divino Espirito Santo, de maneira que, quando o Papa, como chefe supremo da Igreja define uma verdade relativa ao dogma ou à moral cristã, sua sentença se consiste de certeza absoluta, de infalibilidade.

Conseguintemente, na Igreja católica achamos a doutrina de Cristo, para e sem falsificação, os verdadeiros meios de graça, sua legítima administração e por último o supremo e pleno poder espiritual e o fiel exercício do mesmo para a salvação dos fiéis.

A vida sobrenatural brota do manancial que Jesus Cristo faz derramar sobre as almas por meio da Igreja, recebendo ela do Espirito Santo, que a faz rejuvenescer constantemente, toda a sua beleza pelos efeitos dos carismas nos seus eleitos e pela difusão da santidade.

Jesus Cristo, pelos méritos infinitos do seu sacrifício do Calvário, obteve graças superabundantes para a santificação e salvação de todos os homens. Da parte do Redentor nada falta. Sua vontade salvífica é universal. Quer salvar a todos pelo ministério da Igreja que ele fundou. Porque então nem todos os homens são esclarecidos pela luz da verdade? Porque então nem todos alcançam o céu? De que maneira se podem conciliar esses fatos com a vontade de Cristo de salvar a todos os homens?

A vontade salvífica de Cristo é anulada pela má vontade e pela obstinação de um grande número de homens. De fato, a primeira solução que se apresenta ao nosso espirito, é a má vontade de um grande número de homens, que se obstinam em repelir os meios de salvar-se. A graça da salvação lhes é oferecida, mas eles a rejeitam. Cristo bate uma vez, bate de novo e bate muitas vezes à porta dos corações. Mas, os corações permanecem insensíveis, fechados, não se abrem.

A mão libertadora se estende sempre e ela sempre é repelida por um abuso da liberdade. O homem se obstina em fechar os olhos à luz clara e evidente, e prefere viver na cegueira. Coisa incompreensível! A vontade divina recua diante da vontade humana. Assim aconteceu com Jerusalém, assim acontece com homens singulares e povos. Deus respeita a liberdade ou o livre arbítrio do homem.

Mas, o castigo não faltará. Jesus Cristo, pessoalmente, exprobou as cidades em que tinha operado muitos dos seus milagres e as quais não quiseram faze penitencia. Ele exclamou, era santa indignação: "Ai de ti, Corozain: ai de ti, Betsaida, porque se em Tiro e em Sidonia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitencia em cilício e em cinza. Por isso, vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidonia no dia do juízo, que para vós. E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida até ao inferno; porque se em ti, talvez existisse ainda hoje. Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma, do que para ti".

Indivíduos, povos e nações que rejeitam as graças que Nosso Senhor lhes oferece, serão punidos.

CAPÍTULO XI

A cidade divina

A Igreja é semelhante a uma cidadela construída em alto monte e visível em todo o universo. Resiste a todas as tormentas da iniquidade, em virtude da promessa infalível de seu Fundador, que asseverou: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela". Ela ilumina o mundo e orienta a humanidade.

Entretanto, ninguém deve pensar que a prosperidade material e superioridade política sejam o fim direto e essencial da religião católica. Pois, Jesus Cristo fundou sua Igreja, tendo em vista a salvação das almas. Para esse fim ele esclarece os espíritos por meio de uma doutrina toda divina, fortalece as vontades pelos dons sobrenaturais do Espirito Santo e inspira aos corações o amor às virtudes mais excelsas pelos seus exemplos e seus ensinamentos.

Ele mostrou o termo final onde todos devem chegar: a felicidade do céu para os justos, o inferno para os obstinados do crime. Fazendo alusão às grandezas e prosperidades deste mundo, pronunciou esta palavra instrutiva: "que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? O que dará o homem em troca da sua alma"? Longe, pois, segundo a doutrina do Salvador, a glorificação da riqueza, de poder político e dos prazeres mundanos. É, sobretudo, sua aliança com a verdade religiosa que ele manifesta.

Entretanto, os princípios do catolicismo são úteis ao progresso da sociedade política e familiar. Pois, embora o catolicismo não tenha por fim essencial e direto a prosperidade material e social, contudo seus princípios, sua doutrina, sua moral, suas influências são de grande utilidade e mesmo de necessidade para a vida intelectual e pública.

Pois, Cristo afirmou "Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo". E por isso é que observou Montesquieu: "Coisa admirável, a religião cristã que não parece ter outro objetivo que a felicidade da outra vida, faz ainda nossa felicidade na vida presente".

O estudo metódico das sociedades europeias, diz Le Play, me ensina que o bem-estar material e moral e em geral as condições essenciais à prosperidade ali se acham em razão exata com a energia e a pureza das convicções religiosas.

De fato, a religião católica exerce uma influência salutar sobre o indivíduo, a família e a sociedade. Sobre o indivíduo, mostrando-lhe pelos exemplos de Cristo e dos santos seus imitadores fiéis, a caminho da verdade e da justiça. Sobre a família, mantendo a unidade e a perpetuidade da união conjugal e prescrevendo aos pais e aos filhos as regras que devem seguir para que a sociedade doméstica viva na paz e se aperfeiçoe pela harmonia das vontades.

A religião católica influi salutarmente sobre a sociedade política, porque fortifica o princípio da autoridade e faz remontar até Deus a obrigação de respeitar o poder público e de prestar-lhe obediência. De outro lado, inspira aos governantes o amor do bem comum, sentimentos de equidade e de justiça e a todos o desinteresse pessoal, a generosidade, a caridade e o devotamento à causa pública.

O que já Santo Agostinho escreveu, vale perfeitamente para os nossos tempos: aqueles que afirmam que a doutrina de Cristo é contrária à república, deem-nos um exército formado de soldados tais como a doutrina de Cristo o deseja; que nos deem governadores, maridos, esposas, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, coletores de impostos, tais como os reclama a lei cristã: então, longe de dizerem que a doutrina de Cristo é prejudicial à república, não hesitarão em declarar que a submissão a esta doutrina é a principal garantia de sua prosperidade.

Eis como Santo Agostinho descreve, eloquentemente, a influência moral do catolicismo: Ó Igreja católica, a tua doutrina não somente nos ensina o amor de Deus, mas ainda a caridade para com o próximo, e esta caridade tu a exerces generosamente, oferecendo às almas toda a sorte de remédios, afim de curar suas doenças. Tu instruis e disciplinas a infância com ternura, a juventude com força, a velhice com bondade cheia de atenções, fazendo-te tudo a todos e aplicando teus cuidados a todas as idades.

Tu submetes as esposas aos seus maridos para o uma obediência casta e fiel, não com o fim de proporcionar prazeres grosseiros, mas para criarem filhos e partilharem as obrigações da sociedade doméstica. Tu dás aos maridos a autoridade sobre suas esposas, mas longe de rebaixar o sexo frágil tu submetes uns e outras à fé de um amor recíproco e sincero.

Tu inspiras aos filhos a obediência dos homens livres em relação a seus progenitores e aos progenitores o exercício de uma autoridade suave e firme. Tu unes os irmãos por vínculos mais fortes do que os do sangue, respeitando os sentimentos legítimos do coração humano, porque tu não os destruís, mas o santificas. Tu prendes os servos aos amos, menos pela necessidade da condição servil do que pelo amor do dever.

Em face do Pai e Senhor que está no céu, tu tornas os amostratáveis e humanos para com seus empregados, proscrevendo-lhes que usem de persuasão em lugar de ordens brutais. Tu aliás os cidadãos aos cidadãos, as nações às nações, não somente pelo sentimento da necessidade mútua e das exigências sociais, mas por uma verdadeira fraternidade fundada sobre nossa origem comum.

Tu prescreves aos povos que obedeçam aos seus soberanos, tu nos dizes a quem devemos honra, amor, respeito, medo, repreensão e castigo. Tu nos fazes compreender que, se os mesmos cuidados não são devidos a todos, a todos, entretanto, devemos a caridade a justiça.

Como a atuação moral, a influência da Igreja nas ciências e artes é notável e indiscutível. Sem fazer menção dos estados de filosofia, de religião e das ciências naturais, queremos aqui, apenas, referir-nos à grande importância do ensino religioso à infância e à juventude. O catecismo ou resumo da doutrina cristã dá às crianças uma instrução religiosa e moral mais exata e mais completa que todos os tratados de ética dos antigos e os compêndios de moral cívica dos modernos.

Há um pequeno livro, diz um escritor, que se faz aprender às crianças e sobre o qual a Igreja as interroga. Lede este pequeno livro que é o catecismo e vós achareis uma solução de todas as questões que eu tenho estabelecido, e todas sem exceção. Perguntai ao cristão donde vem a espécie humana, e ele o sabe; aonde ela vai, e ele o sabe, como ela vai e ele o sabe. Perguntai a esta pobre criança, porque ela está aqui e o que ela será depois da morte, ela vos dará uma resposta sublime que ela não compreendeu, mas que apesar disto não é menos admirável.

Perguntai-lhe como o mundo foi criado e para que fim; porque Deus fez os animais e as plantas; como a terra foi povoada; se por uma só família ou por várias; porque eles lutam e como tudo terá um fim, ele o sabe.

A origem do mundo, a origem da espécie, a questão de raças, o destino do homem nesta vida e na outra; as relações do homem para com Deus, os deveres do homem para com seus semelhantes, os direitos do homem sobre a criação: o aluno da doutrina cristão nada ignora, e quando for grande ele tem noções perfeitas sobre o direito das gentes, porque tudo isto decorre com clareza como para o si mesmo do cristianismo.

Portanto, grande é a influência da Igreja sobre a humanidade embora sua finalidade direta e essencial seja a salvação dos homens.

Podemos continuar as nossas considerações. O homem não é um ente isolado, não foi plantado no mundo ao acaso, para viver e morrer à sombra ignorada de um rochedo ou de um bosque. Ele, porém, nasce no centro de uma sociedade, que o recebe, que o alimenta, que o educa, que lhe comunica suas ideias, suas paixões, seus vícios e suas virtudes. A sociedade é o confluente de todas as ideias e de todos os movimentos do homem; é a manifestação pública do que o homem vale e o que valem as doutrinas das quais ele extraiu a sua formação intelectual e moral, e a sociedade, os princípios de sua organização.

Quais foram os efeitos produzidos pela doutrina católica na ordem intelectual, moral e social? Repetimos. A doutrina da Igreja fez o que nenhuma outra jamais conseguira e alcançara. Não somente modificou, mas transformou as sociedades naturais, tais como a sociedade doméstica e a sociedade política como ainda a mentalidade dos homens, quanto aos conceitos da justiça, da moral e do valor da ciência humana.

Como sempre, também, hoje, é a Igreja católica uma cidadela que defende os maiores valores da sociedade humana. Projeta sua luz, constantemente, sobre os homens. Sem a Igreja católica, a Europa, no passado teria sido uma presa dos mouros, e, no presente, se transformaria num caos dominado pelo bolchevismo. Esta coroa de incomparável benemerência ninguém pode arrancar à Igreja.

CAPÍTULO XII

O baluarte da civilização cristã

A civilização é o aperfeiçoamento progressivo dos homens, vivendo em sociedade. Todas as nações têm, naturalmente, a tendência de aumentar suas luzes, seu bem-estar e todas as vantagens que provém do trabalho e dos esforços comuns dos seus componentes. O desenvolvimento da moralidade, da ciência, da literatura, das belas artes, da legislação, do comércio, da indústria, da agricultura, etc., indica o grau de civilização e cultura ao qual cada povo pode chegar.

Compulsando os fastos da história, verifica-se, claramente, que nenhuma civilização jamais atingiu, no seu conjunto, o aperfeiçoamento da civilização cristã.

Nem a civilização egípcia ou persa, nem a grega ou a romana apresentam valores equivalentes. O mais essencial e excelente o que a civilização encerra, refere-se ao progresso moral. É pela moralidade que os homens pensam e agem como convém a seres dotados de razão, de liberdade e responsáveis pelos seus atos.

A civilização moral supõe ideias sãs e justas sobre os assuntos que os homens antes de tudo devem conhecer. A saber: o destino presente e futuro; Deus criador e sua providencia; a alma espiritual, livre, imortal, capaz de merecer uma recompensa eterna; os direitos e os deveres do indivíduo, da família, da sociedade religiosa e da sociedade civil. Além disso, a civilização moral supõe a observância das regras da honestidade, da justiça, do bem, em outros termos: a prática da virtude pelo cumprimento dos deveres para com Deus, o próximo e consigo mesmo.

O mundo antigo, exceto o povo judeu, era politeísta e idólatra. As nações mais policiadas e instruídas, como os gregos e romanos, rendiam culto às divindades mais estranhas, sobretudo aqueles em que se personificavam as paixões humanas, os interesses materiais e todos os vícios. A divindade dos persas era o sol e os astros; a dos egípcios, o boi apis. Os germanos, os gauleses prestavam culto supersticioso aos ídolos. A conduta dos homens conformava-se com o exemplo e ensinamentos das suas falsas divindades.

A filosofia tivera, antes da era cristã, brilhantes interpretes, guiados pela luz da razão ainda não obcecada pelo erro. Na Grécia vemos sobretudo Sócrates, Platão e Aristóteles. Em Roma, Cícero e Sêneca fizeram honra a esta ciência. É preciso reconhecer que grandes números de problemas receberam destes sábios e espíritos sutis uma solução exata.

Mas, quantas lacunas e erros gravíssimos sobre os pontos mais importantes, por exemplo, sobre a origem dos seres, sua natureza, sobre seu destino presente e futuro, sobre os princípios constitutivos da família e do Estado, sobre os direitos e deveres acerca de Deus e da alma, sobre os castigos e recompensas na outra vida, sobre fraternidade e igualdade humana.

A Igreja, no exercício do seu apostolado constante, impregnou com suas leis e com sua doutrina a humanidade de ideias e virtudes cristãs, inculcando nas inteligências novos conceitos, uma nova visão da vida, uma nova concepção do universo, e comunicou aos corações dons sobrenaturais graças celestes, que habilitam o homem a cumprir os seus deveres.

A Igreja implantou os sentimentos de caridade e de benevolência, de comiseração aos pobres e aos doentes. Suavizou as leis penais, protegeu a sorte dos deserdados dos bens deste mundo; aproximou as classes sociais entre si de modo mais conforme com as ideias sãs de igualdade, fraternidade e liberdade.

Numa palavra, a Igreja operou no antigo mundo pagão uma transformação moral lenta, mas progressiva. Ela esclareceu as gerações sucessivas à luz das verdades do cristianismo e depositou no seu seio o fermento divino de todas as virtudes, da justiça, do desinteresse, da benevolência, da caridade, do devotamento impelido até ao heroísmo.

O espirito do cristianismo imprimiu às letras e belas artes uma orientação elevada e mais consentânea com a natureza e destino do homem. Por meio do conhecimento das coisas divinas a razão humana é admiravelmente esclarecida, fortalecida e completada, como disse o Papa Pio IX.

O que acima fica sumariamente exposto, é uma síntese do que entendemos por civilização cristã.

Os apóstolos lançaram o fundamento da civilização cristã. Os papas, com o auxílio do episcopado, dos sacerdotes e ordens religiosas a propagaram por todo universo. Ainda hoje continuam a mesma atividade civilizadora nos países alheios ao cristianismo. Tanto que existe uma congregação especial, intitulada "Da Propagação da Fé", que dirige e promove as missões entre os infiéis.

Mas, justamente para defender os tesouros imensos da civilização cristã, os papas, em todos os séculos, se têm esmerado, empregando meios que as condições dos tempos exigiam e aconselhavam. Na invasão dos bárbaros, Papas houve que diretamente se dirigiram aos chefes das hordas invasoras, impedindo que a barbárie destruísse as conquistas do cristianismo. Aprovam ordens religiosas que consagravam toda a sua atividade à libertação dos cristãos escravizados. As cruzadas, as vitórias sobre os turcos, no Lepanto e às portas de Viena, dão um testemunho eloquentíssimo do esforço empenhado pelos Papas para salvar a civilização cristã na Europa.

Pio IX, pelo Syllabus, índice de erros condenados, protegeu todo o mundo contra a invasão de ideias que visavam demolir as conquistas sociais, científicas e religiosas do cristianismo. Leão XIII, "lumen in coelho", luz no céu, pelas suas admiráveis cartas encíclicas, refutando os falsos sistemas científicos acerca da liberdade da constituição da família e do Estado, do trabalho da organização social, mostrou à humanidade o verdadeiro caminho da ciência, da sociologia e da finalidade humana. Opôs assim um dique indestrutível à avalanche de teorias que tentavam subverter a civilização cristã.

Nos tempos atuais, surgiu um novo inimigo encarniçado da humanidade, o qual pretende destruir todas as verdades cristãs, todas as convicções religiosas e o próprio Deus. É o comunismo que estende seus tentáculos por todo o mundo e procura infiltrar o seu veneno corrosivo em todas as camadas sociais. Tem por escopo o extermínio da civilização cristã.

Nesta emergência dolorosa, é o Santo Padre Pio XI o defensor acérrimo das instituições da Igreja, o baluarte do cristianismo. É verdade que já em 1846 o Papa Pio IX pronunciara solene condenação, confirmada depois no Syllabus, contra aquela nefanda doutrina do assim chamado comunismo, inteiramente contrário ao próprio direito natural; doutrina que, a demitida, traria como consequência a destruição total dos direitos, das coisas, da propriedade de todos e da própria sociedade humana. Bem explicita é, sobretudo, a condenação proferida contra o comunismo pelo Sumo Pontífice Leão XIII.

Pio XI, gloriosamente reinante, durante o seu pontificado, desde a alocução de 18 de dezembro de 1924 até à mensagem natalícia de 1936, tem chamado a atenção do mundo civilizado para os perigos do comunismo. Em 19 de março do corrente ano ele publicou um documento mais solene, a encíclica "Divini redemptoris", em que condena, mais uma vez, categoricamente o comunismo ateu.

Os efeitos que previmos e anunciamos, diz o Santo Padre, multiplicam-se terrivelmente. Realizam-se nos países já dominados pelo comunismo e constituem perigo de contágio para todas as nações do mundo. A doutrina que o comunismo oculta sob aparências, às vezes tão sedutoras, tem por fundamento o princípio do materialismo dialético e histórico, preconizado por Marx.

Em tal doutrina não há lugar para a ideia de Deus. Não há diferença entre o espirito e a matéria, entre a alma e o corpo. Não há sobrevivência da alma depois do corpo e, portanto, nenhuma esperança da vida futura. O comunismo é, pois, um sistema de erros e sofismas, oposto à razão comum e à revelação divina, doutrina subversiva na ordem social, pois lhe destrói os próprios fundamentos, sistema que desconhece a verdadeira origem e fim do Estado, bem como os direitos da pessoa humana, a sua dignidade, a sua liberdade.

Sob o pretexto de só querer a melhoria da sorte das classes trabalhadores, de suprimir os abusos reais provocados pela economia liberal e de obter uma distribuição mais justa das riquezas, objetivo, aliás, perfeitamente legítimo, e aproveitando-se da crise econômica mundial, o comunismo conseguiu fazer prevalecer a sua influência até nos meios sociais, onde, em princípio, se rejeitam o materialismo e o terrorismo.

Os tristes efeitos do mal aparecem já em muitos países, tais como o México, a Espanha e especialmente a Rússia, que foi escolhida, a dizer assim, para campo de experiência das novas doutrinas. Ao verdadeiro povo russo, porém, oprimido e angustiado, o Santo Padre dirige a expressão de sua paternal simpatia.

Aos erros do comunismo, o Papa opõe a doutrina da Igreja. Esta reconhece em Deus o criador, um juiz, um pai cheio de amor. Proclama a igualdade e fraternidade dos homens, defende sua liberdade e os direitos de sua personalidade. Destinado por Deus a um fim sobrenatural, que é a felicidade eterna, o homem deve encontrar na sociedade doméstica e civil, ambas intencionadas por Deus, o respeito aos seus direitos pessoais e um auxílio para, mais facilmente, chegar ao seu nobilíssimo fim.

Baseada nestes princípios, a Igreja reconhece e defende a hierarquia e a autoridade legítima da sociedade. Esta pode e deve exercer a sua influência para o bem de todos, mesmo no domínio econômico-social. Por isso, formula, segundo as necessidades, regras de direção e de coordenação, empregando assim os meios legais da cotação na ação dos indivíduos e dos grupos que poderiam prejudicar o bem comum.

O comunismo é, intrinsecamente, perverso e não se pode admitir em terreno nenhum a colaboração com ele e por parte de quem quiser salvaguardar os interesses da civilização cristã. O próprio Estado, auxiliando a ação da Igreja por meio de medidas oportunas, dando o exemplo da sua prudente e sábia administração, deve trazer o seu concurso eficaz à desejada vitória da verdade e do bem.

Escutemos, pois, a voz do Sumo Pontífice para que o nosso Estado e o Brasil não sejam vítimas do comunismo e arrastados para uma imensa catástrofe. O Papa é o baluarte da civilização cristã.

CAPÍTULO XIII

Resistência a um grande inimigo

Há no coração humano uma paixão formidável, que exerce poderosa influência sobre os destinos da vida. Com as suas ilusões enganosas e sedutoras, lavra, não poucas vezes, uma extensa cadeia de dor e infortúnio. Tendo por objeto necessário a conservação do gênero humano e encontrando-se, de certo modo, de todos os viventes, reveste-se, sem embargo, de um caráter particular, somente por se abrigar na alma do homem.

Nos animais brutos, o instinto inato guia essa inclinação de modo admirável, limitando-se ao necessário para conservação das respectivas espécies. No homem, porém, o instinto se eleva a paixão. A paixão nutrida e avivada pelo fogo da fantasia, refinada com os recursos da inteligência, torna-se sempre mais intensa.

Estando debaixo da direção do livre arbítrio, essa paixão pode entregar-se a tantos caprichos quantas são as impressões que recebem os sentidos e o coração. Daí se converte num sentimento vago, volúvel, insaciável. Parece-se ao mal-estar de um enfermo febricitante. Assemelha-se ao frenesi de um delirante, que ora divaga por um ambiente embalsamado de pussiímios aromas, ora se agita convulso nas anciãs da morte.

Quem será capaz de contar as variadas formas sob os quais apresenta essa paixão enganosa e a multidão de laços que estende aos pés do desgraçado moral? Apenas o homem entra na adolescência e já em seu peito brota um sentimento que o inquieta e desassossega, sem que ele mesmo conheça a causa. Uma melancolia desliza em seu coração, pensamentos desconhecidos divagam por sua mente, e sombras sedutoras revolteiam por suas fantasias.

Chega, entretanto, a juventude e o que antes era um sentimento vago, misterioso e incompreensível, é, desde então, mais pronunciado. Os objetos se esclarecem e se apresentam como são em si, a paixão os vê e a eles se dirige. Continuando volúvel e caprichosa, como os objetos que se lhe vão apresentado, a paixão corre, sem cessar, atrás de ilusões, perseguindo sombras, buscando uma satisfação que nunca encontra, esperando uma felicidade que jamais consegue.

Exaltada a fantasia, fervendo o coração, arrebatada a alma inteira subjugada em todas as suas faculdades, rodeia-se o ardente jovem das mais brilhantes ilusões, comunica-as a tudo quanto a cerca, presta à luz do céu um fulgor mais esplendente, reveste a face da terra com verdor mais locução, de cores mais vivas, espargindo por toda a parte o reflexo do seu próprio entanto.

Essa paixão misteriosa ainda atormenta o homem com inquietação incessante na idade viril. Quando o pensamento é mais grave e mais fixo, quando o coração já perdeu sua inconstância, quando a vontade está mais firme e tem propósitos mais duradouros, quando a conduta deve reger os destinos da vida, esta já se acha sujeita a uma determinada norma: ainda no coração do homem se agita essa paixão misteriosa.

Com o maior desenvolvimento da organização física, a paixão torna-se mais robusta e mais enérgica. Com o maior orgulho que inspiram ao homem a independência da vida, o sentimento de maiores forças e a maior abundancia de meios, a paixão é mais decidida, mais ousada, mais violenta. Da mesma maneira, como por força se desenganos e escarmentos que dá a experiência, ela se faz mais cautelosa, mais previdente, mais astuta. Não anda acompanhada de candura, como nos primeiros anos, antes sabe proceder com cálculo, marcha ao seu fim por veredas mais encobertas e lança mão de meios mais acertados.

Ai do homem que não se acautela em tempo contra semelhante inimigo! Consumirá sua existência numa agitação febril. Andando de inquietação em inquietação, de tormenta em tormenta, e se não acaba com a vida na flor dos anos, chega à velhice dominado ainda por sua paixão predominante e funesta. Ela o acompanha até o sepulcro com aquelas formas asquerosas e repugnantes com que se pinta o vício num rosto sulcado pelos anos, nuns olhos velados que auguram a morte já próxima.

Qual é o sistema que convém seguir para enfrenar essa paixão e encerrá-la em seus justos limites, para impedir que acarrete ao indivíduo a infelicidade, atire as famílias na desordem e a sociedade no caos? A regra invariável, da Igreja católica, assim na moral que prega como nas instituições que funda, é a mortificação dos sentidos, a renúncia, a repressão.

Ela nem permite o desejo deliberado e declara culpado aos olhos de Deus a quem contemplar uma mulher com pensamento impuro. Pois, disse Jesus Cristo: "Eu, porém, vos digo que todo aquele que puser os olhos em uma mulher para cobiça-la, já cometeu adultério com ela no seu coração".

E isto porque, além da moralidade intrínseca que se encerra na proibição, há uma razão profunda em afogar o mal em sua origem. É bem certo que é mais fácil impedir ao homem que se compraza em maus desejos, do que se abstenha de os satisfazer depois de lhes haver dado acolhida em seu abrasado coração. Há uma razão muito séria em procurar desta maneira a tranquilidade da alma, não lhe permitindo que qual sedento Tântalo sofra, com a vista da água que foge dos seus lábios. Para que quereis ver o que não podes obter? Esta palavra pronuncia sabiamente o autor do livro da imitação de Jesus Cristo, compendiando, assim, numa frase, a sabedoria que se encerra na santa severidade da doutrina cristã. Lembremo-nos da palavra do Senhor: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus".

Vejamos os casados. Os laços matrimoniais, indicando à paixão um objetivo legítimo, não eram, contudo, o manancial de paixão e de caprichosa inquietação que se alberga no coração. A possessão traz o indiferentismo e o fastio. A formosura murcha e fenece como as flores. As ilusões dissipam-se e os atrativos desaparecem.

Achando-se o homem em presença de uma realidade que está muito longe de corresponder aos belos sonhos a que se entregara nos delírios de sua fogosa imaginação, sente brotar no seu peito novos desejos. Cansado do objetivo possuído, alimenta novas ilusões, buscando em outra parte aquela felicidade ideal que se imaginava haver encontrado, e fugindo da triste realidade, que desta sorte burla suas mais belas esperanças.

Se em tal estado se soltas as rédeas à paixão do homem, de sorte que possa alimentar a ilusão de se fazer feliz com outros enlaces, sem que se creia ligado para sempre à companheira de seus dias, e vereis como o fastio chegará mais depressa, como a discórdia será mais visa e ruidosa. Os laços se afrouxam logo, se gastam em pouco tempo e se quebram ao primeiro entrechoque de desinteligências, ciúmes e dúvidas.

Pelo contrário, a lei da indissolubilidade matrimonial proclamada pela Igreja, assinala a boa ordem e a tranquilidade das famílias e presta à sociedade um benefício imenso. Esta lei é a guarda da santidade do lar e não excetua nem pobres nem ricos, nem súditos nem potentados, nem vassalos nem reis, nem cidadãos nem governantes. Ela não atende, de fato, à diferença de situação, de índole, de saúde, nem a outros motivos que na mão das paixões e mormente entre os poderes, com facilidade se convertem em protestos.

Essa lei, proclamada como vinda do céu, mostra o laço do matrimonio como autenticado com selo divino. As paixões revoltosas que transgredem essa lei, seguem o caminho da imoralidade e do crime. A Igreja encarregada de proteger e executar essa lei divina, jamais se amoldará a condescendências criminosas, jamais consentirá que se cubra com véu da dispensa a infração deste preceito, uma vez legitimamente feito o matrimonio e depois de consumado.

A lei da indissolubilidade do matrimonio se firmou no direito nas leis e na constituição política do nosso país. Ela arraigou-se profundamente nos costumes. E embora as paixões desregradas tumultuem, o divórcio sempre será um cancro pernicioso no organismo social e a indissolubilidade do matrimonio, paládio indispensável da família.

Daí podemos concluir na necessidade da educação religiosa que deve formar o coração humano. A religião acatólica tem seus ensinamentos e seus preceitos, com influxo da graça divina emanada dos santos sacramentos e o exemplo dos santos, fortalece e protege o homem na luta incessante contra a incontinência e o vício contagiante da indisciplina dos costumes.

Todos os bons cristãos devem fazer esforços no sentido de salvaguardar a excelsa virtude da castidade. E por isso, todas as pessoas bem orientadas evitarão as modas indecorosas e as diversões em que possam periclitar a inocência da alma e o pudor, que é o ornamento mais belo e mais expressivo, tanto do varão como da mulher.

Daí se infere a solicitude que devem ter os poderes públicos em proibir as casas de diversões em que, pelo luxo e pela licencia, se acariciam as paixões e a volúpia.

A castidade é uma virtude nobilíssima. Para conservá-la é preciso orar muito, fugir da ocasião próxima, receber os santos sacramentos da confissão e comunhão, e ter uma devoção acendrada a Nossa Senhora e a São José.

A castidade opõe-se ao vício da incontinência e da luxuria de que trata o presente capítulo. Ela contribui, admiravelmente para a verdadeira nobreza da alma, para a legitima paz do coração, para a genuína liberdade do espirito, e para a intima união com Deus, que é a pureza por essência.

CAPÍTULO XIV

A vitória sobre as paixões

É axioma de teologia que Deus não nega a sua graça a quem faz o que cabe em si. Assim é que Deus concede a todos a graça da fé, sob condição, porém, de que o homem, propositalmente, não lhe ponha impedimento ou óbice. Mas, o desprezo das verdades cristãs, as dissipações da vida exterior, a indiferença pelo que está acima da vida material, os preconceitos e as ideias falsas que culminam na ignorância quase total das questões profundamente filosóficas e religiosas, tudo isso desvia o homem do caminho reto e o envolve sempre mais nos erros do coração e da inteligência.

É um fato psicológico que o homem, quanto mais se engolfa no tumulto da vida e se entrega aos gozos do mundo externo, quer estes sejam grosseiros ou delicados, quer sensuais ou estéticos, tanto mais se dissipa para ele o mundo interior e desfalece nele a verdadeira vida espiritual. E quanto mais tempo passa na dissipação dos negócios e trabalhos, prazeres e distrações, tanto mais fundas e indeléveis são as impressões que lhe deixa na alma a vida visível, passageira, indiferente ou frívola.

Sua alma atormentada vai na torrente das coisas naturais e terrenas, olvida que exista outro mundo e uma vida superior, além do que vê, com seus olhos e apalpa com suas mãos. Desta maneira permanece o homem na desgraça flutuação entre a fé e a descrença, semelhante aqueles condenados no inferno de Dante, os quais o céu não recebe e o inferno repele. E neste estado de alma o homem não alcança o domínio sobre suas paixões, o sentimento se revolta contra a razão e verifica-se a palavra de Ovídio: "Video meliora, provoque, deteriora sequor", o que significa: vejo o que é melhor e o provo, sigo, porém, o que é pior.

Desde que a paixão se apodera do homem não deixa mais tranquilo o coração e, cada vez, se torna mais denso o véu que cobre a alma na prática da vida interior. Extinto o último clarão da luz espiritual, a alma se transforma logo em arena, onde os apetites grosseiros vêm debater-se e devorar-se como feras soltas nas jaulas. Já Platão o havia dito: quem se entregar à volutuosidade ou à ira, só pode ter pensamentos terrenos. Ao contrário, aquele que se esforçar para meditar no que é imortal e divino, alcançará a imortalidade.

Não é condição essencial, para o conhecimento da verdade superior e religiosa, a tranquilidade absoluta da alma; basta que ela tenha tomado a sério a sua libertação e que a verdade não seja repelida. É preciso que o espirito não a consinta mais em tornar-se escravo desse poder das trevas que esmaga o coração com a vida sensual e arrasta o homem às maiores misérias. O homem deve procurar a luz do alto, que esclarece todo o homem que vem a este mundo.

O erro moral arrasta consigo o erro intelectual como consequência, infalível. Porque a inteligência humana tem suas mais profundas e derradeiras raízes no coração. Declara o Salvador: "Do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as palavras injuriosas". É preciso estar desapaixonado para julgar das coisas com exatidão. O coração tem seus motivos que a razão não compreende, disse Pascal. O homem, na situação do erro e da degradação, aborrece a luz, tal qual os olhos enfermos.

Ele odeia a luz, porque o ofende; e não aparece diante da luz, porque a luz o leva a convencer-se da ruindade das suas obras. Esse fato se explica facilmente, visto que a luz foi feita para todos os olhos, mas nem todos estes para luz. Perderam a sua boa consciência, diz o apóstolo, e por isso naufragaram na fé. E com razão diz a este respeito São João Crisóstomo, porque tal vida, tal doutrina; por isso, muitos caíram nas abominações pagãs. Para se esquivarem a qualquer receio pelo futuro, empregam todos os meios para se convencerem de ser falso tudo quanto ensina a nossa religião.

Quando São Paulo compareceu ante o proconsul romano Felix, o juiz correto e adultero, e lhe falava da justiça, da castidade e do juízo futuro, dizem as Sagradas Letras que "Felix todo atemorizado lhe respondeu: por ora basta, vai-te embora e quando eu tiver tempo, eu te chamarei".

A história do proconsul Felix repete-se também em nossos dias, é o espelho íntimo de muitos. A verdade os faz empalidecer por isso procuram desviá-la, porque desempenha o papel de censor importuno. Mesmo quando mais tarde a idade, o cansaço, a sociedade, as fadigas tiverem quebrado a energia das paixões, o espírito conservará ainda em si os vestígios da direção errônea e das disposições destruidoras. O modo de considerar a vida e o mundo, retém as impressões do passado e dos hábitos contraídos pelas excitações viciosas.

Como se explica este fenômeno? Facilmente! Basta um pequenino argueiro para perturbar a vista e tornar errônea a visão. O coração é à vontade exercem uma influência poderosíssima, embora secreta, oculta e quase imperceptível, sobre o espírito humano e os seus conhecimentos, de tal sorte que iludem a inteligência mais aguda e perturbam o juízo mais robusto.

A vontade do homem é o princípio imediato e predominante de toda a ciência e de todos os conhecimentos, diz um conceituado escritor. Em última análise, é a vontade que determina o pensamento no sentido de aceitar ou repelir tanto à ideia que ocorre necessariamente, como por livre resolução.

É a vontade que determina o espirito ao estudo e proporciona o assunto que deve submeter-se às suas considerações. A certo respeito é a vontade superior, mais potente e universal do que a inteligência, que, mais ou menos, se determina pelo livre arbítrio.

Diz Santo Tomás; a vontade como agente encaminha todas as potencias da alma aos seus atos, com exceção das forças naturais da parte vegetativa, que não estão sujeitas ao livre arbítrio humano. E segundo isto a vontade é superior ao intelecto e pode determinar o mesmo.

Assim tem o homem os meios de desviar-se de tudo o que contraria as suas inclinações ou de se ocupar disto só superficial e perfunctoriamente, e de aplicar-se, com grande diligencia e prazer, a tudo quanto é conforme à sua íntima propensão e interesse pessoal.

Os gostos, as inclinações, os desejos, os afetos são os fatores que excitam a intervenção do livre arbítrio na variada atividade do pensamento. O erro provém necessariamente do livre arbítrio e depende do grau de moralidade, podendo, pois, afirmar-se, com verdade, que todo o erro assenta sobre o pecado.

Pode-se dizer que o erro no campo da moral não é involuntário, nem acaso ou fatalidade, mas uma opção, um fato, e qual, quando mesmo provém de outro lado é sempre uma produção da inteligência e da vontade. O erro, sem dúvida, toma raiz no obscurecimento da inteligência, mas este tem esta origem na perversão da vontade e no seu divórcio de Deus.

Não há ignorância, mas ilusão de si próprio. A presunção leva ao erro. Pela ilusão, o homem imagina conhecer aquilo que na verdade ignora ou pronuncia seu julgamento sobre o que lhe é desconhecido ou pouco conhecido e em todo o caso, pretende resolver os problemas sem motivos suficientes.

O que acima fica dito, aplica-se, perfeitamente, aos assuntos de caráter religioso e às verdes da filosofia cristã. Quando alguém não quer aceitar as verdades da religião ou da filosofia cristã, por mais que a inteligência reconheça a sua exatidão e necessidade, ela não é capaz de impelir o homem a viver conforme os ditames das doutrinas expostas. A vontade é a diretora da vida humana. Quem examinar tanto a literatura antiga como contemporânea, convencer-se-á desta verdade.

O mesmo fato se observa nas conferencias científicas e nas missões populares. Por mais competentes que sejam os conferencistas e os missionários e por mais evidentes que sejam as verdades ensinadas, muitos dos assistentes não se decidem a deixar o caminho que estão palmilhando ou a vida que levam.

O predomínio das paixões sobre os imperativos da razão, verifica-se, tristemente, nas lutas políticas, deflagradas tanto da imprensa como nos parlamentos.

No campo protegido pela imunidade parlamentar, retalha-se, com o bisturi da palavra falada e escrita, a reputação do próximo, sem atender a sua investidura social ou pública. Não se visa, infelizmente, o bem superior da sociedade, o bem-estar do povo ou a prosperidade da nação; porém, na cegueira da veemência passional, só se enxerga a pessoa do adversário, para cuja difamação todas as contumélias são boas.

Por maiores que benemerências da pessoa recriminada, só se faz alusão a faltas reais ou crimes imaginários. De maneira que parece estar, completamente, divorciada a ética da política, do senso da moral cristã. Realmente, a vitória sobre as paixões é um imperativo da atualidade.

Uma paixão que representa uma epidemia social, muito perniciosa, é o jogo sob várias formas. Desde o jogo do bicho até ao jogo da roleta, esta paixão manifesta sintomas de enfermidade contemporânea.

Se o jogo, como simples divertimento ou brincadeira, não se pode reprovar, é que o jogo de azar, principalmente em vista de suas más consequências, deve ser condenado. Consideram-se jogos de aqueles em que o ganho e a perda dependem exclusivamente da sorte.

O jogo exerce uma influência perniciosa sobre o homem, torna-se, pouco a pouco, um hábito vicioso, uma paixão violenta e difícil de ser vencida. É um vício que pode tornar-se um verdadeiro flagelo social. De fato, o verbo jogar cônjuge, hoje, em quase todos os tempos gramaticais.

Pois, o jogo se pratica, ostensivamente, como se fosse parte integrante da vida pública. Bem significativos são os anúncios dos jornais e os convites das estações rádio emissoras.

Muitos, no jogo, arruínam suas posses e economias. Outros, perdem o que não possuem. Hipotecam suas propriedades ou, no desespero, gastam dinheiro alheio, sacrificando, desastrosamente, sua posição e seu futuro à paixão insaciável do jogo nefasto.

O jogo atrai com força diabólica. Homens e senhoras, moços e donzelas frequentam as casas de tavolagem, reguladas de nomes inocentes convidativos. No princípio, o jogador quer ganhar, depois pretende reaver o que perdeu. Joga, novamente perde. Fica fascinado. Joga mais, joga o último mil réis da carteira. E quais são as consequências? São fatais para o jogador apaixonado, para sua família e para a sociedade;

Que o jogo praticado em tal escala seja pecado, ninguém disso pode duvidar. Deus o proíbe e o castiga direta ou indiretamente. O Código Penal Brasil vários artigos, fala do jogo e estabelece penas para aqueles que transgredem as leis que regulam a matéria em apreço.

O triunfo sobre o jogo desmedido, o jogo de azar, representa, sem dúvida, um imperativo da atualidade.

CAPÍTULO XV

A consciência pública formada pela Igreja

Um dos principais caracteres que distinguem a civilização cristã, é a consciência pública na sociedade em que vivemos. Esse fator importantíssimo deve-se, sem dúvida, atribuir à atividade e influência da Igreja! A consciência pública é, de fato, admirável rica de sublimes máximas morais, de regras de justiça e equidade, de sentimentos de pundonor e decoro. Ela sobrevive a um sufrágio da moral privada e não consente que o descaramento da corrupção chegue ao excesso da antiga Roma e Grécia.

A consciência, tomando-se esta palavra em sentido geral ou antes ideológico, indica o conhecimento que cada um tem dos seus próprios atos. Desta sorte se diz que a alma tem conhecimento de seus pensamentos, dos atos de sua vontade, de suas sensações. Tomada nesta acepção, a palavra consciência exprime uma percepção do que nós estamos fazendo ou padecendo.

Transladada esta palavra à ordem moral, significa o juízo que formamos de nossas ações enquanto são boas ou más. É o resultado da razão prática ou de um silogismo em que se comparam dois fatos ou duas verdades. Assim antes de exercer uma ação, a consciência mola assinala como boa ou má, conseguintemente como lícita ou ilícita, sendo que conforme essa resolução dirigimos nossa conduta.

Realizada assim nossa ação ou conduta, a consciência nos diz, se operamos bem ou mal. A sua voz nos desculpa ou nos condena e nos premeia com a tranquilidade do coração ou nos atormenta nos remorsos. Vê-se, pois, que para falar em nome da consciência, é preciso fazer um exame meticuloso das circunstancias e dos elementos em apreço, neste particular a ira, a vingança e o rancor são péssimos conselheiros.

Feita esta exposição, não será difícil conceber em que consiste a consciência pública. Ela não é outra coisa senão o juízo que a generalidade dos homens forma sobre as ações humanas. Daí resulta que a consciência pública, à semelhança da privada, pode ser reta ou errônea, ajustada ou lata. Além disso, pode entre a generalidade dos homens de sociedades diversas, mediar uma diferença, do mesmo modo que entre os indivíduos.

Portanto, assim como numa mesma sociedade se encontraram homens de uma consciência mais ou menos reta, mais ou menos ajustada, mais ou menos lata, também se encontram sociedades que levam vantagem às outras em formar o juízo mais ou menos acertado sobre a moralidade das ações e que sintam, neste ponto, maior ou menos delicadeza.

A consciência no indivíduo é, sem dúvida, o resultado de várias causas muito diferentes. É um erro crer que a consciência esteja só no entendimento, pois, tem raízes no coração. A consciência é um juízo, sim. Mas, julgamos das coisas duma maneira muito diferente segundo o modo como as vemos e as sentimos. Assim, a isto se acrescenta que, tratando-se de ideias e ações morais, os sentimentos exercem grande influência. Resulta daí que a consciência se forma debaixo do influxo de todas as causas que operam, com alguma eficácia sobre nosso coração.

A consciência pública que, em última análise, vem a ser, de certo modo, a soma das consciências privadas, está sujeita às mesmas influencias privadas, está sujeita às mesmas influencias que estas. Por isso, não lhe basta o ensino; é-lhe embora também necessário o concurso de outras causas que não somente podem instruir o entendimento, mas ainda formar o coração.

A sociedade cristã é muito superior, neste particular, ao paganismo, não só pela pureza da sua moral e pela força dos princípios e dos motivos com que a sanciona, senão também por seguir o sábio sistema de inculcar, continuamente, esta moral. Consegue, desta sorte, grava-la, mais vivamente no ânimo dos que aprendem a recordá-la, incessantemente, para que não possa ser olvidada.

É inegável que nesta consciência pública dominam, geralmente falando, a razão e justiça. Resolvendo os códigos, observando os fatos, não descobrimos nem nas leis, nem nos costumes aquelas grandes injustiças, aquelas repugnantes imoralidades que encontramos em outros povos. Há males e muito graves, por certo, mas, ao menos ninguém os desconhece e são chamados por seu nome.

Não se apelida ao mal bem, nem ao bem mal. Isto significa que a sociedade está em certas matérias como aqueles indivíduos que tem bons princípios, mas costumes maus, e os quais são os primeiros em reconhecer que sua conduta é errada e que há contradição entre sua doutrina e suas obras.

Com frequência lamentamos a corrupção dos costumes e a libertinagem em certos setores sociais. Mas, que são a libertinagem e a corrupção das sociedades modernas em comparação com o desenfreamento e o descaro das sociedades antigas? Não se pode negar a depravação de costumes na vida hodierna. Basta para isto verificar a leitura dos jornais.

Contudo, os excessos não chegam ao extremo em que os vemos entre os povos mais cultos da antiguidade, como são, por exemplo, os gregos e romanos, de sorte que a sociedade atual, apesar de seus defeitos e faltas, pareceria aqueles povos um modelo de pudor e de virtude. Não será mister recordar os nefandos vícios, tão comuns e tão públicos naqueles tempos e que agora apenas se nomeiam entre nós, ou por se cometerem raras vezes, ou porque, temendo a vista da consciência pública, se ocultam nas mais densas sombras.

É desnecessário, de fato, trazer à memória as infâmias de que estão cheios os escritos dos antigos, quando nos retratam os costumes do seu tempo. Nomes ilustres, assim nas ciências como nas armas, passaram à posteridade com manchas tão negras que, dificilmente, se estampam agora num escrito. A tal ponto se haviam degradado os homens que, por sua elevada posição e mais circunstancias, eram os luminares que guiavam a sociedade na sua marcha desatinada.

As palavras de justiça, de moralidade e de humanidade que ressoam entre nós, produzindo efeitos salutares e evitando males perniciosos, impregnam nossa atmosfera, detém, mil vezes, a mão do criminoso. As virtudes cristãs, resistindo, heroicamente, às doutrinas materialistas e subversivas, continuam exercendo sobre a sociedade um efeito benfazejo e saneador.

A invasão dos bárbaros, longe de melhorar a situação depois da queda do império romano, antes contribuiu com sua corrupção para torna-la pior, não só pela corrupção de seus costumes próprios e ferozes, senão também pela desordem que introduziram nos povos invadidos, quebrantaram a força das leis, converteram num caos os usos e os hábitos e aniquilaram toda a autoridade.

A formação da consciência pública, que protege e distingue a civilização ocidental, deve atribuir-se à influência da Igreja católica, cujos princípios purificadores caldearam os elementos mais opostos, dando uma nova orientação à humanidade. A conduta seguida pela Igreja é sobremaneira digna e um dos fatos mais importantes que se encontram na história.

Afirmam nossos jurisconsultos que o Direito Canônico constitui uma das fontes do Direito Civil pátrio. E não se pode negar a influência da doutrina cristã no direito consuetudinário brasileiro, visto que a religião católica sempre inspirou os mais salutares ensinamentos na vida e nos costumes públicos da Nação. Portanto, a Igreja contribuiu, eficazmente, para a formação da consciência pública do Brasil.

A consciência pública é o mais precioso florão da civilização cristã. Obra de conquista de séculos, sua destruição seria um desastre universal, um cataclismo de consequências incalculáveis para a humanidade. É, entretanto, o neopaganismo que procura instalar-se nos departamentos da sociedade hodierna, um dos destruidores mais ferozes da consciência pública e cristã.

Por isso, é de sumo interesse a encíclica do Santo Padre Pio XI intitulada "Com viva anciã" e a qual em 14 de março deste ano dirigiu ao episcopado germânico, explica os perigos e o sistema irracional do neopaganismo, apresentando aos fiéis uma norma segura de ação. Antes de tudo o fundamento de toda a religião é a fé em Deus. Mas, o nosso Deus é o Deus pessoal, transcendente, onipotente, infinitamente perfeito, uno na trindade das pessoas e trino na unidade da essência divina, criador do universo, senhor, rei e último fim da história do mundo, o qual não admite nem pode admitir ao seu lado outra divindade.

Este Deus promulgou os seus mandamentos de maneira soberana, mandamentos independentes do tempo e do espaço, de regiões e de raças. De sua soberania universal promana e exigência de lhe ser prestado submissão absoluta da parte dos indivíduos e de qualquer sociedade. Portanto, só espíritos superficiais podem falar de um Deus nacional, de uma religião nacional que tenha sua restrição étnica em uma única raça.

A fé em Deus não se manterá muito tempo pura e incontaminada, se não se apoiar na fé em Jesus Cristo. "Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quer revelar". Cristo o Filho de Deus feito homem realizou a obra da redenção, infringindo o domínio do pecado e merecendo aos homens a graça de se tornarem filhos adotivos de Deus e de alcançarem o céu, seu destino supremo.

Contudo, a fé em Jesus Cristo não se conservará pura e intacta se não for amparada e defendida pela fé da Igreja, coluna e fundamento da verdade. Cristo, pessoalmente, levantou esta coluna da fé. Ele ordenou que todos os homens considerassem a doutrina da Igreja como a sua própria e deu aos apóstolos e seus sucessores a missão de ensiná-la a todo o universo.

Mas, a fé na Igreja não se manteria pura e incontaminada sem que se apoiasse sobre a fé no primado do bispo de Roma, que é o Sumo Pontífice. A fé em Cristo, na Igreja e no primado, estão, por isso, ligados entre si por uma santa interdependência. Na Igreja verifica-se no sentido mais nobre, uma autoridade genuína e legal, que é um vínculo de unidade e uma fonte de força, um presídio contra o esfacelamento e a desagregação, uma garantia do futuro. Ela tem a assistência sobrenatural do Espirito Santo.

É, portanto, um reprovável abuso dar às palavras plasmadas pelo cristianismo uma significação diferente de seu original. Deve-se rejeitar com veemência a adulteração de noções e termos sagrados. É indigno, substituir-lhes o sentido genuíno por uma ideia vaga, oca, sacrílega, para significar os elementos predominantes deste paganismo ridículo e anticristão que se pretende implantar na Alemanha.

Sobre a fé genuína e pura em Deus é que se funda a moralidade do gênero humano. Todas as tentativas de separar a doutrina sobre a ordem moral da base granítica da fé religiosa, para reconstruí-la sobre a areia movediça de normas humanas, arrastam, mais cedo ou mais tarde, indivíduos e nações ao abismo da decadência moral, como aconteceu na antiguidade. E esses estultos que presumem separar a moral da religião, tornam-se hoje verdadeira legião.

Nenhum poder coercitivo do Estado, nenhum ideal puramente terreno, por maior e mais nobre que seja, poderá substituir, por longo tempo, os mais profundos e decisivos estímulos que provém da fé em Deus e em Jesus Cristo.

É uma característica nefasta do tempo presente querer separar não somente a doutrina moral, mas também os fundamentos do direito e da sua administração, da verdadeira fé em Deus e das normas da revelação divina. À luz do direito natural, todo o direito positivo, qualquer que seja o legislador, pode ser avaliado no seu conteúdo ético e, por conseguinte, na legitimidade da imposição e na obrigatoriedade do cumprimento.

Aquelas leis humanas que contrastam, claramente, com o direito natural, são contaminadas de vício original, insanáveis de qualquer forma. E segundo este critério certo deve-se rejeitar o princípio de que o direito é aquilo que é útil à nação. Contudo, pode-se dar a este princípio um sentido justo, quando se subentende que o que moralmente é lícito, jamais pode ser desvantajoso ao povo.

São estes, em sintético resumo, os ensinamentos e as declarações da referida encíclica, na qual o Santo Padre condena as vãs ideologias do neopaganismo, que seus adeptos consideram como uma consequência do sistema totalitário do Estado alemão. O Sumo Pontífice presta desta maneira mais um relevantíssimo serviço à sociedade contemporânea, protegendo a civilização cristã e preservando a consciência pública de uma decadência desastrosa e inevitável.

CAPÍTULO XVI

Conhecimento da tática bolchevista

Narra a história que Nabucodonosor, rei da Babilônia, passeava, um dia, pelo seu grandioso palácio, recordando suas conquistas bélicas e as obras gigantescas realizadas no vasto império. Orgulhoso até ao extremo, desprezando a Deus e suas leis, ele se ufanava dizendo: Não é esta aquela Babilônia que eu edifiquei para a corte do meu reino, com a força do meu poder e com a glória da minha majestade? Mais do que Nimrod que fundou esta cidade, mais do que a rainha Semíramis que a engrandeceu, fiz eu, guiado pela independência, pelas luzes e pelas forças do meu espirito. A riqueza dos meus palácios, os deliciosos jardins e os admiráveis muros desta cidade comprovam-no exuberantemente.

Acabada essa explosão de soberba e de vangloria, ouviu-se uma voz do céu que dizia ao rei: "Nabucodonosor, o teu reino passará a outro soberano, tu serás lançado da companhia dos homens, a tua habitação será com os irracionais e as feras e comeras feno como os bois, até que reconheças que o excelso Deus tem poder absoluto sobre os reinos dos homens e os dá a quem apraz".

Cumpriu-se a palavra do Altíssimo. Nabucodonosor enlouqueceu, sua fúria era indominável, começou a andar sobre os pés e as mãos, fugiu para o campo e lá se pôr a pastar, de dia, capim como o gado, e, de noite, ficou ao relento. Seu corpo cobriu-se espesso pelo e as unhas se lhes retorceram, de sorte que parecia um monstro. Ficou, nesse estado até ao término do castigo imposto.

O bolchevismo no seu ódio a Deus e à civilização cristã, contempla, à semelhança de Nabucodonosor, as ruinas fumegantes de suas conquistas e os nefastos trabalhos que executou. Na sua fúria delirante, quer apossar-se de todas as nações de tiranizar todos os países. Deus permite, na sua infinita sabedoria, que ele continue a existir para castigo de indivíduos e de povos. Mas, chegará o tempo em que será humilhado como Nabucodonosor. Este ainda teve a graça de mais tarde bendizer e louvar o Altíssimo, reconhecendo que o poder do mesmo é eterno e que seu reino se estende geração em geração.

É necessário que se conheçam a fundo as diretivas da ação comunista. Depois de dezesseis anos, a internacional bolchevista conseguiu infiltrar suas ideias subversivas em milhões de sequazes, recrutados nos centros mais variados e nos países mais diversos. Pobres indígenas nos países coloniais, como também intelectuais europeus, deixaram-se persuadir que a cultura não pode chegar ao seu desenvolvimento completo, sem que seja na sociedade comunista, e, por isso, estendem suas mãos para a estrela vermelha que brilha sobre as torres do Kremlin.

A internacional comunista, pelo seu dinamismo mundial, procura dilatar, por toda a parte, sua influência nefasta. As múltiplas insurreições, lutas armadas, guerras civis que surgiram depois de 1919, provam que os chefes comunistas estão decididos a penetrar, com suas organizações, em todas as classes sociais. Esse movimento chama sobre si não somente a atenção do Sumo Pontífice, mas também dos governantes que refletem e do povo laborioso e conservador. O comunismo pretende ser um movimento de ideia e quer fundar uma sociedade humana sobre a razão. Mas a doutrina comunista não é uma ideologia pura. Ao contrário uma de suas características é ser estreitamente ligado à prática. Um dos capítulos essenciais de todo o manual do materialismo dialético trata da união da doutrina com a prática. Conforme declaração de Stalin nas suas bases de Leninismo: "A teoria pode tornar-se a maior força do movimento operário, se ela é aliada à prática revolucionária".

O atual ditador moscovita, sem dúvida, é menos filósofo do que Lenin e a sua teoria não abrange senão questões gerais de tática. Contudo, ele cita de boa vontade a palavra de Lenin que "sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário".

O atual ditador moscovita, sem dúvida, é menos filósofo do que Lenin e a sua teoria não abrange senão questões gerias de tática. Contudo, ele cita de boa vontade a palavra de Lenin que "sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário" ou ainda "que só um partido dirigido por uma teoria avançada pode preencher a parte do lutador na vanguarda". Assim o comunismo ocupa um lugar médio entre a filosofia abstrata e o empirismo concreto. A teoria comunista tem por fim guiar o partido; o partido tem a missão de realizar a teoria. Essa união da doutrina com a prática tem para os comunistas uma importância que não se deve desconhecer.

O materialismo comunista quer transformar a humanidade em sociedade ateia. Não há Deus criador do mundo. É o trabalho que criou o homem, porque o homem lutando contra a natureza para dela tirar a sua subsistência, se aperfeiçoa, até que se torna capaz de pensar. O homem se criou por meio de seu próprio trabalho. Esta divinização do trabalho, divinização materialista, é o elemento da filosofia comunista que mais apaixona os proletários, que vivem do trabalho de suas mãos. O operário considera-se o centro da humanidade, o único produtor, o único criador de energias novas. Ele sente um ódio inextinguível contra os que não trabalham como ele.

O comunista não admite um Deus legislador do mundo. Para ele as únicas leis são aquelas do materialismo dialético que justificam a luta armada dos comunistas. Eles não um juiz supremo dos vícios e dos mortos. Nenhuma lei moral, nem imortalidade da alma, nem recompensa ou castigo. Portanto, o paraíso deve ser criado aqui na terra.

Se o materialismo é uma doutrina ateia, a dialética comunista dá ao militante a arma teórica da luta das classes. Os comunistas sempre estão em procura de contradições, de antagonismo, que possam ser aproveitados para provocar conflitos. Daí deriva-se, segundo eles, o progresso.

Segundo Stalin, a primeira contradição se acha entre o trabalho e o capital. A rebelião armada, a revolução sanguinolenta dos operários contra os seus patrões ou empregadores não é somente justificada, mas constitui o dever lógico da classe operária. O comunista, orientado por sua filosofia deve lançar-se, cegamente, à luta das classes.

A segunda contradição é o antagonismo dos diferentes grupos financistas e potencias imperialistas na sua luta acerca da fonte das "matérias primas para os diretórios estrangeiros". É, portanto, preciso procurar dividir estas nações fascistas e nações antifascista, e trabalhar com todas as forças para impedir qualquer reconciliação entre umas e outras. O comunista crê no progresso por meio do conflito, dos antagonismos, no caso concreto, por meio de uma guerra ideológica mundial.

A terceira contradição encontra-se entre algumas nações civilizadas e poderosas e as pequenas e fracas e os povos coloniais. Mas, para governar estes países, o capitalismo é obrigado a construir vias férreas, fábricas e oficinas, a criar centros industriais e comerciais. A aparição de uma classe proletária, a formação de uma classe de intelectuais indígenas, a manifestação da consciência nacional, a reforma do movimento libertador, são os resultados inevitáveis desta política, atestados pelo fortalecimento do movimento revolucionário nas colônias e dos países a ele sujeitos. Por isso, com o fim de acentuar e fortalecer esses antagonismos, o comunismo defende a causa dos indígenas nas colônias e das minorias nacionais nos outros países.

Sem dúvida, essa atitude produz contradições, às vezes para ajudar o movimento libertador, e neste caso, os comunistas farão em tal país causa comum com a burguesia indígena. Isto verifica-se hoje no país Basco, na Iugoslávia, nas índias e em outros lugares. Às vestes para dividir nações imperialistas, os comunistas se unem para dar um golpe brutal em uma ou outra. Há tempo os comunistas se uniram à Alemanha contra a França, hoje é o contrário.

Um fato, entretanto, está claro. Os comunistas aplicam, logicamente, a sua doutrina dialética, quando eles trabalham com todas as suas forças, para incitar os homens uns contra os outros. Mais de um país adotou, algumas vezes táticas semelhantes para enfraquecer os seus adversários. Faziam isto em nome da política. Hoje o comunismo emprega este meio em nome de uma doutrina filosófica que se tornou a filosofia de guerra de um partido influente em todos os países do mundo.

Por isso, a única maneira de opor um dique à onda crescente que vem do continente russo, é aplicar-se à reconciliação dos homens. Esta é a missão da Igreja e dos intelectuais católicos. Esta missão, eminentemente positiva, comporta também um aspecto negativo. E este consiste em revelar com persistência este caráter odioso da filosofia comunista, tanto mais pernicioso quanto se oculta sob o véu da doçura e da paz. O Santo Padre na sua encíclica "Divini Redemptoris" declarou que o comunismo ateu que em nossos dias ameaça a todo o mundo, é intrinsecamente perverso e que os católicos não podem colaborar com ele. Diz o Santo Padre: Os pregoeiros do comunismo sabem também aproveitar os antagonismos de raça, as divisões ou oposições dos diversos sistemas políticos, até a desorientação no campo da ciência sem Deus para infiltrar-se nas universidades, para corroborar os princípios de sua doutrina com argumentos pseudocientíficos.

Insistindo no espirito dialético do seu materialismo, os comunistas pretendem que o concilio que leva o mundo para a síntese final, pode ser acelerado pelos homens. Por isso, se esforçam por tornar mais flagrantes os antagonismos que surgem entre as diversas classes da sociedade, e para que a luta de classe com os seus ódios e as suas destruições, tome o aspecto de uma cruzada em favor do progresso da humanidade. Enquanto as forças, quaisquer que elas sejam, que resistam e estas violências sistemáticas, devem ser aniquiladas como inimigas do gênero humano. Assim, o comunismo segundo o Santo Padre.

A filosofia comunista é uma filosofia de guerra civil, e é ainda uma prerrogativa de sua dialética. Aqui a palavra dialética quer dizer que o comunista agirá por motivos oportunistas em contradição com sua doutrina. Contudo, não abandonando a sua doutrina a um futuro mais afastado como o fazem os reformistas da IIª Internacional, mas disfarçando-a, cientemente, por um tempo limitado para não amedrontar as suas vítimas. Aqui o comunista ainda não age, somente, por maquiavelismo político, visto que a sua ação é justificada por uma doutrina filosófica. Neste sentido se deve entender a palavra de Lenin "que a moralidade é aquilo que justifica os interesses da luta das classes do proletariado". Para dizer a verdade, esse impulso contínuo para a revolução sanguinolenta esse esforço infatigável de atiçar os homens uns contra os outros, essas tentativas constantes de hipnotizar as classes sociais essa paixão fanática de guerra civil, é de certo, o elemento mais ferozmente e satânico da concepção filosófica do comunismo.

Lembrem-se os representantes do povo, os escritores, os jornalistas, os chefes departidos, os professores das escolas e os catedráticos das universidades dessa tática criminosa do comunismo, afim de que ela não prejudique a vida pacífica do país ou a prosperidade da nação.

O Brasil não quer, não pode assemelhar-se à Rússia soviética, onde campeia a miséria e triunfa a tirania. Nem a nossa consciência nacional permitirá que a Terra de Santa Cruz se torne um caos, um montão de ruínas como a Espanha. O Brasil quer conservar, à custa de todos os sacrifícios, a sua independência e soberania. O Estado brasileiro não se curvará diante do despotismo russo, porque dentro de suas fronteiras se fará sempre respeitar protegerá a nação, seus valores morais e suas grandezas contra quaisquer ataques que os inimigos bolchevistas lhe pretendam desferir.

O hino da pátria há de ecoar sempre com entusiasmo pelo Brasil e a bandeira nacional, símbolo das nossas glórias e esperanças, será sempre protegida por Deus e jamais será ultrajada por nação estrangeira alguma.

Para conseguirmos esse exímio benefício em favor da nossa gloriosa pátria, é útil e necessário que o povo fiel e todos os brasileiros católicos recorram à proteção paternal de São José. Pois, ele é o poderoso protetor da família, hoje exposta a tantos perigos, e o padroeiro excelso da Igreja, que tem dispensado ao Brasil constantes e inúmeros benefícios. Hoje em dia, mais do que nunca, a família, a Igreja e a sociedade necessitam do auxílio espiritual e do amparo eficiente de São José.

E, por isso, o Santo Padre Pio XI, na sua encíclica de 19 de março do corrente ano, sobre o comunismo ateu, profere os seguintes nobres e formosos conceitos: Afim de apresentar a tão desejada paz de Cristo no reino de Cristo, colocamos a grande ação da Igreja católica contra o comunismo ateu mundial, sob a égide do glorioso protetor da Igreja, São José. Ele pertence à classe operária e experimentou o peso da pobreza, por si e pela sagrada família, da qual era o chefe vigilante e afetuoso. A ele foi confiado o infante divino, quando contra o mesmo Herodes despachou os seus sicários. Com uma vida de fidelíssimo cumprimento do dever quotidiano, deixou um exemplo a todos aqueles que devem ganhar para si o pão, com o trabalho de suas mãos, e mereceu ser chamado o justo, exemplo vivo daquela justiça cristã que deve dominar na vida social.

Glorioso São José, protegei a Terra de Santa Cruz contra todos os seus inimigos internos e externos, para que, conservando-se fiel aos ensinamentos e leis de Jesus Cristo, vosso filho adotivo, possa realizar seus grandes destinos no concerto das nações, servindo-lhes de farol no meio das tormentas que agitam o mundo atual.

CAPÍTULO XVII

A necessidade de ativar a Ação Católica

Na sua carta apostólica ao episcopado mexicano sobre a situação religiosa no México, o Santo Padre Pio Xi acentua, de modo especial, a necessidade da Ação Católica. Como a doutrina do Sumo Pontífice tem valor geral, queremos aplicar seus tópicos principais às nossas circunstancias, não obstante termos tratado muitíssimas vezes deste assunto pela nossa palavra oral e escrita.

A Ação Católica está bem organizada nesta arquidiocese. Mas, é preciso que os seus componentes, em alguns setores, desenvolvam uma atividade mais intensa e ampliem a esfera de sua atividade.

Bem árdua seria a tarefa de ganhar tantas almas para Deus sem o auxílio providencial que prestam os leigos pela Ação Católico. Todo o cristão que compreende a dignidade e sente a responsabilidade de filho da Igreja e membro do corpo místico de Jesus Cristo, não pode deixar de reconhecer que entre todos os componentes deste corpo deve existir uma comunicação recíproca de vida e de solidariedade de interesses. Daí o dever de cada um em ordem à vida e ao aperfeiçoamento de todo o organismo, na edificação do Corpo de Cristo; daí anda a contribuição eficaz de cada membro para a glorificação da cabeça e do seu corpo místico.

Destes princípios claros e simples deduzem-se diretivas luminosas e consoladoras para muitas almas, e recebemos incitamentos salutares para colaborar na difusão do reino e Cristo e na salvação das almas. É evidente que o apostolado assim entendido não provém de um impulso puramente natural para agir, mas é fruto de uma sólida formação interior. Ele é a necessária expansão de um amor intenso a Jesus Cristo e às almas, remidas pelo seu precioso sangue, a qual se ativa no estado de limitar-lhe a vida de oração e de zelo inextinguível.

Essa imitação de Cristo suscitará multiplicas formas de apostolado em todos os campos, onde as almas se acham em perigo ou os direitos do Rei divino estão ameaçados. A Ação Católica se estende, portanto, a todas as obras de apostolado que de qualquer modo pertençam à missão divina da Igreja e, por isso, ela penetrará como no ânimo dos indivíduos assim no santuário da família, na escola e na própria vida pública.

Na vastidão desta tarefa deve-se ter em vista antes a qualidade do que o número dos colaboradores. Segundo o exemplo do divino Salvador, que quis preceder aos poucos anos do seu trabalho apostólico uma longa preparação, e se limitou a formar no colégio apostólico não muitos, mas seletos instrumentos para a conquista sucessiva do mundo, assim é preciso cuidar, em primeiro lugar, da formação sobrenatural dos dirigentes e propagandistas da Ação Católica, sem preocupar-se ou afligir-se, demasiadamente, se no princípio são poucos.

Esse trabalho deve ser polido e profundo, alheio à demasiada publicidade e as formas clamorosas, mas operante no silencio, ainda que sem frutos muito visíveis ou imediatos, à semelhança da semente que, no aparente repousa na terra, prepara a nova planta cheia de vigor e de vida.

De outra parte, a formação espiritual da vida interior previna os colaboradores dos perigos e de possíveis desvios, tendo presente o fim último da Ação Católica, o qual é a santificação das almas, segundo o preceito evangélico de procurar primeiro o reino de Deus, não se correrá o risco de sacrificar os princípios a finalidades imediatas e secundários e não se esquecerá jamais que se deve subordinar aquele fim supremo também as obras sociais e econômicas, assim como as iniciativas de caráter caritativo.

Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou isto com seu exemplo. Porque, quando na inefável ternura do seu coração divino que lhe fazia exclamar: "tenho compaixão deste povo; se os despedir em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho", curava as enfermidades e socorria as necessidades corporais, tinha ele sempre em mira o fim supremo de sua missão, isto é, a glória de seu Pai celeste e a salvação eterna das almas.

Não estão, portanto, fora da esfera da Ação Católica as coisas chamadas sociais, enquanto visem a atuação dos princípios da justiça e da caridade e enquanto são meios para aproximar as multidões à prática da religião, já que, muitas vezes, não se chega às almas, senão mediante o auxílio que se oferece para suavizar as misérias corporais e as necessidades econômicas.

É preciso amar, verdadeiramente, o operário, porque pelas suas condições de vida se aproxima, de modo especial, às circunstancias em que viveu o divino Mestre, sendo, por isso preciso socorre-lo material e religiosamente. Materialmente, procurando que seja praticada em seu favor não somente a justiça comutativa, mas também a justiça social, tomando-se aquelas providencias que possam melhorar as condições do proletário. Religiosamente, administrando-lhe os confortos religiosos, sem os quais ele se debaterá no materialismo que o embrutece e degrada.

A Ação Católica pode, louvavelmente, contribuir para a formação cultural e para conseguir que a instrução religiosa tenha o primado intelectual entre os estudantes e os laureados católicos, pelo que se faça tudo na medida do possível, afim de que a instrução religiosa se acomode às condições particulares, à necessidade e possibilidade do lugar.

Os universitários que militam na Ação Católica, muito podem contribuir para a realização deste grandioso ideal. É evidente que estes são patês importante da Ação Católica e tão necessária. E nas suas organizações acadêmicas podem desenvolver um futuroso apostolado. Esses universitários não somente oferecem sólidas esperanças de um futuro melhor, mas já atualmente, podem prestar serviços eficazes à Igreja e à Pátria, já com o desempenho do apostolado no meio de seus companheiros, já dando aos vários ramos e às diversas organizações da Ação Católica dirigentes capazes e bem orientados.

Pelo que respeita à defesa individual dos particulares, em vista do testemunho que oferece todo o mundo, bem claramente se vê que o trabalho nas fileiras da Ação Católica constitui o melhor baluarte contra as insídias do mal, a mais bela escola de virtude e de pureza, e o exercício mais eficaz para adquirir a fortaleza cristã. De fato, estes jovens enlevados para beleza do ideal cristão, fortalecidos pelo auxílio divino, assegurado com a oração e com os sacramentos, se dedicarão com ardor e alegria, à conquista das almas dos seus companheiros, recolhendo consoladora messe do bem.

A Igreja protege a ordem e patrocina a paz, ainda à custa de graves sacrifícios, e condena qualquer injusta insurreição e violência contra os poderes legitimamente constituídos. De outro lado, se qualquer destes poderes se insurgisse contra a justiça e a verdade, a ponto de destruir os próprios fundamentos da autoridade, não se veria como dever condenar aqueles cidadãos que se unissem para defender, pôs meios lícitos e idôneos, a si próprios e nação, contra quem usasse do poder público para levar o país à ruina.

O Santo Padre continua: Se a solução prática dependesse de circunstancias concretas, ele recordaria alguns princípios gerais que se devem ter sempre presentes, a saber: Essas reivindicações devem ter razão de meio ou de fim último e absoluto; em razão de meio devem ser ações lícitas e não intrinsecamente más; se hão de ser meios proporcionados ao fim, devem ser usados na medida em que servem para obter ou tornar possível, em tudo ou em parte, o fim, de maneira a não infligir à coletividade maiores danos do que aqueles que se pretendessem reparar; o uso de tais meios e o exercício dos direitos cívicos e políticos na sua plenitude, abraçando também problemas de ordem puramente material e técnica ou de defesa violenta, não pertence, de maneira alguma, às tarefas do clero na Ação Católica como tais, esse bem que a elas pertença preparar os católicos para fazerem uso reto de seus direitos e de propugna-los por todos os meios legítimos, segundo a exigência do bem comum; o clero e a Ação Católica, pela suam missão de concórdia e amor, sendo consagrados a unir todos os homens pelo vínculo da paz, devem contribuir para a prosperidade da nação, especialmente fomentando a união dos cidadãos e colaborando em todas as iniciativas sociais que não sejam contrárias ao dogma e à lei moral cristã.

De resto, com esta mesma atividade civil dos católicos desenvolvida, com espirito tão nobre e elevado, conseguirá resultados tanto mais eficazes, quanto mais os católicos mesmos tiverem aquela visão sobrenatural da vida, aquela educação religiosa e moral e aquele zelo ardente pela dilatação da religião de Nosso Senhor, que a Ação Católica se propõe a realizar. Essa reta formação do católico e cidadão na qual o sobrenatural enobrece todos os dotes e ações e as exalta, igualmente, contém, como é natural, o cumprimento dos deveres civis e sociais. Em face dos adversários da Igreja, Santo Agostinho proclamava as qualidades dos fiéis: dai-me tais chefes de família, tais filhos, tais patrões, tais súditos, tais maridos, tais esposas, tais homens de governo, tais cidadãos como aqueles que forma a doutrina cristã e se não podeis dá-los, confessai que essa doutrina cristã, se é praticada, é a salvação do Estado.

Assim um católico se preservará, por exemplo, de descurar o seu direito de voto, quando está em risco o bem da Igreja e da pátria. Nem se poderá permitir que haja católicos que, pelo exercício das suas atividades cívicas e políticas, organizem grupos particulares, às vezes opostos entre si ou contrários às diretivas da autoridade eclesiástica. Isto seria aumentar a confusão e dispersar as forças em completo prejuízo, seja do desenvolvimento da Ação Católica, seja da própria causa que se pretenda defender.

O Santo Padre repete que se acham fora da órbita da Ação Católica atividades, embora a ela não opostas em si, como sejam aquelas de partidos políticos ou exclusivamente econômico-sociais. Mas, existem outras atividades de caráter social-religioso que, perfeitamente, se enquadram na Ação Católica. Compete aos bispos, colocados pelo Espirito Santo para reger a Igreja de Deus, dar a última decisão prática à qual os católicos deverão prestar obediência com docilidade e fidelidade, observando as diretivas prescritas.

É isto o que o Sumo Pontífice muito tem a peito, porque a reta intenção e a obediência, sempre e em tudo, são as condições indispensáveis para chamar as bênçãos divinas sobre o ministério pastoral e sobre a Ação Católica, e para conseguir a unidade de objeto e aquela fusão de energias que são um pressuposto necessário à fecundidade do apostolado. Por fim repete o Santo Padre as palavras de São Paulo com relação aos que trabalham na Ação Católica: "Rogo-vos pois, eu, o prisioneiro do Senhor, que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados: com toda a humildade e mansidão, suportando-vos uns aos outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espirito pelo vinculo da paz".

Soldados de Cristo! Olhai para Jesus, vosso general divino! Confiai no socorro que vos prometeu. Eles voz conduz à batalha e não vos abandona, se fielmente seguirdes a sua bandeira. Jesus vos fortalece, Jesus vos cura as vossas chagas e mitiga as vossas paixões rebeldes, se vos não separardes dele, e conseguida a vitória, vos coroará de glória imarcescível, infinita.

Soldados de Cristo! O vosso general exorta a cada um de vós: "Sê fiel até à morte e eu te darei a coroa da vida".

CAPÍTULO XVIII

A necessidade de voltar a Jesus

A sociedade hodierna tem semelhança com o filho pródigo, de que nos fala o Santo Evangelho. Esse filho pródigo abandonou o lar paterno, gastou sua fortuna, engolfou-se no mar de misérias e tornou-se escravo de um patrão injusto e desumano. Pode-se afirmar que a sociedade humana, em grande parte, abandonou a Jesus Cristo, fonte de sua prosperidade e fundamento de sua grandeza. É natural que excluindo este fundamento por meio de palavra subversivas e obras iníquas, o edifício social estremece, desmorona e cai.

O Estado perdeu de vista seu fim mais nobre que considere em conduzir o povo é prosperidade temporal, mas de maneira que não olvide e, muito menos, desconheça seu fim supremo que é a salvação eterna da alma humana. O mundo mecanizado e inspirado nos ideais do materialismo puro, divorciou-se da vida sobrenatural. O homem tem vez de considerar as suas labutações quotidianas como mais, as emprega como fim para constituir toda a sua felicidade nos poucos anos de vida terrena.

Na vida social e pública existe o verdadeiro divórcio do sobrenatural, verifica-se, a inobservância das leis de Deus e dos ensinamentos de Jesus Cristo. Daí as desgraças no seio das famílias, daí as injustiças e faltas de caridade nas diversas classes sociais, daí os crimes que enegrecem as páginas dos jornais, daí a versatilidade daqueles que de modo especial deveriam orientar suas atitudes pelas normas da temperança cristã e da veracidade.

Declara-se a guerra a tudo o que é sobrenatural. Disse um índio: Somente há uma coisa que nós odiamos ou somente há uma coisa contra a qual nós lutamos, declarando-lhe guerra de morte. Queremos dizer: o sobrenatural. De fato, alegam-se os pretextos mais diferentes. Antepõem-se como escudo protetor, os direitos do Estado e as concordatas. Ora, a liberdade de consciência e a dignidade humana, ora os direitos da razão e as convicções pessoais. Essa luta continua sem fim.

É natural. No fundo não se trata dos direitos do Estado, nem do progresso da sociedade, nem do desenvolvimento da ciência, mas unicamente do sobrenatural. Não se trata de discutir a existência do sobrenatural. Não se trata de discutir a existência do sobrenatural, mas impedir que se reconheça seu direito de intervir no mundo, de aplicar suas leis à vida dos homens e não somente íntima e privada, mas também à vida exterior e pública.

Quem acompanha as produções literárias e observa os movimentos sociais e políticos, não pode duvidar das tendências descritianizadoras da nossa época. Não se trata somente da bíblia e do altar, mas ainda das cátedras presidenciais e da constituição da sociedade, da escola e da educação, do matrimonio e da família, dos costumes públicos e privados, do matrimonio e da família, dos costumes públicos e privados, em uma palavra, da conservação de toda a civilização e da cultura no presente e no futuro. Tudo quanto o cristianismo o salvou e estabeleceu com trabalho de longos séculos, pretende-se separar dele, senão exterminá-lo com o mesmo. A luta não tem somente por objetivo a ruptura com o sobrenatural, mas ainda a ruina do sobrenatural e do natural ao mesmo tempo.

A situação atual está em plena contradição com os progressos de que muitos se mostraram tão orgulhosos. Entre os povos chamados civilizados há milhões e milhões de indivíduos que estão longe de ter uma existência civilizada, querendo-se falar com propriedade. A situação atual pode-se qualificar de participação do equilíbrio universal que ameaça, continuamente, dissolver a sociedade fazendo-a cair no caos.

Somente a volta para Deus, o regresso ao sobrenatural e aos ensinamentos de Jesus Cristo, oferecem à sociedade o meio de sair das desgraças de hoje. A formação insuficiente e a civilização incompleta, a mediocridade e inconstância dos caracteres são consequências inevitáveis da incredulidade. A chatice literária e a estupidez da semiciência resultam, necessariamente, da cultura espiritual incompleta e da cultura negligente da vontade e do coração e da insuficiência dos sistemas educativos. O cinismo repulsivo, o ceticismo roedor, o grosseiro teísmo, a aspiração a uma felicidade sensual que não se pode alcançar, a superexcitarão nervosa que devora as energias, o descontentamento insuportável, são elementos inseparáveis da anarquia moral e da ruína do sentimento cristão.

Assim se compreende o pessimismo que se apodera, pouco a pouco, dos paladinos mais avançados contra o sobrenatural. Esse mal os obriga a confessar que os homens retrocedem debaixo de todos os conceitos, em religião, na moral, nas ciências. De sorte que alguém escreveu: os costumes desaparecem, os caracteres se rebaixam, suas leis não se observam, o amor à pátria se desvia e diminui, o espirito de indisciplina se introduz nos exércitos, as palavras substituem os atos, a sociedade apodrece por excesso de refinamento, deslocam-se os limites da civilização e a atualidade chega, de novo, à barbárie. Sem respeito à lei, sem fé, sem moral sólida, sem segurança no pensar, todo o povo está destinado à dissolução e condenado por efeito da decadência social, a converter-se em uma horda que somente reconhece uma lei: a brutalidade dos instintos perversos.

Estas perspectivas são, certamente, tristes e aterradoras. Entretanto, esta importantíssima questão não fica resolva, se os governantes e legisladores se limitam a censurar e protestar. É absolutamente necessário que se empreenda uma orientação positiva e determinada, pois, do contrário, careceremos de ponto de apoio e não poderemos oferece-lo à sociedade conturbada e empobrecida. Nossa fé cristã, o cristianismo legítimo e completo qual a Igreja no-lo ensina, oferece à sociedade brasileira este ponto de apoio. Somente nele, na religião sobrenatural, está contida a esperança do porvir.

Se jamais houve um tempo em que esta afirmação se pronunciou com segurança, é no tempo atual. Na realidade, hoje não são as coisas de tal natureza que devemos defender a doutrina da Igreja ou suplicar que se lhe conceda um lugar na empresa de salvar a sociedade do incêndio que a está devorando. Hoje se oferece a luta em condições muito mais favoráveis. Já não defendemos nossa fé, mas dela nos ufanamos; já não mendicamos consideração para a Igreja, mas, unicamente, perguntamos, se querem aproveitar os seus ensinamentos e preceitos, ou se querem perecer, visto que, se a sociedade não quer salvar-se por meio da Igreja, não haverá possibilidade de salvação.

Estas instituições anêmicas e tísicas que muitos propõem em lugar da Igreja universal como meio positivo de salvação, não podem subsistir e não oferecem nenhuma garantia. Referimo-nos a estas seitas filosóficas e religiosas que não podem apresentar as credenciais de sua divindade, nem o diploma de legítimas ciências. É unicamente, a religião cristã que em nome do seu divino fundador pode mostrar à sociedade desviada o caminho que leva à luz da verdade e à compreensão de sua missão.

A Igreja, não somente, é uma escola de formosas doutrinas, mas também uma comunidade sobrenatural, na qual verdades sublimes sempre encontram magnífica realização. Toda a história da Igreja é um grande rio de água viva que nunca secou e que tomou sua origem no coração do Salvador no momento em que foi aberto na cruz por nossa causa. A água que forma suas ondas, é sã, cristalina e sobrenatural. Ali onde esta água penetra, tudo ela curva e vivifica e no seu curso fecunda em todas as direções árvores frondosas e férteis, que se renovam em cada estação do ano e produzem folhas e frutos de salvação para os povos.

Sem dúvida é inevitável que, de vez em quando, alguma corrente lodosa penetre neste grandioso rio de salvação, porém, não corrompe suas águas divinas nem separa da fonte que lhe dá origem, pois, sempre, em tempo oportuno, esse mesmo rio expurga as impurezas que não podem mesclar-se com suas águas. Tal é a impressão que se experimenta quando, com a história na mão, se remonta, através dos tempos, à fonte da vida em que nasce a torrente da Igreja.

Ninguém contesta os perigos e as misérias da atualidade. Mas, nenhuma reforma econômica, política, pedagógica e doméstica é capaz de melhorar a situação sem um impulso religioso, vivo e forte. Há somente um meio de salvação e este consiste em voltar à observância dos preceitos do cristianismo, em voltar à Igreja. Faça nossa sociedade esse ensaio e o resultado será magnífico. Ela não se arrependerá de ter assim procedido, mas lamentará não haver já feito isto há mais tempo.

Porém, esta volta deve processar-se em todos os domínios da cultura e da civilização. Ou tudo ou nada; ou tudo ou todos os melhores esforços serão inúteis. Pois, os princípios morais e religiosos são o sangue que circula em todas as veias ou departamentos da sociedade. Se estes princípios, que são os mandamentos de Deus, não são renovados nos corações, em cada tentativa de melhora, nenhuma reforma obterá resultados positivos.

Ninguém resolverá as questões de ordem política e social, sem que na vida dos indivíduos, como na da família, do município e do Estado se faça uma nova aplicação pública, e completa, dos princípios imutáveis da moral cristã. Por isso, é inútil falar de regeneração social se não se admite a religião sobrenatural, fundada por Cristo Nosso Senhor, como única base da ordem moral e pública.

Quando mais esforços faça a prudência humana para idear, por si mesma, uma solução, tanto maior será a desorganização da sociedade, tanto maior a confusão dos espíritos, tanto mais intenso o descontentamento dos corações. Se não há um centro de união para os homens, um ponto sólido de apoio, desde o qual se levantem por cima de sua miséria, uma direção, segundo a qual possam harmonizar a sua vida, todo o ensaio e melhoramento servirá, unicamente, para dividir, ainda mais os espíritos, para mais obscurece-los e desanimá-los.

Cristo por meio de sua Igreja sai ao encontro de todas essas necessidades, conforme o provam vinte longos séculos, e quanto mais a sociedade humana se afasta de Cristo, com maios empenho devemos gritar: em nenhum outro, mas só em Cristo está a salvação! Sim, em ninguém, senão nele está o salvamento da razão e da fé; em ninguém, senão nele está a salvação, a segurança e a renovação da família, da sociedade e do Estado.

Da parte sã e bem orientada da nossa sociedade, e, sobretudo, da graça de Deus esperamos que os homens compreenderão os perigos do tempo. Ainda não está tudo perdido. E ainda que a perversidade queira destruir peça por peça, pedra por pedra do edifício social e religioso, ficará, todavia, ainda o fundamento que Deus colocou: a fé de Cristo, a fé ensinada por Cristo, a lei que Cristo instituiu, a Igreja que Cristo, o Filho de Deus e da Santíssima Virgem Maria, fundou e conservará a ter a consumação dos séculos.

Ainda que muitos dos nossos intelectuais e homens públicos o desconheçam e desprezem, Jesus de Nazaré, Rei dos tempos, Rei dos povos e das nações, é e será a base da nossa vida social. Sobre esta base está fundado nosso direito; sobre ela descansa tudo quanto no edifício da nação oferece ainda alguma esperança de prosperidade e de paz.

Unamo-nos, pois, todos com os laços da persuasão de que ninguém pode estabelecer outro fundamento mais sólido, mais, inexpugnável do que aquele que já existe: Jesus Cristo. E animados do mesmo espirito, edifiquemos sobre ele, que é a pedra fundamental, a pedra angular, a última pedra do mundo.

Então Deus movido pela sua bondade, renovará a promessa que fez em outro tempo por hora do seu profeta: Naquele dia eu levantarei a casa de Davi que caiu, e fecharei as aberturas dos seus muros e restaurarei as suas ruinas e reedificarei tudo isso, como nos dias passados.

Sim, o Brasil se levantará e será, pela sua grandeza e prosperidade, uma genuína glória do gênero humano. Voltemos, pois a Jesus Cristo! É um imperativo da atualidade.

CAPÍTULO XIX

A lembrança do destino supremo

A maior parte dos homens se esquece de que neste mundo são meros peregrinos em caminho ao seu destino supremo. Por isso, queremos explanar a doutrina do fim último, que espalha luz segura sobre este ponto. A palavra fim, na sua acepção genérica, significa o ponto a que se quer chegar e por fim último entende-se o lugar aonde se pretende ir afim de permanecer nele, sem passar mais adiante. Para o viajante, o fim último é a sua pátria para a qual regressa para fixar definitivamente seu domicílio. As cidades ou portos por onde passa, representam para ele fins intermediários.

O homem vem ao mundo e, depois de alguns anos, dele se ausenta para sempre. Pois, ninguém vive na terra eternamente. A vida do homem é uma viagem, uma peregrinação incessante e, a cada momento, dá mais um passo para o sepulcro. Mas este não é o último fim do homem, porque nele desaparece somente o corpo, enquanto a alma imortal sobrevive.

Por isso, nos fica para resolver o mais sério e importante problema de nossa existência. Aonde nos conduz, pois, o caminho desta vida? Que será de nós na eternidade? Passado seja todo o presente, qual será o nosso último fim, nosso destino supremo? Bem ensaio seria o viajante que sempre caminhasse adiante, sem jamais preocupar-se com o término de sua viagem. Assim, também, é nescio e digno de compaixão aquele que vive tão despreocupado e indiferente que nada cuida do êxito desta peregrinação terrestre, nem tão pouco pergunta pelo termo final, nem aonde chegará deposita desta curta vida.

Mas, para que estamos nós neste mundo? Muitas e diversas serão as respostas conforme a mentalidade dos homens. A única verdadeira, porém, é que cada um está neste mundo para conhecer a Deus, amá-lo, servi-lo e, por este meio, conseguir o céu, que é o lugar de sal eterna e perfeita bem-aventurança. De tal maneira todos os homens querem ser felizes que lhes é impossível não o queres e antes se lhes arranca a alma do que privá-los da sede e anciã de felicidade. Este desejo é inato e está gravado no mais íntimo do coração humano. Deus criou o coração do homem para a felicidade, o que até os próprios filósofos pagãos confessaram. Porém, eles nunca souberam, nem só pela luz da razão puderam entender a felicidade para que o Senhor os criou. Isto ensina-o unicamente a revelação divina.

Com efeito, Deus não quer ao homem só uma felicidade natural conforme as forças e as necessidades da natureza humana. Pois, poderia transladar o homem, após esta vida, para um paraíso terreal, onde não se sentiria necessidade nenhuma, nem dor, nem tristeza, mas alegria pura, satisfação completa, eterno prazer, pruo bem, por tal maneira que fosse em estado plenamente ditoso como o homem às vezes o imagina e deseja.

Certamente, Deus poderia dar ao homem tal felicidade e ela sempre seria um grande benefício. Porém, sendo Deus infinitamente amável, preparou-nos na sua misericórdia e bondade infinitas coisas incomparavelmente mais sublimes e quer admitir-nos no seu reino celestial para sempre felizes como ele, que é onipotente, mas felizes não na mesma medida e sim, possuindo uma felicidade semelhante à sua. Neste mundo também conhecemos a Deus, mas somente através de suas obras e com a luz da fé. De modo semelhante conhecemos a sabedoria e o talento de um artista pela excelência dos seus trabalhos. No céu, porém, conheceremos a Deus na sua essência com nova luz sobrenatural e divina, contemplando-o face a face.

Vê-lo-emos como é em si na sua eterna e infinita beleza, nos esplendores da divindade. Esta visão de Deus acenderá em nossa alma um amor tão ardente e ao mesmo tempo tão suave e delicioso, que no mundo não podemos imaginar coisa semelhante. Qualquer felicidade que pudéramos representar-nos, seria menos que um seixo comparado a uma barra de oura de alto quilate, ou como a luz de uma vela diante dos raios do sol.

O céu para que Deus nos criou, é um lugar de felicidade não só eterna, mas também perfeita, e chama-se perfeita porque os bem-aventurados ficam tão completamente saciados de felicidade que não tem mais nada a desejar. Esta felicidade é tão sublime que se Deus não elevasse, maravilhosamente, as forças da alma, tornando-a capaz daquelas celestiais delícias, seria o homem tão incapaz de gozá-las como a pedra é impotente de saborear a doçura do mel. Por isso, a chamam os teólogos felicidade sobrenatural e o fim último do homem, destino sobrenatural.

Deus criou e remiu o homem para fazê-lo participante da felicidade celestial. Sendo, porém, Deus não somente bom, mas também um justo remunerador de cada um segundo as suas obras, facilmente se entende que não comunicará as delícias da glória aos maus que o desprezam e vivem fora de sua lei, pois, isto seria premiar o vício, o pecado, a maldade. Pelo contrário, é justo que ele acolha no seu glorioso reino os bons, que neste mundo o amam como nos filhos de todo o coração sobre toda sãs coisas.

E assim a primeira condição para alcançar a glória celestial, é amar a Deus. Mas sendo impossível amar o que não se conhece, é claro que para amá-lo, temos de conhece-lo antes. Conhecendo a amando a Deus, sentir-nos-emos inclinados e movidos a servi-los, cumprindo a sua santa vontade, manifestada nos seus preceitos e ensinamentos. Pois, quem sinceramente ama, faz com gosto o que agrada à pessoa amada.

Quereis, portanto, um dia gozar a Deus, sumo bem, no céu? Procurai, com todos os meios ao vosso alcance, conhece-lo, ama-lo e servi-lo. Eis aqui a vontade do Altíssimo. Foi para isto que Deus nos criou e pôs neste mundo. Este é o nosso dever mais importante, o nosso único e maios negócio. Para conhecer, amar e servir a Deus, devemos empregar, pelo menos de alguma maneira, todos os nossos pensamentos, desejos, palavras e obras. Quem não ama a Deus, nem cumpre a sua vontade santíssima, não pode entrar no reino dos céus.

Assim como o cego de nascimento é incapaz de compreender a beleza da luz e o resplendor das cores, também o homem não pode imaginar a glória da vida futura. Esta glória, beleza e majestade em que consiste a nossa bem-aventurança, então levantadas acima de todo o pensamento, sentimentos e palavras. A vida eterna é o mais sublime milagre, o mais espantoso milagre. Ela é a flor mais formosa, o fruto amadurecido da vida da graça que Deus tem implantado entre a humanidade pelo seu Espirito.

A visão da luz incriada tudo esclarece. Esta luz incriada como diz Santa Teresa, avantaja-se em esplendor e formosura a tudo que podemos imaginar. É um brilho que não cega, um esplendor que não fadiga, claridade ante a qual o sol é como as trevas. Esta claridade fulgurará ara nós na vida futura. Esta luz é o Cordeiro divino.

A certeza da glória eterna é indiscutível. Pois, a Igreja pelas suas definições doutrinais declara que qualquer alma, quando purificada de pecados, é imediatamente arrebatada ao céu e aí contempla a Deus trino e uno, tal qual ele é, segundo a medida de seus méritos, umas gozando a visão beatífica de modo mais perfeito, outras não tanto. Nestas palavras resumiu a Igreja o que a Escritura nos ensina em diferentes lugares e os Santos Padres e doutores comentam nas suas obras.

De fato, "onde eu estiver, diz o Senhor, estará também o que me serve". Os eleitos receberão uma coroa imarcescível. Aí descansarão de todas as suas fadigas. Deus enxugará todas as lágrimas dos olhos dos seus santos, e não haverá mais tristeza, nem tormentos nem dores; o luto torna-se em alegria que ninguém lhes poderá empanar. Então contemplarão a Deus, se assentarão sobre o trono, terão parte na sua majestade, glória e soberania; serão chamados ao banquete nupcial do Cordeiro; tornar-se-ão semelhantes a Deus; serão elevados às eminências da natureza divina, hão de vê-lo como ele é e resplandecerão com ele de eternidade em eternidade.

É esta a palavra divina que ecoa pelas páginas das sagradas Letras. Os pagãos não conheceram esta revelação sobrenatural. E não seria, por isso, estranho que alguns infelizes gentios pensassem que o homem está neste mundo principalmente para fazer-se feliz pela posse e gozo dos bens terrenos. Mas, é quase incompreensível que haja cristãos que tenham tais pensamentos, pois que deviam saber que o Filho de Deus baixou do céu e sofreu morte ignominioso para fazer os homens felizes segundo a vontade e os desígnios de seu Pai Celeste.

Jesus Cristo não prometeu aos seus discípulos riquezas, honras e prazeres mundanos. Pelo contrário, os convidou a padecer com ele, a sofrer afrontas e levar a sua cruz. Ele ensinou sempre com a palavra e os exemplos que não estimássemos nem amassemos os bens e os prazeres terrenos por não serem capazes de nos dar a felicidade. "Ai de vós ricos que tendes agora vossa consolação; bem-aventurados os pobres e os justos. Porque no céu será grande a vossa recompensa". São palavras do Salvador.

Diz Santo Agostinho: "Para ti nos criaste, Senhor, e é por isto que nosso coração está inquieto enquanto em ti não descansa". O homem não encontra sua felicidade perfeita nos bens e riquezas deste mundo. E de que lhe poderão servir depois da morte os tesouros que amontou? "O rico murcha como a flor do campo; ergue-se o sol, despede os seus raios e, assim, a planta seca, cai a sua flor e toda a sua beleza desaparecer; assim murcha o rico nos seus caminhos. Isto diz o apóstolo São Tiago.

O célebre conquistador Alexandre Magno depois de haver alcançado vitória sobre vitória, avassalou reis e povos, penetrando até aos confins da terra, chegando às praias do Oceano Indico e vendo que não podia prosseguir mais além, chorava e se lamentava por ser o mundo tão pequeno e não haver mais impérios para conquistar. Tão certo é que o homem não encontra descanso nem felicidade na posse dos bens da terra nem que fossem os do mundo inteiro.

Deus exige de nós que o conheçamos, porque é a verdade eterna; que o amemos por ser o sumo bem, infinitamente amável; que o sirvamos, pois é o Senhor absoluto de todos. Por isso aqueles que não conhecem, nem amam, nem servem a Deus, ele os afastará de si, atirando-os para o inferno, abismo de perdição, cheio de trevas e tormentos. "Atirai o servi inútil para as trevas exteriores, onde haverá gritos e ranger de dentes". "Ide para o fogo eterno", assim o declarou de antemão Jesus Cristo, a verdade infalível.

Sendo, pois, certo que depois da peregrinação terrestre só ficam abertas ao homem duas portas: uma por onde se entra para a vida eterna e outra por onde se vai para os eternos tormentos. E sendo igualmente verdade que só o conhecimento, o amor e o serviço de Deus conduzem à primeira, ninguém perguntará ainda o que lhe compete fazer. Portanto é bem claro que nada há na terra tão necessário como o tríplice dever desconhecer, amar e servir a Deus, para desta maneira conseguir a vida eterna.

Afim de podermos cumprir este tríplice dever, é preciso crermos tudo que Deus revelou, observar todos os mandamentos que nos deu e usar dos meios que ordenou par a nossa santificação. Somente pela fé podemos conhecer devidamente a Deus e o que nos revelou sobre suas divinas perfeições, pois, muito pouco nos diz a razão a este respeito. Temos que observar os mandamentos divinos, porque nisto consiste o serviço que havermos de prestar ao supremo Criador. Havemos de nos servir dos meios da graça que Deus ordenou e que ele nos concede pela oração e pelos santos sacramentos, porque sem o auxílio divino não podemos observar os preceitos, nem crer como se exige de nós.

Muita coisa há, cujo conhecimento é de pouco ou nenhum interesse para o homem; mas, o conhecimento das verdades reveladas por Deus produz frutos abundantes de caráter temporal e eterno. Esta é a melhor ciência, a mais útil e a mais necessária; é a que verdadeiramente ilumina e enobrece o homem, e aquela que nos consola nos trabalhos e nos inspira nas lutas da vida ditames prudentes, máximas salutares e princípios sólidos.

Para os incrédulos, o seu corpo é o seu Deus; os prazeres sensuais, o objeto e fim de toda a sua vida e como lhes é estranho tudo que é celestial, exclamam como aqueles de que fala o sábio: "gozemos enquanto somos jovens, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". Os incrédulos só pensam em encontrar o paraíso sobre a terra, procurando converter este desterro em céu, para que não lhes ofereça senão rosas, gozos e prazeres. Para isso lhes hão de servir as ciências, artes e industrias, conforme a teoria e a prática dos bolchevistas russos.

Quanto é triste este caminho, que deserto este paraíso, que miserável este céu imaginário! Por mais esplendida que seja a vida que o homem se apresente segundo seus apetites carnais, nunca poderá pôr um veto aos seus males, nem evitar as dores, as enfermidades e a debilidade progressiva que os anos trazem consigo. E quando o homem chegasse a viver segundo os seus desejos no meio das riquezas e prazeres da vida e ainda pudesse realçar todos estes gozos com todos os elementos que lhes oferecem as ciências, artes e industrias, ainda não poderia gloriar-se de ser completamente feliz. À sua felicidade faltaria a duração, ela acabaria depois dos poucos anos de sua existência terrena.

CAPÍTULO XX

A oração

Nosso fim imediato e próximo aqui na terra é conhecer, adorar e servir a Deus. Isto se deduz, necessariamente, da absoluta dependência que temos de Deus e do domínio soberano que ele tem sobre nós por nos haver criado e nos conservar. Temos de conhecer este domínio de Deus e tributar-lhe interior e exteriormente a homenagem que lhe devemos por sermos suas criaturas. Este dever chama-se religião ou culto, e a oração constitui uma das suas formas principais. Desta verdade se conclui que a prática da oração é um dever imediato e importantíssimo.

A criação aspira à luz do céu, como a flor aspira à luz do sol. Orar é respiração superior da alma, absorvendo o ar da vida. Orar é a festa do coração, constitui uma das suas formas principais. Desta verdade se conclui que a prática da oração é em dever imediato e importantíssimo.

A oração aspira à luz do céu como a flor aspira à luz do sol. Orar é respiração superior da alma, absorvendo o ar da vida. Orar é a festa do coração, o banquete espiritual do homem, é a poesia da eternidade.

A oração é ato do homem completo, o mais alto dos seus atos, que compreende toda a sua vida íntima e intensa, fogo sagrado que acalenta toda a sua vida, luz esplendida que esclarece todas as suas ações, base e intermédio de toda a sua existência. Quem não ora, não vive espiritualmente, vegeta apenas. Quem ora mal, também vive mal.

A alma embora, adornada dos dons mais brilhantes, se não ora, é como o rosto humano privado da luz dos olhos. O espirito do sábio que não ora, é muito menor do que o da mulher pobre, que sabe elevar sua mente a Deus. A oração é o grau supremo que o espirito criado pode pretender nas suas aspirações para cima. A oração o aproxima de Deus, coloca-o na corrente das ondas eternas. Sim, pode-se dizer que o homem só pensa e sente para orar.

Pois, de fato, a oração é união com Deus ao qual nos elevamos pelas potencias da nossa alma. É um comércio espiritual, uma conversação com Deus. É uma comunicação de pensamentos e desejos mediante os atos de adoração e ações de graças, de amor e de pedidos, seja ela mental ou vocal.

Se nossa grandeza se mede pelos nossos pensamentos e nossos pensamentos são tanto mais nobres quanto seu objeto é mais sublime, é evidente que nada mais nos eleva do que a oração, visto que orar é pensar em Deus. Orar voluntariamente, orar como se deve, é um sinal seguro de nobreza da alma, o privilégio do homem e prerrogativa dos espíritos celestes por terem contínuo acesso a Deus e conversar com sua divina majestade.

O exposto deve ser razão suficiente, para que amemos e estimemos a oração, praticando-a sem cessar. Além disto, pela oração confessamos a absoluta soberania de Deus, nossa completa dependência de sua infinita majestade e nossa insuficiência natural. Glorificamos a onipotência de Deus que pode vir em nosso auxílio. Glorificamos sua sabedoria, porque recorremos aos meios que ele pôs à nossa disposição. Glorificamos sua fidelidade e veracidade, pelas quais se comprometeu e prestar-nos auxílio. Glorificamos sua bondade, já que ao orar colocamos toda a nossa confiança, não em nossos direitos e merecimentos, mas na misericórdia divina.

Na oração nos exercitamos em atos de fé, esperança, caridade, confiança e sobretudo de humildade, numa palavra, oferecemos a Deus um culto verdadeiro, o glorificamos, e convertemos nossa alma em templo de sua glória e majestade. É esta a significação da oração.

A oração ocupou sempre, nos melhores tempos dos povos clássicos, um lugar distinto, quer em público, quer em particular. Sempre a oração se ligava às cerimonias religiosas, assim como aos negócios importantes da vida e aos comuns de todos os dias. Daí vem que tão ricos foram os gregos e romanos em expressões que significavam a oração, como sejam preces, adoração, súplica, invocação, saudação, pregação, charme, etc.

Entre os gregos todas as assembleias públicas, todas as campanhas belicosas, todos os combates e torneios e até os teatros se abriam com a oração. E diz o filósofo pagão Xenofanes: É conveniente que os homens de bom senso, antes de começarem a comer, louvem a Deus e agradeçam os seus benefícios com discursos congratulatórios e coração puro, rogando-lhe que nos dê a força de fazer o que é justo, porque é este o nosso primeiro dever.

Da mesma sorte, encontramos o uso da oração entrelaçado com todos os usos públicos e privados da vida dos romanos. Conta-se que Scipião, o africano, nunca empreendera qualquer negócio de importância sem passar algum tempo na capela do Staor urbis et imperii, templo consagrado ao deus romano Júpiter. Com a supressão da oração coincide a decadência política e moral de ambos os povos.

Se já os homens no paganismo, apenas iluminados pela luz da razão, praticaram a oração de uma maneira tão edificante, não admira que no cristianismo a oração ocupe um lugar tão distinto e destacado. A oração, se por um lado é absolutamente necessário e indispensável, por outro é suficiente para obtermos as maiores graças. A Sagrada Escritura no-lo ensina. Ela nos exorta a rezar, a rezar sempre, a orar sem cessar. "Vós pedis, diz Nosso Senhor, e não recebeis, porque pedis mal". A oração nos oferece proteção nos perigos e tentações, a perseverança no bem e nos facilita a prática das virtudes necessárias. Tudo que interessa a vida espiritual, refere a Sagrada Escritura à oração. A oração é um verdadeiro preceito divino como um dever imposto pela lei natural.

A expressão formal e imediata da religião, é a oração bem-feita. Quando o homem considera a grandeza de Deus que se apresenta nas maravilhas da criação, quando ele descobre as provas do amor de Deus e da sua bondade em à natureza e na história, na própria vida e na redenção da humanidade, então um santo temor o agita, seus joelhos dobram-se espontaneamente, e sua língua repete tremula: santo, santo, santo, três vezes santo és tu Deus dos exércitos, eu te glorifico, porque és meu Soberano e Redentor.

O homem reconhece que ele próprio e tudo quanto existe, provém de Deus e por isso ora: Padre Nosso que estais no céu! Reconhece que tudo vive e se move em Deus, mantido e conservado pela força do seu nome e por isso ora também: santificado seja o vosso nome! Confessa que ele e tudo está determinado para Deus, afim de tomar parte no seu reino, reino de amor, vida e ventura; e continua orando: venha a nós o vosso reino! Quando o homem considera que Deus é o soberano Senhor do céu e da terra, a quem obedecem, no ímpeto de sua natureza os astros no seu curso, bem como todos os seres irracionais, e a quem a humanidade deve prestar obediência, o cristão ainda reza contrito: seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

Enquanto o homem subsiste, corre-lhe o dever da oração, desde a primeira súplica até ao derradeiro grito da alma na hora extrema da morte. Quando a vida finaliza, ainda não termina o dever da oração. Cumpriu-se a lei, venceu-se a tentação, completou-se a faina do dia e o homem justo, partido deste mundo, entrou no descanso de suas fadigas, mas da oração não repousa. A oração persevera, porque a alma continua a glorificar a divina majestade. A fé desapareceu, transformando-se em contemplação. Dissipou-se a esperança depois de conseguir as suas aspirações. Mas, imorredoura é a caridade, caridade da criatura humana para com Deus, que ela contempla agora em toda a plenitude sem véus que ocultem as suas grandezas. Pela caridade continua a adoração, sendo esta a linguagem daquela. Minha alma glorifica ao Senhor, e meu espirito se regozija em Deus, meu Salvador!

Quanto mais profunda e verdadeiramente o homem conhece a Deus, tanto mais rica é a sua oração, quanto mais ora, mais ama e melhor satisfaz ao destino da sua vida. A oração é um laço divino que mais e mais aproxima o homem de Deus, é um manancial perene da vida sobrenatural. Quanto mais o homem ora, tanto mais preenche a ideia de si próprio e se avizinha do termo onde reside a felicidade.

Pois, nenhuma outra coisa é a adoração dos bem-aventurados, senão uma oração perpétua, harmonia celeste, repleta de admiração, louvor, gratidão e júbilo que, enchendo dos encantos e inebriando pelos influxos da ventura, os habitantes do céu na eternidade, sobe e desce de coro em coro angélico, de falange em falange dos santos.

E quando soar a hora em que o mundo deve cair em ruínas, cessará com a derradeira palavra do último mortal a oração sobre a terra, para continuar majestosas e imponente durante a eternidade, sem término, sem limitação alguma. Glória a Deus, glória à sua inefável majestade e infinita grandeza.

Somente se devem pedir a Deus coisas justas e honestas e o que não observarem este aviso, serão repelidos com a merecida resposta que Nosso Senhor deu a dois dos seus apóstolos "Não sabeis o que pedis". Pode-se pedir que licitamente se pode desejar. Devemos desejar e pedir que todos os nossos afetos se dirijam para Deus, e as coisas que nos fazem unir a ele. As coisas que nos podem desunir ou de algum modo afastar delem, de nenhum modo podemos desejar ou apetecer. Os bens chamados corporais e externos, como a saúde, a força, a beleza a riqueza, as honras e a glória servem, muitas vezes, de ocasião e objeto de pecado e por isso não é conforme nem com a piedade, nem com a salvação pedi-los em absoluto. Podemos pedi-los condicionalmente, enquanto são meios legítimos, ordenados para a satisfação das necessidades temporais, conformando-os com a vontade de Deus.

Um cristão que não se preocupa da salvação do seu próximo, demonstra que carece do verdadeiro espirito de fraternidade cristã. Onde floresce, porém, uma vida sobrenatural, ali também prospera a oração em favor da felicidade e salvação do próximo. A Igreja, desde a sua origem até aos nossos dias, reza e manda fazer preces pelos príncipes e homens constituídos em dignidade e pelos interesses públicos, afim de conseguir a ordem e a tranquilidade nos Estados, a virtude e a disciplina na vida social, a paz no seio das famílias e a vitória nas guerras legítimas. Ela suplica a Deus a proteção para as viúvas e órfãos, a castidade para a juventude, a conversão dos desviados e pecadores.

A Igreja ora, afim de obter auxilio para os que são perseguidos injustamente, a misericórdia para os perseguidores, a salvação para os que estão expostos às ondas do mar, pede a fecundidade da terra, a cura dos enfermos, a boa morte dos agonizantes e a libertação das almas do purgatório. Podemos fazer orações pelos missionários, pelo triunfo da justiça e da verdade na imprensa, nas assembleias populares, na promulgação e interpretação das leis; oremos pela santificação da arte, da vida pública e da prosperidade da nação. São inúmeros os fins pelos quais podemos rezar.

A oração é um sinal característico da vida cristã. Abandonar a oração equivale à morte espiritual. Todo o aperfeiçoamento na oração é progresso para a vida espiritual da alma. Aquele que se lembra, unicamente, do dever da oração nos momentos em que as misérias e as angustias da consciência lhe abrem os lábios fechados há muito tempo, aquele que somente consagra a oração o tempo que não pode empregar para outra coisa, este, sem dúvida, não chegou ainda à vida cristã perfeita. Pois, São Paulo disse: "Orai sem cessar" e Nosso Senhor, "vigiai e orai em todo o tempo".

Não é possível, certamente, que façamos da oração o único trabalho da nossa vida, porém, tão pouco é impossível que façamos da nossa vida uma oração contínua. Pois, a oração é a elevação da alma a Deus, é um trabalho sobre nós mesmos, um trabalho que nos melhora e enobrece, trabalho que eleva os nossos sentimentos. Ora, esse fim podemos prosseguir em nossas ocupações. Nada nos impede levar o peso do trabalho, o prazer do recreio, as alegrias como as importunidades nas relações com os homens, a dor e o aborrecimento das provações, de tal sorte que o espirito se purifique e empreenda um novo voo para elevar-se a Deus. Pois bem, por este mesmo fato, fica resolvida a mais elevada empresa da vida, a empresa que consiste em fazer desta vida uma vida de oração, em orar constantemente. Esta doutrina concorda, perfeitamente, com os ensinamentos de São Paulo: "Portanto, ou vós comais ou bebais ou façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus".

A oração é o distintivo característico do verdadeiro espirito cristão e da verdadeira Igreja. Com frequência se ouve dizer que o estilo, a linguagem é o homem. Isto se aplica, igualmente, à linguagem da oração. Ela é o estilo do cristão, e, principalmente, do católico, é a pedra de toque mais segura para avaliar o espirito de que estamos animados. Tal vida, tal oração e reciprocamente, tão oração, tal religião e tal vida.

Diz Tertuliano: A oração é a única força diante da qual se inclina Deus. E razão teve o salmista para dar graças a Deus por nos ter dado um meio tão poderoso para a salvação: "bendito Deus, que não rejeitou a minha oração nem apartou a sua misericórdia de mim".

Enquanto, na planície, os seus soldados contra o rei infiel travam porfia. Moisés, subindo a um monte, levantados os braços para o céu em Deus confia. E se o braço Moisés mantém alçados, sempre a vitória para os seus pendia, mas, se os abaixa um pouco, fatigados, logo o inimigo de Israel vencia. Por fim, de dois levitas assistido, não mais o dado abate, e vê destruído todo o inimigo exército jazer. Alta lição! Da vida na peleja quem no invocar o Altíssimo fraqueja, nunca o inimigo poderá vencer!

CAPÍTULO XXI

Destemor e fidelidade

Mais do que nunca devem na atualidade os católicos e todos os homens de bem assumir atitude definidas e seguras. No meio das ideias confusas e dos ataques aos fundamentos da família, da sociedade e do Estado, requerem os tempos atuais homens bem orientados e decididos. O salvador da humanidade e do Brasil, nestas conjecturas prenhes de perigos, não pode ser outro do que Jesus Cristo. Portanto, é necessário que todos formem ao seu lado, em torno de sua bandeira, constituindo um exército disciplinado e heroico. Ele é e será o vencedor. Por isso, convoca os seus soldados dizendo: "Quem não é comigo, é contra mim, e quem não junta comigo, desperdiça". E oxalá não seja ele obrigado na revista do seu exército, a dizer a um que outro: "Conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente, mas porque és morno e nem frio nem quente, começarei a vomitar-te de minha boca".

Para sermos verdadeiros amigos e soldados de Nosso Senhor, devemos crer e confessar os seus ensinamentos. Nós cremos na revelação na qual Deus falou, na antiguidade, pelos profetas e, na plenitude dos tempos, pelo seu Filho unigênito e pelos apóstolos. Estes fatos são claros e evidentes. Quem procura a verdade sinceramente, não rejeita a palavra divina. Cristo fundou uma Igreja e uma só para orientar os homens, como a coluna de fogo que guiou os israelitas através do deserto. Cristo estabeleceu sua Igreja sobre um fundamento visível que é o apóstolo São Pedro e a sucessão apostólica até Pio XI, gloriosamente reinante. Os Bispos de Roma receberam de Pedro o báculo do magistério supremo e as chaves do reino dos céus.

Nós cremos e confessamos diante de todo o mundo: há um Deus pessoal em três pessoas, criador do céu e da terra, criador da alma espiritual e imortal do homem. Jesus Cristo é o Filho do eterno Pai, feito homem de Maria Virgem, o qual morreu na cruz, livremente, pelos pecados dos homens, ressuscitou ao terceiro dia dos mortos e subiu ao céu. Ele é verdadeiro homem e verdadeiro Deus em uma pessoa. O Espirito Santo é a terceira pessoa do Deus trino.

Nós cremos e confessamos: uma, santa, católica e apostólica Igreja, obra de Deus, o corpo místico de Cristo, organização vital de todos os eleitos. A Igreja é a ponte que une as almas com o Salvador. Cristo continua a ser o caminho, a verdade a vida. Pois, "ninguém vai ao Pai a não ser pelo Filho".

Nós cremos e confessamos tudo quanto a Igreja ensina como verdades reveladas, sem modificar o sentido das palavras.

Os soldados de Cristo devem ser homens de caráter, firmes nas suas convicções. Esse caráter deve ser temperado no crisol da moral cristã. Deus traçou as normas para a vida particular e social. Por isso ele exigiu a subordinação da vontade humana à sua vontade divina: "Eu sou o Senhor teu Deus". A Igreja com seus mandamentos regulamentos as leis de Deus. Os dez mandamentos divinos fundamentam a ordem moral cristã, a base da vida cristã e da sociedade.

Ninguém tenha, ao lado do Deus verdadeiro, ídolos ou falsos deuses. É preciso respeitar o direito dos pais, e dos legítimos superiores segundo o quarto mandamento. É preciso proteger o direito dos pobres e dos oprimidos e dos fracos em sentido econômico, conforme o quinto mandamento. É necessário proteger a dignidade humana segundo o sexto mandamento, procurar a justiça para equilibrar a posse dos bens e proteger a propriedade, observando o sétimo mandamento, cultivar a veracidade e repelir a mentira conforme o oitavo mandamento. São estas as linhas diretrizes da ordem moral com relação ao indivíduo e à sociedade.

Religião e moral são fatores inseparáveis. Os direitos de Deus e do homem, o amor de Deus e a caridade do próximo não se podem separar dos dez mandamentos. Religião e moral são inseparáveis na vida do povo. Os direitos de Deus se acham nos três primeiros mandamentos, depois seguem-se os direitos relativamente aos homens: os direitos dos pais, os direitos dos pobres, os direitos da fidelidade conjugal, da justiça e da veracidade. Ninguém pode defender direitos do homem, negando os direitos de Deus. Quem não reconhece o preceito do amor de Deus, não pode alegar que pertence ao cristianismo. Quem declara a caridade como a primeira e única lei da religião cristã, substitui Deus pelo homem no centro da sua crença.

Os dez mandamentos formam a consciência cristã. Necessitamos, imperiosamente, e de homens conscienciosos. Todas as leis são incapazes de manter a ordem, quando a consciência não se forma pelos ditames do quarto mandamento de Deus, acerca da obediência às leis humanas e ás autoridades civis. Não há necessidade de novos credos ou de novos preceitos, mas impõe-se como verdadeiros imperativo a observância conscienciosa dos velhos mandamentos.

Guardar os mandamentos de Deus, nisto consiste o homem perfeito, a personalidade integral. O caráter moral não se inclina para a direita ou esquerda, não muda a cor de hoje para amanhã, nem dobra os joelhos diante dos ídolos que a cada momento se querem entronizar. Ser católicos significa ter um caráter sem jaça, modelado segundo a moral cristã, significa pautar seus atos da vida privada e pública pelas leis e ensinamentos de Cristo. Os compromissos são necessários, inevitáveis para alisar arestas, nivelar contraste e conciliar interesses, mais acima de todos os compromissos brilham quais estrelas eternas, os princípios da lei moral que indicam os limites da nossa liberdade e das nossas condescendências. Hoje em dia, é preciso colocar os princípios católicos no candelabro para que derramem seus fulgores na escuridão da atualidade.

Oxalá, se apresentassem em cada cidade uma dezena de homens revestidos da couraça de um caráter firme e diamantino, inspirados na glória de Deus e na grandeza da nação, prontos a todo o sacrifício, e nós garantimos que, em breve, a face moral e política do Brasil estaria renovada.

Os católicos devem, principalmente, blindar sua vida e fortalecer sua atividade pela influência da graça divina, afim de serem verdadeiros apóstolos. Graça significa, fortalecer-se no Senhor, é viver com Deus, é lutar com armas divinas. Onde se acha a graça de Deus, aí na força sobrenatural e, enfim, sempre vitória. Em nossa fé radica a convicção católica. Cristo venceu o mundo. Sua Igreja não pode ser vencida, por ser a sua Igreja. Nisto consiste nossa fé no futuro e esta fé nos inspira amor à vida e contração ao trabalho. Os católicos entoam o hino da confiança, no triunfo do final, alentados pelo néctar da graça de Deus.

A graça divina acompanha os católicos desde o berço até ao túmulo e consagra as horas mais solenes da vida com sacramentos especiais. A Igreja abençoa o princípio da vida com o batismo, o fim da existência terrena santifica com a sagrada unção. Ela os fortalece com o santo crisma no caminho da sua peregrinação. Na Sagrada Eucaristia, o sacramento de indizível consolação, recebemos o Pão dos anjos, forças nas fraquezas e vida na própria morte. O sacramento da penitencia torna-se para nós a escola da humildade e a cultura da alma no sentido mais elevado. Na ordenação sacerdotal, os levitas do Senhor recebem a missão de medianeiros entre a terra e o céu para salvação dos outros homens. No sacramento do matrimonio encontram-se as raízes seguras da benção para a vida da família e, por isso, para a vida da sociedade humana.

Ser católico significa beber as graças nas fontes dos santos sacramentos. Não deve haver católicos só de nome, mas de ação. Significa obedecer às leis da Igreja e de Deus, orar em casa e assistir à pregação e à santa missa nos dias de preceito. Significa venerar a Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, dirigindo-lhe constantes preces, contemplando nela o ideal da mulher católica e a grandeza da maternidade cristã.

Como a fé católica se denomina apostólica, os fiéis devem exercer o apostolado cristão. O espirito apostólico se empenha para divulgar a doutrina de Nosso Senhor e aumentar o número dos seus soldados, chamando-os para a luz da fé e a felicidade de uma vida cristã. O espirito apostólico cultiva o amor fraterno, inculca a necessidade da fé religiosa e da moral católica na vida pública, esforçando-se, para que as forças religiosas pensem e sarem, com o balsamo da justiça e da caridade fraterna, as feridas das misérias econômicas e morais do povo. Por isso, dizemos com São Paulo: "de resto, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, no poder da sua virtude. Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do demônio e, no dia mau, ficar de pé depois de ter alcançado a vitória".

É preciso cumprir as promessas do batismo em toda sãs circunstancias da vida atual. É, certamente, oportuno renunciar à satanás e às suas obras. Pois, o demônio, com a permissão de Deus, ameaça com seu poder funesto não somente o indivíduo, mas todas as classes sociais. Renunciamos às obras de satanás. Reprovamos a revolta contra Deus, o desprezo das coisas santas, o impudor e inúmeras ações pecaminosas que invadem a sociedade hodierna.

Prometemos, no batismo, a nossa fé em Deus e na Igreja católica. Por isso, temos obrigação de consagrar a Deus todas as nossas forças, de cumprir a vontade sacrossanta de Jesus Cristo e de obedecer à Igreja católica, por ela ser a mestra da verdade, a orientadora dos cristãos. E, sobretudo, temos obrigação de viver conforme as normas ditadas pela nossa fé. Pois, como diz o divino Salvador: "Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus, este entrará no reino dos céus".

Como soldados de Cristo devemos prestar-lhe fidelidade e obediência, não somente em idas de bonança ou de festas, mas também nos tempos incertos, perigosos e de perseguição. Pois, justamente quando os direitos de Deus e os bens mais importantes da nação se acham em perigo, é que o exército dos escolhidos deve defender esses altos valores religiosos e nacionais. Assim como na guerra os soldados cantam com mais entusiasmo o hino nacional e defendem a bandeira auriverde com atos de bravura, da mesma maneira os católicos devem demonstrar sua fé, sua energia, sua disciplina nas perseguições religiosas, máxime quando estas ainda visam a subversão da ordem social e a destruição da civilização social: "Esta é a vitória que vence ao mundo, nossa fé".

Lemos na Sagrada Escritura a seguinte parábola, cheia de salutares ensinamentos. Jesus disse: um homem fez uma grande ceia e convidou muitos. E, à hora marcada, mandou a um seu servo dizer aos convidados que vissem, porque tudo estava preparado. E todos a uma começaram a escusar-se. O primeiro disse-lhe: comprei uma quinta e é me necessário ir vê-la: rogo-te que me dês por escusado. E o outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-los; rogo-te que me des por escusado. Disse também o outro, casei-me e por isso não posso ir. E os convidados não compareceram.

Infelizmente, grandes números de pessoas imitam este exemplo, quando se trata de defender a causa de Deus! Às vezes, nas ocasiões mais solenes, aparecem escusas sem fundamento, inspiradas pela lei do menor esforço ou pelo respeito humano. O mesmo fato verifica-se também no domínio social e político. Pois, muitas vezes aqueles que devem os maiores benefícios aos seus superiores, os abandonam e até perseguem em casos difíceis e perigos eminentes. Esta conduta, tanto no campo civil com o religioso, merece categórica reprovação.

É preciso que se organize uma nova cruzada contra o inimigo comum da Igreja e da Pátria. O comunismo infiltra sua doutrina como um veneno doce em todos os departamentos da vida individual e social. Sim, é um veneno doce, mas corrosivo que corrompe a escola, as academias, às instituições públicas e os próprios representantes do Estado político.

Os heroicos cruzados tão prontamente levavam ao céu orações fervorosas, como marchavam impávidos ao combate, brandindo a formidável lança, terror das hostes agarenas. Eram homens destemidos e fiéis aos seus juramentos. Debaixo da couraça de ferro, pulsava um coração cheio de ardor pela religião de Cristo; sem reserva consagravam-se eles à defesa dos maiores bens da civilização cristã, ao mesmo tempo que renunciavam às pompas e às seduções enganosas do mundo.8 Eram, na expressão de São Bernardo, mais mansos que cordeiros e mais fortes que leões.

A organização da nova cruzada defensiva e orientadora impõe-se na atualidade. Neste exército devem entrar os católicos com sua doutrina e exemplo, todos os cristãos que ainda tenham fé viva em Jesus Cristo, todos os políticos que desejem defender os interesses do Estado, todos os militares, porque estão destinados à defesa da nação, todos os deputados que pretendam salvaguardar a felicidade do povo, todas as autoridades e todos os governos, porque devem exercer sua missão em benefício da paz e da prosperidade da nossa Pátria.

Portanto, avante, Deus o quer e a nação brasileira o reclama!

CAPÍTULO XXII

As práticas das virtudes teologais

A fé, a esperança e a caridade chamam-se virtudes teologais, porque vem de Deus e a ele, imediatamente, se dirigem. Estas virtudes, pelas quais queremos, esperamos e amemos de uma maneira proporcionada à vida eterna, são inteiramente de caráter sobrenatural. São comunicados ao homem do alto, são infundidas na alma por Deus, único princípio da ordem sobrenatural.

Deus é princípio e objeto imediato destas três virtudes. Cremos em Deus, na sua existência, essência e perfeições; esperamos em Deus como nosso futuro remunerador, como nossa futura possessão, amamos a Deus como o bem sumo e infinito em si mesmo e infinitamente digno de amor.

Cremos não somente as verdades que se referem imediatamente a Deus, mas também outras verdades da salvação como a ressurreição dos mortos, o juízo final, a eternidade das penas do inferno e os outros dogmas da religião; não esperamos só a felicidade eterna, mas também os meios para a alcanças; também amamos, justamente com Deus, o nosso próximo. É apesar de ser verdade que Deus é o primeiro e principal objeto da nossa fé, esperança e caridade, tudo o mais cremos, esperamos e amamos com relação a Deus, conforme declara Santo Tomás.

Isto quer dizer: nos cremos as demais verdades enquanto por elas Deus se nos revela; esperamos os bens espirituais, como meios que nos conduzem à posse de Deus; amamos os destes homens como filhos e imagens de Deus.

Além disso, Deus não somente é objeto da nossa fé, esperança e caridade, mas o próprio e único motivo das ditas virtudes. Porque cremos em Deus só e unicamente porque ele, que é a verdade infalível, falou; esperamos em Deus, porque de que é infinitamente bom, poderoso e fiel, prometeu o bem que dele desejamos; finalmente, amamos a Deus, porque ele é o único e infinito bem e por si mesmo infinitamente amável.

Portanto, o que é próprio destas virtudes é referir-se imediatamente o Deus sob duplo aspecto, o que não tem lugar nas demais virtudes. As virtudes morais ordenam a nossa conduta moral de um modo que é agradável a Deus e se distinguem de várias maneiras das teologias.

A fé, esperança e caridade, que em razão do seu objeto imediato se chamam virtudes teologais e divinas, por motivo de sua origem denominam-se também infusas, em oposição às morais que pelo mesmo fundamento recebem o nome de virtudes adquiridas. Chamam-se virtudes infusas, porque Deusas infunde no coração dos homens, gratuita e admiravelmente, à maneira de rocio fecundo ou de óleo sagrado, que cura e fortalece, ou de bálsamo aromático.

Segundo a definição dos teólogos, entende-se por virtude infusa a que é um dom comunicado à alma, junto com a graça santificante, para torna-la capaz dos atos sobrenaturais, ou gratos a Deus e dignos da vida eterna e a eles a inclina.

Com efeito, o homem, tem, por sua natureza, uma indelével capacidade e inclinação de crer certas verdades e fatos suficientemente provados, de esperar o bem prometido, de amar o que na realidade é digno de amor. Mas, esta fé, esperança e amor absolutamente naturais, ainda que se referissem às verdades e promessas divinas, e a Deus mesmo conhecido pela razão como sumo bem, estas virtudes ou capacidades naturais estão muito distantes da fé, esperança e caridade, pelas quais o homem merece entrar no céu.

De fato, à vida eterna somente nos conduzem aquelas virtudes e os seus atos que procedem da graça, e que são como que uma manifestação exterior daquela vida superior, sobrenatural e, de algum modo, divina, que a graça celeste opera em nossas almas. Pois, unicamente, semelhantes atos sobrenaturais estão em proporção com a futura vida de glória no céu. Com efeito, se nos fora dado fazermo-nos dignos da vida eterna sem a graça do Salvador, pela prática de virtudes puramente naturais, não se poderia provar a necessidade da redenção de Cristo, autor da graça.

As virtudes infusas da fé, esperança e caridade são dons permanentes da graça no homem regenerado em Cristo para a vida eterna. São as forças e faculdades correspondentes à sua nova natureza celestial, que tornam o homem capaz de praticar obras gratas a Deus e meritórias da vida eterna e o inclinam a realiza-las. Como Deus dotou o homem de forças e faculdades para as suas operações naturais e lhe comunicou e gravou no coração uma inclinação permanente para o bem, proporcionado à sua natureza racional, assim também, peal sua infinita bondade, quis conferir ao homem regenerado pelo batismo, e tornado semelhante a Cristo, as necessárias forças e capacidades celestiais, afim de pô-lo em estado de levar uma vida sobrenatural e digna do céu.

A fé, esperança e caridade, principalmente e primeiro que tudo, são chamadas virtudes infusas, ainda que com razão se supõe, conforme sólida doutrina dos teólogos, que juntamente com elas sejam infundidas as virtudes morais. No glorioso cortejo de toda as virtudes que Deus infunde na alma com a graça santificante, a fé, esperança e caridade tem sempre o primeiro lugar. Também merecem, com preferência, ser chamadas infusas, porque não podem ser adquiridas com o exercício ou pela prática.

Não podemos merecer estas virtudes teologais, como nem a graça santificante, ou alcança-las, pelas nossas próprias forças. Pois, elas são dons pura e livremente gratuitos do amor misericordioso do Senhor. Contudo, chegado ao uso da razão, o homem deve cultivar, com a divina graça, estas preciosas sementes que Deus, o Semeador celeste, lançou nos corações pelo batismo e pelo sacramento da penitencia.

Na primeira justificação, que tem lugar no batismo, segundo o Concílio de Trento, são, ao mesmo tempo, infundidas estas três virtudes, e se, pelo pecado mortal, se perdeu uma destas ou se perderam todas elas, então voltam e infundir-se na justificação pela penitencia.

As virtudes teologais são, um requisito indispensavelmente necessário, para que o homem consiga seu fim último e sobrenatural, e um meio muito eficaz para promover sua perfeição. A fé derrama uma luz celestial sobre o caminho da nossa peregrinação terrestre, descerra, de algum modo, o véu dos mistérios da vida de além-túmulo, mostra-nos o trono da glória futura e a herança certa, inascível e imperecedoira, que nos espera no céu no meio de perpétuos esplendores.

A esperança daqueles inestimáveis bens do céu, daquela felicidade completa e eterna no seio de Deus, estimula a nossa vontade a marchar pela estrada da vida que a fé nos ensina. A caridade dá-nos asas e nos eleva acima de todos os obstáculos que se antepõem ao nosso passo, e não só nos excita poderosamente, a procurar a nossa união com Deus, de infinita amabilidade, mas já, neste mundo, nos une, de modo místico, com ele.

É, portanto, um grande de ver de todo o cristão conservar fiel e constantemente, até ao fim da vida, estas virtudes que lhe foram infundidas no batismo ou na penitencia. É preciso que empregue os meios oportunos para conservar estes sublimes dons da graça. E é claro que o meio principal é fazer, com frequência, atos de fé, esperança e caridade.

Praticamente, podemos usar da seguinte fórmula: Eu creio firmemente que há um só Deus em três pessoas realmente distintas: Padre, Filho e Espirito Santo; que dá o céu aos bons e o inferno aos maus para sempre. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar e ao terceiro dia ressuscitou. Creio tudo mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica, apostólica, romana, porque Deus, verdade infalível lhe revelou. E nesta crença, quero viver e morrer. Eu espero, meu Deus, com firme confiança, que, pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, porque vós, sumamente bom e poderoso, o haveis prometido a quem observar fielmente os vossos mandamentos, como eu proponho fazer com o vosso auxílio. Eu vos amo, meu Deus, de todo o meu coração e sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bons e amáveis, e antes quero perder tudo do que vos ofender. Por amor de vós amo ao meu próximo como a mim mesmo.

Todo o bom cristão tem como regra de vida rezar os atos destas virtudes pela manhã e à noite, nos perigos, nas tentações. A prática dos atos da fé, esperança e caridade á um preceito, embora não se possa determinar, com exatidão, quantas vezes a isto esteja obrigado o cristão que chegou ao uso da razão.

Para satisfazer a estrita obrigação dos atos destas virtudes, basta, em geral, exercer aquelas obras de piedade e religião que contém um ato de fé, esperança e caridade ou todos os três juntos. Assim, por exemplo, pode cumprir-se o dever de um ato de fé, fazendo com atenção e respeito o sinal da cruz; o da esperança, rezando, devotamente, o Padre Nosso; o de contrição perfeita dos pecados, que encerra um ato de fé, esperança e caridade.

Mas, há o estrito e especial dever de fazer atos destas virtudes, quando surgem grandes tentações contra as mesmas. Se em nosso espirito aparecem duvidas, objeções, dificuldades contra a religião, nada há mais salutar do que dizer imediatamente: "Meu Deus, eu creio tudo quanto vós tendes revelado e a Igreja Católica manda crer". Se a tristeza, o desalento do espirito, a desesperação se insinuam em nossa alma, será de grande proveito esta jaculatória; "Esperei em vós, Senhor, e não serei confundido", e com isto a tentação ficará vencida.

Se, no meio dos padecimentos e contrariedades, o nosso coração, de algum modo, se revolta para romper em queixas e murmurações contra Deus, então o meio mais seguro para vence-las é fazer um ato de amor de Deus, dizendo, com sinceridade filial: "Meu Deus, amo-vos de todo o meu coração sobre todas as coisas, porque vós sois o sumo e infinito bem, infinitamente digno de ser amado"; e com isto cessará a tempestade.

E se nas tentações contra as virtudes teologais, não houvesse outro meio para resistir vitoriosamente, então a pessoa tentada estaria obrigada sob culpa grave, a praticar os atos de fé, esperança e caridade.

Na recepção dos santos sacramentos, principalmente da penitencia e comunhão, é preciso recitar os atos da fé, esperança e caridade. Também nos perigos da vida e no leito da morte, cada um está obrigado, quanto é possível, a praticar os atos de fé, esperança e caridade, já para conservar estas virtudes no último combate da vida, já afim de melhor se preparar para entrar na eternidade, e para mais depressa poder unir-se com Deus, autor, motivo, objeto e último fim das virtudes da fé, esperança e caridade.

Felizes os que possuam, conheçam e pratiquem as virtudes teologais! Eles são integrados na vida da Igreja, que é a vida de Jesus Cristo, fundamento e fonte, donde devemos tirar, força, alento e vitalize sobrenatural! A fé guia e alma para o conhecimento de Deus. A fé é a substancia e a raiz da vida cristã, pois o "justo vive da fé".

A alma do cristão aspira ao seu fim supremo e nas asas da esperança se eleva ao trono do Eterno, confiando na veracidade de sua palavra infalível, no seu poder e na sua misericórdia infinita. A caridade, o amor de Deus, supremo bem é a excelsa virtude que inflama os cristãos piedosos e bem orientados e os inclina a fazer os maiores sacrifícios pela salvação pessoal. "agora, pois, permanecem, com necessárias para todos, estas três virtudes: a fé, a esperança, a caridade.

Como contrastam estas brilhantes e consoladoras verdades do catolicismo das teorias ateístas da atualidade! É com amarga ironia que um poeta fala a respeito da ciência nebulosa de certos filósofos e cientistas: Debalde vos esforçais em vosso afã pressuroso: corre o homem, mais ainda foge o alvo vaporoso. Em vão procura rasgar o véu que a vista encobre: sobre os dias, sobre as noites o segredo não descobre. Interroga o firmamento, desce, pergunta ao abismo, mas tanto a luz como as trevas calam-se com egoísmo. O abismo torna-se claro, mas a luz logo se apaga; o homem de ilusões pleno em vão corre, em vão divaga.

Desde muito tempo, o poeta descreveu a sorte do homem que se divorcia de Deus: É bem claro que aos deuses não igualo, para os vermes da terra, sim, resvalo.

De fato, felizes aqueles que possuem, conhecem e praticam as virtudes da fé, esperança e caridade.

CAPÍTULO XXIII

Os supremos interesses da pátria

Muitos conceitos errôneos acerca dos interesses supremos da pátria ouvimos nos discursos, lemos nos manifestos políticos e correm, constantemente, pelas páginas da imprensa. As ideias do homem são a projeção de sua mentalidade, de sua orientação moral e política, influenciada pelas suas conveniências ou paixões. É verdade que os interesse supremos da nação podem achar amparo e defesa por modos diferentes, e daí é justa a organização de vários partidos políticos. Mas também não é menos certo que o bem comum, a felicidade social, se acha circunscrita dentro de determinados limites. Por isso, a demagogia, as competições injustas, as revoluções, embora às vezes pretendem a defesa dos direitos do povo, transformam-se, de fato, em instrumento de perturbação social, em grande detrimento dos verdadeiros interesses da nação.

E quais são estes interesses supremos da pátria? Podemos resumi-los ao binômio de paz e prosperidade. Por isso, o povo laborioso, que sustenta, com o suor do seu rosto, todo o mecanismo da administração pública, todo o aparelho governativo, lamenta sempre profundamente, quando ambições pessoais ou competições partidárias, ao afã de conseguir os seus fins, chegam a perturbar a tranquilidade pública e a entravar o trabalho fecundo das lavouras e das indústrias.

Por isso, é preciso que o povo escolha com todo o escrúpulo e cuidado os seus representantes na assembleia legislativa e no parlamento nacional, para que não fique decepcionado com atitude dos seus escolhidos. Por outro lado, é de absoluta necessidade que os políticos e os representantes do povo se compenetrem de sua grande responsabilidade, não somente perante os seus constituintes e eleitores, mas também diante de Deus, a quem devem prestar contas severas do desempenho dos seus mandatos e do cumprimento dos seus deveres políticos e sociais.

A organização da sociedade política ou estatal é um postulado da natureza humana e uma exigência da vida comum. O homem, tanto para atender às suas inclinações inatas, como para desempenhar as funções do seu espirito, precisa viver em sociedade. Deus, o Criador da natureza humana, é também o autor dos seus atributos e exigências. A vida social não é possível, sem que haja um poder superior que modele e dirija a sociedade, de maneira que possa alcançar o seu fim, que consiste em promover a prosperidade temporal dos homens.

Este poder chama-se autoridade social. É o direito de dirigir os componentes de uma coletividade. Pode-se também dizer que a autoridade é a pessoa que tem o direito de impor prescrições eis que obrigam em consciência a cumprir a vontade alheia em benefício da totalidade.

Autoridade significa superior e preposto. Mas, onde há superior, existem súditos e onde prepostos, subordinados. Os superiores e os prepostos têm de ordenar e de proibir; os súditos e os subordinados devem obedecer. Quem, ao contrário, não se acha sob nenhuma autoridade, portanto sob nenhum superior, é soberano, quer dizer que é autônomo, independente.

Se hoje em dia, toda a ordem social estremece, se a segurança e a tranquilidade da sociedade humana se acham quase, constantemente em perigo, deve-se procurar a causa deste fato na crise da autoridade pública, que ora ultrapassa a orbita das suas atribuições, ora se mostra demasiadamente fraca no cumprimento dos seus deveres.

É, certamente, uma opinião errada supor que nas democracias não se necessite mais de autoridade. Mas, regime sem a autoridade, significa anarquia, independência de qualquer lei e conduz a sociedade ao bolchevismo, à sepultura coletiva da humanidade.

É, portanto, necessário que haja uma autoridade social, de respeito e que seja respeitada. Quem, entretanto, nega a autoridade, revolta-se contra Deus. Pois, aquele que resiste ao legítimo poder, resiste à ordenação de Deus e a si próprio atrai a condenação, porque não há poder ou autoridade que não venha de Deus. De outro lado, Deus protege também os súditos, porquanto castiga os abusos dos governantes. Os poderosos serão poderosamente atormentados.

Não é permitido desprezar o poder legítimo, seja qual for a pessoa em quem resida. Essa iniqua oposição se faz indiretamente à vontade divina, pelo que aqueles que assim procedem, incorrem em gravíssimas penas, pois, todo o homem deve estar sujeito aos poderes superiores. E se os governantes se deixarem arrastar para um domínio injusto, se pecarem por abuso do poder ou por orgulho, se não providenciarem pelo bem comum da coletividade social, terão de prestar, um dia, contas a Deus, e seus castigos serão tanto mais severos quanto mais sublime tenha sido o grau de dignidade a que foram elevados. É esta a doutrina católica segundo a exposição do grande Pontífice Leão XIII e que estabelece o equilíbrio entre o poder civil e a sujeição dos súditos.

A autoridade existe e é necessária. Mas, não tem firmeza nem segurança se não se admite como sua origem e sua fonte o próprio Deus. Aqueles que negam obediência a Deus, são os primeiros a desrespeitarem a autoridade civil. Basta que circunstancias especiais lhes ofereçam alguma oportunidade. Em outras pastorais, expusemos mais extensamente os ensinamentos do direito natural e da Igreja sobre a sociedade, o Estado e o poder público.

Satanás foi o primeiro rebelde. Desobedeceu a Deus e exclamou: Subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima dos astros de Deus, serei semelhante ao Altíssimo. Sonhava ele com uma liberdade ilimitada, pretendendo igualar-se a Deus. Um orgulho sem igual apoderou-se de Lúcifer, o anjo supremo da luz, e desobedeceu, insolentemente, à autoridade divina. Seguiram seu exemplo malfadado os anjos revoltosos, os espíritos maus. Satanás como m relâmpago caiu do céu para o inferno. Também seus adeptos forma castigos com pena semelhante.

Dessa maneira puniu Deus os negadores da autoridade. A desobediência a Deus dos nossos primeiros pais foi a causa de sua expulsão do paraíso e a desgraça do gênero humano. O diluvio universal do paraíso e a desgraça do gênero humano. O diluvio universal foi a punição do gênero humano, porque antes de obedecer a Deus, quis continuar uma vida dissoluta e criminosa. A torre de Babel foi o primeiro monumento que atesta a independência mal compreendida dos homens e no qual o orgulho escreveu: não precisamos de Deus. A torre de Babel caiu em ruinas, mas a autoridade de Deus continua a existir.

Os faraós exclamavam: não reconhecemos soberano acima de nós. E hoje, no meio de areais imensos, as pirâmides que guardaram seus despojos mortais, proclamam a vaidade dos seus construtores. Tais semideuses houve entre os césares do ocidente e entre os déspotas orientais e ainda parecem no meio dos potentados dos tempos atuais. Não poucas vezes, os reis da terra se sublevaram e os príncipes se coligaram contra o Senhor e seu Cristo, dizendo: rompamos os seus laços e sacudamos de nós seu jugo. Cheios de vanglória exclamaram: não queremos que este sobre nós reine. Contudo, Deus castiga, cedo ou tarde, os que transgredem suas leis e desprezam sua soberania.

A vaidade humana nutrida pelo ateísmo, pretende ser autônoma, defende a independência da razão e, entretanto, na realidade a inteligência e a vontade do homem dependem de Deus. O orgulho da razão é o inimigo jurado da autoridade. Ele quer destruir todos os vínculos que o prendem à autoridade divina e humana. O homem modernizado pela filosofa racionalista pensa como o anticristo que se opõem à doutrina verdadeira, à religião e à sociologia cristã. Infelizmente, não poucos dos nossos escritores, cientistas e intelectuais procedem como Lúcifer. Não querem submeter-se aos preceitos de Deus e aos ensinamentos da Igreja. Quem nega a autoridade divina, destrói, por isso mesmo, a autoridade civil e o prestígio do poder público.

Daí a desordem social, os levantes, os desacatos aos poderes públicos, a confusão, a anarquia. Tudo isso abre, de par em par, a porta ao comunismo subversivo. Um governante que precisa apoiar-se nas pontas das baionetas ou cercar-se metralhadoras, para reger uma nação, não pode manter-se por muito tempo, cai dentro de pouco tempo e arrasta consigo ao abismo aqueles que devia dirigir e proteger.

É, portanto, necessário que se tenha uma ideia exata, uma noção nítida do poder público e da influência salutar dos princípios católicos na vida parlamentar e publica. Se houvesse estadistas e governantes que seguissem à risca as normas traçadas pela sociologia cristã e cumprissem seus deveres católicos, o mundo teria outro aspecto.

Como modelo e prova sirva o egrégio presidente da Suíça, Dr. José Motta. Pelas suas atitudes, ele atesta que um cidadão católico pode ter uma notável capacidade política e ao mesmo tempo sentimentos genuinamente católicos. A obediência à Igreja não elimina o patriotismo. Neste ponto a Suíça dá um brilhante exemplo às outras nações.

A maioria da população da Suíça não é católica. Entretanto, a Confederação Helvética elegeu para seu presidente já pela quinta vez o estadista católico José Motta. Durante os quarenta anos de sua atividade pública revelou ele extraordinárias qualidades políticas, grande compreensão dos problemas do seu país, uma intuição profunda e conhecimento exato da situação política universal, sob uma admirável modéstia e absoluta honestidade de ação. Ele é um exemplo acrisolado de fidelidade católica ao Estado e de capacidade política, digno de figurar ao lado das eminentes personalidades de Sepé, Dolffus e Salazar.

José Motta tem, atualmente, 66 anos de idade, fez ótimos estudos, fala com perfeiçoa as três línguas predominantes na República Suíça, é um caráter firme e honra o alto posto que está ocupando. Seu otimismo baseia-se na fé e na ação da providência divina, na bondade dos homens e no futuro do seu país.

O presidente Motta pouco confia nas suas próprias forças, mas tanto mais na assistência de Deus. Nisto consiste seu valor e superioridade. Em 1911, por ocasião de sua eleição para conselheiro, pronunciou a seguintes palavras: várias vezes me perguntei, se minhas forças eram suficientes para o desempenho do grande mandato que me foi confiado e senti como o meu animo e a confiança em mim próprio desapareciam. Mas, consolação e energia voltaram novamente, quando me dirigi a Deus, ao Deus dos meus pais, e o invocava para que me concedesse energia suficiente, afim de poder cumprir todos os desejos do meu povo.

A mais bela homenagem recebeu o presidente Motta do Santo Padre Pio XI que lhe escreveu: Nós vemos de fato na obra à qual consagrou até agora sua dedicação, uma aliança tão feliz pelo zelo no serviço da pátria e da confissão legal e varonil de sua obediência à Igreja católica, que daí podemos derivar a certeza de que nunca essa confissão se acha em oposição ao zelo pela pátria, mas antes fortalece sua dedicação patriótica e ilumina sua finalidade.

É este o perfil de um estadista católico, que, na atualidade, chama sobre si a admiração de todas as nações. Eis uma prova brilhante de que um estadista pode ser ótimo católico e excelente presidente de uma república.

O outro político notável é o deputado do parlamento Húngaro Dr. Júlio Petronas, um dos diretores do Partido Cristão Unido. Num memorável discurso proferido no parlamento, disse: O princípio fundamental da concepção do mundo para a Hungria só pode ser a que o cristianismo ensina. Deve-se declarar, com toda a energia, que a Hungria não pode ter nenhum pensamento comum com aqueles que pretendem destruir o cristianismo.

E nesta repulsa não se deve fazer nenhuma distinção. É indiferente que o clero seja aniquilado, corporalmente, pela Terceira Internacional, ou, moralmente, pelo Terceiro Reich. É, também, indiferente que escritos difamatórios apareçam em língua alemã, russa ou espanhola. São os mesmos inimigos da Igreja. Aqueles que pretendem substituir as verdades vinte vezes seculares por ídolos de castidades, não merecem séria atenção. Mas, uma coisa é certa: quem se precipita com a cabeça contra o rochedo de Cristo, é esmigalhado. Este discurso do deputado cristão foi extraordinariamente aplaudido.

Pio X ofereceu aos homens a chave para solucionar os problemas sociais e políticos que atormentam as nações: instaurare omnia in Christo, instaurar tudo em Cristo, esta em à sua missão! Restaurando tudo em Cristo, quando se observarem os preceitos divinos e os ensinamentos da Igreja em todos os departamentos da vida particular e pública, então o operário e os patrões, o pobre e rico, o nobre e o plebeu, o homem de ciência e iletrado, a família e o indivíduo, os governos, as leis, a sociedade, enfim, com todos os seus componentes, serão o que Deus quer que sejam. E, portanto, o trabalho do sociólogo, do político, do homem de governo, do legislador, quando estiver em consonância com o sagrado lema de restaurar tudo em Cristo, se tornará frutífero, benfazejo e eminentemente social.

E se alguém nos objetasse que a Igreja não se fundou par a indicar orientações nos domínios temporais, responderíamos que nestas esferas existem questões altamente ligadas com a religião e a moral, muito mais do que parece à primeira vista. Portanto, quem poderá negar à Igreja o direito do orientar os fiéis nos assuntos que se revestem de caráter de foro misto, por assim dizer?

Nos tempos atuais em que os interesses supremos das nações estão em jogo; em que predominam os sentimentos de ódio e de vingança; em que se prepara o aniquilamento dos povos; em que os indivíduos e as potencias parecem arrastar o mundo para o abismo da destruição: só a Igreja como atalaia universal poderá dirigir a humanidade.

E se os expoentes, os diretores e representantes da nação brasileira quiserem salvar os maiores interesses da nossa pátria, devem forçosamente processar suas atividades públicas e desempenhar suas funções de acordo com os preceitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. É esse um imperativo da atualidade.

CAPÍTULO XXIV

A invocação de Maria Santíssima

Nas difíceis conjunturas atuais, deveriam todos os católicos brasileiros dirigir-se à Maria Santíssima e orar. À proteção recorremos, santa Mãe de Deus, não rejeiteis nossos rogos, em as nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.

O Brasil está consagrado de modo especial à Marai Santíssima. Pedro Álvares Cabral, chegando a Porto Seguro, conduziu a bordo de sua caravela a imagem de Nossa Senhora da Esperança. O Padre Anchieta ensaiou nas areias brancas de São Vicente, os primeiros versos do seu poema dedicado à Virgem Imaculada. Os primeiros missionários proclamaram as glórias da Santíssima Virgem pelas selvas inóspitas e campinas verdejantes da Terra de Santa Cruz.

Dom Pedro I, depois do grito do Ypiranga, escolheu a Maria Santíssima por decreto imperial e sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição para a padroeira oficial do Brasil. O bem-aventurado Roque Gonzáles, primeiro missionário e mártir do Rio Grande do Sul, levava consigo, nas suas excursões apostólicos, a imagem de Nossa Senhora Conquistadora, recorrendo à Mãe de Deus para converter os índios. Nossa Senhora da Conceição Aparecida, cuja imagem se venera no Estado de São Paulo, é a gloriosa padroeira do Brasil.

Além dos motivos especiais, temos outros títulos para invocar Nossa Senhora e confiar na sua proteção. Todos quantos creem em Jesus Cristo, confessam no símbolo dos apóstolos que ele nasceu de Maria Vigem. Maria é Mãe de Jesus Cristo e também nossa Mãe. De fato, Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho divino encarnado, a segunda pessoa da Santíssima Trindade e, portanto, verdadeiro Deus e perfeito homem. Gerado pelo Pai eterno segundo a divindade antes de todos os tempos, e na sua plenitude nasceu segundo a humanidade da Virgem Maria.

Em Jesus Cristo há uma pessoa e duas naturezas, a divina e a humana, não duas pessoas, pois a pessoa divina, conservando sua natureza, assumiu a natureza humana. O eterno Pai quis que, seu próprio Filho, gerado de sua substancia e igual a ele, se encarnasse na Virgem Santíssima para que ele fosse, realmente, um e o mesmo Filho de Deus Pai e da Virgem. Por isso, Maria Santíssima é real e verdadeiramente Mãe de Deus. Este fato é a fonte de grandeza, de sua glória é do seu poder espiritual.

Como em Jesus Cristo todas as perfeições e glórias da sua humanidade provém de sua unidade pessoal com o Verbo e por esta são reclamadas; assim todas as graças, privilégios e prerrogativas de Maria são-lhe concedidas por motivo de sua união com o Filho divino, em consequência de sua dignidade materna. Por virtude do Filho, cuja Mãe excelsa ela é, e por ser aquele infinito, é imenso o seu valor e inefável seu mérito.

Daí se pode a aliar a extensão de sua glória e de suas distinções, sua elevada posição, superior a todas as criaturas. Os querubins são apenas filhos adotivos de Deus, Maria é, porém, a Mãe de Deus. Por isto sua história é inseparável da história do Senhor. Quem nega a Jesus Cristo, nega a Virgem Santíssima, e quem a ela despreza, a ele despreza. Resulta daqui que a importância e posição de Maria Santíssima na Igreja derivam-se, naturalmente, do lugar que ocupa Nosso Senhor.

Conseguintemente, todas as definições criptológicas são mais ou menos ligadas com as ideias marianas, e todas as esperanças messiânicas são acompanhadas, simultaneamente, de esperanças na Mãe de Deus. Desde a eternidade escolheu Deus aquela que havia de ser a progenitora de seu Filho. Criou-a no tempo e adornou-a de todas as perfeições que lhe eram adequadas. Por isso, canta a Igreja no hino solene do Te Deum: tu ad liberandum suscepiturus hominen, non horruisti Virginis uterum: vós, para remir o homem, havendo de tomar sua carne, não duvidastes toma-la no seio da Virgem.

Como à primeira Eva fora concedida a graça da santidade original e da justiça, assim Deus, em grau muito mais elevado, outorgou estas prerrogativas à Maria Santíssima. Santificados foram os profetas que receberam a inspiração do Senhor. Santificado foi São João Batista, antes de nascer, o último e máximo profeta, porque não somente anunciou o Messias que havia de vir, mas até o apontou, quando já estava presente. Maria, porém, foi maior que todos eles, visto que foi a Mãe do Senhor.

Ela foi o santuário da inocência inacessível ao pecado, o paraíso virginal, donde devia surgir o novo Adão, Jesus Cristo. Ela era pura, santa, imaculada, lírio entre os espinhos, consagrada à Deus antes de nascer. Pois, em previsão dos futuros merecimentos de Jesus Cristo, sua alma foi isenta da culpa original e revestida dos fulgores da graça santificante desde a sua conceição. Nenhum instante ela esteve na sujeição do pecado, por isso que era Mãe daquele que na cruz havia de destruir o poder de satanás, a serpente infernal, cuja cabeça ela por meio da pessoa de seu Filho esmigalhou.

Resplandecente de luz ante os olhos do Pai eterno, que a escolheu desde a eternidade, irradiando formosura sobrenatural, o Espírito Santo a recebeu por esposa, foi ela marcada com o selo da perseverança, cooperando assim com plena liberdade para toda a superabundância de graças que Deus lhe dispensou. E se o Criador baixou do céu à terra na humilhação da criatura, porque não subiria ela da terra ao céu, a primeira e mais insigne de todas as criaturas, a Mãe, que lhe dera a humanidade? Certamente! Pois, ela foi levada em corpo e alma ao céu em triunfo, no meio das aclamações dos santos e dos anjos. O fim é correspondente ao princípio, e a coroação como rainha de todos os santos é consequência da plenitude da graça na sua conceição.

O maravilhoso começo da sua vida não nos assombra, já que tudo é milagroso na existência de Maria: a sua dignidade maternal, a sua virgindade, o nascimento do seu Divino Filho, concebido por graça do Espirito Santo e dado ao mundo no mesmo estado e integridade perfeita e intacta. São Sofronio, comparando Nossa Senhora com os diversos coros dos espíritos celestes diz com razão: Tu ultrapassaste o brilho dos arcanjos; ficam abaixo de ti os tronos, é superior aos domínios e principados, és mais forte do que as potestades, mais pura do que as virtudes, assentaste acima dos querubins e antecedes aos serafins.

Maria é a suma sacerdotisa, sagrada pelo Espirito Santo, na qual se vê encimada a coroa sacerdotal da antiga aliança. Foi ela que trouxe em seus braços o divino Cordeiro do sacrifício, depondo-o no altar neste dia espantoso, singular e memorável de reconciliação no monte Calvário. Ela é a Mãe e a rainha da nova aliança porque essa missão lhe confiou seu divino Filho na hora extrema.

Ela é a Mãe do chefe supremo da Igreja e Mãe, portanto de todos os seus componentes, refúgio estabelecido por Deus para todos os pecadores, nova Eva, Mãe da Vida e dos vivos. O sangue que Jesus Cristo na cruz derramou do seu lado, atravessado pela lança, firmou a nova aliança e nos alimenta no Santíssimo Sacramento. E esse sangue e esse corpo atravessados foram tomados de Maria. Por isso, diz Santo Agostinho: A carne de Cristo é a carne da Virgem.

Seu poder benfazejo, que se estende ao mundo inteiro, deriva-se de sua maternidade divina. Esta é, efetivamente, o princípio e a razão de todas as graças que recebeu, de todos os merecimentos que adquiriu. Por havê-la Deus escolhida, afim de cooperar para o tesouro de graças que seu Filho mereceu aos homens, lhe confiou a missão de distribuir entre os homens todas as riquezas. Como ninguém contribuiu mais que Maria para aquisição tão maravilhosa e grande, é lógico que ninguém tenha outrossim em tão alto grau como Maria, o poder de dispensar os benefícios celestes aos indivíduos e às sociedades.

Ao menos é certo e incontestável que não há nenhuma graça que não possamos obter por ela, que por seu intermédio as almas recebem as graças mais preciosas e abundantes. Não devemos admirar-nos que Maria possua este poder, tratando-se da Igreja que é o corpo místico de Jesus Cristo, quando ela teve sobre o mesmo Salvador, na sua santa humanidade toda a autoridade de uma Mãe solícita. Por isso, Maria é toda poderosa nas suas suplicas, pois, é por seu intermédio que recebemos todos os bens. Depois de Jesus Cristo, Maria é nas mãos do Divino Espirito Santo, o principal instrumento da distribuição das graças celestes.

Portanto torna-se claro o direito que tem Maria ao título de Medianeira que os fiéis lhe dão por um sentimento de gratidão. É verdade que o Filho divino encarnado é o único medianeiro, pois por ele a humanidade entrou no santuário da divindade e a divindade baixou até tomar habitação no homem. Mas este milagre da encarnação cumpriu-se tão somente de um lado pela ação do Espirito Santo, e de outro pela cooperação de Maria.

Deste modo, ela está na imediata e íntima proximidade de Deus, exaltada sobre todos os santos e a sua participação na obra da redenção é uma verdadeira mediação só exercida pela obra do Verbo Divino.

Como do primeiro "fiat", o fizesse onipotente de Deus, resultou a existência deste mundo visível; do segundo "fiat" pronunciado pela Virgem Santíssima, surgiu o mundo sobrenatural, a redenção. Porque a obra da encarnação, esperada no céu e na terra, já haviam milhares de amos, não se cumpriu, sem que Maria lhe desse o seu consentimento.

Enquanto habitarem sobre a terra o pecado, a miséria e a morte, ela aparece em auxilio dos necessitados. Enquanto existir sobre nossos altares a Sagrada Eucaristia, em que se acha, realmente, o seu Filho divino, não cessa a sua caridade maternal de bater ao coração do Redentor, para que derrame sobre os homens as graças do seu inexaurível tesouro.

Jesus Cristo, atendeu aos rogos de sua bem-aventurada Mãe, quando nas bodas de Cana lhe pediu desse vinho aos convivas, que lhe recusará Nosso Senhor, quando ela intercede por nós e invoca o seu santo Amor, que santifica com celeste balsamo, nossos corações e fortifica nossas almas? Deste então Maria Santíssima não tem cessado de proteger os homens. A missão que recebeu, em virtude de sua alta dignidade e de modo expresso pelo seu Filho na cruz, ela continuou a exercer, fielmente, através dos séculos do cristianismo.

Quem poderá enumerar os benefícios que Maria Santíssima alcançou aos homens em todas as emergências da vida. Lourdes, Zaragoza, Fatima, Aparecida falam uma linguagem eloquente em comprovação dessa verdade. Mas também, Nossa Senhora tem dispensando sempre seu auxílio em favor da vida pública e social. Bastava consultar as páginas da história eclesiástica e encontraríamos abundantes exemplos. De maneira que os católicos, animados de profundos sentimentos de fé e confiança, recitam, em todas as nações, a seguinte prece: Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que alguém daqueles que tem recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência e invocado o vosso socorro, fosse por vós desamparado.

É, portanto, não somente justo que veneremos, com um culto todo especial, a Santíssima Virgem, mas que igualmente, o Brasil recorra a ela nas dificuldades em que se debate e nos perigos que o ameaçam. Os particulares, as famílias, as associações religiosas e todos aqueles que desejam a paz social, o triunfo do bem sobre o mal, a felicidade e a glória do nosso país, deveriam implorar o auxílio e a proteção de Nossa Senhora e dizer: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, agora e na hora de nossa morte.

Maria Santíssima é a Mãe da formosa caridade e cujo por amor por nós só é excedido pelo amor que ela tem a Deus mesmo. Ela é a estrela da manhã, porque por ela raiou a aurora da vida da graça, que conduz a Cristo; é a estrela da tarde, quando o dia está no seu declinar e próximo a extinguir-se para ser substituído pela noite do infortúnio, da desgraça e pela eternidade. Ela resplandece como luz tranquila e salve da lua nas noites tenebrosas e frias desta vida terrena. Porém, recebeu essa luz e essa claridade daquele que é o sol da justiça.

O sumo poeta do catolicismo adorna a cúpula do seu cântico divino com a doutrina católica de Maria Mãe de Deus. Ó Virgem Mãe, que do teu Filho és filha, a maior, a mais humilde criatura, dos eternos conselhos maravilha. À humana raça desta formosura, tão sublime que até Deus infinito não desempenhou tomar nossa figura. Acendeu-se, me teu seio, amor bendito; junto ao eterno Pai, perene, ardente, brotou formosa flor, hiato inaudito. Tu és nossa guia permanente, para os tristes mortais nova esperança, caridade vivaz, pura, fulgente. Adorável Senhora, forte e mensal; sem ti, não pode, quem procura a graça para o alto, voar com segurança. Teu imenso amor não só transpassa a quem implora tua piedade, mas livre atende a qualquer desgraça. Tu és, doçura, amor, graça, bondade, glória, plena, sem mácula, sem sombra, de perfeições sem par e santidade.

O barco da nação brasileira atravessa um mar agitado e revolto. O firmamento se cobre de densas nuvens e no horizonte se esboçam tormentas. Lá no alto, porém, entre as nuvens negrejantes, fulgura uma estrela de intenso brilho, uma estrela cintilante que mostra ao piloto do barco periclitante a rota segura, o rumo certo que deve seguir. Essa estrela é Nossa Senhora, Maria Santíssima, a gloriosa padroeira do Brasil.

Levantemos a ela nossos corações e nossas preces, dizendo: Ave Maris Stella: Ave ó do mar estrela, de meu Deus, ó Mãe sagrada! Sempre pura e sempre Virgem e do céu feliz entrada. Mostra ó Virgem quanto és Mãe, recebendo as nossas preces, ao que por nós veio ao mundo, advogada as ofereces. Ave, Ave, Maris Stella!

CAPÍTULO XXV

Vinte e cinco anos de arquiepiscopado

Não será fora de propósito repetirmos a palavra do apóstolo São Paulo: "Pela graça de Deus sou aquilo que sou: gratia autem Dei sum id quod sum". Por isso, sem o menor vislumbre de vaidade ou de orgulho queremos referir-nos, em rápida síntese, aos vinte e cinco anos do nosso governo arquiepiscopal. Se durante este tempo realizamos alguns benefícios em favor da nobre e dileta grei a nós confiada, diremos ainda com o mencionado apóstolo: "E a sua graça, a graça de Deus, não tem sido estéril em mim, antes tenho trabalhado, todavia não eu, mas a graça de Deus comigo".

No dia 2 de agosto de 1912, ainda Bispo de Florianópolis, recebemos um telegrama de Roma, expedido pelo nosso saudoso e benemérito ministro junto à Santa Sé, Dr. Bruno Chaves, dizendo laconicamente: Santo Padre o promoveu à sede arquiepiscopal de Porto Alegre. Guardamos absoluto sigilo, supondo que talvez fosse um engano relativamente à nossa pessoa. Mas, uns dias depois chegou-nos do Senhor Núncio Apostólico, Monsenhor José Aversa, um documento oficial em que nos comunica a nossa nomeação assinada em primeiro de agosto de 1912.

Era do seguinte teor a comunicação do Senhor Núncio: Havendo Monsenhor Cláudio Gonçalves Ponce de Leão apresentado seu pedido de exoneração do cargo de arcebispo de Porto Alegre e tendo sido aceito, o Santo Padre se dignou de fazer recair a escolha do novo arcebispo daquela importante sede na pessoa de Vossa Excelência Reverendíssima, promovendo-o dessa desse episcopal de Florianópolis.

Ao congratular-me com Vossa Excelência por esta sua promoção que, disso estou seguro, contribuirá a dar maior incremento à fé e à ação católica na arquidiocese de Porto Alegre, valho-me do ensejo para reafirmar-me com sentimentos da mais distinta estima de Vossa Excelência Reverendíssima devotíssimo servo e amigo. (Assi.) José Arcebispo de Sardes, Núncio Apostólico.

É costume que a Santa Sé consulte os sacerdotes que ela pretende elevar ao episcopado, se estão dispostos a aceitar as responsabilidades e o ônus de serem bispos. Contudo, a nós não foi dirigida nenhuma consulta, nem quando fôramos escolhidos para Bispo de Florianópolis, nem quando fomos nomeado arcebispo de Porto Alegre. se, por um lado nos era grato voltar para o nosso amado Rio Grande do Sul, por outro hesitávamos em aceitar a nossa transferência em vista da magnitude da tarefa que julgamos superior às nossas forças.

Entretanto, recebemos a seguinte carta de sua eminencia reverendíssima o Senhor Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, datada de 11 de agosto de 1912: Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor. Esta carta vai levar-lhe minhas cordiais congratulações pela sua elevação à cadeira arquiepiscopal de Porto Alegre. Os trabalhos por Vossa Excelência Reverendíssima, iniciados e impulsionados, em Florianópolis, e levados a cabo, em tão pouco tempo, atraíram nossa atenção e nossa admiração para a pessoa de Vossa Excelência. E hoje é com a mais espontânea alegria que assistimos à sua promoção para aquela Sede Arquiepiscopal de Porto Alegre.

Comecei minha carta falando na primeira pessoa do singular, congratulando-me com Vossa Excelência; passei, em seguida, à primeira pessoa do plural para significar-lhe que sua apresentação para a cadeira arquiepiscopal de Porto Alegre, foi unanime! Todos nós, uma você, apontamos o seu nome! Sirva esta confidencia para a dar-lhe coragem e estímulo: digitus Dei est hic! A voz unanime de todos os Bispos é uma manifestação bem clara da vontade de Deus! Coragem, pois, e vá cultivar aquele bom povo, generoso e altivo, fadado para grandes coisas; no meio do qual já esteve Vossa Excelência, exercendo as funções de pastor. Ele saberá corresponder com generosidade aos seus sacrifícios e às suas dedicações de pastor e de pai. Com toda estima e a maior consideração de Vossa Excelência Reverendíssima Irmão mto. Ato, e vor. (Ass). J. Card. Arcoverde Cavalcanti, Arcebispo do Rio de Janeiro.

Igualmente, recebemos uma carta datada de 7 de agosto de 1912 de nosso venerando antecessor, o excelentíssimo e reverendíssimo senhor Dom Cláudio Ponce de Leão, o qual nos havia conferido todas as ordens, desde a tonsura clerical até ao episcopado inclusive. Esta carta nos dizia: A graça de Nosso Senhor Jesus nos assista sempre. Já devia ter agradecido o telegrama de Vossa Excelência de 24 de julho; mas nem sempre podemos satisfazer a nossos mais justos desejos.

Ontem chegaram a Porto Alegre diversos telegramas, trazendo-nos a boa notícia da escolha de Vossa Excelência para arcebispo de Porto Alegre, esta notícia tão desejada por todos e ainda mais pelo pobre velho. Muito se rezou no Rio Grande, e o Santíssimo Padre com seus auxiliares usam de toda a prudência na escolha dos bispos; acima de tudo e de todos o divino Espirito Santo exerce especial ação; portanto tenho plena confiança na boa escolha. Na verdade, o episcopado é uma cruz bem grande e bem pesada; todavia, como a cruz é o sinal característico dos eleitos de Deus, dou meus parabéns a Vossa Excelência.

Como primeiro Bispo de Florianópolis, já Vossa Excelência tinha dado ótimo andamento a essa nova diocese, já podia gozar de grandes consolações pelo tão feliz êxito de seus trabalhos, de seus sacrifícios, mesmo já tinha direito a algum descanso, porém Jesus Cristo lhe pede maior sacrifício, maiores trabalhos, lhe oferecem maior campo de ação.

Venha, pois, cheio de confiança no chamado do céu; venha corrigir meus erros. Considero todo o Rio Grande do Sul como excelente terra de cultura religiosa, possuindo ricos elementos para o bem; ainda mais, é muito sensível a ação benfazeja de Deus sobre este bom povo. Queira Vossa Excelência comunicar-me seus planos de viagem para Porto Alegre com toda a franqueza e lealdade. Estou velho e enfraquecido, muito preciso de descanso; devo, porém, dizer que desejo muito curto ou nenhum interregno, sempre prejudicial. Sempre às ordens de Vossa Excelência, como irmão amigo (ass). Cláudio José, Arcebispo.

Datada de 17 de agosto de 1912, recebemos esta outra carta do mesmo excelentíssimo e reverendíssimo senhor Dom Cláudio: Excelentíssimo Amigo e Senhor Arcebispo de Porto Alegre. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo nos assista sempre. Recebi ontem a carta de Vossa Excelência de 12 da corrente, da qual concluo, não haver sido Vossa Excelência consultado a respeito de sua transferência para o Arcebispado de Porto Alegre. Assim, é por ordem divina, é por vontade de Deus, que vem Vossa Excelência, para porto Alegre. Solidíssimo fundamento para poder Vossa Excelência contar com todos os auxílios espirituais e temporais para seu bom e feliz governo. Me pergunta Vossa Excelência o que deve fazer? Nós somos soldados de Jesus Cristo, e, portanto, disposto a obedecer e ainda de nosso entendimento. Aceite sua nova cruz; porque as maiores honras, as mais altas dignidades na Santa Igreja significam cruzes maiores, mais pesadas. Responda, portanto, ao Excelentíssimo Senhor Núncio que em espirito de obediência submete-se à ordem do Santo Padre (seguem algumas informações sobre a administração eclesiástica) Deus omnis gratiae, qui vocavit nos, modicum passos ipse perficiet, confimabit, solidabitque. Seu irmão, amigo e servo em J. C. (ass.) Cláudio José Arcebispo.

Feitos os nossos estudos preparatórios no colégio Nossa Senhora da Conceição em São Leopoldo, prestados os nossos exames na Escola Militar perante a Instrução Pública do Estado, em conformidade com o programa oficial exigido pelas escolas superiores ou academias daquele tempo, e terminados os cursos de teologia e filosofia no Seminário Episcopal de Porto Alegre, fomos ordenados sacerdote a 2 de agosto de 1896, tomando posse da paróquia do Menino Deus no dia 9 do mesmo mês e ano. Depois de termos exercido o cargo de pároco do Menino Deus durante doze anos, fomos nomeados bispo de Florianópolis em 3 de maio de 1908 e empossado no governo dessa nova diocese em 12 de outubro do mencionado ano.

Sujeitando-nos, pois, à vontade de Deus, manifestada claramente pelos nossos legítimos superiores eclesiásticos, aceitamos a nomeação de arcebispo de Porto Alegre, confiado no auxílio da providência divina e proteção de Nossa Senhora e de São José. Assim é que, partindo no dia 3 de dezembro de 1912 de Florianópolis, chegamos a esta capital no dia 6 do referido mês, festa de São Nicolau, bispo da Santa Igreja. Fomos recebidos paternalmente pelo nosso benemérito predecessor e com entusiasmo e alegria pelo clero e população católica desta cidade.

No dia 8 de dezembro de 1912, festa da Imaculada Conceição, saímos processionalmente, pelas 16 horas, da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, dirigindo-nos à antiga catedral, onde na presença do clero, das autoridades civis e militares mais conspícuas e compacta multidão de povo, o senhor Dom Cláudio José nos deu posse deste bispado, fazendo o discurso congratulatório o excelentíssimo e reverendíssimo Senhor Dom Francisco Campos Barreto, então Bispo de Pelotas.

Sentimos, desde logo, o peso da nossa investidura. Já em 1910 foram criados os novos bispados de Santa Maria, Pelotas e Uruguaiana, devido à iniciativa e alta compreensão apostólica do Senhor Arcebispo Dom Cláudio José. Mas, este fato, certamente auspicioso em si, exigia uma nova organização administrativa desta arquidiocese, da qual foram separadas as três mencionadas dioceses sufragâneas.

Um dos nossos primeiros passos foi a reforma do Seminário Episcopal, fundando o Seminário Provincial em São Leopoldo. Confiamos a sua direção à Companhia de Jesus, visto estar terminado o contrato feito pelo meu digno antecessor com os reverendíssimos Padres Capuchinhos e ser o edifício do antigo seminário episcopal pequeno para o projeto podem exprimir, dirá a seguinte carta pontifícia que o Santo Padre Pio X, no dia 8 de dezembro de 1913, nos dirigiu. Eis a tradução:

Ao Venerável Irmão João, Arcebispo de Porto Alegre no Brasil Pio X. Venerável Irmão. Saúde e Benção apostólica. Sendo a nossa máxima solicitude proporcionar ao Clero uma formação perfeita, que, como nenhum outro meio, conduz a restaurar tudo em Cristo, soubemos com singular prazer, por letras do Núncio Apostólico, que a criação do Seminário Central, assim chamado, da Província eclesiástica de Porto Alegre já é uma feliz realidade. Por este tão consolador acontecimento damos, como convém, ingentes graças a Deus, autor de todos os bens; mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de tributar um especial louvor a ti, Venerável Irmão, que, sob os auspiciosos do Nosso Nuncio e com o auxílio dos teus Bispos Sufraganeos, fizeste com prudência sazonar tão nobre e salutar empreendimento e zelosamente o realizaste. Naturalmente, se para efetuar essa obra não poucas nem leves dificuldades a ti se opuseram, outras não menores deverão ser vencidas para conserva-la. Mas, Nós confiamos na vossa comum virtude e constância já por Nós concebida, e que achará utilíssimo auxilio no desvelo dos Padres da Companhia de Jesus e na sua preclara prontidão para nos obedecer.

Quanto ao contrato, que celebraste com os mesmos religiosos, o aprovamos e ratificamos em todas as suas partes. Desde já não há motivo porque duvidemos dos ótimos frutos dessa tua instituição. E oxalá também os outros Bispos desse país, imitando o teu exemplo, procurem aparelhar nas demais províncias eclesiásticas do Brasil, um baluarte do mesmo gênero. Pois, de todos os votos que fazemos pela Igreja brasileira, é esse o supremo; e rogamos que o Deus benigno o ouça.

Entretanto, como penhor dos dons divinos e prova de Nossa benevolência damos carinhosamente a benção apostólica a ti, Venerável Irmãos, aos teus Veneráveis Sufragâneos, ao vosso Clero e ao povo.

Dado em Roma, em São Pedro, no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria, do ano de 1913, undécimo do Nosso Pontificado. (ass). Pio P. P. X.

Em 18 de maio de 1913, festa da Santíssima Trindade recebemos o Sacro Pálio na igreja catedral e, aproveitando a presença dos nossos prezados e distintos bispos sufragâneos, inauguramos no dia 20 de maio de 1913, o Seminário Provincial ou Central. No dia seguinte, depois de termos regressado a esta capital, adoecemos a uma grave enfermidade nos prendeu ao leito durante um mês inteiro.

No fim da bula de nossa nomeação, diz o Santo Padre Pio X: Temos firme esperança e confiança que, assistindo-te propícia e destra do Senhor, a mencionada Igreja de Porto Alegre no Brasil, será com utilidade governada por teu zelo pastoral e por tua diligencia fecunda e terá próspero desenvolvimento no espiritual e no temporal.

Os vinte e cinco anos passados são testemunhas da nossa atividade episcopal e podem atestar, se realizamos ou não as justas esperanças do Sumo Pontífice.

Já em 1914 rompeu a guerra europeia, na qual também foi envolvida a nossa Pátria. Nesta conjuntura delicada, fizemos o máximo empenho no sentido de manter a concórdia entre os nossos diocesanos, protegendo-as contra arbitrariedades e injustiças, procurando sempre prestigiar o governo federal e todas as autoridades o Estado e prestar-lhes todo o apoio e auxilio na execução dos seus avisos e ordens. Temos documentos que elogiam nossa conduta.

Passou a guerra mundial. Quando celebramos o nosso jubileu sacerdotal de prata, em 2 de agosto de 1921, recebemos um testemunho inequívoco da bondade do Papa Bento XV:

Ao venerável irmão João, Arcebispo de Porto Alegre no Brasil. Porto Alegre. Bento Papa XV. Venerável Irmão. Saudação e Benção apostólica. Solenes manifestações, conforme ouvimos de amor filial e de regozijo te serão apresentadas, em breve, pelo teu clero e povo, quando venturosamente passar o vigésimo quinto aniversário, desde que pela primeira vez, ofereceste a Deus o Santo Sacrifício. Não pouco, em verdade, te devem alentar estas afeições dos filhos, porquanto é o fruto belíssimo do teu zelo pastoral. Nós, para acréscimo deste regozijo, não queremos omitir o que temos por certo principalmente ser em teus votos, a saber que participe de algum modo o fausto, deste acontecimento o Vigário de Jesus Cristo. Por isso, além de congratular-nos, de coração, contigo por haver a divina bondade tão favorecido as tuas virtudes, também em testemunho de benevolência, te ornamos, mandando te seja expedido Breve Apostólico, pelo qual te elegemos Arcebispo Assistente ao Sólio Pontifício. Entretanto, para que esta comemoração de teu sacerdócio seja mais augusta e ceda em bem das almas, com muito prazer, te concedemos que, findo o sagrado sacrifício, solenemente, em Nosso nome, abençoes aos presentes, propondo-lhes indulgencia plenárias das culpas, a lucrar nas condições estabelecidas.

E, ardentemente pedindo que, por largos anos, Deus te conserve incólume, cheio de celestes dádivas, como penhor auspicioso disso e de Nosso paterno amor, a ti, venerável irmão, e a todo o clero e povo confiado à tua vigilância, lançamos, com toda a ternura, a benção apostólica no Senhor.

Dado em Roma, junto à São Pedro, aos 16 dias do mês de maio de 1921, sétimo ano de Nosso Pontificado. (ass). Bento XV.

Esta nomeação inclui a dignidade de Prelado Doméstico de Sua Santidade e de Conde Romano.

Rebentou a revolução rio-grandense de 1923. Qual foi a nossa atuação naquele tempo de lutas, de ódios e vinganças? Mandamos fazer preces públicas, pregamos a paz e a concórdia fraterna. Empregamos todos os nossos esforços juto aos poderes públicos e as facções litigiosas, afim de se restabelecer a ordem pública, a harmonia social e a união da família rio-grandense. O movimento bélico talava as lavouras e ensanguentava as coxilhas do Estado gaúcho.

Celebrou-se a paz em dezembro de 1923. Inequívocas e expressivas foram então as manifestações de apreço e as congratulações que recebemos. A Assembleia de Representantes deste Estado veio incorporada a visitar-nos. A Representação rio-grandense no Congresso Federal enviou-nos expressivo telegrama. Igualmente, os chefes revolucionários nos cumprimentaram, elogiando a nossa ação pacificadora. A imprensa desta capital e de fora reconheceu nossa cooperação em favor da pacificação tão desejada. Muitíssimos telegramas e cartas de bispos, senadores, ministros de Estado e de todas as categorias sociais nos chegaram de todos os pontos do país.

Dessas manifestações só queremos salientar as duas seguintes:

Rio, Palácio d Catete 31. Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom João Becker, Arcebispo de Porto Alegre. Muito me penhoram as expressões generosas no telegrama de Vossa Excelência Reverendíssima relativas à pacificação do Rio Grande do Sul. Reconheço com satisfação a valiosa cooperação que o eminente amigo prestou ao governo neste episódio e retribuo de pleno coração as congratulações ditadas pelo elevado patriotismo de Vossa Excelência Reverendíssima Cordiais saudações. (ass.). Artur Bernardes.

Rio Excelentíssimo Senhor Arcebispo de Porto Alegre. À Vossa Excelência, que cristã e patrioticamente tanto agiu em benefício da paz da grande família rio-grandense, apresento as felicitações do Senhor Cardeal Arcoverde, as minhas, as do clero e as do povo do Rio de Janeiro. (ass.) Arcebispo Coadjutor. Como se vê, o primeiro telegrama foi do Senhor Presidente da República e o segundo do Senhor Dom Sebastião Leme, hoje o grande cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro.

Sucederam-se novos anos e novos fatos. Quem não se lembra ainda das ocorrências sociais e políticas de 1930 e 1932? Nada diremos a respeito daqueles acontecimentos, porque a sua lembrança está ainda bem viva na memória de todos. Apenas com referência a 1930 citamos o telegrama de 7 de novembro do excelentíssimo Senhor Ministro da Justiça Doutor Osvaldo Aranha: É com grande alegria que transmito a Vossa Excelência os agradecimentos e os aplausos do povo brasileiro pela exemplar atitude Vossa Excelência com o clero rio-grandense assumiu na campanha da regeneração social (ass). Osvaldo Aranha. Nem fazemos referência ao momento histórico atual, no qual vivemos e cuja atmosfera respiramos.

É este o ambiente em que se processou a nossa atividade arquiepiscopal. Entretanto, com a graça de Deus, auxiliado pelo nosso amado clero e amparado na cooperação eficaz da distinta população da nossa arquidiocese, realizamos não poucas obras importantes, de caráter religioso e social.

Aí está a nova catedral metropolitana em construção, para aa qual o benemérito governo do Estado tem contribuído patriótica e valiosamente. Aí estão o novo Seminário em Gravataí, já quase terminado, as novas igrejas paroquiais e capelas desta capital, como também as numerosas igrejas e capelas construídas no interior desta arquidiocese e nas dioceses há pouco tempo dela separadas.

No princípio do nosso governo, havia nesta capital seis paróquias e dois curatos e agora temos vinte e duas paróquias. O número das paróquias criadas fora desta cidade é de quarenta e duas. Foram edificadas vinte e sete igrejas matrizes novas e dezessete reconstruídas. Foram construídas cerca de cinquenta casas canônicas e outras tantas escolas paroquiais. Por nossa iniciativa foram criados o bispado de Caxias e a Prelazia de Vacaria. Sagramos três bispos rio-grandenses e ordenamos 211 sacerdotes.

Durante nosso governo e com nosso apoio foram entregues vários ginásios oficiais à direção de religiosos e religiosas. Estabeleceram-se novas ordens e congregações religiosas, sendo três de homens e oito de senhoras, tendo as já existentes ampliado e intensificado sua ação benfazeja, e assumindo a direção de novos e velhos hospitais, asilos e creches. Escrevemos 27 pastorais e proferimos grande número de sermões, discursos e alocuções nas ocasiões mais diversas, e nem deixamos de publicar, em tempo oportuno, artigos na imprensa ou de falar pelo rádio.

Esta ligeira resenha tem apenas por fim demonstrar a nossa boa vontade no cumprimento dos nossos deveres, tendo procurado agir de acordo com nossa divisa: Pascam in Judicio: apascentarei com justiça. E é, por isso, que nós temos colocado todo o nosso esforço, atividade e diligencia, em instruir, santificar e reger o nosso rebanho, segundo as normas do direito, da justiça e da equidade, estabelecidas pela prudência e sabedoria seculares da santa igreja.

Outrossim, julgamos ter cumprido, na medida das nossas fracas forças, e de acordo com as circunstancias, a promessa que fizemos e em momento solene "Procuraremos colaborar com os poderes públicos constituídos, de maneira que as duas bandeiras, da Pátria republicana e da Igreja, possam marchar paralelamente, uma ao lado da outra, completando a ação que ambas devem realizar sem nunca se repelirem".

Em Setembro de 1933, por ocasião do primeiro Congresso Eucarístico Nacional na cidade do Salvador, na Bahia, e em presença do Senhor Cardeal Dom Sebastião Leme e de muitos outros prelados brasileiros, o Senhor Núncio Apostólico Monsenhor Bento Aloisi Masella, nos entregou uma carta autografa do Santo Padre Pio XI, felicitando-nos pelo nosso jubileu episcopal. É esta a tradução do documento pontifício.

Ao venerável Irmão João Becker, Arcebispo de Porto Alegre, no Brasil, Assistente ao Sólio Pontifício, Pio XI Papa. Venerável Irmão. Saudação e Benção apostólica. Chegou, ultimamente, aos nossos ouvidos a, realmente, grata notícia que tu, no próximo mês de setembro, hás de completar felizmente cinco lustros desde que recebeste a dignidade episcopal. Não queremos deixar passar este fausto desejo, sem que de coração que te felicitemos e tomemos parte no teu regozijo.

É que, Venerável Irmão, não ignoramos teres, durante esse tempo, adquirido, preclaras benemerências pela Igreja de Deus; e, principalmente, louvamos a atividade e o empenho que sempre, pregando e escrevendo, com diligencia puseste em fazer com que os preceitos da doutrina católica se tornassem cada vez mais conhecidos e tivessem aplicação prática nos costumes cristãos do povo.

Além disso, por tua inciativa e sob teus auspícios, foi fundado novo Seminário de clérigos, edificadas muitas igrejas e promovida a construção magnífica duma nova igreja catedral. Nem, para teu louvor, se deve deixar de mencionar que nunca omitiste de visitar, todos os quinquênios os termos de tua vasta arquidiocese.

Com razão, pois, congratulam-se contigo os bons fiéis e pela preclara gestão, de teu múnus pastoral e também o fazemos principalmente Nós, rogando a Deus que com abundancia te cumule de suas mercês e consolações celestiais e, por mui largo tempo, te conserve incólume para o bem da grei que te é confiada.

No, entretanto, seja penhor destes benefícios celestiais e prova de nossa peculiar benevolência a Benção Apostólica que a ti, Venerável Irmão, e a todo clero e povo entregue à tua vigilância, afetuosamente, no Senhor te concedemos.

Dado em Roma, junto a São Pedro, aos 7 dias do mês de agosto do ano 1933, 12º do nosso pontificado (ass.). Pio XI, Papa.

Estávamos, justamente, corrigindo as últimas provas desta pastoral, quando recebemos de sua eminencia reverendíssima o Senhor Cardeal Eugenio Pacelli, digníssimo Secretário de Estado de Sua Santidade o Papa, a seguinte carta, que, traduzida em vernáculo, com profunda gratidão publicamos:

Vaticano, 25 de maio de 1937. Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor, soube o Santo Padre por notícia daí recebia, que o clero e o povo, ao qual ministras o alimento da verdade e da virtude, celebrarão, com grande alegria, os cinco lustros, que em breve se completarão, desde que assumiste o governo dessa Arquidiocese.

O Sumo Pontífice, que já externou inequivocamente em outras ocasiões, à sua benevolência para contigo, com efusão da alma, de novo e manifesta e torna pública.

De envolta, porém, com estas felicitações, que te expressa pelos bons trabalhos realizados, acrescente augúrios e votos, que de coração envia, almejando ulteriores e mais brilhantes sucessos.

Não ignora o Supremo Antístite da Igreja os muitos meritórios adquiridos no governo vigilante e prudente que por tão longos anos exerceste, de maneira tal que contas com o apoio e a dedicação unanime de todas as classes sociais para levar a bom termo as preclaras inciativas.

Entre estas, cumpre ressaltar as obras que presentemente te preocupam; a igreja catedral que para as gerações vindouras valerá por um monumento insigne de religião e de piedade, constituindo um valioso aumento do esplendor e da formosura dessa cidade; o novo Seminário Menor, que em seu vasto e adequado recinto abrigará jovens escolhidos, sob os auspícios celestes, por tua solicitude atenta e carinhosa para exercerem as funções sagradas. Abençoe Deus benignamente os teus incansáveis trabalhos e permita que, com a tua grandeza de alma e excelência dos teus trabalhos, com brilho sempre maior, continues a merecer da causa católica e do progresso do teu rebanho.

Com estes votos, Sua Santidade, com carinhoso afeto, concede a Benção Apostólica a ti, ao clero e ao povo.

Acrescentando também os meus augúrios, com a devida consideração, me declaro De Vossa Excelência dedicadíssimo (ass). E. Card. Pacelli. Ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom João Becker, Arcebispo Porto-alegrense no Brasil, Porto Alegre.

Ao terminarmos esta nossa pastoral apresentamos nossos sinceros agradecimentos a todos que colaboraram conosco na realização das obras desta arquidiocese, durante os últimos 25 anos.

E pondo nossa confiança em Deus e no auxilio dos nossos arquidiocesanos, continuaremos nossa tarefa enquanto tivermos as forças, para isso, necessárias e o supremo Pastor da Igreja, Jesus Cristo, o permitir. Mas, de modo especial, levantamos nosso coração ao Deus onipotente, agradecendo-lhe os benefícios recebidos e suplicando-lhe a graça de sua assistência eficaz e constante para o futuro: "Te Deum laudamus, te Dominum confitemus: a vós, ó Deus, louvamos; a vós por Senhor confessamos.

Et benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.

Dada e passada nesta cidade de Porto Alegre a 1º de agosto de 1937, vigésimo quinto aniversário da nossa nomeação para Arcebispo de Porto Alegre.

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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