CRISTO E O MUNDO ATUAL

TRIGÉSIMA PRIMEIRA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1943)


Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.


CAPÍTULO I

Quem é Cristo

Devemos declarar que não pretendemos apresentar doutrinas novas nesta pastoral, mas queremos somente resumir e coordenar alguns ensinamentos, talvez já do conhecimento de muitos. Apenas nos atribuímos a nós as imperfeições e falhas ocorrentes. Não se deve considerar esta pastoral como trabalho didático, visto ter somente caráter doutrinário. Como sempre, reprovamos os erros, mas não condenamos os que erram. Nas doutrinas que expomos, seguimos as normas traçadas pela Santa Igreja, e atendemos, de modo especial, à orientação dada pelos Sumos Pontífices. Como entre eles avulta o glorioso Papa Pio XII pela atualidade dos seus ensinamentos, obedecemos, de modo especial, à sua palavra, tendo sempre presente o preceito do Concílio de Trento: A pregação do Evangelho é a principal obrigação dos Bispos: praecipuum Episcoporum munus.

No alto do Corcovado levanta-se majestosamente a estátua de Cristo, dominando a maravilhosa baía de Guanabara. Ela estende os seus braços em atitude de abençoar a entrada e a saída dos navios e proteger a grandiosa capital do Brasil. Se perguntássemos: A quem é que representa aquela imponente estátua? Claro está que a resposta seria: A Cristo. Porém, se ainda mais quiséssemos indagar: Quem é Cristo? A resposta não seria uniforme. A divergência de opiniões seria maior do que aquela que havia entre os discípulos quando o Salvador lhes perguntava: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem, e quem pensais vós quem sou eu? Hoje se usaria de uma linguagem modernizada. Alguns responderiam da seguinte maneira: Cristo é o meigo Nazareno, o maior filósofo dos tempos. Outros externariam conceitos errôneos, dizendo: Cristo foi um visionário, um homem rebelde, supliciado em vista dos seus delitos. Ainda outros teriam a criminosa audácia de atribuir-lhe falsidades infamantes para conspurcar sua origem divina e sua obra redentora, à semelhança dos doutrinadores do nazismo. Nós, porém, dizemos com S. Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo". A Igreja Católica afirma, prova e defende a divindade de Jesus Cristo e os seus legítimos ensinamentos. A repulsa da doutrina de Cristo e a apostasia latente ou pública do Salvador do mundo constituem a causa principal dos males que atormentam as nações.

A Igreja, mais de uma vez, declarou e definiu as verdades que se devem aceitar e crer. Em que consiste, pois, a nossa fé? No seguinte: "Creio em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor, que foi concebido por obra e graça do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem, padeceu debaixo do poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado". Eis a fórmula mais breve da fé cristã. Nestas poucas palavras, disse S. Leão, estão aniquilados todos os artifícios da heresia. O mistério da Encarnação é desenvolvido com maior amplidão na confissão de Santo Atanásio: "Para a salvação eterna é mister crer na Encarnação de Jesus Cristo, Nosso Senhor; a verdadeira fé consiste em crer e confessar que nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e Homem ao mesmo tempo." "Como Deus, é gerado antes de todos os tempos da substância do Pai, como homem, nasceu da substância de sua Mãe no tempo, Deus perfeito, homem perfeito, constante de alma racional e de corpo humano. Conforme a divindade é igual ao Pai, consoante a humanidade é inferior ao Pai. Sem embargo de ser Deus e Homem, não são duas pessoas, mas um só Cristo." "É um só não pela evolução da divindade na carne, mas pela assunção da humanidade em Deus; é um, não pela confusão das substâncias, mas pela unidade da Pessoa. Assim como a alma racional e o corpo formam o homem, assim Deus e o Homem formam um só Cristo, que padeceu pela nossa salvação, desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia de entre os mortos, subiu ao céu, onde está sentado à mão direita de Deus Padre Todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos".

Os Padres do Concílio de Calcedônia declararam: "Em acordo com os Santos Padres confessamos e ensinamos que há só um Jesus Cristo e Senhor, perfeito na divindade e na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constante de alma racional e corpo humano, segundo a divindade igual substancialmente ao Pai, segundo a humanidade igual substancialmente a nós, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado; gerado do Pai antes de todos os tempos como Deus, nascido na plenitude dos tempos, por amor de nós e por causa da salvação da humanidade, da Virgem Maria, Mãe de Deus; um só e o mesmo Cristo, Filho Unigênito de Deus e Senhor, reunindo em si as duas naturezas, mas sem que haja confusão, evolução, divisão ou separação, mantendo-se pelo inverso as distinções das mesmas naturezas, que conservam as suas propriedades, e se acham juntas na mesma pessoa, que é a de Jesus Cristo Unigênito de Deus, Verbo, propriamente Deus, como nos predisseram os profetas e ensinou Jesus Cristo mesmo, e os Padres nos transmitiram nas suas expressas confissões de fé." Neste dogma fundamental da encarnação do Filho de Deus há três elementos essenciais da fé: Jesus Cristo é Deus verdadeiro; é homem verdadeiro; e a divindade e a humanidade estão unidas em Jesus Cristo pela unidade de Pessoa. Desde o princípio em que a Igreja confessou aberta e francamente a divindade de Jesus Cristo, em oposição aos ebionitas e às seitas gnósticas e arianas, as confissões são cada vez mais claras e insofismáveis com referência à sua humanidade, à medida que surgiam as opiniões contrárias e se estendiam as doutrinas errôneas.

Da doutrina exposta resulta que o corpo de Jesus Cristo foi realmente um corpo, passível, consubstancial ao nosso, não mera aparência, como admitiam os docetas e os fantásticos, sem diferença do nosso corpo, carne da nossa carne, sujeito à morte, donde provém que real e efetivamente era Filho do Homem, nosso irmão. Cristo tinha uma alma racional e o Verbo, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não ocupou o lugar dela como afirmou o herético Apolinário. A humanidade de Cristo era perfeita, impecável, santa, sobremaneira agradável a Deus Padre, a sua vontade foi em tudo humana, livre, insuscetível de pecar pela sua união hipostática à substância divina. As duas substâncias, a divina e a humana, reuniram-se no Cristo e sem embargo é só uma Pessoa, convindo-lhe ambas as naturezas. A relação existente entre as duas naturezas em Cristo e o modo de sua união, de princípios tão opostos, a divindade e a humanidade, foram definidos, de maneira precisa, pelos concílios de Éfeso e de Calcedônia. Assim como o mistério da Santíssima Trindade se fixou na fórmula: Três pessoas substanciais, também a definição: Duas naturezas em uma só Pessoa estabeleceu o conteúdo essencial do mistério da cristologia. Do dogma de unidade de Pessoa e da distinção das naturezas em Jesus Cristo dimanam as seguintes consequências: Já que as naturezas divina e humana estão unidas no Cristo em uma só Pessoa, existe em concreto o conjunto das faculdades respectivas; é, pois, recíproco o que pode afirmar-se de ambas as naturezas, porque se trata de uma só Pessoa que é o sujeito de ambas.

Devemos adorar o Homem-Deus, porque sua humanidade só existe no Verbo, o Filho Divino, e não pode separar-se da sua divindade. A obra de Cristo tem um valor infinito, por ser infinito o valor de sua Pessoa, de modo que ele, como observa S. Cirilo, se avantaja a todos os outros seres por uma dignidade infinita. Em consequência da unidade de Pessoa, Cristo, Deus e Homem, não só foi sem pecado, mas além disto era impecável, o que é o ideal da santidade. Daqui resulta que da natureza humana que adotou, excluiu não só o pecado de origem que contamina a todos quantos nascem de modo natural, mas também o pecado atual e a possibilidade de pecar, bem como a concupiscência desordenada. Deus eminentemente santo não pode unir-se com um ser contaminado do pecado, porque o pecado da natureza humana tornar-se-ia o pecado da Pessoa divina. Pela sua adesão pessoal, a humanidade de Cristo foi compenetrada pela divindade. Vivia em beatífica contemplação, e só podia ser instrumento de santificação. Todavia a impossibilidade do pecado não excluía a liberdade da vontade; ao contrário, Jesus Cristo tomou sobre si o peso dos pecados do gênero humano, sofreu e morreu por todos, porque assim o quis. Por isso, tornou-se um modelo para nós e devemos esforçar-nos para imitar o seu exemplo, embora não possamos consegui-lo perfeitamente.

Maria Santíssima, a Mãe de Deus, pode chamar-se, com razão, partenomáter, pois é Mãe e Virgem simultaneamente. Jesus Cristo não nasceu da vontade da carne nem do homem, porque o resultado de um semelhante parto seria contaminado pela geral pecabilidade inerente à raça humana. Contudo, sendo concebido por obra e graça do Espírito Santo, nasceu de Maria sempre Virgem, para que, tendo nascido de uma mulher, participasse da nossa espécie e o seu nascimento fosse realmente humano. O seu nascimento de uma Virgem é o escudo contra todos os erros ebionitas e docetas. Pelos méritos do seu divino Filho foi Maria isenta de todo o pecado e ainda do original. Cristo é o Filho Unigênito de Deus feito Homem. Ele é o Rei na vida da Igreja. O sol não se põe nesse reino imenso e as correntes do paraíso levam suas ondas para todos os continentes da terra. É o Rei da vida civil e pública. A profissão de fé em Cristo e seus ensinamentos, é a proclamação de obediência às legítimas autoridades. Cristo ainda é também o Rei na vida internacional, porque ele tem na realidade o domínio supremo sobre os povos, e a repulsa dos seus preceitos abala a prosperidade das nações. Cristo é ainda o Juiz Supremo dos indivíduos e das coletividades humanas.

Quando Napoleão Bonaparte se achava no desterro, recordava a sua vida passada e dizia: A minha presença animava os meus soldados e minha voz os eletrizava e arrastava aos combates. Agora eu estou num cativeiro. Quem é que luta por mim? Quem ainda me ama verdadeiramente? Mas Cristo, apesar de sua morte na cruz e já passados tantos séculos, ainda continua a ser amado e a dirigir a humanidade pelos seus preceitos e doutrina. E porquê? Ele é o Filho de Deus feito Homem e o Redentor do gênero humano. É esta a doutrina que nos ensina a estátua de Cristo no Corcovado.

CAPÍTULO II

O Filho de Deus

Os erros doutrinários uma vez formulados se repetem, embora mil vezes refutados. Esse fato se verifica com o dogma da divindade de Jesus Cristo.

Com efeito, os gnósticos, hereges do fim do primeiro século, negavam a divindade de Nosso Senhor, e nele viam somente um ser superior colocado entre Deus e o mundo. Já o Evangelista S. João de quem eram contemporâneos, refutou esses erros. Muito mais tarde, os racionalistas alemães rejuvenesceram essa velharia. Ernesto Renan não fez outra coisa do que imitar os racionalistas germânicos. Alfred Rosenberg, o doutrinador oficial do nazismo, no seu "Mito do século XX", compêndio dos maiores erros, falsidades e ataques contra o cristianismo, inclui também o erro dogmático contra a divindade de Jesus Cristo. A doutrina do nazismo é anticristã e anticatólica. Quanto ao apóstata Ernesto Renan é bom lembrar-nos que o seu neto pelo lado materno, Ernesto Psichari, educado fora de toda a religião, se converteu mais tarde levando uma vida muito edificante. Em 22 de Agosto de 1914 morreu santamente como tenente do exército belga, tendo nas mãos o rosário.

O termo Filho de Deus, embora aplicado às vezes aos anjos e aos homens em sentido figurado ou lato, somente a Jesus Cristo é dado no sentido estrito de filiação propriamente dita, por que por si mesma importa a comunidade de natureza entre o pai e o filho. Filho de Deus é o nome especial que convém a Cristo em particular, é o nome que o distingue dos anjos e dos homens. É o seu nome habitual e ordinário; é o nome que lhe foi dado por Deus, seu Pai, no momento do batismo e da transfiguração; por S. João, seu precursor, falando sob a inspiração de Deus, é o nome que ele mesmo para si reivindica. Jamais foi chamado: um Filho de Deus, mas sempre: o Filho de Deus, com o artigo definido. Mais ainda: Deus é o Pai dele pura e simplesmente como Filho. Alguns dias antes de sua morte, Jesus declara aos seus discípulos que a época do juízo universal não é conhecida nem dos homens, nem dos anjos, nem do Filho, mas somente do Pai, separando-se assim claramente de todos os anjos, de todos os homens, e isto porque somente ele é o Filho, sendo Deus o Pai. Na parábola da vinha e dos vinhateiros, o senhor da vinha envia os servos, uns após outros, reclamar o produto da vindima; todos são insultados e espancados e alguns postos à morte. Tinha um filho, seu herdeiro, que envia afinal: os vinhateiros o matam para se apossarem da herança. O contexto mostra claramente que a vinha representa o povo de Israel; Deus é o Senhor, os servos são os profetas e o filho único, o herdeiro, é o próprio Jesus Cristo. Nesta parábola Nosso Senhor declara, portanto, que os profetas são os servos de Deus e reclama exclusivamente para si a qualidade de Filho e herdeiro.

Jesus Cristo é Filho de Deus no sentido próprio, porque possui a mesma natureza divina que o Pai, ao passo que os anjos e os homens são denominados filhos de Deus em sentido figurado, por qualquer semelhança com a filiação propriamente dita e suas consequências, e quando muito, por uma filiação adotiva. Diz o Evangelista S. João: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória, como glória de Filho Unigênito do Pai". "Deus ninguém jamais o viu, só o Filho Único que está nele o fez conhecer". "Deus amou o mundo até aos extremos de lhe dar o seu Filho Único". "Testemunho brilhante do amor de Deus por nós! Dignou-se enviar-nos para este mundo seu Filho Único e por ele dar-nos a vida". A insistência de S. João em chamar Jesus o Filho Único de Deus bem mostra que entende esta locução no sentido perfeito, no sentido comum em que a empregamos para dizer que um homem não tem irmãos nem irmãs, realmente nascidos do mesmo pai e da mesma mãe; o pensamento do Evangelista é ensinar-nos que, além de sua filiação humana pelo seu nascimento de Maria, Cristo possui uma filiação divina por tal modo única e especial, que nenhum homem ou anjo a partilha com ele por título nenhum, de maneira nenhuma. Ora, esta filiação só pode ser por via de geração e por meio da comunicação da natureza divina. Porque se Cristo é Filho de Deus somente no sentido figurado, mesmo na qualidade de Messias, os anjos e os homens o são igualmente, ainda que num grau inferior; são seus irmãos propriamente ditos e ele já não é o Filho Único. Só uma ignorância crassa ou uma perversidade requintada pode negar a Cristo a qualidade de Filho de Deus. Declara S. Paulo: "Deus não poupou o seu próprio Filho; por nós todos o entregou à morte". Continua o mesmo Apóstolo: "Deus o instituiu herdeiro do universo. Por ele fez os séculos. Ele, o Filho, é o reflexo da glória do Pai, a reprodução da sua substância; sustenta o mundo pelo poder da sua palavra; apaga os pecados, está sentado no mais alto dos céus à direita da majestade divina". Portanto, segundo a doutrina do Apóstolo S. Paulo, Cristo é o Filho Único de Deus, objeto infinito do seu amor infinito. Ele o entregou por nós à morte e à morte ignominiosa de cruz, e nos deu a mais segura garantia de que nenhum socorro necessário à nossa salvação nos será recusado.

Cristo é igual a Deus pelo lugar que ocupa: está sentado à sua direita, igual pelo poder; criou o mundo, governa-o, perdoa as ofensas cometidas contra Deus; igual por natureza: nele estão reproduzidas a glória e as perfeições de Deus. Ora, Jesus possui esta igualdade com Deus, porque é seu herdeiro e é seu herdeiro por ser o seu Filho; Jesus é, portanto, igual a Deus em virtude da sua filiação, de uma filiação que estabelece igualdade de natureza entre o Pai e o Filho, e que não pode ser, portanto, senão a filiação estrita e propriamente dita. Cristo não é, por isso, de maneira nenhuma, conforme já foi exposto acima, Filho de Deus no mesmo sentido que os anjos e os outros homens e esta filiação não é uma consequência da sua qualidade de Messias, mas lhe convém porque é realmente gerado do Pai. Em ocasião solene S. Pedro disse a Jesus: Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo. Esta profissão de fé abrange dois artigos: Jesus é o Messias, e o Filho de Deus vivo ou do verdadeiro Deus. No pensamento do Apóstolo, as duas qualidades são distintas: Cristo e Filho de Deus não são termos sinônimos. Jesus não é Filho de Deus por uma consequência necessária da sua missão e do seu caráter messiânico. É Filho de Deus no sentido estrito e por geração propriamente dita: é Deus.

Antes de sua morte, o Salvador é interrogado por Caifás nestes termos: "Eu te conjuro por Deus vivo, que nos digas, se tu és o Cristo e Filho de Deus vivo?" E Jesus respondeu-lhe: "Tu o disseste: todavia eu vos digo, que um dia vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu". Então o príncipe dos sacerdotes rasgou os seus vestidos dizendo: "Blasfemou; que necessidade temos ainda de testemunhas? Eis aí ouvistes agora uma blasfêmia: que vos parece?" E eles respondendo, disseram: "É réu de morte!" Cena semelhante se reproduz, mais nítida ainda, no pretório de Pilatos, procurador romano. Os judeus acusam primeiramente o Salvador de se fazer passar por Messias e, por este título, sublevar o povo judaico contra a dominação romana. É um crime político; Pilatos examina a causa e declara a Jesus inocente. Mas, em seguida os judeus apresentam nova acusação: "Nos termos da nossa lei merece a morte, pois se declara Filho de Deus". Próximo à morte, no momento mais solene de sua vida, em presença do tribunal mais augusto do universo, oficialmente interrogado pelos representantes legítimos da autoridade civil e religiosa em Israel, nesta hora em que enganar seria um crime, Jesus afirma que é o Filho de Deus. Os seus juízes compreendem que, por isto, se declara igual a Deus, se faz Deus e perguntam-lhe se é este o seu pensamento. "Sim", responde o Salvador, e por causa desta resposta é condenado à morte. Algumas horas mais tarde, estes mesmos juízes fazem idêntica acusação no pretório do procurador romano. Jesus fez-se Deus. "É verdade", confirma o acusado, e por esta acusação a sentença é executada. Portanto, erram grosseiramente e blasfemam. Renan e os seus adeptos, o comunista Barbusse e os racionalistas, bem como o autor do infame "Mito do século XX".

É preciso ensinar ao povo a verdadeira doutrina acerca da divindade de Jesus Cristo. É necessário reprovar publicamente as afirmações audaciosas e falsas dos racionalistas e ímpios. Muitas vezes, foi essa crítica apanhada em flagrante delito de leviandade, de inconsequência e erro, e não tem o direito de ser acreditada. A sua grande força reside na falta de instrução religiosa. Hoje mais do que nunca, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo é a questão fundamental, a linha de demarcação entre o mundo crente e o mundo dos incrédulos. Por ser, de fato, Jesus Cristo Deus, sua divindade repele e refuta também a doutrina do espiritismo que nega essa qualidade a Cristo Nosso Senhor. Realmente, elevai Cristo à altura que quiserdes, pondo-lhe nas mãos o cetro do gênio, na fronte a auréola da santidade: se recusais elevá-lo no trono da divindade, lhe tirais a autoridade doutrinal, a soberania legislativa, o poder judiciário e coercitivo. Se Cristo não fosse Deus, o seu ensino dogmático e moral cada homem poderia contradizê-lo, do mesmo modo que os ensinamentos de um Sócrates ou de um Platão; as suas ordens poderíamos desprezá-las sem temer, por esse fato, nenhuma consequência triste e fatal. Pois, um simples homem como qualquer um, embora superior pela inteligência ou pela virtude, não tem o direito nem os meios de perscrutar a consciência humana, não lhe pertence pedir contas das nossas crenças nem da nossa conduta. Em presença das nossas culpas ele fica inerme e nada há a temer de um homem sepultado há vinte séculos na poeira do seu túmulo.

Mas desde que Jesus é Deus, como realmente é, tudo muda de figura. Quando ele fala, devemos crer; se manda, devemos obedecer. Deus não morre; logo Jesus está vivo. Deus vê as consciências; logo Jesus no último dia será o Juiz infalível dos vivos e dos mortos. Deus é o Senhor do tempo e da eternidade, das almas e da vida temporal e dos corpos: Jesus tem portanto o poder de ressuscitar os nossos corpos, de reuni-los às nossas almas e achando-os ambos culpados, de castigá-los ao mesmo tempo com suplícios eternos. Deus é fiel à sua palavra; declarou que puniria com a morte todos os rebeldes obstinados que resistissem até ao último instante às ameaças de sua cólera e às promessas do seu amor. Jesus manterá esta palavra. Eis as consequências do dogma da divindade de Jesus, consequências práticas, que penetram no mais vivo da alma e do coração, consequências que se apossam do homem total, desde a hora em que a sua consciência desperta à luz da razão até ao momento em que se extingue com a vida; consequências que não lhe permitem por um só instante negar o dogma nem violar a moral do Evangelho sem contrair uma dívida, que lhe seria preciso expiar pelo arrependimento e mudança de vida ou pagar com castigos sem fim. Por isso, os católicos dizem na sua profissão de fé: Creio em um só Jesus Cristo Senhor Nosso, Filho Unigênito de Deus e nascido do Pai antes de todos os séculos; Deus gerado não feito, da mesma substância com o Pai, e pelo qual foram feitas todas as coisas; o qual por nós outros homens e pela nossa salvação desceu dos céus; e encarnou por obra do Espírito Santo de Maria Virgem e foi feito homem; foi também crucificado por nós sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. E ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras; e subiu ao céu, onde está sentado à mão direita do Pai, donde há de vir, segunda vez, a julgar os vivos e os mortos.

CAPÍTULO III

Admiráveis predicados de Cristo

Todas as divinizações de que falamos em outro capítulo, são irreais e fantásticas, sem verdadeiro fundamento. Somente Jesus Cristo é Deus verdadeiro, o Filho de Deus feito homem.

De fato, perguntai à humanidade: a quem é que prestou sempre e continua a prestar ainda a homenagem recusada ou indevidamente atribuída aos seus heróis e aos seus grandes homens, a homenagem da inteligência pela fé em todas as suas palavras, embora inverossímeis à razão; a homenagem da vontade pela submissão livre e espontânea às suas ordens e desejos; a homenagem sobretudo do coração pelo sacrifício amado, procurado, abraçado com alegria, da fortuna, dos interesses, do prazer e da própria vida; homenagem da pobreza, homenagem da castidade, homenagem do martírio? A resposta é: Jesus Cristo! Jesus Cristo e só ele é verdadeiramente Rei, Rei de uma realeza que abrange o universo. Deus diante do qual genufletem os homens e os anjos. Diante de sua majestade desaparecem as caricaturas ridículas de um Nero, de um Calígula, e de figuras semelhantes que reclamam honras divinas. Sem embargo, também hoje se pode repetir à grande parte dos homens do nosso tempo as palavras que S. João dirigiu aos judeus: está no meio de vós e não o conheceis; opera, fala, vive, e vós não o vedes nem ouvis; ou se o vedes ou ouvis, não o compreendeis. Jesus Cristo, hoje, ontem e para sempre. A grandeza de Cristo o Evangelista S. João no-la ensina: "No princípio era o Verbo. E o Verbo era em Deus. E o Verbo era Deus. E todas as coisas foram feitas por ele. E nada do que foi feito, foi feito sem ele." É o primeiro grito da águia evangelista. Sua palavra brilha como o raio e deslumbra como o relâmpago. Envolvendo Jesus Cristo nos seus esplendores, o mostra para além do tempo, do espaço e de todas as criaturas. Diz-nos a sua origem, nome, habitação e obra. A sua origem: a eternidade. O seu nome: o Verbo. A sua habitação: o seio de Deus. A sua natureza: a divindade. A sua obra: o universo. Subi em pensamento até à origem das coisas, até aos inícios do gênero humano, quando Deus criou o primeiro homem, que não era; ele o Verbo era, erat. Remontai ao primeiro dia quando Deus fez o sol que não era; ele o Verbo era, erat. Continuai até ao primeiro instante, quando Deus lançou no espaço a matéria sem forma e sem vida, a matéria que não era; ele o Verbo era, erat. Ide até mais longe, até ao céu, quando Deus povoou o seu reino de milhões de anjos que não eram: o Verbo era, erat.

O vocábulo Verbo, Verbum, significa palavra. O Filho de Deus é pois o Verbo interior, a palavra interior de Deus, a ideia de Deus. Como a inteligência de Deus é infinita, necessariamente a sua palavra interior, a sua ideia, é infinita. Deus é anterior à sua ideia; mas simplesmente como o sol à sua luz, por prioridade de origem e não de tempo. Os raios vêm do sol, são produzidos por ele e por este motivo devemos primeiro conceber o sol e depois os seus raios. Mas o sol produz os seus raios desde que começa a existir; nem o sol existe antes dos seus raios, nem estes antes daquele. Por sua própria natureza, existem no mesmo tempo. É o que acontece com Deus e o seu Verbo ou Filho. É isto uma analogia. Pelo seu Verbo ou ideia, Deus se conhece inteira e perfeitamente a si mesmo. O seu Verbo ou ideia é pois a sua imagem, o seu retrato, de uma fidelidade completa. Nele se reflete com todo o esplendor a glória da majestade soberana. Nele se reproduz a natureza divina na plenitude do seu ser sem limites; nele se projetam com todo o brilho as perfeições infinitas. Que elevação, que profundeza, que imensidade nessas primeiras palavras do prólogo de S. João! A nossa razão fica como que aturdida, confundida. Deus é realmente o Pai do Verbo, por isso que o gera; e o Verbo é realmente o Filho de Deus, porque é gerado por ele. O Pai não é o Filho e nem o Filho o Pai. Ambos são duas pessoas divinas: o Pai é a primeira e o Filho é a segunda. O Pai é Deus e o Filho também é Deus, porque ambos possuem a natureza divina; mas o Pai e o Filho são um só e o mesmo Deus, visto que nos dois a natureza divina é identicamente a mesma. O Pai produz o Verbo por um ato imutável, eterno, indefectível, infinito; o Verbo é pois imutável, eterno, indefectível, infinito, como seu Pai. Luz de luz, Deus de Deus, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, imagem substancial de seu Pai, retrato de sua majestade, espelho sem mancha de sua bondade, esplendor da sua glória, raio da sua eterna caridade, vive em Deus Padre, subsiste em Deus, é produzido sempre e sempre gerado em Deus. Eu diz o Pai ao Filho, gerei-te hoje. O hoje de Deus é o passado, o presente e o futuro, o instante que abraça todos os momentos, a eternidade.

É esta resumidamente a doutrina da Igreja Católica sobre as duas primeiras pessoas da Santíssima Trindade. O Espírito Santo é a terceira Pessoa que procede do Pai e do Filho, possuindo a mesma natureza divina de ambos. Por isso, declara o sacerdote no Prefácio da missa da Santíssima Trindade: "Senhor Santo, Pai onipotente, Eterno Deus, que com o vosso Unigênito Filho e com o Espírito Santo, sois um só Senhor, não na singularidade de uma só Pessoa, mas na Trindade de uma só substância. Pois, o que Vós nos revelastes, e o que acreditamos da vossa glória, cremos também sem diferença alguma, do vosso Filho, bem como do Espírito Santo. De sorte que, confessando uma verdadeira e sempiterna divindade, nós adoremos conjuntamente a propriedade nas pessoas, a unidade na essência, e a igualdade na majestade."

Ouvi o Filho de Deus, a eterna sabedoria e que fala de si mesmo: "Fui gerado antes das colinas, quando Deus ainda não tinha criado a terra, os rios e o globo. Quando formava os céus, era eu presente; quando com mão firme erguia a abobada do firmamento, suspendia as nuvens no ar, abria as nascentes das águas, traçava os contornos dos oceanos, impunha às suas ondas limites insuperáveis, colocava a terra nos seus fundamentos; eu lhe assistia, pondo em toda a parte a ordem e a harmonia. Todos os dias sem cessar sob o seu olhar eu deleitava-me e comprazia-me no universo". O universo inteiro é obra do Verbo. Na criação o grau mais elevado do ser é a vida; e a perfeição da vida é a vida da inteligência. A vida, fenômeno misterioso! O sábio pode analisá-la e decompô-la, mas não vai além. Pode tirá-la mas não restituí-la. A vida é o segredo de Deus. Crescer, produzir folhas, flores e frutos, eis o que nas plantas chamamos vida. Como ela é bela e graciosa no desabrochar radiante da primavera e no declinar fecundo do outono! Ver, sentir, ouvir, gostar, ir e vir sob o impulso dos objetos externos, eis o que nos animais se chama vida. Quantas maravilhas nos oferecem o seu organismo e o seu funcionamento! Compreender, querer, amar, conhecer e compreender a si mesmo, abranger todo o universo no seu pensamento, subir até Deus pela contemplação das criaturas, amá-lo por ele e por seus benefícios, eis a vida natural da inteligência. Como é grande como o universo, infinita como Deus! Crer em Deus segundo as suas palavras; conhecê-lo pela fé, tal como é em si mesmo; depois, um dia, vê-lo face a face, amá-lo como ele se ama a si mesmo, gozar este amor como ele o goza: eis a vida sobrenatural, a mais alta e sublime participação da própria vida de Deus. Este rio imenso de vida que corre no mundo do tempo e da eternidade, donde vem, qual é a sua nascente? Responde-nos S. João: "Nele era a vida. Assim como o Pai tem a vida em si, concedeu ao Filho que tivesse a vida em si mesmo." Ora, como o Pai é a fonte da vida, concedeu ao Filho que o fosse igualmente, fonte infinita, inesgotável. É ele que dá desenvolvimento às plantas, sentir aos animais e inteligência aos homens. Todo o movimento e toda a ciência vêm dele e não são mais que um reflexo, um pálido clarão de sua luz infinita.

Pois bem, o Filho de Deus tornou-se homem, Deus na eternidade, homem no tempo; Deus por natureza, homem por sua vontade; Deus por uma feliz necessidade, homem por livre escolha. Deus perfeito, possuindo em si toda a natureza divina, por isto que nesta não pode haver divisão nem separação; homem perfeito, possuindo toda a natureza humana, por isso que tirou de nós corpo real, carne real, nossa carne e nosso sangue. Nele não há um homem unido a um Deus, nem um Deus unido a um homem; mas um Deus feito Homem, um Homem-Deus e um Deus-Homem, uma só e mesma Pessoa, uma Pessoa divina, a segunda da Santíssima Trindade, numa dupla natureza, a divina e a humana. Sendo Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, é chamado, com razão e justiça, Homem-Deus. É Deus desde toda a eternidade, antes que baixasse do céu para tomar a natureza humana e nascer da Santíssima Virgem Maria.

Portanto, não é Deus-Homem desde toda a eternidade, porém agora será por toda a eternidade Deus-Homem, porque o Verbo, o Filho de Deus, jamais há de separar-se da natureza humana.

O ouro permanece ouro ainda que esteja em contato com o lodo, e o esplendor do sol não aumenta com a pálida luz de uma lâmpada: assim a divindade do eterno Filho de Deus nada ganha nem perde com a sua união mais íntima com a natureza humana.

Jesus Cristo enquanto Deus é um ser infinitamente perfeito, simples e necessário, e por isto é impossível que perca alguma coisa; e sendo infinitamente perfeito, não é capaz de aumento.

Não é portanto a divindade de Cristo, mas somente a humanidade que é aperfeiçoada pela encarnação. "O sol, observa S. João Damasceno, comunica-nos luz e calor, sem nada receber de nós. Quanto mais se deve dizer isto do Criador e Senhor do sol!"

E assim como, se aparecesse um novo planeta, o sol o iluminaria e o aqueceria sem a menor diminuição de luz que lhe é inerente, de modo semelhante a divindade em Cristo, sem mudança alguma em si mesma, começou a influir com suas abundantes graças na humanidade por ela assumida.

E assim se alguém pergunta: Quem é Jesus Cristo, podemos responder com fé inabalável: ele é Homem como nós; mas acima de tudo é o Ser, o Encarnado, o que existe por si, que a si se basta e não precisa de ninguém. Ele é Nosso Senhor, Rei, Criador e Deus.

É esta a personalidade eminente de Jesus Cristo, que infelizmente muitos, para seu próprio prejuízo, não conhecem devidamente, ignorando seus ensinamentos ou desprezando seus preceitos.

CAPÍTULO IV

O estupendo resultado da Doutrina de Cristo

Suponhamos que Jesus Cristo no momento em que começou a pregar o seu Evangelho, se encontrasse com um homem versado em toda a sorte de conhecimentos, que lhe perguntasse: Porque motivo percorres as cidades e povoados da Judeia para ensinar uma doutrina nova?

Minha intenção é, poderia ter respondido Jesus, reformar os costumes de toda a terra, mudar a religião de todos os homens e destruir o culto dos falsos deuses para fazer adorar o Deus verdadeiro, e por mais estupendo que pareça meu empreendimento, eu afirmo que ele se realizará.

A isto responde o interlocutor: Então vós sois mais sábio que Sócrates, mais eloquente do que Platão, mais hábil do que os maiores políticos da Grécia e de Roma? Eu não me proponho, afirma Jesus Cristo, eu não me proponho a ensinar a sabedoria humana, eu quero convencer esta sabedoria de sua loucura, a sabedoria destes sábios tão vaidosos, e a reforma que nenhum deles ousará tentar numa cidade, eu quero operá-la no mundo inteiro por mim e meus discípulos.

Vossos discípulos, diz o interlocutor, pelo seu talento, prestígio, dignidade e riquezas projetarão um tão grande brilho que eles ultrapassarão pelos efeitos de sua eloquência os maiores filósofos, e poderão assim arrastar as multidões atrás de si?!

Não, diz Jesus, meus enviados serão homens sem ilustração e pobres, tirados das classes populares, escolhidos da nação judaica que sabemos ser menosprezada do que todas as outras, e é justamente por meio dos judeus que eu pretendo levar a bom termo a minha missão.

Mas, então será necessário contar com legiões mais invencíveis que aquelas de Alexandre ou de César que levaram na sua frente o terror e a violência, e obrigariam elas as nações a cair aos vossos pés?

Não, nada de semelhantes expedientes está no meu plano. Eu quero que os meus enviados sejam mansuetos como os cordeiros, que eles se deixem maltratar pelos seus inimigos e eu lhes considerarei um crime tirar a espada para fazer reinar a minha doutrina.

Porém, vós esperais então que as potências do mundo com todo o seu poder favorecerão vossos planos?

Não, as potências mundanas se armarão contra mim, e meus discípulos serão arrastados aos tribunais. Eles serão odiados, perseguidos, condenados à morte e durante três séculos os inimigos se esforçarão para sufocar a minha religião e seus adeptos em rios de sangue.

Então, que coisa atraente terá vossa doutrina para converter toda a terra?

Minha doutrina apresentará mistérios incompreensíveis à razão, minha moral será mais pura do que aquela que se tem ensinado até agora. Meus discípulos pregarão que eu nasci num estábulo, que levei uma vida pobre e sofredora, que fui condenado como um criminoso e que fui morto sobre uma cruz. Tudo isto será altamente proclamado, tudo isto será acreditado entre os homens e eu mesmo que estou falando, serei adorado como Deus e Salvador do gênero humano.

Isto quer dizer, responde o sábio em tom de compaixão, que vós pretendeis esclarecer os sábios pelos ignorantes, vencer os poderosos pelos homens sem força e sem prestígio, convencer a multidão para combater seus vícios, vós quereis formar discípulos, prometendo-lhes sofrimentos, desprezo, opróbrios e a morte, pretendeis destronar todos os deuses do Olimpo, fazendo-vos adorar em seu lugar? Entretanto, vosso plano não passa de loucura. O desprezo público vos fará justiça, a reforma do mundo moral pelos meios de que dispondes, é tão impossível como a própria reforma deste mundo material.

Eis o que teria respondido esse interlocutor, consultando apenas a razão humana; toda a sabedoria teria estado aparentemente do seu lado. Pois bem, o que era humanamente impossível, é precisamente o que aconteceu: a sabedoria humana foi confundida, todas as ideias ordinariamente em voga foram destruídas. A loucura da cruz triunfou no universo e verifica-se o fato indiscutível da divindade do cristianismo.

De fato, a questão da divindade de Jesus Cristo domina todos os outros assuntos e como ela é a mais importante, a mais decisiva, ela é também a mais inabalável, a mais bem demonstrada. Nós temos uma posse ininterrupta de 19 séculos, a crença unânime de todas as nações civilizadas.

Para justificar o valor desta posse e a legitimidade desta crença, os argumentos são abundantes: a espera dos séculos anteriores à nossa era; a história inteira do povo judaico; a realização das promessas, das figuras e das profecias; a superioridade eminente da doutrina evangélica; a santidade de vida do seu Fundador; a autoridade e o grande número dos seus milagres; os sucessos do seu empreendimento humanamente impossível; a conservação e a propagação naturalmente inexplicável da Igreja cristã; a conversão do universo a uma religião que contrariava todas as paixões e todas as ideias reinantes; a transformação das sociedades, das leis e dos costumes.

Podemos acrescentar ainda os seguintes fatos como provas do que afirmamos: os frutos espirituais nascidos nas almas pelo sopro das verdades evangélicas; o testemunho sempre subsistente dos mártires; o assentimento dos maiores gênios do mundo; a adoração e o amor dos corações mais nobres; mil fenômenos de abnegação e caridade, de pureza que o mundo jamais havia conhecido; a submissão sucessiva dos povos mais diversos e dos sistemas adversários; o revigoramento da fé e da virtude no meio de todos os ataques e de todas as negações; o cristianismo mais vigoroso depois dos assaltos e das perseguições; a volta inesperada dos espíritos a ele cada vez que sua causa parecia perdida; em suma, este admirável conjunto de caracteres que formam a mais brilhante demonstração e que justificam mais do que abundantemente a fé do gênero humano.

Ouça-mos o testemunho indiscutível da história.

Se de fato se conhece a árvore pelos frutos que produz, a religião implantada por Jesus Cristo no mundo é superior a qualquer outra e manifesta claramente seu caráter divino. Pode-se afirmar que Cristo reformou a face da terra.

Na ordem intelectual iluminou os homens. Os povos imersos na idolatria, adoravam divindades falsas e lhes dedicavam um culto torpe e sacrifícios cruéis. Nos sistemas filosóficos estava em pleno vigor o panteísmo. O ceticismo infiltrava seu veneno em todas as escolas. Os próprios sábios permitiam horrendos crimes contrários ao direito natural. E onde quer que os povos cristãos abandonaram a sua religião, recaíram em semelhantes erros e até em piores.

Onde a religião cristã lançou firmes raízes, houve mudanças radicais. As verdades religiosas e morais da ordem natural ficaram conhecidas claramente e com certeza. Ampliou-se assim o âmbito do conhecimento. Hoje todos os homens com facilidade podem conhecer as verdades mais sublimes. Os simples, melhor do que antigamente os filósofos mais célebres, conhecem as verdades divinas, a origem e fim do gênero humano, os meios que nos conduzem à santidade, e conhecem as verdades mais sublimes com fé absoluta e firme, de maneira que estariam prontos a abraçar antes a morte do que negar a sua religião. Na ordem moral, grande era a corrupção de costumes no mundo greco-romano no tempo de Cristo. Por toda a parte, também nos outros povos, reinavam vícios detestáveis: luxúria, crueldade, ódio aos inimigos, etc.

A doutrina de Cristo produziu uma admirável mudança de costumes no meio daqueles povos. Esta transformação moral se verifica não somente nos primeiros séculos do cristianismo, mas também nos tempos posteriores, toda a vez que gentios e idólatras se converteram à religião de Cristo. Começaram a florescer as virtudes como o amor de Deus, cujo nome os pagãos nem conheciam, o amor do próximo que não somente se estendia à caridade particular, mas também produziu os mais belos frutos sociais. Surgiram institutos para órfãos, enfermos, velhos indigentes, colégios, seminários onde se cultivavam as ciências profanas e divinas, asilos dirigidos por monges não somente nas cidades, mas também nas montanhas, no meio das neves perpétuas para receber e proteger os peregrinos. Começou a florescer a humildade, pois muitos renunciaram às honras e dignidades pelo amor de Cristo, abraçando uma vida humilde cheia de renúncias.

Os homens começaram a cultivar a castidade cujos frutos são o pudor, a santidade matrimonial e a virgindade. É exato que em Roma havia as vestais; mas eram poucas, primeiro quatro e depois seis. Entretanto, não escolhiam espontaneamente, pelo amor a Deus, a virgindade, porém, querendo ou não, eram pelo pontífice máximo designadas meninas de seis a dez anos. Sua virgindade não era perpétua, mas a cultivavam durante trinta anos, gozando de especiais honras e comodidades, e eram severamente vigiadas. A vestal que não guardava a virgindade, era sepultada viva.

Vê-se logo a diferença entre a virgindade das vestais e as virgens cristãs que em grande número, em todos os séculos, livremente e pelo amor a Deus, escolheram a virgindade por toda a vida. Elas não têm recebido comodidades temporais, mas ao invés injúrias e, não raro, expuseram-se ao martírio.

Na ordem social Cristo renovou a sociedade doméstica. Em muitos povos pagãos tinha o pai de família o poder da vida e da morte. As crianças já antes de nascer e já nascidas, quando eram fracas e deformes, podia ele matá-las ou expô-las, sem que pensasse ofender a lei da natureza.

As esposas estavam sujeitas à dominação dos maridos em todo o sentido; a unidade matrimonial muitas vezes não se respeitava. A dissolução do vínculo, pelo menos da parte do marido, também legalmente era admitida, muitas vezes por levíssimas faltas da esposa.

Os escravos segundo o antigo direito romano, não eram tratados como pessoas, mas como simples coisas de que o dono podia dispor, como se fossem animais. Os velhos ou os doentes não raras vezes eram mortos ou expostos à miséria para que desaparecessem pela fome.

Ora, a religião cristã por toda a parte inculcou a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. À mulher, salvo a sujeição ao poder do marido, foi restituída aquela dignidade que pela vontade de Deus lhe convém, e o próprio sexo feminino está sendo honrado pelo culto peculiar dedicado à Santíssima Virgem.

Aos pais a religião de Cristo inculcou a estima sobrenatural aos seus filhos como filhos de Deus, proibindo severamente o aborto e qualquer outro infanticídio.

O instituto da escravidão não pôde imediatamente suprimi-lo, mas sobremaneira temperou o seu vigor, ensinando que todos os homens são filhos de Deus e irmãos em Cristo, inculcando ao menos reverência e caridade aos escravos, proibindo o seu assassinato, exortando também os próprios escravos à obediência e submissão aos seus legítimos superiores.

Na ordem estatal não é menor a influência dos ensinamentos de Cristo. Pois, entre todos os povos os supremos magistrados usurpavam todos os direitos. Por isso, não existia nenhum gênero de liberdade e a multidão dos súditos, não raro, estava restituída à condição miseríssima dos animais. Os cidadãos em tudo quanto ao corpo e alma estavam sujeitos aos governantes. Quase por toda a parte disseminava nefando tumulto. As guerras se assinalavam por uma crueldade sem par, de maneira que os vencidos de qualquer condição, sexo ou idade eram assassinados ou entregues à escravidão.

A religião cristã quebrou o despotismo dos soberanos. Aos césares opôs a doutrina do divino Mestre: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", e a palavra que os Apóstolos dirigiram ao sinédrio: "É preciso obedecer mais a Deus do que aos homens". Conseguindo a liberdade religiosa, preparou o caminho para a liberdade civil, a qual fundou e desenvolveu no decurso do tempo, inculcando que a lei humana tira a sua força da lei natural e divina, que os soberanos são ministros de Deus para o bem dos povos, que toda a sociedade é uma família, sendo todos os seus membros irmãos. Mas ensinou também que todos os súditos devem obedecer em consciência aos soberanos como a ministros de Deus.

As relações entre os diversos povos organizou-as com mais perfeição, aboliu aquela convicção pagã que considerava os povos estrangeiros como bárbaros e hostis e como uma espécie inferior de homens. Promoveu o direito internacional, agora comumente aceito na paz e nas guerras.

E se todos os abusos não desapareceram, deve-se atribuir isto a que os povos não seguiram os princípios ensinados pela religião cristã. O mesmo deve-se dizer com referência à crueldade e aos delitos dos povos já civilizados, quer dizer que eles não seguem a doutrina de Cristo.

Nenhuma instituição meramente humana jamais produziu frutos que nem de longe se podem comparar com a mudança intelectual, moral, social que a religião cristã, a religião católica, introduziu e conserva no mundo.

As seitas cristãs separadas da Igreja de Cristo e dissidentes, vários meios de santificação levaram consigo e ainda conservam; são ramos cortados que receberam a força produtora da árvore de que foram separadas.

Cristo teve, portanto, razão; seu plano grandioso e divino executou-se. Os Apóstolos exerceram sua missão em todo o mundo conhecido. Pedro o pescador da Galileia, estabeleceu a Igreja de Cristo em Roma, capital do mundo. O cristianismo purificou e santificou o mundo pagão. Os césares viram o desmoronamento dos seus tronos e a ruína de sua dominação. A capital do império romano veio a ser o centro da Igreja Católica, que continua a mostrar à humanidade o caminho da verdade e da salvação.

CAPÍTULO V

Cristo modelo de perfeição moral

O Filho de Deus, eterno modelo da verdade, da beleza e do bem, fez-se carne e tornou-se visível a nossos olhos, e continua a habitar entre nós Jesus Cristo Nosso Senhor. Ele vive conosco para nós, a fim de que vivamos para ele.

Cristo preside à Igreja de Deus e caminha em nossa vanguarda como Chefe e Diretor, orientando-nos no caminho da eternidade. É isto, precisamente, o que eleva a Igreja acima do mundo anterior ao cristianismo e das instituições do laicismo.

Em vão tinha o mundo antigo concebido o ideal do justo; porém quanto mais puro e elevado era o modelo imaginado, tanto menos cria na possibilidade de que ele fosse realizável.

"Falta-nos, diz Cícero, (De officiis) um modelo da justiça verdadeira e perfeita e o que nós temos é apenas a sombra, a imagem, e ainda assim não a imitamos". Eles não a imitavam porque era apenas produto de seu próprio espírito; e por isso não podiam salvar o mundo vacilante nem regenerar a humanidade, assim como as ideologias do ateísmo, do laicismo e as apostasias que pretendem modernamente substituir a Igreja Católica, não estão em melhores condições.

Disse a este respeito Bossuet: "Não parece que Deus suscitou esse maravilhoso ideal da virtude ao espírito de Platão, o maior dos filósofos do mundo antigo, senão para mostrar que esse mesmo ideal se realizou sobre a terra na revelação de seu Filho? Ele achou-o tão grande que o identificou com o Redentor esperado, como próprio e exclusivo deste que é o Unigênito em unidade de substância com Deus mesmo; e em verdade nada havia maior do que a realização desse ideal quando ele descesse à terra e assumisse a figura humana. E com efeito, que coisa podia haver mais digna para ele do que a representação da virtude em toda a sua pureza, altura e felicidade celeste no meio das angústias e da mais profunda humilhação."

A vida de Jesus Cristo tornou-se modelo da vida de todos os cristãos e de todos os homens. "Esse modelo consiste no que sucedeu na cruz, na morte e sepultura, na ressurreição ao terceiro dia e na ascensão; e porque ele foi crucificado, por isso se diz: quem é de Jesus Cristo, já crucificou a sua carne com todos os seus vícios e maus desejos; como foi sepultado diremos: fomos sepultados com o Cristo pelo batismo para a morte do pecado; como ressuscitou, diremos também: assim como o Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim devemos surgir para a vida nova; e como ele ascendeu ao céu e está sentado à mão direita de Deus Padre, também foi dito: se ressuscitastes com o Cristo, procurai o que está no alto onde Jesus Cristo se assenta à direita do eterno Pai."

Os escravos do prazer suspiram pelas riquezas, Jesus Cristo quis ser pobre; aspiram às honras e ao poder, ele recusou ser rei; eles se furtam às afrontas, Jesus Cristo suportou toda a sorte de opróbrios. Sofrer as injúrias, parece-lhes intolerável, que injúria pode haver maior do que ser condenado um justo e inocente? Eles evitam as dores corpóreas, Jesus foi flagelado e crucificado. Eles receiam ante a morte, Jesus consentiu que fosse condenado ao suplício do madeiro infamante. A morte na cruz era considerada sobremaneira afrontosa, e Jesus a padeceu.

Tudo quanto o homem carnal apetece pecaminosamente, ele o desprezou. Tudo quanto nós evitamos contra o preceito da sabedoria, sofreu ele ou tornou merecedor de ser ambicionado.

Por esta forma toda a sua vida sobre a terra tornou-se para nós um código de moral. Que soberba não será domada se a não sujeita a vontade do Filho de Deus, que violento acesso de cólera não será refreado se o não domina a paciência do Filho de Deus, que avareza não será repelida se se não vence a pobreza de Jesus Cristo, que dureza de coração não será abrandada se a não comove a caridade do Filho de Deus, que terrores se poderão desvanecer se os não dissipa a ressurreição do Filho de Deus?

Não vos atemorizem as afrontas, a cruz e a morte, porque se fossem prejudiciais ao homem, o Filho de Deus as houvera evitado. Semelhante exortação, que ressoa por toda a parte, e é aceita com respeito e cura as feridas da alma que a escuta, não seria compreendida sobre a terra se o Verbo de Deus não houvera encarnado.

Cristo apresenta à humanidade um modelo sublime de grandeza moral. Nele se revela a perfeição do Pai eterno, não como lei severa, mas sob a forma amável de caridade e amor, a manifestação da majestade celestial velada pela aparência da humilhação.

Em Jesus Cristo desceu do céu à terra o reinado da justiça, verdade, santidade e amor, por ele todos estes atributos tomaram corpo e se fizeram visíveis. Ele é o caminho, a verdade, a essência e o caráter da justiça do verdadeiro e santo reino nele se tornaram manifestos.

Tudo quanto o cristianismo tem criado de grande, esses milhões de mártires da fé que a Igreja conta no número dos seus santos, ante os quais todas as grandezas se inclinam, a sublimidade da sua moral, esse portento do amor de Deus e dos homens, que é um ato quotidiano e contínuo na vida da Igreja, essa renovação do interior do homem, esse renascimento de todo o gênero humano, tudo isso: tem a sua razão determinante, regra eterna e lei estabelecida, não com palavras que o vento leva, mas sim na revelação de Jesus Cristo real, sempre e eternamente presente, viva e criadora.

"Eu vos conjuro, diz o Apóstolo S. Paulo, pela mansidão e modéstia de Jesus Cristo". Nestas palavras patenteou ele o segredo da moral cristã. Não consiste esta num sistema de ideias abstratas, nem é um conjunto de preceitos e demonstrações, laboriosamente erigidos.

Assim é que Jesus aparece diante de seus discípulos e contemporâneos. Os Evangelistas nos apresentam sua imagem: seriedade sublime, compartida com a maior suavidade; lucidez celeste, reunida à piedade mais atraente; majestade admirável mesmo no seu mais profundo abatimento e nos atos de sua vida de completa abnegação e humildade; elevação acima de todas as coisas da terra, de todos os apetites, esforços e pensamentos, e a par dela a participação sem reserva da natureza humana, experimentando a alegria e a dor como todos os homens; superioridade aos laços da família, e todavia a submissão do melhor dos filhos, austeridade em toda a altura; delicadeza íntima cujo mérito impunha com máximo respeito; sacrifício voluntário e espontâneo, entre os tormentos horríveis da cruz, que arranca um grito de admiração ao soldado romano; energia vital na morte mesma; consciência segura da vitória, quando tudo denuncia a derrota!

Quando estava próximo a deixar os seus discípulos e lhes anunciava as provações que os esperavam, quando ele mesmo ia ser entregue às mãos dos seus inimigos, não os abandonava a servidão do espírito e a paz que existia nele, comunicando-a aos seus discípulos, disse: "A paz vos deixo, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se assuste."

Cristo é tudo para todos, para os gregos e para os bárbaros, para os filhos de Israel e para os habitantes dos desertos. A sua pessoa e a sua vida levam em si o selo de quem atravessou todas as nacionalidades e abarcou todo o gênero humano. Cristo nada tem de comum com o grego, nada com o romano, e nada foi buscar à Índia nem ao Egito.

Não existe para a sua manifestação e eminente grandeza moral modelo algum anterior, ou semelhança sequer. Foi Jesus Cristo que se tornou modelo para todos, ideal perfeitíssimo que ainda não pôde ser imitado.

Os gregos tornaram-se discípulos seus sem embargo de nunca ter fundado escola de filosofia entre eles. As nações pagãs contemplam sua vida como exemplo de suma perfeição.

As suas palavras e os seus atos são harmónicos. Com a mesma serenidade com que suscitava os mortos e acalmava as tempestades, provia as necessidades dos seus discípulos; não se vê nele esforço e excitação; nas coisas mais elevadas e mais insignificantes aparece sempre à mesma altura. Do mesmo modo como ele profere as palavras mais sublimes e profundas em conceitos breves e penetrantes, assim opera os milagres mais sublimes e assombrosos, tranquilo e sem esforço.

Nunca houve quem falasse como ele, diziam os mesmos fariseus.

Suportou as fraquezas e tibiezas dos seus discípulos, a ingratidão e obstinação do seu povo, o ódio dos seus inimigos, a traição ou negação dos seus Apóstolos.

Cristo exortava os seus discípulos: Guardai os meus preceitos e permanecereis no meu amor; assim como eu guardei os preceitos do meu Pai e permaneço no seu amor.

Cristo apareceu tão sublime e tão santo que João Batista, o maior, o mais santo e o mais grave dos profetas do seu povo, diante do qual toda a nação se inclinava respeitosamente, não se considerava digno de desatar-lhe a correia dos seus sapatos, isto é, de lhe fazer qualquer serviço como o mais baixo dos escravos.

CAPÍTULO VI

Cristo e a humanidade

Cristo, de fato, é o Filho de Deus feito Homem. Segundo a palavra do Evangelista S. João, o Verbo, o Filho de Deus, se fez Homem e habitou entre nós e nós vimos a sua glória, glória como do Filho Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

Como existia antinomia entre o espírito e a matéria antes da criação do homem, assim e muito maior é a oposição existente entre o finito e o infinito, o Criador e a criatura, Deus e o homem, a santidade perfeita e a raça contaminada do pecado.

A criatura tende para o Criador, o criado para o incriado e o coração humano somente sente tranquilidade perfeita, quando acha aquele que o criou para si. Quem lança uma ponte sobre o abismo, que separa o Criador todo-poderoso do homem miserável filho do pó? Ainda mais; quem concilia Deus santíssimo com o mundo eivado com o pecado e o crime? A Deus nada é impossível.

Deus deu ao mundo um novo Adão, o Homem-Deus, o seu Filho que está ao seu lado desde a eternidade. Nele se acha resolvido o problema da união entre o céu e a terra, Deus e o mundo.

Cristo, possuindo a plenitude da divindade, arrastando a miséria humana, é, por isso mesmo, o medianeiro entre Deus e o homem, o infinito e o finito, entre a santidade perfeita e os pecadores.

Por meio de Cristo, Deus se acercou, o mais intimamente que era possível, do homem e este se ligou com Deus.

E quem é Jesus Cristo? É o Verbo, a sabedoria do Pai, inteligência pessoal e primária, que assumiu a nossa carne. Que é o homem? Inteligência finita, criada, que se une com o corpo e por meio dele desenvolve todas as suas faculdades e atributos.

E que é a concepção de um homem senão nova encarnação do espírito? E ao Espírito que criou este espírito e o revestiu de carne, não será possível, se o seu amor o ordena, ser homem e ser igual a ele? Porque seremos nós, pois, incrédulos ante o mistério cuja imagem somos nós mesmos?

Assim como no Homem-Deus por meio da unidade de Pessoa, Deus se torna homem, assim a estátua inerte de barro pela insuflação do espírito se torna homem vivo e, até certo ponto, todos os dias sucede nova encarnação na vida humana. O pó que se calca aos pés, não é aspirado todos os dias, tornado homem, penetrado e vivificado pelo espírito?

Cai na terra o grão de trigo; germina e cresce, colhendo-se o fruto. No pão se encontra o suco da terra, é a terra mesma que se recebe e se assimila; o que era pó da terra, gira como sangue nas veias, torna-se força nos músculos, penetra nos nervos, brilha na claridade dos olhos, palpita no coração, manifesta-se na palavra que soltam os lábios e que é a expressão do mais profundo dos pensamentos.

O espírito anima o homem, vivifica o limo da terra e torna-o participante da sua atividade e da sua vida. A alma penetra todas as manifestações da vida humana. Toda a atividade do homem é simultaneamente espiritual e corpórea; e o corpo e o espírito constituem uma só natureza, um ser único, o homem.

A natureza divina no Cristo está tão íntima, verdadeira e realmente ligada à humana que estas duas naturezas separadas por uma distância tão grande e infinita, se abraçam estreitamente na Pessoa do Homem-Deus, que reúnem em si a divindade e a humanidade de tal modo que todos os seus atos e manifestações vitais são divinos e humanos.

E assim como no homem, pela união da alma e do corpo, os membros do corpo, em certo sentido, são também membros da alma, assim, da mesma sorte, a alma e o corpo, pela união hipostática da humanidade com a divindade no Cristo, em certo sentido, são o corpo e a alma de Deus.

O corpo humano não tem vida alguma por si mesmo; ela advém tão somente da alma e por meio dela. Mas, por isso, não é mais imperfeito do que os outros seres animais; pelo contrário, é muito mais perfeito; porque a natureza espiritual comunica ao corpo dignidade mais alta do que a dos outros seres materiais, o exalta, nobilita e espiritualiza.

A humanidade sagrada de Jesus Cristo também não possui existência por si ou personalidade realmente humana; mas, nem por isso é imperfeita, porque é penetrada do esplendor da divindade, e a humanidade participa de toda a glória que circunda o ser eternamente bem-aventurado.

É deste modo que Cristo é Homem ideal, primogênito desde a eternidade, se tornou Homem no tempo; habita no seio do Pai pela sua divindade e nas entranhas da Virgem pela sua humanidade; está sentado no trono do Pai, na sua glória, e verte o seu sangue no madeiro da infâmia da cruz na figura de um criminoso.

Como é possível que o Verbo de Deus, o qual rege o mundo e pelo qual tudo foi criado, se encerrasse no seio da Virgem? Santo Agostinho nos responde: Admira-te, diz ele, que semelhante coisa se diga do Verbo de Deus? Pois, ao verbo do homem acontece coisa semelhante, sem embargo da imensa distância que o separa do Verbo de Deus. O verbo, o pensamento do homem, tem também a sua encarnação. Como se dá isso? O verbo é na sua origem meramente intelectual, é o pensamento do meu espírito, distinto da palavra, que é o sinal sensível da minha voz, proferida pela minha boca e cujo som vai vibrar dentro dos teus ouvidos.

Ora, quando o verbo do meu espírito, o pensamento que aquele gerara, quer manifestar-se exteriormente, que faz? Encarna-se na voz, torna-se palavra sensível e assim manifestada chega até aos teus ouvidos.

O meu verbo está comigo, toma corpo na voz; o Verbo de Deus era junto ao Pai e tomou corpo, assumindo a figura humana. O meu verbo que era junto de mim, chegou até a ti, e se manifestou deste modo; tu escutas este verbo ou palavra e milhares de pessoas o podem ouvir; e todavia é o meu verbo e não cessou de ser o pensamento do meu espírito. O Verbo de Deus tornou-se visível para todos, e não cessou de estar junto do Pai.

Como te atreves a insultar o mistério do Verbo divino, quando tu não chegas sequer a compreender o verbo humano?

Sem dúvida, a encarnação é um mistério, princípio e fim de todos os mistérios; é um mistério que não é oposto à razão, contudo superior a ela. Na criação do mundo manifestou Deus o seu poder; na redenção revela o seu amor. Acolá manifestou-nos a sua majestade, aqui penetramos até ao seu divino Coração. Mas se as ações do amor humano são incompreensíveis à razão modesta do homem, quanto mais o é o amor de Deus que se torna um mistério! E se insondável é o coração do homem, o de Deus é um abismo que nenhum olhar humano poderá perscrutar.

Todavia, o problema religioso e com ele o problema da vida, está resolvido, e por esta resolução anelava desde o princípio a humanidade. Nunca em culto algum até nos mais grosseiros, foi a religião mero conjunto de ideias e concepções, mais ou menos claras, da divindade; sempre em todas elas, ainda nas mais bárbaras, foi assunto dos seus esforços e aspirações, dos seus símbolos e usos, a reconciliação do céu com a terra, a união de Deus com o homem.

A solução deste problema em todos os cultos do mundo antigo foi procurada mas nunca encontrada, porque só Deus a podia dar.

O oriente buscou realizar esta aspiração fundamental da religião sob a forma de repetidas encarnações; o ocidente pela apoteose. Mas até nessa repetição de encarnações, estas se nos mostram como simples aparências; perde-se a personalidade humana, descendo a representar apenas o papel de máscara, sob a qual conserva a divindade uma única existência própria através das várias e mutáveis formas que adota. O homem neste sistema tem por missão aniquilar-se e desaparecer na divindade.

Na apoteose do ocidente, a humanidade mantém suas fraquezas e baixeza no seu estado corrupto e natural, exaltadas às honras divinas: nos deuses do Olimpo o grego apresenta-se a si mesmo sobre os altares na pessoa dos seus representantes mais ilustres.

O panteísmo, esse monstro que tudo devora e tudo novamente produz, apresenta-se-nos como ateísmo, adorando-se a si mesmo, lançando sobre a sua miséria o véu brilhante de um politeísmo cético e o prestígio da beleza humana; ora como resultado do progresso do mundo antigo anterior a nós. E, todavia, nunca o mundo esteve mais distanciado do ideal a que desde o princípio aspirava.

Mas, nem o monoteísmo abstrato, como se ostenta no judaísmo e no islamismo, pôde corresponder a esta ideia da religião. Porque o Coração de Deus ainda não lhe foi patenteado e, por isso, não lhe foi possível atravessar o abismo interposto entre Deus e o homem, o Criador e a criatura, o Onipotente e o fraco, o Santo dos santos e o pecador.

"Deus amou o mundo tanto que lhe deu o seu Unigênito", é a confissão do cristianismo. O descendimento da divindade até à humanidade do Homem-Deus, Jesus Cristo, o renascimento do gênero humano por meio do Unigênito, imagem hipostática do Pai e modelo, consoante o qual no princípio o homem fora criado, em quem habita e vive a plenitude da divindade, e no qual se manifesta e habita Deus na carne: todos esses fatos atraíram os corações para Deus. E tudo quanto é humano, foi assim envolvido na torrente da vida divina, elevando-se a humanidade ao santuário íntimo de Deus e satisfazendo desta arte a missão que tem em vista a religião.

"Eu e o Pai somos um só", pode dizer o gênero humano no renascido em Deus, falando pela boca do seu representante o Homem-Deus. E assim como ele é um só com o Pai, assim todos quantos estão em unidade com ele, e por ele um só são com o Pai.

Jesus Cristo é o nome do Filho de Deus feito Homem. Jesus é o nome próprio daquele que havia de salvar o gênero humano, daquele que é simultaneamente Deus e Homem. Este nome significa Salvador. Não foi por um efeito do acaso nem por designação particular dos homens que este nome foi dado ao Redentor; mas por vontade expressa de Deus.

Ao nome Jesus está junto o nome de Cristo que significa ungido ou sagrado. É um nome de honra e dignidade. Era comum entre os antigos aos sacerdotes, aos reis e aos profetas.

Jesus é o maior dos profetas, enviado para ensinar a vontade de Deus aos homens; é sacerdote, não pertencente ao sacerdócio do Testamento Antigo, mas segundo a Nova Lei; é Rei, não só como Deus mas ainda como Homem, e por este duplo título ele reina no céu e na terra; no céu sobre os eleitos e os anjos, assentado à direita de Deus Pai; na terra ele governa a sua Igreja, a protege, a defende e sobre ela espalha as suas graças.

Jesus Cristo é o Filho de Deus gerado pelo Pai Divino. Dizem os teólogos conforme já foi exposto antes que, assim como nossa alma pelo conhecimento que tem de si mesma, forma nela a sua imagem, que nós chamamos o seu verbo ou o seu pensamento; assim, conhecendo-se a si mesmo, Deus gera o seu Filho que chamamos o Verbo.

Porém, esta comparação é evidentemente defeituosa, por isso que o Filho de Deus é uma Pessoa e não assim o nosso pensamento. Entretanto, cremos firmemente, sem querermos penetrar mistérios cuja compreensão excede a nossa capacidade inteletiva, que o Filho de Deus é da mesma natureza que o Pai, possuindo todos os seus atributos.

Jesus Cristo é Nosso Senhor como Deus e como Homem. Pois, o Filho de Deus é o soberano de todas as coisas, e como Homem nos libertou dos nossos pecados e nos resgatou com o seu sangue na cruz. Humilhou-se, fazendo-se obediente até à morte. Por isso o seu Pai celeste o exaltou, dando-lhe um nome em cuja virtude se dobra todo o joelho, no céu, na terra e nos infernos. Assim é que Jesus Cristo declarou aos seus Apóstolos: "Foi-me dado todo o poder no céu e na terra."

Reconheçamos portanto esses direitos e o império de Nosso Senhor sobre o mundo, pela nossa fidelidade às suas leis. Servir a Jesus Cristo é reinar.

Resulta daqui que o cristianismo é a religião absoluta e a renúncia que dela se faça sob o hipócrita pretexto do progresso, é apenas um retrocesso para as misérias do ateísmo e as alucinações panteístas das épocas precedentes.

O Filho de Deus se fez Homem para nos ensinar o que deveríamos crer, esperar, amar e fazer, a fim de nos salvar. Cristo é nosso Mestre.

Ele disse: Eu sou a luz do mundo; por isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade, isto é, para ensinar a verdade. — Os povos estavam sentados nas trevas e Jesus Cristo como sol se levantou no horizonte da humanidade para iluminá-los.

Densas trevas cobriam o espírito humano. O Filho de Deus feito Homem nos revelou o mistério inefável da Santíssima Trindade e os desígnios admiráveis de sua misericórdia para a felicidade dos homens.

Ensinou-nos que pelo seu grande amor aos pobres pecadores Deus nos dá o seu Filho Unigênito, para buscar e tomar sobre seus ombros a ovelha desgarrada, a fim de conduzi-la amorosamente ao aprisco. Ele nos revelou que o Espírito Santo viria com o fim de santificar-nos, fazendo dos homens filhos adotivos de Deus e herdeiros do céu, acrescentando que o mesmo Espírito Santo habitaria em nós como em templos vivos, nos iluminaria, consolaria, fortaleceria e nos abrasaria em vivas chamas do amor divino.

Jesus Cristo nosso divino Salvador é que nos ensinou a pedir a Deus com confiança filial, dizendo: "Padre Nosso que estais nos céus". É ele que ensinou os homens como devem pedir e esperar do Pai celestial todo o bem e especialmente o perdão das culpas, os ricos dons da graça e da vida eterna, e como deveriam sobretudo dirigir a sua vista à pátria celestial, aquele reino feliz, aonde ele foi preparar-nos um trono glorioso.

"Buscai, disse ele, antes de tudo o reino de Deus e a sua justiça". Não deveis entesourar tesouros neste mundo, mas acumulai tesouros para o céu, onde nem a ferrugem nem a traça os consomem, donde os ladrões não os desenterram nem roubam.

Cristo ainda ensina aos homens o caminho para a pátria celestial, dizendo: "Larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que conduz à vida! E poucos são os que atinam com ela."

Queres entrar na vida eterna? Pois observa os mandamentos. A porta estreita e o caminho apertado para o céu é a observância dos mandamentos; assim como pelo contrário a violação dos mesmos é a porta larga e o caminho espaçoso que conduz à perdição.

O que portanto se entrega aos prazeres, à concupiscência da carne, o que se deixa levar pela avareza e a soberba, marcha pelo caminho largo da perdição eterna. Porém o que com ânimo resoluto sabe reprimir as más inclinações no seu coração, observando os divinos mandamentos; o que se humilha e submete a Deus, conservando o seu coração isento do pecado, caminha pelo atalho estreito que conduz ao céu.

O divino Salvador nada inculcou com mais frequência nem mais expressamente do que o preceito da caridade: Ama a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo. Este preceito é o primeiro e o máximo dos mandamentos e o compêndio de todos eles.

Este amor deve estender-se a todos os homens, aos amigos e também aos inimigos: "Amai, diz ele, os vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem, e caluniam, para que sejais filhos de vosso Pai, que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos."

Vejamos um instante a doutrina de Hegel, filósofo e doutrinador do nazismo e inspirador de Rosenberg. Ele assim fala: "O Homem-Deus histórico é tão somente o símbolo, a expressão empírico-sensual da unidade panteística de Deus e do homem, a chave de toda a cristologia consiste em que, como sujeito do predicado que a Igreja coloca no Cristo, em lugar de um indivíduo, existe uma ideia, mas que é real. No indivíduo considerado Homem-Deus, contradizem-se as faculdades e as funções, que a doutrina da Igreja atribui ao Cristo; na ideia da espécie harmonizam-se. A humanidade é a união de ambas as naturezas, Deus humanado, o espírito infinito revestido da humanidade e tornado finito, recordando-se da sua infinidade; é o Filho de Mãe visível e de Pai invisível, do espírito e da natureza. Pela fé neste Cristo, na sua morte e ressurreição, o homem se justifica na presença de Deus."

Basta esta pequena amostra dos erros e blasfêmias do referido filósofo alemão Hegel. Exige-se um esforço mental para imaginar que um homem possa arquitetar um sistema de tantos erros e falsidades. E muito menos se pode compreender que haja homens, sejam eles arianos ou judeus, que queiram destruir, com tal arranhel de estúpidas doutrinas, a religião católica, cuja existência se conta por séculos, aceita e praticada por milhões e milhões de homens na redondeza da terra.

A religião nazista, sobre falsa é ainda ridícula. Aos esforços dos seus corifeus pode-se aplicar o verso satírico: "Parturiunt montes, nascetur ridiculus mus: geram os montes e nasce um camundongo ridículo".

CAPÍTULO VII

Idolatria ou cultos reprováveis

Quando a sociedade humana abandona os ensinamentos de Deus, retrocede e volta às teorias e práticas do paganismo. Cada religião terá o seu culto.

Este fato se revela. Ressurge o paganismo antigo que praticava o culto divino pela crueldade e pela luxúria. O homem esquece-se da natureza de sua alma espiritual e imortal, entrega-se ao domínio das suas paixões sensuais.

Desde que o homem perde a sua dignidade, a sua valia intelectual e o seu mérito, lhe prevalecem a crueldade e a devassidão. Porque ambas são um crime, um e o mesmo: o desprezo da dignidade humana.

Aqueles povos que se entregam à crueldade e à vingança, atribuem suas próprias paixões aos seus ídolos. Para fugir à vingança dos deuses penates sanguinários, oferecem-lhes vítimas; é daí que provieram os sacrifícios humanos, até na culta Grécia e na opulenta Roma.

Na Síria era a estatua de bronze de Moloch, quer dizer, senhor, a cujos braços incandescentes as mães entregavam seus filhos sem que a elas fosse permitido soltar um grito de angústia; é aí onde se patenteia em todos os seus horrores a forma cruelíssima do paganismo. No fundo da natureza humana, conjuntamente com a sede de sangue, dormitam todas as paixões. Despertada aquela, todas as demais se levantam.

Vimos a sensualidade elevada às honras divinas, bem como a crueldade; e, por isso, ao lado de Moloch está a impudica Astarte e, em todos os horrores, a luxúria se patenteia no culto. É o que a história nos descreve nos fenícios, babilônios, índios, ciprianos e até em Corinto e em todos os estados da culta Grécia.

A luxúria não é outra coisa senão uma espécie de crueldade. Ela tritura e assassina a nobreza e a dignidade da natureza humana, como o homem cruel encontra o seu prazer e se deleita nas angústias mortais e nas distorções de sua vítima. E esses fatos, que são profundíssimas feridas no organismo da humanidade, nós os encontramos em toda a parte onde o paganismo deu entrada; assassínio e sacrifícios humanos, degradação da mulher e a escravidão.

E tudo isso se reproduz, quando e onde os povos abandonam o verdadeiro Deus. Ali arvoram-se os chefes em deuses absolutos, calcando ao pé as leis divinas e todos os direitos alheios.

Esses fatos se verificam, claramente, no sistema nazista. Hitler é mais do que prepotente, mais do que tirano, considera-se a expressão da divindade. Daí a destruição do direito e da crença em Deus.

Por isso já disse o Sumo Pontífice Pio XI em vários lugares de Sua Encíclica "Com sollicitudine angustiosa", que em seguida transcrevemos:

"Aquele que, com sacrilégio desconhecimento da diversidade essencial entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, se atreve a colocar ao lado de Cristo, ou ainda pior, sobre Ele ou contra Ele, um simples mortal, embora o maior de todos os tempos, saiba que não passa de uma profecia quimera, a quem se aplica terrivelmente a palavra da Escritura: "Aquele que mora nos céus, ri-se dele."

E o Sumo Pontífice continua: "Se pessoas, que nem estão unidas à fé de Cristo, vos atraem e vos lisonjeiam com o fantasma de uma "igreja alemã nacional", convencei-vos de que isto não é outra coisa senão uma negação da única Igreja de Cristo, uma apostasia manifesta do mandato de Cristo de evangelizar todo o mundo e que só uma igreja universal pode realizar."

"Espíritos superficiais somente podem cair no erro de falar num Deus nacional, numa religião nacional, e empreender a louca tentativa de enclausurar nos confins de um só povo, na limitação étnica duma só raça, a Deus, Criador do mundo, Rei e legislador dos povos."

A mesma doutrina devemos aplicar à condenável iniciativa de se fundar entre nós um catolicismo brasileiro ou nacional. Incorrem os seus promotores no mesmo erro e na mesma heresia, merecendo, portanto idêntica censura.

"É nefasto sinal característico do tempo presente querer separar não somente a doutrina moral, mas também os fundamentos do direito e de sua administração da verdadeira fé em Deus e das normas da divina revelação."

O Papa se refere ao direito natural que o dedo do mesmo Criador inscreveu nas tábuas do coração humano. As leis humanas que estão em aberta contradição com o direito moral, acham-se afetadas do vício original, que não se remedeia com a violência nem com o desdobramento da força.

A definição nazista do direito é falsa. Pois não é verdade que é direito tudo o que sirva ao nazismo; e o que prejudique os interesses nazistas, constitui o predomínio do injusto.

Por isto o Papa Pio XI corrige o axioma: "direito é o que é útil à nação", dizendo que se pode dar a este princípio um sentido justo, se se entende: o que é moralmente ilícito, jamais pode ser vantajoso ao povo. Até o antigo paganismo reconheceu que, para ser justa esta frase, devia redigir-se da seguinte maneira: Nada é útil se ao mesmo tempo não é moralmente bom; e não é porque é proveitoso, é moralmente bom, mas porque sendo moralmente bom, é proveitoso.

O critério exclusivo da utilidade nacional, constitui um pernicioso erro, gerador de choques na vida internacional, um eterno estado de guerra entre as nações. Adotado na vida nacional, produz péssimos resultados, confunde interesses com direitos, desconhece-se o fato fundamental de que o homem possui direitos outorgados por Deus, que devem ficar, em face da coletividade fora de toda a tentativa que queira negá-los, sacudi-los ou desprezá-los.

Pois, o Criador quer a sociedade como meio de obter o completo desenvolvimento das faculdades individuais e sociais do homem, das quais se valerá para o seu próprio bem e para o bem dos demais seja dando ou recebendo.

Também os valores mais universais e mais altos que hão de realizar-se não por um indivíduo senão pela sociedade, têm por último fim o homem, o seu aperfeiçoamento natural e sobrenatural e isto por vontade do Criador. Quem se afasta desta ordem, derruba os pilares sobre os quais repousa a sociedade e põe em perigo sua segurança, sua tranquilidade e sua existência.

Portanto, é falsa a mística do nazismo que diviniza os seus chefes, declarando que a religião, e o fim da vida consistem na atividade empregada ao serviço do Estado. Cai pois por terra a frase: o que é útil serve como único critério moral.

Um sistema fundado sobre princípios adotados pelo nazismo destrói toda a ordem moral existente. Não se recua então diante das maiores injustiças e iniquidades. Por isso, a humanidade lamenta e reprova o morticínio de inocentes reféns e as misérias que se alastram e campeiam nos cárceres e campos de concentração.

E como a luxúria é companheira da crueldade, milhares de mulheres e donzelas de países conquistados, são entregues à volúpia infrene de soldados que ostentam no braço a cruz gamada.

Para os doutrinários nazistas Jesus Cristo tem sua importância como a têm todos os libertadores da humanidade: Platão, Eckehart, Kant, Goethe. Hoje só sob este ponto de vista eles incorporam ao germanismo os ensinamentos e atos de Jesus Cristo.

Tristes e lamentáveis são as consequências da apostasia de Deus e de Jesus Cristo. Mais triste e mais lamentável ainda é a sua imitação.

O neopaganismo não intenta unicamente destruir os mais preciosos tesouros e frutos da fé cristã. Mas pretende também ampliar sua esfera de ação e substituir a verdadeira fé por uma religião meramente humana e de concepção partidária.

Os antigos pagãos não eram propriamente ateus. Em sua ignorância veneravam deidades às quais professavam profundo respeito. Possuíam um sentimento religioso e em Atenas até levantaram um altar ao Deus desconhecido.

E como se pode explicar esse fato? O anelo por Deus é inato no homem. Desde a vinda do Filho de Deus à terra, esse profundo desejo ficou satisfeito; pois ele é a luz do mundo que nos deu a verdade e fundou sua Igreja; desde então, todos podem ver a Igreja de Cristo como a cidade sobre o monte. E desde o advento de Cristo os homens têm tido um modo especial de responsabilidade acerca da fé e da verdade.

Mas o neopaganismo é muito mais desumano que o paganismo antigo. É ateu e luta pelo ateísmo. O Santo Padre muitas vezes tem repetido que a força econômica e a confusão universal chegaram a ser os inimigos de uma sociedade bem ordenada.

Em favor de todos aqueles que se levantaram contra Deus e sua religião, tomaremos as armas da oração, a fim de que o Altíssimo na sua misericórdia os ilumine e reconduza ao verdadeiro caminho de salvação.

Incluímos também neste número aqueles que em consequência de sua posição social talvez cometem erros e injustiças.

Para as pessoas que por infelicidade sustentam ser missão da Igreja Católica unicamente procurar salvar as almas, temos uma contestação, dizendo que os católicos não podem silenciar quando o erro se aproxima do altar e a Igreja é prejudicada nos seus direitos.

Ela afirma que toda a verdade e toda a moral está contida nas palavras de Deus. Para manter tudo isto, tem direito de usar de qualquer meio natural lícito, tais como os inventos modernos das ciências na propaganda de suas doutrinas e educação da juventude.

Lemos no drama "Júlio César" de Shakespeare o seguinte tópico: "O grande César morto e feito argila, talvez hoje tape uma fenda para deter o vento; ah! um mortal que outrora encheu o mundo de terror, tapa o buraco dum muro para evitar os rigores do inverno."

Estas palavras de Shakespeare parecem exprimir, o mais poeticamente possível, o fim dos tiranos e déspotas.

E se o César de que só resta um pouco de argila na fenda de um muro se chamava Nero ou Domiciano que fizeram trazer ao seu tribunal milhares de vítimas inocentes, as despedaçaram, degolaram, porque queriam permanecer cristãos ou simplesmente honestos: todos os imitadores destes tiranos que perseguem a religião ou se arvoram em deuses, terão, sem dúvida, a mesma sorte.

Serão reduzidos, mais cedo ou mais tarde, a um punhado de barro para tapar a fenda de algum muro. Cuidem, pois, de salvar sua alma enquanto for tempo.

CAPÍTULO VIII

Triunfo de Cristo sobre o paganismo

Cristo triunfou sobre as impiedades do antigo paganismo e também vencerá as ideologias neo-pagãs da atualidade. Por diversas formas procura-se combater a doutrina de Cristo e substituí-la pelas teorias ímpias de vários sistemas filosóficos e religiosos dos tempos que correm. Mas quem se lembra de que nenhum poder humano e nenhuma potência infernal poderão destruir a obra de Cristo que continua a ser mantida pela Igreja Católica, não duvidará de que no atual caos de ideias confusas e paganizantes será ouvida a voz divina de Cristo, que repetirá: "Fiat lux", separando a verdade da mentira e da falsidade.

Para disso termos certeza, basta vermos o triunfo sobre o paganismo romano. Roma reinava então no universo, e Satanás reinava em Roma. Sob o nome de Júpiter, de Mercúrio, de Apolo, de Vênus, de infinidade de deuses e de deusas, ela se fazia adorar onde suas águias estendiam as asas. Tinha seus templos, seus altares, seus sacrifícios, suas festas, seus jogos solenes, em que às vezes mil gladiadores se matavam uns aos outros, entre os aplausos de cem mil espectadores.

E para defender esta religião de sangue e de luto, Roma mostrava com orgulho seus legisladores, seus filósofos, seus poetas, seus sacerdotes, seus magos, seus arúspices, suas legiões invencíveis, e a cabeça de tudo isso, o imperador dono do mundo, pontífice e deus. Tudo era o império que Cristo tinha que destruir, para reinar sobre o universo.

O demônio não podia ver que Cristo penetrasse naquele império sem manifestar o seu furor. Fez compreender aos idólatras que todos os deuses deviam ser tolerados, menos o Deus dos cristãos, o qual pretendia ter direito exclusivo à adoração dos mortais. Aquele Cristo crucificado no governo de Pôncio Pilatos, inimigo dos deuses e dos homens, não merecia mais do que ódio. Seus sectários, verdadeiros ateus, não fugiam dos templos senão para reunir-se em antros misteriosos, onde se entregavam a espantosas orgias, a práticas execráveis em que degolavam meninos para comer sua carne e beber seu sangue.

Estas infames acusações, e sobretudo, esta monstruosa interpretação da comunhão eucarística espalhavam-se pelo povo. Os cristãos eram considerados como a escória do gênero humano, e disso se aproveitava Satanás para desencadear contra eles uma perseguição que devia durar dois séculos.

O imperador Nero reinava então sobre o mundo envilecido. Depois de haver metido suas mãos no sangue de seu pai e de sua mãe, de sua esposa e de seus preceptores Sêneca e outros, esse assassino miserável cometia diariamente crimes sem número. Para ter um espetáculo grandioso um dia pôs fogo nos quatro ângulos de Roma. Enormes pagos por ele encarregaram-se de propagar o incêndio em todos os bairros da cidade; e enquanto as chamas a reduziam a cinzas, enquanto o povo lançava gritos de desespero, Nero, em traje especial, da altura de uma torre, apreciava aquele oceano de fogo, cantando versos ao incêndio de Troia.

Nero, para disfarçar o seu crime, e acalmar a indignação do povo, apontava os cristãos como os incendiários, prometendo aplicar-lhes castigo condigno. Todos os cristãos foram condenados à morte, tanto em Roma como nas províncias. A respeito escreve Tácito: "Fez prender primeiramente os que faziam mais francamente profissão de cristãos, e havendo descoberto por estes o imenso número de outros, condenou-os aos mais terríveis tormentos. Cobertos uns com peles de animais eram devorados pelos cães famintos; outros eram crucificados; outros eram untados com piche e outras matérias inflamáveis e colocados ao longo das ruas em postes e depois, ao declinar do dia, lhes prendiam fogo, a fim de que, consumindo-se vagarosamente, servissem para iluminar a noite. Durante esse tempo, Nero, vestido de cocheiro, celebrava nos seus jardins os jogos do circo e, rodeado do mais abjeto populacho, guiava ele mesmo um carro à luz dos archotes vivos."

Em todo o império foi decretado o extermínio dos cristãos: "non licet esse christianos: não é permitido que haja cristãos", e, quando o acusado declarava ser cristão, "christianus sum", o magistrado o entregava aos verdugos. Durante quatro anos Nero derramou torrentes de sangue, sangue dos mártires, sangue de plebeus, sangue de patrícios, sangue de Apóstolos.

No ano de 67 Pedro, o Vigário de Cristo, foi crucificado; Paulo, o Apóstolo das gentes, foi decapitado. Um ano depois Nero foi condenado pelos seus súditos revoltosos a ser açoitado com varas até morrer. Mas ele fugiu covardemente de Roma e tomou um punhal para atravessar o seu coração. Como vacilasse em dar o golpe, um escravo lhe enterrou o ferro no peito. Assim desapareceu o primeiro perseguidor da Igreja.

A lei de extermínio, porém, continuou a vigorar como lei do império, mas Vespasiano e Tito, sucessores daquele monstro, somente a aplicavam por exceção. Os discípulos de Jesus esperavam ver o fim dos seus males, quando no ano de 81 a morte prematura de Tito transferiu o poder ao seu irmão Domiciano, êmulo de Nero. O sangue começou a correr de novo em toda a terra.

Continuava a perseguição, ora menos violenta ora mais atroz, durante o tempo dos imperadores romanos até Constantino. Somente Deus sabe o número dos mártires que então derramaram seu sangue em Roma e nas províncias. O imperador Maximino recebeu o nome de Hércules, por ter pretendido haver destruído o nome cristão: "nomine christianorum deleto".

Mas, Constantino proclamado imperador pelas legiões da Gália, passou os Alpes para combater Maxêncio. Ao chegar perto do Tibre, Constantino rogava ao Deus verdadeiro a quem ainda não conhecia, que lhe desse a vitória. Declinava o sol no horizonte, quando viu sobre o astro radiante uma cruz ainda mais luminosa e nela esta inscrição: "In hoc signo vinces", esta cruz te dará a vitória. Constantino venceu. Maxêncio e seus batalhões afundaram-se no Tibre. Roma transformou-se na sede oficial da Igreja e Constantino construiu uma nova cidade para centro do império romano: Constantinopla. O trono de Pedro substituiu o trono dos Césares. O estandarte da cruz flutuava em cima do capitólio e cem milhões de cristãos, nascidos do sangue de onze milhões de mártires, repetiram para glória de Cristo vencedor do mundo, a predição de Cesareia: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela".

Contudo, o inferno não se deu por vencido. O Apóstata Juliano recomeçou as perseguições. Em vão quis ele reconstruir o templo de Jerusalém para desmentir a profecia de Cristo. Mas, apenas conseguiu arrancar os fundamentos que ainda restavam, quando viu frustrado o seu criminoso intento. Na guerra movida por ele aos persas, uma flecha disparada por uma mão desconhecida, atravessou o coração do apóstata e este, lançando um punhado do seu sangue ao céu, exclamou em seu furor: "Vicisti, Galilaee, venceste, Galileu!"

O império romano, entretanto, vacilava sobre seus fundamentos. Não seguia mais os ensinamentos de Cristo. Surgem os povos bárbaros, os hunos, os godos, os germanos e outros, cobrindo o império romano durante um século de sangue e ruínas.

A nação dos francos foi a primeira que se prostrou aos pés de Jesus. Cristo em seguida estendeu seu reino aos outros países europeus. No dia de natal do ano de 800, Carlos Magno, o bárbaro feito cristão, recebeu em Roma, pelas mãos do Papa Leão III, a coroa imperial. Uma aclamação prolongada ressoou na basílica do Vaticano: "Viva Carlos Augusto, o pacífico imperador dos romanos, coroado pelo mesmo Deus!"

O império cristão tomava o lugar do império pagão: Jesus, o Rei dos reis, e o Senhor dos senhores, reinava no mundo vencido por ele, "regnante Jesu Christo Domino Nostro".

Esta verdade histórica nos ensina também o triunfo de Cristo sobre o neo-paganismo ou paganismo moderno. Embora o nazismo e o comunismo jurassem o extermínio do cristianismo e da Igreja em sua legítima forma, serão derrotadas essas ideologias para o bem da humanidade. Por isso é preciso obedecer à palavra de Cristo: Não temais aqueles que podem matar e destruir o corpo, mas aquele que pode lançar o corpo e a alma no inferno.

CAPÍTULO IX

Cristo e a família

O Santo Padre Pio XII nas suas alocuções aos recém-casados externou admiráveis conceitos referentes ao casamento, dos quais repetimos os seguintes:

O homem, obra prima de Deus, foi feito à imagem do mesmo Deus. Pois bem, esta imagem adquire na família, por dizer assim, uma semelhança particular com o divino modelo. Pois, como a unidade essencial da natureza divina existe em três Pessoas distintas consubstanciais e eternas, assim a unidade moral da família humana se apresenta na trindade do pai, da mãe e de sua prole.

A fidelidade conjugal e a indissolubilidade do matrimônio cristão constituem um princípio de unidade que pode parecer contrário às inclinações inferiores do homem, porém é conforme à sua natureza espiritual. Por outro lado o mandamento dado ao primeiro casal humano, "crescei e multiplicai-vos", fazendo da fecundidade uma lei, assegura à família o dom de perpetuar-se através os séculos e nela põe como que um reflexo de eternidade.

"Deus é amor", escreve o Evangelista S. João. Amor substancial e infinito, ele se compraz eternamente, sem desejo nem saciedade, na contemplação de sua infinita perfeição. E, posto que é o único ser absoluto fora do qual não há nada, se quer chamar à existência outros seres, não pôde tirá-los senão de sua própria riqueza. Toda a criatura, derivação mais ou menos longínqua do amor infinito, é pois fruto do amor.

Na nebulosa caótica, uma primeira força de atração — quer dizer um primeiro símbolo do amor — agrupou um dia os elementos cósmicos ao redor de um núcleo, e se formou um astro. Logo a atração deste primeiro astro chamou a outro o qual por sua vez atraiu a outros mais e assim começou o maravilhoso cortejo de mundos o seu curso pelo firmamento.

Mas a obra prima de Deus é o homem, e a esta obra prima do amor ele deu um poder de amar que não conhecem as criaturas irracionais. O amor do homem é pessoal, quer dizer consciente; livre, quer dizer sujeito ao controle de sua vontade responsável; e este poder de determinar-se a si mesmo é como canta Dante, "de Deus munificante um dom existe, da criação no ato instituído maior que todos, mais prezado dele".

Com o corpo e a alma havia Deus dado ao homem tudo que convinha à natureza humana. Haviam sido culminadas as aspirações do homem; mas não foi o que querer de Deus. Para revelar ainda mais o seu amor, concedeu à natureza um dom novo e sobre-humano, a graça; a graça, prodígio inexcrutável do amor de Deus, maravilha cujo mistério não pode penetrar a inteligência humana e que o homem chamou sobre-humano, o que equivale a confessar humildemente que sobrepassa sua natureza.

Se o amor dos seres puramente sensitivos tem sua beleza terna e comovedora, tanto que o Senhor compara a si mesmo com a águia que ensina a voar os seus pequenos filhos e revolteia sobre eles, o amor humano é incomparavelmente mais nobre porque intervem o espírito no impulso do coração, este delicado testemunho e interprete da união entre o corpo e a alma, que compõe as impressões materiais de um com os sentimentos superiores de outra.

Esse encantamento do amor humano tem sido desde séculos o tema inspirador de admiráveis obras de gênio na literatura, na música, nas artes plásticas; tema sempre antigo e sempre novo, sobre o qual as idades bordaram as mais elevadas e poéticas variações sem esgotá-lo jamais.

Mas, que nova e indizível formosura se acrescenta a este amor de dois corações humanos, quando com seu cântico se harmoniza o hino de duas almas vibrantes de vida sobrenatural! Também aqui se verifica o intercâmbio de dons; e então com a ternura sensível e suas sãs alegrias, com um afeto natural e seus ímpetos, com a união espiritual e suas delícias: os dois seres que se amam, identificam-se em tudo o que tem de mais íntimo desde a profundidade de suas crenças inconcussas até ao vértice insuperável de suas aspirações. "Consórcio de toda a vida, comunicação do direito divino e humano", como se diz no rito sacro das núpcias.

Tal é o matrimônio cristão que, segundo a célebre expressão de S. Paulo, representa a união de Cristo com sua Igreja; num e noutra o dom é completo, exclusivo, irrevogável; num e noutra o esposo é a cabeça da esposa que lhe está sujeita como ao senhor; num e noutra o dom mútuo se converte em princípio de expansão e fonte de vida.

O amor eterno de Deus fez surgir do nada o mundo e a humanidade; o amor de Jesus à sua Igreja engendra às almas a vida sobrenatural; o amor do esposo cristão à sua esposa participa destas duas efusões divinas, desde o ponto que segundo a vontade formal do Criador o homem e a mulher prepararam a morada de uma alma na qual o Espírito Santo viverá com sua graça.

Cristo presente às bodas de Caná, em companhia de sua santíssima Mãe e seus primeiros discípulos, deu a primeira prova de sua onipotência para confirmar sua missão divina, e ali começou também a manifestar-se a poderosa intercessão de Maria Santíssima junto a Deus para vantagem dos homens.

Cristo quis lançar sua benção àquele casal venturoso, assim como o Senhor abençoou no tempo da criação os progenitores do gênero humano. Assim tem falado o Sumo Pontífice. Os esposos são colaboradores de Deus na propagação da vida humana. Os filhos devem glorificar a Deus e alcançar a glória eterna. Este é o fim precípuo do casamento que Deus teve em mente na sua instituição.

Jesus Cristo, porém, elevou o contrato matrimonial à dignidade de sacramento, concedendo-lhe as graças especiais exigidas para o cumprimento exato dos deveres impostos pela finalidade do casamento.

As graças sacramentais devem ser correspondidas da parte dos contraentes pela conduta cristã na vida ordinária, com o recurso da oração e recepção dos sacramentos, da confissão e da Sagrada Comunhão.

O cristianismo não é somente norma de vida que devemos seguir, mas dá igualmente força para cumprir devida e santamente os preceitos que impõe. Dessa luz e dessa força que se derivam do conceito cristão do matrimônio, e da serena, generosa e digna preparação para o mesmo e sua santificação sacramental e da colaboração com a graça, da conduta de toda a vida e do recurso da oração e da recepção dos sacramentos: nascem os lares genuinamente cristãos aureolados de dignidade e santidade.

Nesses lares o pai é proteção, trabalho, fidelidade, honradez e autoridade; a mãe é abnegação, sacrifício, ternura, desvelo, santidade; os filhos são carinho, respeito, obediência, apoio.

Mas, quando Deus com sua lei é desalojado dos lares, e uma vez feito tábua rasa de Deus e sua lei na vida matrimonial e familiar, então seu lugar é ocupado pelas normas e máximas da vida pagã e materialista desprovidas de toda a moral, baseadas na quinta essência do prazer e do egoísmo.

E se em qualquer ordem de coisas, a eliminação de Deus, de sua lei é de trágicas consequências, na vida matrimonial e familiar, a repulsa da moral cristã produz as mais catastróficas desgraças.

Sim, se os cônjuges negam a Deus e desprezam a sua lei manifestada pela própria natureza, donde vem ao matrimônio os dotes de unidade, de indissolubilidade e de honestidade? Sim, se não há Deus, nem se acata a sua santa lei, a unidade, a indissolubilidade, a honestidade do matrimônio são coisas que ficam ao arbítrio, ao gosto e à conveniência dos homens, visto que não se reconhece nenhum superior à vontade daqueles que se unem em vida conjugal, podendo eles estabelecer as condições do contrato e de rompê-lo quando o quiserem.

Negada a lei de Deus, natural e positiva, os contraentes caem irremissivelmente nas uniões esporádicas, nas uniões de experiência, nas uniões de tempo marcado.

Sem a unidade, a indissolubilidade e a honestidade do matrimônio que nascem do mesmo Deus e que se manifestam na lei natural e positiva, caem os homens no que se chama amor livre, que é apenas a etiqueta da paixão livre e da animalidade.

Paixões e vícios têm feito parte de todas as épocas da história. Pecados e vícios são parte do patrimônio antiquíssimo do homem, são as consequências das paixões humanas que no seu ímpeto cego, passam por cima da lei de Deus, calcando-a aos pés.

Porém, há uma diferença fundamental entre os vícios da vida familiar e matrimonial de outras épocas anteriores, e os vícios e aberrações que se dão na família nos tempos que correm.

Antes, na vida matrimonial e familiar existiam faltas e erros, mas em geral os mesmos que os cometiam, não negavam o seu mau proceder, reconheciam a maldade e a perversão que encerrava a sua conduta e por isso procuravam-se ocultar as culpas.

Hoje, pelo contrário, não somente se violam as leis santíssimas matrimoniais e se pisoteiam os deveres familiares, mas alegam-se razões para justificar os atos culposos, querendo fazer crer que nisso não existe mal algum.

Não é a conduta das tribos selvagens que, por não haverem conhecido a santa lei de Deus e a doutrina evangélica de Cristo, viviam no lodaçal em que se cai quando pela cegueira que impõem os vícios, se chega à deformação e ao obscurecimento da mesma lei natural: senão que agora é a conduta dos que negam a lei de Deus e dos ensinamentos de Cristo, e pretendem defender a sua vida depravada, matrimonial e familiar, com razões falazes e motivos aparentes.

Essas aparências de razões nascem do conceito anticristão e pagão da vida, aplicado à família e ao matrimônio.

Quando se nega a Deus e se despreza a sua lei, então é a utilidade, o egoísmo e o prazer, segundo o conceito anticristão de vida, que regulam a natalidade, mas não a finalidade do matrimônio. No lar de tipo materialista, pergunta-se: "Para que filhos? Eles trazem novos gastos, novos cuidados e novos encargos. São um estorvo que impede a liberdade dos movimentos nas diversões e no gozo da vida."

Onde se prescinde da observância da lei divina e dos ensinamentos de Cristo na vida matrimonial, se os pais não têm utilidade em ter filhos, viverão evitando-os por quantos meios lhes seja possível. Pois, quando se considera o filho como um estorvo, ele já é odiado antes de ser concebido; e ainda se tenta eliminá-lo se apesar de todas as precauções ilícitas começou a sua existência.

A tamanha degradação reduz o desprezo de Deus e a negação dos ensinamentos de Cristo! Porque somente o homem pode odiar o filho antes de sua concepção e matá-lo e eliminá-lo para que não obtenha a sua existência. O homem que renegou a Deus e a Cristo na vida matrimonial, caiu na infra-animalidade mais degradante. Pois, os próprios animais não chegam a fazer isto.

Em 1942, estatísticas de uma nação indicaram treze mil mulheres falecidas, vítimas das manobras do assassinato, do homicídio do filho que haviam concebido. Gravíssimas são as consequências da negação de Deus e de suas leis na vida matrimonial.

Os Estados se alarmam ao ver o rápido e progressivo decrescimento da natalidade. E nem todos que nascem, provêm de matrimônio honrado mas da mancebia. É um problema social que preocupa os jurisconsultos e os legisladores das nações.

Os Estados instituem castigos e prêmios. Mas, para aqueles aos quais a remuneração dos prêmios não compensa os gastos do nascimento, da alimentação, dos vestidos, dos médicos, dos colégios e estudos; para aqueles a quem os prêmios não compensam os trabalhos, os cuidados, os desgostos que lhes causam os filhos, para esses: que valor tem a instituição de prêmios para a natalidade?

É exato que os Estados podem decretar impostos especiais para aqueles que não se casam, para os celibatários. Mas certamente não devem ser invejáveis os matrimônios daqueles que só casam para não pagarem um imposto como castigo.

Igualmente os Estados podem criar impostos para os casais sem filhos. Mas, como se pode saber a causa porque não têm filhos? Porque, se não os têm, porque não os podem ter, com que direito castigam os Estados àqueles que contra sua vontade são incapazes de terem filhos? É problema insolúvel o de aplicar com justiça sanções aos atos mais íntimos da vida.

Acresce ainda uma razão preponderante: se os homens não obedecem às leis divinas e aos ensinamentos de Jesus Cristo, como é que respeitarão as prescrições humanas?

Quando se prescinde de Deus e de sua lei, querendo substituí-los por decretos humanos, o termo final será a força bruta, o castigo.

O vício, o egoísmo e o prazer ilícito têm como resultado na vida matrimonial muitos filhos que não nascem; numerosos que são vil e covardemente assassinados antes de nascer; outros que nascem tarados, muitos que nascem para serem abandonados e não poucas crianças que não poderão ser devidamente educadas.

Em uma palavra, a já extensa história da humanidade não é senão uma confirmação clara, da degradação e decomposição em que irremissivelmente cai a vida matrimonial quando nela não se admite a lei de Deus, manifestada pela lei natural.

Quando as famílias viram as costas às leis divinas, então anestesia-se o pudor, não se resiste à infidelidade, prepara-se o divórcio e a infelicidade no lar.

Nos lares não se pode arvorar a bandeira de uma orientação ateísta; mas, pelo contrário, nos lares, em benefício dos indivíduos e da sociedade, deve reinar a honradez, a abnegação, a fidelidade, o carinho que são frutos exclusivos de uma vida conforme à santa lei de Deus.

Com razão, um autor qualifica o divórcio de cancro da sociedade. Diz ele a esse respeito: "A simples separação, limitando-se a suprimir as funestas consequências da vida comum obrigatória, quando cessaram os laços do afeto mútuo, mantém, pela perpetuidade do vínculo conjugal, a indestrutibilidade da monogamia, que é uma conquista da cultura moral e um dos pilares sobre que pousa a organização social.

"Se, pelo contrário, fosse concedido o divórcio do vínculo matrimonial, produziria a mesma sensação de alívio e de desafogo, porém lhe facilitaria o incremento das paixões animais, se enfraqueceriam os laços da família e essa fraqueza repercutiria, dolorosamente, na organização social. Teríamos retrogradado do regime moral da monogamia ao da poligamia sucessiva, que sobretudo debaixo da forma de poliandria é particularmente repugnante aos olhos de todo o homem culto.

"O divórcio fere particularmente a mulher, e isto explica sua aversão quase instintiva contra ele, sobretudo das mulheres mais honestas e mais recatadas que são também as menos aptas para a vitória neste gênero de conflitos da vida.

"A experiência mais rudimentar mostra que os cônjuges são induzidos a tolerar pequenas querelas, disputas insignificantes, e têm diante de si a indissolubilidade de sua união. E que, ao contrário, essas querelas avultam e vão até às últimas consequências, se os cônjuges sabem que se podem separar."

E referindo-se à sorte dos filhos dos esposos divorciados, diz o mesmo ilustre autor: "A situação desses pobres órfãos que têm pais vivos, não ofende somente nossos sentimentos de piedade: ofende também nossos sentimentos de justiça."

"Aquela que tem a ventura de procriar, de ter filhos, contrai a obrigação ineludível, a obrigação irrecusável de dedicar à educação e ao bem-estar destes filhos todas as suas energias afetivas, todos os seus esforços intelectuais e físicos, de modo a prepará-los convenientemente, para que saiam vitoriosos na luta da vida; aquela que tem filhos, não tem direito absolutamente de sacrificá-los ao seu egoísmo."

Observe-se a palavra de Nosso Senhor: "O que Deus uniu, o homem não separe". Os esposos cristãos devem suportar-se mutuamente e cumprir seus deveres recíprocos, na convicção de que Deus lhes dará as graças necessárias para corresponderem às suas obrigações conjugais. Mas, é preciso que santifiquem sua vida familiar pela oração e pelos meios religiosos de que dispõem.

Além disso, será conveniente atender ao aforismo popular: "Antes que cases, olha o que fazes".

CAPÍTULO X

Cristo nos Estados

A estatologia cristã funda-se na palavra de Cristo: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Quando este preceito é observado, reina a harmonia entre os homens.

Pois, a sociedade civil é uma instituição natural implantada por Deus em benefício dos homens. De fato, é uma verdade indiscutível que o homem necessita do convívio social para o desenvolvimento de suas faculdades e a satisfação de suas justas inclinações naturais. Nem a família isolada e muito menos o indivíduo podem conseguir tudo quanto necessitam em ordem à alimentação, saúde, vida e instrução. Os homens e as famílias que se associam entre si, formam a sociedade para obter mediante essa união os bens que, isoladamente, lhes seria impossível obter.

Do conjunto das atividades diferentes dos homens resulta o bem comum. Para consecução desse bem comum é necessário porém, que exista uma autoridade social que organize, coordene e regule as atividades e os trabalhos de todos os componentes da coletividade.

Sem essa autoridade, com poder para regular e organizar as atividades dos membros da sociedade, reinaria a desordem, faltaria quem dirigisse e harmonizasse a atividade dos trabalhos de todos segundo as necessidades coletivas.

Essa autoridade tem intrínseca e essencialmente o poder de criar e promulgar leis mediante as quais se possa obter esse bem comum. Sem autoridade haveria apenas aglomerados humanos, mas não sociedades.

A autoridade pública, como a própria sociedade, têm sua origem em Deus que é o autor da natureza humana. Portanto, a autoridade da sociedade vem de Deus.

Deus designa o fim essencial à sociedade e à sua autoridade: esse fim é o bem comum de todos, o bem comum de todos os homens reunidos em união social. Esse fim não depende dos homens nem da autoridade social, por ser de instituição natural prescrita por Deus à humanidade.

Por isso, disse o Papa Pio XI: "Já que o homem, como a sociedade derivam do Criador, e estão por Ele ordenados para o outro, nenhum dos dois pode eximir-se dos deveres correlativos, nem negar ou restringir os direitos". O fim da sociedade indica a extensão, regula a atividade e põe os limites à autoridade.

Entretanto, Deus não designa a pessoa, nem a forma nem a extensão nem o modo concreto que devem ter a sociedade e a autoridade social.

Pois, a forma como cada sociedade humana há de concretizar o fim imposto por Deus, este a deixou à livre disposição dos homens.

Costumes, tradições, características raciais e outros mil fatores podem eleger e designar livremente a forma da sociedade ou do Estado e o exercício da autoridade social que julguem, em conjunto, o bem comum e geral de todos os cidadãos.

Do que acabamos de expor, conclui-se o seguinte: a sociedade está constituída para o homem e não o homem para a sociedade, sem que disso resulte o sentido do liberalismo individualista que subordina a sociedade ao uso egoísta do indivíduo.

Não é o Estado ou a sociedade que faz os homens, mas os homens fazem a sociedade e determinam os Estados. O homem é homem sem os Estados; mas os Estados não são Estados sem o homem.

O homem possui direitos invioláveis antes de entrar para a sociedade, porque, como diz Leão XIII: "Mais antigo que o Estado é o homem e, por isso, antes que se formasse o Estado, teve o homem de receber da natureza o direito de cuidar de sua vida e de seu corpo."

A família ou sociedade doméstica é verdadeira sociedade e anterior ao Estado, que, portanto, deve ter direitos e deveres próprios e que de nenhuma maneira dependam do Estado, como diz Leão XIII na Encíclica "Rerum Novarum".

É essencial ao homem por lei natural, imposta por Deus, viver em sociedade. Assim o homem está destinado a formar a sociedade civil, para que, por meio da vida no Estado, possa encontrar os recursos necessários para seu próprio aperfeiçoamento. Para isso os cidadãos na vida social têm de renunciar a certos bens particulares que, necessariamente, devem sacrificar em benefício do seu próprio bem superior e do bem comum dos seus concidadãos.

O Estado com sua autoridade tem por fim essencial procurar aos homens que o integram, o bem comum que, fora da vida social, lhes seria impossível obter.

E como nestes tempos, precisamente, se tem abusado não pouco do conceito do bem comum, considerando-o à maneira de déspota que aniquila a seu bel prazer os bens particulares de que a natureza, ou seja Deus, dotou os homens, Pio XII, salientando essa nefasta teoria, explica o que representa o verdadeiro bem comum, como o fez na sua Mensagem radiofônica de 1º de Junho de 1941:

"Tutelar o campo intangível dos direitos da pessoa humana e tornar-lhe fácil o cumprimento dos seus deveres, eis o ofício essencial de todo o público poder. Não é porventura este o significado genuíno do bem comum, que o Estado deve promover? Daqui resulta que o cuidado de um tal bem comum não comporta um poder tão extenso sobre os membros da comunidade que em virtude dele seja permitido à autoridade pública cercear o desenvolvimento de ação individual achada descrita, decidir diretamente sobre o princípio ou, excluído o caso de legítima pena, sobre o termo da vida humana, determinar, a seu talante, a maneira do seu movimento físico, espiritual, religioso e moral em oposição com os direitos e deveres pessoais do homem, e para isso abolir ou tornar ineficaz o direito natural aos bens materiais. Deduzir tão grande extensão de poderes do cuidado do bem comum seria o mesmo que inverter o próprio sentido do bem comum e cometer o erro de afirmar que o fim próprio do homem sobre a terra é a sociedade, que a sociedade é fim em si mesma, que o homem não tem outra vida que o espere fora da que termina neste mundo."

Diz o Sr. Secretário das Relações Exteriores da América do Norte: "O empenho da Carta do Atlântico é lograr um sistema que dê a cada nação, grande ou pequena, uma maior segurança de paz estável, maior oportunidade para a realização de suas aspirações de liberdade e maiores facilidades para o progresso material. Mas este propósito implica uma obrigação para cada nação de demonstrar sua capacidade para um governo estável e progressivo, que cumpra com toda a escrupulosidade os deveres estabelecidos com outras nações, para submeter suas diferenças e disputas internacionais por métodos pacíficos, e para contribuir plenamente à manutenção de uma paz duradoura."

A fim de poder proporcionar a todos os súditos esse mesmo bem comum e superior, tem a autoridade social plenos poderes para promulgar, urgir e sancionar leis que coordenem os atos, que corrijam as omissões no intuito de conseguir a felicidade coletiva dos súditos.

Como corolário se pode acrescentar que nenhum valor tem as leis que os Estados promulguem contra o bem comum das sociedades que os constituem.

Deveres dos Estados

Os Estados por sua própria natureza, como gozam de direitos, também têm deveres. Eles estão como os indivíduos, sujeitos à lei moral e às leis de justiça em tudo, como qualquer simples particular.

A primeira lei que obriga os Estados, é a que constitui a sua própria essência, a de procurar o bem de todos, de todos sem exceção de classes ou de partidos.

E os Estados entre si como os indivíduos entre si devem manter mutuamente o acatamento devido e prestar-se auxílio e ajuda. Já que isto exige o bem dos súditos de cada Estado e o bem comum de todos os súditos dos demais Estados, é daí que resulta o bem comum de toda a humanidade.

Todas estas conclusões que acabamos de enumerar, nascem da finalidade que tem a sociedade civil, ou seja o Estado, intrinsecamente indicada por Deus, Criador do homem e Autor da sociedade.

E realmente excelsa a sociedade civil no plano de Deus já que nela os homens deveriam encontrar o complemento do aperfeiçoamento de todos os bens que a ordem natural exige da natureza humana.

Mas, essa cadeia de conclusões se quebra quando se parte o primeiro anel. Pois, quando se nega a Deus e quando se repelem os ensinamentos de Cristo, quando não se admite o Autor do homem e da sociedade civil, então logicamente temos outra cadeia de conclusões bem degradantes e trágicas para a pessoa humana.

Por este motivo já disse Pio XI: "Quando se arranca do coração dos homens a noção de Deus, necessariamente são estes arrastados pelas suas paixões à mais feroz barbárie."

Quando se nega a Deus e não se admitem suas leis com a finalidade e a essência da sociedade civil e dos Estados, necessariamente precipitamos os Estados e os homens que desgraçadamente os integram, no império despótico da violência e da força bruta.

Se o Estado, se a autoridade da sociedade civil nega a Deus e, consequentemente, que a sociedade civil e sua autoridade venham de Deus, então os Estados se constituem a si mesmos os únicos diretores de toda a conduta humana.

Arvorando-se em deuses, eles se proclamam fontes de todo o direito, de toda a justiça, de toda a obrigação e de toda a moral. Aquilo que eles mandam então é obrigatório para os súditos. Aquilo que seja útil ao Estado, isso é o que é bom. O Estado quando renega a Deus, considera-se dono e árbitro absoluto de tudo, o indivíduo não é nada.

O Estado assim constituído é um deus, se converte no tirano mais opressor e despótico, no senhor absoluto de vidas e haveres, de honras e de crenças.

Os Estados sem Deus são laboratórios onde se está ensaiando a desumanização da humanidade, a despersonalização da pessoa humana; se declara guerra aberta ao Deus verdadeiro, se negam sua existência pessoal e seus direitos sobre o homem e a sociedade; se persegue e se prescreve a moral cristã.

Nos Estados sem Deus são ridicularizadas e escarnecidas as virtudes cristãs. E como eles mesmos constituem a si próprios como deuses infalíveis, usurpam os nomes mais sagrados como altar, culto, sacrifício e martírio num significado essencialmente pagão e anticristão.

Esta assertiva verifica-se plenamente em algumas nações beligerantes da Europa. Por isso o Papa Pio XI já declarou em 14 de Março de 1937: "Não pode ser considerado como crente em Deus aquele que usa seu nome em sentido retórico, mas somente aquele que une a esta sagrada palavra uma verdadeira e digna noção da divindade. Quem com a indeterminação panteísta identifica Deus com o universo, materializando Deus no mundo e deificando o mundo em Deus, não pertence ao número dos verdadeiros crentes."

Assim protesta o Vigário de Cristo contra o abuso sacrílego do emprego de palavras sagradas.

Na sua Mensagem de Natal de 1941 diz o Sumo Pontífice Pio XII:

"De uma viva fé num Deus pessoal transcendente, surge uma sincera e elevada força moral que informa o curso completo da vida, porque a fé não é somente uma virtude, é também o dom divino pelo qual todas as virtudes entram no santuário da alma e constituem esse forte e tenaz caráter que não falha diante das rígidas exigências da razão e da justiça."

CAPÍTULO XI

Cristo e as relações internacionais

A palavra do Salvador "amai-vos uns aos outros", refere-se também aos Estados. Pois, assim como os indivíduos necessitam de auxílio mútuo para o seu aperfeiçoamento, também as nações ou Estados reclamam para os seus próprios interesses um intercâmbio cultural e econômico.

A autarquia completa ou autossuficiência de cada Estado torna-se, praticamente, impossível em vista das diferentes condições que oferece cada país. E se os interesses mútuos reclamam boas relações internacionais, também a fraternidade cristã exige que todos os povos se respeitem e acatem os seus direitos recíprocos.

Mas, havendo-se prescindido do Deus e, eliminada a observância de suas leis, nas relações entre os Estados, não resta outra norma de conduta nem outra garantia em toda a vida internacional que a norma da conveniência própria e da utilidade, norma que impera nos Estados deuses.

Daí é que se deriva a tragédia horrível que se desenrola no gigantesco cenário do mundo. Nos Estados sem Deus as assinaturas dos pactos e dos tratados mais solenes não tem outra garantia que a da utilidade e conveniência dos seus autores.

Onde pois os pactos e tratados não se fundam nas obrigações e deveres que Deus impõe pela sua lei mas somente na utilidade e conveniência; neste mesmo momento em que lançam sua assinatura, sabem ou devem sabê-lo os contratantes que, enquanto lhes convenha e seja útil ao Estado sem Deus, violar esses pactos, esses tratados, os violarão com a mesma facilidade com que os firmaram.

E a razão é evidente. A garantia única de tratados e pactos é a utilidade e é a conveniência. E porque os firmaram porque convinha, os violam e rasgam quando lhes convier.

E é que os mesmos estados totalitários, insistentemente, proclamam que a única norma de moralidade é a que impõe o Estado, e que unicamente é moral aquilo que é útil e conveniente ao Estado.

Com esta norma de moralidade que proclamam em todas as direções do vento os estados sem Deus, fácil é adivinhar a razão dos males que atormentam o mundo inteiro. Não há direitos que valham contra o Estado sem Deus.

Ante esses Estados não há outras razões e outros direitos que os de sua conveniência própria e os de sua força. Por mais antagônicos que lhes pareçam entre si seus interesses, todos coincidem na negação de Deus. Todos negam um Deus pessoal, criador do mundo e legislador supremo.

O Estado é tudo: dono dos indivíduos, dono da família, dono da educação, dono dos filhos, dono da economia, dono das vidas, dono e árbitro da moral.

Quando ao Estado ateu convém a morte, os bens dos cidadãos, as vidas, as honras, a destruição, a guerra: tudo isso não somente deixa de ser crime, mas quando lhe convém assassinar, roubar, caluniar e fazer guerra, aniquilando povos e nações em ondas de sofrimento e dor, em rios de sangue, isso constitui até uma grande e excelsa virtude do Estado.

Acrescenta o Papa Pio XII na sua Encíclica "Summi Pontificatus": "Não ignoremos, é verdade, que afortunadamente nem sempre os princípios ateus exercem absolutamente seu influxo, sobretudo quando as tradições cristãs multissecualres de que se nutriram esses povos, ainda se conservaram, se bem que na subconsciência, profundamente arraigadas nos corações."

Isto é verdade. Também aqueles que, em semelhante caso, renegam a Deus estão, sem sabê-lo eles mesmos, seguindo as normas morais derivadas de Deus pela lei natural impressa em cada homem, e pela lei das virtudes que Jesus Cristo implantou na terra.

Também no ódio mais intenso contra Deus e na rebelde apostasia de sua lei há, de vez em quando, alguma coisa que não é consequência necessária, lógica e fria, dos princípios predominantes nos Estados sem Deus. São raios de luz que brilham nas tormentas ateias que padece o mundo e lançados pela lei natural de Deus e pela lei cristã impressas nos corações e no espírito dos homens.

E ninguém deve iludir-se em face de certos êxitos alcançados pelo Estado sem Deus. Ouçamos a palavra do nosso grande Pontífice atual: "É bem verdade que o poder apoiado sobre fundamentos tão fracos e vacilantes, pode conseguir alguma vez, pela contingência das circunstâncias, êxitos materiais de que se admiram observadores superficiais; mas contudo o momento em que triunfa a lei natural, que abala tudo o que foi construído sobre desproporção velada ou manifesta entre a grandeza do sucesso material e externo, e a fragilidade das razões internas e de seu fundamento moral. Desproporção que subsiste sempre que a autoridade pública desconhece e renega o domínio do Legislador Supremo que, se deu poder aos governantes, indicou também e determinou os limites do mesmo."

Êxitos obtidos com apoio numa conduta moral fora da lei de Deus, não podem compensar a enorme quantidade de males e opressões que provêm como consequências necessárias e palpáveis da constituição intrínseca dos Estados sem Deus, conforme atesta a história.

Sim, a história apresenta as tragédias horríveis que afetam tanto o homem individual como os Estados, na vida interna e nas suas relações internacionais, tragédias que resultam lógica e necessariamente da apostasia de Deus e da repulsa de sua lei.

Lúcifer quis ser igual a Deus e foi lançado no abismo do inferno. Os Estados que se arvoram em Deus, precipitam-se na desgraça.

Escutemos a voz autorizada do Santo Padre Pio XII: "O conceito que assinala ao Estado uma autoridade ilimitada, não é só, Veneráveis Irmãos, erro pernicioso para a vida interna das nações, para a sua prosperidade e para o maior e ordenado incremento do seu bem-estar, mas é causador de males para as relações entre os povos, porque rompe a unidade da sociedade supranacional e fere o valor e o fundamento do direito das gentes, abre caminho à violação dos direitos dos outros e dificulta a concórdia e a convivência pacífica."

Um problema se propõe aos Estados, o qual deve ser resolvido pelos governantes e pelos povos. Ou admitem a Deus como Criador e supremo Legislador e como Autor do homem e da sociedade civil; ou negam a Deus e a sua lei e constituem a si próprios deuses.

Se admitem a Deus e acatam a sua lei, então sabem os Estados que sua autoridade vem de Deus e com isso seu poder se enobrece com a suma dignidade humana. E os súditos dos Estados que admitem a Deus, reconhecem a autoridade civil como derivada da autoridade de Deus pelo que deve ser acatada e reverenciada. Portanto, os Estados como os súditos, como a ordem nacional e a internacional recebem os maiores benefícios da organização cristã dos povos.

Diz o Papa atual: "Com efeito, o gênero humano, conquanto por disposição da ordem natural estabelecida por Deus, se divida em grupos sociais, nações ou Estados, independentes uns dos outros no modo de organizarem e dirigirem a sua vida interna, está todavia ligado por místicos vínculos morais e jurídicos em uma grande comunidade, ordenada ao bem de todas as gentes e regulada por leis especiais que lhe tutelam a unidade e promovem a prosperidade."

Pois, bem sabem os Estados que admitem a Deus, quais são suas gravíssimas obrigações internacionais. Não somente respeitarão os Estados todos, sejam grandes ou pequenos, poderosos ou fracos, e não somente guardarão fielmente as leis internacionais, cujo cumprimento exige o bem dos povos; mas ajudarão em tudo o que for possível a procurar a felicidade da família humana repartida pelas diversas nações.

Por isso, jamais irão à guerra para criar pela vitória da força um direito, por ser absurdo. Nenhum prepotente poderá defender suas conquistas, sentado sobre as pontas de suas baionetas.

Quando tais Estados alguma vez se veem obrigados a ir à guerra para sustentar e proteger um direito legitimamente adquirido, jamais recorrerão à medidas intrinsecamente imorais para obter a vitória pela força; porque reconhecem que a lei de Deus reprova os meios injustos também na própria guerra lícita.

Os Estados que admitem a Deus, compreenderão que para que possam existir entre os diversos Estados e nações da humanidade, relações de fraternidade, harmonia e direitos, é necessário que exista um supremo tribunal independente e justo que nasça da sociedade das nações.

Na sua Mensagem do Natal diz o Papa atual sobre uma paz futura no mundo: Ou a vida das nações se articula no plano de Deus, cumprindo todos os Estados os deveres que impõe sua santa lei; ou o mundo irá de mal em pior, caindo de abismo em abismo, dilacerado pelos horrores dos sofrimentos, que cada vez vão sendo maiores em extensão e em intensidade.

Ou o mundo acata a lei de Deus e então nascerá o bem-estar que é digno da pessoa humana e voltará a paz no reinado tranquilo e duradouro da justiça e da caridade; ou o mundo fica sem Deus, degradado e reduzido à opressão mais indigna da pessoa humana e à convivência dos homens, rebaixando-se à condição de animais enjaulados.

Por isso, com toda a razão, insiste o Sumo Pontífice, dizendo: "Debilitada a fé em Deus e em Jesus Cristo, e obscurecida nos ânimos a luz dos princípios morais, tirou-se o apoio ao único e insubstituível fundamento daquela ordem interna e externa, privada e pública, únicas garantias da prosperidade dos Estados."

Cristo é a pedra angular sobre a qual o homem acha sua felicidade e os Estados sua estabilidade. Sobre esta pedra angular está fundada a Igreja e por isso as potências adversas não poderão prevalecer contra ela.

Qualquer edifício social ou estatal que não tenha por alicerce os preceitos divinos e a doutrina de Cristo, apoia-se sobre areia movediça e seu fim será uma ruína inevitável.

Este é o único meio de salvação: fortalecer a fé obscurecida e debilitada, e voltar a viverem todos, indivíduos particulares e os Estados, segundo os princípios morais de Jesus Cristo.

Sejamos homens de boa vontade, e com o exemplo de nossa vida trabalhemos, para que reine no Brasil e em todo o mundo a paz que somente é possível em Jesus Cristo que é a verdade, o caminho e a vida.

CAPÍTULO XII

Deificação dos homens

Cristo é o Filho de Deus feito Homem. Por isso, tendo a natureza divina, tomou a forma de servo, tornou-se semelhante aos homens, segundo as palavras de S. Paulo. O Filho de Deus se humilhou, enquanto os homens que querem deificar-se, se exaltam orgulhosamente.

No século IV. antes da nossa era, Alexandre Magno, durante as suas estupendas conquistas, encontrou reis divinizados na Pérsia e no Egito. Ele mesmo se fez proclamar filho do grande deus egípcio Amon. Seus generais e seus sucessores, os lagidas do Egito, os selêucidas da Assíria, os atálidas do Pérgamo imitaram o seu exemplo.

Por sua parte, os procônsules que Roma enviava às províncias, com bastante frequência, permitiam que fossem associados ao culto dos deuses locais. Em 44 antes de Jesus Cristo, exasperado o povo com o assassinato de César, obteve uma lei que conferia ao ditador o nome de divino. Em 27 Otávio recebe outro título sagrado, o de augusto. Ele exige que o seu culto fosse sempre unido ao da deusa Roma. Em 14 de nossa era, seu sucessor Tibério, lhe decreta as honras solenes da apoteose. Calígula abandona todos os escrúpulos, exige para si o nome de Júpiter laciaris. Desde este momento pode-se dizer que a demência dos povos, o orgulho dos imperadores, o servilismo do senado, já não conhecem limites.

A lista dos divos proclamados oficialmente, se enriqueceu de tal sorte que foi preciso várias vezes reduzir o número dos seus templos, dos seus sacerdotes e das suas festas. É indubitável pois a facilidade com que o paganismo multiplicou as suas apoteoses.

Ao lado dos estoicos, que aprovavam as honras divinas decretadas para certos mortais por motivo de suas boas ações ou de suas virtudes, epicureus, neo-pitagóricos e neo-acadêmicos as condenaram ou deram claramente a entender em que sentido as toleravam. Em suas Antiguidades publicadas pouco antes da era cristã, Varrão distingue uma teologia mítica, uma teologia civil e uma teologia física. A primeira segundo ele contém numerosas ficções contrárias à dignidade e à natureza dos seres imortais. Representa deuses ladrões, adúlteros e lhes atribui atos indignos ainda dos mais indignos dos homens, a ideologia civil ne restringe ao culto público do Estado.

O nazismo diviniza o seu chefe supremo e os seus heróis. Ensina uma nova teologia: a revelação divina na natureza, no sangue, na raça, no povo e no destino. O cristianismo é a religião dos escravos e os nazistas ensinam a religião livre. Essa teologia reprova o pecado original, mas exalta a nobreza da origem germânica.

No espírito doutrinal do racismo encontramos de um lado a alegria de viver, o poder de expansão do credo humano; de outro, o vale de lágrimas, a força de depressão dos conceitos de pecado eterno, expiação e redenção.

Alfred Rosenberg diz: "O crucifixo é a materialização da ideia de sacrifício, do sacrifício do Cordeiro. É a imagem de desagregação, de destruição de todas as forças, imagem cujo poder de depressão aumenta com a horrorosa e sinistra representação da dor. O fim visado é o aperfeiçoamento da humildade no homem, dessa humildade da qual tem necessidade o sonho de dominação das igrejas."

O hitlerismo vê somente no cristianismo o homem perfeitamente vencido; a oração da Igreja é para ele uma ampla efusão desolada.

Na entrada das aulas da universidade de Halle lê-se o seguinte: "Nós nacional-socialistas não nos arrastamos de joelhos; são os trabalhos desta terra que nos ocupam. Nosso paraíso, o verdadeiramente nosso, é este planeta; não nos interessamos do além-túmulo. Não temos necessidade de diretores de consciência. A terra! esse é o objetivo do partido. Nós sentimo-nos bastante vigorosos para atravessar o mundo de pé e com firmeza. Não somos seres suspensos na esperança de uma redenção. Somos jovens livres e autônomos."

Através de uma larga literatura com riqueza imensa de variantes, aparece sempre o motivo central: a incompatibilidade fundamental entre o cristianismo, religião de abdicação, e o orgulho da ação, único clima vital para o nazista. Tema seguido de obrigada consequência: a necessidade de empunhar a espada contra a doutrina estrangeira, "a doutrina do oriente" e voltar às puras fontes do germanismo, reatando assim uma "sã tradição interrompida por mil e oitocentos anos de vergonhoso cristianismo".

A campanha contra o cristianismo não poderá dar ao jovem nazista uma religião nova inspirada na antiga mitologia germânica, como muitos filósofos alemães o pretendem. Mas não há dúvida, mostrou-se muito eficaz na destruição. Observa-se uma lenta dissolução das crenças na Alemanha. As gerações que chegaram à madureza do espírito, as que Hitler chama os inadaptáveis, escaparão ao contágio. Mas os jovens que formam a pedra angular do nazismo, repudiarão uma crença que seus diretores lhes apresentam como oposta à ação, contrária à vida, ao dinamismo nórdico, ao ideal germânico.

O nazista conseguiu, pelo menos em grande parte, o que se haviam proposto homens como Walter Darré, ministro da agricultura, Alfred Rosenberg, chefe do departamento cultural, Baldur von Schirach, chefe da juventude, Otto Hess, alter ego de Adolfo Hitler: a modificação profunda da alma do povo, a expulsão do cristianismo, considerado como um corpo estranho da vida alemã.

Por isso, os corifeus nazistas pretendem fundar uma igreja nacional alemã. Diz Alfred Rosenberg: "A base para a fundação de uma igreja nacional alemã não é certamente um compêndio de afirmações metafísicas, nem um conjunto de fatos históricos, sejam estes verdade, ou lenda, mas a criação de uma ordem de valores superiores. Queremos criar uma elite humana que por cima das convicções religiosas ou filosóficas tenha reconquistado a confiança interior, uma confiança inquebrantável na categoria racial à qual pertence, uma elite que em dura luta se terá elevado a uma concepção heroica da vida. As controvérsias doutrinais sobre as relações entre a natureza divina e humana na Pessoa de Cristo, sobre a caridade e a graça, sobre a imortalidade da alma: colocam-se fora da óptica de uma religião renovada, fundada sobre bases germânico-alemãs".

Uma lenta e metódica destruição é levada a meia luz, para que, sem luta, o jovem nazista perca a fé cristã. Não certamente para deixá-lo sem religião, senão para dar-lhe outro favorável aos desígnios guerreiros do nazismo. Uma religião alemã que eleva à divindade a nova e sacrílega trindade de raça, terra e Estado.

Desprendidos das especulações metafísicas que perderam todo o valor aos seus olhos, os nazistas colocam sua fé inteira nas tarefas imediatas que lhes propõe a Alemanha.

Os nazistas dizem, perversamente, que a fé na Alemanha é uma fé religiosa. Dizem que a palavra trabalho por trabalhar é para eles mais que uma expressão de resignação; é a expressão de uma nova religião, a religião da atividade e do esforço. A fé na Alemanha é para eles em última análise uma fé sem o Deus verdadeiro.

O nazismo ao descristianizar a juventude, nunca quis fazê-la propriamente ateia; não propõe às suas tropas o ateísmo comum, mas lhes dá um sucedâneo, um substituto de Deus.

Na mentalidade racista, a cruz gamada ou suástica, constitui a herança espiritual, a herança de um cristianismo cambaleante, do qual se afastam as almas. O advento do nacional-socialismo é para os nazistas a substituição de um ideal novo a um ideal gasto; o mito da nação substitui o mito de Cristo.

O racismo, segundo Goering, devolveu uma alma à Alemanha, porque lhe fez encontrar o seu espírito germânico coberto por séculos de um cristianismo oriental; deu a fé a um povo que havia cessado de crer. Não na aceitação que o chefe do racismo repele com maior energia do que o ateísmo, porque isto os aproximaria a Moscou. Do cristianismo os nazistas rejeitam os dogmas. Qualificam as Sagradas Escrituras como judaicas e o catolicismo e o protestantismo como princípio de desagregação nacional. Mas conservam a categoria do divino na ideia nacional e o princípio da emoção religiosa no dom místico e total do indivíduo à nação.

Um dos chefes declarou: "Um nacional-socialista não será jamais irreligioso, porém separar-se-á de toda a confissão principalmente da católica ou protestante. Sua fé, seu dom de sacrifício pelo ideal nazi, realizam nele o que o homem alemão concebe como verdadeira religiosidade".

Tudo isso é um absurdo, digno de mentecaptos.

No congresso da liga universitária nacional-socialista, que teve lugar em 1936 em Ulm, Rosenberg recordava aos professores o que ouviam, a necessidade sempre maior de substituir as Escrituras Orientais pela história do germanismo primitivo que dá ao alemão novamente contato com suas raízes. "A questão que hoje se nos apresenta, diz o mesmo, é a seguinte: Onde é que devemos ver nossos antepassados? Nos germanos ou helenos, ou nos judeus ou nos sírios? A questão se resume para nós em saber onde se encontra a terra santa dos alemães.

"Nós cremos firmemente que esta terra santa é a Alemanha e não a Palestina. O solo sagrado para nós é o solo pelo qual os alemães têm combatido, o solo trabalhado pelo arado, guiado pelas mãos do camponês, abrindo o seio da nossa mãe, a terra. Se abrangemos com um olhar a evolução histórica, temos o direito de dizer que a pré-história constitui o antigo testamento do povo alemão."

Religião das origens, da terra, hino ao solo virgem da Germânia numa aurora helênica da pré-história. O nazista encontra em si mesmo o princípio de adoração, e a última palavra que consentirá em tirar do seu vocabulário, será a da religião.

Ora, tal ficção de religião é simplesmente ridícula. Esta teoria do nazismo é um verdadeiro compêndio de erros históricos, religiosos e filosóficos. Admira de fato haver homens que, prezando-se de instruídos e cultos, admitam e ensinem, não obstante, teorias tão absurdas.

Entretanto, não faltam adeptos que abracem os ensinamentos reprováveis do nazismo. Pois, estes alimentam o orgulho e permitem o despotismo e o emprego de todas as violências. E é de lastimar deveras que achem em outros países certa imitação, embora sob forma diferente. As apoteoses e deificações no paganismo antigo são inferiores aos processos de divinização do nazismo que apesar de todos os pesares encontra ainda imitadores.

O Santo Padre, tendo profunda compaixão com os católicos germânicos, lhes dirigiu as seguintes palavras paternais: "De todos os modos os bispos podem assegurar aos católicos, que Nós, o Sumo Pontífice, sofremos juntamente com eles as amarguras que têm que suportar; que diariamente rogamos a Deus para que Ele queira conceder-lhes todo o amparo que tão urgentemente necessitam nas suas dificuldades. — Quando chegar o momento estabelecido nos desígnios da Providência, Cristo se levantará em defesa dos seus próprios direitos, de sua Igreja e de todos aqueles que lhe pertençam".

CAPÍTULO XIII

Os católicos e a reforma da sociedade atual

A firmeza na fé e o cumprimento exato de seus deveres confere aos católicos a força para resistir às tentativas da irreligião e da apostasia.

Nós bispos católicos consideramos como estrito dever e grande honra nossa a obediência exata ao Sumo Pontífice Romano. Portanto, qualquer que seja a consequência ou conjuntura da guerra atual, seremos sempre fiéis ao juramento prestado na hora da nossa sagração episcopal. Seremos obedientes a S. Pedro Apóstolo, à Santa Igreja Romana e aos Papas. Defenderemos sempre o Pontificado Romano e as regalias da Igreja Católica. Seremos sempre auxiliares do Sumo Pontífice, a quem Deus concedeu os poderes de governar a Igreja Católica Apostólica Romana. Ao Sumo Pontífice prestaremos sempre a nossa perfeita sujeição e obediência. Cremos que a Igreja Católica é a única verdadeira e condenamos todas as heresias que se levantam contra a mesma. É este o resumo do nosso juramento. De modo semelhante, prestaremos o devido acatamento aos seus representantes.

E por outro lado, exortamos com todo o vigor da nossa alma, o nosso clero, que considere a sagrada Ordem do presbiterado recebida pela misericórdia de Deus e que jamais olvide a promessa feita ao seu Prelado no dia de sua ordenação sacerdotal. Ele perguntou a cada um em particular: "Prometes a mim e a meus sucessores reverência e obediência?" E profundamente comovido respondeu o ordinando: "Prometo!" E em seguida o Antístite lhe disse: "A paz do Senhor esteja sempre contigo."

Outrossim, os católicos em geral devem recordar-se de suas promessas de batismo. Todos eles, pessoalmente ou por intermédio de seus padrinhos, renunciaram a Satanás, às suas pompas e suas obras, prometendo fidelidade à Igreja Católica.

De modo semelhante, protestamos, nós bispos, clero e católicos, às instituições da nossa Pátria e ao supremo magistrado da Nação e bem assim aos seus legítimos delegados: respeito e acatamento.

Sobre estes fundamentos deve alicerçar-se, nos tempos atuais como sempre, a atitude dos bispos, do clero e dos católicos, e sobre os mesmos fundamentos se baseiam suas atitudes sociais e públicas.

Pelo preceito da caridade sobrenatural que obriga também ao amor da pátria, o católico deve trabalhar, com máximo empenho, pela paz e prosperidade pública, e consequentemente, para que a organização estatal seja cristã e perfeita, realizando-se, assim, com maior eficácia o bem comum, fim e razão de ser da sociedade.

Se Deus destinou o homem à vida social civil porque só nela pode realizar as razoáveis exigências de sua vida e obter suas finalidades intrínsecas, intelectuais e morais, temporais e eternas, é vontade divina que a sociedade se organize segundo o espírito de Cristo e na mesma exista o mais alto grau de perfeição, visto que melhor conseguirá o fim a que se dirige, quando ela estiver mais elevada.

O católico, pois, que há de secundar os planos do Redentor do gênero humano, deve consagrar-se de corpo e alma ao triunfo completo de uma salutar forma social em todos os setores da vida, também cultural e econômica, e para isso não somente deve colaborar com os representantes da legítima autoridade, mas também interessar-se no sentido de assumir encargos importantes, ainda os mais elevados, precisamente para realizar com maior eficácia o triunfo do bem.

Por esta causa, se a eventual abstenção de toda a atividade política pode justificar-se, quando em vista de razões objetivas se julgue nociva à boa causa ou pelo menos inútil ou menos útil que o isolamento e o ostracismo: o afastamento sistemático é um pecado contra a justiça social e contra a caridade.

"Pode muito bem suceder, escreve Leão XIII, que por causas gravíssimas e justíssimas não convenha intervir no governo de um Estado e nem ocupar nele cargos políticos; mas, em geral, como temos dito, não querer tomar parte nenhuma nas coisas públicas, seria tão mau como não querer prestar-se a nada que seja de utilidade comum, tanto mais quanto que os católicos, ensinados pela mesma doutrina que professam, estão obrigados a administrar as coletivos e ociosos, facilmente se apoderarão das coisas públicas pessoas cuja maneira de pensar pode não oferecer grandes esperanças de governo salutar."

O entusiasmo em cumprir essa gravíssima obrigação de caridade social, deve respeitar as diferentes ideologias sobre a melhor classe de governo, sobre tal ou qual forma de constituir os Estados ou temas semelhantes. Cada nação tem o direito de escolher a forma do seu governo e o seu regime político, dentro das normas da lei divina.

Pois, ensina o grande Pontífice Leão XIII: "Se a controvérsia se refere a coisas meramente políticas, a melhor classe de governo, a tal ou qual forma de constituir os Estados, poderá nisto haver uma honesta diversidade de opiniões."

Cada um, segundo a sua consciência retamente formada, pode ter o seu ideal nacional e trabalhar para realizá-lo.

Se a religião católica impõe grave obrigação de obedecer à autoridade legítima e de colaborar na atividade política, o que hoje se chama moral nacional, ou seja, o conjunto de deveres cívicos, é parte integrante da moral católica. Para um discípulo de Kant haverá separação entre religião moral e direito, e para um ateu poderá haver moral individual, familiar e social sem sentido religioso.

Mas, para um católico nada significa a pretendida antinomia entre deveres nacionais e deveres religiosos pela simples razão de que Cristo, cuja revelação a Igreja Católica conserva e ensina, prescreve o cumprimento de todo o dever pelo mesmo motivo religioso fundamental, isto é, porque a vontade divina, como manda amar a família e obedecer às prescrições do seu chefe, ordena também amar a pátria e obedecer aos legítimos governantes como ao mesmo Cristo.

Sob este ponto de vista um católico não pode fazer distinção entre a obrigação real de obedecer ao soberano ou secundar seus desígnios patrióticos, e de receber os santos sacramentos ou praticar atos de culto interno e externo. Ambas as coisas são prescrição divina.

Não pode, pois, haver hostilidade entre a moral nacional e a moral religiosa, nem ainda independência ou separação. Pois, a moral nacional é moral religiosa, ou não é moral.

Portanto, os deveres cívicos e nacionais se integram nos deveres religiosos. Às vezes, o problema está em determinar se existe ou não em concreto tal ou qual dever cívico; porém, jamais em si há "uma província moral absolutamente desligada da moral religiosa". Jamais entendeu a Igreja que nas palavras de Cristo: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", se ensinasse tal separação.

De fato, se indica o contrário. Pois, se dá a entender que, umas vezes, o mandato de César se pode opor ao divino. Então não existe a obrigação de cumpri-lo. Deus, neste caso, proíbe tal exigência e a ele se há de obedecer; outras vezes, não se oporá ao de Deus e então é preceito legítimo, que infere dever autêntico de obediência, porque Deus quer que seja obedecido.

A Igreja de Cristo consagra a autoridade civil legítima — se não é legítima não é autoridade — e urge por motivos de religião, a obediência e cordial colaboração dos cidadãos.

Diz Santo Agostinho: "Se os reis e os povos, os que mandam e os que obedecem, toda a idade, sexo e condição, observassem os preceitos cristãos, então o mundo seria abrilhantado pela possível felicidade da vida presente, e esta seria a escada para subir à felicidade plena e beatificante da futura."

"Se as leis civis se opõem às divinas, se menosprezam os direitos eclesiásticos, se impedem o cumprimento dos deveres religiosos, se violam a autoridade de Jesus Cristo no seu Vigário, há obrigação de não cumpri-las. Obedecer seria um crime."

Todo o cristão está obrigado a julgar as coisas de fé e costumes e os assuntos com elas relacionados, como as julga o Papa por si ou por seus representantes autorizados, em razão de sua dependência da autoridade doutrinal pontifícia.

Como, por outra parte, a assistência do Espírito Santo foi prometida por Jesus Cristo ao magistério eclesiástico e este por tradição e exímia prudência, prepara suas resoluções com o puro desejo de acertar, utilizando os mais excelentes e desapaixonados elementos com viva consciência de sua máxima responsabilidade perante Deus, perante a Igreja geral e ainda perante o universo: é natural que os decretos da Santa Sé em assuntos doutrinais, ainda que não se trate de definições, possuam as maiores garantias de objetividade e verdade. Por isso, dissentir deles é enorme imprudência proibida ao católico pela própria lei natural.

Existe uma série de preceitos que todo o homem quando chega ao uso perfeito da razão, deve subscrever no seu interior e acatar na sua conduta. São, em concreto, os mandamentos da lei de Deus. Contra eles não é lícito rebelar-se. Nenhum cidadão pode licitamente combatê-los por palavras e escritos sob pena de demolir os princípios normativos da vida moral e social.

O Estado obrigado estritamente a procurar o bem comum e por isso mesmo a conservar a sociedade, fomentar a sua unidade, firmar a paz e a ordem, promover a verdadeira cultura, desenvolver a riqueza, fortalecer o poder defensivo da nação: deve alicerçar sua conduta nesse fundamento granítico.

De fato, como haverá unidade social, paz, ordem, riqueza, verdadeira cultura da verdade e do bem, sem justiça e caridade, sem costumes morigerados, sem disciplina e obediência, sem governo providente e paternal? Pois, tais virtudes são impossíveis onde não se acatam os preceitos do decálogo.

Pode pois e deve o Estado procurar que todos os cidadãos sejam instruídos na doutrina e na prática da lei natural e proibir eficazmente toda a manifestação externa de rebeldia e de todo o proselitismo contrário.

O Estado tem autoridade para tomar quantas medidas sejam oportunas em ordem a que sejam aceitos e praticados os princípios da lei natural e para ditar leis e preceitos em particularidades onde aquela não decide.

O Estado bem que possa desdobrar certas disposições legais, necessárias ao bem comum, não pode proibir a instrução religiosa aos cidadãos. A fundação de centros de ensino inferiores, médios e superiores, como meio eficaz para desenvolver vigorosamente a cultura e educação católica, é direito intangível da Igreja, o que não impede que o Estado deva ser atendido no assunto de oficialização, exames, programas e métodos. Pois, não existe bem comum real contrário à obra evangelizadora da Igreja.

Todos os cidadãos em qualquer regime político devem observar o preceito de Nosso Senhor: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". E não obstante é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens. A todo o cidadão a natureza reservou domínios em que César não tem jurisdição.

A Igreja de Cristo é autêntica defensora da dignidade pessoal e da liberdade humana. Ela é a primeira que aprendeu do Salvador que o homem, remido com o sangue divino, é portador de valores eternos como filho atual possível de Deus e herdeiro do Paraíso. A personalidade individual é o supremo valor na sociedade cristã. O Estado, totalitário ou democrático, não é fim mas puro meio ou instrumento para conseguir a prosperidade comum dos homens que vivem em sociedade.

Do que acima fica dito, pode-se inferir que o cristão autêntico, o católico verdadeiro, é o melhor cidadão, pois obedece fiel e religiosamente aos legítimos superiores. Ele vê na vontade dos mesmos uma disposição divina, colabora na obra nacional com sincero amor à pátria e abnegação acrisolada, porquanto assim o exige o preceito da justiça social e da caridade cristã, em consonância com os impulsos naturais do patriotismo, comum a todos os bons cidadãos.

Mas este mesmo cristão não reconhece nenhuma autoridade contra os direitos de Deus e de sua santa Igreja. E se obedece ao homem como à mesma divindade quando o mandato é legítimo, morrerá antes que submeter-se a uma vontade contrária a Deus e ao seu Vigário na terra.

O bom católico se lembrará da palavra de Jesus Cristo: "Todo aquele, pois, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus. Quem, porém, me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus".

"Em vez de palavras, o momento é de ação e durante a guerra, é de clarim, de tambores, dentro de plena harmonia interna, para que possamos enfrentar o desafio externo para impedir que ele devore as fronteiras da Pátria. A menor perturbação de ordem é um atentado contra a Pátria e um serviço prestado ao inimigo."

CAPÍTULO XIV

A ordem velha

As duas frentes de beligerantes falam, com mais ou menos sinceridade ou seja com menor ou maior dose de utilidade própria, de uma nova ordem que há de aparecer no fim da guerra atual. Parece quase que as duas facções opostas arrependidas do seu passado político e nacional, pretendam animar seus súditos e atrair inimigos e neutrais, projetando, por isso, sobre as sombras e trevas do mundo entristecido, o clarão anunciador de uma nova vida social e política, que, enquadrada na ordem nova, complete a felicidade dos povos.

Também o Sumo Pontífice Pio XII, sobretudo no seu discurso de 24 de Dezembro de 1940, falou aos Cardeais e ao mundo, de uma ordem nova, mui diferente, porém, da qual falam os beligerantes, e, sobretudo apoiada na moral católica, único fundamento de uma verdadeira ordem cristã e pacífica.

Trataremos do assunto em apreço segundo a mente do Papa Pio XII gloriosamente reinante, o qual indica as causas principais, classificadas por grupos, do desastre que todo o mundo padece.

São causas políticas, econômicas, sociais, internacionais e morais que, influindo na formação e na natureza da ordem velha, trouxeram como castigo de Deus o duro flagelo da guerra. É um verdadeiro castigo que a humanidade padece, castigo dado por Deus ao homem, mas de tal maneira que parece infligido pelo mesmo homem sem intervenção da Providência.

São seres humanos que numa exaltação inexplicável de crueldade e malícia se matam uns aos outros sem compaixão, mantêm em pé de guerra milhões de soldados, arruínam milhares de famílias, encerram o mundo inteiro num círculo de fogo e prejudicam os próprios países neutrais que pretendem permanecer alheios ao conflito. Dessa maneira Deus castiga os homens.

Em contraposição, pois, à ordem velha, a ordem nova deve apoiar-se em fundamentos políticos e numa base social e econômica adequada para realizar uma reforma profunda na vida internacional, alicerçada numa concepção autêntica da moral cristã.

Uma verdadeira mistificação de conceitos se operou em todos os setores da vida. Os livros e os periódicos, muitas vezes apaixonados, em vez de esclarecer ideias, têm feito o contrário, alimentando de paixões a vida intelectual. Está em crise o conceito de democracia.

Partindo do conceito reto e cristão de que a democracia há de governar-se em favor do povo, chegou-se ao conceito de que, necessariamente, havia de governar-se pelo povo. E o que é pior é que a suprema fonte de autoridade era o próprio povo, o qual com igualdade absoluta de direitos pessoais, havia de intervir em todos os atos principais da vida política.

Tremendo erro que, além de estar condenado pela Igreja, no sentido de que a autoridade procede do povo, deu lugar aos mais lamentáveis apaixonamentos, ao utilitarismo mais crasso posto em frente do bem comum; e trouxe a desgraça de muitas nações e povos.

Se a democracia houvesse sido a compreendida por Leão XIII na sua Encíclica "Graves de communi" de 1901, ou mesmo a preconizada pelos bispos norte-americanos em 24 de Novembro de 1938, por motivo da fundação da universidade de Washington, a questão social não teria chegado a consequências tão funestas. Pois, a última razão e fonte da autoridade se acha em Deus, criador da sociedade. O povo pode designar o agente da autoridade, mas não cria-la.

Porém, como é comum nos povos ir ao extremo contrário do que se tem por mau, — em medicina política aplica-se o aforismo "contraria contrariis curantur" — as naves estatais seguem rumo contrário e entram em outros mares acaso mais procelosos.

A conquista do Estado por uma classe manifesta-se nos últimos anos como fenômeno que se estende pelo mundo. Começa na Rússia com o bolchevismo em 1917; continua na Itália com o fascismo em 1922; na Alemanha com o nacional-socialismo em 1929, etc., vulgariza-se a ideia e se chega a converter o Estado em instrumento de dominação em favor de uma maioria ou minoria, com prejuízo mais ou menos indireto ou oculto daqueles que não pertencem ao grupo vencedor.

Navega-se por mares anti-democráticos, mas não por isso fora de tormentas perigosas. Uma vez conquistado e dominado o Estado pelo poder, tudo está ganho em favor da classe dominadora. O que desta teoria e destes fatos se pode derivar, todo o mundo vê e sabe.

Dentro do mesmo plano cabe ainda considerar outra confusão lamentável de ideias em ordem ao que hoje se chama nacionalismo. Ante o conceito democrático, hostil ao internacionalismo e um conceito socialista de supra-nacionalismo, se quis e surgiu o nacionalismo. E se o internacionalismo de vaselina ou supra-nacionalismo socialista eram maus, também exagerados como hoje se exageram frequentemente, o conceito e as consequências do nacionalismo são reprováveis.

Porque nacionalismo representa, segundo os corifeus exaltados da doutrina, ânsia de engrandecimento nacional por cima de tudo, a exaltação do que é próprio com desprezo do alheio, implantação de fronteiras econômicas, sociais e políticas ante outras nações, dominação de povos fracos, vontade forte de imperialismo.

Diz um autor que o nacionalismo exagerado é a pior heresia da época. Porque para o nacionalismo exagerado, uma parte é sobrevalorização, exaltação idolátrica de si próprio, culto da nação, fonte de egoísmo e de ego-centrismo, quando se trata do que é nacional; e, por outro lado, falta de objetividade, cegueira, ausência do sentido da realidade, quando se trata de outros povos. É a sua cultura a cultura, sua língua a língua, sua vida a vida, sua religião a religião, sua economia a economia. Como se o alheio confrontado com o nacional fosse de ordem secundária; como se os demais tivessem de levar a argola da escravidão mais abjeta ao lado das coisas próprias.

O fundamento desse nacionalismo é sempre de ordem material: a raça, a língua e outros atributos. Falta muito de espírito e de submissão à ordenação de Deus, que cria iguais todos os homens quanto à sua natureza e últimas finalidades, sejam de que raça ou estirpe humana forem e falem a língua que quiserem. Não se o confunda com patriotismo que, sendo virtude de amor apoiado em motivos de índole mais espiritual, cria uma união íntima com a terra pátria rorejada pelos suores e trabalhos dos antepassados: patriotismo que enfim de contas é caridade estendida a uma família mais ampla de ideias e história entrelaçadas através de séculos.

Junto à ordem política interna considere-se a ordem internacional dos países. Novos desastres.

Com tendências de puritanismo formou-se em 1919 a Sociedade das Nações, a fim de que mutuamente garantissem os povos seus direitos, protegessem os fracos, evitassem as guerras e fortalecessem os tratados. O magnífico plano fundamental da Sociedade desvirtuou-se em múltiplos regulamentos e convênios em que prevaleceu a lei do mais forte como mandante principal e o meio fácil de saída como recurso feliz, quando não se queria obedecer às normas da maioria.

E, o mesmo na ordem internacional que na política, a ruptura ou antes a lenta dissolução da Sociedade das Nações, em seu próprio seio, trouxe consigo ânsias de exageradas autarquias e consequentes ampliações de fronteiras. A nação havia de ser, separada, uma arcádia feliz, graças ao surto benéfico de uma autarquia econômica e política.

Pelo mesmo tempo começa entre as diversas nações junto a uma corrida desenfreada de armamentos, outra não menos intensa de tratados e convênios. De um lado, a paz armada mais do que nunca; por outro, uma chuva de tratados e alianças. Não há época na história do mundo em que houvesse mais convênios de defesa e proteção que no período dos últimos vinte e cinco anos.

Eis um ligeiro resumo: em 1919: os tratados de Versalhes, S. Germain e Neuilly; em 1920: tratados de Trianon e Sevres; 1921: tratado das quatro potências a respeito da costa do Pacífico; em 1922: tratado das nove potências para determinar a política de porta aberta na China, tratado naval de Washington para refrear os armamentos navais; em 1923: tratado de Lausanne para regular os problemas do oriente; tratado posterior para as potências americanas; em 1925: tratado de Locarno para segurança das potências ocidentais; em 1926: tratado de Briand-Kellog para deixar a guerra fora da lei; em 1929: tratado geral de arbitragem americana; 1930: tratado naval de Londres; 1932: acordo americano sobre reconhecimento de bens obtidos pela força; 1933: protocolo para definição de agressor; pacto de conciliação Saavedra Lamas; pacto dos quatro; 1934: protocolo danubiano de Roma; pacto da entente balcânica; pacto da entente báltica; 1936: pacto naval de Londres; pacto anti-comintern; convenção de Buenos Aires; 1937: ato da entente entre os países do próximo oriente; 1938: pactos pré-bélicos e bélicos; acordo de Munique; pacto tripartite; tratado anglo-polaco; russo-alemão; anglo-russo; russo-japonês; russo-polaco; convenção do Atlântico; pacto de Washington, etc.; 1939: a guerra que escarnece de todos os pactos e convênios e que havia ficado fora da lei, triunfa e ceva-se, como incêndio horroroso, passando os mares até aos extremos do mundo.

Pode-se aqui lembrar a palavra de Platão: "Quando maior for o número de leis numa república, a república é pior". Quanto mais pactos e leis existem nos Estados, a tensão é mais alta e o perigo mais iminente. Nunca houve nem tantos pactos nem tantas e tão terríveis guerras.

Ocorre na vida internacional o mesmo que na vida econômica: nesta é péssimo presságio a inflação do dinheiro, naquela é de mau agouro a inflação de leis e tratados.

As ideias acompanham os fatos. A tese tradicional da fidelidade ao estipulado: "pacta sunt servanda", é preciso guardar os convênios, teve que ceder à imposição de novas ideias. Chega-se ao rompimento dos tratados sem respeito ao bem comum. O utilitarismo como norma fundamental suplanta a justiça que se retira envergonhada.

Economicamente há duas grandes causas de distúrbios já várias vezes indicadas pelos Pontífices nas suas alocuções, mas nunca suficientemente atendidos pelos Estados nem pelos particulares em geral: uma má distribuição dos bens econômicos no mundo e uma ânsia de dominação econômica que agrava o problema de repartição.

É triste verificar que, tendo Deus criado os bens naturais da terra para alimento e sustento de todos os homens, muitos morrem de fome e de miséria, enquanto milhares nadam na opulência.

Bem se entende que todos estes fenômenos tem uma raiz moral profundíssima que não é senão o egoísmo mais iníquo, baseado na autossuficiência de quase cada qual e apoiado em todos os meios justos e injustos, e o aumento de bem estar próprio, prescindindo dos demais, como se o mundo fora de eu se compusesse somente de samaritanos que podem ser impunemente saqueados e mortos, sem que merecessem sequer a denominação de próximos.

Assim a ordem velha se apoia na destruição das virtudes fundamentais da sociedade das quais basta citar as duas fontes de paz e tranquilidade: a justiça e a caridade. Mortas estas, não há vida nem nas nações nem nos povos.

Isto sim: para destruir estas virtudes, se inventam teorias mais ou menos novas ou mais ou menos renovadas: a teoria da raça ou do sangue ou a própria utilidade.

Será por isso melhor a ordem nova?

CAPÍTULO XV

A nova ordem

No primeiro ano do seu pontificado e da guerra, ao agradecer aos Cardeais que o felicitavam pelo Natal, traçou o Sumo Pontífice o seu célebre programa dos cinco pontos para a verdadeira paz:

A paz deve assegurar a vida e a independência das nações livres;

A paz deve interromper a desenfreada corrida de armamentos;

Deve-se fazer um verdadeiro exame dos antigos defeitos e das consequências deles derivadas;

É preciso prestar suma atenção às petições e necessidades das nações e povos e das minorias étnicas;

Tudo isso há de ser informado pelo sentido de responsabilidade e por uma verdadeira sede e fome de justiça.

Em 1940, justamente depois de um ano, o Papa falou explicitamente da ordem nova, ordem que segundo o mesmo não podia nascer no mundo sem as cinco vitórias seguintes:

Vitória sobre o ódio;

Vitória sobre a desconfiança na ordem internacional;

Vitória sobre o princípio utilitarista;

Vitória sobre germes de conflitos e de divergências inerentes à economia;

Vitória sobre o espírito de frio egoísmo.

Premissas Fundamentais da Ordem Nova

Em 24 de Dezembro de 1941 volta o Sumo Pontífice ao mesmo tema e fixa as premissas fundamentais de uma nova ordem internacional, a saber:

Não prejudicar a integridade e a segurança de outras nações;

Não oprimir nem aberta nem ocultamente as peculiaridades étnicas e linguísticas das minorias regionais;

Não monopolizar as fontes de produtos econômicos;

Não procurar mais guerras nem maiores armamentos;

Não perseguir a Igreja de Cristo.

Quem considerar atentamente os textos pontifícios que nos fornecem estes resumos, verá claramente que quatro são as causas principais do mal antigo apontadas pelo Pontífice: causas de ordem política nacional, causas de ordem política internacional, causas econômicas e causas morais.

Na Mensagem radiofônica de 1. de Junho de 1941 o Papa Pio XII assim se exprime: "A Encíclica Rerum Novarum expõe sobre a propriedade e sobre o sustento do homem princípios que com o tempo nada perderam do seu vigor congênito e hoje, à distância de cinquenta anos, conservam ainda e jorram vivificante a sua íntima fecundidade."

Direito aos Bens Materiais

"Todo o homem, como vivente dotado de razão, recebeu da natureza o direito fundamental de usar dos bens materiais da terra", embora se deixe à vontade humana e às formas jurídicas dos povos o regular mais particularmente a sua prática atuação. Este direito individual não pode de modo nenhum ser suprimido, nem sequer por outros direitos certos e pacíficos sobre bens materiais.

"Sem dúvida a ordem natural, que tem em Deus a sua origem, requer também a função reguladora do poder público sobre estas duas instituições. Tudo isto, não obstante ficar subordinado ao fim natural dos bens materiais, nem pode prescindir do primeiro e fundamental direito, que a todos concede o seu uso; mas antes deve servir a tornar possível a sua atuação em conformidade com o seu fim. Só assim se poderá e deverá conseguir que a propriedade e o uso dos bens materiais deem à sociedade paz fecunda e consistência vital, e não constituam circunstâncias precárias, causadoras de luta e invejas, quando abandonadas ao jogo desapiedado da força e da fraqueza." O Sumo Pontífice fala com bastante clareza.

De maneira que, posto nestes termos o problema, será lícito perguntar se o Estado, quando efetivamente o povo morre de fome e não tem trabalho, pode recorrer ao auxílio das fortunas dos poderosos e ricos para sustentar os fracos? Pode e deve. Esta é a realidade!

Nem isto basta. Como muitas vezes a ruína e a fome dos povos dependem mais do que da desproporção das fortunas particulares, das desarticulações do comércio mundial e internacional, dos desejos egoístas dos países; em tal caso o problema é o seguinte: podem os países mais fortes negar suas riquezas aos mais fracos e impedir-lhes pela força seus produtos? Não podem! Esta é a segunda contestação adequada à mente pontifícia sobre a ordem nova.

A evolução histórica europeia é muito simples e exemplar neste sentido. Os países europeus vão lentamente mudar seu aspecto agrícola em industrial: Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Itália. E quando se acham em condições em que a indústria lhes dá poder mas não comida, precisam apoiar-se em colônias que lhes deem alimentos; ou em teorias de espaço vital que lhes proporcionem terras. A civilização é industrial, os países mais agrícolas são, em geral, menos adiantados. Assim nasceram os impérios da Inglaterra, França e Itália.

Se de fato, consequentemente, no comércio da guerra há ocasiões em que o ouro, moeda internacional, se aglomera numa nação e desaparece noutras, e sendo necessário o ouro como fundamento dos intercâmbios, é lógico e cristão que o pacificador procure redistribuir esse ouro, não gratuitamente, está claro, entre as nações, a fim de que todas elas possam gozar dos benefícios postos por Deus no mundo, já que Deus mesmo, ao criá-lo, não pensou nas fronteiras que os homens inventaram, para que uns quantos fossem reis de aço ou do petróleo, outros do milho e do trigo e outros morressem de fome.

O que se diz do ouro, deve repetir-se de outras matérias primas, hoje de importância mundial. Superar essas dificuldades não é mais nem menos do que "a vitória sobre os germes de conflitos e divergências econômicas" indicada por Pio XII na alocução de 1940; e a premissa fundamental de "não monopolizar as fontes de produtos econômicos" indicada em 1941; representa "a vitória sobre o princípio utilitarista" e "o espírito de frio egoísmo" tantas vezes preconizada pelo Pontífice nos seus anelos de paz e bem-estar.

Em sua Mensagem de 23 de Julho de 1942 diz o Sr. Cordell Hull: "Nenhuma nação pode fazer progressos satisfatórios quando está privada, por sua própria ação ou pela ação de outros, dos benefícios incomensuráveis do intercâmbio internacional das mercadorias e serviços. As barreiras excessivas do comércio de mui diferentes classes, devem ser reduzidas."

Santo Agostinho com seu gênio intuitivo compreendeu que três sociedades concêntricas haviam de ser necessárias para a perfeição humana: a família, a sociedade e o orbe (familia, urbs, orbis).

São do grande pensador Francisco Suarez estas palavras: "Ainda que cada sociedade perfeita, república ou monarquia, constitua em si uma comunidade completa e dotada de todos os seus elementos, sem embargo cada uma delas é por sua vez membro desse outro conjunto que abrange todo o gênero humano, porque nunca tais comunidades, consideradas isoladamente, se bastam a si mesmas de tal modo que não necessitam em algum grau do auxílio mútuo, associação ou comunicação, às vezes para lograr um maior bem-estar de utilidade, às vezes por verdadeira indigência ou necessidade moral como vemos comprovado pela experiência."

Nestas célebres linhas em que está o germe de todo o direito internacional, Suarez advoga, claramente, uma sociedade internacional, não um supra-Estado com suas normas e suas leis.

A parte disto, tal sociedade há de ter como missão primária e fundamental a vigilância da ordem internacional, impossível de ser mantida por nenhum Estado, e o progresso da civilização por intercâmbio de riquezas espirituais e materiais.

Possam estas verdades comover e mudar o desejo dos poderosos e de todos os homens para irmanar-se, para operar na paz e na justiça, para inflamar-se no fogo da imensa e benéfica caridade de Deus.

Prenúncios de se realizar esse plano, já existem. Pois, em Dezembro de 1941, declarou o Sr. Presidente do Estados Unidos: "Havemos de ganhar a guerra, e na vitória havemos de buscar, não a vingança, mas o estabelecimento de uma ordem internacional, na qual o espírito de Cristo seja a norma dos corações dos homens e das nações".

CAPÍTULO XVI

Direito e obrigação da defesa nacional

Não há quem conteste ao Brasil o direito e a obrigação de defender sua integridade territorial, sua liberdade e independência. Estes atributos são os imperativos de sua existência política. Sem eles, morre o Brasil como nação.

As nações são entidades jurídicas e morais, ligadas entre si por direitos e deveres internacionais, que se baseiam na lei natural.

Devemos repelir e condenar a falsa teoria de Hegel, para quem toda a conquista é legítima. Da mesma sorte, deve-se reprovar a doutrina de Coutu, segundo o qual toda a conquista é justa. É esta a famosa e condenável teoria dos fatos consumados, que sanciona o direito da força brutal.

O Brasil, não obstante a amplitude do seu extenso território e os seus imensos tesouros naturais, nunca será conquistado para suprir a falta de espaço vital de nenhuma potência estrangeira. Os seus filhos o não permitirão!

Ao homem individual assiste o direito de legítima defesa. O mesmo direito de sua defesa têm os Estados. Assiste-lhes o direito e lhes corre a obrigação da defesa do seu território, de sua liberdade, da sua independência nacional ou soberania política. A defesa da liberdade, da independência e soberania da nossa Pátria, é salvar a sua vida nacional. O Brasil jamais será um Estado vassalo.

E nesse particular será inadmissível tanto o nazismo como o comunismo. Pois, um e outro querem subjugar, escravizar todos os países; o nazismo, por meio dos seus trabalhos imperialistas; o comunismo, pela revolução universal.

Para o católico deve ser suficiente a palavra do Sumo Pontífice Pio XI, que condenou não somente o nazismo pagão mas também o comunismo ateu.

O Brasil não pode apoiar-se, nem no presente nem no futuro, no nazismo ou no comunismo. E nenhum brasileiro deverá permiti-lo. Seja qual for o sucesso final da guerra atual, o Brasil deverá manter uma atitude altiva e nobre. Não pode ser rebocado nem pelo comunismo, nem pelo nazismo, nem pelo Integralismo. A Nação sempre há de ser brasileira, conservando o seu caráter genuinamente brasileiro, fiel às suas gloriosas tradições.

Sim, nesta hora, o Brasil apela para a generosa cooperação de sua garbosa mocidade, apontando-lhe o brilhante Cruzeiro no firmamento: Neste sinal, símbolo da cruz de Cristo, hás de vencer, querida mocidade! Nem a cruz gamada, nem a estrela moscovita, nem o sigma te podem mostrar o caminho da felicidade! Sómente a cruz do Senhor... será sempre o paládio das tuas nobres aspirações e a égide protetora desta gloriosa Pátria.

Achamos conveniente citar um trecho da resposta que o Governo brasileiro em Novembro de 1917 dirigiu ao Papa Bento XV, respondendo à proposta de paz do Sumo Pontífice:

"O Brasil, pode V. Excia. afirmar a Sua Santidade, teria ficado estranho ao conflito da Europa... se a Alemanha não estendesse à América os processos violentos da guerra... O Brasil não podia faltar aos seus deveres de nação americana, e, tomando em última extremidade a posição de beligerante, fizemo-lo sem ódio e sem interesse, mas tão somente na defesa da nossa Bandeira e dos direitos fundamentais da nossa Pátria..."

A resposta do Brasil à Mensagem Pontifícia é um documento notável de ciência política, e resposta de um povo que nunca discrepou de suas diretrizes, traçadas dentro dos princípios mais elevados do direito.

"Deus onipotente... abençoai nossas classes armadas de terra, mar e ar, a fim de serem felizes na defesa da liberdade, independência e soberania do Brasil, nossa estremecida Pátria... fazei que a gloriosa Terra de Santa Cruz, que jamais foi vencida, alcance, em breve, uma vitória completa sobre seus inimigos. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém. Nossa Senhora Aparecida, padroeira e rainha do Brasil, rogai por nós."

CAPÍTULO XVII

Condenação dos atentados contra o Brasil

O iníquo torpedeamento dos vapores da nossa marinha mercante é deplorado e condenado por todo o País, como atentado contra a nossa soberania nacional e vil assassínio de nobres filhos da Terra de Santa Cruz.

Essa agressão é tanto mais reprovável quando a Constituição Brasileira de 1891, artigo 88 declara: "Os Estados Unidos do Brasil em caso algum se empenharão em guerra de conquista direta ou indiretamente...".

Não há dúvida que o Brasil... chame sobre si a atenção e a cobiça de nações carecentes de espaço vital... Mas, não existe nenhum título justo que autorize a desapropriação da nossa terra por utilidade internacional. A Terra de Santa Cruz pertence legitimamente aos brasileiros.

Por isso, devemos admirar a audácia criminosa, o trabalho pérfido, tanto dos nazistas, como dos nipônicos, que pretendem, insidiosamente, destruir a independência, a liberdade e a soberania política da nossa Pátria. Condenamos todas as colunas com fins subversivos sejam quintas ou sextas e queremos formar uma única coluna indestrutível, a coluna da Pátria, que defenda os direitos do Brasil!

Que seria o Brasil se fosse conquistado... pelo nazismo pagão? A resposta nos poderá dar os países hoje sob o guante do poder hitlerista! Sim, perguntai à Polônia, à Áustria, à Tchecoslováquia, à Bélgica, à França, à Holanda, à Iugoslávia e à Grécia!

É impossível que o Brasil seja um Estado vassalo de Hitler ou de Hiroito.

O Estado nazista, que despreza os direitos de Deus e cujo poder se caracteriza pela violência, destrói os fundamentos do direito comum e da justiça. Daí o desprezo dos direitos alheios e do direito internacional.

O nazismo infiltra suas ideias subversivas em todas as camadas sociais qual veneno sutil... Não ataca um ou outro dogma católico; não, sua perversidade é infinitamente maior: tende a destruir radicalmente o que representa a essência da moral cristã e a lei natural... promove a degradação da consciência, legalizando o assalto, a mentira, a violência, o crime e toda a classe de delitos, se estes contribuem para o engrandecimento do domínio nazista.

A utilidade é o único critério moral. Segundo um chefe nazista, a nova religião alemã resume-se nas palavras: Tudo por Adolf Hitler!

A hegemonia universal ambicionada pelo neopaganismo nazista... pretende conseguir a unificação total, pela violação das forças espirituais e morais dos povos, que vai, pouco a pouco, avassalando: é uma hegemonia total, totalitária, que consciente e metodicamente, pretende realizar a doutrina totalitária e racista.

Conforme Pio XI declarou na sua Encíclica "Divini Redemptoris" são direitos inalienáveis da pessoa, o direito à vida, à integridade do corpo, aos meios necessários à existência, o direito de dirigir-se ao último fim pelo caminho traçado por Deus, o direito de associação, de propriedade, etc. enfim, o direito à família, ao trabalho, à paz, à liberdade, todos estes sagrados direitos que o totalitarismo calca aos pés com desapiedada barbárie.

A Igreja Católica condena o nazismo como sistema político e como religião.

Entretanto, a nossa repulsa formal do nazismo pagão e do niponismo bárbaro, não pode servir de escada ao comunismo ateu para realizar os seus perversos intentos.

E tão pouco nossa justa indignação contra o torpedeamento dos navios da nossa marinha mercante pode ser utilizada como alavanca dos processos reprováveis do judaismo internacional, auxiliado talvez por elementos contrários à grandeza da Pátria e à atividade salutar da Igreja Católica.

Devemos obedecer ao nosso Governo! Mas, é mister também procurarmos, sempre mais e mais, unir todos os brasileiros, de qualquer origem étnica que sejam, pelos vínculos dos genuínos sentimentos nacionais e de fraternidade cristã. Uma nação desunida não pode resistir aos combates externos e se aniquila. Acresce que todos são iguais perante a lei, conforme nossa Carta Magna.

Diz o Santo Padre Pio XI na sua Encíclica "Sobre a situação da Igreja na Alemanha": "Espíritos superficiais somente podem cair no erro de falar num Deus nacional, numa religião nacional, e empreender a louca tentativa de enclausurar nos confins dum só povo, na limitação étnica duma só raça, Deus, Criador do mundo, Rei e legislador dos povos..."

Animados pela fé cristã, pedimos a Deus que conceda o descanso eterno às almas dos nossos queridos marinheiros... Mas, em obediência aos imperativos da mesma fé, que fortalece o nosso patriotismo, havemos de montar guarda à bandeira da nossa Pátria, cantando: "Ouviram do Ipiranga às margens plácidas..."

CAPÍTULO XVIII

Nossos deveres cívicos

O País está em pé de guerra, o exército está de prontidão, à espera das ordens do Chefe da Nação, para marchar e ocupar os lugares que lhe forem indicados.

É certo que nesta hora cruciante, todos os brasileiros saberão cumprir o seu dever. Mas, "o nosso socorro está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra: adjutorium nostrum in nomine Domini, qui fecit coelum et terram". Queira Deus, o Senhor dos exércitos, abençoar nossas armas e as energias da Nação, a fim de que o laurél triunfal coroe mais uma vez nossa Bandeira. O pavilhão auriverde em nenhuma luta foi humilhado ou vencido, e desta guerra há de sair também vitorioso.

O Brasil aceitou o estado de beligerância que lhe foi imposto contra todo o direito e toda a justiça. Mas, essa perversidade dos nossos inimigos não deve admirar. É uma consequência lógica das ideologias funestas do agressor que despedaça as tábuas da lei divina, destrói a ordem jurídica e moral, transforma o direito em despotismo e a justiça em prepotência, adotando o princípio de que tudo o que for útil aos seus interesses, embora reprováveis, se reveste de plena licidade.

Esses erros políticos e sociais baseiam-se em teorias falsas, que negam a ordem moral estabelecida pela vontade de Deus, desconhecem a responsabilidade dos atos humanos, seguem doutrinas condenadas pela própria razão, ensinam e apregoam o utilitarismo pessoal e político. Tais teorias solapam a eficácia das leis, o respeito devido às legítimas autoridades, e destroem a segurança das nações.

O Brasil, felizmente, desde o seu descobrimento até hoje, em todas as suas instituições, tem tido por norma geral as leis de Deus e os ditames da ordem moral. E, por isso, péssimo serviço prestariam à Nação aqueles que procurassem defender e introduzir, entre nós, ideologias semelhantes às do nazismo. Nós queremos manter a moral cristã em que se alicerça a vida nacional.

A nossa beligerância é lícita. É uma guerra defensiva. Pois, o Brasil repele a injusta agressão dos Estados totalitários. Sim, é lícita e necessária, porque assim como o homem individual tem o direito de repelir o injusto agressor, para defender a sua vida e os seus interesses supremos, também assiste ao Estado o direito indiscutível de defender sua existência, sua liberdade e soberania, o que em várias passagens desta pastoral temos acentuado.

É lícita, porque o preclaro Chefe da Nação a declarou, de acordo com a nossa Carta Magna. Ele tem o direito e o dever de acautelar o bem público do povo brasileiro. A nossa causa é perfeitamente justa. De fato, pelo bárbaro torpedeamento de tantos navios brasileiros, a nossa soberania foi ultrajada, tantas vidas preciosas foram roubadas à família e à Pátria, sem falar dos prejuízos sofridos pela economia pública e particular.

Nem se podem alegar desculpas; porquanto nenhuma satisfação antes da declaração de guerra foi oferecida ao nosso governo em reparação das ofensas, injúrias e afrontas assacadas ao País. Nossos direitos foram, cruelmente, violados por submarinos nazistas ou de nações totalitárias contra todas as leis e convenções internacionais, e em vez de satisfação condigna, só recebemos desprezo, novas ameaças e novos agravos.

Por isso, a Pátria convoca seus filhos às armas para sua defesa legítima e obter justiça. Começamos essa dolorosa, mas patriótica tarefa sob a proteção de Deus, porque "o nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra: adjutorium nostrum in nomine Domini, qui fecit coelum et terram".

Há vários anos já chamamos a atenção sobre os perigos das ideologias nazistas que ameaçam a estabilidade do Estado Nacional, a ordem social do Brasil e a civilização cristã. Os processos reprováveis que o Estado nazista emprega, não podem servir de modelo de imitação, devem, porém, ser repelidos em benefício da grandeza moral e prosperidade da Pátria.

O critério exclusivo da utilidade nacional, é bom repeti-lo, que prevalece no sistema nazista, constitui um pernicioso erro, que gera contínuos choques na vida internacional e um eterno estado de guerra entre as nações. Quem confunde interesses com direitos, desconhece o fato fundamental de que o homem e as nações possuem direitos outorgados por Deus que não podem ser negados nem abolidos.

Essa tendência contemporânea de destruir a ideia de Deus e os seus ensinamentos, causa inúmeros malefícios ao indivíduo e à vida pública. Pois, quando falta a solidez e segurança do fundamento, nenhum edifício, por mais alteroso que seja, resiste a qualquer terremoto. Deus é o fundamento, a base granítica de todo o direito e justiça.

O melhor meio de enfrentarmos os perigos da guerra, é cultivar a religião tradicional do Brasil, porque a nossa vitória é a nossa fé. O homem é cidadão de dois mundos. Apenas é nascido, se torna filho de um povo, membro de um Estado. Naquele momento, a pátria ou o Estado o toma sob a sua proteção e lhe impõe deveres. No renascimento pelo batismo, Deus o declara a sua propriedade e lhe exige o cumprimento de obrigações: "Sou o Senhor teu Deus! pertences a mim".

O homem, portanto, é cidadão da pátria terrena e da pátria celeste, cidadão de dois mundos! Ora, na conjuntura nacional da atualidade, todo o brasileiro válido deve prestar o serviço militar prescrito. Como membro da Nação, tem direito de usufruir os benefícios da cidadania brasileira, mas também lhe incumbe o grave dever de prestar os serviços exigidos para a defesa dos interesses vitais e da integridade do País.

Não somente a lei positiva o exige, mas também o próprio Deus preceitua o cumprimento dos deveres civis e militares. A sanção divina das leis é mais eficaz do que a sanção humana. Em vista dos tremendos males que a guerra, desencadeada pelo gulo do nazismo, espalha por todos os países, podemos perguntar a ele mesmo com o salmista: "Porque te glorias na malícia tu, que és poderoso em praticar a iniquidade? quid gloriaris in malitia qui potens es in iniquitate?"

Deus permite, na sua infinita sabedoria, as guerras com suas consequências, quer para punir pecados e crimes, quer para aperfeiçoamento dos bons. Mas, lá do céu ele zomba dos tiranos e déspotas, prepara para castigos correspondentes às suas atrocidades e violências. De fato, que fim levaram os grandes conquistadores e seus vastíssimos impérios? Ciro destruiu a Babilônia... Alexandre Magno... Tudo desapareceu. Aníbal chegou às portas de Roma. Hoje seu nome existe apenas na história. César... foi apunhalado pelas costas por Brutus. Desapareceu. Átila, o flagelo de Deus, e Genserico, rei dos vândalos... desapareceram, juntamente com o seu poder sobre os países conquistados. Napoleão Bonaparte... morreu desterrado na ilha de Santa Helena. Semelhante é a sorte de todos os conquistadores despóticos. Deus espalha seus feitos e glórias como um punhado de cinzas.

A prepotência nunca tem longa duração. A cada um dos conquistadores e tiranos se poderia perguntar: "Quid gloriaris in malitia que potens es in iniquitate? porque te glorias na malícia tu, que és poderoso em praticar a iniquidade?" Fim também terá o chefe dos nazistas e a sua prepotência acabará. Sua vanglória será abatida como foi o orgulho de Lúcifer. Reconhecerá a loucura dos seus propósitos de dominar o mundo e extirpar do coração dos homens a ideia do Deus verdadeiro e os ensinamentos de Cristo. O sangue dos inocentes que ele massacrou, misturado com as lágrimas de inúmeras vítimas, clama aos céus, pedindo vingança. A justiça de Deus pode tardar aos olhos dos homens, mas nunca falha!

Nós não devemos temer aqueles que pretendem, em vão, escravizar-nos e substituir a nossa gloriosa Bandeira pela cruz gamada; mas temer devemos o Deus eterno, tantas vezes escarnecido e blasfemado, esse Deus soberano, que pode castigar nações e povos e atirar os criminosos, com corpo e alma, para o abismo do inferno. Por isso "o nosso socorro está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra: adjutorium nostrum in nomine Domini, qui fecit coelum et terram". Confiamos no auxílio de Deus.

Cristo disse: "Guardai-vos dos falsos profetas!" Sim, também nós devemos guardar-nos dos falsos profetas na hora presente! Eles, sob vários nomes e títulos procuram desnacionalizar os cidadãos brasileiros e afastá-los do cumprimento do seu dever. Pretendem negar direitos inconcussos, dando expansão aos seus sentimentos de ódio e vingança, em prejuízo da solidariedade nacional. Isto apenas servirá para facilitar a ação nefasta dos nossos inimigos.

Esses falsos profetas se prevalecem de todas as ocasiões para dividir os componentes da Nação; semeiam a desconfiança, a dúvida, a indisciplina no meio do povo para fomentar discórdias e malquerenças. Sim, esses falsos profetas são os criticastros que censuram os atos governamentais, visando criar oposição às legítimas autoridades; são aqueles que exageram fatos e negam direitos certos. Nós todos, porém, devemos obedecer à voz de Deus. E esta voz se manifesta e repercute nos conselhos e nas ordens dos nossos legítimos governantes.

A defesa do Brasil não compete apenas às autoridades, mas a todos quantos nasceram na Terra do Cruzeiro ou se lhe incorporaram lealmente. Seja-nos lícito interpretar e aplicar às nossas circunstâncias atuais o pensamento de George Washington: Cidadãos do Brasil, seja pelo nascimento ou livre vontade, este país tem o direito de concentrar os vossos afetos. O nome de brasileiros que vos pertence pela vossa nacionalidade, deve sempre exaltar o justo orgulho do vosso patriotismo, mais do que outra qualquer denominação derivada de distinções locais ou adjetivação que lembrem origens étnicas.

Nestas horas delicadas e críticas que o Brasil atravessa, é preciso que todos se lembrem de que existem duas leis em defesa da integridade da nossa grande Pátria: a lei da defesa nacional e a lei de segurança nacional. Estas duas leis não podem ser desprezadas ou transgredidas nem pela falta de um justo amor à pátria nem pelo zelo excessivo de patriotismo.

No dia depois da declaração da guerra, oferecemos ao Sr. Presidente da República capelães militares. Todos aqueles que pretendemos designar para essa patriótica missão, são reservistas do Exército Brasileiro.

Estamos certo de que esse corpo de capelães militares ensinará aos nossos soldados o verdadeiro espírito de disciplina, o cumprimento exato de seus deveres, conforme as leis da Nação e o ensino da Igreja. Essa assistência religiosa será de grande utilidade, tanto nos quartéis como nos campos de luta.

Citaremos a propósito uma declaração do nobre Ministro da Guerra, Sr. General Eurico Gaspar Dutra, que há pouco, falando a uma turma de reservistas, teve palavras sobre a missão de capelães militares junto aos soldados. Sua Excia. disse: "É uma verdade sabida dizer-se que as batinas e os bureis figuram em todos os quadros da história pátria, desde Frei Henrique de Coimbra... Onde estiver o Brasil, aí estará o padre. Sobretudo, onde o Brasil estiver sofrendo ou se encontrar em perigo... Em 89 um pugilo de visionários intentou laicizar a vida nacional, supondo ingenuamente bastar, para isso, proscrever o nome de Deus do texto das leis... O prurido reformista não passou de um episódio fugaz. E o Brasil continuou fiel à Igreja e aos seus ministros. Nada se faz sem a presença do sacerdote e sem o conforto da sua benção."

No entanto já foram nomeados dois capelães militares para a ilha de Fernando Noronha e, há pouco, um para a assistência religiosa da guarnição de Natal. Assim marcharão as nossas tropas para a defesa das nossas instituições, do nosso território e da Pátria. Sob a égide gloriosa de Nossa Senhora Aparecida Alcançarão, certamente, a vitória, cantando, animados, o hino nacional e exclamando: Por Deus e pelo Brasil.

CAPÍTULO XIX

Causas da guerra

O explosivo maior desta guerra atual foi sem dúvida a apostasia das leis de Deus. Ainda que os racionalistas e os ímpios se empenhem em negar o conceito de culpa e castigo, diante do Juiz supremo que é Deus, vemos no flagelo desta guerra desumana um castigo de Deus pelos pecados dos povos.

Deus não castiga todo o pecado individual nesta vida, porque seu braço alcança todos os indivíduos na eternidade, porém castiga o pecado da coletividade. A coletividade da nação ou raça existe só neste mundo e neste mundo a alcança o castigo do Juiz.

Os erros e delitos do presente século prepararam a guerra. A sementeira de venenos amadureceu e os frutos são os horrores desta guerra maldita. O semeador não foi outro que o espírito anticristão e ateu que desprezava e hostilizava a força vitoriosa da caridade, ensinou o egoísmo e o ódio como únicas forças capazes de consolidar a grandeza das nações.

O fracasso dessa pregação foi completo. Mas por isso os anticristãos e ateus não perderam a ousadia de culpar a Igreja católica e seus ministros como causantes da guerra. Nunca se proferiu blasfêmia mais iníqua e caluniosa, acusando a Igreja de haver desejado, preparado e aprovado essa matança formidável de homens. Os mesmos políticos e estadistas que separaram da vida pública toda a influência religiosa, se atrevem a lançar à Igreja, iniquamente, a culpa dos erros que foram causados justamente pela repulsa de sua influência. É preciso notar mais uma vez que a paz de Cristo é somente possível no reino de Cristo, mas não no reino inimigo de Cristo.

Pois, disse com toda a verdade o grande Papa Pio XI:

A paz de Cristo depende de duas condições primordiais:

A sociedade deve primeiramente estar organizada conforme a lei de Deus;

Em segundo lugar deve a Igreja ter liberdade e apoio suficientes para exercer sua influência benéfica sobre os indivíduos e a sociedade que lhe conferiu a Providência Divina.

Cristo deve reinar sobre os indivíduos... reinar na família fundada sobre a santidade do sacramento do matrimônio... Cristo reina no Estado, quando seu governo lhe tributa a devida honra e ali se apoia sua autoridade na de Deus... Cristo reina, se a sociedade reconhece a missão divina da Igreja, fundada como sociedade perfeita com direito de ensinar a verdade e de santificar seus membros.

Devemos confessar que estes amplos ensinamentos do Pontífice Pio XI não foram respeitados antes de começar a guerra, apesar dos avisos paternais de seu sucessor Pio XII, gloriosamente reinante, e nem sequer se reconheceu suas enormes vantagens para a sociedade humana nestes dias em que o morticínio continua e a destruição mundial assume proporções terríveis. É preciso que essa tremenda lição sirva à nossa Pátria para atender à voz do Sumo Pontífice Romano e seguir os ensinamentos de Nosso Senhor.

A Igreja de Cristo triunfa por meio da persuasão e da justiça. Os fatores de sua história são todos morais, alheios à força e à violência. Ela não dispõe de soldados e canhões e somente empunha a espada simbólica da doutrina de Cristo, sem outra de ação, empregando os argumentos do direito e da razão.

E porque o Vaticano triunfa com a doutrina sem recorrer à espada? Porque no Vaticano, onde reside a unidade do catolicismo, está a cátedra infalível da verdade, isto é, o Vaticano é o Estado da verdade.

A persuasão e a caridade cristãs são a estrada por onde tem caminhado majestosa e soberana a verdade do catolicismo para levar a todos os povos a razão, o direito e a justiça. Os povos que receberam esta rainha do céu e aceitaram sua soberania espiritual, vivem sob o amparo da justiça, do direito e da razão, enquanto os povos que a rechaçaram com a perseguição e o ódio, caíram sob o império da força bruta e a tirania ou a ignomínia da degradação e do envilecimento.

A íntima raiz das perturbações atuais consiste em fundamentar a ordem social, a estrutura da sociedade sem sua base única e inamovível que é Deus. O individualismo abstrato e o coletivismo abstrato têm sua origem na mesma causa: a subtração do homem das bases divinas.

O liberalismo se baseia nesta grande mentira: Deus não existe. O totalitarismo contesta com esta outra grande mentira: Deus sou eu, o Estado. No fundo ambas as proposições são iguais. Ambas rejeitam o Deus verdadeiro.

Mas, com dizer: Deus não existe, não se suprime a sua existência ou a necessidade de Deus. Então se cria um deus que há de ser falso. Chame-se ele nação, Estado ou raça. Por isso, ou se admite a necessidade de Deus ou se cai na divinização dos ídolos. O demais são más consequências. Sem Deus tudo é possível na sociedade; da mesma maneira pode surgir a anarquia e a desordem como a tirania e a escravidão.

O Romano Pontífice indica sua origem: "A negação da base fundamental da moralidade teve na Europa sua raiz originária na separação daquela doutrina de Cristo, de que é depositária e mestra a Cátedra de Pedro... Ao contrário, abandonando o magistério infalível da Igreja, muitos irmãos separados chegaram até a negar o dogma central do cristianismo, a divindade do Salvador, acelerando assim o processo da dissolução espiritual."

O centro da humanidade não pode ser o homem sem Deus. Deve partir de Deus para buscar a verdade do homem. Sem Deus o homem não é senão um objeto de degradação. Pois, não existe a moral nem a virtude nem o dever nem o direito. Perde o homem sua espiritualidade e sua filiação divina que é a sua maior grandeza. Com razão se pode afirmar que a negação de Deus termina na negação do homem.

Aceitar ou rejeitar a Jesus Cristo é a questão fundamental de nosso tempo ou melhor: de todos os tempos. Com Cristo tudo se esclarece, sem ele não há mais que sombra e barbárie. A experiência nos diz que Cristo tudo sustenta: onde ele está, há verdade, há moral, há justiça, há direito, há caridade.

O dilema por conseguinte, não está exclusivamente na democracia ou totalitarismo, mas em ser ou não ser cristão. Ou espiritualismo cristão ou materialismo pagão. A concepção católica da vida, o sobrenaturalismo: ou concepção bolchevista, totalitária ou naturalismo.

A filosofia atual se debate única e exclusivamente entre estes dois extremos. É preciso que Cristo Nosso Senhor repita a palavra "fiat" da criação para que a luz se separe das trevas e se restabeleça a harmonia universal.

E se de momento, para honra e glória do Brasil deveis "forjar espadas das relhas dos vossos arados, e lanças dos vossos enxadões", devemos pedir a Deus para que o mais depressa possível possamos converter as nossas espadas em relhas de arados e as lanças em enxadões.

"As angústias presentes são a apologia mais impressionante do cristianismo tal como não pode haver maior. Da gigantesca voragem de erros e movimentos anticristãos amadureceram frutos tão amargos que constituem uma condenação cuja eficácia supera a toda a refutação teórica."

É possível que a guerra seja, como a própria morte, não somente um sintoma da lamentável existência de crus egoísmos coletivos mas também um flagelo para castigar a corrupção dos costumes de uma época decadente. Porém, a guerra em si é sempre um mal e uma desgraça que pesa sobre a humanidade... Salvemos, pois, desta hecatombe os princípios e os valores cristãos da civilização e alcemos, bem alto, o archote luminoso da fé que não se apaga, porque é luz eterna, para que também todos os povos e todos os brasileiros, ao sair desta noite, vejam seus erros passados e procurem um porvir mais cristão.

Pois, "o reconhecimento dos direitos reais de Cristo e a volta de todos os particulares e da sociedade à lei de sua verdade e de seu amor, são o único caminho de salvação".

CAPÍTULO XX

Semelhança entre a destruição de Jerusalém e a guerra atual

Cristo empregara todos os esforços no sentido de salvar Jerusalém. Mas os judeus desprezaram sua doutrina e finalmente o crucificaram, exclamando em presença de Pilatos: "O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos." Realizou-se o tremendo castigo que Cristo tinha anunciado: "Haverá então grande tribulação qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem a haverá."

De todas as cidades submetidas aos romanos era Jerusalém que se tinha elevado ao maior grau de prosperidade para cair no mais profundo abismo da desgraça. E disse Flávio Josefo no seu livro "A Guerra da Judeia": "Todas as catástrofes registradas desde o princípio dos séculos, me parecem, em comparação, inferiores às nossas." As pragas e os castigos anunciados por Jesus Cristo como fomes, pestes, tremores de terra, são atestados pelos historiadores. Falsos profetas e impostores apareceram e enganaram o povo.

Quando Deus quer castigar uma nação, basta-lhe suspender as graças que mantinham no espírito público certo equilíbrio do bom senso, da justiça e do direito e as intervenções de sua Providência que remediavam os erros cometidos.

Então os conselhos de violência prevalecem sobre as resoluções mais prudentes; as facções políticas se levantam umas contra as outras; os excessos provocam excessos; os cidadãos, arrastados como que por uma espécie de vertigem, se matam mutuamente; os extraviados se arvoram em executores de sua própria ruína.

Tal é, em poucas palavras, a história dos judeus desde as suas furiosas imprecações: o sangue do Nazareno caía sobre nós e nossos filhos. Por toda a parte as águilas romanas se aproximam de Jerusalém. O império ameaçado em diversos pontos pelos bárbaros, se encontra em plena anarquia. Suas legiões combatem umas contra as outras para sustentá-lo segundo as vantagens que lhes prometem e as orgias que lhes permitem os sucessores de Nero. Em 69 Vespasiano entrega a seu filho Tito o cuidado de acabar com a campanha da Judeia. Em Abril de 70 os exércitos de Roma aparecem no horizonte. Começa o horrível assédio. A magnífica resistência dos judeus exaspera os assaltantes sem os determinar a soltar a presa. Várias vezes intenta Tito negociar a rendição da praça, mas seus oferecimentos são recusados com cólera. Lança mão então da violência.

Manda crucificar quinhentos prisioneiros e cortar as mãos a um grande número. Estas crueldades exasperam os ânimos. Empregam o punhal e a espada, arrancam víveres aos ricos, aos traidores e a quem supunham retê-los. A fome predomina. Uma mãe degola seu filho para alimentar-se com a carne do mesmo. Os fugitivos são presos pelos árabes que lhes abrem o ventre, procurando nas suas entranhas ouro e pérolas que por acaso tivessem engolido. Não era mais possível enterrar todos os cadáveres. O general Tito, vendo essa tragédia, exclamou: "Não; não; invoco o céu por testemunha; não sou eu o responsável por estes horrores."

Um incêndio voraz, impossível de se extinguir, devorou a cidade. A devastação tornou-se completa e diz o historiador Flávio Josefo que somente no recinto de Jerusalém haviam perecido um milhão e cem mil homens, e em toda a Judeia, mais de um milhão e trezentos mil. O número de prisioneiros feitos se elevou a noventa e sete mil. Os mercados dos escravos ficaram excessivamente repletos. Mais tarde, quando voltaram os cristãos, diziam: Os judeus venderam a Cristo por trinta moedas de prata e agora por uma moeda foram vendidos trinta judeus. A calamidade tornou-se geral.

Há certamente grande semelhança entre a ruína e destruição de Jerusalém e a guerra mundial que ora se trava. A causa íntima da desgraça de Jerusalém era a repulsa de Cristo e o consequente castigo dessa ação nefanda. A causa desta guerra mundial é o abandono de Cristo e a repulsa dos seus ensinamentos. Quebraram-se os laços da fraternidade cristã. Todos os povos estão em pé de guerra. As normas do direito e da justiça estão obscurecidas pelo egoísmo, ambição e violência. Milhões de homens derramam o seu sangue. Armas mortíferas, jamais registradas pela história da humanidade, devastam, aniquilam e destroem. Toda a economia pública das nações transforma-se em preparativos bélicos. A vida interna dos povos como as relações internacionais estremecem.

E no meio dessa confusão de ideologias e de processos levantam-se falsos profetas, ensinando teorias errôneas, enganando indivíduos e povos. Estes doutrinadores levantam suas cátedras nas universidades, na imprensa e a Igreja Católica para arquitetar uma nova ordem mundial que não pode ter nenhuma outra base senão a inestabilidade da opinião dos homens. Rejeita-se a Cristo Nosso Senhor como pedra angular da sociedade humana e procura-se um sucedâneo que não oferece nenhuma solidez e nenhuma garantia.

Os judeus não quiseram ouvir a palavra de Jesus Cristo que dizia: "Ó! se ao menos neste dia teu, conhecesses ainda tu, o que te pode trazer a paz! Mas agora estas coisas estão escondidas aos teus olhos. Porque virão dias contra ti, e teus inimigos te cercarão com trincheiras, te cerrarão, te porão em aperto por todas as partes. E te derrubarão por terra, a ti e a teus filhos que estão dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por isso que não conheceste o tempo da tua visitação." A desobediência dos judeus à voz de Jesus Cristo foi a causa da ruína de Jerusalém. O desprezo dos ensinamentos do Papa, Vigário de Cristo na terra, resume as causas íntimas da presente conflagração mundial.

Os falsos profetas que apareceram no tempo da destruição de Jerusalém, têm seus imitadores nos tempos atuais. É profundamente lastimável que nesta tristíssima situação mundial os dirigentes das nações não queiram ouvir a palavra do Sumo Pontífice, e deem preferência à orientação de fogos fátuos que as levam para maiores desgraças e abismos mais profundos. O Sumo Pontífice Pio XII, desde o início de seu governo, se dirigiu às potências do mundo, indicando como solução eficaz das hostilidades os ensinamentos de Cristo, os únicos capazes de solucionar os tremendos problemas atuais. Cristo deve ser novamente a pedra angular da sociedade humana. Sua doutrina é divina e interpreta cabalmente os justos imperativos dos indivíduos e das nações.

No entanto o seu Vigário na terra, em vez de ser obedecido e respeitado, tem se tornado alvo de críticas e censuras injustas. Pois, no meio das nações em guerra, o Sumo Pontífice Pio XII se acha, em virtude do seu ministério, como sobre uma alta montanha, exposto à crítica do mundo. Segundo alguns, ele fala demasiado pouco, em termos vagos e diplomáticos. Há gente que quisera vê-lo usar de sua poderosa autoridade num protesto categórico dirigido a todo o mundo civilizado. Outros, ao contrário, o criticam por falar com demasiada clareza. Estes não desejam que o Papa intervenha ainda mais em tão delicado assunto; pois, qualquer palavra decisiva somente provocaria represálias, e entre os que primeiro sofreriam as consequências, estaria precisamente o Sumo Pontífice. Que é então o que eles querem? Se o Papa fala com clareza, suas palavras são torcidas; se fala com cautela ou guarda silêncio, isto se atribui a temor ou fraqueza. Entretanto, os inimigos trabalham febrilmente na tentativa de destruir a Igreja de Deus, desprezando toda a lei, pisando, com pé de ferro, tudo o que possa resistir-lhes.

Três grandes frentes, na realidade, estão em guerra entre si: o comunismo, o nacionalismo exagerado e o capitalismo. Em palavras cruas: o mito das massas, da raça e do ouro. E estas três forças têm ulteriores projeções e complicações, de maneira que movimentos habituais, entre si em oposição, chegam a encontrar-se, temporariamente, aliados. Não é função do Papa assumir uma posição política. Mas sim, é seu dever tomar posição com referência a assuntos de ordem religiosa, moral e cultural. O Papa não está em favor do comunismo nem do nacionalismo exagerado nem do capitalismo: não apoia a ideologia da massa, nem o mito da raça ou do dinheiro.

O Papa proclama o ideal do amor; não pode senão desejar a vitória da cruz. Por isso, a luta verdadeira não se realiza pela vitória do ouro ou do sangue, mas pela vitória dos poderes da luz ou das trevas, venham donde vierem. Com efeito, a batalha se está travando para resolver se a primazia deve caber ao mundo ou ao espírito; ao paganismo em todas as suas formas ou ao cristianismo; ao homem como tal ou a Deus; a Satanás ou a Cristo. Continuamente se tem dito que a mais ardente preocupação do Santo Padre é a paz. Mas não uma paz a qualquer preço. O que o Papa anela é que a guerra não cause a ruína de nenhuma nação e que os próximos tratados de paz não contenham os germes produtores de outras guerras no futuro.

Em segundo lugar, deseja que para a Europa essa paz do porvir seja uma paz religiosa, garantida pelo verdadeiro culto de Deus, o respeito à lei moral e divina, e à liberdade da Igreja. "Dai a César o que é de César". Sim, é justo; mas uma coisa se deve acrescentar: Dai ao homem o que é do homem. Devolvei-lhe sua liberdade e personalidade, seus direitos e sua religião. Enquanto isto, o Papa se preocupa para mitigar os sofrimentos do mundo mediante suas exortações, suas preces, toda a sua atividade, seu amor por todos os homens, seu auxílio material aos mais necessitados, suas conferências com representantes de vários governos, seus esforços na busca de civis extraviados e prisioneiros. E pede ele aos fiéis de todo o mundo que unam suas orações pela paz em torno da cruz que é o sinal da vitória, seguro de que depois desta luta a Igreja continuará a ser incomovível nos seus trabalhos.

"Não imitem os povos o grito desesperado dos judeus: "O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos". Lembremo-nos dos imensos benefícios que a civilização cristã tem prestado ao Brasil e ao mundo inteiro e não sejamos ingratos.

Procuremos restabelecer a observância dos ensinamentos de Cristo em todos os departamentos da vida nacional. Deus encheu a nossa Pátria de prerrogativas e benefícios imensos. Não sejamos ingratos; lembremo-nos de que povos outrora prósperos, em consequência de sua apostasia, foram substituídos por outros de que a história apenas recorda as glórias do passado. Cristo é também a pedra angular da grandeza do Brasil. Quem procurar substituir essa pedra angular, solapa a verdadeira prosperidade nacional. O Brasil, fora das leis de Deus, dos ensinamentos de Cristo e da doutrina da Igreja Católica, perderá, infalivelmente, a sua coesão, a sua segurança e, portanto, a sua importância internacional. Sejam, portanto, todos colaboradores assíduos da segurança nacional segundo os ensinamentos de Jesus Cristo que sobrevive às catástrofes mundiais e aos falsos sistemas doutrinários. Ou Cristo como pedra angular da sociedade brasileira ou o desaparecimento de sua grandeza no vórtice das injustiças, dos erros e das paixões." De uma transmissão efetuada pela Estação Rádio Vaticano, em 14 de Maio passado.

CAPÍTULO XXI

Cristo em face do direito e da justiça

Justiça é a virtude moral que inclina a vontade a dar a cada um o que lhe pertence por direito. As suas partes integrantes são o hábito de fazer o bem que é devido a outrem e o hábito de fugir do mal, que prejudica o próximo. As partes subjetivas da justiça são três, a saber: a justiça legal, que leva os súditos e os superiores a tudo o que é devido à sociedade, em ordem ao bem comum; a justiça distributiva, que leva os governantes a distribuir os empregos e os benefícios, em razão dos méritos de cada um; a justiça comutativa, que obriga o indivíduo a dar a outro indivíduo o que lhe deve por verdadeiro e rigoroso direito, de modo que haja igualdade entre o que se dá e o que é devido. Entretanto, estas espécies de justiça têm caráter análogo. Pois, a verdadeira natureza da justiça encontra-se exclusivamente na justiça comutativa. Por sua vez, o direito é um poder moral e inviolável de possuir, fazer ou exigir alguma coisa concedida por lei.

É um poder, porque é a faculdade de possuir, fazer ou exigir alguma coisa; é um poder moral, porque o direito pertence à ordem moral e se dirige à inteligência e à vontade; é um poder inviolável, porque impõe aos outros a obrigação e o dever de o não lesar; é um poder concedido pela lei, porque o direito é o efeito próprio da lei. E o direito é correlativo ao dever. O direito divide-se em natural e positivo, inato e adquirido, jurídico e moral, alienável e inalienável.

Estas brevissimas noções da justiça e do direito nos revelam a grande importância destes dois fatores na vida individual, social e internacional. A justiça deve ser virtude comum a todos os cidadãos. Pois, todos estamos interessados em que as leis sejam tão poucas quanto possível e tão claras que, sem dificuldade, se possam entender e aplicar. As normas escritas não são nada, se não se convertem em hábitos efetivos de vida. E nem esses anelos poderão jamais suprimir as contendas e os problemas jurídicos, nem poderemos aproximar-nos do ideal senão por meio de homens justos que façam da justiça sua bandeira, sua profissão e sua maneira de agir.

Se a vida do direito penetra toda a existência dos indivíduos e dos povos; se é ela que faz evoluir, progressivamente, as nações; e se ela convida, com o ramo de oliveira da paz, para que cesse o estrondo das armas e se inicie de novo uma vida melhor, é necessário declarar que está reservado um papel de primeira ordem aos jurisconsultos no desenvolvimento e fim do atual drama do mundo. E que isto é assim, o proclama com maior eloquência do que qualquer outro argumento, a crise tremenda e a desorientação em torno dos problemas jurídicos fundamentais.

A crise do direito não é mais do que um aspecto da crise da vida em pleno paroxismo. É verdade que progridem: a mecânica, a química e toda a sorte de ciências experimentais e de processos técnicos; observa-se verdadeiro progresso na engenharia, na medicina e, como é notório e sabido, na própria arte da guerra, no morticínio e na destruição. Entretanto, no templo das leis encontramos muitas ruínas. O direito internacional, o direito político, o direito pessoal e o direito natural nos parecem suntuosos mausoléus de um panteão colossal de homens ilustres. Não obstante tal situação, talvez mais forte do que nunca, sente-se um anseio imenso de justiça que há de engendrar entre sofrimentos com valores eternos, as novas florações de vida dos novos tempos. Entre o ruído ensurdecedor se deixará ouvir a voz da justiça, e somente a justiça pode fazer duradoura e fecunda a paz: Opus justitiae pax! É o lema escolhido pelo mais augusto intérprete da verdade moral no mundo. Ninguém como o Papa Pio XII procurou reconciliar as potências beligerantes nesta guerra devastadora. Mas também ninguém como a autoridade dos Papas poderá desempenhar essa sublime missão humanitária e cristã.

Pois, a Igreja é a grande remodeladora do direito. Diz um grande jurista brasileiro: "Não temos dúvida em afirmar que foi a Igreja, por intermédio do Direito Canônico, o elemento fusionador e selecionador que durante a fase medieval, combinou e depurou os direitos romano e germânico, preparando-os para a grande obra futura da unificação e universalização do direito." Carlos Magno invoca a sua influência para a unificação dos reinos bárbaros. A cruz, de instrumento infame, passa a ser o símbolo da redenção e a tormenta que rugira minaz em volta dela, não conseguiu derrubá-la.

O clero desenvolveu a instrução literária, científica e artística. O Direito Canônico, estabelecendo a igualdade de todos perante a lei, opôs embaraço às arrogantes pretensões da espada, estabelecendo a supremacia da lei sobre os caprichos humanos. A Igreja colecionou as suas leis e formou o "Corpus Juris" do Direito Canônico, donde emanaram as principais modelações dos institutos que constituem o direito moderno. A Igreja despertou no coração da humanidade o sentimento da igualdade, da liberdade e da certeza da fraternidade e, por isso, imprimiu no homem o amor e o respeito ao seu semelhante.

Abrindo qualquer um dos códigos cujas regras dirigem a sociedade moderna, vemos ressaltarem os princípios do cristianismo desdobrados nas variadas fórmulas que constituem o embelezamento, o conforto e a amenidade oferecidos pelo grande edifício do direito à geração hodierna.

Desde as Ordenações Portuguesas que nos regeram em sociedade até há bem pouco, e onde vemos adotados muitos preceitos dos Decretais, bem como o Código Napoleão, que firmou, desenvolvendo a trilogia cristã — liberdade, igualdade e fraternidade — até às últimas concretizações do saber jurídico em todas estas expressões das modalidades do viver social humano, vencem os grandes princípios estruturais do Direito Canônico, servindo-lhes de base junto às regras editadas pelo espírito filosófico dos gregos, o senso prático dos romanos, e a vontade imperiosa dos germanos.

A religião cristã, saindo das catacumbas romanas pela conversão de Constantino Magno, com tendência de generosidade e de delicadeza moral, como confessam os mais livres cientistas, imprimiu no Direito os princípios da legislação deixados por Cristo, expurgando-o do que não correspondia à sublimidade da doutrina. Diz o autor já citado, cujas teorias filosóficas, como é sabido, alcançaram de bem perto as raias da impiedade: Em que, pergunta ele, foi que a portentosa construção do gigantesco edifício do direito da Igreja embelezou e melhorou a Cidade humana e especialmente a Cidade jurídica, tão custosamente edificada por gregos, romanos e germanos, através de lutas as mais cruéis e no correr de séculos os mais agitados? Com que e de que modo contribuiu o Direito Canônico para o aceleramento da evolução social do departamento jurídico?

O referido autor afirma, entre outras coisas: "O direito da Igreja, com ser papal... nem por isso deixou de influir beneficamente na evolução jurídica da humanidade. O primitivo espírito cristão que o animara nas catacumbas de Roma, infiltrou-lhe no organismo tendências de generosidade e delicadeza moral que todos os horrores da Inquisição não puderam eliminar. Dessas tendências nasceu a ação que a legislação e jurisprudência canônicas exerceram sobre o direito romano e o germânico para expurgá-los de um certo número de instituições e práticas, incompatíveis com os princípios de humanidade e com a dignidade individual.

"Abstraindo das largas modificações que o Direito Canônico introduziu no direito substantivo romano-germânico, especialmente no que toca ao direito das pessoas, assinalaremos no campo do direito adjetivo as conquistas capitais por ele obtidas. "Foi ele quem primeiro se bateu contra os primitivos e bárbaros processos de prova dos germanos, pela voz de Santo Agobardo e pelo voto do II Concílio Lateranense; foi ele quem pelo órgão de Inocêncio III, proclamou a necessidade do processo escrito, com os trâmites de citação, da produção de documentos, da prova testemunhal, etc.; foi ele quem introduziu na prática judiciária o remédio das apelações; foi ele finalmente quem, por intermédio dos seus juristas, criou a palavra designadora da luta judiciária, substituindo pelas expressões "processus, processus juris ou processus judiciais", o judicium e a ordo judiciorum privatorum juris romani."

"E basta isto para que vejamos nele uma das poderosas alavancas da mecânica jurídica — uma alavanca de ferro e ouro que tendo como ponto de apoio a fé inquebrantável, pode deslocar o eixo do mundo pagão."

Vê-se pois que a autoridade dos Papas, pregando a paz, não encontra outra igual. Por isso também o Sumo Pontífice Pio XI, de gloriosa memória, na sua Encíclica "Com solicitude cruciante" protestou contra o abuso de dar sentido diferente às palavras como sejam "justiça e direito." O grande Papa Pio XII não cessa de clamar contra as injustiças e atos violentos que se praticam na presente guerra mundial. Pois, embora politicamente neutral nesse conflito, não se pode afirmar que ele seja imparcial em face dos crimes que se praticam contra o direito da pessoa humana, contra as violações do direito natural e das gentes.

E todos nós devemos repelir as falsas e iníquas acusações contra ele assacadas como se ele fosse o responsável desse terrível conflito. Quem semelhante linguagem emprega, quer com referência a Pio XI ou Pio XII, desfigura completamente a verdade histórica, a qual se pode facilmente reconstruir pelo exame objetivo de inúmeros documentos pontifícios que são de pleno domínio público. Os Papas condenam os erros e as injustiças para conduzir os homens através de sua peregrinação temporal, ao seu destino eterno, onde há de resplandecer a justiça divina. Cristo é o sol de justiça. E todos os homens hão de verificar esse fato, tanto no juízo particular, depois da morte, como no juízo universal, em presença de toda a humanidade.

À luz desse sol estão subordinados o brilho e a dignidade do renascimento cristão do mundo, único que pode trazer-lhe a verdadeira paz. Por esse motivo Pio XII, no princípio do seu glorioso pontificado, dirigiu sua voz a todas as nações, dizendo: Opus justitiae pax! A paz é obra da justiça.

CAPÍTULO XXII

Atividade dos papas acerca da paz

Quando em 1917 Bento XV, no meio da guerra europeia, escrevia sua preciosa Mensagem aos beligerantes, indicando remédios a uma próxima guerra, propunha os seguintes três a uma então futura Sociedade das Nações: desarmamento obrigatório, arbitragem para os conflitos e sanções para os desobedientes.

Na Encíclica "Pacem Dei" de 23 de Maio de 1920, o mesmo Papa Bento XV escreveu: "Restabelecida a ordem da justiça e da caridade, é de se desejar que, afastada toda a desconfiança, formem as nações como uma só associação, ou melhor, uma família, tanto para defender a liberdade própria de cada uma como para conservar a ordem da sociedade humana. Para a formação desta sociedade das nações, preterindo muitas outras razões, exorta a mesma necessidade por todos sabida, de pôr todo o empenho para que, suprimidos ou diminuídos os gastos bélicos, cujo peso acabrunhador as nações já não podem suportar, se acabem, para sempre, tão desoladoras guerras ou certíssimamente se afaste, o mais possível, seu perigo, e cada povo conserve, com a liberdade do seu governo, a sua integridade territorial definida em seus termos justos."

E mais adiante o mesmo Pontífice acrescenta: "Unidas, pois, as nações pela lei cristã, a Igreja não deixará que se peça a contribuição de sua atividade e trabalho em tudo empreendam a favor da justiça e da caridade, visto que a Igreja é não somente o mais perfeito modelo de uma sociedade universal, como ainda, pela sua própria organização e modo de proceder, possui uma admirável força, tanto para unir os homens em relação à sua salvação eterna como para a comodidade da vida temporal, conduzindo-os, de tal maneira, através dos bens temporais, para que não percam os eternos."

Verifica-se a unidade de vistas de Bento XV e de Pio XII, quando o atual Pontífice propõe em 24 de Dezembro de 1939 que "a paz deve quebrar a desenfreada corrida de armamentos"; em 24 de Dezembro de 1940 acrescenta que a "vitória sobre a desconfiança na ordem internacional é postulado essencial para a ordem nova"; e em 24 de Dezembro de 1941 torna a expor como premissa fundamental que uma paz há de "não desejar mais guerras nem armamentos".

A Igreja sempre está de acordo consigo mesma. O grande teólogo dominicano Francisco de Vitoria pensava, quiçá, já em uma grande federação de nações, quando no seu tratado sobre o poder civil discutia, se a maior parte dos cristãos podia ter um monarca. Genial ideia do celebrado dominicano que pouco depois fora duramente flagelada a guerra e tão sabias normas dava para conhecer sua ilicidade ou ilicitude.

Muito mais próximo dos nossos tempos, o jesuíta Tarelli de Azeglio, na sua célebre obra de direito natural, tão recomendada pelo Papa Pio XI a todos os estudiosos, delineou, com grande visão na realidade, os planos e a existência de uma sociedade humana internacional, como a mais perfeita na ordem material e como a única capaz de levar o mundo pelos caminhos da felicidade, se chegasse um dia a assentar-se sobre sólidas bases de espírito cristão e caritativo.

Claro está que realizada essa união com um espírito meramente filantrópico, ou ainda, com espírito partidário com tentativas de egoísmo que não podem caber numa sociedade desse gênero, tem de dissolver-se pela própria força dos fatos, porque, em realidade, não foi constituída mais do que externamente. A experiência bem recente é conhecida em todo o seu fracasso.

Mais, se é de grande importância, ao chegar a paz, como diz Pio XII na sua alocução de 24 de Dezembro de 1939, "fazer um severo exame de consciência dos antigos defeitos e erros e de suas consequências deles derivadas"; se é preciso "prestar atenção às petições e necessidades das nações e minorias étnicas"; e se "tudo isto deve ser informado por um profundo sentido de responsabilidade e por uma verdadeira fome de justiça", este problema se presta à mais atenta consideração.

Assim o bem comum se verá esplendidamente realizado. Não somente o bem de uma nação, senão o do universo inteiro. Nenhuma nação ficará diminuída na sua dignidade, mas todas podem gozar de paz. O exercício do bem comum dentro de uma nação não pode, de modo algum, danificar os direitos intangíveis do homem, como são, por exemplo, o direito à existência, o direito de associação e tantos outros; tão pouco os direitos nacionais de existência, de defesa própria, de independência territorial, de soberania política e de igualdade não podem ser calcados aos pés; porque um bem comum mais alto os supõe e os reforça.

As dificuldades de ordem econômica que obstaculizam a verdadeira paz, derivam-se de dupla ordem de fenômenos: nacionais e internacionais. As primeiras se fundam no princípio indiscutível, promulgado por Pio XI e claramente afirmado em dois célebres documentos por Pio XII. A tese é a seguinte: havendo Deus criado para os homens os bens da terra, é preciso organizar a produção e a distribuição dos seus frutos de tal maneira que não falte a ninguém o suficiente para viver de modo humano. O mesmo princípio do direito de propriedade deve assentar-se sobre este postulado que na mente de Deus é anterior à propriedade privada e ao seu direito.

Assim é que Pio XI diz na sua célebre Encíclica sobre o comunismo: "Nas relações do comércio internacional todos os meios devem ser empregados para pronta remoção dessas barreiras artificiais que se opõem à vida econômica e que são os efeitos da desconfiança e do ódio. Todos devemos recordar que todos os povos da terra não formam senão uma família em Deus."

O primeiro, pois, e o fundamental que a sociedade deve propor-se, é que nunca e em parte nenhuma alguém morra de fome; que nunca e em parte nenhuma haja um ser humano que não possa viver como homem. E se a sociedade não cumpre com esse dever sagrado, oferecendo bens ou dando trabalho, o Estado tem o direito e a obrigação de forçá-la.

Em duas ocasiões falou o Papa Pio XII sobre este assunto e convém trazer aqui seu testemunho por causa da gravidade da afirmação. Na Encíclica "Sertum Laetitiae" dirigida aos bispos americanos, Pio XII assim se exprime: "O ponto fundamental da questão social é que os bens criados por Deus afluam equitativamente a todos, segundo os princípios da justiça e da caridade."

Na Mensagem radiofônica de 1º de Junho de 1941 declarou o mesmo Papa: "O nosso planeta com tão vastos oceanos e mares e lagos, com montes e planaltos cobertos de neves e gelos eternos, com grandes desertos e terras inóspitas e estéreis, não carece de regiões e terras vitais, abandonadas ao capricho vegetativo da natureza, aptas para a cultura da mão do homem e acomodadas às suas necessidades e às suas operações civis: e é muitas vezes inevitável que algumas famílias emigrando daqui ou dali, procurem alhures uma nova pátria.

"Então, segundo a doutrina da Rerum Novarum, deve respeitar-se o direito da família a um espaço vital. Onde isto suceder, conseguirá a emigração o seu fim natural, confirmado frequentemente pela experiência, queremos dizer, a distribuição mais conveniente dos homens sobre a superfície terrestre, favorável a colônias de agricultores; superfície que Deus criou e preparou para uso de todos.

"Se as duas partes, a que permite deixar a terra natal e a que recebe os recém-chegados, se mantiverem realmente solícitos em eliminar quanto possa impedir a formação e desenvolvimento de uma verdadeira confiança entre o país de emigração e o país de imigração, todos auferirão vantagens de uma tal mudança de lugares e de pessoas.

"As famílias receberão um terreno que será para elas terra pátria no verdadeiro sentido da palavra; as terras de grande densidade de população ficarão descongestionadas, e os seus povos ganharão novos amigos em territórios estrangeiros; e os Estados que acolherem os emigrados, ganharão cidadãos laboriosos. Assim as nações que dão e os Estados que recebem, contribuirão igualmente para o incremento do bem-estar humano e o progresso da civilização."

Quer dizer: liberdade de emigração; amplitude de espaço vital, não de maneira que a necessidade tenda ao monopólio de colônias ou nações com despreocupação de quem legitimamente as possuía, senão no sentido de que os emigrados em busca de mais vantajosas situações, encontrem com o tempo nas novas terras que cultivem, por sua adesão às mesmas, uma nova pátria e um novo lar. Nem mais nem menos o que vem sucedendo em tantas regiões americanas que, pouco a pouco, ao absorver no seu seio as novas gerações de emigrantes que foram um dia povoar territórios quiçá incultos, os assimilaram ao seu modo de ser e se tornam orgulhosos de ser argentinos ou peruanos, brasileiros ou uruguaios, os descendentes dos que foram espanhóis, portugueses, alemães ou italianos, etc.

Calcule-se a obra formidável que os cem milhões de europeus, transplantados para outras regiões do mundo no século XIX, realizaram, a magnífica missão que o insigne sociólogo Toniolo confiava à migração por ele chamada autônoma! Tem ela, diz Toniolo, uma ampla função demográfica deslocadora, que etnograficamente produz novos povos; civilmente prolonga e renova civilizações históricas; socialmente integra a missão produtiva da humanidade, e economicamente aumenta em grau imensamente maior o intercâmbio e o grau de civilização dos povos.

Cumpre a segunda parte do preceito de Deus aos homens: crescei e multiplicai-vos e enchei a terra. Merecem sinceros louvores as palavras do Sr. Vice-Presidente dos Estados Unidos: "Nenhuma nação tem o direito dado por Deus de explorar as outras nações. As nações mais antigas terão o privilégio de ajudar às mais jovens a iniciar-se no caminho da industrialização, porém isto não deve constituir nenhum imperialismo militar nem econômico."

E aqui outra vez a doutrina da Igreja ensinada pelos seus chefes, cumprindo com sua grande missão de definir os direitos de cada nação, harmonizando entre si os direitos dos emigrantes com os dos povos que os recebem. E assim tem perfeito cabimento o direito natural de que fala o Pontífice.

Conforme transmissão da Rádio Vaticano, o Santo Padre Pio XII dirigiu, em Junho de 1943, as seguintes palavras ao Colégio dos Cardeais: "Nossa voz — disse o Papa, referindo-se à ação da Igreja para evitar a guerra — era a voz vigilante da sentinela criada por Deus para guardar a família humana. Era a voz aterrada pela visão da catástrofe iminente. Esse grito era inspirado pelo amor a todos os povos, sem distinção. Pelo amor de Cristo, que triunfa sobre todas as coisas, nos incita e nos conduz". Declarou o Papa: "É doloroso e deplorável que muitas vezes durante a guerra se veja um julgamento moral ditado sobre certas ações, em desacordo com o direito e com as leis humanas, simplesmente porque os responsáveis pertencem a uma ou a outra das partes em conflito, não levando em conta, se as ações são ou não de conformidade com os ditames do Juiz Eterno. Por outro lado, a aplicação progressiva dos meios de luta não fazem distinção entre objetivos militares e não-militares e a violência sempre crescente da guerra chama a atenção para os perigos inerentes à triste e não favorável relação entre a ação e a represália, em detrimento não apenas dos povos e dos indivíduos, mas de toda a comunidade das nações."

O Vigário de Cristo declarou que seus pensamentos e afeição vão "às pequenas nações, que, pela sua situação geográfica e política agora que ninguém respeita os padrões morais, jurídicos e internacionais, arriscam-se a serem arrastadas aos conflitos das grandes potências. Vêm seus territórios tornarem-se teatro de lutas devastadoras. Vêm, com indescritível horror, mesmo entre os não-combatentes, o massacre da flor de sua juventude e de seus homens instruídos. Não espereis que nós devamos explicar aqui em detalhe tudo o que terá que ser tentado para minorar os seus sofrimentos, melhorar a sua situação moral e jurídica, proteger seus inalienáveis direitos religiosos e supri-las das necessidades da existência." O rádio de Roma diz que o Papa terminou seu discurso, exprimindo a esperança de que haja um novo mundo, "onde todas as nações, curadas das feridas abertas pela violência, avançarão, em perfeita harmonia, em demanda de uma vida melhor."

Ultimamente ainda o Santo Padre ordenou que se fizessem preces no dia 15 de Agosto deste ano, em todas as igrejas do orbe católico, em favor da paz mundial.

Terminando este capítulo, diremos com o Papa Pio XII: "A salvação dos povos não vem da espada que pode impor condições de paz, mas não pode criar a paz."

CAPÍTULO XXIII

Desprezo da ordem jurídica

O Sumo Pontífice Pio XII, da atalaia do Vaticano, vê e pressente os perigos que ameaçam a humanidade. Na sua luminosa Mensagem de Natal de 1942 ele chama a atenção do mundo sobre o desmoronamento da ordem jurídica, em consequência de doutrinas errôneas e perniciosas. Em seguida transcrevemos o trecho em que Sua Santidade se refere à importância e necessidade da ordem jurídica que deve predominar na sociedade humana:

"Para que a vida social, tal como Deus a dispôs, possa alcançar seu fim, necessita de uma ordem jurídica em que se apoie exteriormente, para se defender e proteger. A função desta ordem jurídica não é dominar, mas servir, ajudar o desenvolvimento e o incremento da vitalidade da sociedade na rica multiplicidade de seus fins, conduzindo todas as suas energias individuais à sua perfeição em uma pacífica emulação, e defendendo-as com os meios legítimos e adequados, de tudo o que possa militar contra sua plena evolução. Tal ordem, que garanta o equilíbrio, a segurança e a harmonia da sociedade, tem também o poder de coerção contra aqueles que somente por estes meios podem ser conduzidos à nobre disciplina da vida social. Mas na realização plena deste direito uma autêntica verdadeiramente digna deste nome será profundamente consciente de sua responsabilidade aos olhos do Juiz Eterno, em cujo Tribunal todo o juízo errado, e especialmente todo o ato contra a ordem estabelecida por Deus receberá sem dúvida sua sanção e sua condenação.

"As claras, fundamentais e sólidas normas que regem a sociedade não podem ser prejudicadas pela intervenção da atividade humana. Podem ser negadas, ignoradas, desprezadas e violadas, mas jamais podem ser transformadas validamente. É certo que, segundo o transcurso dos tempos, as condições da vida mudam. Porém jamais há um rompimento completo ou uma absoluta descontinuidade entre a lei de ontem e a de hoje, entre a desaparição dos velhos poderes e constituições, e a aparição de uma nova ordem.

"Em todo o caso, seja qual for a modificação ou transformação, o objeto de toda a sociedade humana permanece idêntico, sagrado, obrigatório: é o desenvolvimento dos valores pessoais do homem como imagem de Deus; e a obrigação de cumprir seu destino invariável permanece em cada membro da família humana, seja qual for o legislador e a autoridade a que obedeça.

"Em consequência, sempre permanece também seu direito inalienável — que nenhuma oposição pode anular, um direito que deve ser respeitado por amigos e inimigos à ordem legal e às práticas que julguem e compreendam que é seu dever essencial servir ao bem comum.

"A ordem jurídica tem, ainda, o alto e difícil destino de assegurar as relações harmoniosas tanto entre os indivíduos e entre as sociedades, como daqueles e destas entre si. Esta finalidade consegue sua realização, quando os legisladores se abstêm de seguir aquelas perigosas teorias e práticas, tão nocivas para as sociedades, e para seu espírito de união, que resultam e se originam da pregação de falsos postulados.

Falsas Teorias Sobre o Direito

"Entre esses postulados devemos contar o positivismo jurídico que atribui uma majestade falaz ao estabelecimento de leis puramente humanas, e que deixa o caminho aberto ao funesto divórcio entre a lei e a moral. Existe ainda uma concepção que afirma para as nações, raças ou classes particulares, o instituto jurídico como a norma ou o imperativo, ante o qual não cabe apelação. Por fim, existem outras várias teorias que, ainda quando diferenciadas entre si e procedentes de ideologias opostas, coincidem em considerar o Estado, ou o grupo que o representa, como uma entidade absoluta e suprema, isenta de vigilância e de crítica mesmo quando seus postulados teóricos e práticos conduzam à franca negação e à violação dos valores essenciais da consciência humana e cristã."

"A ordem jurídica social deve basear-se em Deus. Uma vez restabelecida essa ordem segundo os princípios preceituados por Deus, os cidadãos terão segurança e lhes será garantida uma esfera de direitos isenta de arbitrariedades.

A sociedade civil é em primeiro lugar uma sociedade de direito. Filósofos como por exemplo Cícero, viram nisto a sua essência e a definiram segundo a mesma. Isto não quer dizer que a caridade se possa eliminar. Onde quer que os homens vivam juntos, suas atividades se têm que combinar harmoniosamente, pois a gota de azeite da amizade é indispensável para suprir a justiça, quando esta falha, ou para temperá-la, quando é demasiadamente severa na prática.

Mas, a primeira norma e a medida fundamental da atividade dos cidadãos é o direito. Quer se trate de uma atividade de um cidadão a outro ou de um cidadão com referência à sociedade civil ou, ao contrário, da sociedade civil a um cidadão, o direito é sempre a primeira regra.

Como é a medida das atividades do povo, deve ser ele claro, pois, pelo mesmo terá que julgar a retidão dessas atividades do ponto de vista do bem comum. Como é sua norma, deve ser estável para poder adaptar a ele a conduta. Na verdade, o direito é para o povo o que o ideal é para o artista: a causa exemplar.

Enfim tem de ser soberano o direito, porque deve impor-se a todos, tanto ao simples cidadão como ao próprio Estado.

Se o direito não possui estas três qualidades, clareza, estabilidade e soberania, a ordem que inclui em seu estado ideal, já não estará assegurada e ficará comprometida a segurança da sociedade.

Ora bem, se o direito não está baseado em uma autoridade superior a todos os homens e a todas as instituições, uma autoridade que se imponha à sua consciência com os atributos do Absoluto, seu império se enfraquecerá. Aonde nos levaria uma força obrigatória absoluta, se a autoridade humana que é sua fonte, não tivesse mais que um valor relativo e limitado?

O Papa cita três teorias que se têm esforçado para realizar esta impossibilidade: o positivismo jurídico que considera "sua majestade a lei humana" como a base do direito; o instituto jurídico das nações, das raças e das classes; e, finalmente, o Estado ou um grupo que se apresenta como uma entidade suprema.

Estas três teorias são idênticas na sua essência e somente diferem na forma. Todas elas regulam a vida jurídica nos países totalitários, especialmente na Alemanha nazista. Em nenhuma parte se tem empregado tanta engenhosidade como no referido país para separar o direito do centro de sua existência que é Deus.

Já em 1862 foi condenada pelo Papa Pio IX a seguinte proposição: "Por ser o Estado a fonte e a origem de todos os direitos, o próprio Estado goza de um direito supremo que não tem limites." A Alemanha nazista tem continuado fielmente esta tradição. O direito segundo os nazistas "se forja nas escuras oficinas do instinto racial do povo" e o chefe é seu órgão supremo.

Quem não pode ver nesta afirmação o eco da escola histórica que no século passado fascinou com uma teoria semelhante a tantos juristas alemães? Mas, onde está a clareza de um direito que está forjado por um instinto que é cego por definição e, ainda mais, em oficinas escuras? Onde está sua estabilidade, se comparte a sorte de sua fonte e varia de acordo com as circunstâncias, o tempo, o lugar e os sucessos? Imagine-se qual seria o caos, se se tratasse de aplicar tal medida no terreno econômico.

Que vai ser da segurança jurídica dos cidadãos? E porque se deverá obedecer ao instinto cego do povo? Donde recebeu este instinto sua soberania absoluta?

E de mais a mais, que garantia se tem de que o chefe é órgão fiel deste instinto e que todos os chefes do futuro terão este dom?

A inteligência humana sente a necessidade natural de ligar as coisas humanas perecedouras ao centro imutável do nosso ser, o qual é Deus. Deus somente é sua regra, porque somente ele existe por si mesmo. Deus é a regra suprema de todas as criaturas que são falíveis.

Os chefes totalitários, nem homem algum, existem por si mesmos. São mortais e como todo o mortal podem inclinar-se ao erro e praticar o mal. Devem receber sua norma de ação como receberam sua existência; e a pretensão de criar sua moral, a moral de sua raça, não é mais que uma diabólica rebelião contra a ordem jurídica verdadeira, a ordem estabelecida por Deus e revelada por Cristo.

Todas estas teorias que negam ou combatem a ordem divina, são doutrinas envilecedoras, estúpidas e subversivas, sendo a guerra atual o produto mais monstruoso das mesmas. O conjunto dos deveres e direitos jurídicos e das leis respectivas constitui a ordem jurídica.

Existe de fato uma ordem jurídica, tanto natural como positiva.

Quanto à ordem jurídico-natural é preciso dizer que existem realmente deveres e direitos jurídicos e leis naturais que impõem esses deveres e concedem esses direitos, como é, por exemplo, o dever de restituir as coisas alheias e respeitar os pais, como também o direito à liberdade pessoal e à propriedade; e esses deveres e direitos jurídicos derivam da lei natural independentemente da lei positiva.

O homem individual e a sociedade possuem direitos sem concessão do Estado, concedidos pelo próprio Criador. Pois, o homem tem direito sobre o exercício de suas faculdades, sobre a liberdade, que são bens recebidos, destinados a servirem em sua própria utilidade. Da mesma maneira, a sociedade recebeu do seu Autor os meios para a consecução do seu fim; e Deus não teria concedido à sociedade esses meios, se lhe não tivesse dado o direito de exigir dos membros o que é necessário para o bem comum.

O Direito Natural

Se não houvesse algum direito natural, nem poderia haver direito positivo. Pois, quando a autoridade civil promulgou a primeira lei, devia possuir o direito de preceituar, assim como os súditos deviam ter o dever de obedecer; porque direito e dever são correlativos.

Ora, pode-se perguntar: donde proveio este direito? Derivou de um contrato? Mas ninguém pode obrigar um homem à observância desse contrato, se não se admite o princípio, anterior a todo o contrato e proveniente da lei natural, de que é necessário observar os contratos.

Originou-se do costume ou da persuasão dos povos? Mas, este costume ou esta persuasão pode ter força de obrigar só em virtude do direito natural; pelo que não poderia haver direito positivo, se não houvesse direito natural.

A ordem jurídico-positiva existe realmente, porquanto há deveres e direitos jurídicos impostos por leis positivas. A causa eficiente do direito é só a autoridade divina, imediata ou mediata. Por isso, os contratos feitos entre os homens derivam sua força obrigatória da vontade de Deus. Os homens determinam ou subministram as condições do direito; dadas as condições indispensáveis, o direito nasce da própria ordem moral, e por isso de Deus, autor de toda a ordem física e moral.

O homem pode, no uso do direito, violar uma lei divina. Mas, por ser mau o uso do direito, não se torna mau o próprio direito. Por isso, se o uso desordenado do direito deriva do homem, o próprio direito deriva de Deus. O direito jurídico refere-se diretamente a um objeto de rigorosa justiça; tal é, por exemplo, o direito à boa fama.

Podemos ainda acrescentar que a ordem jurídica é uma parte da ordem moral, porque o objeto da ordem jurídica constituído pelos atos de justiça é parte do objeto da ordem moral constituída pelos atos bons e honestos, isto é convenientes à nossa natureza racional; pois, todo o ato de justiça é por si bom e honesto, embora haja muitos atos bons e honestos que não pertencem à virtude da justiça.

A palavra direito ou "jus", costuma tomar-se pelos juristas e filósofos em vários sentidos. Umas vezes a palavra direito denota a própria lei e exprime a razão do lícito e do ilícito; porque os atos do homem são lícitos e ilícitos, enquanto são permitidos ou proibidos pela lei do superior. Daí o nome de direito dado à coleção das leis. Outras vezes significa o objeto da lei, e tudo o que a lei permite ou manda, tudo o que é justo. Ainda outras vezes exprime o efeito da lei; e como a lei não só impõe obrigações mas também dá poderes para fazer ou exigir alguma coisa, direito significa as obrigações e os poderes morais do homem. As obrigações que a lei impõe, chamam-se deveres; os poderes que a lei concede, tomam o nome de "direito".

Desta exposição de princípios sólidos e indiscutíveis que a sã filosofia nos apresenta, conclui-se logicamente que o Estado, considerando-se como fonte de todo o direito, solapa e destrói a firmeza da ordem jurídica, fundamento da vida normal da sociedade humana.

Quando se destroem os alicerces de um edifício, este tem de cair forçosamente. Assim o desconhecimento do direito natural, a impugnação da existência de Deus e dos seus direitos sobre as criaturas, são fatores que subvertem tanto a ordem jurídico-positiva como natural.

Aqueles que ensinam e espalham tais doutrinas errôneas, seja nas cátedras do magistério, seja na tribuna da imprensa, prejudicam imensamente a prosperidade das nações, porque preparam a anarquia no meio dos povos, procurando destruir a ordem jurídica estabelecida por Deus e pelas legítimas leis. Espíritos lucidos e refletidos reconhecem o perigo que ameaça a sociedade humana e os próprios Estados, quando se procura abalar a ordem jurídico-social. Os Estados, à semelhança de Sansão, derrubando as colunas da ordem jurídica, tornam-se vítimas das ruínas do majestoso edifício.

A lei eterna é o ato da razão e da vontade de Deus, enquanto, desde a eternidade, prescreve às criaturas racionais a conservação da ordem moral e proíbe a sua perturbação. A ordem moral consiste na correspondência e harmonia entre os atos morais do homem e a sua natureza racional. Pois, Deus, tendo estabelecido a ordem que existe no mundo, exige de todas as criaturas que a observem. Daí a lei eterna. Mas esta lei é diversa, conforme a ordem que se deve observar. Se a ordem é física, a lei também é física, e Deus aplica, no tempo, esta lei aos movimentos necessários das criaturas.

Se a ordem é moral, a lei também é moral, e Deus aplica, no tempo, esta lei aos movimentos livres das criaturas. Tratamos aqui brevissimamente da lei eterna moral, isto é, da lei eterna enquanto prescreve a observância da ordem moral e proíbe a sua violação.

Não se pode duvidar da existência da lei eterna que prescreve a conservação da ordem moral e proíbe a sua perturbação. Este ato existe em Deus. Com efeito Deus, governando com tão sábia Providência todas as coisas, deve ter na sua mente, desde a eternidade, a regra da ordem moral, que deve dirigir cada criatura para o seu fim, e, sendo infinitamente santo e justo, não pode deixar de exigir, desde a eternidade, que essa ordem seja inviolavelmente observada pela criatura racional.

Acresce que a lei moral é o ditame eficaz da razão prática do superior a quem pertence o governo da comunidade. Sendo Deus governador de todas as criaturas sobretudo dos racionais, deve ter em si, desde a eternidade, o ditame eficaz da sua razão prática, pelo qual mova a cada uma das criaturas para o seu fim.

A lei natural por sua vez é o ato da razão e vontade de Deus, que prescreve a observância da ordem moral e proíbe a sua violação e que se manifesta às criaturas na luz natural da razão. Os ditames da lei eterna que se referem às nossas operações, enquanto são conhecidas pela razão, constituem a lei natural. Por isso a razão humana, assim como, enquanto é teórica, conhece pela sua própria luz, os primeiros princípios especulativos e deles deduz as conclusões, assim também, enquanto é prática, conhece os primeiros princípios da honestidade, e por eles conhece o bem que deve fazer e o mal que deve evitar.

Sendo pois a lei natural uma participação da lei eterna, é impossível que o ato que repugna à reta razão, não seja uma transgressão da lei divina. O objeto da lei natural é constituído por todas as verdades práticas, conhecidas pela luz natural da razão. Reduzem-se a três categorias: umas exprimem os primeiros princípios morais e são imediatamente evidentes para todos; outras são consequências imediatas destes primeiros princípios, e se conhecem por uma simples reflexão; ainda outras são consequências remotas dos primeiros princípios e somente se conhecem pelo raciocínio.

Deus para governar e dirigir todas as criaturas para o seu fim último, deve aplicar a cada uma delas a sua lei eterna. Pois não há governo sem aplicação das leis respectivas. Esta aplicação da lei eterna deve ser proporcionada à natureza das criaturas. Por isso, se é aplicada às criaturas irracionais, enquanto elas recebem uma inclinação necessária para o seu fim, deve ser aplicada às criaturas racionais, enquanto conhecem pela luz natural da razão. A lei eterna, enquanto se manifesta às criaturas na luz da razão, constitui a lei natural.

Atesta a consciência que o homem pela luz natural de sua razão não somente conhece a distinção entre o bem e o mal moral, porém sente-se obrigado a obedecer, queira ou não, a uma lei superior que manda alguns atos honestos e proíbe outros não honestos, e que, se obedece a esta autoridade, experimenta paz e sossego de espírito, e, se a despreza, prova a censura do remorso e o medo de castigo: esta lei superior ao homem que manda a prática do bem e a fuga do mal, e que se conhece pela luz da razão, é a lei natural.

Todos os povos, em todos os tempos, admitiram a existência da lei natural, como um reflexo e manifestação da lei eterna; pois conheciam pela luz natural da razão, que estavam obrigados a praticar alguns atos e a evitar outros, sob pena de incorrer na desgraça e nos castigos do Ser Supremo. Este conhecimento se traduziu e manifestou no empenho de aplacar, sobretudo por meio do sacrifício, a divindade irritada.

Esse consenso unânime, universal e constante derivou da evidência do fato e por isso da verdade, pois não pode provir de uma deliberação da vontade, visto que a lei natural é gravosa e molesta para a própria vontade. A lei natural é universal e imutável. Nenhum escritor falou da lei natural com maior exatidão e eloquência do que Cícero. Diz o grande orador romano que a lei natural é constante, a mesma tanto em Roma como em Atenas, entre todos os povos, imutável e perpétua. E quem não obedece a essa lei, sofre os maiores castigos, embora julgue fugir de todos os suplícios.

É claro que a obrigação imposta aos homens pela lei natural, deriva de Deus, visto que ele é o autor da lei natural. Esta obrigação resulta do direito que Deus tem sobre todas as criaturas; e a este direito corresponde da parte das criaturas a devida obediência. A lei natural acha-se substanciada no Decálogo revelado pelo próprio Deus, e a Igreja a aplica pormenorizadamente.

Disse em Março do corrente ano um conceituado jurista brasileiro entre outras verdades de suma importância: "A boa lei deve ser como a posse justa: "nec vi, nec clam, nec precário". E mais adiante diz na sua notável conferência: "Fundamental e básico é a existência de um poder que proclame e defenda e proteja o direito, a lei, os direitos individuais contra as violações, os abusos, os excessos, da Injustiça, do arbítrio, da força.

"Esta missão, elevadíssima, cabe ao poder judiciário que, em sendo digno e altivo e respeitado, garante mais que a própria Constituição e a lei, pois vai além, declarando e impondo aqueles princípios eternos de justiça, que Deus escreveu no coração dos homens e que nunca precisaram estar codificados ou escritos, para que pudessem ser invocados e aplicados nas verdadeiras casas de justiça.

"O advogado que não tem coragem de lutar e que aconselha a fuga dos tribunais, o juiz displicente e acomodatício, que não sente as injustiças, que não vibra às investidas contra as suas atribuições e prerrogativas, que não tem coragem de fazer valer o prestígio de suas funções, tal advogado e tal juiz estão concorrendo para o desprestígio do direito e da justiça, estão inconscientemente insuflando o quintacolunismo jurídico. À primeira violência e ao primeiro desprestígio seguem-se outro e mais outros, e o povo e as elites perdem a confiança em seus tribunais, desanimam da solução jurídica das questões e correm para os outros poderes, ao legislativo e ao executivo."

Termina o ilustre autor: "E assim, todos, juízes e advogados, nos alçaremos às regiões ideais, lutaremos pelo direito, trabalharemos para nos aproximar da justiça perfeita que é a justiça divina, e poderemos fitar confiantes aqueles dísticos dos vitrais do nosso palácio: Veritas de Terra, Justitia de Coelo. Justitia perpetua est et immortalis."

CAPÍTULO XXIV

A democracia e suas propriedades

Diz a Constituição de 10 de Novembro de 1937 que o Brasil é uma República. Acrescenta um comentador que república é o governo do povo pelo povo e para o povo. No segundo artigo, a Constituição afirma: A bandeira, o hino, o escudo e as armas nacionais são de uso obrigatório em todo o País. Não haverá outras bandeiras, hinos, escudos e armas. A lei regulará o uso dos símbolos nacionais, ficando, porém, proibida a existência de bandeiras, hinos, escudos e armas dos Estados e dos municípios. Esta medida fortalece os laços da união nacional e congrega os cidadãos num mesmo devotamento à Pátria comum.

A divisa do regime republicano, o ideal do Estado democrático, consiste no trinômio: liberdade, igualdade e fraternidade. Não se pode afirmar que essa divisa seja uma conquista da ciência ou do espírito moderno, porque é essencialmente de origem cristã. Pois, foi o cristianismo que trouxe e ensinou ao mundo estas três grandes ideias. E unicamente os ensinamentos de Cristo podem dar-lhes o verdadeiro sentido, aplicando-as praticamente em benefício da humanidade.

Liberdade antes de tudo; mas, por liberdade não se entende essa independência absoluta, nem a anarquia ou a licença, que de fato constituem tantas outras formas de tirania e escravidão. Pois, como já disse Bossuet: "Onde todo o mundo pode seguir os seus caprichos, ninguém é capaz de realizar seus desejos; onde todo o mundo se arvora em amo independente ou senhor, todos são escravos". Com efeito, a verdadeira liberdade supõe a existência de uma lei e de um dever, pois que ela consiste essencialmente no direito de realizar tudo quanto consideramos necessário ou útil para o cumprimento do nosso dever. Portanto, a razão de ser da lei e da sociedade civil, constitui precisamente a necessidade de garantir-nos esse direito e essa liberdade.

O Estado democrático tem por missão assegurar aos cidadãos tanto a liberdade civil como a liberdade política. A primeira consiste em se poder fazer tudo quanto não prejudique a outros; o que significa fazer tudo quanto não esteja proibido por lei civil, pois que esta não proíbe mais que os atos prejudiciais à sociedade e ao indivíduo.

O regime popular pretende levar aos seus últimos limites o exercício desta liberdade: liberdade de viver e de mover-se sem entraves de espécie alguma; liberdade de adquirir e possuir sem restrições; liberdade de trabalhar, escolher sua profissão, exercê-la no lugar em que julgue oportuno; liberdade de associar-se para maior rendimento do trabalho.

Isto significa a abolição da escravatura, da servidão, do monopólio, das corporações fechadas e hereditárias. Liberdade de pensar e exprimir suas opiniões, de difundi-las pela palavra, pela pena ou pela imprensa, salvo responder pelo abuso dessa liberdade, nos casos determinados por lei, isto é, a supressão da censura e da autorização prévia.

Assinalemos por fim a liberdade religiosa, expressamente garantida "na declaração dos direitos do homem": "ninguém deve ser molestado por suas opiniões, nem religiosas, sempre que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei".

Vejamos, em seguida, a doutrina do grande Papa Leão XIII sobre a liberdade dos cultos que deve servir-nos de norma: "É primeiramente, a propósito dos indivíduos, examinemos esta liberdade tão contrária à virtude da religião, a liberdade dos cultos, ou a chamam, liberdade que assegura sobre o princípio de ser lícito a cada um professar tal religião que lhe apraz, ou até não professar nenhuma.

Mas ao contrário, sem dúvida alguma, entre todos os deveres humanos, o maior e o mais santo é o que ordena ao homem tributar a Deus um culto de piedade e de religião. E este dever é uma consequência deste fato — que somos perpetuamente dependentes de Deus, governados pela sua vontade e providência de Deus, e, que tendo saído d'Ele, devemos voltar para Ele.

Convém acrescentar que nenhuma virtude digna deste nome pode existir sem a religião, porque a virtude moral é aquela cujos atos têm por objeto tudo o que nos leva a Deus, considerado como nosso supremo e soberano bem; e é, por esta razão, que a religião que "precede os atos tendo por fim direto e imediato a honra divina" é a rainha e ao mesmo tempo a regra de todas as virtudes.

E se alguém perguntar, qual entre todas as religiões opostas, que circulam, é aquela que se deve seguir com exclusão das outras, a razão e a natureza se unem para responder-nos: aquela que Deus prescreveu e que é fácil distinguir, graças a certos sinais exteriores, pelos quais a Divina Providência quis torná-la reconhecível; porquanto, em uma coisa desta importância, o erro arrastaria a consequências muito desastrosas.

Eis porque oferecer ao homem a liberdade de que falamos, é dar-lhe o poder de desfigurar impunemente o mais santo dos deveres, de desertar, deixando o bem imutável para voltar-se ao mal; o que, como dissemos, não é mais uma liberdade, é uma servidão da alma na abjeção do pecado.

Encarada no ponto de vista social, esta mesma liberdade quer que o Estado não tribute nenhum culto público; que nenhuma religião ou não autorize nenhum culto público; que nenhuma religião seja preferida à outra, que todas sejam consideradas como tendo os mesmos direitos, sem até atender-se ao povo, quando mesmo este faça profissão do catolicismo.

"Mas, para que assim fosse, seria necessário que verdadeiramente a comunidade civil não tivesse dever algum para com Deus, ou que tendo-o, pudesse impunemente libertar-se d'Ele: o que é igual e manifestamente falso.

"Na verdade, não se poderia duvidar de que a reunião dos homens na sociedade seja obra da vontade de Deus, e isto ou consideremo-la nos seus membros, na sua forma que é a autoridade, em sua causa, ou no número e na importância das vantagens que ela proporciona ao homem. Foi Deus que fez o homem para a sociedade, e o uniu aos seus semelhantes, a fim de que as necessidades de sua natureza, às quais seus esforços solitários não poderiam dar satisfação, a encontrassem na associação.

"E por esta razão que a sociedade civil, enquanto sociedade, deve necessariamente reconhecer a Deus como seu princípio e seu autor, e, de conseguinte, tributar ao seu poder e à sua autoridade a homenagem do seu culto.

"Proíbe a justiça, proíbe a razão que o Estado possa ser ateu, ou que o levaria ao ateísmo, ser animado a respeito de todas as religiões, como se diz, das mesmas disposições e conceder-lhes indistintamente os mesmos direitos.

"Desde que é necessário professar uma religião na sociedade, é necessário professar a que é a única verdadeira e que sem dificuldade é reconhecida, ao menos nos países católicos, pelos sinais de verdade com que se manifesta seu brilhante caráter. Esta religião, os chefes do Estado devem, pois, conservá-la e protegê-la, se querem, como são obrigados, atender, com prudência e utilidade, aos interesses da comunidade. Porquanto o poder público foi estabelecido para utilidade dos que são governados, e, ainda que não tenha por fim próximo senão conduzir os cidadãos à prosperidade desta vida terrestre, é contudo um dever para ele, não diminuir, mas aumentar no homem a faculdade de atingir o bem supremo e soberano, no qual consiste a eterna felicidade dos homens, o que torna-se impossível sem religião.""

Podemos acrescentar o seguinte: É doutrina da Igreja já muitas vezes repetida que, fora da Igreja Católica Apostólica Romana, ninguém pode salvar-se. Mas, também deve-se ter por certo que aqueles que laboram em erro religioso invencível, não têm culpa diante dos olhos do Senhor. O Papa Pio IX em agosto de 1863 escreveu aos bispos da Itália: "É sabido que aqueles que vivem numa ignorância invencível acerca da nossa santíssima religião e que obedecem aos preceitos da lei natural, inscritos por Deus em todos os corações, e levam uma vida honesta e reta, podem conseguir, com a graça da divina luz, a vida eterna, visto que Deus não permite que seja punido, com eternos suplícios, aquele que não tenha culpa voluntária."

A liberdade política é aquela que assegura a todos os cidadãos o direito de participar do governo do seu país. Sem dúvida, este direito não é essencial para a liberdade civil e, de fato, esta pode existir também sob os regimes mais autoritários.

Não obstante, não se pode negar que ela está garantida com maior eficácia pelo regime que concede a cada cidadão o direito de velar, por si mesmo ou por seus representantes, sobre a proteção de seus interesses e defesa de suas liberdades.

Com efeito, se o monarca pode desejar o bem de seus súditos, contudo o fará à sua maneira e sem consultá-los; porém estes permanecerão sempre em posição de inferioridade, sujeitos mais ou menos à tutela. E as liberdades que se lhes concedem, serão sempre precárias e revogáveis a capricho de outrem.

Pelo contrário, sob o regime democrático o cidadão não é mais vassalo de nenhum senhor; é seu igual, com participação no governo e na autoridade. A lei à qual se deve submeter, é sua obra ou de seus mandantes; efetua o controle de sua aplicação e pode reclamar sua derrogação ou modificação para o maior bem de seus interesses. Vota os impostos, discute sua necessidade, tendo direito de pedir prestação de contas ao agente público da administração.

A doutrina de Cristo não somente deu ao conceito de liberdade sua plena significação, mas lhe assinou um lugar de primeira linha entre os valores espirituais. A liberdade se fez para o homem uma condição do progresso e aperfeiçoamento, e para a Igreja Católica a base de toda a sua ação espiritual. A liberdade dos "filhos de Deus" é uma das mais preciosas graças que Cristo ofereceu à humanidade.

A democracia e qualquer que seja o outro regime social, hão de empenhar-se em facilitar aos seus cidadãos o mais amplo desenvolvimento e perfeição espiritual. A Igreja Católica neste caso indica o caminho justo para isso, explicando que o fim da nossa vida consiste em que nos santifiquemos. "Sede pois vós outros perfeitos, assim como também vosso Pai celestial é perfeito."

A igualdade é outro predicado da democracia. A verdadeira democracia consiste, essencialmente, num constante e perpétuo esforço das vontades a um nivelamento progressivo das condições humanas. Na divisa republicana a igualdade aparece objetivamente, ocupando o segundo lugar. É a liberdade que deve ser assegurada antes de tudo, porque a igualdade na escravidão não teria nenhum valor.

Proclamando a igualdade, a democracia não entende estabelecer entre todos os cidadãos uma igualdade concreta e absoluta, o que seria impossível. É com efeito evidente que debaixo de todos os regimes os homens aparecem bastante desiguais quanto às forças físicas, aptidões intelectuais e mérito moral. Pois, se todos os homens tivessem o mesmo valor, as eleições não teriam razão de ser. Qualquer um poderia ser ministro, deputado ou presidente sem qualidades especiais.

A democracia tão pouco entende reconhecer a todos os cidadãos objetivamente iguais, o que seria a negação de toda a hierarquia social e sob este aspecto, da própria sociedade. A constituição democrática declara somente que os direitos de todos, quaisquer que eles sejam, serão igualmente respeitados e protegidos; que todos os cidadãos serão sempre iguais perante a lei e julgados pelo mesmo código. Numa palavra, decreta a igualdade civil.

Efetivamente, o antigo regime reconhecia a existência de classes distintas, admitia privilégios de nascimento, prerrogativas hereditárias. Não eram todos regidos pela mesma lei, submetidos aos mesmos impostos, capazes politicamente das mesmas funções.

Sob o regime popular ou democrático são abolidos todos os privilégios. Não existe mais diferença entre nobres e plebeus. Não deve haver mais favoritismos nem exceções, porque não deve existir senão justiça e igualdade para todos.

Por outra parte, todos os cidadãos são igualmente admissíveis a todas as dignidades, cargos e empregos públicos segundo a sua capacidade e sem outra distinção que suas virtudes e seus talentos.

As dignidades sociais não têm outra razão de ser que a utilidade comum, e não existe superioridade efetiva mais do que a do funcionário em exercício de suas funções. Em síntese, a democracia não conhece mais que cidadãos com capacidade para os mesmos direitos e submetidos aos mesmos deveres.

Além desta igualdade civil, a democracia proclama a igualdade política destinada a ser seu complemento e a sua garantia. O que constitui a igualdade política propriamente dita, é o sufrágio universal, em virtude do qual todos os cidadãos possuem o direito de participar do governo de seu país, seja, de forma indireta, elegendo aqueles que julguem mais dignos de representá-los e governarlhos em seu nome, ou em forma direta, se forem chamados a exercerem efetivamente uma parte do poder.

A democracia moderna leva a paixão da igualdade ao ponto de atribuir a todos os sufrágios, quaisquer que eles sejam, idêntico valor. De maneira que o voto do ignorante e do incapaz tem aos seus olhos tanto peso como o do cidadão mais inteligente e experimentado.

É necessário confessar que esta ficção que estabelece o número como árbitro da justiça e do direito, é o ponto mais vulnerável e constitui o maior perigo dos regimes democráticos. O único meio de remediá-lo, é generalizar bastante a instrução e a prática das virtudes cívicas para assegurar-se, de antemão, que a maioria será sempre o intérprete incorruptível da justiça e da verdade.

A democracia deve aplicar-se a nivelar os injustos privilégios de classe, alcançados à custa da miséria de outros, como também implantar o império das leis, à base de igualdade de todos em face das mesmas.

O princípio de igualdade perante as leis tem suas raízes na doutrina de Cristo, que nos ensinou que segundo o direito moral e natural, todos somos iguais, porque todos descendemos de um mesmo pai e todos nos encaminhamos ao mesmo fim último, sendo o céu, a bem-aventurança eterna, a herança de todos.

A fraternidade enfim constitui a perfeição e o fim superior de toda a sociedade. O Estado democrático pretende pelo gozo dos mesmos direitos e pela observância dos mesmos deveres, estabelecer entre os cidadãos um laço tão estreito de solidariedade e de reciprocidade que eles se considerem mutuamente como os membros de uma família, como irmãos que se amem uns aos outros, sempre prontos a ajudar-se e resolutos a permanecer indissoluvelmente unidos na boa ou má sorte, para o maior bem de todos e a grandeza da pátria comum.

Ainda mais, todo o regime político social entre os homens deve procurar unir e irmanar os cidadãos do mesmo Estado e estabelecer entre os diversos povos a concórdia. Tal unidade só pode ser alcançada em Cristo; nele desaparecem todas as diferenças e antagonismos raciais; desvanecem os ódios e egoísmos, cessam as guerras, porque Cristo como Rei de todos os homens deseja que o seu reino de amor e de perdão e de fraternidade se estenda o mais possível sobre todos os povos da terra.

Sua lei suprema é o amor que todos une entre si; e não poderá substituí-la nenhuma ideologia humana, incapaz de livrar os corações do ódio imenso e horrível que divide a humanidade em campos hostis e irreconciliáveis.

De mais a mais, não se esqueça ninguém, na república como sob qualquer outro regime, de que a autoridade, da qual se fala menos, continua a ser sempre a condição essencial e o princípio de toda a ordem e de todo o bem social. Sem uma autoridade respeitada, a liberdade degenera geralmente em licença e anarquia; a igualdade se transforma em nivelamento de todos debaixo de uma mesma e vergonhosa escravidão; quanto à fraternidade, não se chega a obter mui prontamente mais do que a fraternidade que existia entre Caim e Abel.

Acresce, enfim, que para ser eficaz esta magnífica divisa de liberdade, igualdade e fraternidade, ela não deve limitar-se tão somente a discursos ou figurar nas inscrições de moedas ou no frontispício de edifícios públicos. Mas, é preciso que ela se ache gravada firmemente no coração de todos os cidadãos.

É um erro pernicioso e um profundo engano supor que nos regimes democráticos deva predominar a laicidade em todos os departamentos e instituições do Estado. Isto se verifica pelo que acima foi demonstrado. A Igreja Católica continua a ensinar as regras de sua moral e a doutrina de Cristo convencida de que, dessa maneira, presta os mais relevantes serviços aos Estados também democráticos.

Em certos países não se trata, simplesmente, de defender a liberdade de pensamento e de ação contra a influência política da Igreja. Trata-se de sustentar essa ideia perniciosa de que nenhuma consideração religiosa deve ter lugar na organização da sociedade civil.

Ora, ninguém pode negar que na República Argentina predomine o verdadeiro regime democrático. Entretanto é conveniente assinalar o seguinte fato: em certas festas patrióticas o primeiro magistrado, de pé diante do sacrário, preside ao canto do hino litúrgico "Te Deum laudamus", dirigido a Jesus Hóstia, hino que diz: "A vós ó Deus louvamos, a vós por Senhor confessamos. A vós o eterno Pai adora toda a terra. A vós todos os anjos, a vós os céus e todas as potestades, a vós os querubins e serafins proclamam com incessantes vozes: santo, santo, santo, Senhor Deus dos exércitos."

É esta uma solene profissão de fé católica realizada pelo Presidente e por toda a nação que ele representa.

Apesar de ser perfeita democracia, a República Argentina mantém capelães militares nas suas forças armadas. Além disso, o Presidente nacional e seus ministros antes de tomarem posse dos seus respectivos cargos, prestam solenemente juramento segundo as normas católicas.

Outrossim, os Estados Unidos da América do Norte que, com razão timbram no seu genuíno espírito democrático, também conservam, oficialmente, capelães militares. As sessões do Congresso são abertas com uma oração; guarda-se a santidade do domingo; todos os anos celebra-se o dia de ação de graças (Thanksgivingsday).

Disse George Washington, o primeiro Presidente dos Estados Unidos, no seu discurso de despedida: "De todas as disposições e hábitos que conduzem à prosperidade política, a religião e a moralidade são fatores indispensáveis. Em vão reclamaria o tributo de patriotismo o homem que se esforçasse para destruir essas grandes colunas da felicidade humana, esses mais que todos firmes apoios dos deveres dos homens e dos cidadãos. — Por muito que se conceda à influência de uma esmerada educação em inteligências de excepcional estrutura, a razão e a experiência ambas nos proíbem esperar que possa prevalecer a moralidade nacional sem os princípios religiosos."

Portanto, a democracia, por sua natureza, não está obrigada a admitir em todos os seus setores a laicidade ou seja, o espírito laico e excluir a religião. A laicização da sociedade civil e do Estado não fortalece a sua firmeza, mas abala o seu vigamento e solapa seus alicerces.

"Pode-se admitir que a democracia, em não poucas nações está desprestigiada. Mas pergunto: Basta isto para justificar a abolição do regime democrático? Quando alguém está enfermo, não se deve matá-lo mas curá-lo. A decadência da democracia, acaso lhe advém em virtude de alguma deficiência que lhe é substancial? Não! Essa deficiência lhe sobreveio, porque não se acautelou contra uma enfermidade parasitária que em algumas regiões aderiu ao regime democrático, como pode aderir a quaisquer outros regimes políticos.

A enfermidade é a falsa filosofia da vida, é, em termos teológicos, a concupiscência da vida, donde provém que a democracia, a fim de reabilitar-se, deve tornar-se mais austera, o que equivale: deve fazer-se cristã.

A democracia necessita de um aperfeiçoamento. Ninguém disso dúvida. Porém, um aperfeiçoamento não é substituição. Abundam nesta hora crítica do mundo aqueles que se deixam seduzir pela miragem de um governo de força, atribuindo à força uma virtude que nem a lógica nem a experiência permitem aceitar.

É necessário fazer uma distinção: há governo de força e há governo com força; governo de força é aquele em que a força se serve do governo para o avassalamento dos direitos e das liberdades. O governo com força, ao invés, é aquele em que o governo se serve da força para a efetivação e a defesa dos mesmos direitos e liberdades.

Somos adversários de todo o regime de força e partidários do sistema de governo com força. Não basta na realidade que um indivíduo ou uma nação possua direitos e tenha liberdade. É necessário que haja uma força que os faça respeitar. Hoje mais que nunca, deve gravar-se na consciência dos homens e na alma das nações a célebre fórmula de Pascal: "A justiça sem força é impotência; a força sem justiça é tirania." É necessário, portanto, irmanar a justiça com a força, fazendo que o justo seja forte e o forte seja justo.

Leão XIII na sua Encíclica "Diuturnum" anunciou ao mundo, em circunstâncias históricas, que todos os regimes políticos, quer democrático quer republicano, são igualmente admissíveis, sempre que deixem a salvo os direitos divinos e humanos. A democracia é um sistema de governo que obriga moralmente a todos os homens, de coração, a trabalhar pela elevação do nível moral e material do povo, já que nenhum regime político abre tanto as portas aos filhos do povo, para que cheguem a participar nas responsabilidades do poder como o regime democrático.

CAPÍTULO XXV

Os dois gládios

Reuniu-se em 6 de junho deste ano, no recinto da cripta da catedral, um grande número de militares, oficiais e simples soldados para cumprirem o dever pascal. Tendo jurado fidelidade ao glorioso pavilhão nacional, quiseram também repetir o seu juramento à bandeira de Cristo. Dessa maneira desejavam fortalecer as suas energias espirituais, convencidos de servirem melhor à Pátria, quando obedecem a Deus. A Páscoa dos militares, que em todo o Brasil se realiza anualmente, é uma prova segura da orientação cristã das nossas classes armadas. Um bom soldado de Cristo será sempre ótimo soldado do Brasil. As duas categorias de soldados devem identificar-se nos mesmos militares. O Brasil é católico!

Por isso queremos concretizar os pensamentos que exaramos nas seguintes páginas, no símbolo de dois gládios: o gládio militar brasileiro e o gládio do espírito.

Nesta fase histórica é preciso brandir, harmonicamente, os dois gládios em defesa da nossa Pátria. De fato, o gládio militar brasileiro destina-se a guardar os maiores tesouros da Nação como sejam: a sua liberdade, independência, soberania e tradições históricas, inclusive as religiosas. A finalidade do gládio militar brasileiro não consiste em conquistar novo espaço vital, muito menos em oprimir ou massacrar povos.

Disse com razão o preclaro Presidente da República ao eminente Sr. Roosevelt: "Diante do perigo não esmoreceu a nossa velha e lealíssima amizade, ao contrário, ligamo-nos ainda mais, juntando os nossos destinos na luta travada pelos povos livres contra as ameaças da tirania e da escravidão para pelejar pela vitória da grande causa ao lado dos americanos, cujo heroísmo militar e civil nos enche de admiração."

As nossas classes armadas, auxiliadas eficazmente pelos nossos valorosos aliados, empunham o cintilante gládio de aço para defender as nossas praias contra as incursões inimigas, para repelir os invasores que pretendam transformar o Brasil em colônia, a fim de explorarem as suas riquezas, para expulsar o inimigo desejoso de desfraldar a sua bandeira em nossas cidades, sobre nossas coxilhas e montes, em substituição do pavilhão auriverde. À sombra benfeitora da nossa Bandeira, símbolo da nacionalidade, as nossas classes armadas lutarão e vencerão, brandindo o luzente gládio militar.

Pois, a defesa das nossas instituições públicas e do território nacional somente é um direito sacro-santo, mas constitui também uma verdadeira obrigação para todos os cidadãos brasileiros. Assim como o homem individual tem o direito de defender a sua vida contra as injustas agressões, da mesma sorte aos povos assiste o direito de defender a sua liberdade, a sua independência, a sua soberania, a saber, os atributos essenciais que constituem a sua vida nacional.

Se, portanto, aparecesse algum Catão minúsculo que parodiasse a sentença fatal de Cartago, dizendo: Caeterum censeo Brasiliam esse delendam, de mais a mais julgo que o Brasil deve ser conquistado e destruído: as nossas classes armadas do sul ao norte haveriam de exclamar: O Brasil jamais será vassalo de potência alguma, jamais será destruído; a nossa espada defenderá as fronteiras do seu território, assim como o gládio flamejante do anjo guardava a entrada do paraíso. Deus está conosco!

A espada militar brasileira nunca cessou de glorificar a nossa Pátria; sempre cintilou, com o mesmo brilho e bravura, tanto na mão de Osório e Caxias, como no punho de Barroso e Tamandaré.

Entretanto, a espada militar deve ser acompanhada do gládio do espírito. Ambos hão de integrar a eficiência de sua atividade, a fim de salvaguardar a grandeza e o futuro do Brasil.

Felizmente temos militares oficiais de alta patente que empunham, com o mesmo valor e patriotismo, tanto o gládio cintilante de aço, como o gládio invencível do espírito em defesa do Brasil. Eles merecem os nossos mais vivos aplausos.

É mister que as nossas classes intelectuais e universitárias se penetrem de sua alta missão patriótica nos tempos presentes. A elas corre o estrito dever de orientar a Nação, apontando-lhe os erros doutrinários e históricos que circulam, e refutando calúnias e ideologias antipatrióticas e subversivas. É preciso que elas empunhem, destemidamente, o gládio do espírito, cultivando a genuína filosofia, a filosofia cristã, e fazendo triunfar, como necessidade absoluta, a observância dos preceitos divinos e os ensinamentos salutares de Cristo Nosso Senhor. Do contrário estremecerá o edifício social brasileiro nos seus fundamentos.

Também a Ação Católica deve brandir o gládio do espírito em todas as camadas sociais. É preciso que ela faça prevalecer o espírito cristão sobre as tendências laicizantes. Faça ela compreender à sociedade hodierna que só o reinado de Cristo pode assegurar a paz e a felicidade dos homens. Ninguém destruirá as leis do decálogo. Mas, a impiedade procura anular a sua observância. Cristo mostra aos povos o caminho que, necessariamente, devem seguir, a verdade inabalável que devem professar, e a vida exuberante que os aperfeiçoa e santifica. Por isso, a Igreja Católica, mestra e defensora destas verdades, embora às vezes injuriada e caluniada, é o baluarte da grandeza moral do Brasil, é a cidadela inexpugnável de sua unidade nacional.

A Ação Católica e os intelectuais têm de empunhar o gládio do espírito, se querem contribuir para o fortalecimento das nossas instituições públicas e a prosperidade do Brasil. Imitem eles o glorioso exemplo de Dom Vital de Oliveira e de Dom Macedo Costa, de Carlos de Laet, de Felício dos Santos, de Alceu Amoroso Lima, de Adroaldo Mesquita da Costa, de Armando Pereira da Câmara e de tantos outros. É necessário que o gládio do espírito lute em favor do triunfo da justiça, do direito, da verdade e do amor fraterno.

O Brasil lançou as raízes de sua civilização e cultura nos ensinamentos de Cristo pregados pela Igreja Católica, que sempre cuidou da instrução literária e o patriotismo do povo. Se uma potência inimiga conquistasse o Brasil, se uma espada estrangeira lhe implantasse suas falsas concepções acerca do mundo e do homem, seria isso uma catástrofe fatal para a Nação. Pois, como um majestoso edifício privado de seu fundamento, a Terra de Santa Cruz se transformaria num montão de ruínas políticas e morais.

Diz o ilustre escritor Dr. Pedro Calmon com referência aos holandeses no Maranhão, interpretando a mentalidade de Maurício de Nassau: "Para dominar de vez o Brasil de André Vidal, de Camarão, de Henrique Dias — seria necessário — e era absurdo — queimar até as raízes a colonização portuguesa, com as suas cruzes e seus claustros, as suas mansões patriarcais, sem que sobrassem do extermínio a fé, a língua, a raça."

Coisa semelhante aconteceria, se nossos inimigos flagelais conquistassem o Brasil. Mas é certo que, assim como falharam os planos dos invasores batavos, os brasileiros repeliriam os novos atentados à sua liberdade e soberania.

A Igreja Católica subsistirá através dos séculos, não obstante as perseguições, não obstante os desastres que possam cair sobre a humanidade. Contudo, apesar da promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão contra ela, o Salvador não garantiu a existência perpétua de sua Igreja em tal ou qual nação, nem no Brasil.

Examinemos as origens do cristianismo. Na Ásia Menor e nas regiões vizinhas à Palestina, os próprios Apóstolos instituíram a religião católica. Quando, porém, o islamismo invadiu a África setentrional e o oriente próximo, ele destruiu, de forma absoluta tudo quanto ali sobrevivia das antigas cristandades, submetendo ao seu domínio muitos povos por meio de sua tirania cimitarrra.

Em alguns países e regiões do ocidente, as heresias guerrearam a Igreja, suprimiram o culto católico e lhe suplantaram toda a atividade. Porém, as consequências estão por demais conhecidas. Por isso, não é lícito adormecermos sobre a almofada macia da promessa divina, pensando que a Terra do Cruzeiro não possa ser privada da religião de Cristo, caso a Nação não cumprir os seus deveres. Portanto, empunhemos o gládio do espírito para garantir a prosperidade presente e futura da Terra de Santa Cruz. Por esse motivo, também os representantes da Igreja Católica, desde o Sumo Pontífice até ao pároco do rincão mais longínquo, vibram o gládio do espírito em defesa do direito e da justiça, em defesa da felicidade humana.

Queremos aqui citar as palavras do Sr. Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, pronunciadas em imponente solenidade no Rio: "Feliz mocidade essa que pode marchar pela estrada longa de tão nobre ideal, que pode vangloriar-se de trazer selado o destino da Pátria ao seu próprio destino, que pode morrer para que viva eterno, o Brasil.

"A fé que mora em vossas almas, completa a vossa sensibilidade cívica, unindo num só pensamento aquilo que força alguma do mundo será capaz de separar — Deus e Pátria — "Nem pudera ser de outro modo, nesta terra marcada pelo sinal cristão. Deus a quis para si, na manhã de sua existência de nação civilizada, à sombra da cruz de Frei Henrique de Coimbra, como a quisera para todo o sempre, na amplidão infinita dos céus, junto de si, na luminosidade do nosso Cruzeiro.

"À sombra da Bandeira Pátria, enquadrados nas fileiras do Exército de Caxias, o ínclito soldado e o grande cristão, levando na alma a couraça da religião, sereis certamente dignos da glória que nos reservou a Providência, dignos de sobreviver com a sobrevivência do Exército, em cujas fileiras acabais de ingressar e com o qual vosso juramento vos ligou, para a vida e para a morte."

Ouça-mos a palavra que o Sr. Presidente Roosevelt dirigiu ao Sr. Dr. Getúlio Vargas: "A responsabilidade assumida pelas forças armadas brasileiras na salvaguarda das comunicações marítimas e aéreas para os teatros de guerra e na proteção das costas do Brasil, que são as costas da América, veio garantir a segurança das comunicações e abastecimentos que eram indispensáveis aos exércitos e marinhas das nações livres empenhadas numa dura luta na África e em outros teatros da guerra."

Ouça-mos ainda a palavra de um eminente Prelado argentino: "Nós que somos do hemisfério sul, ocupado por países tradicionalmente católicos, somos protegidos pelo Cruzeiro do Sul. Vós que sois do hemisfério norte, pedistes ao céu as estrelas que simbolizam vossos Estados. Pois bem: eu faço, em nome de todos, este voto: que a cruz do sul seja o mastro incomovível e eterno de cujo tope flameje vitoriosa a bandeira cujas estrelas representam os princípios baixados do céu para servir de base à justiça, à justiça à paz e à paz à ordem e ao progresso do mundo."

Se entre nós as duas espadas unirem os seus esforços para o mencionado escopo comum, o Brasil poderá dizer que os seus inimigos não prevalecerão contra ele: non praevalebunt! Não prevalecerão as discórdias internas: non praevalebunt! Os inimigos externos encontrarão as nossas classes armadas unidas e fortes, disciplinadas e obedientes aos superiores hierárquicos: não prevalecerão!

A Nação, prontamente, aceitará as ordens dos seus legítimos chefes: non praevalebunt! Os submarinos e os aeronaves dos inimigos não poderão realizar os seus criminosos intentos, porque as nossas classes armadas, inspiradas num patriotismo heroico e orientadas pela doutrina de Cristo, dominarão todas as situações e salvarão o Brasil: non praevalebunt! Os inimigos não poderão vencer a ação conjunta do gládio do espírito e do gládio militar brasileiro: non praevalebunt! Não prevalecerão contra o Brasil.

Saudemos as nossas beneméritas classes armadas! Salve, ó Brasil, nobre democracia, oriunda da índole, nascida da vontade do teu povo ilustre! Salve Pátria magnífica, esplendor da Igreja, orgulho das Repúblicas Americanas e glória imarcescível das nações do universo.

CAPÍTULO XXVI

Inimigos do Estado Nacional

Antes de tudo devemos declarar que, nas considerações deste capítulo, falaremos em geral, sem referência a ninguém em particular, e sem pretensão de ferir suscetibilidades de quem quer que seja.

A situação anormal em que se debate o mundo nos tempos que correm, reflete-se no Brasil e nos outros países. A instabilidade das instituições públicas e a versatilidade de tantos homens acham eco em nosso meio social. O espírito de imitação, a superficialidade de muitos e a má vontade de não poucos, as investidas contra o prestígio da autoridade, tanto civil como eclesiástica, tudo isso exerce influência funesta sobre a vida da Nação.

Pelos ensinamentos da história sabemos que todos os regimes políticos e todos os sistemas estatais tiveram que lutar com oposições mais ou menos fortes ou violentas. Basta vermos a Roma antiga que adotou sucessivamente a forma monárquica, republicana e imperial com várias modificações até à queda definitiva do império.

Na Itália, algum tempo prevaleceu o sistema republicano exercido por várias cidades. Mais tarde e depois de muitas mudanças de regimes e governos, o reino atual conseguiu unir todo o povo italiano. Mas, pensa-se, novamente, em substituir a monarquia por uma república.

O mesmo fato histórico observa-se facilmente na maioria dos países europeus. Nem é preciso falar nos gigantescos esforços empregados pelos povos americanos para conseguir sua independência e separação dos países que os descobriram e iniciaram seu povoamento e civilização. O Brasil também passou por vários sistemas políticos, durante os quais nunca houve completa ausência de oposições.

Por isso, não se deve estranhar que na atual fase histórica o nosso Estado Nacional tenha inimigos que o combatam oculta ou abertamente.

Ninguém pode negar que os nossos estadistas e governantes empregam seus maiores esforços no sentido de proteger a Nação contra a avalanche de ideias subversivas e a criminosa tendência de serem favorecidos os próprios inimigos.

O Sr. Ministro Marcondes Filho, a quem a Nação deve benefícios de incalculável valor, há pouco, deu instruções, nas quais impõe o controle do Governo a todas as associações operárias.

Qual será o escopo dessa medida governamental? Julgamos não errar, afirmando que tem por fim controlar e desarticular a propaganda intensa dos comunistas, que, sob o pretexto de orientar e doutrinar a favor da guerra e contra o quinta-colunismo, formam grupos em toda a parte: sociedades operárias e outras, nas fábricas e bairros, com a camuflagem dos nomes mais diversos.

Apesar de todos esses louváveis empenhos dos nossos governantes, os inimigos se preparam, e articulam os meios para um futuro combate às instituições públicas vigentes.

Infelizmente, tenta-se implantar no meio do povo a inquietação e a divisão. Assim é que, não obstante a vigilância do Governo, se procura formar a ideia ou mentalidade falsa e antipatriótica que culmina na declaração absurda de haver no Rio Grande e em todo o Brasil somente duas classes de cidadãos: comunistas e quintacolunistas. Quem não é comunista, é forçosamente quintacolunista, segundo essa desastrada opinião. Eles merecem o conveniente castigo.

Quem são os propagandistas? São os próprios nazistas e comunistas, pescadores em águas turvas. Que haja comunistas e quintacolunistas, ninguém o põe em dúvida. Mas dividir todos os homens, todos os habitantes do País nestas duas classes, é crime que devia ser denunciado ao Tribunal de Segurança Nacional.

Pois, atribuir qualidades de quintacolunista ou de comunista a pessoas acima de toda a suspeição, para causar confusão no meio da sociedade e para disfarçar a nefanda atividade dos asseclas dessas duas ideologias, revela esperteza diabólica e merece categórico protesto.

Seria preciso que todos esses que pretendem perturbar a tranquilidade pública, fossem castigados com o rigor das mesmas leis a que tanto o nazismo, como o comunismo estão sujeitos.

Esses processos promovidos pelos inimigos do Estado Nacional, tendem a preparar tremenda guerra civil, se Deus não intervier. Portanto, "cuidem os governantes para que o Estado Nacional não sofra prejuízos: videant consules, ne quid res publica detrimenti capiat."

Essa calúnia espalha-se por toda a parte, pela Capital, pelas cidades e pelas zonas rurais e produz as mais tristes e lamentáveis consequências. Assim, por exemplo, agentes subalternos do Governo mal orientados ou homens encarregados de exercerem uma parcela de autoridade pública, conforme o seu modo de encarar certos assuntos, são capazes de se tornarem verdadeiros tiranetes no meio das populações rurais, contra a vontade explícita dos seus superiores hierárquicos.

E porque suas atitudes dependerão de sua preferência de punir alguém como quintacolunista ou como bolchevista. É o dilema que deve ser condenado; é quase o caso de se dizer que fulano ou sicrano deve ser preso por ter cão e por não ter cão.

Os agricultores no interior do Estado, em geral não têm suficiente formação política ou social. Por isso, atribuirão aos superiores injustiças, por desventura recebidas de agentes subalternos do poder público. Acontece ainda que os propagandistas do nazismo e do comunismo aproveitam essa circunstância em benefício de suas teorias nefastas. Dizem, por exemplo, os nazistas que, em breve, virão os aviões de Hitler, a fim de pôr termo a tal ou qual situação. E os outros afirmam que, uma vez dominante o comunismo, serão dispensados os impostos e as grandes extensões de terras serão repartidas, porque tudo será comum. Dessa maneira, o povo simples fica confuso e desnorteado e muitos homens se tornam realmente inimigos, embora calados, do Governo e do Estado Nacional.

Em todo o Rio Grande e em todo o Brasil, seja na zona agrária, na campanha ou nas cidades, o número dos bons e verdadeiros patriotas é imenso e todos condenam, em absoluto, tanto o nazismo como o bolchevismo, considerando a ambos não somente sistemas perigosos mas inimigos do Estado. Impõe-se a necessidade nacional que todos os brasileiros se unam e reprovem as ideias exóticas, cujo domínio na Terra de Santa Cruz não somente produziria a destruição do Estado Nacional brasileiro, mas transformaria também todo o País num caos moral e bélico.

Contudo, não se trata de condenar nem o povo alemão nem o povo russo como tais.

Disse, com razão, o Sr. Presidente Getúlio Vargas: "Se um pedido eu devesse fazer, neste momento, à imprensa do meu país, seria este: não permita se lance a desconfiança entre os brasileiros, não consinta se estabeleça, por um momento sequer, a dúvida de que seja algum delles capaz de faltar ao cumprimento do dever. Todos em conjunto e cada um por sua vez, devem-se manter, nas esferas de sua atividade, em permanente vigilância, pensando na Pátria. Devemos estar unidos. Uma vez que o Brasil firmou a sua norma de conduta, não pode haver divergências entre brasileiros."

É grosseiro engano supor que as nações unidas contra o "eixo", em consequência da aliança feita com a Rússia, queiram defender e aceitar as teorias filosóficas e religiosas do comunismo soviético. Porque eles querem conservar a sua independência e não desejam ser parcelas escravizadas de uma república universal ou mundial.

Isto foi declarado pelo eminente Primeiro Ministro inglês Sr. Winston Churchill, que em Julho de 1941 citou e aprovou, plenamente, as palavras do General Jan Smuts: "Se Hitler em sua insana megalomania impeliu a Rússia a combatê-lo para defender-se a si mesma, bendizemos suas armas e lhes desejamos todos os triunfos, sem jamais, em tempo algum, identificar-nos com seu credo comunista".

"Aí está, como diz um escritor contemporâneo, uma prova do admirável bom senso do homem que tem em mãos os destinos da Inglaterra e de todo o mundo. Que vivo é o contraste entre a sabedoria de Churchill e a estultice dos que andam à cata de mil subterfúgios para exalçar o regime que nenhum país, cioso de conservar a sua liberdade, pode ambicionar." Podemos ainda acrescentar mais uns pensamentos do ilustre escritor já citado: "Nazismo e comunismo são irmãos gêmeos, são dois monstros saídos do mesmo bojo infernal: o liberalismo anticristão, a divinização do homem animal, o menosprezo dos direitos inalienáveis do Criador."

"Tanto o nazismo diabólico como o comunismo sanguinário vivem de explorar a humanidade com mentiras e promessas falazes."

"É necessário, pois, que os escritores patriotas e esclarecidos previnam o povo contra as artimanhas dos inimigos da civilização. O comunismo bem como o nazismo é todo feito de impostura, de violência, de injustiças criminosas, de sistemático desprezo de todos os valores espirituais e dos mais sagrados direitos da pessoa humana. Ambos merecem os anátemas de Deus e dos homens." São dois inimigos do Estado Nacional independente. São inimigos do Estado brasileiro.

Falamos acima da falta de formação política e social de muitas pessoas do interior. Daí surge um sério perigo para a unidade nacional, em vista da facilidade de serem explorados aqueles elementos pelos inimigos do Estado. Por isso, não obstante a necessidade absoluta da nacionalização geral, seus processos devem obedecer a normas razoáveis e inofensivas.

Em 1941, numa concentração de grande número de classes populares e em presença dos representantes mais graduados do Governo estadual, tivemos oportunidade para dizer o seguinte: "A difusão e a intensificação do ensino na zona agrícola é de suma utilidade. Abandonada e esquecida durante muitos anos, levava uma vida quase isolada da comunhão nacional. Hoje é outra a mentalidade."

"Em tempos passados, a fundação de escolas públicas dependia das conveniências políticas dos partidos que procuravam galgar as posições governamentais. As populações agrícolas só tinham a ventura especiosa de ouvirem promessas de novas escolas e estradas em vésperas de eleições municipais, estaduais e federais. Fundaram-se muitas escolas particulares dirigidas por professores, as mais das vezes alienígenas, que defendiam a juventude contra o analfabetismo, mas que não lhes podiam inspirar os genuínos sentimentos de brasilidade."

"Faziam o que estava ao seu alcance, porém, a formação nacional era defeituosa. E acontecia que representantes de nações estrangeiras subvencionavam escolas na mencionada região e nelas mandavam com maior autoridade do que os poderes civis e eclesiásticos do País."

"Por outro lado, nas escolas regidas por professores públicos, a instrução, em geral, era deficiente. Muitas vezes, os alunos sabiam soletrar e ler, mas não entendiam o sentido da frase. O aluno não compreendia o professor e este não entendia o aluno, que falava outra língua e se exprimia quase sempre em dialeto, por si bastante incompreensível."

"O ensino público não merecia, por isso, a devida estima e os oriundos daquelas zonas eram considerados, não raro, como cidadãos de segunda categoria, porque não falavam a língua vernácula. Não era possível em tais circunstâncias conseguir que essas regiões agrícolas se integrassem perfeitamente no organismo nacional. Os pais que pretendiam dar aos seus filhos uma educação mais esmerada, tinham de fazer pesados sacrifícios."

"Em vista deste ligeiro relato não se devem estranhar as dificuldades que a nacionalização encontra nas zonas agrícolas. Mas, em testemunho da verdade é forçoso declarar que, se aquelas populações tivessem tido, desde o início, uma orientação conveniente, não haveria hoje nenhuma dificuldade, porque boa vontade não lhes tem faltado."

Entre outras considerações fizemos esta sucinta exposição em presença do Governo do Estado. E podemos acrescentar que as escolas particulares, apesar de seus defeitos, não deixaram de prestar grandes benefícios espirituais àquelas zonas, que estavam quase completamente abandonadas com relação ao ensino público.

Também o seguinte fator desorientava as populações rurais quanto à necessidade da língua vernácula. Pois, não poucas vezes, em comícios de propaganda eleitoral, oradores falavam em línguas estrangeiras, com o fim de conseguirem maior número de adeptos para seus respectivos partidos políticos. Formou-se, assim, em consequência de tudo isso, uma mentalidade anormal e errônea. E daí provém que muitos moradores daquelas regiões não compreendem a exigência da lei governamental, que, certamente, visa o bem geral. Pois, um dos vínculos mais sólidos da unidade nacional é a língua falada por todos.

Mas, por outro lado, a imprudência e o rigor excessivo de agentes subalternos, encarregados da nacionalização, facilmente aumentam a facção dos desafetos e inimigos do Estado Nacional, em prejuízo da tranquilidade pública.

Na formação nacional, a América do Norte nos poderia servir de modelo: "A gratuidade do ensino, desde as primeiras letras até às High Schools, onde se educa moral e civicamente o futuro cidadão e se instrui a criança, encerra para mim grande força de integração do elemento alienígena imigrado para a América, assimilando-o e absorvendo-o irresistivelmente. A grandeza material do país, por sua vez, completa a tarefa, roubando ao novo cidadão termos de comparação."

Desde o início do nosso episcopado fizemos os maiores esforços de melhorar o ensino nas escolas paroquiais, introduzindo a obrigatoriedade de ensinar a língua vernácula, bem como a história e geografia do País, a fim de dar-lhes caráter nacional. Se não conseguimos tudo o que desejávamos, é preciso atribuí-lo a circunstâncias da época em que predominava o liberalismo e o desinteresse dos próprios governos.

Por isso, para completar o resultado dos nossos esforços e os trabalhos louváveis do Estado Novo ou Estado Nacional, é preciso traçar normas de acordo com as circunstâncias do passado e empregar meios para não prejudicar o presente. Só assim se vai operando, conforme o Estado Nacional deseja, a perfeita nacionalização em sentido completo.

Terminamos este capítulo com a palavra de Leão XIII: "Na ordem política e civil, as leis têm por fim o bem comum, ditadas não pela vontade e pelo juízo ilusório da multidão, mas pela verdade e pela justiça."

CAPÍTULO XXVII

Cristo e o sofrimento

As religiões do paganismo fizeram adorar a felicidade; só o cristianismo ensinou o amor ao sofrimento. Os deuses da antiguidade pagã se apresentavam ao homem coroados de flores; o fundador do cristianismo ostenta na sua fronte uma coroa de espinhos.

Portanto, grandes haviam de ser as dificuldades de uma religião que dizia: Contemplai o Deus verdadeiro; aqui está! atado a um patíbulo, seus pés e suas mãos atravessados, sua fronte ensanguentada, seu coração ferido, não apresentando todo o seu corpo outra púrpura do que a de seu sangue. Os antigos deuses ou ídolos eram deuses do prazer. Cristo é o Deus do sofrimento.

Diante dessa estranha linguagem, a humanidade levantou os olhos. Primeiramente acreditou que se tratava de um sonho e disse: Como! Isso é possível? Se realmente é Deus, como pode padecer e morrer? Porque não destruiu os seus inimigos? Ele padeceu, não por necessidade, mas por amor aos homens.

A humanidade, depois de haver contemplado a cruz do Mestre, olhou para a sua própria e a encontrou mais leve. O escravo batido pelo seu amo cruel, disse: Ele foi flagelado! O pobre metido numa choça, onde morre de fome, exclama: Ele teve sede e não lhe deram de beber vinho, fel e vinagre. O gênio moribundo mandou pôr diante dos olhos a cruz e como lhe dissessem: Já não podeis falar-lhe, respondeu: Não, mas posso contemplá-lo.

E até o cético, ao contemplar o crucifixo, se arrepende de sua vida. Os felizes deste mundo creem que jamais terão necessidade de Cristo. Quando, porém, sua felicidade se transforma em desgraça, então, cedo ou tarde, suas lágrimas lhes servirão de batismo e de arrependimento, porque, não raro, as lições severas do infortúnio os levam aos pés do Salvador.

Cristo disse: Ninguém me pode arrebatar a vida; eu a entrego voluntariamente. Imitamos esse sublime exemplo. Soframos, não por necessidade como escravos, mas livre e voluntariamente, para que aqueles que contemplem o doente no seu leito de sofrimento, digam dele: Oblatus est quia ipse voluit (Ele foi oferecido porque ele mesmo quis).

Aprendamos ao pé da cruz que, por cima de todas as glórias, existe a glória de morrer como o Redentor, de sofrer como Cristo, pondo o nosso sofrimento na balança onde se pesa nosso destino futuro.

Jesus sofreu como nenhum outro homem nunca sofreu; sua alma está sepultada na tristeza e amargura como nenhuma outra alma se viu angustiada. Morre desamparado sobre o lenho da ignomínia. A sua vida, o seu sofrimento, a sua morte são causa que muitos o desamparem, porque não podem reconhecer na figura de um homem, sujeito a tais tormentos, o Messias anunciado. Em tudo apresenta ele o cunho da humanidade. Estremece em face do sofrimento e da morte; triunfa, porém, destes receios, não com apatia estoica, não por uma insensibilidade falsa e orgulhosa, mas confortado com os auxílios do Alto, e entregando a sua vontade e a sua vida na mão do eterno Pai.

Seria jactância estoica, frieza de uma resignação estúpida, insensível e amarga a que Jesus opôs aos seus inimigos? Estaria o seu Coração de tal maneira armado e resguardado que não houvesse dor que o ferisse, rochedo duro acometido pela amargura das ondas da vida e por elas deixado a seco, sem que aí fique impresso o mínimo sinal na sua passagem? Será a sublimidade em que os Evangelistas no-lo apresentam, uma eminência onde a dor deixe de o ser, a injustiça, com que os homens o trataram, incapaz de o atingir, permanecendo ele sem a menor comoção por semelhante causa?

Cristo experimenta amarguras infindas como só as pode sentir a puríssima alma da sua humanidade; bebe até às fezes o cálice da amargura, sorve-o gota a gota e sofre como nunca ninguém sofreu.

Cristo parecia ter reservado para si todas as dores, parecia na realidade "o Rei e coroa de todos os mártires". Por isso, seu corpo sofre horrivelmente, a sua alma está imersa em uma tristeza indescritível e recua perante a morte, porque a natureza humana real, sublime e sã, estremece ante as agonias da morte.

A angústia do Coração, a aflição no monte das Oliveiras, o sentimento de profundo abandono, tudo isto o perturba e mostra que, como Filho do Homem, se havia identificado completamente com a natureza humana.

Por isso declarou o Apóstolo S. Paulo: "Porque não temos um Pontífice que não possa compadecer-se das nossas enfermidades: mas um experimentado à nossa semelhança por todas, exceto o pecado."

Também atravessou ele a hora mais sombria da vida interior, quando aparentemente desamparado de Deus, privado de todas as consolações, pendia da cruz, e nenhum raio de luz esclarecia a sua alma entenebrecida por sombras espessas que lhe vedavam a vista do céu e não lhe permitiam contemplar a vizinhança de Deus mesmo.

Desta sorte ele se colocou nas condições de poder dizer a qualquer de nós, no auge de quaisquer aflições ou sofrimentos: Não há dor semelhante à minha dor!

Não aparece aí uma só palavra que seja de ódio, vingança ou desprezo pelos seus inimigos e acusadores.

Quando Cristo estava próximo a deixar os seus discípulos, lhes anuncia as provações que os esperavam. Mas os consola ao mesmo tempo, dizendo: "A paz vos deixo, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se assuste."

Quem poderá medir os sofrimentos experimentados sobre a terra desde o pecado de Adão, e enumerar as lágrimas que se têm derramado, as torrentes de amarguras, as angústias, as dores, as misérias e as agonias da morte, que tem cruciado a humanidade desde a primeira culpa? Por isso o Filho de Deus do alto dos céus exclamou: Eis aqui venho eu, para resgatar a letra da dívida que clamava contra vós; e, pagando-a na cruz, quebrei a corrente que ligava o homem à morte eterna e trouxe-lhe o perdão dos pecados e a redenção pelo seu sangue.

Jesus Cristo oferece um exemplo preclaro e divino a todos que sofrem. E se ele tanto padeceu por nós, é justo que soframos também nós, não somente para expiarmos as nossas faltas, mas também por amor a ele, porque até ao fim de sua vida ele nos amou. Oxalá os milhões de soldados que derramam o seu sangue e morrem na terrível guerra atual, se lembrem de oferecer a sua vida a Nosso Senhor e pelos seus próprios pecados, para que tenham alguma recompensa sobrenatural! Pois, este pensamento é muito mais salutar do que repetir a sentença antiga: "Dulce et decorum est pro patria mori" (É doce e honroso morrer pela pátria). E mais nobre é ainda aquele pensamento do que aquela sentença pagã modernizada: Morrer pelo chefe, morrer pelo condutor, é tarefa sublime. Esta linguagem exprime o condenável espírito neo-pagão.

Cristo entoou o sublime cântico da cruz. Bem-aventurados os que choram, os perseguidos, os que padecem miséria. Em Cesaréia de Filipe, ele declarou que era indispensável tomar a cruz e segui-lo: "Quem não toma a sua cruz e me segue, não é digno de mim". Portanto, carregar a cruz é indispensável para fazer verdadeira profissão de fé cristã. É segredo do porvir, a felicidade no meio dos sofrimentos e das lágrimas, a força da nossa vida. Graças à mensagem de Cristo, a dor transformou-se essencialmente e, por isso mesmo, a vida cristã. Diz um célebre médico: O remorso e a angústia são capazes de atormentar muito mais o doente do que o sofrimento físico. Por outro lado, para muitos que professam a religião, a fortaleza da fé é um recurso mais poderoso que a aplicação da morfina.

A fé se sobrepõe ao sofrimento, porque vê uma graça na dor. E para cravar no coração dos seus discípulos esta convicção, Cristo quis beber, pessoalmente, até à última gota, o cálice do sofrimento, sofrimentos do corpo e da alma em toda a sua plenitude.

O esplendor celestial que rodeia sua cruz, derrama seus raios benfazejos sobre milhares de enfermos e moribundos que diariamente sobem ao monte do Calvário.

Diante da necessidade da morte, o mundo antigo estava desconcertado. Cristo transformou esta necessidade. Aquele que nas suas lutas de dor atende aos ensinamentos de Jesus Cristo, está caminhando pela estrada régia. Reconhece que sobre o seu próprio Gólgota ouvirá também, à sua maneira, a aleluia da ressurreição, o aleluia da páscoa.

Disse Pio XI na sua Encíclica "Caritate Christi Compulsi": "Bem sabemos e convosco deploramos que, em nossos dias, a ideia e o nome de expiação e penitência perderam em grande parte, para muitos, a virtude de suscitar aquele lance de coração e aqueles heroísmos de sacrifício que, em outros tempos, infundiam, apresentando-se aos olhos dos homens de fé como sinais de um caráter divino para imitação de Cristo e dos seus santos; nem falta quem queira pôr de parte as mortificações exteriores como coisas de outros tempos; e não falemos do moderno "homem autônomo" que despreza a penitência como expressão de índole servil."

"É óbvio, efetivamente, que quanto mais esfria a fé em Deus, mais se ofusca e desvanece a ideia de um pecado original e de uma primitiva rebelião do homem contra Deus, e por isso ainda mais se perde o conceito da necessidade de expiação e penitência."

— "A penitência é, por sua natureza, um reconhecimento e restabelecimento da ordem moral no mundo que se funda na lei eterna, isto é, no Deus vivo. Aquele que oferece a Deus satisfação pelo pecado, reconhece por isso mesmo a santidade dos supremos princípios da moralidade, a sua força íntima de obrigação, a necessidade de uma sanção contra quem os violar. E é certamente um dos mais perigosos erros do nosso tempo o ter-se pretendido separar a moralidade da religião, tirando assim toda a base sólida a qualquer legislação."

O sofrimento oferecido a Deus como penitência e expiação pelas faltas próprias e alheias é de grande proveito.

O dever de sofrer pelos irmãos, a obrigação de completar, segundo a frase de S. Paulo, como membros do corpo místico, a paixão de Jesus Cristo, impõe-se a nós com claridade meridiana. A lei da caridade, hoje mais que nunca, é lei de padecimento heroico e abnegado: deve-se carregar a cruz e fazê-lo como Cristo e com Ele, para reconciliar os homens e a nós mesmos com Deus.

"Stabat Mater dolorosa juxta crucem lacrimosa": junto à cruz estava a Mãe de Jesus lacrimosa, vendo o Filho agonizante. Doce Mãe, fonte de amor, faze-nos sentir a grandeza de tua dor, para que contigo choremos; crava em nosso coração as feridas do Crucificado; divide conosco as penas de teu Filho tão chagado; queremos soluçar contigo, compartilhar enquanto vivamos, o sofrimento com Aquele que está na cruz.

Enquanto na época presente milhares de soldados derramam seu sangue e sacrificam sua vida em obediência à voz de sua pátria, peçamos a Jesus Cristo que lhes ilumine a inteligência, a fim de se arrependerem de suas faltas, e que cada um ouça a palavra do Divino Mestre: Hoje estarás comigo no paraíso.

Terminamos este capítulo com a seguinte oração: Suplicamo-vos dulcíssimo Senhor Jesus Cristo que a vossa paixão e morte seja para nós uma força que nos anime, proteja e defenda: sejam as vossas chagas para nós alimento e bebida que nos fortifiquem e deleitem; seja a aspersão do vosso sangue ablução de todas as nossas faltas; a vossa morte seja para nós garantia de vida eterna. Encontremos nisto nosso fortalecimento e exultação, o valor e a doçura do nosso coração.

CAPÍTULO XXVIII

Súplica a Nosso Senhor

Finalmente, pretendemos endereçar ao divino Salvador uma prece, uma súplica, inspirando-nos unicamente nas palavras e ensinamentos do seu Vigário na terra, o Papa Pio XII e dizemos: Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

O vosso povo, Senhor, é toda a humanidade, é formado de todas as nações sem limites de raças ou estirpes, sem fronteiras impostas pela mística do sangue, porque todo o gênero humano a vós pertence. Parece, Senhor, que todas as invenções do engenho humano e todo o progresso da indústria e dos trabalhos da atualidade se propõem a única finalidade: matar e destruir. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Vede, Senhor, as aeronaves que atravessam com rapidez incrível, os ares de um país a outro e seu objetivo é destruir e matar. Vede, Senhor, aqueles tubarões de aço que infestam o fundo dos mares e só destroem e matam. Vede os couraçados e cruzadores que singram pela vasta superfície dos oceanos. Eles só destroem e matam. Vede, Senhor, aqueles monstros de ferro chamados tanques que retalham os campos e derrubam todos os obstáculos. Só querem destruir e matar. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Mas, os males físicos são pequenos em face dos males morais. Já disse o vosso grande bispo de Hipona, Santo Agostinho, que as guerras aniquilam os fundamentos da moral e abrem a porta aos vícios sensuais. De fato, triunfa a concupiscência da carne; triunfa a concupiscência dos olhos; triunfa a soberba da vida. Parece que todos os pecados capitais procuram vencer as virtudes por vós ensinadas. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Vede, Senhor, que nesta guerra de caráter universal e totalitário se quebram os vínculos da solidariedade humana, se destroem os laços da fraternidade cristã. O ódio, a vingança, o desprezo mútuo separam os povos entre si, em prejuízo da prosperidade nacional e das relações internacionais. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Nesse tumulto, nessa confusão proliferam as ideologias subversivas, a base da justiça estremece, o direito já não tem a devida firmeza, as autoridades legítimas não sabem como manter o seu prestígio e defender os atributos do poder temporal. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Vede, Senhor, muitos chegam a negar a existência do Deus eterno e a vossa própria divindade, bem como a divina instituição da vossa Igreja universal. Por isso, o mundo moral treme nos seus alicerces. Os sucedâneos que apresentam, os substitutivos que apontam, não têm força nem capacidade para sustentar esse edifício mundial prestes a ruir por terra. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Sabemos, Senhor, que a vossa justiça é infinita e inexorável. Vós castigais os pecados dos indivíduos e os delitos das nações. Os povos expiam suas faltas neste mundo pelo flagelo das guerras e revoluções, pela perda de sua independência e soberania nacional, ao passo que os indivíduos, nesta e na vida futura, devem satisfazer pelos seus pecados. Sim, vossa justiça é infinita e sabereis punir os promotores desta guerra; mas sabemos também que vossa misericórdia é incomensurável. Morrestes sobre a cruz para salvar todos os povos e todos os indivíduos, contanto que eles observem as vossas leis e os vossos ensinamentos. Vossa justiça é infinita, mas também a vossa misericórdia não tem limites. Tende, pois, misericórdia. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Sim, poupai a nossa Pátria, porque o Brasil é vosso por vários títulos. Pedro Álvares Cabral, em vosso nome, tomou posse da Terra de Santa Cruz, e, embora, talvez, haja elementos que gritem: não queremos que Cristo reine sobre nós, inúmeras pessoas piedosas e cheias de fé opõem a esse grito a exclamação categórica: nós queremos que Cristo seja nosso Rei, que estenda o divino cetro do seu poder sobre todo o Brasil, desde o Chuí até o Amazonas. Queremos que Cristo reine sobre nós por meio de sua Igreja e obedeceremos ao Sumo Pontífice, o vosso Vigário sobre a terra.

Portanto, protegei, Senhor, o vosso Brasil. Protegei principalmente, nesta fase histórica, a sua liberdade nacional, sua independência e soberania política. Defendei, Senhor, as suas gloriosas tradições para que vossa santa cruz, símbolo de vossa religião, seja sempre respeitada e venerada. Salvai o vosso Brasil do vórtice da guerra atual e concedei-lhe a vitória. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Guiai, Senhor, os nossos governantes para que sempre sigam a estrada da justiça e da caridade. Protegei o vosso Brasil. Sabemos, Senhor, que temos cometido faltas de caráter pessoal e pecados nacionais. Mas, o Brasil se prostra aos pés da vossa cruz e arrependido diz: Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue.

Concedei, Senhor, o arco-íris da paz sobre a nossa Pátria e sobre todo o mundo conflagrado, para que os povos de novo sigam os trâmites da justiça, da caridade cristã, os vossos ensinamentos e leis e recomece assim uma nova época de prosperidade universal, de solidariedade humana e de amor fraterno. Parce Domine, parce populo tuo quem redemisti pretioso sanguine tuo: poupai, Senhor, o vosso povo que salvastes com o vosso precioso sangue. Amém.

Esta nossa Pastoral será lida, registrada e arquivada, como de costume.E benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.

Porto Alegre, 13 de Setembro de 1943

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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