AS GRAÇAS DO ANO SANTO

DÉCIMA QUINTA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1926)


PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I

O assunto desta pastoral

Novamente, em cumprimento de um sagrado dever, dirigimos a vós, diletos irmãos e filhos em Jesus Cristo, a nossa palavra pastoral. Na última vez, vos falamos a respeito de nossa viagem a Roma e do Ano Santo, hoje trataremos, em conjunto, das graças que a munificência do Santo Padre concedeu, no ano passado, e continuará, no corrente, a oferecer ao mundo católico.

O ano transato ofereceu, sem dúvida, as mais copiosas graças ao mundo católico, devido à munificência do Santo Padre Pio XI. Milhares de fiéis foram à Cidade Eterna e lucraram a indulgencia do Jubileu. Roma era o centro de atração onde afluíram representantes de todos os continentes e de todas as nações. Era como que um imã divino que congregava os católicos em torno do trono secular do Sumo Pontífice, a quem ofereciam as homenagens de seu amor e as seguranças de sua fidelidade aos ensinamentos e às ordens do Vigário de Cristo na terra.

Sua Santidade, além de várias beatificações, realizou a canonização, de Santa Teresinha, de São Pedro Canísio, de São João Vianney, de São João Eudes e das Santas Maria Sophia Barat e Magdalena Postel.

Quantas peregrinações em visita à Basílica de São Pedro e ao Vaticano, receberam do Santo Padre palavras de conforto! A exposição missionária nos jardins do Vaticano demonstrou, mais uma vez, aos olhos de todos a benemerência da Igreja na obra da civilização dos incultos e dos selvagens.

O Santo Padre, infatigável e de uma e de uma atividade sem par, dirigiu mais de 350 vezes sua palavra paternal aos romeiros, que quase diariamente enchiam a vasta Basílica de São Pedro e os números aposentos do Vaticano, animando-os a prosseguirem com perseverança, na prática da fé e das virtudes cristãs.

Centenas de Bispos, vindos de todos os países, fizeram sua visita ad limina Apostolorum, protestando sua obediência respeitosa e indefectível ao soberano chefe da Igreja, rogando-lhe a graça de abençoar os fiéis confiados aos seus cuidados espirituais.

Realmente, o ano passado merece, deveras, o nome de Santo, tamanhas e tão numerosas foram as graças que Deus Nosso Senhor, por intermédio do seu representante máximo na terra, concedeu aos povos.

E querendo impor ao ano findo uma coroa resplandecente, cujo fulgor não desmaiará, por certo, durante séculos, instituiu a festa da Realeza de Cristo, publicando uma brilhante Carta Encíclica dirigida ao episcopado e fiéis do orbe católico.

Mas, não tendo sido possível que todos os católicos ganhassem o Jubileu, indo, no ano passado, a Roma, o Santo Padre, impelido por seu amor munificente, estendeu o Jubileu do Ano Santo a toda cristandade, de maneira que todos, observando determinadas prescrições, poderão participar dessa graça, em qualquer tempo, até o fim do corrente ano.

A presente pastoral tratará do assunto acima indicado. Por isso, antes de tudo, seja-nos permitido reproduzir aqui, ampliando e modificado quanto à forma, o discurso que pronunciamos na hora da nossa chegada na Europa, em vista de seu caráter geral e se dirigir a toda a Arquidiocese.

CAPÍTULO II

Jubilo e agradecimentos

Saudamos as digníssimas autoridades civis e militares. Saudamos o diletíssimo clero desta Arquidiocese! Saudamos os distintíssimos cavalheiros da grande comissão de recepção! Saudamos a garbosa mocidade porto-alegrense a toda a juventude gaúcha, tão querida! Saudamos os florescentes sodalícios religiosos! Saudamos a ilustre imprensa da nossa terra! Saudamos o amado povo de Porto Alegre, todas as classes sociais, toda a Arquidiocese e todos os habitantes do Rio Grande do Sul!

Foi este o primeiro grito de emoção que, espontaneamente, irrompeu do amago de nossa alma, ao enfrentarmos a enorme multidão que nos ovacionava em frente da velha Catedral Metropolitana e a mesma saudação agora repetimos!

Após dez meses de ausência, voltamos à adiantada capital deste grande e magnânimo Estádio. Voltamos ao seio do povo amado. Voltamos ao nosso sólio episcopal, para assim, continuarmos a dirigir esta brilhante Arquidiocese.

Haviam passado dez meses, quando a população de Porto Alegre, tendo à frente suas eméritas autoridades, nos levara para bordo do paquete "Itassucê", e no dia de 21 de janeiro, desembarcando do mesmo navio, os habitantes da cidade estendiam-nos os braços, agitavam lenços brancos, cobriam-nos de flores aromáticas, rejubilavam-se e entoavam louvores a Deus pelo nosso feliz regresso.

E desde a nossa passagem pelo farol do Itapuã, as margens verdejantes e as ondas encrespadas do majestoso Guaíba, as pitorescas colinas que emolduram esta formosa capital e as torres altaneiras que dominam a casaria branca, tudo parecia, em harmonioso coro, saudar-nos, festivamente, e dar-nos as boas-vindas.

Repetimos aqui os agradecimentos que, no dia da nossa chegada, dirigimos à enorme multidão de manifestantes. Sim, agradecemos profundamente comovido, aquela imponente demonstração de apreço, amor e veneração, aquela recepção brilhantíssima, que fez honra à população de Porto Alegre. Agradecemos a nobre presença do benemérito sr. Presidente do Estado, dos seus dignos secretários e mais auxiliares, do representante do ilustre sr. General comandante desta região militar, dos diretores de academias e colégios, dos representantes da magistratura, do distinto sr. Intendente municipal da capital gaúcha, que nos saudou em nome da cidade: agradecemos a presença do nosso cabido metropolitano e de todo o clero, das demais autoridades civis e militares, das corporações religiosas e civis, da comissão de recepção, como do povo em geral, sentindo, deveras, que os nossos méritos não correspondessem ao brilho excepcional da manifestação, nem as nossas virtudes estivessem na altura dos louvores a nós tecidos pela grandiloquência dos oradores que nos saudaram e a quem dirigimos nossos agradecimentos cordiais.

CAPÍTULO III

A canonização de Santa Teresinha

Havia dez meses que nos afastamos temporariamente, da sede do nosso Arcebispado. Em cumprimento de um dever eclesiástico, imposto pelos sagrados cânones, fomos a Roma, para fazermos a nossa visita aos túmulos dos Santos Apóstolos, ad limina Apostolorum.

Por isso, visitamos, em primeiro lugar, a basílica de São Pedro, orando aos pés do túmulo do Príncipe dos Apóstolos e, depois, nos dirigimos à basílica de São Paulo fora dos muros de Roma, fazendo preces, prostrado diante do sepulcro do Apóstolo das gentes. E para lucrarmos a indulgencia do Ano Santo, visitamos, além das igrejas já mencionadas, a basílica de Santa Maria Maior e a basílica Lateranense, mãe de todas as igrejas do orbe católico.

Durante a nossa estada na Cidade Eterna, convencemo-nos, cada vez mais que Roma, como foi, continua a ser o centro divinal da Fé, o baluarte secular da verdadeira cultura e ciência, o fundamento inabalável da disciplina e da ordem pública.

Quereis ouvir uma palavra a respeito das imponentes cerimonias da canonização da cândida flor carmelitana que se chama Teresinha do Menino Jesus? Pois, acompanhai-nos em espírito, por alguns instantes! Era num domingo dezessete de maio. Roma estava engalanada, apresentava aspecto festivo. Milhares de peregrinos enchiam as ruas dirigindo-se à basílica de São Pedro. A majestosa cúpula desse templo brilhava nas cintilações do sol primaveril e tocava o céu transparente e azul, que parecia baixar seus horizontes, afim de ouvir melhor a palavra suprema do Vigário de Cristo sobre a santidade da virgem de Lisieux.

No Vaticano, pelas 8 horas e meia, já os prelados achavam-se reunidos em diferentes salas, segundo a categoria de cada um. Ouviu-se a voz dos cerimoniários. Organizou-se o longo préstito em que tomavam parte cerca de 300 bispos, todos com capa e mitra de cor branca. Entramos na capela Sistina, onde admiramos pela primeira vez, o celebérrimo quadro mural de Miguel Ângelo representando a cena do juízo final.

Aparece o Santo Padre, todo branco, cingindo a tiara, a tríplice coroa, e sobe à sedia gestatória. Movimenta-se a procissão, e depois da visita ao Santíssimo na Capela Paulina, desce a escada régia, passa pela galeria do pórtico e entra na basílica feericamente iluminada. Rompem marchas jubilosas, tocam as tubas argênteas, ecoam as ovações, e o Sumo Pontífice avanças através de cordões formados pelas brilhantes guardas suíça e palatina, abençoando, paternalmente, uma multidão de mais de cinquenta mil pessoas.

Realizou-se a imponentíssima cerimonia da canonização da Beata Teresinha, seguido de soleníssimo pontifical celebrado pelo Santo Padre. Na qualidade de arcebispo assistente ao Solo Pontifício, tivemos a rara ventura de estar sempre bem próximo de Sua Santidade durante essas grandiosas funções litúrgicas. Da mesma maneira, assistimos às canonizações do Padre Pedro Canísio, do Vigário Cura de Ars João Maria Vianney e do Padre João Eudes, fundador da Congregação de Jesus e Maria.

Naquelas solenidades sublimes e impressionantes, nos sentíamos pequenino como um grau de areia em face das alterosas vagas do mar e insignificante como uma nota em sublime conserto em polífono. Mas, ao mesmo tempo, nos sentíamos grande, pelo fato de pertencermos à Igreja Católica, que, gloriosa e triunfante, tem atravessado vinte longos séculos, semeando, a mancheias, inúmeros benefícios sobre todos os povos do universo; sentíamos a nossa grandeza como membro, embora humílimo, da hierarquia mais nobre do mundo, dessa hierarquia imortal, cujos representantes sustentam, como colunas escolhidas pelo Espírito Santo, o edifício da Igreja, que tem por fundamento indestrutível e coroa brilhantíssima o Sumo Pontífice; sentíamos um santo orgulho e um entusiasmo santo, porque representávamos naquele momento, não somente o clero e povo desta Arquidiocese, mas o nosso próspero e amado Estado gaúcho.

CAPÍTULO IV

Roma, centro da Fé

A nossa Fé se fortaleceu nesses atos sublimes do culto católico e tornou-se ainda mais vigorosa na visita ao Coliseu e às catacumbas de São Calisto. Sim, o Coliseu, ou Anfiteatro de Flávia, deixou-nos indeléveis recordações. Percorremos a tribuna dos Césares e as galerias populares. Do alto dessas gigantescas ruinas, contemplamos a vasta arena lá em baixo, em que milhares de cristãos foram trucidados e derramaram seu sangue pela religião de Jesus Cristo, e onde os gladiadores saudavam os imperadores, exclamando: "Ave, Cesar, morituri te salutant! Salve, Cesar, os que vão morrer, te saudam"!

Vimos as tribunas, donde as damas romanas, com o polegar virado, police verso, condenavam à morte o gladiador vencido e assistiam ao martírio cruel dei números inocentes. Vimos a porta imperial por onde entravam os Césares, quando iam assistir a esses espetáculos horrendos que constituem uma das mais negras páginas na história da humanidade.

Nas catacumbas de São Calisto, visitamos muito túmulos de mártires e várias capelas, em que cristãos, sacerdotes, bispos e papas exerciam os atos do culto e praticavam sua religião durante o tempo das perseguições.

Aqueles subterrâneos, santificados pelas orações e por sacrifícios inauditos dos mártires, ensinam a todos que lá entram, o poder, o valor e a grandeza da fé. Nossa emoção foi profunda!

E quer nos corredores das catacumbas, iluminados pelas lucilações de pequenas velas, que trazíamos na mão, quer nas galerias ruinosas do Coliseu, por toda a parte, parecia-nos ouvir a voz jubilosa dos primeiros cristãos a dizer-nos: "Peregrinos, peregrinos, guardai, como nós, a vossa fé, conservai a doutrina de Cristo! A vossa Fé é o vosso triunfo, a vossa glória eterna, o laurel mais brilhante que possas conquistar na arena desta vida"!

CAPÍTULO V

Roma, baluarte da verdadeira cultura e ciência

Centro da Fé, Roma é também o empório da verdadeira cultura e ciência. Roma nos falava das civilizações dos castelos, dos circos e dos anfiteatros, dos templos e arcos de triunfo, dos cárceres e do foro. As bibliotecas, as galerias de arte, os museus, as universidades e academias, os colégios e conventos, os institutos científicos e de belas artes, todo esse conjunto admirável de cultura de ciências, letras e artes, confere à Cidade Eterna um caráter excepcional, dá-lhe uma posição única no mundo civilizada.

É o brilhante centro do catolicismo, que, como sol admirável no firmamento da humanidade, derrama torrentes de luz, raios fulgurantes de ciência profana e sagrada sobre todo o orbe terrestre.

Vimos, mais de uma vez, principalmente de manhã e à tarde, passar pelas ruas de Roma centenas e centenas de estudantes, trazendo hábitos de cores diferentes, desde o preto do beneditino até o branco do dominicano, desde o encarnado do Colégio Germânico até a facha azul e batina preta dos alunos do Colégio Pio Latino Americano.

Os institutos de ensino são frequentados por alunos de todos os países e pertencentes às mais diversas raças. Todos vão ali beber, a largos haustos, a ciência sagrada e profana, para enriquecerem o tesouro do seu saber, afim de que, mais tarde, nos seus respectivos países, possam tornar-se úteis à religião e à sociedade. Sob os auspícios e a direção suprema do Papa, conhecido em todo o mundo como excelso luminar da ciência, cultiva-se a instrução e se propagam as boas doutrinas.

Ninguém, por isso, poderá afirmar que a Igreja favoreça o obscurantismo ou a ignorância sem que revele sua má fé ou completo desconhecimento dos fatos.

CAPÍTULO VI

O Papa, o fundamento da disciplina e da ordem

Vimos de perto a causa íntima dessa enfibratura admirável, dessa musculatura que confere ao gigantesco organismo da Igreja essa consistência e força invencível, chamada disciplina eclesiástica. O fundamento é o Sumo Pontífice, o alicerce indestrutível colocado por Jesus Cristo. Sua autoridade é divina e se entende a todos os departamentos e a todos os súditos do seu enorme reino espiritual.

Na basílica de São Pedro, admiramos, mais de uma vez as duas longas alas de Cardeais, homens eminentes pelas suas virtudes e pela sua ciência. A púrpura que envolve seus ombros, simboliza o mérito e o alto valor desses Príncipes da Igreja, em cujo firmamento rutilam como astros de primeira grandeza.

Mas, não obstante a alvura de suas cãs, o brilho de sua benemerência e o fulgor de suas virtudes, eles demonstram ao Santo Padre o maior acatamento, prestam-lhe as mais significativas homenagens de amor e reverencia.

Da mesma sorte, aquelas centenas de Bispos que assistiram às funções sacras, reconheciam e veneravam na augusta pessoa do Sumo Pontífice o supremo Diretor da Igreja e o Pai da Cristandade. O mesmo se deve afirmar dos inúmeros sacerdotes, dos representantes das ordens religiosas e dos católicos que enchiam, tantas vezes, o mais grandioso templo do mundo.

O espetáculo edificante que presenciamos sob as abobadas do templo de São Pedro, reproduz-se, constantemente, debaixo da abobada celeste, que se desdobra sobre a Igreja universal. E qual é a razão desse fato admirável? O Papa é centro de gravitação espiritual. Como os planetas giram em torno do sol, assim prestam a ele obediência e veneração os membros do Sacro Colégio, o episcopado, os sacerdotes, as ordens religiosas e os fiéis.

CAPÍTULO VII

A disciplina no seio da Igreja

A boa disciplina é um sinal característico da Igreja. No ato do Batismo, todos devem prometer fidelidade aos seus ensinamentos. Na solenidade da primeira Comunhão, os neocomungantes renovam as promessas do batismo, que se resumem na obediência às leis de Deus e da Igreja. Os sacerdotes, na sua ordenação, declaram, publicamente, sua sujeição à mesma Igreja. Pois, o Bispo toma as mãos do ordenando entre as suas e pergunta: "Promitis mihi et successoribus meis obedientiam et reverentiam: prometes a mim e aos meus sucessores obediência e reverencia? E o jovem levita responde comovido, em presença dos seus colegas e mestres, de sua família e dos fiéis: "Promitto, prometo".

E quando um padre recebe a plenitude do sacerdócio, a dignidade episcopal, jura solenemente: "Fidelis et obediens pro beato Pedro Apostolo, Sanctaque Romae Eclessiae et Domino Nostro N. Papae N. suisque successoribus canonice intradibus, serei fiel e obediente ao Apóstolo São Pedro, à Santa Igreja Romana, a nosso Senhor o Papa e aos seus legítimos sucessores"!

Os membros das Ordens e Congregações religiosas fazem um voto especial, o voto de obediência. O próprio Papa deve ser fiel e obediente às leis divinas, à autoridade de Deus. E além disso, Cristo, fundador da Igreja, foi obediente até a morte.

O Sumo Pontífice transmite as suas ordens ao episcopado; este as leva ao conhecimento dos sacerdotes e fiéis; todos recebem, acatam e cumprem essas ordens em espírito de obediência e sujeição, porquanto sabem que vêm de Deus.

Vê-se, pois, que a disciplina, o respeito e a obediência à autoridade, reina em os departamentos da Igreja, tanto na parte discente como na docente. Sem observância das leis divinas e eclesiásticas, a Igreja não poderia existir. Pode ser que alguns fiéis claudiquem e que um ou outro sacerdote erre, ultrapassando as raias da boa disciplina. Sim, pode ser e, infelizmente, é verdade, porque claudicar e errar são atributos da fraqueza humana. Mas, esse fato, embora lamentável, longe de negar a existência da disciplina eclesiástica, depõe em seu favor manifesta seu poder e eficácia. "É preciso que haja escândalos, diz Nosso Senhor, mas, ai daqueles que os promovem". As defecções, os díscolos, são como folhas que caem da árvore da Igreja e são substituídas por novas, mais viçosas e viridantes.

A Igreja condena os erros, mas perdoa os transviados arrependidos, chama-os ao cumprimento do dever e os recebe em seus braços, como o pai no Evangelho o filho pródigo. Mas, não obstante, ela tem a obrigação de manter a sua disciplina. E é, por isso, de estranhar que em questões disciplinares da Igreja se faça sentir a interferência indébita daqueles que nenhum direito tem de imiscuir-se em assuntos eclesiásticos. Os verdadeiros católicos, os cumpridores exatos dos seus deveres, obedecem, de boa vontade, aos seus superiores, aos bispos e ao Sumo Pontífice, e os bons sacerdotes cumprem sua promessa de fidelidade e obediência aos seus antitites, lembrando-se da palavra de São Cipriano: "Deves saber que o bispo está na Igreja e a Igreja no bispo; e que se alguém não estiver com o Bispo, não estará na Igreja".

O fundamento da fé e da disciplina eclesiástica é o Santo Padre, em virtude de sua investidura divina: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja". "Apascentai minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros". A autoridade do Sumo Pontífice não tem igual no mundo. A sua atuação, eficaz e constante, sustenta e fortifica o poder civil, tão enfraquecido em todas as nações.

Guardem, pois, sacerdotes e fiéis a boa disciplina, e não somente cumprirão um sagrado dever, mas também servirão de exemplo à sociedade em que vivemos.

CAPÍTULO VIII

Na cidade de Jerusalém

Pertencia ao nosso plano de viagem a visita à Terra Santa, cenário de fatos históricos os mais interessantes, onde viveram os patriarcas e os profetas, e Cristo, o Homem-Deus, teve o seu berço e o seu túmulo

Sentimentos os mais opostos apoderaram-se da nossa alma, quando, pela primeira vez, atravessamos as ruas da célebre cidade de David; sentimentos de alegria, por ver o lugar onde se realizara a grande tragédia divina e, ao mesmo tempo, a maior obra de misericórdia, a redenção do gênero humano; sentimento de tristeza, porque observamos o predomínio dos judeus e dos maometanos na cidade santa de David. Lá, naquela rua íngreme carregou o Salvador o pesado lenho da cruz para o Gólgota. Mais adianta, a igreja do Santo Sepulcro, edificada sobre o Monte Calvário, abrangendo o lugar da crucificação e da sepultura. Recordávamo-nos das tropas de Tito, que destruíram a cidade deicida; da imperatriz Helena, que achou a Santa Cruz e que em toda a Palestina edificou templos e conventos; dos cruzados, chefiados por Godofredo de Bouilon, reconquistando os Lugares Santos.

Visitamos os monumentos principais de Jerusalém: a igreja do Santo Sepulcro, onde tivemos a ventura de celebrar, várias vezes, a santa missa; a igreja da Dormição de Nossa Senhora, dirigida pelos Padres Beneditinos; a igreja do Pater, edificada no lugar onde Cristo ensinou aos Apóstolos o Padre Nosso e na qual está escrita sobre as paredes do claustro, em mais de trinta línguas, a Oração Dominical. Visitamos o Cenáculo, reconstruído e transformado em mesquita; o jardim de Getsemani, onde o Salvador suou sangue; a Piscina Probática, onde Cristo curou o paralítico.

Quem visita superficialmente a cidade de Jerusalém, fica mal impressionado; é preciso recorrer à meditação, evocando o passado e recordando os mistérios da nossa Religião, empanados ali pelos abusos do islamismo do judaísmo e das seitas, à semelhança dos santuários que se acham cobertos de pó e parte em ruinas. Compreende-se, perfeitamente, porque o Santo Padre tanto se empenha em favor dos Lugares Santos, afim de salvá-los das mãos dos inimigos do cristianismo.

Os padres franciscanos, a quem os santuários, em grande parte, estão confiados, tem prestado relevantíssimos serviços nesse sentido.

CAPÍTULO IX

Outros lugares da Palestina

Diremos ainda algumas palavras a respeito de outros lugares por nós visitados. Fomos à bela cidadezinha de São João da Montanha e visitamos duas igrejas: uma edificada no lugar onde Santa Isabel recebeu a visita de sua prima, Nossa Senhora, e outra no lugar onde nasceu São João Batista. Pois, no primeiro lugar, tinha Zacarias sua casa de moradia e no segundo, sua casa de campo. Lá adiante, na encosta de uma montanha, vimos o lugar onde David matara o gigante Golias.

Quantas ruínas, quantos sepulcros antigos e modernos! O cemitério dos judeus no Vale de Josafá e o dos soldados mortos durante a guerra mundial!

Interessante foi nossa visita ao Mar Morto, passando pelo deserto de Judá, paisagem árida, sem vegetação alguma, só montes de pedra e areia. É o caminho de Jericó, por onde andou, como diz a história bíblica, um homem que caiu nas mãos de salteadores, que o deixaram semimorto.

À beira da estrada, num alto, achava-se uma casa, no mesmo lugar em que estivera, séculos atrás, a hospedaria onde o bom samaritano recolheu o pobre ferido.

Passando pela aldeia de Jericó, vimos uma alta montanha, onde o Senhor jejuou quarenta dias e quarenta noites, e depois fio tentado pelo demônio, que lhe deu o conselho de precipitar-se no abismo, porque os anjos viriam ampará-lo.

Na volta a Jerusalém, visitamos ainda, rapidamente, a aldeia de Betânia, onde Lázaro foi ressuscitado e cujo sepulcro ainda existe, cavado dentro de uma rocha. Em seguida, fomos a Belém, visitando, de passagem, o túmulo de Raquel, o qual tem a forma de uma pequena mesquita. Diz a história que naquele lugar morreu Raquel, esposa do patriarca Jacó, depois de dar à luz seu filho Benjamin.

Em Belém existe a gruta em que nasceu o Deus Menino, sob o teto de uma grande basílica, bastante estragada. De uma das ruas, mostraram-nos o sítio, na encosta de uma montanha, onde apareceram os anjos aos pastores, anunciando-lhes o nascimento de Jesus.

De Jerusalém partimos, seguindo para Nazaré. Em transito, visitamos o poço do patriarca Jacó, sob os cuidados de monges gregos ortodoxos.

No mesmo dia fomos ao monte Tabor, passando pela planície de Esdrelon. Celebramos missa na manhã seguinte na basílica, igreja nova e bela, edificada no lugar em que Jesus Cristo se transfigurou diante de três apóstolos, dizendo-lhe depois de São Pedro: Fiquemos aqui, Senhor, e façamos três casinhas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. Dali, vê-se o monte chamado o pequeno Hermon, o Monte Carmelo e lugares históricos de grande importância.

Em Nazaré, visitamos o poço onde a Virgem Santíssima tirava água e que se chama ainda "Poço de Maria". Procuramos a casa de Nossa Senhora e as oficinas de São José. Sobre os dois lugares foram edificadas igrejas. Na mesma cidade existe ainda a sinagoga em que Nosso Senhor ensinava. Entramos, é pequena, mas ainda bem conservada.

Passando por Caná, célebre pelo primeiro milagre operado por Nosso Senhor, fomos a Tiberias e atravessamos, à tarde, o lago em pequeno veleiro, indo a Cafarnaum, destruído, há muitos séculos, por um terremoto. Agora, sob a direção de frades franciscanos espanhóis, se fazem escavações, sendo já importante a reconstrução parcial de casas e de alguns templos.

Terminamos a nossa visita à Terra Santa no Monte Carmelo, ao lado da cidade marítima de Haifa, visitando o célebre santuário de Nossa Senhora do Carmo. Do alto do monte, vê-se o mar, onde no século do profeta Elias, em tempo de extraordinária seca, se levantou uma nuvenzinha que, em poucos momentos, cobriu todo o céu, dando origem que, a uma chuva abundante em benefício de toda a região. Essa nuvem era símbolo de Nossa Senhora, Mãe do Filho de Deus, que proporcionou ao gênero humano a salvação.

Oxalá, a mesma Senhora consiga que toda a Terra Santa se torne cristã e que em toda a sua extensão a Igreja Católica possa desdobrar o seu estandarte, em prol daqueles povos que, na sua grande maioria, vivem entregues à superstição e a crenças falsas.

CAPÍTULO X

Os sinos de Lourdes

Não repicam, não bimbalham, mas rezam e cantam os belos sinos de Lourdes. Porém, quer rezem pela cura de enfermos, quer cantem hinos em ação de graças, sempre repetem a mesma saudação angélica: Ave, ave, ave, Maria!

Era ao cair da noite, quando desembarcamos na pequena, mas pitoresca cidade de Lourdes. No momento em que nos aproximávamos do lugar onde se acha o majestoso santuário de Nossa Senhora, os sinos cantavam a melodia maviosa: Ave, ave, ave, Maria! Na chegada é a primeira e na saída a última saudação que o peregrino ouve. Em nós deixou ela uma impressão saudosa e indelével.

Pode-se dizer que a voz dos sinos de Lourdes repete, constantemente, as glórias e as obras de misericórdia da Rainha dos céus. Disto ainda nos convencemos mais durante os dias que tivemos a ventura de passar à sombra da égide protetora da Virgem de Lourdes.

Era no dia depois da nossa chegada. Cedo, fomos ao santuário para celebrar a Santa Missa. Entramos na majestosa basílica de Nossa Senhora da Conceição, onde nos receberam com toda a gentileza, e sabendo que éramos bispo brasileiro, puseram-nos à disposição o altar-mor, que é todo de mármore branco. Durante o Santo Sacrifício administramos a Sagrada Comunhão a numerosos peregrinos.

É sabido que pela abobada desse templo penduram bandeiras e estandartes oferecidos por grupos de diversas cidade s e de quase todos os países da Europa e da América. Emocionado, vimos o pendão auriverde, a bandeira da Pátria, que estava à nossa direita, ao lado da Epístola, e que parecia dizer-nos: "Reza pelo teu Brasil"!

Claro está que não nos esquecemos desse dever. E quando terminamos a sagrada função, recitando, ajoelhado no degrau do altar, a saudação angelical prescrita, os sinos, como vozes longínquas de anjos, nos acompanhavam, rezando: "Ave, ave, ave, Maria"!

O carrilhão harmonioso convoca os fiéis para as solenidades religiosas; Consiste ele num conjunto de sinos afinados, em tons diversos, e que tocam a melodia do cântico: "Ave, ave, ave, Maria"! Em muitas ocasiões, tivemos o prazer de apreciar essa música singela, porém, emocionante.

Um dia, fomos celebrar missa na gruta, cujo côncavo está atapetado de muletas de diversos tamanhos. São ex-votos que falam aos peregrinos dos milagres feitos por intercessão da excelsa Rainha de Lourdes. Diante do altar, achava-se ajoelhada uma grande multidão de homens e senhoras, uns pedindo graças, outros agradecendo favores recebidos. Em dado momento, começaram a tocar os sinos: "Ave, ave, ave, Maria"! Os olhos dos assistentes rebrilhavam com mais intensidade, seu coração batia com mais vigor e, em espírito, repetiam a mesma prece. Para uns era súplica, para outros, hino de jubilo. Nunca os esqueceremos dessa hora sublime e encantadora, em que celebramos missa na gruta santa, iluminada por milhares de círios de promessas já cumpridas.

Numa tarde, visitamos o castelo feudal, o Chateu de Lourdes, edificado no vértice de um monte de oitenta metros de altura, que se ergue no meio da cidade. Assistiu ele, altaneiro, à passagem de inúmeras gerações e de muitos povos. Viu passar os visigodos, os francos, os mouros; conheceu a Carlos Magno, Simão de Montfort e Duguesclin; resistiu à guerra dos cem anos, que o fez passar, alternativamente, da França à Inglaterra; triunfou como fortaleza, quase inexpugnável, de lutas civis e religiosas, durante longos séculos.

Por um caminho íngreme, através de muralhas em ruinas, subimos ao velho castelo. Vimos, desde logo, um vasto pátio, rodeado de antigas edificações, coroadas de ameias de torrões. Tudo em estado de visível decadência.

Naquele recinto, assim nos informaram, foram mortos e suplicados centenas e centenas de prisioneiros, em épocas remotas. Tivemos a impressão de ouvir o eco dos seus gritos lancinantes e de ver ainda, sobre o calçamento desigual, as negras manchas do sangue que derramaram na suprema agonia.

Por uma escada, dirigimo-nos ao interior da torre principal. Logo na entrada, lemos, esculpidos numa lápide, os nomes de grande número de pessoas que ali estiveram encarceradas. Eram nobres e homens de alta categoria social. E subindo pela escada acima, enfrentamos, de momento em momento, a porta de vários ergástulos, onde criminosos e inocentes suportaram o duro peso da prisão.

Fomos depois ao ponto mais elevado do castelo. Dali, avistamos o rumorejante o espumoso Gave. À sua margem esquerda, com frente para a cidade, levantava-se, com majestade divinal, o santuário de Nossa Senhora de Lourdes. Aqui, no velho castelo, só recordações de crueldades e vinganças, lá em baixo, piedade e misericórdia; aqui, um lugar de imprecações e de ódio; lá, perdão e hinos de louvor; aqui, o eco de trombetas bélicas, lá tocavam os sinos, cantando: "Ave, ave, ave, Maria"! O contraste das impressões calou-nos profundamente no coração.

CAPÍTULO XI

Os encantos de Lourdes

À direita de quem sai da basílica, abre-se um caminho não íngreme, que, em várias curvas, sobe a um alto monte. É o caminho da cruz, a via sacra. Com os nossos companheiros visitamos essas quatorze estações me piedosa oração. Grupos colossais de bronze representando os passos do Senhor, margeiam a estrada. No primeiro veem os peregrinos Jesus diante de Pilatos. Compõe-se este grupo de dez personagens.

Chegados no pequeno planalto de rochas, onde se levanta cruz do "Calvário", tivemos uma vista soberba sobre Lourdes. O crepúsculo, já começava a envolver toda a paisagem. Depois da visita à última estação, descemos pela ladeira oposta, contritos e murmurando orações, enquanto os sinos diziam: "Ave, ave, ave, Maria"!

Convidado pelo sr. Bispo de Lourdes para celebrarmos missa pontifical no seu jubileu episcopal, dirigimo-nos, no dia marcado, à formosa igreja do Rosário, de estilo bizantino, onde as belas artes desdobram a opulência de suas galas. Já estávamos paramentados e sentado no sólio episcopal, quando entrou o venerando antistite de Lourdes, mais carregado de méritos do que de anos, acompanhado de outros prelados e de uma brilhante comitiva. Nesse momento solene, os sinos entoam um hino em ação de graças pelos benefícios que o céu havia concedido ao emérito prelado, orando, ao mesmo tempo, para que ainda por dilatados e felizes anos, pudesse governar e dirigir o seu distinto rebanho: Ave, ave, ave, Maria.

Nas festas, como nos atos de penitencia, nas procissões do Santíssimo, como na chegada de enfermos, os sinos falam ao coração de todos, inspirando confiança a estes e consolação aqueles.

Entretanto, mais do que nunca, atuou o melodioso som dos sinos sobre nossa alma, nas procissões que diariamente, à noite, se realizavam. Estávamos em Lourdes, no tempo de verão. Às vinte horas, o espaço diante da gruta estava repleto de peregrinos. Passados alguns instantes aparecia um sacerdote no púlpito e rezava com o povo o rosário. Centenas de vozes acompanhavam, na mais profunda devoção, o piedoso exercício.

Terminada, a prece comum, organizava-se a grande procissão dos círios. Formavam-se duas longas alas. Cada peregrino empunhava uma vela acesa. Eram dois rios de luzes, rios de fogo, que afugentavam a escuridão da noite.

O préstito começava a movimentar-se, caminha adiante, sobe pela larga escada que vai ao hemiciclo da basílica, desde pelo outro lado, passa pela ampla esplanada e dirige-se em ziguezague para o adro da igreja do Rosário onde a multidão recebe a benção. É um mar ondulante, um mar de luzes, é um espetáculo deslumbrante.

Em todo o trajeto, desde o princípio até ao fim, ouvia-se somente um cântico, um hino de louvor:

"Era das harmonias – Hora singular: -- As Ave-Marias – Ia o sino dar. – Ave, ave, ave, Maria. – Ave, ave, ave, Maria".

E enquanto centenas em ilhares de vozes cantavam este hino em honra à Virgem excelsa de Lourdes, os sinos, lá esbelta torre, quebravam o silencio das alturas, entoavam a mesma melodia e acompanhavam o canto dos peregrinos dizendo jubilosos: Ave, ave, ave, Maria.

CAPÍTULO XII

Nossas preces e a bênção do Santo Padre

Quando embarcamos, em 21 de março do ano passado, vós amados filhos, nos oferecestes braçadas de flores e ramalhetes odoríferos, que conservamos, carinhosamente, até o Rio de Janeiro. Murcharam, porém, depois estas flores, perdendo as suas pétalas perfumadas, que eram o símbolo da vossa fé, da vossa virtude e da vossa amizade.

Murcharam as flores, sim, mas em nossa alma levámos as saudades mais sensíveis, e estas nunca feneceram, nunca diminuíram. E quer estivéssemos aos pés das pirâmides, nas areias ardentes sob os raios do sol do Egito, quer estivéssemos nas serranias nevadas da Noruega ou atravessássemos os mares, a cada instante, nos lembrávamos desta Arquidiocese, do amado Rio Grande, do glorioso Brasil, nossa querida pátria, a Terra da Santa Cruz.

E quer estivéssemos ajoelhados diante do túmulo de São Pedro em Roma, quer diante do Santo Sepulcro em Jerusalém, ou quando nos ajoelhássemos diante de Nossa Senhora de Lourdes ou de Nossa Senhora do Pilar, em Zaragoza, quer visitássemos qualquer outro dos santuários europeus, como o de Einsiedeln, na Suíça, ou de Kevelaer, na Alemanha, levantávamos preces ardentes aos céus, pedindo pela felicidade de nossas famílias e dos interesses do país.

E quando celebrávamos o Santo Sacrifício no alto do Calvário ou na Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, pedíamos a Deus pela prosperidade do nosso povo e implorávamos uma era de paz e de tranquilidade social e política para a nossa terra. Pedíamos a Deus que nos proporcionasse esta graça, sem a qual uma nação não pode prosperar, afim de que a paz estendesse as suas áureas asas sobre o Brasil, do Chuí ao Amazonas.

Pedíamos a Nossa Senhora que fizesse reinar a verdadeira concórdia, uma perfeita harmonia, para maior exaltação e grandeza do nosso país, que continuará, assim, na marcha ascensional para a glória, triunfo e prosperidade, a que tem direito pelos recursos do seu solo, pela extensão admirável de seu território e pelas qualidades excelentes de seu nobre povo.

Eram estes os nossos votos, nossos pensamentos, nossos desejos, durante a longa viagem que acabamos de terminar.

Na inesquecível audiência privada que o Santo Padre nos concedeu, ao seu lado, falamos do nosso povo, do amado Rio Grande, da vossa generosidade e dedicação ao culto católico, do nosso estimado clero e do nosso Seminário Provincial. Sua Santidade teceu grandes elogios ao Rio Grande do Sul e à nossa Arquidiocese, e nos disse:

"Volta para tua terra, e lá chegando, em meu nome, em nome do Chefe da Igreja, lança a benção àquele bom povo".

Cumprimos esta ordem, e após o solene Te Deum, lançamos, do nosso trono episcopal, sobre toda a Arquidiocese a benção do Sumo Pontífice.


SEGUNDA PARTE

A Carta Encíclica Quas Primas

Sua Santidade o Papa Pio XI instituiu, no dia 11 de dezembro de 1925, a Festa de Cristo Rei, ou seja, da Realeza de Nosso Senhor. Nesse sentido, dirigiu o Santo Padre um documento de caráter universal, chamado Carta Encíclica, que começa pelas palavras "Quas primas" a todos os patriarcas, primazes, arcebispos e demais prelados diocesanos ou ordinários em paz e comunhão com a Santa Sé apostólica. Abaixo, publicamos em vernáculo esse brilhante trabalho.

CAPÍTULO I

As razões desta encíclica

Na primeira Encíclica, dirigida, em princípios do nosso Pontificado, aos Bispos do mundo inteiro, indagamos a causa íntima das calamidades que, ante os nossos olhos, avassalam o gênero humano. Ora, lembra-nos de haver abertamente declarado duas coisas: uma — que esta aluvião de males sobre o universo provém de terem a maior parte dos homens removido, assim da vida particular como da vida pública, Jesus Cristo e sua lei sacrossanta; a outra — que baldado era esperar paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações recusassem reconhecer e proclamar a Soberania de Nosso Salvador. E por isso, depois de afirmarmos que se deve procurar "a paz de Cristo no reino de Cristo", manifestamos que era intenção nossa trabalhar para este fim, na medida de nossas forças. "No reino de Cristo", — dizíamos; porque, para restabelecer e confirmar a paz, outro meio mais eficiente não deparávamos do que reconhecer a Soberania de Nosso Senhor. Com o correr do tempo, claramente pressentimos o raiar de dias melhores, quando vimos o zelo dos povos em acudir, — uns pela primeira vez, outros com renovado ardor, — a Cristo e à sua Igreja, única dispensadora da salvação: sinal manifesto de que muitos homens, até o presente como que desterrados do reino do Redentor, por desprezarem sua autoridade, preparam, ainda bem, e levam a efeito sua volta à obediência.

CAPÍTULO II

Preparação providencial da nova festa. O Ano Santo

Quanto, ao depois, sobreveio, quanto aconteceu no decorrer do "Ano Santo", digno, na verdade, de eterna memória, porventura não concorreu eficazmente para a honra e glória do Fundador da Igreja, de sua soberania, de sua suprema realeza?

Realizou-se, primeiro, a "Exposição Missionária", que, nos corações e nos espíritos dos homens, produziu tão profunda impressão. Ali vimos os incansáveis trabalhos empreendidos pela Igreja, para dilatar cada vez mais o reino de seu Esposo, em todos os continentes, em todas as ilhas, até nas mais longínquas, perdidas no oceano. Vimos quantos países conquistaram ao catolicismo à custa de seus suores, de seu sangue, nossos heroicos e destemidos missionários. Vimos as imensas regiões que ainda ficam por sujeitar ao domínio benfazejo de nosso Rei.

Realizaram-se, em seguida, romarias, vindas a Roma, durante o Ano Santo, de todas as partes do mundo, e guiadas por seus Bispos ou sacerdotes. Que motivos impeliam esses peregrinos, senão o desejo de purificarem suas almas e de proclamarem, junto ao Sepulcro dos Apóstolos e em Nossa presença, que estão e querem permanecer sob a autoridade de Cristo?

Por fim, conferimos a seis Confessores ou Virgens as honras dos Santos, depois de cabalmente provadas suas admiráveis virtudes. Não brilhou, nesse dia, com novo fulgor, o reino de Jesus? Que gozo, que consolação não foi para Nossa alma, depois de proferirmos os decretos definitivos, ouvir, no majestoso recinto de S. Pedro, a imensa multidão os fiéis aclamar com uma só voz, entre cantos de ação de graças, a realeza gloriosa de Cristo — "Tu Rex gloriae, Christe!" Num tempo em que indivíduos e estados, joguetes das sedições nascidas do ódio e discórdias civis, se precipitam para a ruína e a morte, a Igreja de Deus, prosseguindo a dar ao gênero humano o alimento da vida espiritual, gera e continua a educar para Cristo gerações sucessivas de Santos e Santas, e Cristo, por sua vez, não cessa de chamar à eterna felicidade do seu reino celeste quantos se Lhe demonstraram súditos fiéis e submissos de seu reino terrestre.

Com o grande jubileu coincidiu o 16.° centenário do Concílio de Niceia. Mandamos festejar este aniversário secular, e Nós mesmo o comemoramos na Basílica Vaticana, com tanto melhor grado, que este Concílio definiu e proclamou dogma de fé católica a "consubstancialidade" do Unigênito de Deus com seu Pai, e, inserindo em sua fórmula de fé, ou "Credo", as palavras: "cujo reino não terá fim — cujus regni non erit finis" — com isto mesmo afirmou a dignidade real de Cristo.

CAPÍTULO III

Súplica em favor de Cristo Rei

Portanto, já que este ano jubilar, em mais de uma ocasião, contribuiu para pôr em realce a realeza de Cristo, julgamos cumprir um dos atos mais próprios do Nosso ofício apostólico, acedendo às súplicas, assim individuais como coletivas, de numerosos Cardeais, Bispos ou fiéis, e encerrar este ano com introduzir na liturgia da Igreja uma festa especial em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. Este argumento temo-lo tanto a peito, Veneráveis Irmãos, que desejamos entreter-nos dele convosco alguns instantes. Empenho vosso será, depois, tornar, acessível à inteligência e aos sentimentos populares quanto dissermos sobre o culto de "Cristo-Rei", de modo que a nova festa anual produza agora e no porvir múltiplos frutos.

CAPÍTULO IV

Fundamento doutrinal da nova festa

Muito há que a linguagem corrente dá a Cristo o nome de "Rei em sentido metafórico e transposto". "Rei" é Cristo, com efeito, atenta a eminente e suprema perfeição com que sobrepuja a todas as criaturas. Assim, dizemos que "reina sobre as inteligências humanas", por causa da penetração do seu espírito e da extensão de sua ciência, mas sobretudo porque é a própria Verdade em pessoa, de quem, portanto, é força que recebam rendidamente os homens toda verdade. Dizemos que "reina sobre as vontades humanas", porque n'Ele se alia a indefectível santidade do divino querer com a mais reta, a mais submissa das vontades humanas; e também porque suas inspirações entusiasmam nossa vontade livre pelas causas mais nobres. Dizemos, enfim, que é "Rei dos corações", por causa daquela inefável "caridade que excede a toda humana compreensão" (Ef 3, 19); e porque sua doçura e sua bondade atraem os corações: pois nunca houve, no gênero humano, e nunca haverá quem tanto amor tenha ateado como Cristo Jesus.

Aprofundemos sempre mais o nosso argumento. É manifesto que o nome e o poder de "Rei", no sentido próprio da palavra, competem a Cristo em sua Humanidade, porque só de Cristo enquanto homem é que se pode dizer: do Pai recebeu "poder, honra e realeza" (Dan 7, 13-14). Enquanto Verbo, consubstanciai ao Pai, não pode deixar de Lhe ser em tudo igual e, portanto, de ter, como Ele, a suprema e absoluta soberania e domínio de todas as criaturas.

Que Cristo seja Rei, não o lemos nós na Escritura? Ele é o "Dominador oriundo de Jacob" (Num 24, 19), Ele o "Rei, dado pelo Pai a Sião, sua Santa Montanha, para receber em herança as nações, e dilatar seu domínio até os confins da Terra" (Sl 2, 6. 8), Ele o verdadeiro "Rei vindouro" de Israel, que o cântico nupcial nos representa sob os traços de um soberano opulento e poderoso, a quem se dirigem estas palavras: "O teu trono, ó Deus, subsistirá por todos os séculos: a vara de retidão é a vara de teu reino" (Sl 44, 7). Omitindo muitos passos análogos, deparamos além, como, para delinear com maior nitidez a fisionomia de Cristo, vem predito que seu reino desconhecerá fronteiras e desfrutará os tesouros da justiça e da paz. "Nos dias d'Ele, aparecerá justiça e abundância de paz… E dominará de mar a mar, e desde o rio até os confins da Terra" (SL 71, 7-8). A esses testemunhos, juntam-se mais numerosos ainda os oráculos dos Profetas, e notadamente a tão conhecida profecia de Isaías: "Já um Pequenino se acha nascido para nós, e um filho nos foi dado, e foi posto o principado sobre o seu ombro; e o nome com que se apelide será Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai do futuro século, Príncipe da Paz. O seu império se estenderá cada vez mais, e a paz não terá fim; assentar-se-á sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o firmar e fortalecer em juízo e justiça, desde então e para sempre" (Is 9, 6-7).

Não é outro o modo como se expressam os demais Profetas. Assim fala Jeremias, quando prenuncia à descendência de David "um germe de justiça", esse filho de David, que reinará como Rei, "será sábio e obrará segundo a equidade e justiça na Terra" (Jer 23, 5). Assim Daniel, quando prediz a constituição por Deus de um reino "que não será jamais dissipado… e que durará eternamente" (Dan 2, 44). E pouco depois acrescenta: "Eu considerava estas coisas numa visão de noite, e eis que vi um, como o Filho do Homem, que vinha com as nuvens do Céu, e que chegou até o Antigo dos dias; e eles o apresentaram diante d'Ele. E Ele Lhe deu o poder, e a honra, e o reino; todos os povos, e tribos e línguas o servirão: o seu poder é um poder eterno, que Lhe não será tirado, e o seu reino tal, que não será jamais corrompido" (Dan 7, 13-14). Assim Zacarias, quando profetiza a entrada em Jerusalém, entre as aclamações do povo, do "Justo e Salvador", do Rei cheio de mansidão "montado sobre uma jumenta, e sobre o potrinho da jumenta" (Zac 9, 9). E não apontaram os Evangelistas o cumprimento desta profecia?

Esta doutrina de "Cristo Rei", que acabamos de esboçar segundo os livros do Antigo Testamento, bem longe de apagar-se nas páginas do Novo, vem ali, ao invés, confirmada do modo mais esplêndido e em termos admiráveis. Bastará lembrar apenas a mensagem do Arcanjo à Virgem, a anunciar-lhe que dará à luz um Filho; a este Filho, Deus outorgará "o trono de David, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacob, e seu reino não terá fim" (Lc 1, 32-33). Ouçamos agora o testemunho do próprio Cristo no tocante à sua soberania. Sempre que se Lhe oferece ensejo, — em seu último discurso ao povo, sobre a recompensa e os castigos que, na vida eterna, aguardam os justos e os maus; em sua resposta ao governador romano que Lhe perguntara se era Rei; depois de sua ressurreição, quando confia aos Apóstolos a missão de instruírem e batizarem todas as nações, — reivindica o título de "Rei" (Mt 25, 31-40), e publicamente declara que é "Rei" (Jo 18, 37) e que "todo poder Lhe foi dado no Céu e sobre a Terra" (Mt 28, 18). Que entende com isto, senão afirmar a extensão de sua potência, a imensidade do seu reino? À vista disto, deverá fazer-nos estranheza que S. João o proclame "Príncipe dos reis da terra? (Apoc 1, 5) ou que, aparecendo o próprio Jesus ao mesmo Apóstolo em suas visões proféticas "traga escrito no vestido e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores"? (Apoc 19, 16). O Pai, com efeito, constituiu a Cristo "herdeiro de todas as coisas" (Heb 1, 1). Cumpre que reine até o fim dos tempos, quando "arrojará todos os seus inimigos sob os pés de Deus e do Pai" (1 Cor 15, 25).

Desta doutrina comum a todos os livros santos, naturalmente dimana a seguinte consequência: justo é que a Igreja Católica, reino de Cristo na Terra, chamada a estender-se a todos os homens, a todas as nações do universo, multiplicando os preitos de veneração, celebre, no ciclo anual da Liturgia Santa, a seu Autor e Instituidor como a Rei, como a Senhor, como a Rei dos reis. Com admirável variedade de fórmulas, estas homenagens expressam um e o mesmo pensamento; desses títulos servia-se a Igreja outrora no divino ofício e nos antigos sacramentados; repete-os ainda agora, nas preces públicas, que todos os dias dirige à Infinita Majestade e na oblação da Hóstia Imaculada. Nesse louvor ininterrupto de Cristo-Rei, nota-se para logo a formosa harmonia dos nossos ritos com os ritos orientais, verificando-se aqui também a verdade, do prolóquio: "as normas da oração confirmam os princípios da Fé".

O fundamento sobre que pousa esta dignidade e poder de Nosso Senhor, define-o exatamente S. Cirilo de Alexandria, quando escreve: "Numa palavra, possui o domínio de todas as criaturas, não pelo ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza" (In Lucam, 10). Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de "hipostática". Portanto, não só merece Cristo que anjos e homens O adorem como a seu Deus, senão que também devem homens e anjos prestar-Lhe submissa obediência como a Homem. E assim, só em força dessa união, a Cristo cabe o mais absoluto poder sobre todas as criaturas, posto que, durante sua vida mortal, renunciasse ao exercício desse domínio.

— Mas haverá, outrossim, pensamento mais suave do que refletir que Cristo é nosso Rei não só por direito de natureza, mas também a título de Redentor? Lembrem-se os homens esquecidos de quanto custamos a nosso Salvador. "Não fostes resgatados a preço de coisas perecíveis, prata e outro, mas com o sangue precioso de Cristo, como de cordeiro sem mancha nem defeito" (1 Ped 1, 18-19). Já nos não pertencemos, pois que deu Cristo por nós "tão valioso resgate" (1 Cor 6, 20). Até nossos corpos são "membros de Cristo" (1 Cor 6, 15).

CAPÍTULO V

Índole da Realeza de Cristo

Para dizer, em poucas palavras, a importância e índole desta realeza, será apenas necessário asserir que abrange um tríplice poder constitutivo, essencial de toda realeza verdadeira. Provam-no de sobejo os testemunhos de toda a Escritura no tocante à dominação universal de nosso Redentor, e é artigo de fé católica: Cristo Jesus foi dado aos homens não só como Redentor, que lhes merece toda confiança, mas também como Legislador, a quem devemos prestar obediência (Conc. Trid., Sess. 6, can. 21). E, com efeito, não dizem os Evangelhos tão só que promulgou leis, mas no-lo representam no ato de promulgar as leis. A quantos observarem os seus preceitos, declara o Divino Mestre, em várias ocasiões e de diversos modos, que com isto mesmo Lhe hão de provar o seu amor e permanecer em sua caridade (Jo 14, 15); 15, 10). — Quanto ao "poder judicial", declara o próprio Jesus havê-lo recebido de seu Pai, em resposta aos judeus, que o haviam acusado de violar o descanso do sábado, curando milagrosamente, neste dia, a um paralítico. "O Pai, disse-lhes o Salvador, não julga a ninguém, mas deu todo juízo ao Filho" (Jo 5, 22). Esse poder judicial igualmente inclui o "direito", — que se não pode dele separar, — de "premiar" e "punir" aos homens, mesmo durante a vida. — A Cristo compete o "poder executivo", porquanto devem todos sujeitar-se ao seu domínio, e quem for rebelde não poderá evitar a condenação e os suplícios, que Jesus prenunciou.

Esta realeza, porém, é principalmente interna e respeita sobretudo a ordem espiritual. Provam-no com toda evidência as palavras da Escritura acima referidas, e, em muitas circunstâncias, o proceder do próprio Salvador. Quando os judeus, e até os Apóstolos, erradamente imaginavam que o Messias libertaria seu povo para restaurar o reino de Israel, Jesus desfez o erro e dissipou a ilusória esperança. Quando, tomada de entusiasmo, a turba, que O cerca, O quer proclamar rei, com a fuga furta-se o Senhor a estas honras, e oculta-se. Mais tarde, perante o governador romano, declara que seu reino "não é deste mundo". Neste reino, tal como no-lo descreve o Evangelho, é pela penitência que devem os homens entrar. Ninguém, com efeito, pode nele ser admitido sem a fé e o batismo; mas o batismo, conquanto seja um rito exterior, figura e realiza uma regeneração interna. Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz. Foi para adquirir a Igreja que Cristo, enquanto "Redentor", verteu o seu sangue; para isto é, que, enquanto "Sacerdote", se ofereceu e de contínuo se oferece como vítima. Quem não vê, em consequência, que sua realeza deve ser de índole toda espiritual, e participar da natureza deste seu duplo ofício?

Todavia, fora erro grosseiro denegar a Cristo Homem a soberania sobre as coisas temporais todas, sejam quais forem. Do Pai recebeu Jesus o mais absoluto domínio das criaturas, que Lhe permite dispor delas todas como Lhe aprouver. Contudo, enquanto viveu sobre a Terra, absteve-se totalmente de exercer este domínio temporal, e desprezou a posse e regimento das coisas humanas, que deixou — e deixa ainda — ao arbítrio e domínio dos homens. Verdade graciosamente expressa no conhecido verso: "Não arrebata diademas terrestres, quem distribui coroas celestes. — Non eripit mortalia, qui regna dat caelestia" (Hino Crudelis Herodes, of. da Epif.).

Assim, pois, a realeza do nosso Redentor abraça a totalidade dos homens. Sobre este ponto, de muito bom grado fazemos Nossas as palavras seguintes de Nosso Predecessor Leão XIII, de imortal memória: "Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que juridicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro" (Encícl. Annum Sacrum, 25 de Maio de 1899). E, neste particular, não cabe fazer distinção entre os indivíduos, as famílias e os estados; pois os homens não estão menos sujeitos à autoridade de Cristo em sua vida coletiva do que na vida individual. Cristo é fonte única de salvação para as nações como para os indivíduos. "Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do Céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos" (At 4, 12). Dele provêm ao estado como ao cidadão toda prosperidade e bem-estar verdadeiro. "Uma e única é a fonte da ventura, assim para as nações como para os indivíduos, pois outra coisa não é a cidade mais que uma multidão concorde de indivíduos" (S. Aug., Epist. ad Macedonium, c. 3). Não podem, pois, os homens de governo recusar à soberania de Cristo, em seu nome pessoal e no de seus povos, públicas homenagens de respeito e submissão. Com isto, sobre estearem o próprio poder, hão de promover e aumentar a prosperidade nacional.

CAPÍTULO VI

Benefícios sociais desta realeza

Ao subirmos à cátedra pontifical, deplorávamos o lastimável decaimento em que vemos abatido o prestígio do direito e a reverência à autoridade. Quanto então dizíamos não é hoje menos atual ou oportuno. "Excluídos da legislação e dos negócios públicos Deus e Jesus Cristo, e derivando, os que regem, o seu poder, não já do alto, mas dos homens, aconteceu que ruiu o próprio fundamento da autoridade, em consequência de estar removida a razão fundamental do direito que a uns assiste de mandar, e da obrigação consequente que têm outros de obedecer. Seguiu-se daí forçosamente um abalo na humana sociedade inteira, falha assim de amparo e sustentáculo firme" (Encícl. Ubi arcano, DP 19). Se soubessem resolver-se os homens a reconhecer a autoridade de Cristo em sua vida particular e pública, para logo deste ato dimanariam em toda a humanidade incomparáveis benefícios: —: uma justa liberdade, a ordem e o sossego, a concórdia e a paz.

Com dar à autoridade dos príncipes e chefes de governo certo caráter sagrado, a dignidade real de Nosso Senhor enobrece com isto mesmo os deveres e a sujeição dos cidadãos. Tanto assim que o Apóstolo S. Paulo, depois de prescrever às mulheres casadas e aos escravos de reconhecerem a Cristo na pessoa de seus maridos e senhores, lhes recomendava, ainda assim, de obedecerem não servilmente, como a homens, mas tão só em espírito de fé como a representantes de Cristo, porque, é indigno de uma alma resgatada por Cristo obedecer com servilismo a um homem. "Fostes resgatados com grande preço: não estejais sujeitos já como escravos a homens" (1 Cor 7, 23). Se os príncipes e governos legitimamente constituídos tivessem a persuasão de que regem menos no próprio nome do que em nome e lugar do Rei Divino, é manifesto que usariam do seu poder com toda a prudência, com toda a sabedoria possíveis. Em legislar e na aplicação das leis, como haveriam de atender ao bem comum e à dignidade humana de seus súbditos! Então floresceria a ordem, então víramos difundir-se e firmar-se a tranquilidade e a paz; embora o cidadão reconhecesse nos príncipes e chefes de governo homens iguais a si pela natureza ou mesmo, por algum respeito, indignos ou repreensíveis, não deixara por isto de lhes obedecer, por depreender neles a imagem e autoridade de Cristo, Deus-Homem.

Pelo que respeita à concórdia e à paz, é manifesto que, quanto mais vasto é um reino, quanto mais largamente abraça o gênero humano, tanto é maior a consciência em seus membros do vínculo de fraternidade que os une. Esta consciência, assim como remove e dissipa os frequentes conflitos, assim também atenua e suaviza os amargores que dos conflitos nascem. E se o reino de Cristo abarcara de fato, como de direito abarca, as nações todas, porque deveríamos perder a esperança dessa paz que à Terra veio trazer o Rei pacífico, esse Rei que veio "para reconciliar todas as coisas" (Col 1, 20), "que não veio para ser servido, mas para servir aos outros" (Mc 10, 45) e que, embora "Senhor de todos" (Gál 4, 1), deu exemplo de humildade e principalmente inculcou esta virtude, de envolta com a caridade, acrescentando: "Meu jugo é suave, e é leve minha carga" (Mt 11, 30). Oh! que ventura não pudéramos gozar, se os indivíduos, se as famílias, se a sociedade se deixasse reger por Cristo! "Então, finalmente — para citarmos as palavras que, há 25 anos, Nosso Predecessor Leão XIII dirigia aos Bispos do mundo inteiro — então fora possível sanar tantas feridas; o direito recobrara seu antigo viço, seu prestígio de outras eras; então tornaria a paz com todos os seus encantos e cairiam das mãos armas e espadas, quando todos de bom grado aceitassem o império de Cristo, Lhe obedecessem, e toda língua proclamasse que "Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre" (Ene. Annum Sacrum).

CAPÍTULO VII

A festa de Jesus Cristo Rei

E a fim de que a sociedade cristã goze largamente de tão preciosas vantagens e para sempre as conserve, é mister que se divulgue quanto possível o conhecimento da dignidade real de Nosso Salvador. Ora, nada pode, pelo que Nos parece, conseguir melhor este resultado, do que a instituição de uma festa própria e especial em honra de Cristo-Rei.

Com efeito, para instruir o povo nas verdades da fé e levá-lo assim às alegrias da vida interna, mais eficazes que os documentos mais importantes do Magistério eclesiástico são as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos do Magistério, de fato, apenas alcançam um restrito número de espíritos mais cultos, ao passo que as festas atingem e instruem a universalidade dos fiéis. Os primeiros, por assim dizer, falam uma vez só, as segundas falam sem intermitência de ano para ano; os primeiros dirigem-se, sobretudo, ao entendimento; as segundas influem não só na inteligência, mas também no coração, quer dizer — no homem todo. Composto de corpo e alma, precisa o homem dos incitamentos exteriores das festividades, para que, através da variedade e beleza dos sagrados ritos, recolha no ânimo a divina doutrina, e, transformando-a em substância e sangue, tire dela novos progressos em sua vida espiritual.

Além disso, ensina-nos a própria história, que estas festividades litúrgicas foram introduzidas, no decorrer dos séculos, umas após outras, para responder a necessidades ou vantagens espirituais do povo cristão. Foram-se constituindo para fortalecer os ânimos em presença de algum perigo comum, para premunir os espíritos contra os ardis da heresia, para mover e inflamar os corações a celebrar com mais ardente piedade algum mistério de nossa fé ou algum benefício da divina graça. Assim é que, desde os primeiros tempos da era cristã, quando, acossados das mais cruentas perseguições, os fiéis começaram, com sagrados ritos, a comemorar os mártires, para que — como diz S. Agostinho — "as solenidades dos mártires fossem exortação ao martírio" (Sermão 47, de Sanctis). As honras litúrgicas, mais tardes decretadas aos confessores, às virgens, às viúvas, contribuíram singularmente para promover nos fiéis o zelo pela virtude, indispensável mesmo em tempo de paz. Especialmente as festas em honra da Virgem Beatíssima fizeram com que o povo cristão não só tributasse à Mãe de Deus, sua Protetora por excelência, culto mais assíduo, senão que ao mesmo tempo fosse de contínuo crescendo seu amor filial à Mãe que o Redentor lhe deixara como que em testamento. Dentre os benefícios que dimanaram do culto público e legitimamente prestado à Mãe de Deus e aos Santos do Céu, não é o menor a vitória constante com que a Igreja se cobriu de louros, ao debelar e repelir a heresia e o erro. E nisto devemos admirar os desígnios da Divina Providência, que, segundo costuma, tira o bem do mal. Permitiu que, de tempos a tempos, entibiasse a fé e a piedade popular; permitiu que doutrinas errôneas armassem insídias à piedade católica, mas sempre com o intuito de fazer finalmente fulgir a verdade com novo esplendor e mover os fiéis, espertos da tibieza, a tenderem com novo zelo a graus mais elevados de santidade e perfeição cristã. Idêntica é a origem, idênticos os frutos que produziram as solenidades recentemente introduzidas no calendário litúrgico. Tal é a festa do "Corpus Christi", instituída quando se esfriava a reverência e o culto para com o SS. Sacramento; celebrada com brilho singular, protraída por oito dias de suplicações coletivas, a nova solenidade devia reconduzir os povos à adoração pública do Senhor. Tal é a festa do Coração Santíssimo de Jesus estabelecida na época em que, abatidos e desalentados pelas tristes doutrinas e o rigorismo sombrio do jansenismo, os fiéis sentiam seus corações regelados e com escrúpulo deles excluíam todo sentimento de amor de Deus e a esperança de conseguirem a eterna salvação.

Para Nós também soou a hora de provermos às necessidades dos tempos presentes e de opormos um remédio eficaz à peste que corrói a sociedade humana. Fazemo-lo, prescrevendo ao universo católico o culto de Cristo-Rei. Peste de nossos tempos é o chamado "laicismo", com seus erros e atentados criminosos.

Como bem sabeis, Veneráveis Irmãos, não é num dia que esta praga chegou à sua plena maturação; há muito, estava latente nos estados modernos. Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o gênero humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus.

Os frutos sobremodo amargosos que, tantas vezes e com tanta persistência, produziu esta apostasia dos indivíduos e dos estados, que desertam a Cristo, expendemo-los na Encíclica "Ubi arcano". Tornamos a lamentá-los hoje. Frutos desta apostasia são os germes de ódio esparsos por toda parte, as invejas e rivalidades entre nações, que alimentam as discórdias internacionais e dificultam ainda agora a restauração da paz; frutos desta apostasia as ambições desenfreadas, que muitas vezes se encobrem com a máscara do interesse público e do amor da pátria, e suas tristes consequências: dissensões civis, egoísmo cego e desmedido, sem outro fito nem outra regra mais que vantagens pessoais e proveitos particulares. Fruto desta apostasia a perturbação da paz doméstica, pelo esquecimento e desleixo das obrigações familiares, o enfraquecimento da união e estabilidade no seio das famílias, e por fim o abalo na sociedade toda, que ameaça ruir.

A festa, doravante ânua, de "Cristo-Rei" dá-nos a mais viva esperança de acelerarmos a tão desejada volta da humanidade a seu Salvador amantíssimo. Fora, com certeza, dever dos católicos, apressar e preparar esta volta com diligente empenho; a muitos deles, contudo, pelo que parece, não toca, na sociedade civil, o posto e a autoridade que conviriam aos apologistas da fé. Talvez deva este fato atribuir-se à indolência e timidez dos bons que se abstêm de toda resistência, ou resistem com moleza, donde provém, nos adversários da Igreja, novo acréscimo de pretensões e de audácia. Mas, desde que a massa dos fiéis se compenetre de que é obrigação sua combater com valentia e sem tréguas sob os estandartes de Cristo-Rei, o zelo apostólico abrasará seus corações, e todos se esforçarão de reconciliar com o Senhor as almas que o ignoram ou dele desertaram; todos, enfim, se esforçarão por manter inviolados os direitos do próprio Deus.

Mas não basta. Uma festa, anualmente celebrada por todos os povos em homenagem a Cristo-Rei, será sobremaneira eficaz para condenar e ressarcir, de algum modo, esta apostasia pública, tão desastrada para as nações, gerada pelo laicismo. Com efeito, quanto mais vergonhosamente se passa em silêncio, quer nas conferências internacionais, quer nos Parlamentos, o nome suavíssimo do nosso Redentor, tanto mais alto o devemos aclamar, tanto mais devemos reconhecer os direitos que a Cristo conferem sua dignidade e poder real.

CAPÍTULO VIII

Conveniências atuais da instituição da festa

E quem não vê que, desde os últimos anos do século passado, se ia, de modo admirável, preparando o caminho à instituição desta festa? Ninguém, com efeito, ignora como, com livros que se escreveram nas várias línguas do mundo inteiro, este culto foi explicado e doutamente defendido. Sabem todos que a autoridade e realeza de Cristo foi já reconhecida pela piedosa prática de se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo ato. Antes, por iniciativa e direção de Leão XIII, o universo gênero humano foi felizmente consagrado a este Coração Santíssimo, no correr do Ano Santo de 1900. Não podemos preterir os congressos eucarísticos que nossa época viu multiplicar-se em tão grande número. Tão bem serviram à causa da solene proclamação humana. Reunidos para apresentar à veneração e às homenagens populares de uma diocese, de uma província, de uma nação, ou mesmo do mundo inteiro, Cristo-Rei, oculto sob os véus eucarísticos, esses congressos, em conferências realizadas nas suas assembleias, em sermões proferidos nas igrejas, por meio da exposição pública ou da adoração em comum do Santíssimo Sacramento e de grandiosas procissões, enaltecem a Cristo como a Rei que de Deus receberam os homens. Este Jesus, que os ímpios recusaram acolher quando veio a seu reino, pode-se dizer, com toda a verdade, que o povo cristão, movido de uma inspiração divina, vai arrancá-l'O ao silêncio e, por assim dizer, à obscuridão dos templos, para levá-l'O, qual triunfador, pelas ruas das grandes cidades e reintegrá-l'O em todos os direitos de sua realeza.

Para a realização deste Nosso desígnio, de que acabamos de falar, oferece-Nos ensejo sumamente oportuno o "Ano Santo" que finda. Este ano veio relembrar ao espírito e ao coração dos fiéis os bens celestes que sobrepujam todo sentimento natural. Em sua bondade infinita, Deus restitui a uns a sua graça, e confirma a outros no bom caminho, infundindo-lhes novo ardor para aspirarem a dons mais perfeitos. Quer atendamos às numerosas súplicas que nos foram dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se deram no correr do "Ano Santo", sobeja razão nos assiste de pensarmos que deveras para Nós soou a hora de proferirmos a sentença tão ansiosamente de todos aguardada e que decretemos uma festa especial em honra de Cristo, Rei de todo o gênero humano. Durante este ano, com efeito, como a princípio dissemos, este divino Rei, deveras admirável em seus Santos, conquistou novos triunfos, com a elevação às honras dos altares de mais um manípulo de soldados seus. Durante este ano, uma exposição extraordinária pôs ante os olhos do mundo as fadigas e, de algum modo, os próprios trabalhos dos arautos do Evangelho, e todos puderam admirar as vitórias ganhas por esses campeões de Cristo, para a extensão do seu reino; durante este ano, finalmente, com o centenário do Concílio de Niceia, comemoramos, contra os seus detratores, a defesa e definição do dogma da consubstancialidade do Verbo Humanado com seu Pai, verdade na qual descansa, como em fundamento, a soberania de Cristo sobre todos os povos.

Portanto, em virtude de Nossa autoridade apostólica, instituímos a festa de "Nosso Senhor Jesus Cristo Rei", mandando que seja celebrada cada ano, no mundo inteiro, no último domingo de outubro imediato à solenidade de Todos os Santos. Prescrevemos igualmente que, cada ano, se renove, nesse dia, a consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, que já Nosso Predecessor de saudosa memória Pio X ordenara se fizesse anualmente. Contudo, queremos que, neste ano, a renovação se faça a 31 de dezembro; nesse dia, celebraremos missa pontifical em honra de "Cristo-Rei", e mandaremos proferir, em Nossa presença, o ato de consagração. Quer parecer-Nos que não pode haver melhor encerramento do "Ano Santo", e que destarte daremos a "Cristo, Rei Imortal dos séculos", o testemunho mais eloquente de nossa gratidão e do reconhecimento do universo católico, de quem Nos fazemos intérpretes, pelos benefícios que, neste período de graças, concedeu a Nós mesmo, à Igreja, à cristandade toda.

É escusado, Veneráveis Irmãos, explicar-vos longamente os motivos de uma festa especial em honra de "Cristo-Rei". Pois, conquanto outras festas, já existentes, enalteçam e de algum modo glorifiquem sua dignidade real, basta, contudo, observar que, se todas as festas de Nosso Senhor têm a Cristo, segundo a linguagem dos teólogos, por "objeto material", de modo algum é o poder e apelativo de Rei "objeto formal" das mesmas.

Fixando a nova festa em um domingo, quisemos que o clero fosse o único em prestar suas homenagens a "Cristo-Rei", com a celebração do Santo Sacrifício e a reza do Santo Ofício, mas que o povo, desimpedido de suas ocupações ordinárias, e animado de santa alegria, pudesse dar a Cristo, como a seu Senhor e Soberano, um manifesto testemunho de obediência. Finalmente mais apropriado Nos pareceu o último domingo de outubro, porque este domingo, em certo modo, encerra o ciclo do ano litúrgico; destarte, os mistérios da vida de Jesus Cristo, comemorados no decorrer do ano que finda, terão na solenidade de "Cristo-Rei" seu como termo e coroa, e antes de celebrar a glória de todos os Santos, a liturgia proclamará e enaltecerá a glória d'Aquele que em todos os Santos e em todos os eleitos triunfa. É dever, é direito vosso, Veneráveis Irmãos, fazer preceder a festa por uma série de instruções que se deem, em dias determinados, nas diferentes paróquias, para instruir acuradamente o povo da natureza, significado e importância desta festa, por onde os fiéis regulem a sua vida em modo a torná-la digna de súbditos leais e submissos de coração à soberania do Divino Rei.

Ao fecharmos esta carta, quiséramos ainda, Veneráveis Irmãos, expor-vos brevemente os frutos, que, tanto para a Igreja e a sociedade civil, como para cada um dos fiéis, esperamos deste culto público prestado a Cristo-Rei.

A obrigação de tributar à soberania de Nosso Senhor as homenagens, a que nos referimos, relembra, juntamente, aos homens os direitos da Igreja. Instituída por Cristo, que lhe deu a forma orgânica de sociedade perfeita, exige, em virtude deste direito, que dimana de sua origem divina e que ela não pode abdicar, a plena liberdade, a independência absoluta do poder civil. No desempenho de sua divina missão, de ensinar, reger e conduzir à eterna felicidade todos os membros do reino de Cristo, não pode, de modo algum, depender de vontade estranha. Antes, idêntica liberdade deve o estado conceder às ordens e congregações religiosas de ambos os sexos, pois são os auxiliares mais firmes dos Pastores da Igreja, os que mais eficazmente se empenham em difundir e confirmar o reinado de Cristo, primeiro debelando em si, com a profissão religiosa, o mundo e sua tríplice concupiscência, e depois, pelo fato de haverem abraçado uma profissão de vida mais perfeita, fazendo resplandecer aos olhos de todos, com fulgor contínuo e cada dia crescente, esta santidade de que o divino Fundador quis fazer uma nota distinta de sua Igreja autêntica.

Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes.

Que energias, além disso, que virtude não poderão os fiéis haurir da meditação destas verdades, para amoldar seus espíritos aos princípios verdadeiros da vida cristã! Se todo o poder foi dado ao Senhor Jesus, no céu e na terra, se os homens, resgatados pelo seu sangue preciosíssimo, se tornam, com novo título, súditos de seu império, se, finalmente, este poder abraça a natureza humana em seu conjunto, é claro que nenhuma de nossas faculdades se pode subtrair a essa realeza. É mister, pois, que reine em nossas inteligências: com plena submissão, com adesão firme e constante, devemos crer as verdades reveladas e os ensinos de Cristo. É mister que reine em nossas vontades: devemos observar as leis e os mandamentos de Deus. É mister que reine em nossos corações: devemos mortificar nossos afetos naturais, e amar a Deus sobre todas, as coisas. É mister que reine em nossos corpos e em nossos membros: devemos transformá-los em instrumentos, ou, para falarmos com S. Paulo (Rom 6, 13), "em armas de justiça, oferecidas a Deus", para aumento da santidade de nossas almas. Eis os pensamentos que, propostos à reflexão dos fiéis e atentamente ponderados, hão de facilmente levá-los a mais elevada perfeição.

Praza a Deus, Veneráveis Irmãos, que os homens, afastados da Igreja, procurem e aceitem, para salvação de suas almas, o jugo suave de Cristo. Quanto a nós todos, por divina misericórdia, súbditos e filhos seus, queira Deus que levemos este jugo, não de má vontade, mas com prazer, mas com amor, mas santamente. Assim, no decorrer de uma vida pautada pelas leis do reino do céu, recolheremos, alegres, grande cópia de frutos, e mereceremos que Cristo, reconhecendo-nos por bons e fiéis servidores de seu reino terrestre, nos admita, depois, a participar com Ele da eterna felicidade e da glória sem fim em seu reino celeste.

Aceitai, Veneráveis Irmãos, ao decorrerem as festas natalícias do Senhor, este presságio e este augúrio, como prova de Nosso paternal afeto, e, como penhor de divinos favores, recebei a bênção apostólica, que, com toda a alma, vos concedemos a Vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e à vossa grei.

Dada em Roma, junto a S. Pedro, aos 11 de Dezembro do Ano Santo de 1925, quarto do Nosso Pontificado. Papa Pio XI.

Esta nossa Carta Pastoral seja lida ou traduzida onde for necessário, na forma do costume, e bem assim registrada na nossa Cúria e nas paróquias.

Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.

Dada e passada na cidade de Porto Alegre, sob o sinal e selo das nossas Arenas, aos 19 de março, festa do glorioso Patriarca São José, de 1926.

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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