A SAGRADA EUCARISTIA

TRIGÉSIMA SEGUNDA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1944)


Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.


CAPÍTULO I

Nomes e noções da Sagrada Eucaristia

Segundo a doutrina de Santo Tomás, a nossa vida espiritual obedece a leis semelhantes aos princípios que regem a nossa vida corporal, que é imagem das maravilhas que Deus opera em nossas almas regeneradas.

A geração dá-nos a vida do corpo, o generoso trabalho da natureza aperfeiçoa-nos; mas, depois disto, é necessário que busquemos fora de nós as forças que nos conservem, e que um elemento reparador renove em nós a vida na medida em que ela se gasta.

O mesmo sucede com a vida espiritual. Gerada pelo batismo, aperfeiçoada pela confirmação, ela tem necessidade de um elemento reparador e conservador. Este elemento depositou-o o Salvador no Sacramento admirável que se pode denominar a sua obra prima e se chama Sagrada Eucaristia.

Cristo dá-nos a sua própria carne e sangue para alimento espiritual das nossas almas. Ele mesmo permanece em nós e nós, permanecendo nele, teremos a vida eterna e um penhor de ressurreição futura. Assim, aquele que se uniu à nossa humanidade pela encarnação, pela Eucaristia, se liga a cada um dos fiéis em íntima comunhão. E aquele que na cruz foi feito oblação por nós, a si mesmo deixou à sua igreja em visível e perene sacrifício no qual nos tornamos participantes da divina Hóstia.

"Bem como de todos os sagrados mistérios que Nosso Senhor e Salvador nos deixou para serem instrumentos certíssimos de sua divina graça, nenhum há que possa comparar-se com o Santíssimo Sacramento da Eucaristia; do mesmo modo, de nenhum crime deverá temer-se que venha de Deus maior castigo do que o de tratar-se sem devoção e sem respeito este mistério, que é cheio de toda a santidade ou para melhor dizer, que contém a mesma santidade, a fonte e o autor."

"Portanto, para que o povo fiel, depois de ter entendido o supremo culto que deve dar-se a este Sacramento, possa não só escapar à justíssima ira de Deus, mas também, além disto, receber mais abundantes frutos de graça, deverão os pastores, com o maior desvelo, expor-lhe tudo quanto parecer capaz para lhe fazer conhecer sua grandeza."

Vários são os nomes que designam este admirável mistério: Eucaristia, isto é, ação de graças, porque se recebe o próprio Autor da graça e na sua Pessoa, a única coisa que podemos oferecer a Deus para lhe agradecer dignamente os seus benefícios. O nome Eucaristia convém a este Sacramento, porque Cristo na Última Ceia deu solenemente graças ao céu, e os evangelistas e o apóstolo S. Paulo empregam, em grego, a palavra "Eucaristia", quando descrevem esta solenidade. É o Sacramento do Altar, porque é o ato fundamental e a coroa suprema do nosso culto religioso. É o mistério dos mistérios, porque Cristo nele oculta, não somente a divindade que não somos dignos de ver, mas a mesma humanidade que mostrou aos nossos pais na fé.

É a Oficina dos milagres, porque à onipotência divina vence, com soberana autoridade, as leis da natureza para multiplicar os prodígios. É o Sacramento dos fiéis, porque na sua presença a fé triunfa do testemunho dos sentidos e das revoltas da razão. É o Memorial da Paixão, porque nele Cristo se sacrifica como sobre a cruz. É a Hóstia salutar, porque a vítima santa nele representa os milhões de vidas inimigas que deviam cada dia ser oferecidas aos golpes da justiça divina. É o Santo Sacrifício, o Sacrifício diviníssimo, porque Deus nele recebe, pela destruição e morte mística, homenagens que igualam sua infinita majestade, e Cristo por ele aplica às nossas almas os méritos dos seus sofrimentos e da sua morte.

É a Fração do pão, porque, distribuído todos os dias e a todos, sem nunca se esgotar, alimenta, com sua vida divina, a nossa vida sobrenatural. É o Pão da vida, porque repara e previne os estragos das forças de morte que nos assaltam e, aumentando o amor, excita a atividade fecunda das virtudes. É o Viático, porque reconforta e deleita a nossa alma na rude e triste viagem que deve guiá-la ao seu último termo.

É a Comunhão, porque, unindo-nos a Deus tão intimamente quanto é possível nesta vida passageira, comunica, cá na terra, na igualdade e fraternidade, a unidade do Corpo Místico, cujos membros somos. É o Pão dos anjos, porque dá à Igreja na terra o soberano bem em que eternamente se deleita a assembleia do céu. É o Sacramento dos sacramentos, porque os outros passam e ele fica, e todos gravitam em roda dele como os astros secundários em torno do sol.

A Sagrada Eucaristia é também, com razão, chamada o fim e a coroa dos outros sacramentos. É o fim, porque os outros sacramentos levam ou preparam, mediata ou imediatamente, para a união com Cristo no Sacramento do Altar. Chama-se coroa dos sacramentos, porque por ela se consegue, de um modo mais perfeito e excelente, o fim comum a todos, que é a íntima união de vida com Cristo, nossa Cabeça, e com os próximos, nossos irmãos em Cristo.

A Sagrada Eucaristia foi prefigurada no Velho Testamento pela árvore da vida, pelos pães de proposição, pela oblação de Melquisedec, pelo pão subcinerício com que foi fortalecido Elias, caminhou até ao monte de Deus Horeb, pelo maná no deserto e pelo cordeiro pascal.

A primeira figura da Eucaristia é a árvore da vida plantada no meio do paraíso terrestre. A árvore da vida foi produzida por um ato do poder de Deus e saiu de uma terra virgem; o corpo de Nosso Senhor foi produzido imediatamente por obra do Espírito Santo e formado no seio da Puríssima Virgem.

A árvore da vida era destinada a tornar imortal o corpo do homem: o corpo de Nosso Senhor é destinado a dar à alma a imortalidade espiritual, e dispor o mesmo corpo do homem para a sua ressurreição gloriosa; de sorte que, bem superior à árvore do paraíso terrestre, esta nos dá três vidas: à alma a vida da graça, ao corpo a vida da ressurreição, e ao corpo e à alma a vida da glória.

A árvore da vida servia de alimento a Adão inocente: o corpo de Nosso Senhor é o alimento das almas justas, destinado a nutrir o homem, compêndio de todas as criaturas. A árvore da vida tinha a virtude de todas as árvores e de todas as plantas: o corpo de Nosso Senhor encerra em si todos os gostos, todas as virtudes, todos os tesouros da divindade mesma.

A árvore da vida não se encontra senão no paraíso terrestre: o corpo de Nosso Senhor não se dá senão na Igreja. Aquela porém estava num só lugar: este está em muitos lugares do mundo e permanecerá eternamente no céu.

A Sagrada Eucaristia foi prefigurada pelos pães de proposição que se punham sobre uma mesa no templo de Jerusalém e eram um testemunho perpétuo da dependência em que os judeus estavam de Deus, a quem reconheciam por absoluto Senhor de sua vida, da qual o pão era o necessário sustento. A Sagrada Eucaristia é igualmente o testemunho perpétuo da absoluta dependência em que estamos de Deus e pela qual reconhecemos seus benefícios.

Os pães de proposição eram feitos pelos sacerdotes, da farinha mais pura e sem fermento; o corpo de Nosso Senhor que está presente na Sagrada Eucaristia, foi formado pelo mesmo Espírito Santo do sangue puríssimo da Santíssima Virgem, sem sombra de pecado original, nem de corrupção alguma. As doze tribos de proposição ofereciam-se todos os dias, em nome das doze tribos de Israel: o corpo de Nosso Senhor oferece-se todos os dias, em nome de todos os cristãos.

Na Lei Antiga só os sacerdotes tinham o poder de fazer os pães da proposição: na Lei Nova só aos sacerdotes compete consagrar o corpo de Nosso Senhor. Sobre os pães de proposição havia uma redoma de ouro cheia de perfumes raros: o objeto da Comunhão é fazer da alma um vaso de ouro, por meio da caridade, cheio dos perfumes do louvor e da oração.

A Sagrada Eucaristia ocupa o terceiro lugar na série dos sacramentos, sendo o primeiro o batismo e o segundo a confirmação. O batismo dá a vida espiritual, a confirmação fortalece-a, a Eucaristia a conserva e alimenta. A Eucaristia é o mais formoso, o mais nobre e o mais santo dos sacramentos. Os outros na verdade encerram a graça, a Eucaristia contém o próprio Autor da graça. E, por isso, não sabendo como falar da sua excelência e dignidade, os autores sagrados liberalizaram-lhe vários nomes, como vimos, na impossibilidade em que se viam de fazê-la conhecer por denominação única.

A Sagrada Eucaristia é um verdadeiro sacramento, um sacramento segundo a definição da Igreja. É um sinal sensível instituído por Jesus Cristo, para comunicar a graça às nossas almas. É um sinal sensível, pois as espécies do pão e do vinho sob as quais se oculta a presença de Jesus Cristo, ferem com efeito a nossa vista e as palavras da consagração os nossos ouvidos. Ela produz e comunica às nossas almas a graça: "Aquele que come deste Pão, viverá eternamente".

Enfim, a Eucaristia foi instituída por Jesus Cristo na Última Ceia, para ficar na Igreja como uma fonte permanente de benefícios para os fiéis.

É fácil conhecer a diferença entre a Eucaristia e os outros sacramentos. Pois, estes se realizam, usando da matéria, isto é, durando eles só o tempo em que se administram, porquanto o batismo adquire a natureza de sacramento, só no mesmo ato em que o homem é lavado com água competente.

Mas, para se completar a Eucaristia, é bastante a consagração da sua própria matéria e não deixa de ser verdadeiro sacramento, ainda que fique depois guardado numa píxide. Demais disto, quando se efetuam os outros sacramentos, não se faz mudança alguma na matéria deles ou do seu elemento para outra natureza. Porquanto, do batismo a água e do crisma o azeite, quando estes sacramentos se administram, não perdem a natureza da água e do azeite. Mas na Eucaristia, o que antes da consagração era pão e vinho, depois da consagração, é verdadeiramente só a substância do corpo e do sangue do Senhor.

Mas, certamente nada há que possa acrescentar-se à consolação e gozo que sentem as pessoas devotas, quando contemplam a majestade deste augusto Sacramento. Primeiramente, entendem quanto é grande a perfeição da lei evangélica pela qual nos foi dado ter a realidade daquilo de que somente tiveram sinais e figuras os que receberam a lei de Moisés.

Por esta razão, disse como inspirado S. Dionísio: Que a Igreja está no meio da sinagoga e da Jerusalém celeste e que, por isto, participa de uma e de outra. E que, na verdade, os fiéis nunca cessarão de admirar a perfeição da santa Igreja e a grandeza de sua glória, vendo que entre ela e a bem-aventurança celeste, vai a distância de apenas um só grau.

Pois, é-nos comum com os moradores do céu, termos presente a Cristo Deus e Homem; e o grau único por que distamos, é que eles gozam diretamente de sua visão beatífica, enquanto nós, com fé constante e firme, o adoramos presente, mas sem o alcance dos nossos sentidos, porquanto ele se nos esconde debaixo do véu admirável dos mistérios sagrados.

Além disto, os fiéis reconhecem neste Sacramento a perfeitíssima caridade de Cristo Nosso Senhor, porque muito a propósito foi da sua bondade nunca apartar de nós aquela natureza que de nós tinha tomado, mas antes querer, quanto possível fosse, estar e comunicar conosco, para que em todo o tempo se verificasse a propriedade com que está escrito: "As minhas delícias é o estar com os filhos dos homens".

"Louva, Sião, ao Salvador. Louva ao Príncipe e ao Pastor, em teus hinos e cantares: Lauda, Sion, Salvatorem. Lauda Ducem et Pastorem, in hymnis et canticis."

CAPÍTULO II

A promessa da Sagrada Eucaristia

Depois da encarnação da segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não há mistério ou verdade revelada mais digna de ser conhecida pelo homem que a Sagrada Eucaristia. Compêndio e ápice das maravilhas de Deus, pedra angular da religião de Cristo e centro dos corações cristãos, é o Sacramento dos nossos altares que merece a nossa maior atenção. Este portento augusto encerra em si todas as graças do céu e todas as esperanças da terra. É Deus mesmo que se torna sensível às almas, é Jesus Cristo, continuando através dos séculos a sua ação redentora sobre o mundo.

Deus, sempre rico em misericórdias para com os descendentes de Adão, prefigurou, de várias maneiras, a Sagrada Eucaristia. As figuras do Antigo Testamento, de que atrás falamos, foram como que as pedras miliárias que Deus ia colocando nos caminhos do mundo, para dispor os ânimos em favor da sua admirável obra.

Não obstante, este gênero de anúncios é muito pobre e extremamente obscuro; pois, por muita luz que difundam as figuras sobre a coisa figurada, sempre a deixam obscurecida com a penumbra da indeterminação e da dúvida. Era, portanto, preciso que viesse esclarecer este assunto uma declaração mais explícita do monumento inefável do amor de Deus. E isto fez Jesus Cristo no discurso que lemos no capítulo VI de S. João. Nele prometeu formalmente instituir a Sagrada Eucaristia, o memorial inefável de prodígios do céu.

E com efeito; acabava o Salvador de saciar a fome de mais de cinco mil homens com o prodigioso pão, e, aproveitando a impressão favorável que aquele milagre havia causado na alma de seus ouvintes, os exorta a que não busquem com tanto afã o sustento de um corpo caduco e perecedor. E, passando da figura ao figurado, da comida terrena à celestial, lhes disse: "Eu vos aconselho que trabalheis por obter a comida da alma antes que o alimento do corpo. Porque aquela permanece ainda na vida eterna, enquanto este se destrói e deixa de existir."

"Crede em mim que posso dar-vos o pão que dura para sempre, porque nele imprimiu o seu selo o Pai celeste."

E como os hebreus se julgavam capazes de merecer esta graça, perguntaram ao Senhor, que deviam fazer para que suas obras fossem agradáveis a Deus. "A obra agradável a Deus, lhes respondeu Jesus Cristo, é que creiais naquele que ele enviou." "Pois, que milagres fazes tu, lhes replicavam os judeus, para que creiamos que és o enviado? Certo que multiplicaste os pães e com eles nos alimentaste; porém, isto que tu fizeste uma só vez, o praticou Moisés, por espaço de quarenta anos, com nossos pais a quem deu pão do céu."

"Não, respondeu o Redentor, o maná que deu Moisés a vossos pais, baixava do ar e não do céu. Por isso morreram depois de o haverem comido. O pão que baixou do céu, sou eu que vim ao mundo para que todo aquele que creia em mim, tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no novíssimo dia."

Palavras admiráveis que exprimem a necessidade da fé para entrar na mansão da glória, e com as quais manifestou o Salvador a divindade de sua missão.

Indicada, deste modo, a necessidade de crer para salvar-se, o Mestre continua a ensinar, sem importar-se com as dúvidas pueris que os ignorantes acariciavam a respeito de suas doutrinas, descende ele à promessa manifesta, patente e indubitável do grande Mistério da fé cristã, velado até então com as figuras e emblemas do simbolismo.

"Eu sou, disse ele, o pão vivo que desci do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente. O pão que eu darei, é minha própria carne que há de ser entregue pela salvação do mundo. Se não comerdes minha carne e beberdes o meu sangue, não tereis vida em vós. Minha carne é verdadeira comida e meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, está em mim e eu nele."

Esta foi a promessa clara, terminante, da Sagrada Eucaristia. É preciso tomar as palavras do Senhor no sentido óbvio, genuíno e literal, que tem e lhes dá a Igreja Católica. Assim, a instituição da Eucaristia foi precedida de uma promessa na qual Jesus Cristo tinha, avisadamente, afastado toda a figura, todo o símbolo, toda a metáfora. Havia falado à multidão nutrida por ele no deserto, de um pão milagroso: "Eu que desci do céu, sou o pão vivo; se alguém comer este pão, viverá eternamente e o pão que eu darei, é a minha carne que será entregue pela salvação do mundo."

Espanto e contestação entre os judeus: "Como é, diziam eles, que nos poderá dar a sua carne para comer?" Julgavam eles que se tratava de renovar a horripilante cena de Tiestes que comeu, sem sabê-lo, a carne dos seus filhos que lhe ministrou seu irmão Atreu.

Era chegado certamente o momento de explicar a metáfora para calmar o espanto de um auditório escandalizado pela repugnante perspectiva de uma cena de antropofagia. E todavia não: Jesus corrobora por uma afirmação mais clara e por uma espécie de juramento o sentido de suas palavras.

"Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, possui a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. A minha carne é verdadeiramente um alimento e o meu sangue verdadeiramente uma bebida. Ainda mais uma vez: Eis o pão descido do céu. É mais do que o maná que os vossos pais comeram no deserto, porque morreram. O que comer este pão, viverá eternamente."

À vista destas insistências, os próprios discípulos se revoltam e exclamam: "São duras estas palavras; quem poderá ouvi-las?"

O Mestre ainda insiste: "Isto escandaliza-vos, mas o que será quando virdes o Filho do Homem, que vos promete a sua carne, subir aos céus donde veio? Subirá e ficará com a sua carne." Que mistério!

Todavia, porque tinha diante de si os apóstolos deste mistério, preservou-os do erro dos cafarnaítas que o entendiam de um modo repugnante. Dará a sua carne, mas como nutrição vivificante do espírito, por uma mudança espiritual, e não como alimento grosseiro do corpo por uma manducação carnal.

Mas, alguns que não podiam suportar tal doutrina, separaram-se dele. E Jesus, voltando-se para os doze, disse-lhes: "E vós quereis ir também?"

Em nome dos apóstolos, lhe respondeu Simão Pedro: "Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida eterna, e nós temos crido e conhecido que Tu és o Cristo, o Filho de Deus."

A índole das palavras de Cristo exigem uma interpretação em sentido próprio: "Eu sou o pão vivo; o pão que eu darei pela salvação do mundo, é minha carne; se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, minha carne é verdadeiramente um alimento e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida; a comparação com o maná, a expressa e muitas vezes repetida distinção entre comer carne e beber sangue, as circunstâncias em que Cristo fala, a índole simples dos apóstolos, tudo isto exige o sentido próprio e exclui o sentido metafórico.

De fato, se o Senhor quisesse afirmar o que hoje a Igreja ensina da Sagrada Eucaristia, não poderia usar de termos mais claros. Que o sentido próprio está patente, prova também a dificuldade de determinar o sentido metafórico e o fato de que os ouvintes das palavras de Cristo, sem dúvida, entenderam-nas de manducação real e, portanto, no sentido próprio.

Jesus Cristo, tendo o desígnio de estabelecer o Sacramento do seu corpo divino e sabendo a oposição que encontraria nos seus discípulos, à fé de um dogma tão acima do alcance da razão, havia-os preparado, fazendo-lhes entrever este novo Pão que projetara dar-lhes. As palavras de Jesus Cristo são claras: "Minha carne, disse ele, é verdadeiramente um alimento; aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós."

Assim, ouvindo estes discípulos, exclamaram: "É dura esta doutrina e quem pode comportar-lhe a rudeza!" Muitos retiraram-se desde esse dia e deixaram de acompanhar a Jesus, como os hereges atualmente o fazem.

Mas, estes discípulos entendiam uma manducação grosseira e carnal do Salvador, partido em pedaços e comido como uma carne ordinária que serve para alimentar-nos. Não suspeitavam dos véus eucarísticos em que Jesus na sua misericórdia havia de envolver este alimento celeste para poupar a nossa suscetibilidade.

Não obstante, o Salvador se esforça por explicar-lhes: "É o espírito que vivifica; a carne para nada serve. Estas palavras que vos disse, são espírito e vida."

Não procura desviá-los da crença em que estavam de que Jesus lhes queria dar o corpo a comer e o sangue a beber. Antes quis deixá-los partir a transgredir com eles a tal respeito e com a sua razão revoltada. Pergunta mesmo aos que pareciam dispostos a ficar-lhe fiéis, se não queriam seguir o exemplo dos seus irmãos e deixá-lo também.

Os ouvintes das palavras de Cristo as entenderam em sentido próprio e se escandalizaram. E Cristo não corrigiu sua opinião como falsa, mas antes inculcou com palavras mais fortes o que já havia dito. E mesmo como vários dos seus discípulos por isso o abandonaram, não empregou palavra alguma que indicasse que não queria que se entendessem suas palavras em sentido próprio.

Mas, Cristo deveria ter dado esta explicação, porque à multidão era impossível entender em sentido metafórico suas palavras. Não estava acostumada a tomar assim a sua doutrina. E de fato, quando acaso Cristo queria propor aos seus ouvintes sua doutrina em palavras metafóricas, teve sempre o cuidado de acrescentar a necessária explicação.

Assim deve-se interpretar a promessa de Cristo quanto à Sagrada Eucaristia, em sentido próprio, literal, mas espiritualmente, e não em sentido metafórico ou figurado.

Os hereges que impugnam a doutrina católica, estão portanto errados e não possuem a verdadeira doutrina.

"Na mesa do novo Rei, a Páscoa da Nova Lei, a fase antiga termina: In hac mensa novi Regis, novum Pascha Novae Legis, phase vetus terminat."

CAPÍTULO III

A instituição da Sagrada Eucaristia

Jesus Cristo, infinitamente superior aos homens que, as mais das vezes, se esquecem das suas promessas, cumpriu o que prometeu. Assim, fiel ao anunciado, entre o escândalo de alguns e a incredulidade de outros, não quis o Salvador subir ao ignominioso patíbulo sem instituir o Santíssimo Sacramento. Sua partida urgia, a hora havia soado, a paixão estava próxima e para dar aos seus a última e maior prova de seu carinho e amor, nenhum outro momento seria mais apropriado.

As circunstâncias eram críticas em demasia; mas, a Jesus Cristo pareciam preciosas para realizar o seu pensamento. E efetivamente, na véspera de sua morte, instituiu a Sagrada Eucaristia para consolação dos homens peregrinos e assombro dos espíritos angélicos. Foi no Cenáculo em que ele comera o cordeiro pascal com seus discípulos.

Jesus devia cair nas mãos dos seus inimigos e ser imolado ao seu ódio ímpio. Mestre, pai e amigo dos discípulos queridos, que cumulou de tantos benefícios, não quis deixá-los sem fazer o seu testamento, resolveu deixar-lhes o seu legado.

"Tenho desejado ardentemente comer convosco esta páscoa antes de sofrer", diz o Salvador.

E depois levanta-se da mesa e pratica a ação mais estranha e espantosa, que até aqui se viu realizar. Ajoelhado como um servo diante dos seus discípulos, lava-lhes os pés, apesar da resistência deles, e lhes diz: "O servo não é mais do que o mestre. Dei-vos o exemplo, imitai-me."

Humilhação profunda prontamente seguida de uma sublime revelação de sua grandeza. Enfim levanta-se e, com os olhos erguidos para o céu, faz como o pai de família na sua derradeira hora.

"Pai santo, diz ele, chegou a hora; uma derradeira vez fazei conhecer vosso Filho, para que o vosso Filho vos faça conhecer; porque conhecer-vos a vós, que sois o único Deus verdadeiro e ao que enviastes Jesus Cristo, é a vida eterna. Eu vos glorifiquei; consumei a minha obra; dai-me a glória que me pertence, a glória que tinha no vosso seio, quando o mundo ainda não estava criado. Antes de morrer, peço pelos que me destes, santificai-os na verdade, porque é por eles que me sacrifiquei; que sejam um entre si como nós somos um."

"Pai santo, Pai justo! peço também por aqueles que devem crer em mim mediante a sua palavra. Que sejam consumados na unidade. Alegria, verdade, luz, amor, que todos estes bens venham sobre eles. Sim, que o amor com que vós me amais, seja neles como eu sou neles."

O testamento do Salvador não pode ser encerrado senão com uma dádiva perfeita. Se a Eucaristia é verdadeiramente o sacramento do seu corpo, então se compreende a cena sublime do seu adeus.

Preparados pelas palavras da promessa, custou menos aos apóstolos acreditar no dogma eucarístico, quando chegou o momento augusto da instituição. "Tomai e comei, isto é o meu corpo", disse Jesus a seus apóstolos, apresentando-lhes o pão que acabara de abençoar e que já não era pão. "Bebei todos daqui, este é o cálice do meu sangue, o sangue da Nova Aliança que será derramado para proveito de muitos", acrescentou, oferecendo-lhes o cálice.

Jesus não poderia empregar termos mais claros, mais simples e mais nítidos para expressar o seu pensamento, isto é, a presença do seu corpo e do seu sangue sob as espécies eucarísticas. "Fazei isto em memória de mim." Com estas últimas palavras deu aos apóstolos e aos seus sucessores, ou não só bispos e os sacerdotes, o poder de renovar este Mistério. É a forma do sacramento. O mesmo sacerdote que batiza, o mesmo pontífice que confirma, proclamam esta forma sacramental, mas não exprimem a ação pessoal e instrumental do seu ministério.

"A matéria, instrumento inanimado, diz Santo Tomás, não recebe, na Eucaristia, a sua energia espiritual do instrumento animado que a consagra. O sacerdote não é senão o porta-voz de Jesus Cristo, cujo poder divino deve operar diretamente neste Mistério, tão maravilhoso é o efeito que se intenta produzir.

"Mas que se intenta? Intenta-se substituir ao pão e ao vinho o corpo e o sangue de Jesus Cristo. E, com efeito, o corpo e o sangue de Jesus Cristo existem na Eucaristia por força das próprias palavras que o sacerdote pronuncia."

Diz o concílio de Trento: "Primeiramente ensina o santo concílio, e confessa clara e singelamente que no augusto sacramento da santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, debaixo das espécies destas coisas sensíveis, se encerra Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, verdadeiro, real e substancialmente."

Existem aí verdadeiramente o corpo e o sangue de Jesus, porque a Eucaristia não é uma simples figura que o Cristo enobrece, permitindo-lhe que represente o seu corpo e o seu sangue. Existem realmente, porque a Eucaristia não é um simples convite para pensar em Jesus Cristo e apreendê-lo subjetivamente pela fé. Existem substancialmente, porque a Eucaristia não é um puro receptáculo de uma virtude comunicada de longe pela humanidade gloriosa de Cristo. Sim, o que reside, o que se torna presente pela força das palavras sacramentais, onde vemos o pão e o vinho, é o verdadeiro corpo que nasceu da Virgem Maria, que sofreu, que foi sacrificado na cruz pela salvação da humanidade e está glorioso no céu.

O texto a seguir foi corrigido sem modificações no conteúdo ou resumo.

"Sim, é o Cristo vivo, glorioso e imortal que está presente neste Sacramento. O seu corpo e o seu sangue não se separam. Onde está um, está o outro. E não somente o sangue segue o corpo e o corpo segue o sangue, mas a alma e a divindade do Salvador estão presentes ao mesmo tempo em virtude dessa real e inevitável concomitância que faz com que o corpo vivo traga consigo toda a pessoa nos lugares onde reside."

Pela força própria e efeito direto das palavras sacramentais, o seu corpo existe sob as espécies de pão, o seu sangue sob as espécies de vinho e todavia existe todo completo: corpo, sangue, alma e divindade, sob cada uma das duas espécies.

Por espécies ou acidentes entendemos a forma, o gosto, o peso, as dimensões do Mistério Eucarístico. Pois, a Hóstia consagrada e o vinho consagrado conservam a forma, o gosto, o tamanho que tinham antes da consagração. A vista, o tato, o gosto apreendem fenômenos que nos podem enganar: só o ouvido escuta a palavra infalível de Deus. Só neste devemos confiar e não nos outros sentidos.

Sim, os meus sentidos me enganam; só creio no que ouço: creio na verídica e infalível palavra do Filho de Deus; e, guiado pelo ouvido, prolongo-me, com os olhos fechados e as mãos ligadas, nas trevas sagradas do Mistério Eucarístico.

Santo Tomás, o cantor da Eucaristia, exprime esta verdade do seguinte modo: "Visus, tactus, gustus in te fallitur; sed auditu solo tuto creditur: credo, quidquid dixit Dei Filius, nihil hoc verbo Veritatis verius."

A presença de Jesus Cristo é permanente e em todo o ponto, independente do uso do sacramento. Nos mistérios da nossa geração espiritual e do nosso aumento sobrenatural, a matéria não pode ser consagrada senão no momento em que se aplica naquele que deve ser santificado. A graça do batismo está na ablução, a graça da confirmação na unção.

Mas, na Eucaristia está o Autor da graça no próprio instante em que a matéria é consagrada, ainda mesmo que ninguém faça uso dela.

O Sacramento não espera os comungantes para oferecer às nossas adorações, o corpo, o sangue, a alma, a divindade de Cristo; e ainda depois de nutrido com ele o povo cristão, não se deve tratá-lo como um sinal vazio e sem virtude, mas conservá-lo com honra para o apresentar às homenagens do povo fiel. Prostrarmo-nos e o adorarmos diante do tabernáculo, onde o depuseram as mãos piedosas dos sacerdotes, não é idolatria, é religião.

Prova-se outrossim que as palavras do Salvador se devem entender no sentido próprio e natural. Os apóstolos entenderam as palavras da instituição neste sentido. O Apóstolo S. Paulo, órgão e intérprete de seus irmãos neste caso, depois de ter relatado a história da Eucaristia na Última Ceia, acrescenta: "Observe-se, pois, o homem a si mesmo e depois coma deste pão e beba deste cálice: pois, aquele que come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação, por não discernir o corpo do Senhor."

Na mesma carta aos Coríntios, o referido Apóstolo dissera: "O cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Jesus Cristo? E o Pão que partimos, não é a comunhão do corpo do Senhor?"

O que ainda prova que as palavras do Senhor deviam entender-se à letra e no sentido real da presença do seu corpo e do seu sangue, é terem-nas entendido assim os santos padres de todos os séculos. Santo Inácio, mártir, bispo de Antioquia, discípulo de S. João Evangelista, diz, falando dos hereges do seu tempo: "Abstem-se da Eucaristia e da oblação, porque não reconhecem que ela é a própria carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, essa carne que sofreu pelos nossos pecados."

S. Justino no IIº, Tertuliano no IIIº, S. Cirilo no IVº, Santo Anselmo, S. Crisóstomo, Santo Agostinho no Vº século, sustentam a mesma doutrina. Os santos padres e teólogos dos séculos seguintes não se apartaram deste caminho.

Os concílios da Igreja condenaram sempre a doutrina herética. O concílio universal de Latrão no século XIII, o de Florença no XV e enfim o concílio ecumênico de Trento no século XVI, puseram inteiramente a claro a doutrina da Igreja sobre este ponto tão contestado nestes últimos séculos.

O concílio de Trento em especial, tendo que responder aos protestantes, inimigos do dogma eucarístico, considerou-o sob todos os seus aspectos e definiu todos os seus pontos com uma precisão admirável.

"Se algum ousar dizer que no Sacramento da Eucaristia não estão contidos verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, e ao mesmo tempo, a alma e a divindade do Nosso Senhor Jesus Cristo, e, portanto, Jesus Cristo completo; se ousar dizer que Jesus Cristo está aí só em sinal, em figura ou virtude; seja anátema."

Segundo esta doutrina, Cristo na Eucaristia está presente todo, com sua divindade e íntegra humanidade, com alma, corpo e sangue; e está presente verdadeira e realmente, não simbolicamente ou em sentido figurativo ou segundo a fé, mas na realidade; também substancialmente, não somente por meio de alguma virtude, mas está presente a própria substância do corpo e sangue de Cristo. E declarou-se que esta verdade sempre fazia parte da profissão da Igreja universal.

De resto, tudo nos convida a interpretar literalmente as palavras de Jesus Cristo, se consideramos o testador, o seu caráter e suas intenções. Jesus é a própria sinceridade, sinceridade grave e inteligente que nunca se desmentiu em todo o curso de sua vida. Evidentemente não se desmentirá na hora da morte. Não é nas proximidades da morte que o homem usa de linguagem figurada. Apertado pelo amor dos que vai deixar e pela expectativa de coisas eternas, sente a necessidade de ser claro e sincero. As ambiguidades prejudicariam a paz de sua família e a honra de sua memória. Diz pois o que sabe. Define o que dá e a sua palavra parece refletir à luz do mundo melhor, onde vai entrar. Muito mais, se este homem é Deus, Pai de uma família imensa e eterna cuja fé é a vida, onde a paz não pode ser garantida senão pela necessidade da doutrina, onde a unidade da doutrina depende da clareza das revelações, particularmente dessas revelações supremas que tomam a forma de testamento.

Jesus Cristo, antes de morrer, devia falar sem ambiguidades. Os apóstolos, habituados à linguagem figurada e parabólica do seu Mestre, compreenderam tão bem a intenção que ele tinha de se exprimir claramente, antes de sua morte, que lhe diziam, depois de terem ouvido os seus últimos discursos: "Agora falais abertamente e não em parábolas"; é desnecessário interrogar-vos."

E afirmar-se hoje que Cristo, dizendo: "Tomai e comei, isto é o meu corpo", não nos quis dar senão a figura do seu corpo: isto é um erro abominável, um gracejo ridículo. Portanto, é preciso concluir que Jesus Cristo falou em sentido claro e literal.

Nosso Senhor quis dar-nos com a Sagrada Eucaristia um monumento imperecível da salvação dos homens. Quis deixar-nos uma recordação de sua paixão e morte, já que uma das maiores enfermidades é o esquecimento.

Enquanto os homens ou as coisas estão ao alcance dos nossos olhos, neles pensamos e os amamos. Mas, quando o tempo der um passo, não tardarão a empalidecer. E ainda os maiores acontecimentos, os que mais profundamente comoveram o século, ao cabo de duas gerações, tornam-se esquecidos.

Assim, o homem nada deixa de fazer para lutar contra o esquecimento. Levanta ele estátuas, edifica pirâmides e desloca blocos imensos e constrói monumentos. E lhes diz: "Vou-me embora; antes de uma hora, de um mês, de um ano, terei desaparecido; permanecei em meu lugar, impedi que o esquecimento devore minha memória."

Logo que Josué havia atravessado o Jordão, a pé enxuto, fez tirar doze pedras enormes do leito seco do rio; empilhou-as na margem, em forma de monumento, e disse aos judeus: "Colocai-as aqui em sinal do que haveis visto; e quando, no dia de amanhã, vos perguntarem vossos filhos, dizendo: Que significam estas pedras? Quid sibi volunt isti lapides? Lhes haveis de responder: Desapareceram as águas do Jordão, à vista da Arca do testamento do Senhor. Hic defecerunt aquae Jordani ante Arcam."

Em outra parte do globo, ao morrer Leônidas heroicamente com seus trezentos espartanos, às portas da Grécia, escreveu no rochedo estas famosas palavras: "Estrangeiro, vai dizer a Esparta que morremos por sua liberdade!"

Aí a recordação. Encrosta ela na imortalidade da pedra ou do bronze a lembrança dos feitos célebres. E do mesmo modo, quando passamos em Roma, por baixo desses arcos de triunfo de Tito, de Constantino, ou diante da coluna de Trajano, todas as recordações antigas reflorescem em nossa memória, e, ao menos por um instante, triunfamos do esquecimento.

Dizemos, por um instante, porque ainda com esses auxílios nossa vitória é incompleta. Quantos passam debaixo desses monumentos sem saber o que significam! E ainda para os mais eruditos, quantos monumentos são indecifráveis!

Ficamos assombrados diante das pirâmides do Egito; visitamos com curiosidade os blocos imensos dos bosques druídicos e nos dizemos: Que é isto? Quem levantou estes blocos? Que significam? Quid sibi volunt isti lapides? E ninguém há ali que nos responda. Tão triste é o poder do esquecimento.

Mas aqui há outra miséria. O que há de mais íntimo em nós, desaparece por sua vez. Os mais caros afetos, as mais puras amizades, depois de alguns anos caem no esquecimento. Quando queremos possuir uma lembrança, procuramos um objeto que tenha pertencido à pessoa estimada. Tais são umas linhas escritas por ela ou um retrato no qual resplandece sua imagem. Mas também estas coisas estão sujeitas ao esquecimento.

Jesus Cristo, no momento de sua despedida, não quis deixar-nos como lembrança o seu presépio, porque este não havia feito mais que tocar seu corpo adorável; nem sequer a sua cruz, ainda que tinta em seu sangue, senão quis deixar-nos uma coisa que realizasse melhor os irrealizáveis sonhos do homem. Ele disse: "Tomai isto, não é somente alguma coisa que me representa, que me tocou, mas isto é todo o meu corpo, todo o meu sangue, toda a minha alma, toda a minha divindade. Mais poderoso que os homens, me encerro todo e integral nesta recordação."

E ali na Sagrada Eucaristia, a lembrança tal como Jesus Cristo a entendeu e no-la entregou.

"Na Ceia, o que ele fizera, fazer-se, Cristo dissera, em sua recordação: Quod in coena Christus gessit, faciendum hoc expressit, in sui memoriam."

CAPÍTULO IV

A Transubstanciação

Demonstrada a real presença de Cristo na Eucaristia, pode-se perguntar: De que modo o Salvador se torna presente? Segundo a doutrina católica, a presença de Cristo efetua-se pela transubstanciação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, permanecendo apenas as espécies ou acidentes do pão e do vinho. A transubstanciação é uma conversão, como declara o concílio de Trento; mas em que consista essencialmente esta conversão, a Igreja nunca definiu, porém supõe como sabido, pelo uso comum de falar.

A infinita virtude de Deus passa por cima de todas as leis de transformações que, ordinariamente, só se fazem na natureza, com lentidão e método. Que trabalho de forças físicas, mecânicas e químicas a fim de preparar os seres para as mudanças que devem experimentar! Que luta de elementos! Que sucessão de movimentos nas decomposições e recomposições, diminuições e aumentos dos corpos! Que variedade de potência nas energias que operam!

Mas, para tudo isto é necessário tempo. A própria luz, tão viva e rápida, é obrigada a medir seus passos no meio diáfano, donde expulsa as trevas.

Para o milagre da transubstanciação como para a obra prodigiosa da criação, basta uma palavra. O corpo de Jesus, por isso que nada tem a receber, não tem necessidade de preparação. A substância que deve ser convertida, é pouca coisa para lutar contra a onipotência que a apreende.

Pela boca do seu sacerdote, Deus diz e tudo se faz: Ipse dixit et facta sunt.

Pela virtude da consagração e no próprio instante em que está completo o sentido das palavras, Jesus Cristo acha-se verdadeiramente, realmente e substancialmente no seu Sacramento. E não veio em virtude de um movimento que lhe fez deixar o céu. Ele subsiste sentado à direita de seu Pai, eterno objeto da admiração dos anjos e dos eleitos, ao mesmo tempo que reside na Eucaristia.

A Eucaristia põe-nos em presença da conversão, do estado das manifestações de substâncias materiais sobre as quais opera milagrosamente a onipotência de Deus.

Procuremos conhecer o que seja a substância material e a onipotência de Deus.

Ora, conhecemos nós bem a substância material? É porventura a que vemos, tocamos, encontramos no fim das nossas investigações científicas? Não senhores.

Eis um corpo; aproxima-te sábio e diz-me o que é. Ouço nomes diversos que designam diversas substâncias materiais. Mas, a matéria, a substância, onde está? Tira as cores, a forma que ferem minha vista. É a substância que eu vejo? Não; é uma outra cor e uma outra forma! Toma os instrumentos, entra nesta solidão, conta as moléculas. Viste a substância? Não; sempre fenômenos! Faz entrar nesta matéria, resistentes, agentes que a desagregam e dissolvem. Tocarás, porventura, a própria substância!

O filósofo será talvez mais feliz. Quando a ciência abandona a matéria, a metafísica toma conta dela e pergunta-lhe: Diz-me o que és. Os sentidos não te veem, não te tocam, não te ouvem, mas a inteligência te persegue ainda no infinitamente pequeno.

Mil vozes discordantes perturbam o recolhimento de que necessito para me pronunciar. Uns dizem: a matéria é divisível até o infinito, outros não é. Finalmente vejo-me obrigado a confessar a minha ignorância, em companhia de grandes sábios que não se julgaram desonrados com esta humilde confissão.

Com Newton confesso "que ignoro a essência dos corpos e só conheço a matéria pelas suas propriedades sensíveis." Com Humboldt, reconheço "que há na matéria forças de que atualmente não temos ideia alguma." Com Portalis, declaro "que esta questão: que é a matéria? é insolúvel, que nós não conhecemos a essência das coisas, que esta essência é oculta aos nossos sentidos, por só poderem apreender superfícies, não podendo penetrar no que está debaixo, e que por isto mesmo chamamos substância."

Para conhecer tudo que Deus pode, devia conhecer tudo o que ele sabe, pois que tudo foi feito segundo o plano concebido pela sua eterna sabedoria. A sua ciência e onipotência vão infinitamente além do ponto onde termina a minha inteligência.

E como não conheço os limites da ciência divina, não sei até onde pode ir sua onipotência, e vou fatalmente errado, se tomo por medida das operações divinas o que me é possível imaginar ou conceber. Ignorância por parte da substância material, ignorância por parte da onipotência de Deus: eis os elementos com que podemos julgar os milagres de Deus. E ainda nos vem argumentar com o absurdo. É o cúmulo da audácia! Os contraditores da doutrina católica não merecem da nossa parte senão compaixão. Quanto mais profunda for a nossa convicção de que pouco podemos e de que nada sabemos da ciência e onipotência divina, tanto mais dispostos nos sentiremos, para avaliar todas as espécies de milagres.

O princípio fundamental sobre que Santo Tomás, eminente teólogo, baseia os milagres eucarísticos, é o seguinte: "O corpo de Jesus Cristo está no seu Sacramento enquanto substância ou em estado de substância; Corpus Christi est in hoc Sacramento ratione substantiae, per modum substantiae."

Importa, pois, saber o que é para este grande pensador a substância dos corpos. "A substância é o que faz que um corpo seja o que é e não um outro, é o que os nossos olhos não podem ver, é o que os nossos sentidos não podem atingir, é o que a nossa imaginação não pode representar, é o objeto próprio da inteligência, é a única que vai até o fundo do ser."

A substância é o ponto de apoio de todos os acidentes pelos quais se manifesta. Logo, se tirais os acidentes, o seu ser individual não deixa de existir. Suprimi a cor, a substância fica intacta; a figura, nada mudareis na sua essência; tirai a densidade, as dimensões, e ela existe sempre; não para os sentidos que não a veem, mas para a inteligência que sabe que ela existe lá. Pelo contrário, amplificai as dimensões de um corpo, imaginai-o tão vasto como vos aprouver, toda a natureza da substância está em cada parte de suas dimensões. Estamos, pois, em presença de uma força misteriosa, intangível, incomensurável, inteiramente à disposição do seu Criador.

Há uma distinção real entre a substância e os fenômenos que ela produz, entre a essência de um corpo e suas propriedades, entre o que faz ser o que é e o exercício efetivo da força pelo qual aparece, e determina o seu lugar no espaço.

Deste modo, os mais sérios dados da filosofia e das ciências modernas confirmam as vistas profundas de Santo Tomás sobre a substância dos corpos.

O ato sacramental faz passar uma substância a outra. É um milagre certamente, mas este milagre tem analogias na natureza.

Regido por uma lei maravilhosa, um vasto círculo de transformação atrai e leva as criaturas umas para as outras, varia os aspectos, a densidade, o peso, as dimensões dos corpos, gera, multiplica e conserva a vida.

E vós mesmos, destes alimentos diversos com que vos nutris, formais não somente vossos ossos, a vossa carne, o vosso sangue, mas os mais delicados órgãos da vida e desta matéria preciosa de que a vossa alma se serve para receber as impressões externas, elaborar os seus pensamentos, transmitir as suas ordens, desenvolver, enfim, toda a sua atividade sublime.

A transubstanciação excede as forças da natureza, mas o ato soberano a realiza, não nos assombra mais do que aquele que faz passar a substância do nada ao ser, e, se é verdade que Deus triunfa de maiores dificuldades no ato transubstanciador do que no ato criador, a sua onipotência não necessita de um tão grande esforço.

Bastará um instante, uma palavra para criar; bastar-lhe-á uma palavra, um instante para transubstanciar. O mesmo que pronunciou o fiat criador, é o que pronuncia o fiat sacramental. Mas, que importa? Se ele deu aos nossos órgãos o singular poder de converter uma matéria estranha em nossa própria carne, porque não daria ao sacerdote, seu porta-voz, poder de provocar a divina virtude que deve mudar o pão em carne do Salvador?

O corpo de Jesus Cristo está na Eucaristia enquanto substância, no estado de substância: ratione substantiae, per modum substantiae, isto é, despido das proporções que toma a quantidade mensurável dos seus elementos e que lhe determinam um lugar no espaço.

Ora, a substância em si mesma não tem superfícies, nem contornos, nem comprimento, nem largura, nem profundidade. A substância enquanto substância, é distinta dos acidentes, pode ser separada deles e, portanto, livre dos limites que circunscrevem os corpos.

Este modo de ser, diz Santo Tomás, é próprio do Sacramento do Altar. Cristo está aí presente, não como um corpo num lugar, mas de um modo especial que se pode chamar espiritual: speciali seu spirituali modo.

Vede como procede a nossa alma que habita o nosso corpo. Eu vejo, é minha alma que vê; ouço, é minha alma que ouve; falo, é minha alma que fala; caminho, é minha alma que caminha. A minha alma está na minha cabeça e ao mesmo tempo nos meus pés. Está, não dividida, mas toda inteira.

O mesmo se ensina relativamente ao corpo de Cristo no estado de substância, em relação a todos os lugares do mundo, onde pode estar presente sacramentalmente.

A substância do ar enquanto substância, existe toda inteira na bolha d'ar que expirais, do mesmo modo que na imensa atmosfera, no meio da qual gira o nosso globo. A substância de água enquanto substância, existe toda inteira em cada gota de chuva que as nuvens destilam, do mesmo modo que no vasto e profundo oceano.

Mas, enfim, porque existem lá estas espécies? Porque as manifestações de figura, de cor, de gosto, de quantidade, de medida, quando nada se manifesta? Porquê? Simplesmente porque Deus assim o quer; porque, estando duas coisas distintas, justamente unidas pela natureza, apraz-lhe suprimir uma e conservar a outra.

Sob a ação de uma palavra divina, a substância do pão, que se manifestava pelos acidentes de figura, de cor, de gosto, de dimensões, desaparece de repente; mas, no mesmo instante a onipotência divina apreende as forças secundárias, continua-lhes a subsistência, as funções, a virtude que tinham da substância desaparecida.

Ninguém negará à onipotência de Deus o direito de fazer por si mesma o que fazia por uma criatura delegada. Desde o momento em que a sua onipotência está no Sacramento, é fácil conceber que há fenômenos sem causa natural, pois que é ele a causa das causas.

Desde que admitimos Deus com a sua autoridade, os atos eucarísticos iluminam-se e esclarecem problemas cuja solução o espírito humano em vão procura. A fé ilustra-nos melhor do que a filosofia e a ciência dos corpos; vemos melhor nos arcanos, onde a substância se oculta: as nossas concepções desprendem-se do elemento grosseiro que as embaraça e desdobram-se nas regiões de um espiritualismo transcendente.

Então isto quer dizer que compreendemos o Mistério Eucarístico? De modo nenhum! Será sempre o segredo do Rei dos reis.

Mas, descobre-se o bastante, para que desafiemos a razão a que nos mostre o seu absurdo.

"Acreditemos, pois, diz S. João Crisóstomo, não resistamos ao Deus que nos fala, ainda que os nossos sentidos e as nossas concepções nos digam: é absurdo. Nós podemos enganar-nos. Deus nunca se engana. E pois, que ele disse: "Isto é o meu corpo", desapareceram as dúvidas; consideremos o Sacramento à luz da nossa fé: acreditemos."

"Um dogma é dado ao cristão, que em carne se volve o pão, e em sangue o vinho também: Dogma datur christianis, quod in carnem transit panis, et vinum in sanguinem."

CAPÍTULO V

Cristo modelo de perfeição moral

A Sagrada Eucaristia não é somente um sacramento mas também um sacrifício. Como sacramento, ela foi instituída para santificação dos homens; como sacrifício, tem por fim principal a glória de Deus. Como sacramento, nutre e fortifica-nos a alma; como sacrifício, rende a Deus a honra que lhe é devida.

Digamos primeiro o que é sacrifício. O sacrifício é um ato religioso por excelência. É a oferta de uma coisa sensível com sua destruição ou mudança, feita só a Deus por legítimo ministro, em reconhecimento do supremo domínio divino sobre todos os seres criados.

Em todos os tempos e em todos os povos, se ofereceram a Deus sacrifícios e sempre consistiram em coisas sensíveis como animais, perfumes, licores e frutos da terra. Estes objetos sofriam na presença de Deus uma mudança e algumas vezes destruição total. Os animais eram mortos, os perfumes queimados, os licores espargidos, os frutos do campo comidos pelos sacerdotes ou pelo povo.

A oferenda e a destruição dos seres, quaisquer que fossem, na presença de Deus, atestavam o seu soberano domínio sobre tudo e particularmente sobre o homem, cujo lugar ocupavam as vítimas.

Apresentando-se a Deus e destruindo-as diante dele, o homem confessava bem alto que tudo vinha de sua majestade divina e tudo a ela devia referir-se.

O gênero humano, assim como jamais pode passar sem Deus, tão pouco prescindiu nunca da ideia de sacrifício.

Já Plutarco ensinava que, peregrinando pela terra e observando as mais afastadas regiões do globo, é fácil ver cidades sem muros, sem reis, sem palácios, sem riquezas, sem moeda própria, sem ginásios e sem teatros, porém que jamais se encontra uma só cidade sem templos e sem deuses; que não use de preces, de juramentos e oráculos; que não ofereça sacrifícios para alcançar bens e evitar males.

Esta unanimidade manifesta bem claramente que, não por invenção humana, mas por exigência da nossa natureza, se prostra o homem diante de Deus e lhe oferece sacrifícios. Assim se explica o fato constante e universal de que todas as religiões têm tido por objeto principal a expiação e que todas elas indicam o sacrifício como o meio mais eficaz de entrar em relações com Deus.

Os livros sagrados das nações idólatras estão de acordo com esta interessante doutrina. Todas elas assinalam o sacrifício como o ato mais sagrado da religião, como o meio mais apropriado para conciliar entre si os atributos divinos e fazer as pazes entre um Deus justiceiro e santo e os homens réus e criminosos.

A mesma Escritura Sagrada, essa carta do Onipotente à sua criatura, como a chamou S. Gregório, nos apresenta os primeiros filhos de Adão, Caim e Abel, sacrificando e oferecendo a Deus os frutos da terra e as primícias do seu segado. No povo de Israel era considerado o sacrifício como o ato mais imponente do culto.

As vítimas significavam ainda, que havia no mundo culpados, e culpados que mereciam a morte, mas a quem Deus se dignava perdoar na sua misericórdia, aceitando, em seu lugar, vítimas sobre as quais exercia o rigor da justiça.

Enfim, para oferecer os sacrifícios, eram precisos homens deputados para isto. Nas primeiras idades do mundo eram os chefes, os primogênitos ou antes, homens especialmente escolhidos por Deus, para cumprirem tal ministério, como Melquisedec, sacerdote do Altíssimo. Sob a Lei de Moisés foram os descendentes de Aarão.

O sacrifício só pode ser oferecido a Deus, único criador e conservador do que existe. É a expressão do culto de latria, de adoração. Oferecido a outrem que não a Deus, toma tal conto o nome, de idolatria.

No Antigo Testamento eram inumeráveis os sacrifícios. O próprio Deus lhes tinha regulado a natureza, a ordem e os ritos. Mas no Novo Testamento só há um sacrifício que substitui todos os antigos. É o sacrifício da missa, isto é, a Eucaristia considerada não como sacramento mas como sacrifício.

Declara o concílio de Trento: "Como durante o Antigo Testamento, segundo testifica o Apóstolo, por causa da fraqueza do sacerdócio levítico, não havia perfeição, convinha, ordenando-o assim Deus-Pai nas suas misericórdias, se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, Nosso Senhor Jesus Cristo, que pudesse consumar e fazer perfeitos a todos que se houvessem de santificar.

"Este Deus pois é Nosso Senhor, posto que mediante a morte, se havia de oferecer uma vez ao eterno Pai no altar da cruz, para nele obrar a redenção eterna; contudo, como pela morte se não havia de extinguir o seu sacerdócio, na Última Ceia, em cuja noite foi entregue, para deixar à Igreja, sua amada esposa, (como pede a natureza humana), um sacrifício em que se representasse aquele que se havia de operar na cruz e a memória dele durasse até o fim do século; e a sua virtude se aplicasse em remissão dos pecados que cada dia cometemos, declarando-se sacerdote perpétuo, segundo a ordem de Melquisedec, ofereceu a Deus-Pai seu corpo e seu sangue debaixo das espécies de pão e de vinho; e o deu aos apóstolos que então constituía sacerdotes do Novo Testamento debaixo do símbolo destas mesmas coisas; e a eles e seus sucessores no sacerdócio mandou que o oferecessem, com estas palavras: "Fazei isto em minha lembrança"; como a Igreja sempre entendeu e ensinou."

Depois o mesmo concílio de Trento definiu as seguintes verdades: "Se alguém disser que na missa não se oferece a Deus verdadeiro sacrifício; ou que oferecer-se não é outra coisa que dar-se-nos Cristo para comungarmos: seja excomungado."

"Se alguém disser que Cristo não instituiu os apóstolos sacerdotes naquelas palavras: "Fazei isto em minha comemoração", ou que não ordenou que eles e os mais sacerdotes oferecessem o seu corpo e sangue: seja excomungado."

"Se alguém disser que o sacrifício da missa é só de louvor e ação de graças ou mera comemoração do sacrifício da cruz; mas não propiciatório; ou que só aproveita ao que comunga; e que se não deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades; seja excomungado."

Até aqui o concílio de Trento. A Eucaristia na verdade, isto é, o corpo e sangue de Jesus Cristo sob as espécies sacramentais, constitui um verdadeiro sacrifício, o sacrifício da Nova Lei.

O concílio de Trento definiu assim contra os protestantes que, negando a presença real de Nosso Senhor no Sacramento do Altar, negavam também o sacrifício que se lhe une. É o sacrifício figurado no de Melquisedec de quem Jesus Cristo se diz sucessor: "Tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech".

O profeta Malaquias fala deste sacrifício como devendo substituir os antigos e ser oferecido em todo o mundo, desde a aurora ao pôr do sol: "Meu nome é grande entre todas as nações e em toda a parte é oferecida e imolada ao meu nome uma vítima pura."

S. Paulo opõe-no aos sacrifícios dos judeus e dos pagãos: "Temos um altar a cuja participação não tem direito os que se abrigam no tabernáculo da Antiga Lei."

É o sacrifício que todos os concílios, todos os santos padres, todas as liturgias proclamam desde os primeiros séculos do cristianismo até hoje.

Na verdade, o sangue de Cristo foi derramado só uma vez no Calvário. Nessa montanha santa é que foi oferecido o único e verdadeiro sacrifício; foi lá no meio dos tempos que foi apresentada a Deus a grande e única vítima, o Filho de Deus feito Homem. Todos os sacrifícios e vítimas que o precederam, se referiam a ele como figuras; e os sacrifícios que se lhe seguiram e que hão de surgir, não são mais que o sacrifício da cruz, renovando-a continuamente sobre nossos altares. Que bela, magnífica e imponente unidade!

Para lá do Calvário, Jesus Cristo figurado pelas vítimas antigas; para cá, imolado realmente como o fora na cruz pela continuação da mesma oblação!

Jesus Cristo assim em toda a parte, no passado, no presente e no futuro, ocupando todos os tempos com o seu sublime e imortal sacrifício!

Na santa missa há o mesmo sacerdote da cruz, Jesus Cristo; a mesma vítima, ainda Jesus Cristo. O sacerdote mortal que se vê revestido dos ornamentos sagrados, é um simples representante de Jesus Cristo. É em nome de Jesus Cristo que ele fala: "Isto é o meu corpo, este é o cálice do meu sangue." É evidente que quer falar do corpo e do sangue do Salvador.

Uma única diferença existe entre o sacrifício da cruz e o do altar: na cruz, Jesus Cristo foi imolado de um modo visível e cruento, e no altar imola-se escondido sob as espécies de pão e de vinho e de um modo incruento.

No primeiro caso, é mortal e sofre realmente a morte; no segundo, é imortal e sua morte é apenas mística. É preciso não concluir disto que o sacrifício da missa é uma simples comemoração do sacrifício da cruz. Não, tal doutrina está formalmente condenada pelo concílio de Trento, como vimos.

A missa é um verdadeiro sacrifício, porque contém todos os elementos: a vítima, o corpo e sangue de Jesus Cristo; forma sensível, as espécies eucarísticas; ministro legítimo, o sacerdote para isto especialmente ordenado; a mudança ou destruição total, ao menos moral da vítima; finalmente esta vítima só oferecida a Deus para atestar o soberano domínio sobre todas as criaturas.

E como se opera a destruição da vítima, necessária para que haja sacrifício?

A opinião mais provável é que a destruição moral requerida e por isso a essência do sacrifício, está na consagração, pela qual o sacerdote consagra, separadamente, o corpo e o sangue de Jesus Cristo.

Se Jesus Cristo não fosse imortal, se pudesse ainda morrer sobre o altar como na cruz, a força das palavras sacramentais separar-lhe-ia o corpo, do sangue, colocando d'um lado o corpo, quando o sacerdote diz: "Isto é o meu corpo" e do outro, o sangue, quando diz: "Este é o meu sangue"; de tal forma que Jesus Cristo seria verdadeiramente morto pelo gládio da palavra santa. Como o corpo e o sangue de Jesus Cristo não se podem separar, o sangue encontra-se no corpo, não pela virtude das palavras da consagração, mas pela lei da concomitância, como se exprimem os teólogos; e o corpo no sangue do mesmo modo. A morte de Jesus Cristo no altar é pois apenas mística e é quanto basta para constituir verdadeiro sacrifício.

Considerai ainda que as espécies ou aparências sob as quais Cristo reside, o apresentam no estado de insensibilidade, e imobilidade e de morte; além de que as espécies são consumidas e, por consequência, destruídas pela comunhão do sacerdote e dos fiéis.

É pois o sacrifício da missa o verdadeiro e único sacrifício dos cristãos. Constavam as vítimas do Antigo Testamento, de animais, touros, carneiros, cordeiros, frutos do campo e produtos da terra. A vítima oferecida nos nossos altares, é um Deus, Deus-Homem que se imola para a salvação do gênero humano.

O sacrifício da missa tem por objeto como os antigos sacrifícios, render homenagem à majestade soberana de Deus, agradecer-lhe os inumeráveis benefícios, aplacar-lhe a justiça, obtendo-nos o perdão dos crimes, e implorar as bênçãos e graças de que temos necessidade. Desta maneira, o sacrifício da missa é como o da cruz: latreutico, eucarístico, propiciatório e impetratório.

É bom, contudo, observar que o sacrifício da missa não perdoa diretamente o pecado. Só produz este efeito pela graça que nos obtém e pelos sentimentos de penitência que faz nascer nas almas. Tais sentimentos são preciosas disposições para o sacramento da penitência que apaga os pecados cometidos depois do batismo.

Conforme a tradição dos apóstolos, diz o concílio de Trento, oferece-se o sacrifício eucarístico não só pelos pecados, penas, satisfações, e outras necessidades dos fiéis que ainda vivem, mas também pelos mortos em Jesus Cristo e que ainda não estão inteiramente purificados.

Assistamos ao santo sacrifício da missa com as disposições, sentimentos de fé, de amor e de reconhecimento com que assistiram, no Gólgota, ao sacrifício da cruz, a Virgem Maria, as santas mulheres e o discípulo amado. Assistamos pecadores com o arrependimento e confiança do insigne pecador convertido na cruz junto à de Cristo: "Memento mei, lembrai-vos de mim".

Assistamos com a fé, ainda que tardia, do centurião impressionado com a morte admirável do Salvador e que, descendo do Calvário, batia no peito, dizendo: "Na verdade ele era o Filho de Deus."

Enquanto o centurião e os judeus tornados fiéis, se retiravam com o coração contrito, proclamando a divindade daquele que acabavam de crucificar, outros, perseverantes na impiedade, continuavam a menear a cabeça em volta da cruz de Cristo.

Assim é hoje ainda. Hoje como então não faltam ímpios e blasfemadores em volta dos altares onde se imola o Redentor do mundo. As blasfêmias e impiedades contra Jesus, contra a Igreja e seu Chefe venerável, oprimamos nossa fé e nossas homenagens. Enquanto tantos maus cristãos, tantos católicos apenas de nome e tantos escritores desonestos vomitam ultrajes ao que há de mais santo na religião, protestemos nós contra insultadores tão audaciosos.

Saindo dos templos e do sacrifício, onde se reanima nossa fé, entrando em casa e misturando-nos de novo no mundo, nos negócios e no trabalho, digamos bem alto perante nossos irmãos menos firmes, talvez menos convencidos: Na verdade, ele era o Filho de Deus.

Sim, os maus, por mais que digam, os filosofantes por mais que exclamem, os romancistas e jornalistas, por mais que blasfemem, aquele que durante dezenove séculos, se imola sobre tantos altares e em tantos lugares para salvação da humanidade, não é só homem, é Homem-Deus: na verdade ele era o Filho de Deus, vere Filius Dei erat iste.

"Em figura assinalado, como Isaac é imolado, é o pascoal Cordeiro considerado, a Israel dado Maná: In figuris praesignatur, cum Isaac immolatur, Agnus paschae deputatur, datur manna patribus."

CAPÍTULO VI

O Calvário e o Altar

No Calvário consumou Jesus Cristo o cruento sacrifício da cruz. No altar realiza-se diariamente o sacrifício da missa. As relações existentes entre ambos os sacrifícios expõe-nas nitidamente o concílio de Trento. Ele afirma que uma é e a mesma vítima; o mesmo é agora oferente, por ministério do sacerdote, e o que antigamente se ofereceu a si mesmo na cruz, havendo só diversidade no modo de oferecer. Os frutos da oblação cruenta se recebem abundantemente por meio desta, tão longe está que esta derrogue naquela.

"Nosso Senhor, posto que mediante a morte se havia de oferecer uma só vez ao eterno Pai no altar da cruz, morte se não havia de extinguir seu sacerdócio, na Última Ceia, em cuja noite foi entregue, para deixar à Igreja, sua amada esposa, um sacrifício em que se representasse aquele que se havia de realizar na cruz e a virtude dele durasse até o fim dos séculos, e a sua virtude se aplicasse em remissão dos pecados que cada dia cometemos, declarando-se sacerdote perpétuo segundo a ordem de Melquisedec, ofereceu a Deus Pai o seu corpo e sangue debaixo das espécies de pão e vinho; e o deu aos apóstolos que então instituiu sacerdotes do Novo Testamento, debaixo do símbolo destas mesmas coisas, e a eles e seus sucessores no sacerdócio mandou que o oferecessem, com estas palavras: "Fazei isto em minha lembrança", como a Igreja Católica sempre entendeu e ensinou."

Segundo esta doutrina, as relações entre o sacrifício da missa e o sacrifício da cruz baseiam-se nos seguintes princípios: em que a vítima de ambos os sacrifícios é a mesma, Cristo; em que o sacerdote sacrificante em um e outro sacrifício é também o mesmo, Cristo; em que os frutos infinitos, alcançados no sacrifício cruento da cruz, são abundantissimamente aplicados mediante o sacrifício incruento da missa; em que o sacrifício da missa representa a paixão de Cristo; em que o sacrifício da missa é o memorial da Última Ceia e da paixão. Pois, diz o apóstolo S. Paulo: "Porque, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha."

Jesus Cristo, presente no Sacramento, é o mesmo que se sacrificou por nós na cruz. Está Ele presente para nós como vítima incruenta que ele mesmo, na qualidade de Sumo Sacerdote, instituiu na sua derradeira Ceia, em substituição do seu sangrento sacrifício que ia efetuar-se na cruz.

Naquela noite aboliu o sacerdócio da Antiga Aliança, juntamente com seus sacrifícios e holocaustos, inúteis para a purificação e o perdão dos pecados.

Instituiu um novo sacerdócio e sacrifício, como fora prometido pelo profeta Malaquias, destinado a celebrar-se em toda a parte e não somente em Israel, mas do mesmo mundo entre os gentios um sacrifício puro e agradável a Deus, idêntico ao da cruz, só diferente no modo de perpetuar-se, modo místico mas real, porque, pelas palavras da consagração, o Corpo e o Sangue são distinta e separadamente oferecidos ao Pai, para o perdão dos pecados.

Nós temos um altar, diz o Apóstolo, do qual os sacerdotes do Antigo Testamento não ousam comer, temos um sacrifício e um banquete, mas infinitamente mais sublime do que os da Antiga Aliança, porque Cristo, eterno Sacerdote supremo, presente invisivelmente, com seu próprio sangue, tendo no santuário do céu, sem cessar oferece o seu sacrifício, tudo reconcilia e intercede por todos os pecados.

O altar é o centro do mundo; sobre ele paira a infinita majestade da eternidade, rodeiam-no os exércitos dos anjos, os bem-aventurados que se aperfeiçoaram pela graça, pela luz, pelo amor, pela glória que receberam no sangue da vítima divina.

Em torno do altar, desde o nascente ao ocaso, se congregam todos os povos, todas as nações, todo o gênero humano. Todos os altares do mundo são como que um só altar. Todos os sacrifícios, um sacrifício único; todos os sacerdotes, o sacerdócio.

E todos quantos sobre a terra, com retidão, têm orado a Deus, genufletido, laborado e suspirado, desde Abel o justo até o último mortal piedoso sobre a terra, todos quantos lutam e combatem, se esforçam e persistem, armando pela reconciliação e pela redenção: todos eles estão prostrados ante este altar.

O Kyrie-eleison do sacerdote é o brado de toda a humanidade que se levanta de todas as extremidades da terra e do tempo, é o grito "Senhor tende compaixão de nós", soltado do âmago da consciência que acusa suas culpas, e reconhece a sua miséria e a necessidade do remédio. No "gloria" mistura a terra seus cânticos aos jubilosos hosanas dos coros dos anjos; no "credo" falam os homens de todas as línguas e confessam sua fé naquele que desceu das eminências do céu às profundezas da terra, oferecendo-se em holocausto pelos pecados do mundo e redimindo, reconciliando e santificando pela virtude do seu sacrifício.

Então aparece a terra oferecendo as primícias e os seus frutos, o pão e o vinho, para que se transformem na carne e no sangue de Cristo.

Apresenta-se em seguida a vítima, o Cordeiro, que tira os pecados do mundo. Derrama-se do altar o sagrado sangue, corre ele sobre milhões de almas, difundindo a graça, assegurando o perdão aos que padecem e suspiram, e toda a criação é santificada. Com as mãos do sacerdote eleva-se invisivelmente a mão de Cristo para abençoar o povo, e as suas bênçãos distribuem-se sobre todas as criaturas.

É por isto que o santo sacrifício da missa tem um valor infinito, como o sacrifício da cruz, porque ambos eles são um só.

A Eucaristia, diz Santo Tomás, é um memorial da paixão do Salvador, imagem representativa pela qual nos tornamos participantes dos frutos dos seus sofrimentos e da sua morte.

Há grande semelhança entre o sacrifício da cruz e a santa missa. Entretanto, embora seja a mesma a vítima, Jesus Cristo Deus e Homem, e seja o mesmo o oferente, a saber, Cristo, há certa diferença quanto ao modo de oferecer este sacrifício. Porque, diz o concílio de Trento, com referência ao sacrifício da missa: "O mesmo Cristo se contém neste divino sacrifício e incruentamente se imola, que na ara da cruz, uma vez, a si mesmo ofereceu de modo cruento."

Existem ainda outras diferenças: a vítima é a mesma, mas na missa oferece-se Cristo imortal e impassível, ao passo que na cruz era passível e mortal; na cruz era na sua própria Pessoa, na missa é debaixo das espécies de pão e vinho. Na cruz Cristo era o único sacerdote, oferecendo-se visivelmente; na missa é invisível, oferecendo-se pelo ministério do sacerdote humano.

O sacrifício da cruz é absoluto, porque não se refere a outro sacrifício que deve ser figurado ou lembrado; a missa tem tudo em si, mas, ao mesmo tempo, se refere essencialmente ao sacrifício da cruz e o representa.

Pelo sacrifício da cruz Cristo consumou o seu mérito e satisfação e completou a redenção de todo o gênero humano; a missa pertence essencialmente ao Novo Testamento como elemento constitutivo do culto, pelo qual os cristãos devem honrar a Deus, diretamente só é oferecido pelos membros da Igreja; Cristo nela não merece mais nem satisfaz, mas aplica os merecimentos obtidos na cruz.

Se uma substância sensível, devidamente mudada, se oferece sensivelmente a Deus, por uma pessoa legitimamente deputada, temos um sacrifício absoluto. Se este sacrifício absoluto possui, além disso, uma significação pela qual está ordenado a representar outro sacrifício, então este é também relativo.

A relação com este outro sacrifício se liga, ainda, não é essencial ao sacrifício em geral; pode, não obstante, exigi-la algum determinado sacrifício de tal modo que, se essa determinada relação não existisse, esse sacrifício seria nulo e inexistente.

A Missa Representa a Paixão e Morte de Cristo

Dissemos que é essencial ao sacrifício da missa representar a paixão e a morte de Cristo ou seja o sacrifício do Calvário. No sacrifício da missa e no sacrifício da cruz a vítima e o sacerdote principal são essencial e individualmente os mesmos. Cristo é essencialmente a vítima, Cristo o sacerdote principal em um e outro. O modo da oblação do sacrifício da missa é imagem, representação do sacrifício do Calvário.

Cristo, ao instituir o sacrifício da missa, afirma expressamente que nele o seu sangue é derramado em remissão de pecados; pela razão desta efusão precisamente o rito instituído, é verdadeiro sacrifício. Pois bem, enquanto existe na missa derramamento de sangue, enquanto ela representa e simboliza a paixão e morte de Jesus Cristo ou seja: enquanto, pela eficiência das palavras da consagração, o corpo é posto debaixo de uma espécie e o sangue separado e à parte, debaixo de outra espécie distinta; o corpo debaixo da espécie de pão e o sangue debaixo da espécie de vinho.

Claro está que no sacrifício da missa não se produz derramamento real de sangue, nem a real separação entre o corpo e o sangue; claro está que o derramamento e a separação são puramente místicos ou representativos, dado que, tanto debaixo da espécie de pão como debaixo da espécie de vinho, se torna presente Cristo íntegro e total.

Mas esse derramamento e essa separação místicos e simbólicos são essenciais na missa e se produzem precisamente quando a espécie que, pela eficiência das palavras, contém em si o sangue de Cristo, se põe separado e à parte da outra, que, debaixo de outra espécie, pela eficiência das palavras, contém o corpo de Cristo.

Assim este modo, essencial à missa, por vontade institucional de Cristo – injetada e fixada na oblação e imolação mesma do sacrifício da missa – identifica com seus elementos constitutivos essenciais a representação e a simbolização da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E diz Santo Tomás, o príncipe dos teólogos: "Enquanto este Sacramento da Eucaristia é sacrifício, enquanto nele é representada a paixão de Cristo, pela qual se ofereceu como hóstia a Deus. Agora a representação da paixão se produz na consagração deste Sacramento, na qual não deve ser consagrado o corpo sem o sangue."

"Posto à mesa com os irmãos na noite da Última Ceia, e já comido o cordeiro para observância da Lei, deu-se aos doze um alimento por suas próprias mãos: In supremae nocte cenae, recumbens cum fratribus, observata lege plene, cibis in legalibus, cibum turbae duodenae se dat suis manibus."

CAPÍTULO VII

A Missa é o centro do culto católico

A Igreja Católica foi fundada por Cristo para continuar a obra de salvação através de todos os séculos até ao fim do mundo. Sua missão consiste na conversão e redenção de todos os povos. É vontade de Deus que todos os homens, pela Igreja e na Igreja, recebam a luz e a vida sobrenatural e cheguem ao conhecimento da verdade. Para esse fim permanece o Senhor com sua Igreja, nela vive e atua todos os dias.

Como salvou o mundo pelo sacrifício cruento da cruz, assim continua ele a redimir os homens pela sua Igreja, principalmente pelo sacrifício incruento do altar, enquanto este representa e renova, misteriosamente, o sacrifício da cruz. A Igreja, sucintamente, diz isto, quando declara na santa missa: "Quoties hujus Hostiae commemoratio celebratur, opus nostrae redemptionis exercetur", isto é: todas as vezes que se celebra o sacrifício da missa, se realiza a obra da nossa redenção.

Estas simples palavras não somente significam que pela missa os frutos do sacrifício da cruz são aplicados aos homens em particular, mas afirmam também que todos os atos da obra da salvação, de modo misterioso, se concentram realmente no altar, são ali renovados e representados.

Isto se realiza claramente pelo ato da consagração da missa, na solenidade litúrgica do sacrifício.

Cristo salvou o mundo, pregando as verdades da fé como supremo Mestre e, como Sumo Sacerdote, suspenso entre o céu e a terra; mereceu os bens da graça como Rei divino de um reino por ele fundado, que não é deste mundo, mas nele existe, um reino da verdade, da graça e do amor, no qual ele impera sobre os corações; Ele exerce sua tríplice ação salvífica, a saber: seu magistério, sacerdócio e missão pastoral no sacrifício da missa, em todo o orbe terrestre.

Como na vida terrena, aparece na solenidade eucarística a ação sacerdotal do Senhor; pois, o ponto culminante da santa missa está no cânon no qual se realiza, pela consagração, o ato do sacrifício que nos transmite reconciliação e perdão.

Antes porém que o Salvador morresse na cruz, ensinou pela palavra e por atos, a verdade divina; de modo semelhante precede no sacrifício da missa uma preparação em que se representa e se repete a atividade de Cristo de ensinar, para que sejamos iluminados pela luz da sabedoria da fé. Porque o magistério de Jesus Cristo vive através de todos os tempos e procura ensinar a humanidade pela doutrina do sacrifício da missa.

Aqui no santo sacrifício onde Cristo aparece como vítima que no altar da cruz se deixou martirizar até à morte, aqui aparece também o Mestre celeste dos homens. Sua voz está oculta mas sempre presente pela voz dos seus representantes, na Sagrada Escritura, nas epístolas e no evangelho.

E como enfim o Salvador, pela morte de cruz, fundou seu reino sobrenatural, seu império eterno, assim segue pela consagração o ato do sacrifício, como aperfeiçoamento e termo, e vem a Sagrada Comunhão, pela qual Cristo como Rei misericordioso toma posse do nosso coração e, sendo Príncipe da paz, amplia e assegura o reino de Deus, o domínio da graça e amor das almas.

Considerando toda a obra da redenção conforme historicamente se desenvolveu, no seu começo, no seu progresso e na sua gloriosa conclusão, ela também, debaixo deste aspecto, nos é representada pelo sacrifício da Eucaristia. Pois, este é um monumento vivo de todos os milagres e mistérios que operou o Deus trino no seu amor. "Memoriam fecit mirabilium suorum misericors Dominus, escam dedit, timentibus se."

Os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos da vida de Cristo: a encarnação, a vida, a morte e a glória do Salvador do mundo, são apresentados aos olhos dos fiéis pela solenidade da missa. Desde o aparecimento do Senhor até o sacrifício incruento do altar, tem a sua significação a palavra do profeta: "Ecce Salvator tuus veni; ecce merces ejus cum eo, et opus ejus coram illo: eis que viu teu Salvador, sua recompensa está com ele e diante dele a sua obra."

Sim, o Deus-Homem vem ao altar para sacrificar-se por nós; mas onde ele se torna presente, aí aparecem a obra e a recompensa da salvação por ele realizada, sendo ambas inseparavelmente com ele unidas.

Na santa missa celebra-se, em primeiro lugar, e se representa a morte cruenta da cruz de Cristo. Mas, como neste sacrifício de Cristo os restantes mistérios da salvação em parte culminam, em parte radicam, devem eles também no incruento sacrifício do altar convergir e se encontrar, por ser isto a representação viva e essencial do sacrifício cruento da cruz. Pela consagração separada do pão e do vinho são sacrificados o corpo e o sangue de Cristo sob o símbolo da morte; por isso se torna o altar o Calvário e o lenho da cruz.

Não menos renova-se tudo quanto se acha entre Belém e o Gólgota. Neste tempo passaram trinta e três anos da peregrinação terrestre do Senhor que designam uma época de paz e bênção, de verdade e de graça, coroada com a presença e os benefícios do Senhor em prol da humanidade.

Também a solenidade eucarística é a memória da glória do Senhor, de sua ressurreição e de sua ascensão ao céu. Assim como o Senhor ressuscitado e glorioso aparecia a seus discípulos e com eles conversava dizendo: "A paz seja convosco; não temais, sou eu", assim está ele em nosso meio, oculto, mas glorioso, para nos consolar, alegrar, abençoar e proteger.

No sacrifício da missa celebramos os mistérios do ano eclesiástico. O ciclo dos dias festivos e dos tempos litúrgicos lança suas luzes e sombras sobre o altar: as alegres esperanças do advento, a paz da alma do santo tempo de natal, o grave espírito de penitência e o sentimento de arrependimento da quaresma, a imensa dor e o triste luto da Semana Santa, a glória e o júbilo do tempo pascoal, a alegria sobrenatural de Pentecostes, todas estas solenidades têm na celebração litúrgica da missa a sua expressão correspondente e adequada.

No altar percebe nosso ouvido já os queixumes dolorosos, já as expressões do júbilo; nós vemos ali o sacerdote revestido de paramentos cuja cor significa tanto o amor como a esperança, a alegria e a tristeza.

A celebração da santa missa é o serviço de Deus mais digno e mais perfeito, porque oferece ao Altíssimo uma homenagem e veneração como milhões de mundos criados não lhe poderiam oferecer. A celebração do sacrifício eucarístico é o hino mais glorioso que se possa entoar para glorificar o Deus trino. Inclui a síntese de todos os serviços divinos, o cumprimento de todos os deveres religiosos, por que é nossa suprema adoração e a melhor ação de graças, nossa oblação mais eficaz, nossos rogos mais eficientes.

A quádrupla obrigação de louvar a Deus e agradecer-lhe, de reconciliar-nos com ele e de pedir-lhe, podemos e devemos corresponder com nossas orações; mas, como seria deficiente e pobre o nosso serviço de Deus, se não tivéssemos o sacrifício do altar, pelo qual o nome do Senhor se torna grande e glorioso entre todos os povos.

Este sacrifício que consiste numa breve e simples ação, supera o valor de todas as orações da Igreja e dos fiéis, em valor e dignidade, em força e eficácia.

Cristo se sacrifica sobre o altar por nossas mãos e nós unimo-nos a ele como os bacelos na videira, como se abraçássemos a cruz, identificando-nos com o sacrifício. Com esta união, os nossos louvores, agradecimentos, rogos e penitências tornam-se, aos olhos de Deus, agradáveis e com muito valor.

A nossa veneração de Deus, isolada, seria muito imperfeita e se elevaria apenas acima do pó da terra. Mas, em união com o culto do sacrifício de Cristo, aumenta a nossa homenagem, e, recendendo perfumes celestiais, se eleva ao Senhor.

Por isso, dizemos na solenidade do sacrifício: Vede Pai celestial, a vós devemos, pelas inumeráveis graças e benefícios, agradecimentos infinitos; pelas ofensas a vós feitas, imensa penitência; e nossa incomensurável gratidão pelo auxílio, prestado nas inumeráveis necessidades e perigos, enfim, todo o nosso louvor, gratidão, penitência e súplica diante de vós indignos. Mas, nós unimos esses atos ao sacrifício de louvor, de agradecimento, de penitência e de rogos ao sacrifício do vosso Filho Jesus Cristo e vos pedimos que aceiteis nossa homenagem indigna, com tudo que nós temos e somos.

A história divina do nosso Salvador e da nossa redenção representam-se no sacrifício da missa. Por isso, em todas as solenidades da Igreja apresentam-se em primeiro lugar. O sacrifício eucarístico é como que o sol sobrenatural que derrama luz e calor sobre os atos cultuais, porque embeleza e sublima todas as festividades.

Por isso, a Igreja celebra, no decurso dos ciclos do Natal, Ressurreição e Pentecostes os milagres de caridade do Deus trino, os mistérios de Cristo, pela celebração do sacrifício eucarístico, ao qual se unem as homenagens de adoração, de agradecimento, de louvor, de súplica, de amor.

Pelo sacrifício da missa celebramos os mistérios e privilégios, as graças e virtudes, a glória, o poder e a bondade da gloriosa Mãe de Deus. Pela missa celebramos as festas dos anjos, a memória anual dos santos, para louvar a Deus e agradecer-lhe por ser tão admirável em seus bem-aventurados.

Assim, o sacrifício eucarístico celebra, no ciclo litúrgico, a festa dos santos e dos tempos.

No santo dia de Natal permite a Igreja ao sacerdote a celebração de três missas, para exprimir a felicidade eterna que neste dia a humanidade deve sentir. Na sombria Sexta-feira Santa, quando a Igreja está abismada no mais profundo luto, meditando sobre os mistérios da cruz, ela nem celebra o sacrifício da missa, mas preside à solenidade dos pré-santificados, solenidade em que se adora a Hóstia consagrada no dia anterior.

Tudo quanto os fiéis fazem e dão para o serviço de Deus, refere-se à celebração do sacrifício eucarístico. Para que se edificam e se sagram as majestosas igrejas e altares e se ornamentam com o que a natureza e a arte nos oferecem? Principalmente para a celebração do sacrifício da missa.

Para que os vasos de ouro e de prata, os ricos e preciosos paramentos? Para a celebração da santa missa. Por que as velas que se acendem nos altares, as flores que ali derramam seu perfume, as nuvens de incenso que enchem o santuário? Tudo isto se emprega para exaltar a majestade do santo sacrifício da missa.

Assim, reúne-se toda a criação, ao pé do altar, para em Cristo, com Cristo e por Cristo apresentar ao Deus infinito adoração e homenagem, a maior honra e glória.

Desta maneira, a santa missa não somente é a mais excelente e solene ação do serviço de Deus, o mais importante, o mais digno de todos os atos da religião, mas também o ponto central de toda a veneração cristã de Deus.

Não se deve esquecer de que o sacrifício eucarístico é o estímulo mais poderoso da veneração de Deus, da oração, porque é uma fonte inesgotável de pensamentos santos, sempre refrescando e nutrindo o espírito e o coração.

No altar se concentram todos os raios da verdade celestial e da graça. O altar em que o Homem-Deus se sacrifica, diariamente, aos nossos olhos, por nossas mãos, é o fogo sagrado em que se acendem a fé, a esperança e a caridade, e se elevam ao céu.

Por isto, não envelhecem as orações e os cânticos que entoamos na celebração do sacrifício eucarístico. Ressoam sempre pelas naves das nossas igrejas com rejuvenescido vigor, elevando nossas almas e corações a Jesus Cristo, ao céu.

"Monumento da morte, de meu Cristo, ó Pão vivo que dás a vida ao homem, concede que minha alma de ti viva, fruindo teu sabor, tua doçura: O memoriale mortis Domini, Panis vivus, vitam praestans homini, praestans meae menti de te vivere et te illi semper dulce sapere."

O texto a seguir foi corrigido e formatado, mantendo a fidelidade ao conteúdo e à estrutura apresentada.

CAPÍTULO VIII

O Sacerdote e a Eucaristia

Onde no deserto rebenta um jorro d'água, aí se elevam palmeiras, aí floresce nova e fecunda vida. Assim é o Sacramento do Altar no deserto da vida temporal. Dali derivam arroios que fecundam o reino da Igreja, inundando-lhe as celestes virtudes desde o oriente ao ocaso, do setentrião ao meio dia; dali dimanam a luz esplêndida dos sete sacramentos; ali, em torno da fonte das graças, florescem todos os frutos da virtude sublimada; ali haurem as criaturas as águas da salvação; ali está o coração que faz palpitar todas as artérias da Igreja, o ponto em que a terra e o céu se tocam, a habitação escolhida por Deus.

Ora, quem realiza e renova constantemente no meio dos homens este divino Sacramento? É o sacerdote católico. Suas relações com a Eucaristia são as mais estreitas e as mais íntimas.

Pois, Nosso Senhor instituiu o sacerdócio juntamente com a Eucaristia. Porque, diz o concílio de Trento, que na Última Ceia, tendo celebrado o sacrifício da missa pessoalmente, "deu aos apóstolos que então constituiu sacerdotes do Novo Testamento, debaixo dos símbolos destas mesmas coisas; e a eles e a seus sucessores no sacerdócio mandou que o oferecessem, com estas palavras: "Fazei isto em minha lembrança".

Logo em seguida definiu: "Se alguém disser que Cristo não instituiu os apóstolos sacerdotes naquelas palavras: "Fazei isto em minha comemoração"; ou que não ordenou que eles e os mais sacerdotes oferecessem o seu corpo e sangue: seja excomungado"

Os degraus pelos quais os ministros da Igreja ascendem à dignidade sacerdotal, distinguem-se principalmente segundo a faculdade que o ordenando recebe em relação ao santo sacrifício.

As quatro ordens menores habilitam os clérigos para funções que se referem remotamente ao sacrifício da missa. O subdiácono e o diácono aproximam-se mais do sacrifício eucarístico pela sua cooperação.

E o sacerdote possui o poder divino de transformar o pão e o vinho no corpo e sangue de Jesus Cristo.

Por isto, o bispo que ordena o sacerdote, lhe diz inicialmente: "Sacerdotem oportet offerre: o sacerdote deve oferecer o sacrifício da missa". E depois acrescenta: "Que Deus abençoe o neopresbítero, para que transforme, pela sua imaculada bênção, o pão e o vinho no corpo e sangue do Filho divino."

Em seguida diz o pontífice ao neopresbítero: "Recebe o poder de oferecer sacrifício a Deus e celebrar missas tanto pelos vivos como pelos defuntos."

E logo acrescenta: "Porque a coisa de que vais tratar, é bastante perigosa, diletíssimo filho, admoesto-te que, antes de celebrar a missa, aprendas diligentemente de outros instruídos sacerdotes a ordem de toda a missa, a consagração, a fração e a comunhão da Hóstia."

Pelo fim, abençoa o pontífice o neopresbítero, dizendo: "A bênção de Deus Pai e Filho e Espírito Santo desça sobre ti para que sejas abençoado na ordem sacerdotal e ofereças agradáveis vítimas pelos pecados e ofensas do povo ao Deus onipotente, a quem sejam dadas honra e glória por todos os séculos."

O sacerdócio católico vive com a Eucaristia. O Santíssimo Sacramento do Altar e o sacerdócio nasceram juntos do Coração de Jesus pela palavra criadora: "Fazei isto em minha memória". Assim ordena Deus. Por isso, não deve apagar-se a lâmpada do Santíssimo Sacramento.

Pois, os sacerdotes, como dispensadores dos mistérios de Deus, não podem extinguir-se. Portanto suscita o Senhor sempre sacerdotes, dirigindo-lhes a palavra como outrora a Pedro e João: "Ide e preparai-nos a Páscoa". A Eucaristia e o sacerdócio nasceram juntamente, viverão simultaneamente e não morrerão.

O sacerdócio católico vive para a Eucaristia. Os sacerdotes são chamados para continuarem os pensamentos de Cristo, para continuarem a pregar o evangelho de Cristo e as graças da cruz, mas, sobretudo, para continuarem o sacrifício de Cristo.

A maior ação de Cristo, sua morte de cruz, não deve desaparecer da recordação da humanidade. Assim como Cristo é o eterno Sumo Sacerdote, assim deve haver no seu reino um sacrifício eterno. Todos os sacerdotes do mundo católico devem cumprir a palavra da Bíblia: "Do oriente até o ocidente será meu nome glorificado entre os povos".

O sacerdócio vive para a Eucaristia. O Filho de Deus tomou a figura de servo da natureza humana, para que pudesse dizer: "Eu vim para salvar os homens". Ele assumiu a figura de pão, para dizer: "Eu quero ficar convosco para ser o alimento das vossas almas". Também para os mais pobres, também no lugar mais remoto do mundo.

Mãos de sacerdotes devem distribuir este alimento. Cristo não o dá com sua própria mão. Mãos de anjos não foram encarregadas disso. Os fiéis não o tomam com a própria mão. Mãos de sacerdotes devem dar o Pão da vida.

O sacerdócio católico vive da Eucaristia. Aí está o vinho de que nascem os sacerdotes. A santa Comunhão protege a vocação sacerdotal, justamente na adolescência, durante a qual é levado o sacrossanto, mais do que nunca, em vasos quebrantáveis. Todas as ordens conduzem o candidato ao sacerdócio, à Eucaristia. Aí está o vinho de que nascem os sacerdotes.

Sacerdotes do Senhor, salvai a fé em Cristo! Pregai a Eucaristia para salvar a fé! É esta a primeira obrigação que a Eucaristia exige do sacerdote. O mundo não pode viver sem Cristo. Ele é o Pão vivo que dá a vida ao mundo. Cristo deve ficar na humanidade, para que o espírito triunfe sobre a letra, a graça sobre a natureza, a caridade sobre o ódio, a vida sobre a morte.

Cristo deve ser o Rei da humanidade, para que os povos não se tornem escravos uns dos outros. Para que fique o reino da ordem, da justiça, do amor. Os sacerdotes devem ensinar os povos que Cristo é o Rei: "Anunciai aos povos: o Senhor é Rei!" Ele levantou o seu trono em nossos altares.

Sacerdotes do Senhor, salvai a fé em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Assim salvai os povos. Cristo é o alfa e o ômega da piedade. Também o princípio e o fim da devoção à Sagrada Eucaristia.

Igualmente nós bispos só devemos ser ministros, servos do Senhor na Eucaristia. Nós descemos dos tronos para adorar, de joelhos, o Senhor no Sacramento. Um dia de Cristo é o dia da adoração da Eucaristia, uma confissão de Cristo: "Tu tens palavras de vida eterna, nós cremos e reconhecemos: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo".

Sacerdote do Senhor! Orate fratres! No meio daqueles que hoje não se reúnem conosco em torno do altar, há bastantes almas que, com muita boa vontade, perguntam: "Mestre, onde tu moras?" Vinde, vós que procurais a Cristo! Cristo mora sobre nossos altares!

Orai irmãos que essas almas que procuram o Senhor, não fiquem em meio do caminho. Orai que as fraquezas de sacerdotes não lhes sirvam de pedra de escândalo! Orai que todos o reconheçam como os discípulos de Emaús, no partir do pão, e que todos os joelhos diante dEle se dobrem. Orate fratres! Esta é a segunda obrigação que a Eucaristia exige do sacerdote. Também a atividade do sacerdote vive da Eucaristia. "Teus sacerdotes devem revestir-se de justiça".

O celibato é a veste nupcial para o serviço da Sagrada Eucaristia. O celibato é a túnica em que o sacerdote deve servir o Sacramento do Altar. Toda a ação na cura de almas deve inspirar-se na Eucaristia. Esta é a terceira obrigação que a Eucaristia exige do sacerdote. Cuidai na veste nupcial da lâmpada do Santíssimo!

Os pastores não devem dormir quando os lobos estão acordados. Justamente o sacerdote sobrecarregado de serviços, deve recolher-se, depois dos trabalhos do dia, ao santuário, diante da Eucaristia, portanto na presença do eterno Sumo Sacerdote para renovar o espírito interior.

O sacerdote é o ministro da Eucaristia. Ele representa a Jesus Cristo na missa. A sua dignidade se pode avaliar pela importância do Santíssimo Sacramento que é o complemento de toda a obra da redenção, a obra do amor. Pelo seu nascimento, Jesus Cristo se fez nosso sócio, modelo e luz nas veredas da vida terrena; pela morte foi a vítima expiatória e reconciliadora pelos nossos pecados; no Santíssimo Sacramento é ele sempre presente para nossa consolação, nosso alimento, nossa doçura; é nosso céu sobre a terra. "Se nascens dedit socium, se moriens in pretium, convescens in edulium". Não é ele aí só em memória, mas sim é ele próprio.

Não é só um dos mistérios da encarnação ou da sua vida que adoramos ali; é a suma de todos os mistérios, o Homem-Deus mesmo, a coroa, a conclusão e o fecho de toda a sua atividade divino-humana, esplêndida, luminosa, dispensadora de graças, redentora; não é uma graça só, é o manancial de todas as graças, mar de graças, via para a glória, a própria glória!

Todos os tesouros da natureza e da criação, todos os milagres da graça e da redenção, todos os esplendores do céu se encontram neste Sacramento, que é o centro de todas as coisas. Aqui no Filho do Homem, o mais formoso dos filhos dos homens, depara a criação a flor mais bela e aromática; aqui no Cordeiro de Deus, oferecido em holocausto, rebenta o manancial de todas as graças, e toda a salvação flui do seu lado aberto e se derrama sobre toda a humanidade; aqui no corpo glorioso de Nosso Senhor, o qual se assenta à direita do Pai, nos é concedido um céu a nós os degredados filhos de Eva, e o paraíso com ele volveu de nova à terra; porque este Mistério, diz S. João Crisóstomo, torna a terra em céu.

A terra deixou de ser um deserto vazio sem Deus, não é já um vale de lágrimas; aí já não pousa a maldição da morte, do aniquilamento, o pesadelo horrível que nos oprime durante a vida.

Desponta no horizonte a aurora. O sol entretanto não enviou ainda seus primeiros raios ao mundo que desperta da noite. E já se acendem modestas velas nos altares de capelas e vetustas catedrais. Nos altares já celebram sacerdotes revestidos dos sagrados ornamentos. Inclinados sobre uma branca Hóstia e um pouco de vinho, pronunciam, comovidos, as palavras que pronunciou Cristo pela primeira vez na Última Ceia.

Os fiéis, ajoelhados, inclinam a frente, porque, naquele momento, Cristo se sacrifica por nós os homens.

O sol vai subindo. As velas se acendem em milhares e milhares de altares; milhares e milhares de sacerdotes se aproximam do altar e o cântico triunfal de milhares e milhares de sinos argentinos e graves acompanham a Cristo que passa no meio dos fiéis. E a voz potente de enormes sinos de catedrais se mistura com o som de um fraco e modesto sino de uma torre de aldeia. Todos os sinos chamam os fiéis para assistir ao santo sacrifício da missa.

É este o edificante espetáculo que todos os dias vemos. E quem é o promotor destas solenidades? É o sacerdote.

"Ditames tais praticamos, pois vinho e pão consagramos em Hóstia de salvação: Docti sacris institutis panem, vinum, in salutis consecramus Hostiam."

CAPÍTULO IX

A Comunhão e a Família

A Comunhão eucarística não é necessária ao cristão como necessário lhe é o batismo. A prática da Igreja indica, suficientemente, a diferença que existe entre a Sagrada Eucaristia e o batismo, sob o ponto de vista de sua necessidade.

A Igreja se apressa a administrar o batismo às crianças e lhes difere a Comunhão até à idade de discrição. É verdade que na primitiva Igreja comungavam muitas vezes crianças antes dessa idade. Mas este uso não foi considerado como uma condição indispensável à sua salvação. A Igreja suprimiu esse uso por causa dos inconvenientes que podia trazer consigo.

A Eucaristia não é necessária por necessidade de meio, segundo a linguagem escolástica, mas é por necessidade de preceito, isto é, a sua prática e recepção são rigorosamente ordenadas.

Pois, é difícil acreditar que Jesus Cristo tenha instituído este Sacramento sem prescrever formalmente o seu uso. Um tal benefício podia ficar inútil? A forma sob que Jesus Cristo se nos oferece, é uma prova da sua intenção a tal respeito. É a forma ou aparência do pão, alimento mais comum do homem.

Não disse ele por outro lado: "Tomai e comei, isto é o meu corpo; bebei, este é o meu sangue"? E para mostrar que a Eucaristia na Última Ceia, não é um fato isolado mas uma instituição permanente destinada a perseverar até o fim dos tempos, ajunta: "Fazei isto em memória de mim". E acrescenta o Apóstolo: "Cada vez que comerdes este Pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Salvador até que ele chegue."

Mas, para nos tirar toda a dúvida sobre este ponto, Jesus Cristo declara: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós". A vida é a graça, a vida é a glória que será um dia o fruto da graça. A Comunhão ou a manducação da Eucaristia é determinada por Jesus Cristo como a condição essencial desta dupla vida.

Ao preceito divino da Comunhão acrescenta-se o eclesiástico. Jesus Cristo, impondo-nos a obrigação de receber o seu corpo divino, não determinou o tempo em que devemos cumprir esta obrigação. Deixou este cuidado à sua Igreja.

Durante longos séculos o fervor dos fiéis pela Sagrada Eucaristia nunca se desmentiu. Os primeiros cristãos comungavam todos os dias. Guardavam eles próprios, em suas casas, a Sagrada Eucaristia, para comungarem, por suas próprias mãos, se a perseguição viesse surpreendê-los, não querendo ser privados, no dia do combate, do alimento divino tão apropriado para lhes sustentar a coragem.

Os prisioneiros reclamavam-na em seus cárceres, antes de aparecerem na arena ou subirem para a fogueira. Enviava-se-lhes o Pão sagrado pelo ministério dos diáconos e algumas vezes, pela mão de crianças. Conhece-se esse menino, cuja história nos foi conservada, Tarcísio, que se deixou matar pelos pagãos para não entregar a Sagrada Eucaristia que levava no peito a cristãos chamados ao martírio.

Enquanto durou o fervor dos cristãos pela Comunhão, a Igreja não tratou de fazer leis para fazer uso dEle. Há coisas que valem mais do que as leis: são os costumes, os hábitos, sem os quais as leis são impotentes. Mas, veio o tempo do relaxamento, vieram as heresias que, resfriando a fé, resfriaram a piedade.

Vários concílios legislaram sobre esta matéria. E ensina o concílio de Trento: "Todo o fiel de um e outro sexo, chegado à idade de discrição, se confesse só e fielmente receba, ao menos pela Páscoa, o Sacramento Eucarístico. O que a isto faltar, seja quem for, sendo vivo, seja excluído da Igreja, e, sendo morto, privado de sepultura eclesiástica."

E reafirma o mesmo concílio sua doutrina nestes termos: "Se alguém negar que todos e cada um dos cristãos de um e outro sexo, logo que atingem a idade de discrição, sejam obrigados a comungar cada ano, pelo menos pela Páscoa, segundo o preceito da Igreja, nossa santa mãe, seja anátema."

Entre nós, todos os fiéis podem cumprir o preceito da Comunhão pascal desde o domingo da Septuagésima até à festa de São Pedro e São Paulo.

Jesus Cristo, vindo a uma alma pela Eucaristia, conserva e desenvolve nela a vida espiritual, a vida da graça, a vida de Deus que possui pelo Verbo, ao qual está unida a sua humanidade.

"Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele. Assim como meu Pai, vivendo eternamente, me mandou e eu vivo por ele, assim aquele que me come, viverá pela vida que eu lhe comunicar."

Jesus Cristo, pois, pelo Verbo é participante da vida divina, e pela Comunhão, faz-nos participar da mesma vida.

Não é de certo para que o transformemos em nós que ele nos dá sua carne em alimento, é para ele nos transformar em si, conforme este dito de Santo Agostinho: "Sou o sustento dos que engrandeceram. Para crescer, me deverás receber. Mas não és tu que me hás de mudar em tua substância: serei eu que te mude em minha."

A união de Jesus Cristo com a alma fiel não pode ser mais estreita. Ele toma, por assim dizer, o lugar da alma que o recebe. E esta pode dizer em transportes de alegria e admiração: Sou eu que vivo? Não, não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim.

Que progressos no bem fará uma alma assim unida ao divino Mestre, uma alma que Jesus anima, que Jesus inspira, que Jesus dirige!

Que amor para com o próximo! Que ardor nas boas obras, que humildade, que pureza, que santidade! Todas estas virtudes háurirá neste comércio íntimo, nesta fusão de todo o seu ser com o ser divino de Jesus.

Ninguém se deve admirar dos sacrifícios heroicos, da coragem, da paciência, do desinteresse de tantas almas que são a glória do cristianismo, nos conventos, nos hospitais, nas missões e nas escolas. Estas almas comungam: é todo o segredo da sublime perfeição. Vivem com Jesus Cristo ou antes, é Jesus Cristo que nelas vive: "Vivo, jam non ego, vivit vero in me Christus."

Um outro efeito da Eucaristia é apagar os pecados veniais e reparar os danos quotidianos que eles nos ocasionam. Os pecados veniais não são obstáculo para a Comunhão, mas as faltas graves devem ser confessadas antes de se receber a Comunhão.

Os pecados veniais fazem perder à alma parte de suas forças; e assim como o pão material repara as perdas do corpo e lhe restitui o vigor moral, assim o Pão Eucarístico repara as perdas da alma e lhe restitui a força e a energia que precisa para proceder bem. A Eucaristia apaga os pecados veniais, mas só aqueles que a alma deplora, como fraquezas a que lhe custa subtrair-se, mas não esses a que tem uma afeição culpável.

Pela Comunhão é perdoada a pena temporal do pecado. Esta remissão não se obtém diretamente, mas, somente por atos de caridade e outras virtudes que a presença de Jesus Cristo faz nascer e excita em nós. Este efeito é proporcional ao fervor e à devoção daquele que comunga. "Como consequência do principal efeito da Comunhão, o fiel, diz Santo Tomás, obtém a remissão da pena temporal, não total, mas proporcionada à sua devoção e ao seu fervor."

Feliz, por ver em sua casa o divino Mestre, Zaqueu exclama, em transportes de alegria e gratidão: "Já vou dar metade dos meus bens aos pobres, e, se defraudei alguém, restituo-lhe o quádruplo do que lhe tirei." Quantas culpas são tais sentimentos capazes de apagar, de quantos castigos merecem a remissão? Comovido em presença de tais disposições, de tal amor, Jesus exclama: "Hoje entrou nesta casa a salvação!"

A Sagrada Eucaristia fortalece a alma, premune-a contra os perigos, preserva-a dos ataques do mal que tende constantemente a fazê-la perecer. "Se Deus está conosco, diz S. Paulo, quem estará contra nós?" "Venham exércitos inteiros assaltar-me, diz o Profeta real, nada temerei, porque estais comigo".

A Igreja compreendeu sempre esta verdade. Por isso, nos primeiros séculos do cristianismo, nos dias sangrentos das perseguições, quando os fiéis eram condenados pelos tiranos ao suplício e à morte, por terem confessado a fé de Jesus Cristo, os bispos, segundo conta S. Cipriano, tinham por costume dar-lhes o Sacramento do corpo e do sangue de Nosso Senhor, com medo que, vencidos pelos tormentos, sucumbissem nesta luta suprema.

Quando o cristão chega à sua hora suprema, a essa temível luta entre a vida e a morte, a qual se chama agonia, vai a Igreja levar nas suas maternais mãos, com todo o zelo, o Viático ao moribundo; isto é, o sustento que deve animá-lo na grande e perigosa viagem do tempo para a eternidade.

A Sagrada Eucaristia enfraquece as nossas paixões. Há em nós, como bem todos sabem, instintos perversos, más inclinações, que nos levam ao mal. São chamas ardentes, que nos custa conter, que não cessam de esforçar-se por irromper e devorar quanto a natureza e a graça puderam dar-nos. Jesus Cristo entra pela Comunhão no nosso coração e logo as chamas se apagam. Faz-se a paz em nossa alma, as nossas paixões tornam-se mais brandas, mais dóceis, mais governáveis. Como os três jovens em Babilônia, andamos sossegados e confiadamente através as chamas da fornalha. O sopro puro e refrigerante do Salvador preserva-nos do fogo que nos cerca.

Disse Nosso Senhor: "Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia." É que a Sagrada Eucaristia prepara para a vida eterna e dela lhe dá ao mesmo tempo o penhor e o germe.

Vede o que se passa em a natureza, sob o percurso do astro radiante, cujo calor vivificante banha e penetra tudo o que vive. As plantas receberam a vida do seu germe e cada uma das suas fibras, cada uma das suas moléculas se sacia de seiva; mas, como esta seiva excitada por um raio de sol, se torna mais viva e mais ativa! Como ela se ergue, como se desenvolve, se cobre de gomos e se desdobra em folhas, flores e frutos! De um dia a outro dia, e quase de uma hora a outra hora, que mudança, que ondas de perfumes!

Pequena maravilha é esta em comparação dos prodígios que opera na alma dos comungantes o divino calor do Sol eterno. É do próprio centro da nossa vida espiritual que se irradia. Os outros sacramentos deram-nos hábitos santos e sublimes virtudes; a Sagrada Eucaristia apossou-se delas, aquece-as, aviva-as, aperfeiçoa-as. Germinai, crescei, florescei, frutificai, plantas divinas, o amor de Cristo vos aperta: Caritas Christi urget vos.

Assim como a fagulha se oculta na cinza, a fim de conservar uma faísca de fogo, assim Jesus Cristo Nosso Senhor oculta em nós a vida pela sua própria carne e nela a oculta como semente de imortalidade, expulsando toda a corrupção. Não é que o Salvador revogasse a lei que nos condena a morrer; mas porque a sua palavra nos diz que nos curará da morte: "O que comer a minha carne e beber o meu sangue, tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia".

Bem sei que também viverão e ressuscitarão os que não receberam a Eucaristia; mas, pela superabundância da vida, pelos esplendores prodigiosos do seu corpo glorioso, se reconhecerão, na pátria, os comungantes do exílio, e para eles a comunhão eterna será mais abundante de delícias e de glória: "Vitam abundantius habeant."

Não nos esqueçamos: Cristo instituiu o Santíssimo Sacramento para que tenhamos força e alegria, para que a Eucaristia cure nossa alma ferida, robusteça nosso organismo débil, console nossa tristeza, nos faça triunfar nas tentações do mundo, e, se o instituiu por tal motivo, nós devemos aproveitá-la, devemos comungar com frequência.

Que fogo arde no altar! E nós estamos a ponto de regelarmos! Que fonte de vida brota no altar! E nós quase morremos de sede. Que luz brilha no altar! E nós andamos às cegas, como em noite sem estrelas. Que força se nos oferece no altar! E nós vamos cambaleando de pura debilidade. Que alegria se nos oferta no altar! E nós vivemos em profunda tristeza.

Acudamos pois à Sagrada Eucaristia! Comunguemos! Comunguemos com frequência.

"Pasto é a carne e verdadeiro sangue é o vinho, e Cristo inteiro das espécies está no véu: Caro cibus, sanguis potus, manet tamen Christus totus, sub utraque specie."

CAPÍTULO X

A Comunhão e a Vida Humana

Se considerarmos a Sagrada Eucaristia nas suas relações com a sociedade, a nossa admiração redobra. Não bastariam muitos volumes para explicar todos os efeitos do sol sobre a natureza, todas as influências do coração.

Pois, o que é o sol na natureza, que sem ele se definha; o que é o coração no corpo humano, que sem ele se dissolve, é, na sociedade, o mistério do amor, o Sacramento augusto da Eucaristia. Tirai o sol e a natureza perece; tirai o coração e o corpo humano se dissolve.

Filho de Deus pelo batismo, soldado de Jesus Cristo pela confirmação, passa agora o homem a provar de um modo sensível a realidade destes augustos títulos. Prepara-lhe Deus um alimento divino que breve lhe dará para que se nutra.

Tabernáculo, templo, vaso honorífico, eis que ele recebe Aquele para cujo serviço foi consagrado. Uma palavra, mas uma palavra fecunda em virtudes angelicais, retine em seus ouvidos. "Filho," lhe diz a Igreja pela boca de uma piedosa mãe ou de um zeloso cura d'almas que lhe deu o batismo, "olha que breve chegará o dia de tua primeira Comunhão." "E que é a primeira Comunhão?" pergunta o menino. "Meu filho, um dia virá em que o Deus que te criou, que te santificou pelo batismo, que te adotou por filho, descerá do céu e virá solenemente tomar posse do teu coração. Nesse momento os anjos estarão prostrados a teus pés."

"Mais feliz que o discípulo amado, não só repousarás no seio do teu Salvador, senão que Ele descerá pessoalmente a repousar no teu peito. Tão feliz como Maria Santíssima, terás dentro em ti Aquele de quem ela foi a augusta Mãe."

A primeira Comunhão é um contrato solene, uma magnífica aliança que o menino vai celebrar com Deus. Pela sua parte, Deus se lhe dará todo. Tudo o que tem, tudo o que é, o seu corpo, a sua alma, a sua divindade, os tesouros de sua graça, tudo ficará sendo a herança do neocomungante.

Em recompensa, ele pede-lhe tudo o que tem, tudo o que é, o corpo, o espírito, o coração e a vida; tudo lhe será dado sem reserva e irrevogavelmente. Serão testemunhas deste contrato seus pais, seus irmãos, seus parentes, os anjos e os santos do céu e da terra, e será escrito e assinado com o sangue de Deus. Os anjos o levarão ao céu, onde será conservado até o dia de sua morte. Assim como houver satisfeito às condições dele, assim receberá a sentença de sua eternidade.

Instruído assim, uma certa impressão religiosa, um certo fervor temperado de ternura se apodera da alma do menino. E logo para o tornar digno da visita de seu Deus, se lhe ensinam e se lhe aconselham o estudo, a oração, a esmola, as boas obras de todo o gênero, advertindo-lhe que, elas são tanto mais meritórias quanto forem mais ocultas e só vistas pelos anjos.

Desta arte se lhe vão torcendo os caprichosos desejos, sufocando as nascentes paixões. A obediência, a piedade, a doçura, o vão tornando um objeto de edificação e preparando-o para a sua futura aliança. Chega enfim o dia em que o Criador do céu e da terra desce do seu trono para vir habitar e viver no coração do menino.

Não podemos dizer o que se passa entre Deus e este seu filho. O que sabemos, sim, é que o sangue divino gira nestes ternos e jovens corações e os aformoseia e vivifica.

Qual a serena chuva, rociando a açucena do vale quando ao primeiro bafo do sol desabotoa o cálice odorífico, da mesma sorte sentem estes meninos que Jesus Cristo se difunde e comunica a cada um a sua alma e todo o seu ser. Eles têm Jesus Cristo em seu coração, na sua alma e em todo o seu corpo. Mas, que faz o Salvador em todos nesta visita? Repara tudo, purifica tudo, mortifica tudo, vivifica tudo: ama no coração, entende na inteligência, anima na alma, vê nos olhos, fala na língua, e assim no mais. Ele opera tudo em tudo. É que Jesus Cristo vive nos neocomungantes.

E o que mais vemos é uma vida nova que começa para o adolescente; uma lembrança perpétua deste grande dia, lembrança fecunda, dique das paixões, salutar remorso após as quedas, coragem em todos os trabalhos da vida, consolação eterna no momento supremo.

Quantas virtudes se semeiam no coração humano, quantas paixões se sufocam, e crimes se evitam por esta primeira Comunhão! Quantas lágrimas, quantas desordens e escândalos se removem da família e da sociedade pela eficácia onipotente da Eucaristia reparadora, desde que se insinua nas entranhas, penetra até à medula dos ossos do jovem católico para delas eliminar o germe do mal!

Há porventura coisa mais eminentemente social do que o ato da primeira Comunhão? Deus está no coração dos comungantes. Quem poderá depois disto cometer um só pecado mortal ou concebê-lo no pensamento? É impossível imaginar um mistério que contenha mais fortemente os homens na virtude.

Vê-se, pois, a importância da primeira Comunhão! Relevantes são também os serviços que os catequistas prestam à sociedade, preparando os meninos e adolescentes para esse santo ato, dando-lhes a necessária instrução religiosa.

Caminham depois na carreira da vida os jovens comensais de Deus. E quantas vezes não terão ocasião e motivo para repetirem as palavras dos discípulos de Emaús!

"Ficai, Senhor, conosco, porque se faz tarde e o dia vai a declinar". Enquanto os jovens se deixam guiar pela doutrina de Cristo, não poderão errar. Mas, quantos, no decorrer da vida, se esquecem da sua primeira Comunhão, deixando-se arrastar pelo ímpeto das paixões. E quantos que não receberam a necessária instrução religiosa na igreja ou nos colégios, praticam, na sociedade, o vício em vez de virtude, dando escândalos públicos.

Entretanto, não poucos, recordando-se de sua primeira Comunhão, no turbilhão da vida voltam arrependidos à prática da religião.

A Comunhão, sendo um princípio de virtudes no homem individual, não o é menos, consequentemente, na sociedade. Porque a sociedade compõe-se de indivíduos.

A Sagrada Eucaristia, conforme a doutrina dos santos padres, não somente é alimento mas também medicina das nossas almas, remédio contra as enfermidades, ainda que estejam muito arraigadas no coração humano. Neste sentido diz S. Cirilo de Alexandria que a Sagrada Comunhão possui virtude de curar as enfermidades de nossas almas, pois Jesus Cristo, com sua presença, mitiga a lei tumultuosa dos nossos sentidos e apazigua as tempestades que neles se levantam. E diz S. Bernardo: "Se alguém não sente em si tão violentos movimentos de ira, de inveja, de impureza e de outras paixões semelhantes, como antes sentia, isto se deve ao corpo e sangue do Senhor."

Se a mulher do Evangelho só com tocar a orla do vestido do Senhor, foi curada de sua longa e penosa enfermidade corporal, quanto mais razão não haverá para que desapareçam as fraquezas e enfermidades da alma mediante a sua íntima união com seu Salvador na Sagrada Comunhão?

Porém, a Sagrada Eucaristia não é somente medicina que abranda a inclinação ao mal, mas também remédio que dá gosto e disposição para o bem. Este efeito procede primeiro que tudo de que se aumenta a caridade que de si inclina a fazer obras agradáveis a Deus; mas além de inflamar o fogo da caridade em nossa alma, este divino alimento tem a virtude especial de transformar, de algum modo, o nosso espírito no espírito de Cristo. Porquanto, diz o Catecismo Romano: "Este Sacramento não passa como o pão e o vinho a ser a nossa substância, senão que antes somos nós de algum modo transformados na sua natureza."

Desta transformação misteriosa do nosso espírito no espírito de Jesus Cristo nascem os frutos suavíssimos de um desejo ardente, de uma santidade perfeita, de paz íntima, de gosto espiritual, de mansidão, de humildade, de fortaleza, de paciência, de fidelidade, de castidade e de todas as demais virtudes cristãs.

Por isso, dizem os santos padres: Os pobres de espírito e cristãos fervorosos, contentes só com este manjar celestial, sentem fastio de todos os manjares delicados do mundo, pois Cristo os satisfaz e não há neles lugar para nenhum manjar terreno. Este banquete celestial satisfaz a fome e a sede da justiça que sentem, e por este modo espalham o bom odor de sua santidade que exalam as suas conversações edificantes, os seus costumes virtuosos, os seus sentimentos pacíficos, e tudo isto brota dos seus corações puros e reverte em benefício da vida social.

Isto diz respeito aos filhos da Igreja; quanto aos que vivem fora do seu grêmio, ouçamos a palavra do Sumo Pontífice Pio XII na sua encíclica "Sobre o Corpo Místico de Jesus Cristo":

"Os que não pertencem ao organismo visível da Igreja Católica, como sabeis, Veneráveis Irmãos, confiamo-los também, desde o princípio do Nosso Pontificado, à proteção e governo do alto, protestando solenemente que, a exemplo do Bom Pastor, tínhamos um só desejo: "Que eles tenham vida e a tenham em abundância."

"Esta nossa solene declaração queremos reiterar, depois de pedirmos as orações de toda a Igreja, nesta encíclica em que celebramos os louvores "do grande e glorioso Corpo de Cristo", convidando a todos e cada um com todo o amor da nossa alma, a que espontaneamente e de boa vontade cedam às íntimas inspirações da graça divina e procurem sair de um estado em que não podem estar seguros de sua eterna salvação, pois que, embora por desejo e voto inconsciente estejam ordenados ao Corpo Místico do Redentor, carecem de tantas e tão grandes graças e auxílios que só na Igreja Católica podem encontrar."

"Entrem pois na unidade católica e unidos conosco no Corpo de Jesus Cristo, conosco venham a fazer parte, sob uma só Cabeça, da sociedade da gloriosíssima caridade. Nós, jamais cessaremos as nossas súplicas ao Espírito de amor e verdade, esperamo-los de braços abertos, não como a estranhos, mas como a filhos que vêm para a sua casa paterna."

"Mas se desejamos que sem interrupção subam até Deus as orações de todo o Corpo Místico, implorando que os errantes entrem quanto antes no único redil de Jesus Cristo, declaramos contudo ser absolutamente necessário que eles o façam espontânea e livremente, pois que ninguém crê, senão por vontade. Por conseguinte, se alguns que não creem, são realmente forçados a entrar nos templos, a aproximar-se do altar e a receber os sacramentos, não se fazem verdadeiros cristãos; a fé sem a qual "é impossível agradar a Deus", deve ser libérrima homenagem da inteligência e da vontade."

"Se portanto acontecesse que, contra a doutrina constante da Sé Apostólica, alguém fosse obrigado a abraçar contra sua vontade a fé católica, Nós, cônscios do Nosso dever, não podemos deixar de o reprovar. Mas porque os homens são e podem sob o impulso de más paixões e apetites desordenados abusar da própria liberdade, por isso é necessário que o Pai das luzes, pelo Espírito de seu amado Filho os mova e atraia eficazmente à verdade. Ora se muitos ainda — infelizmente — estão longe da verdade católica e não querem ceder às inspirações da graça divina, é porque não só eles, mas também os fiéis não oram mais fervorosamente por esta intenção. Por isso Nós uma e outra vez exortamos a todos a que por amor da Igreja e seguindo o exemplo do divino Redentor, o façam continuamente."

"Nas atuais circunstâncias, mais que oportuno, é necessário orar fervorosamente pelos reis e príncipes e por todos os que governam e que podem com a proteção externa auxiliar a Igreja para que, restabelecida a ordem, por impulso da divina caridade, do meio das ondas tenebrosas desta tormenta surja "a paz, fruto da justiça" ao atribulado gênero humano e a santa Mãe Igreja possa viver uma vida sossegada e tranquila em toda a piedade e honestidade."

"Peçamos a Deus que amem a sabedoria os que regem os povos, de modo que nunca lhes quadre esta formidável sentença do Espírito Santo: "O Altíssimo examinará as vossas obras e perscrutará os vossos pensamentos, porque, sendo ministros do seu reino, não governastes retamente, nem observastes a lei da justiça, nem caminhastes seguindo a vontade de Deus. Horrendo e de improviso vos aparecerá, porque será rigorosíssimo o juízo dos que governam. Ao humilde concede-se misericórdia; mas os poderosos serão poderosamente atormentados. Deus não recuará diante de ninguém, nem se inclinará diante de nenhuma grandeza: porque o pequeno e o grande criou-os Ele, e de todos cuida igualmente; aos mais fortes, porém, ameaça com o mais forte suplício. Para vós, ó Reis, são estas minhas palavras, a fim de que aprendais a sabedoria e não venhais a cair."

Entrem todos no redil da Igreja, como diz o Santo Padre, para que possam fazer parte do Corpo Místico de Jesus Cristo e gozar os maravilhosos efeitos da Sagrada Comunhão.

"Piedoso pelicano, ó Jesus Cristo, lava a imundície d'alma com teu sangue do qual uma só gota salvar pode, de toda a culpa todo o orbe das terras: Pie pellicane, Jesu Domine, me immundum munda tuo sanguine, cujus una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere."

CAPÍTULO XI

A natureza humana e a Eucaristia

Ninguém pode negar a propensão manifesta e inata que há no homem de unir-se ao seu Criador. Sentença profunda proferiu Santo Agostinho, o preclaro bispo de Hipona, quando disse: "Senhor, fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto até que descanse em ti". Criado o homem por Deus e para Deus, procurará ele em vão a sua felicidade fora de Deus, seu princípio, seu aperfeiçoamento e seu fim.

O homem tende a unir-se com Deus, verdade absoluta para o entendimento e bem infinito que sacia as vivas ânsias da vontade. E perde lastimosamente o tempo, quando se empenha em mover-se fora dos caminhos que o dirigem a Deus.

Em vão se têm esforçado os homens para encher o vazio que sentem dentro do seu peito, com os bens da terra, mas somente conseguiram os mais cruéis desenganos.

Os ricos, multiplicando sua fortuna; os conquistadores, enchendo o mundo com a fama de seu nome; os sábios, observando o curso do universo e descobrindo as suas leis; os governantes, pondo debaixo de seus pés as nações menos poderosas: todos vieram encher o abismo que em seu coração notavam, com o que era objeto dos seus incessantes anelos.

E conseguiram o que pretendiam? Fale por todos César, vencedor em mil combates, dono da metade do mundo, uma das personagens mais salientes da civilização pagã, ele que se gloriava de ser descendente aos pais e de um rei, de Vênus e de Anco Márcio; ele que pôde ostentar com orgulho os títulos de ditador perpétuo, censor, tribuno, grande político e orador grandiloquente; ele que foi árbitro da república e objeto da admiração de nacionais e estrangeiros; pois, não obstante sorrir-lhe a fortuna e não carecer de nada, ao sentir dentro do seu peito o mesmo vazio que experimentava quando, envolto em sua desalinhada toga e proscrito por Sila, não possuía nenhum dos bens e honras que acabamos de mencionar, se viu obrigado a dizer com um gemido de dor que saiu do mais profundo da alma: "Porém, é isto tudo? Nada mais do que isto pode conseguir o homem?"

Nada mais, respondemos nós; porque, por muito que seja o contentamento que os gozos mundanos proporcionam ao nosso espírito, jamais lograrão satisfazer-nos. Eles podem entreter e ainda recrear nosso coração, porém não tranquilizá-lo e muito menos fazê-lo feliz.

Todos os seres aspiram à sua perfeição e como a perfeição do homem é Deus, quer tê-lo ao seu lado, unir-se intimamente a Ele, identificar-se com Ele; e tudo o que não seja Deus, tudo quanto lhe ofereça uma bondade limitada, o reputa tão falaz e enganador, que, ou se seduz, não o convence, ou se o fascina, não o tranquiliza.

Na Sagrada Eucaristia dá-se Jesus Cristo aos homens em comida, para que vivam por Ele e para Ele: "Quem me come, o mesmo vive por mim". Cristo multiplica-se sem se dividir, comunicando a todos os pontos do globo sua nobre vida. Pois pela Eucaristia o encontramos em nossas igrejas, em nossas capelas, nas ruas e praças e ainda às vezes nos campos.

Ele nos visita, se estamos enfermos, nos consola, se estamos tristes, nos fortalece quando nos vê fracos, está com os homens nos gelos do polo e no calor dos trópicos. Está sempre com os homens, ouvindo as suas orações e comunicando-lhes sua graça.

E ele está na forma que mais confiança pode inspirar-nos: debaixo das humildes aparências sacramentais com que oculta, não já sua divindade, mas também a sua humanidade; não somente o esplendor de sua glória divina, como também até o seu ser de homem.

Mas, apesar de achar-se tão escondido, difunde em torno de si toda a plenitude de sua graça, todas as torrentes de suas misericórdias, todas as riquezas de sua bondade. Porque, na Eucaristia está Ele, não para julgar os homens, senão para atraí-los, ganhando o seu coração e purificando suas almas.

Por isso, ocultou tudo quanto podia afugentar do altar os mortais e mostrou tudo que podia infundir-lhes alento e confiança para aproximar-se do tabernáculo.

Assim que bem podemos dizer com a fronte inclinada, em sinal de gratidão e agradecimento, que Deus, posto que Ser onipotente e infinitamente sábio, nem pôde nem soube fazer mais do que fez, para satisfazer a nossa propensão inata de termos Deus em nossa companhia.

Quem recebe a Sagrada Eucaristia, vive a vida de Deus, une-se a Deus, como o alimento ao corpo que dEle se nutre, como o oxigênio ao hidrogênio na composição da água. Na Eucaristia, disse Bossuet, o Filho de Deus toma carne de cada um de nós, comunica ao nosso ser as suas propriedades divinas e consegue admiravelmente o objeto final da religião sobre a terra. De modo que pela Comunhão nos fazemos verdadeiros porta-Cristos, levando, na verdade, a Jesus Cristo em nossos corpos e cumprindo em nós o dito do apóstolo S. Paulo, de que somos participantes da natureza divina.

E que diremos das relações que entre Deus e o homem estabelece a Eucaristia? Se Cícero, o grande representante da filosofia romana, vivendo como a sociedade de seu tempo vivia, pôde dizer que há uma semelhança entre o Criador e a criatura que nos autoriza a chamar-nos da raça e estirpe dos deuses, que não diremos nós ao ver a Jesus Cristo, verdadeiro Deus e Homem verdadeiro, viver entre nós, pôr-se ao nosso lado, seguir-nos a toda a parte e em todas as circunstâncias da vida?

Os gentios, fabricando os seus deuses, empregavam muitos meios para preparar o seu ídolo que patrocinasse as suas paixões e com quem pudessem viver pacificamente.

Nós, entretanto, sabemos que basta que um sacerdote católico pronuncie as palavras sacramentais da consagração para que Deus venha habitar entre os homens e se faça nosso companheiro inseparável e nosso mais íntimo e real amigo.

E este milagre se verifica, não uma, vez somente como o da Encarnação, mas inúmeras vezes e isto até à consumação dos séculos. Por isso, podemos cantar com mais razão do que Moisés que não há nação debaixo do sol que tenha os seus deuses tão perto de si como nosso Deus está presente a nós, ouvindo todos os nossos rogos.

O desejo inato e espontâneo que se encontra em nossa natureza, de identificar-nos com Deus por uma comunhão real e verdadeira, só vemos cumprido e satisfeito na Comunhão da Sagrada Eucaristia.

Pois bem, se nossa natureza tende ao infinito; se quer ter Deus ao seu lado; se deseja ardentemente identificar-se com Ele e estas tendências e desejos nos dão a chave para explicar a história do mundo; e se por outra parte, a Eucaristia é o mistério que enche nosso coração e se este mistério faz a Deus nosso inseparável companheiro que alimenta nossa alma e nosso coração com um manjar celestial e divino; qual deverá ser nossa conduta com este augusto Sacramento?

Ele nos é necessário para aplicar-nos os frutos da redenção, para que alcancemos os bens da eterna bem-aventurança e para que sejamos felizes neste mundo.

E sendo isto assim, o afastamento de Jesus Cristo sacramentado seria o verdadeiro suicídio da nossa alma, a morte da parte mais nobre que há em nós, a extinção de nossa vida espiritual; pois, sem união com Jesus Cristo, esta vida é um mito, as virtudes puro nome, a graça celestial murcha qual flor que carece do sol para conservar sua louçania.

A essa inclinação natural acresce o convite de Jesus Cristo. Este alimento, este Pão não pode ser mais apropriado para a nutrição das almas, para enriquecê-las, para fortificá-las e dar-lhes os frutos de todas as virtudes.

E recusá-lo-emos? Queremos deixar antes enfraquecer e estiolar-se nossas almas, à falta de alimento, morrer de fome no deserto da vida, do que comer o Maná celeste que um milagre constante, cada dia renovado pela misericórdia divina, oferece à nossa miséria?

À cegueira mais profunda havemos de juntar a mais negra ingratidão.

Quando vedes Jesus Cristo vir à Sagrada Mesa, repousar nos lábios e nos corações dos fiéis, julgais que só teve um passo a dar para chegar até eles, e a romper pela distância do altar à Mesa Eucarística? Enganai-vos.

Vem de longe este intrépido e apaixonado alimento das almas. Vem de longe. Partiu há dezenove séculos e ao seu primeiro passo encontrou um traidor que o vendeu e entregou aos verdugos. Outro teria recuado. Mas, ele, impelido pelo amor, avança e avança sempre e os séculos decorridos à sua passagem, lançam-lhe a blasfêmia e o ultraje.

Os filósofos, os hereges e os ímpios, o insultam à porfia. Desmoronam-lhe os templos, destróem-lhe os altares e o lançam sob as espécies que o cercam, ao esgoto das ruas e aos cães. Tais atrocidades viram os nossos antepassados.

E é do seio destes opróprios, debaixo destes escombros, com o rosto hoje afrontado e talvez prestes a se renovarem, que ele vem fatigado, ofegante, bater-nos à porta do coração, pedindo-nos asilo!

E teremos coragem de lhe recusar este asilo? E quando tanto tem feito para vir até nós, nada faremos nós para ir até Ele, nem um passo, nem um esforço, nem um sacrifício? Que notável e negra ingratidão da nossa parte!

Mas isto seria também um desprezo ultrajante. Convidando-vos um homem para a sua mesa, especialmente sendo superior no sangue e na dignidade, recusando-vos sem motivo razoável nem causa legítima, veria ele nesta recusa uma afronta feita à sua pessoa e considerar-se-ia ofendido.

Mas, quando o Rei do céu e da terra vos dá a honra imerecida do convite para o seu banquete, podereis crer que Ele é insensível à vossa recusa e aceita as razões e pretextos que dais para excusar a vossa indolência?

"Comprei um campo, comprei cinco juntas de bois, casei-me", e ele não aceitará esta desculpa.

Assim os negócios e os prazeres, o comércio e a indústria terão preferência a Vós, Senhor! Foi em vão que preparastes ao homem este alimento celeste; foi em vão que, para assegurar e perpetuar-lhe o benefício, tivestes tanta aflição e descestes uma escada interminável, de algum modo infinita, de abatimentos, multiplicando milagres para pôrdes ao alcance de todos este alimento, para terem este Pão celeste todos, o pobre e o rico, o jovem e o ancião, e até o moribundo, a quem dizeis: Ego veniam et curabo eum, vou e curá-lo-ei!

E é em vão que pelo mais incompreensível dos prodígios estendeis vossa presença sacramental a todos os pontos desta pobre terra, aos campos e às cidades, aos continentes e às ilhas longínquas, às nações civilizadas e às bárbaras, temendo que vossos filhos desfaleçam no caminho, no caminho para a eternidade!

Sim, tudo isto seria inútil.

Supõe que, por unanimidade infernal, os homens entendessem em jamais usar do Sacramento divino: eis a mais bela, a mais nobre e a mais sublime das instituições, a obra-prima do amor de Deus, tornada inútil! Que injúria uma vez ainda à caridade e à misericórdia divina!

Mas não; haverá sempre almas tocadas pelo amor de Jesus Cristo para com os homens, almas sensíveis à honra do seu convite. Serão as mulheres, serão as crianças, serão os pobres, os coxos, os enfermos do Evangelho, os oprimidos por alguma dor ou miséria da natureza humana, os pequenos, os humildes, os aborrecidos do mundo.

Que importa? Deus contentar-se-á com eles e se os vê entrando na sala do festim, vestidos da túnica nupcial, não lamentará a generosidade nem a sua magnificência, alegrar-se-á de ter chamado tais convivas e de nada ter poupado para os tratar de uma maneira régia e divina.

Mas os grandes que lhe tiverem repelido a divina dádiva, que sorte terão e que poderão esperar de seu amor desprezado?

"Digo-vos, disse Jesus Cristo, que nenhum dos que tinha convidado, provará do meu festim", não do festim da terra, mas do festim do céu, onde o mesmo Deus, face a face e a descoberto, se nos oferecerá para nos saciar a fome de felicidade que nos atormenta.

"Pão dos anjos inocentes, fez-se o pasto dos viventes, sendo o Pão dos filhos crentes: Ecce panis angelorum, factus cibus viatorum, vere panis filiorum."

CAPÍTULO XII

A Eucaristia e a paz

Qual é o defeito mais comum da atividade humana? O egoísmo, o egoísmo rude, que não conhece o amor e pisoteia a todo o mundo. Daí é que um homem quer prevalecer sobre outro, uma nação se impõe a outra nação, uma raça a outra raça.

Debaixo da influência deste egoísmo, a virtude do reto e lícito amor-próprio degenera nos indivíduos e se converte em pecado de avareza desalmada; e debaixo da mesma influência se desfigura nos povos a virtude reta e valiosa do patriotismo, transformando-se em adoração e divinização do próprio povo e leva as nações a uma guerra desenfreada e cruel como a atual que está avassalando o mundo.

Pois bem, qual é o inimigo principal do egoísmo? É a caridade, o amor. E onde encontramos o maior amor?

Em Jesus Cristo. Ele demonstrou esse amor ao instituir a Santíssima Eucaristia. S. João Evangelista começou com estas palavras a descrição desta cena: "Como tivesse amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao extremo."

Por isto, este Sacramento é remédio especial contra o egoísmo; nele encontramos a fonte inapreciável da unidade e da comunidade.

Durante a santa Missa e no momento da Sagrada Comunhão, desaparece todo o orgulho e soberba humana, todo o desprezo e desamor, como na mesma humildade estão ajoelhados um ao lado do outro, o rei e o vassalo, o rico e o pobre, o velho e o jovem, o homem e a mulher.

E, dessa maneira, se realizam as palavras do beato Eymard: "O Santíssimo Sacramento comunica a todos a mesma posição e assim estabelece a verdadeira igualdade." Fora do templo há dignidades e posições, mas na Mesa do nosso irmão primogênito Jesus, todos somos irmãos.

Assim é que a Sagrada Eucaristia une entre si os povos e até a humanidade inteira. Brancos e negros, os habitantes do norte e do sul adoram o mesmo Cristo na santa Missa e recebem o mesmo Redentor na Sagrada Comunhão. É uma verdadeira Liga das Nações: a irmandade dos milhões que se prostram diante do Cristo sacramentado!

Por seu intermédio, Deus se une com o homem e o homem com Deus, e também se unem as almas entre si. E os homens assim unidos dão cumprimento a esta súplica de S. Paulo: "Eu vos rogo encarecidamente, irmãos meus, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais uma mesma coisa e que não haja entre vós dissensões; mas que sejais inteiramente unidos no mesmo pensar e no mesmo sentir."

Os primitivos cristãos se compraziam na imagem do pão amassado de muitos grãos de trigo. Neles viam simbolizado o pensamento de que a Eucaristia é, realmente, o vínculo do amor unitivo.

De fato, o pão e o vinho, considerados como matéria do Sacramento Eucarístico, exprimem admiravelmente a união que deve reinar entre os fiéis, que constituem o Corpo Místico da Igreja.

Com efeito, o pão é constituído por uma multidão de grãos moídos e amassados com água que os liga, servindo-lhes de cimento. O vinho compõe-se, igualmente, de uma multidão de cachos esmagados e reduzidos a um licor único.

Também nós, segundo nos é ensinado neste Mistério, ainda que somos tantos, pelo efeito do Sacramento Eucarístico devemos passar a ser um só, no Corpo sagrado da Igreja e em Jesus Cristo nosso Chefe.

Depois dos livros do Novo Testamento, o mais antigo monumento literário que tem o cristianismo, é o livro chamado Didaché. Nele encontramos a seguinte oração: "Assim como este Pão fracionado esteve espargido pelos montes e recolhido se transformou em um, de modo análogo seja reunida de todas as partes do mundo em teu reino tua comunidade, porque tua é a glória e o poder por meio de Jesus Cristo."

E diz Pio XII na sua encíclica "Sobre o Corpo Místico de Jesus Cristo":

"Ordenou Cristo Senhor Nosso que esta admirável e nunca assaz louvada união que nos une entre nós e com a nossa Cabeça divina, fosse manifestada aos fiéis de modo especial pelo sacrifício eucarístico; no qual o celebrante faz as vezes não só do divino Salvador, mas também de todo o Corpo Místico e de cada um dos fiéis; e por sua parte os fiéis, unidos nas orações e votos comuns, pelas mãos do celebrante apresentam ao eterno Pai o Cordeiro imaculado, presente no altar à voz unicamente do sacerdote, — como vítima agradável de louvor e propiciação pelas necessidades de toda a Igreja. E do mesmo modo que morrendo na cruz, o divino Redentor se ofereceu a si mesmo ao eterno Pai como Cabeça de todo o gênero humano, assim nesta "oblação pura", não só se oferece a si mesmo ao Pai celeste, como Cabeça da Igreja, mas em si oferece os seus membros místicos; pois que a todos, até os fracos e enfermos, tem amorosissimamente encerrados no coração.

O Sacramento da Eucaristia ao mesmo tempo que é viva e admirável imagem da unidade da Igreja, — pois que o pão da hóstia é um, resultante de muitos grãos — dá-nos o próprio Autor da graça sobrenatural, para dele haurirmos o Espírito de caridade, que nos fará viver, não a nossa, mas a vida do Cristo, e amar o próprio Redentor em todos os membros do seu Corpo social.

"Se portanto nas angustiosas circunstâncias atuais houver muitíssimos que se abracem com Jesus escondido sob os véus eucarísticos de tal maneira, que nem a mudez, nem a angústia, nem a fome, nem a nudez, nem os perigos, nem a perseguição, nem a espada os possa separar da sua caridade, então sem dúvida a Sagrada Comunhão, providencialmente restituída em nossos dias a um uso mais frequente desde a infância, poderá ser fonte daquela fortaleza que não raro produz e sustenta o heroísmo entre os cristãos."

O ar consta de hidrogênio e de oxigênio. Se falta o oxigênio, não há vida; se está em menor quantidade, os seres vivos começam a empalidecer e ter vertigens.

Na atmosfera espiritual não pode faltar o oxigênio da cultura religiosa. Em nossos dias diminui a convicção religiosa e escasseia o oxigênio da fé. Não deve, pois, surpreender se toda a humanidade sente um mal-estar e se acha em perigo de afogar-se. Ela se encontra mal, e busca ar; está pálida e sente vertigens, como o homem que se alimenta mal e cujos manjares não têm a quantidade necessária de vitaminas.

Que é que falta ao homem moderno? Dinheiro? Tem mais que em qualquer outro tempo. Comodidade, higiene, diversões? Nunca teve estes fatores em tanta abundância. Ciência, técnica, arte: nisto sobressai o homem moderno a todas as épocas.

Então, que é que falta? O Pão da vida, que é a Eucaristia. E, por isso, não tem paz, nem o indivíduo, nem a sociedade, nem os povos.

Em quantas coisas temos procurado a paz! Quantas vezes nós criamos ter encontrado a felicidade! E hoje em dia está mais longe de nós que em qualquer outro tempo.

O homem moderno, desterrado do paraíso, anda errante e desassossegado, já faz milênios, por esta terra e não encontra a paz. Porquê? Porque este mundo nem sequer pode dar aquela paz que nós anelamos: a paz espiritual duradoura, sem perturbação alguma.

Mas, ouve-se a voz de Cristo Eucarístico: "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz, como o mundo a dá, eu não vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se atemorize." É isto o que nos falta. Os que se enchem do espírito da Eucaristia, serão homens de boa vontade. E a estes promete a mensagem angélica de Belém a paz: "Glória a Deus nas alturas e na terra paz aos homens de boa vontade."

Com a aparição de Jesus Cristo mudou a face do mundo. Toda a vida humana encontrou outra forma no reino de Deus fundado por Jesus Cristo. O reino de Deus é o reino do amor do próximo. O reino de Deus é o reino da vida pura, da moral pura. E a fonte de energias deste reino, sua circulação vigorosa de sangue, seu coração latente, seu pão vivo é a Eucaristia.

Quem não vê, quem não sente a cada passo o imenso perigo, o maior problema de nossa época: o problema do ódio entre os povos, o problema da paz entre as nações?

Sobre as ondas encrespadas deste angustioso problema se verte o óleo sedante da Eucaristia em que está presente Cristo; aquele Cristo cuja oração principal ao final de sua vida foi esta: "Não rogo porém somente por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim por sua palavra. Para que todos sejam um como tu, Pai, em mim e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste." Onde vive com pujança nas almas o culto da Eucaristia, ali chegou o reino de Deus; e com ele chegou também aquele mesmo sem o qual não há vida dignamente humana; chegou a unidade, o amor.

"Ressoe o cântico de gratidão, encha vales e montes. Glória e louvor ao Deus da caridade! Transforme-se a terra em altar em que nosso coração seja o cálice, todas as nossas canções sejam salmos harmoniosos, ondas de incenso nossa fé."

Deus na sua infinita bondade quis elevar o homem a uma altura admirável. Depois de ter formado o mundo e todos os seres, decretou produzir uma natureza superior que devia ser melhor do que o universo inteiro, à imagem e semelhança do seu ser imaterial e de suas infinitas perfeições: criou o homem. "Façamos o homem, disse ele, à nossa imagem e semelhança."

À luz da criação nós não deveríamos ver no homem senão a imagem e semelhança de Deus, imagem e semelhança por toda a parte a mesma e tão bela que nos faria esquecer os acidentes secundários que nos podem distinguir uns dos outros.

Tendo o homem pecado, em lugar de amaldiçoar-nos, Deus venceu o imenso espaço que nos separava dele e veio procurar-nos no fundo da nossa miséria, para nos elevar a uma altura superior à que perderamos. Eis-me aqui, ecce venio, disse o Filho de Deus, e desce dos céus e assume a nossa natureza.

A humanidade contempla a Encarnação do Verbo e lhe diz: "Meu irmão." E é-o com efeito; o sangue que corre em suas veias, é nosso sangue. É irmão dos grandes como dos pequenos. E é dos pequenos que logo quer ser mais semelhante, desposando a pobreza ao mesmo tempo que a nossa natureza.

Jesus, verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do Homem, projeta os seus raios sobre a miserável raça cuja forma humilhada assumiu; na sua luz, todos podem reconhecer a igualdade do seu divino parentesco.

Mas, Deus queria elevar-nos mais ainda! Pela Comunhão de sua carne e do seu sangue, realiza a nossa terceira elevação e mostra a igualdade humana. Somos grandes, porque um Deus semelhante a nós quis viver no meio de nós. Sê-lo-emos ainda mais, se vive em nós. Na Eucaristia opera este prodígio.

Se Deus está na alma dos comungantes, realiza-se uma misteriosa unificação de sua vida com a vida divina. E não será o caso de aplicar-lhes esse axioma: "Quae sunt eadem uni tertio, sunt eadem inter se: os que são iguais ao mesmo termo, são iguais entre si?"

Em vão se procurará uma igualdade mais verdadeira, mais nobre, mais respeitável do que esta. Todas as desigualdades convencionais deste mundo desaparecem diante da real e comum grandeza dos cristãos alimentados com a carne de Cristo.

Tu, ó rico, ó poderoso, ó glorioso, tu deves dizer: a fortuna, o poder, a consideração, as honras, nada são para o que possui o seu Deus.

Tu, ó pobre, ó servo, ó humilde, tu deves dizer: Que me importa a falta dos bens deste mundo, a inferioridade da minha condição, o desprezo dos homens, se possuo o meu Deus? Ambos, estendei as mãos, abraçai-vos e em face da Eucaristia dizei: Deus, ecce Deus! Deus, eis Deus.

S. Paulo escrevia aos Gálatas: "Já não há judeu, nem gentio; nem circunciso, nem incircunciso; nem grego; nem bárbaro; nem livre, nem escravo; nem homem, nem mulher: mas, Cristo é tudo em todos, em quem sois um."

Isto é verdade quando se considera o mistério da nossa incorporação mística pelo batismo; mas quanto mais se se trata da nossa participação do corpo, sangue, alma e divindade do Salvador pela Comunhão Eucarística.

O banquete espiritual a que todos são admitidos sem distinção de categoria, a Mesa santa de que participam os nobres e os plebeus, os ricos e os pobres, os senhores e os servos, e onde todos se tornam divinos, não será o sinal mais expressivo, a mais gloriosa manifestação da nossa igualdade?

Publiquem muito embora proclamações igualitárias, reúnam congressos humanitários, celebrem banquetes de confraternização, nunca lograrão uma igualdade tão verdadeira, tão grande, como a duma Comunhão geral. As almas cristãs compreendem isto e confessam-no humildemente.

As desigualdades sociais e internacionais que nos dividem, são apenas miseráveis acidentes. Como é que a infatuação das grandezas, os desdéns orgulhosos, as invejas, as cóleras podem atormentar o coração dos comungantes que se veem na luz de uma mesma glória divina? Como é que se deixarão arrastar por desejos e rivalidades, verdadeiros jogos de meninos, no momento em que se elevam a tão alta grandeza?

Houve mãos insolentes que escreveram em letras maiúsculas sobre as portas das nossas igrejas esta palavra: "Igualdade!" como para nos dar uma lição. A lição somos nós que a damos. Aceito nos nossos templos a inscrição republicana, mas como reconhecimento de um fato, porque os nossos templos, salas do banquete eucarístico, são os únicos palácios da verdadeira igualdade.

Há mais que uma comunhão de grandeza divina entre os filhos da Igreja, chamados à participação do corpo e do sangue de Jesus Cristo, à uma penetração mútua de generosos serviços, porque a Comunhão converte também a Igreja em reino de verdadeira fraternidade.

"Vós que os orbes dominais e aqui nos nutris mortais, fazei-nos lá comensais, coerdeiros fraternais: Tu, qui cuncta scis et vales, qui nos pascis hic mortales, tuos ibi commensales, coheredes et sodales fac sanctorum civium."

CAPÍTULO XIII

Regras de concomitância

As palavras da consagração do pão: "Isto é meu corpo", significam que isto que o celebrante tem nas suas mãos, é o corpo de Cristo. São palavras efetivas, práticas e como tais produzem e fazem o que significam. Consequentemente, se debaixo das espécies de pão tornam presente o corpo de Cristo, seja vivo ou seja morto, seja com sangue ou exangue, são verdadeiras, produzem o que significam, realizam plenamente a sua significação.

As palavras da consagração do cálice: "Este é meu sangue", significam que, o que o consagrante mostra, é o sangue de Cristo; se debaixo das espécies de vinho que o consagrante tem nas suas mãos, se torna presente o sangue de Cristo, seja circulando nas artérias, seja derramado fora do corpo, estas palavras são verdadeiras, produzem o que significam, realizam plenamente sua significação.

Por meio da regra de concomitância, se torna presente debaixo de cada uma das espécies tudo aquilo que tem necessária e inseparável conexão com o corpo e o sangue de Cristo, pela força e eficiência das palavras da consagração.

Ensina o Concílio de Trento que logo depois da consagração, debaixo das espécies de pão e vinho, existe o verdadeiro corpo de Nosso Senhor e o seu verdadeiro sangue; mas, por força das palavras, o corpo debaixo da espécie de pão e o sangue debaixo da espécie de vinho, e a alma debaixo de ambas as espécies, por força daquela natural conexão e concomitância, com que as partes de Cristo Senhor Nosso, que ressuscitou já dos mortos para nunca mais morrer, entre si se unem; e a divindade por causa daquela sua admirável união hipostática com o corpo e alma.

Vimos que as palavras sacramentais, por sua força e eficiência, põem debaixo da espécie de pão o corpo de Cristo e debaixo da espécie de vinho o seu sangue.

Ora bem; o corpo de Cristo, hoje, de fato, não está separado do seu sangue, não está sem alma; entre o corpo, o sangue e a alma de Cristo existe uma conexão ou ligação física, substancial, natural e sobrenatural inseparável.

Pela força da concomitância, quer dizer: porque as palavras: "Isto é meu corpo", tornam presente o corpo de Cristo tal como, na realidade, existe no momento de serem pronunciadas — esta conexão exige que, juntamente com o corpo, se torne presente tudo o que, de fato e na realidade, é corpo de Cristo, tudo o que a ele está inseparavelmente unido.

O sangue de Cristo, de fato, hoje, no momento em que se põe debaixo das espécies de vinho, não está sem corpo, não está sem alma; entre o sangue, o corpo e a alma de Cristo existe uma ligação natural, substancial, física, sobrenatural inseparável.

Esta ligação, pela força da concomitância, exige que juntamente com o sangue, o qual foi posto pela eficácia das palavras da consagração, seja posto o corpo, a alma e tudo aquilo sem o qual hoje não se pode colocar o sangue de Cristo, tudo aquilo que vai de fato a ele imutavelmente unido.

Não dizemos que sejam duas as forças ou eficiências que põem Cristo inteiro debaixo de cada uma das espécies: uma a das palavras, outra a da concomitância...

Uma só e única é a virtude, eficiência ou força transubstanciadora, a das palavras sacramentais. Tratando-se de seres compostos, as palavras em abstrato podem significar e expressar um só dos seus elementos componentes, com absoluta prescindência dos demais; quando as palavras são práticas, efetivas, quando põem nos altares o corpo de Cristo, como é em si concreta e determinadamente, ainda que pela virtude de sua significação tendam diretamente a pôr aquele determinado elemento, o corpo de Cristo, como de fato, é impossível pôr o corpo sem os demais elementos, por conexão e como indiretamente a mesma virtude e eficiência das palavras sacramentais porão também o sangue, a alma e a divindade, tudo aquilo sem o qual seja impossível, de fato, pôr o corpo de Cristo.

O que as palavras da consagração produzem invariavelmente debaixo das espécies, é o corpo de Cristo, umas; o sangue de Cristo, as outras. O pôr uns ou outros ou todos os demais elementos componentes de Cristo, depende da conexão que com o corpo e o sangue tenham e do estado em que o corpo de Cristo se achou no momento de serem pronunciadas as palavras da consagração. Posto que, o que se faz presente debaixo das espécies sacramentais, é o corpo e o sangue individual e numericamente os mesmos de Cristo, e se tornam presentes com tudo o que são e têm, com todas as suas perfeições internas, exceção feita do modo de existir, o qual é distinto no Sacramento e fora do Sacramento.

Segundo isto, o corpo existente debaixo das espécies que Cristo mesmo consagrou na Última Ceia, era passível e mortal, por concomitância existiam com ele o sangue derramável e mortal, a alma separável e a Pessoa divina do Verbo inseparável.

Se algum dos apóstolos tivesse consagrado nas horas que transcorreram entre a morte de Cristo e sua ressurreição, quando todo o sangue de Cristo jazia derramado fora do corpo:

Debaixo da espécie de pão teria existido: o corpo só de Cristo, sem alma, sem vida, exangue, porém unido hipostaticamente ao Verbo;

E debaixo da espécie de vinho: só o sangue de Cristo, sem corpo, sem alma, sem vida, porém unido hipostaticamente ao Verbo.

Hoje, debaixo da espécie de pão e de vinho, se torna presente o corpo de Cristo vivo, glorioso, imortal, juntamente com seu sangue, com sua alma, com a Pessoa divina do Verbo.

O Verbo divino, a segunda pessoa da Santíssima Trindade e única Pessoa de Cristo, está presente nas duas espécies da Eucaristia. Os títulos desta presença são: o da ubiquidade divina, o de especial operação, e o especialíssimo que o Concílio de Trento expõe com as palavras: por virtude de sua admirável união hipostática com o corpo e com a alma.

Não se torna, pois, a Pessoa do Verbo presente na Eucaristia, por razão da significação formal das palavras sacramentais. Está por verdadeira concomitância, por sua união ou conexão com o corpo, com o sangue, com a alma, conexão que é para sempre e que jamais será destruída.

O Padre e o Espírito Santo estão presentes na Eucaristia, a título da presença própria da ubiquidade divina, a título de uma especial operação, e a título de circuninsessão com a Pessoa do Verbo.

Por concomitância, pois, ainda que não seja direta e própria, por concomitância mediata estão também as duas Pessoas divinas do Padre e do Espírito Santo na Eucaristia.

Pela virtude das palavras sacramentais, o corpo de Cristo; com ele, por concomitância, a Pessoa do Verbo; com ela, por circuninsessão, as outras Pessoas; por concomitância mediata, o Padre e o Espírito Santo.

O Verbo, ou seja a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, está na Eucaristia de uma maneira especialíssima, de modo diferente das outras Pessoas; está como Pessoa, centro de responsabilidade e sujeito da humanidade de Cristo. O que quer dizer que, se, por um fato impossível, o Verbo não estivesse presente por sua divindade, por sua onipresença, se as demais Pessoas não estivessem presentes por circuninsessão: todavia, o Verbo se faria e estaria presente pelo título especialíssimo de ser o sujeito, o centro de responsabilidade, a Pessoa do Homem-Deus.

E daí, deste título nasce que não todas as coisas que se afirmam do Verbo, em relação com este Sacramento, podem ser afirmadas do Pai e do Espírito Santo. Assim, em algum sentido verdadeiro, dizemos que o Verbo feito Homem é oferecido, é sacrificado, é alimento espiritual que pele se converte o pão e o vinho, sem que, em nenhum sentido, possamos afirmar isto do Pai e do Espírito Santo.

O corpo de Cristo é posto debaixo das espécies eucarísticas, tal como especificamente é, tal qual existe no tempo em que as espécies são consagradas. Portanto, não está debaixo das espécies, o corpo do menino Jesus, nem o corpo elevado na cruz; está o corpo ressuscitado e glorioso, tal qual está no céu.

Não somente Jesus Cristo está presente na Sagrada Eucaristia "vere, realiter et substantialiter, verdadeira, real e substancialmente", mas também está debaixo das espécies eucarísticas com todos os órgãos do seu corpo adorável, com todas as faculdades de sua santa alma, com todos os esplendores de sua divindade. Ele nos vê com seus olhos, nos ouve com seus ouvidos. Seus sentidos são fisicamente afetados por nossa presença, quando nos ajoelhamos ante seus pés, diante do tabernáculo.

Bem sabemos que nem todos os teólogos admitem esta doutrina. Creem que Jesus Cristo não goza, no santo altar, dos seus olhos corpóreos; que, devido à inextensão do seu adorável corpo, seus olhos, seus órgãos, seus sentidos permanecem sem funções; que somente nos vê por meio de sua ciência infusa ou sua visão beatífica.

Ao sumo, admitem que os objetos externos podem pôr-se em contato com a santa alma de Jesus por outros meios que não sejam os sentidos. "Nada impede, dizem que Nosso Senhor esteja dotado, como o estão os homens em certos estados extraordinários, de novas potências vitais, que, postas divinamente em jogo, o coloquem em disposição de entabolar negociações conosco por meio de canais mais diretos, dispensando-o do concurso dos órgãos externos da sensação."

Tudo isto é certamente possível. Não obstante, quanto mais singelo parece, mais natural, mais comovedor e mais humano, pensar que, quando oramos aos pés do Santíssimo Sacramento, nos vê ele com seus olhos, nos ouve com seus ouvidos, como via e ouvia seus discípulos e seus apóstolos nas margens do lago de Galileia ou nas cenas da Última Ceia.

Tal era o pensamento de S. Boaventura, chamado o doutor seráfico. Parece-lhe tão evidente que Nosso Senhor se sirva dos seus sentidos corpóreos na Sagrada Hóstia, vendo-nos com seus olhos e ouvindo-nos com seus ouvidos, que aduz isto como um argumento para provar que o corpo de Jesus Cristo está todo e integral debaixo do véu eucarístico.

Suárez, quiçá o maior da segunda geração dos escolásticos, é do mesmo parecer. "Não há dificuldade, disse ele, em supor, que, pelo poder de Deus, os sentidos externos de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, seus olhos, seus ouvidos, obram como quando esteve no meio dos apóstolos."

Outro grande teólogo jesuíta, Lessio, expressa mais radicalmente a mesma opinião: "é muito provável que Jesus Cristo, na Sagrada Eucaristia, por seu poder divino, vê com os olhos do corpo o sacerdote e as mais pessoas presentes e que ouve a sua voz. Posto que Nosso Senhor, nesse Sacramento, reside entre nós corporalmente, deve-se convir em que possa sustentar relações conosco por meio dos seus sentidos corpóreos e que não está ali como que adormecido e morto."

E diz o sábio teólogo Viva que pode crer-se que, na Sagrada Eucaristia, Cristo Nosso Senhor se serve dos seus olhos de um modo natural para ver tudo o que rodeia o altar. Do contrário, seria semelhante a uma coisa morta ou a uma pedra, o que certamente seria indigno de Nosso Senhor.

"Eis partido o Sacramento; não vaciles, lembra, atento, tanto haver sob o fragmento, quanto em si o todo inclui: Fracto demum Sacramento, ne vacilles, sed memento tantum esse sub fragmento quantum toto tegitur."

CAPÍTULO XIV

As aparências ou acidentes eucarísticos

Os acidentes ou espécies sacramentais não são meras impressões subjetivas ou sensitivas, mas realidades objetivas, efetivas, consistentes.

As aparências, acidentes ou espécies são a cor, a dimensão, a figura, o peso, o sabor, todas as qualidades perceptíveis pelos sentidos.

Diz o Concílio de Trento: "Se alguém negar a admirável e singular conversão de toda a substância de pão em o corpo de Cristo e de toda a substância do vinho em seu sangue, permanecendo unicamente as espécies de pão e de vinho, cuja conversão a Igreja Católica chama com suma propriedade transubstanciação: seja excomungado."

Os acidentes eucarísticos de pão e de vinho, longe de serem destruídos, continuam a existir em sua própria indivisibilidade; longe de ficarem reduzidos a meras ficções sensitivas, conservam sua existência, sua entidade, sua realidade, sua objetividade.

O sujeito natural de inerência e sustentação desses acidentes era a substância do pão e do vinho, a qual, porém, deixou totalmente de existir para converter-se no corpo e sangue de Cristo. Os acidentes, pois, do pão e do vinho existem realmente, porém, sem inerência, sem sustentação em seu próprio sujeito.

A ação divina faz que os acidentes se sustentem em si mesmos. Não há nisto nenhuma impossibilidade. Os acidentes se distinguem realmente da substância; portanto, são separáveis e Deus pode fazer por si mesmo o que mediante a ação sustentadora da substância realiza.

Tão pouco existe contradição. Não porque os acidentes se sustentem a si mesmos, deixam de ser acidentes, com tal que conservem a exigência positiva de inerência em outro sujeito, visto o que constitui a essência do acidente não é a inesão atual, senão a exigência de ser sustentado por seu próprio sujeito, e esta exigência fica suspensa mediante a ação onipotente de Deus.

Como os acidentes se sustentam a si mesmos? Várias são as soluções que dão os teólogos. A mais comum é a seguinte: "Deixando de existir a substância, permanece a quantidade do pão e nela como sujeito as qualidades sensíveis."

Pois, a substância corpórea se estende pelo espaço, de tal modo que suas diferentes partes se excluem mutuamente, como também excluem os outros corpos.

Os teólogos católicos admitem e nossos sentidos atestam que as espécies sacramentais podem produzir e produzem todos aqueles efeitos acidentais que antes da cessação da substância produziam.

Pois, o operar é sequência do existir e a ação se adapta sempre à existência. Ora bem, Deus põe nos acidentes a milagrosa virtualidade de que permanecem no mesmo ser que tinham antes da transubstanciação. Logo, conservam e não perdem a atividade e passibilidade que possuíam.

A substância sustenta os acidentes mediante a quantidade, a qual é o sujeito imediato de inerência de todos os demais acidentes.

A quantidade, pois, para existir e para operar necessita naturalmente de ser sustentada por uma substância que faça as vezes de sujeito, mas ela, por sua vez, é sujeito imediato que sustenta todos os demais acidentes sensitivos. As qualidades de odor, de sabor, etc. residem imediatamente na quantidade e mediante ela na substância, enquanto que a quantidade é imediata e diretamente sustentada pela substância.

Se mediante um milagre de sua onipotência, Deus pode fazer que a quantidade fique sustentada em si mesma sem outro sujeito de inerência, os demais acidentes que nela radicam, sem maior dificuldade e como conaturalmente, existirão e operarão sem seu sujeito substancial de inerência.

Pois bem! Deus é quem antes da transubstanciação e mediante a substância, cujas virtudes dEle provinham, sustenta a quantidade. O que Deus faz por meio de outros agentes, pode fazê-lo diretamente por si mesmo.

Suposta a permanência e a sustentação da quantidade em si mesma, dEla fluem os restantes acidentes e os fenômenos sensíveis todos exatamente como antes e sem variação alguma, visto que a substância não operava exteriormente senão mediante a quantidade.

As espécies sacramentais podem corromper-se e se corrompem.

Quando a substância existe debaixo dos acidentes, os agentes exteriores atuam diretamente sobre a quantidade, indiretamente, e por meio dEla sobre a substância. Quando não existe a substância do pão e do vinho, como na Eucaristia, e sim unicamente os acidentes, os agentes exteriores atuam sobre a quantidade, sustentáculo dos acidentes, e a mudam, a alteram e a corrompem.

Se a mudança produzida nas espécies é de tal natureza que já não continuam sendo acidentes de pão e de vinho, Cristo deixa de existir debaixo delas. Eis a razão: Cristo se põe debaixo das espécies de pão e de vinho e não debaixo de outras espécies, forma com elas e não com outras uma união efetiva e real; quando não existem espécies de pão ou de vinho, Cristo deixa de existir debaixo delas.

O corpo de Cristo não se corrompe. Que sucede uma vez corrompidas as espécies? Alteradas até à corrupção as espécies, o corpo de Cristo não se corrompe, não passa a ser outra matéria, visto que Cristo jamais tornará a morrer. O corpo de Cristo não perde a sua existência; deixa de existir ou estar debaixo daquelas espécies; deixa de estar ou existir ali, mas não deixa em absoluto de existir. E deixa de existir sob aquelas espécies e naquele lugar, não para que seja produzida outra substância ou matéria, porém porque deixou de existir o sinal sacramental por ele instituído.

Quando se corrompem as espécies, a presença do Senhor deixa de existir e debaixo de nova forma se produz aquela substância que corresponde aos novos acidentes e que na corrupção natural do pão e do vinho não consagradas sucederia à substância do pão e do vinho.

E as espécies estão corrompidas, quando sob as mesmas não ficaria a substância do pão e do vinho, se não fosse feita a consagração.

Daí se entende como as sagradas espécies possam nutrir. Pois, a nutrição só tem lugar depois de corrompidas as espécies; com essa corrupção, porém, a substância conatural começa a existir debaixo delas e é a que propriamente nutre.

A Sagrada Eucaristia tem uma propriedade comum aos demais sacramentos, qual é a de ser símbolo de coisa sagrada e forma visível da graça invisível. Acha-se, porém, nela esta excelência e singularidade, que os mais sacramentos só então têm virtude de santificar, quando se usa deles. Mas na Eucaristia é o mesmo Autor da santidade antes de todo o uso; porque, ainda os apóstolos não tinham recebido a Eucaristia da mão do Senhor, quando este afirmava, com verdade, ser o seu corpo aquilo que lhes dava.

Esta foi sempre a fé da Igreja de Deus, que, logo depois da consagração, debaixo das espécies de pão e vinho, existe o verdadeiro corpo de Nosso Senhor e seu verdadeiro sangue; mas, em virtude das palavras, o mesmo corpo debaixo das espécies de vinho e o mesmo sangue debaixo da espécie de pão e a alma de ambas as espécies, por força daquela natural conexão e concomitância, com que estão unidas entre si as partes de Cristo Senhor Nosso, que ressuscitou dos mortos para nunca mais morrer. A divindade existe por causa daquela sua admirável união hipostática com o corpo e a alma.

Por cuja causa é verdade suma que tanto se encerra debaixo de cada uma das espécies, como de ambas juntas; pois, todo o Cristo e inteiro existe debaixo das espécies de pão e de vinho e debaixo de qualquer das partes destas espécies.

Cristo está, pois, inteiro debaixo de cada uma das espécies de pão, todo inteiro sob as espécies de vinho. Os evangelistas ao descrever a instituição da Eucaristia, nos referem que Jesus tomou o pão, o partiu, e, dando-o aos discípulos, disse: "Isto é o meu corpo"; que tomou o cálice e dando-o a eles, disse: "Este é o meu sangue".

O Concílio de Trento disse: "Toda a substância do pão se converte na substância do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo e toda a substância do vinho na substância de seu sangue". Parece deduzir-se destas palavras que debaixo da espécie de pão existe somente o corpo de Cristo, e não seu sangue, nem sua alma; e debaixo da espécie de vinho o sangue somente sem corpo e sem alma.

Mas, de fato, debaixo dos acidentes ou espécies de pão está, não somente o corpo, porém o corpo e o sangue e a alma e a divindade de Cristo, todo ele, inteiro e como é; como também debaixo dos acidentes do vinho está, não somente o sangue, senão o sangue e o corpo e a alma e a divindade de Cristo, numa palavra, Cristo totalmente.

E esta é a doutrina sobre os acidentes ou espécies. "Do real não há cisura; do sinal tão só fratura, nem estado, nem estatura certo a Deus se diminui: Nulla rei fit scissura, signi tantum fit fractura, qua nec status nec statura signati minuitur."

CAPÍTULO XV

Humilhações e triunfos da Eucaristia

No caminho dos abatinmentos, a encarnação foi apenas o primeiro passo. O Filho de Deus aniquilou-se, diz o Apóstolo, a ponto de tomar a forma de escravo. Mas, através da humanidade de que se revestiu, vê-se fulgir e resplandecer a sua divina grandeza.

A tranquila beleza do Salvador, a majestosa gravidade do seu porte, o seu nobre caráter e a sua vida santa são outros tantos sinais capazes de despertar a nossa atenção sobre o profundo mistério de sua Pessoa.

E este mistério se manifestava em muitas ocasiões. Umas vezes, por palavras sublimes que assombravam o espírito humano e lhe faziam dizer: "Nunca ninguém falou como fala este homem"; outras vezes, por ordens soberanas que dominavam o espírito das trevas, aplacavam as tempestades da natureza e imperavam à enfermidade e à morte.

Admiráveis manifestações eram estas, que o povo saudava com hosanas, e o Apóstolo com esta confissão: "Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo."

Mas, na Eucaristia, não há clarão de luz e de grandeza; sombras só, abatimentos só. Não somente está oculta a divindade, senão que também a própria humanidade está completamente eclipsada.

Cristo escolheu, para se aniquilar, o pão, substância vulgar que se encontra nas mãos de todos. Procurai-o nesse pão; vós não encontrareis nada, absolutamente nada. Está aniquilado.

E no seu aniquilamento, que fraqueza! Podia ter concentrado nas espécies que o ocultam, uma energia vingadora que o pusesse ao abrigo de toda a tentativa sacrílega. Mas não! Encadeou-se ao seu Sacramento, e se entrega, sem defesa, aos mais ridículos vexames e aos mais horríveis atentados.

Não somente se pode destruir o pobre véu que o oculta; não somente pode ser fechado num canto, ele, o Rei da glória, a uma vergonhosa solidão; mas também o homem pode exercer contra ele todos os furores de sua impiedade.

Os pagãos, os bárbaros, os judeus, os hereges, os apóstatas podem maltratá-lo à vontade. Podem roubar os seus templos, forçar as portas do seu tabernáculo, abrir brutalmente os cibórios, lançar por terra as Hóstias santas, calcá-las aos pés, levá-las para escarnecer numa orgia ou para dá-las aos animais.

Cúmulo de fraqueza! Nem resiste ao chamamento de um sacerdote indigno, a quem dará seu Sacramento para ser o seu verdugo.

Na Eucaristia Cristo está mais fraco do que no presépio, onde tinha suas mãozinhas para repelir os seus agressores, os seus gritos para chamar a sua Mãe; mais fraco do que na cruz, onde comoveu os corações endurecidos. A sua atitude de vítima amorosa e resignada se oculta aos nossos sentidos. E renova-se, continuamente, este mistério, em virtude de sua ordem. Hoje, fazei-o imemoravelmente, fazei isto em memória de mim.

Entretanto, vemos e sentimos em redor da Eucaristia uma luminosa, uma profunda atmosfera de glória e de força que contrasta singularmente com os abatimentos e fraquezas do divino Salvador.

O Sacramento de sua humilhação e de sua impotência é, há dezenove séculos, um objeto de adoração e amor tais como nunca se viram semelhantes a não ser nos céus.

O apóstolo S. João apresenta-nos, no meio da Jerusalém celeste, o trono do Cordeiro rodeado de um imenso exército dos escolhidos, que cantam a sua glória. Na terra verificamos o mesmo espetáculo. Olhai em roda da Eucaristia essa piedade de pessoas absortas e prostradas.

Os homens, cujos trabalhos são a glória do espírito humano, têm feito convergir todas as luzes do seu gênio para essa misteriosa e admirável pequena Hóstia, onde as almas vulgares só veem escândalos.

Com que insistência invocam a palavra de Deus para dissipar as ilusões dos nossos sentidos e vencer a repugnância da nossa razão! Com que perspicácia descobrem as falsificações da heresia! Com que vigorosa lógica demonstram ao espírito humano a impotência das suas objeções! Com que piedosa alegria nos mostram neste Sacramento a coroa dos outros, que prepara a nossa vida terrestre para a glória eterna: o alimento sagrado que sustenta a vida sobrenatural que o batismo nos deu, que a confirmação aperfeiçoa e que a penitência repara!

E não estão sós, esses astros da ciência teológica e da eloquência sagrada, em roda das frágeis aparências da Eucaristia. Os artistas deixam-se levar pela fé, imitando os pensadores. Nenhuma concepção do seu gênio fértil é demasiada bela para honrar dessa pequena Hóstia, que se pode sustentar entre dois dedos.

Vede na redondeza da terra as majestosas basílicas e graciosas cúpulas que se erguem por toda a parte. Quem deve habitar nestes edifícios, os mais belos que se imaginaram e se construíram no mundo? Procuramos neles um trono e achamos neles o tabernáculo com a Eucaristia.

E é para ela para a coroar, que as paredes, os capitéis e as frisas se cobrem de folhagens artísticas, de volutas e de mil outros ornamentos diversos. E é para ela, para lhe fazer corte, que os pintores e os escultores povoam os espaços do templo de figuras, de símbolos, de recordações vivas, onde se vê toda a história do cristianismo.

E é para ela que os poetas compuseram os mais belos hinos, que os músicos criaram as mais belas melodias. E para ela que a Igreja inventou e desenvolve as misteriosas pompas de sua liturgia.

A Igreja nunca receou mostrar ao mundo, na Eucaristia, o objeto de sua profunda veneração e dos seus importantes ofícios, o centro das suas imponentes cerimônias e de todo o seu culto. Ela chamou junto da Eucaristia as almas santas, e vimo-las abismadas, durante longas horas, na oração, presas dos arrebatamentos e dos êxtases de amor.

Ela criou triunfos para a Eucaristia: triunfos nos templos, triunfos nas ruas e nas praças públicas; e o povo concorria com mais ânsia e com mais respeito do que aos triunfos dos reis da terra, saudando, com a sua grande voz, a humilhação e a fraqueza exaltada pela fé.

E diante desta humilhação e fraqueza viram-se príncipes, generais, governantes e soldados, tão corajosos diante da grandeza e da força, dobrarem o joelho e abaixarem as armas. E essa é uma imensa glória!

Os adoradores da Eucaristia, que não sabe defender-se contra as profanações, dali nutriram, em todos os tempos, uma energia divina que enche o mundo de prodígios.

Quem deu aos verdadeiros filhos da Igreja a força de sustentar os combates da vida cristã, de vencer as paixões e destruir na sua alma o império do pecado? Quem deu aos santos a coragem heroica de crucificar a sua carne e convertê-la em hóstia de expiação pelas iniquidades do mundo? Quem fez germinar no seio das sociedades, minadas pelo orgulho, pela ambição, as admiráveis virtudes da humildade, do desinteresse e da castidade? O Pão Eucarístico.

Donde veio aos apóstolos essa divina flama do zelo que os levou a longínquas regiões e lhes faz afrontar mil perigos a fim de ganharem almas para Jesus Cristo? Aos corações compassivos que dispensam às misérias humanas a inexgotável dedicação, nas grandes obras da vida? Do Pão Eucarístico!

Eis, pois, estamos em presença da fraqueza, da glória e do triunfo num mesmo sacramento. Que concluir desses fatos? Simplesmente que na Eucaristia está um ser divino: Jesus Cristo, o Filho de Deus!

Tendes à vossa vista um pedaço de pão, um modesto sinal, e, em roda desse sinal, uma atmosfera, uma irradiação imensa de glória e de força. Evidentemente existe na Eucaristia uma coisa extraordinária e sobre-humana.

Os cristãos glorificam e procuram nela a força de vencer e morrer heroicamente, creem que um Deus se aniquilou e algemou nesse humilde, pobre e fraco Sacramento. Não o veem, não o tocam, e, todavia, acham que nada há mais belo no culto que lhe prestam, não há bem que não esperem dele e estão prontos para morrer, a fim de dar testemunho de sua fé.

Donde lhes vem uma tão firme crença, uma tão absoluta confiança, uma tão generosa resolução? De uma palavra humana? Não, somente da palavra infalível de Deus!

O sacramento de abatimento e de fraqueza nunca teria podido ser objeto de tanta glória e potência, se nele não existisse Deus. A humanidade não o podia ter conservado, durante tanto tempo, se Deus, onipotente, oculto sob as espécies sacramentais, não o tivesse protegido contra todos os desprezos, contra todas as violências.

No meio de povos civilizados, no meio de povos livres, uma Hóstia, contra a qual a impiedade tem cevado todos os seus furores e a razão esgotado todas as suas objeções, uma Hóstia que se pode ultrajar, uma Hóstia, durante dezenove séculos, receber as homenagens do gênio, da ciência, das artes, da fé, do amor, do sangue derramado; uma Hóstia gerar prodígios de virtude e dedicação; isto não se concebe, a não ser que se diga: Deus está lá, fraco e aniquilado é verdade, mas digno de toda a glória e princípio de toda a força.

Afirmamos que Jesus Cristo está na Eucaristia e que se mostra na glória e na força. E quanto mais profundo é o abatimento, quanto maior é a fraqueza, mais viva, mais penetrante, mais triunfante é a demonstração de sua glória, de sua onipotência.

"Pão real, Pastor bondoso, vinde a nós, Jesus piedoso! Ah! nutri-nos cuidadoso, dai-nos no céu, Pai donoso: Bone Pastor, panis vere, Jesu, nostri miserere, tu nos pace, nos tuere, tu nos bona fac videre in terra viventium."

CAPÍTULO XVI

Os postulados eucarísticos e a ciência

O oceano sem fundo que a transubstanciação eucarística nos revela, nos dá conhecimento de um dos mais estupendos prodígios realizados por Jesus Cristo na noite da Sagrada Ceia.

Exclamam os incrédulos que os postulados eucarísticos são impugnados pela ciência. Mas, enganam-se! Entre a fé e a verdadeira ciência não pode haver contradição.

Três coisas são de fé católica com referência à Eucaristia:

o verdadeiro corpo de Jesus Cristo, tal qual nasceu da Virgem Maria, tal qual está assentado à direita de Deus, seu Pai: está contido no Sacramento da Eucaristia;

depois das palavras da consagração, desapareceu toda a substância do pão e do vinho;

os acidentes que os nossos olhos e mais sentidos percebem, tais como a cor, a forma e o gosto, subsistem por um prodígio divino, independentemente de toda a substância e de todo o sujeito.

Deste prodígio nos temos ocupado ligeiramente em diversos capítulos. Agora vamos tratar do mesmo mais em particular.

A humanidade e com ela os luminares do firmamento científico, chamados Platão, Santo Agostinho, Santo Tomás, S. Boaventura, Scoto, Leibnitz, Bossuet, Pascal e cem outros, têm tido sempre por inconcusso que a ciência, em sua genuína e própria significação encerra um conhecimento certo e evidente, incompatível com toda a dúvida racional e fundada.

E eles ensinam, por sua vez, quando entram na esfera dos objetos científicos, quantas coisas podem ser conhecidas por suas causas com certeza e evidência. Os seres que compõem o universo, o mesmo que as relações metafísicas e morais, são susceptíveis de uma demonstração científica.

Tudo quanto existe ou pode existir nos céus, na terra e nas entranhas do inferno, tudo está compreendido dentro dos limites e objeto da ciência, cuja sede é a Inteligência. Afirmamos que a doutrina católica em ordem à Eucaristia, está em tudo conforme com as especulações filosóficas e com o progresso das ciências naturais.

O primeiro postulado eucarístico é a possibilidade intrínseca de que o corpo de Cristo esteja debaixo das aparências de pão e de vinho. Ora, para saber se é possível ou não o que fica indicado, é preciso saber qual é a essência do corpo e o admirável modo de estar o Redentor na Eucaristia.

Mas, não conhecem os incrédulos a essência corpórea nem o modo sacramental como Cristo se coloca na Hóstia consagrada. De fato, a filosofia e as ciências naturais não podem dar uma resposta satisfatória a esta questão.

A essência dos corpos, a sua substância, continua a ser, como sempre, para os filósofos um verdadeiro segredo, um abismo, que causa vertigens às inteligências mais robustas. A ciência filosófica, até hoje se tem confessado impotente para esclarecer, inteiramente, o labirinto que o mistério da substância oferece ao homem.

E as ciências naturais não têm sido mais afortunadas. Os sábios com todos os seus instrumentos e aparelhos de que dispõem, para analisar, fundir e volatilizar os corpos, lograrão dissolver estes, obrigando-os a mudar de cor, de transparência, de tamanho, de estado, etc; mas nunca conseguirão saber qual é a essência que têm tais corpos; jamais poderão dizer-nos em que consiste a substância material, nem quais os seus primitivos elementos.

Disse Newton: "Reconheço que a essência da matéria me é desconhecida. A substância dos corpos somente a entrevejo por suas qualidades sensíveis."

Portanto, nem os filósofos nem as ciências naturais podem afirmar ou negar a intrínseca possibilidade da Eucaristia.

Quanto à maneira como Cristo está na Eucaristia, devemos confessar que é assunto completamente sobrenatural e escapa às investigações humanas. Sabemos pela fé que na Hóstia consagrada está o Salvador, embora ignoremos o como deste mistério.

Assim sendo, nem a filosofia, nem os ramos do saber humano, chamados ciências, podem objetar contra o augusto dogma da Eucaristia. É o Santíssimo Sacramento a última expressão da sabedoria de Jesus Cristo e nenhuma criatura é juiz competente numa obra, cuja instituição foi dirigida pela ciência do Filho de Deus.

O verdadeiro sábio deve adorar a Sagrada Eucaristia, e não tratar de pôr limites ao braço onipotente de Deus.

Aos inimigos da Eucaristia pode-se aplicar a palavra de um grande Papa a um imperador díscolo que queria destruir o pontificado: "A nave da verdade agitada pela tempestade; mas depois da borrasca, segue seu curso grave e majestoso, como o voo da águia na imensidade do espaço." Sim, o Sacramento do Altar, por mais numerosas que sejam as dificuldades que se lhe apresentem, continua a existir e a ser adorado; o dogma eucarístico flutuará sempre sobre a diversidade de opiniões e critérios.

As realidades subsistentes em si mesmas, enquanto substâncias, não exigem estar em um nem em muitos lugares. Assim Deus é substância, e, sem embargo, se acha em todas as partes. A alma é substância, e, não obstante, está toda nas mãos, toda nos pés e toda em cada um dos membros do corpo.

Deus o legislador supremo, exime o corpo de Cristo na Eucaristia da lei comum da localização. Os acidentes são separáveis da substância, como já vimos em outro capítulo.

E é preciso recordar-nos do princípio segundo o qual o corpo de Cristo está na Hóstia a modo de substância e somente como substância, e teremos explanado, sem contradições nem ambiguidades, o mistério da multilocoção do corpo do Redentor na Eucaristia.

Pois, os acidentes, as dimensões, a cor, a figura, o sabor, o tamanho não têm nada que ver com a substância. São coisas realmente distintas e separáveis da mesma pela potência soberana do Criador.

Assim também é falso que a Eucaristia esteja em oposição com o testemunho dos sentidos. Com efeito, o Mistério Eucarístico somente afeta a substância do pão e do vinho. A substância das coisas não cai debaixo dos sentidos; mas é somente objeto do entendimento.

Os objetos próprios dos sentidos são a cor, o odor, o sabor e demais qualidades exteriores dos corpos. A substância, como indica seu próprio nome, está debaixo dessas qualidades e, por isso, existe fora do alcance da potência sensitiva.

Já cantou o materialista Lucrécio que não é dado aos olhos ver a natureza das coisas: ""nec possunt oculi naturam noscere rerum". Pois, sai da esfera do sensível, para entrar na do inteligível.

Diz Santo Tomás: "Neste Sacramento (da Eucaristia) não há nenhuma decepção; pois ali se acham em verdade acidentes que são percebidos pelos sentidos; o intelecto, porém, cujo objeto próprio é a substância, pela fé é preservado de decepção."

Atrás dos acidentes está o corpo do Senhor, em vez da substância, que antes os sustentava. Este corpo não se percebe nesse Sacramento, por não apresentar as condições necessárias para a sensibilidade passiva; por isso mesmo, a vista, o gosto e o tato não podem afirmar nem negar do que ensina a fé em ordem à Sagrada Eucaristia.

Dizer, pois, que a certeza adquirida pelos sentidos desmente o que a fé nos ensina, é o cúmulo da ignorância. É desconhecer a doutrina da Igreja com referência ao Sacramento dos nossos altares.

Aqui o único que poderia enganar-se é o entendimento. Este, de ordinário, infere das aparências sensíveis a existência do corpo ao qual pertencem. Mas, quanto à Eucaristia temos uma exceção, porém não um erro.

O nosso entendimento, fundado na palavra infalível de Jesus Cristo, está certo desta verdade. Na Eucaristia temos os fenômenos, as exterioridades e manifestações da substância do pão e do vinho, mas esta desapareceu, deixando incólumes as aparências, que, segundo assevera o próprio Deus, são como enganosos véus que ocultam aos nossos olhos o corpo divino do Salvador.

Deus não pode enganar-se nem enganar a nós; seus caminhos são a justiça, a verdade e a misericórdia, e sua vontade é infinita, amorosa e onipotente. Ele derroga as leis ditadas às criaturas por sua sabedoria, corrige neste caso o engano em que cairia o nosso entendimento, julgando pelas exterioridades dos corpos, e, por esta razão, o melhor fiador que pode ter a veracidade dos nossos juízos.

A extensão, os corpos, o lugar, o espaço, a substância, os acidentes, a figura, o volume, a grandeza e outras qualidades físicas que antes constituíam o arsenal de armas dos inimigos da Eucaristia, depuseram, por fim, em favor desse importante dogma.

Teólogos, filósofos e naturalistas foram obrigados a confessar que no Mistério Eucarístico se unem e abraçam a ciência teológica e a filosofia, os resplendores do céu e os ensinamentos da terra; pois, nenhum espírito imparcial que tenha estudado a doutrina revelada, pode negar a verdade deste insondável Mistério.

Honra e glória ao Deus da Eucaristia, que estendeu os céus como um pavilhão riquíssimo, fabricou a aurora e lançou ao firmamento a lua e o sol, para que brilhem no espaço prateado, e que, com inteligência infinita confunde a sabedoria da terra e desvanece os arrogantes pensamentos do século.

"Do que não vês, nem alcanças, fornece a fé seguranças fora da ordem natural: quod non capis, quod non vides, animosa firmet fides, praeter rerum ordinem."

CAPÍTULO XVII

O culto eucarístico

Qual é o culto que se deve à Sagrada Eucaristia? Devemos à Sagrada Eucaristia o culto de latria ou de adoração. Este culto é próprio e exclusivo de Deus, princípio, meio e fim de tudo quanto existe. Diz Santo Agostinho: "Latria é o culto devido e prestado somente a Deus"; e S. Boaventura afirma: "Pelo culto de latria, damos a Deus o que é seu, a saber, reverência e honra."

É dogma de fé católica, conforme com as palavras de Jesus Cristo ao instituir a Eucaristia, que nela se acha, habitual e permanentemente, o corpo, o sangue, a alma e a divindade do Salvador, durante todo o tempo em que as espécies sacramentais conservam seu próprio ser.

Quando o Salvador, mostrando aos apóstolos o pão, disse: "Isto é meu corpo", suas palavras eram verdadeiras, independentemente da comunhão que seguiu depois. O ato sacramental nada tem que ver com o objeto e fim do Sacramento. Isto é claro, patente e manifesto.

A presença de Jesus Cristo na Eucaristia é habitual e permanente. Portanto, temos o dever de tributar a este Sacramento as honras que rendemos à própria divindade. Por isso, declarou o Concílio de Trento: "Se alguém disser que no admirável Sacramento da Eucaristia, depois da consagração não está o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas somente no uso, quando se recebe, e não antes, nem depois, e que nas hóstias ou partículas consagradas que se guardam, ou sobejam, não fica o verdadeiro corpo do Senhor: seja excomungado".

Assim também definiu o mesmo concílio esta outra verdade: "Se alguém disser que o Unigênito Filho de Deus no Santo Sacramento da Eucaristia se não deve adorar com culto de latria também externo, e que, por isso, nem se deve venerar com festividade particular, nem se deve levar solenemente nas procissões, segundo o louvável rito e costume da Igreja universal, ou que se não deve expor publicamente ao povo, para ser adorado, e que os seus adoradores são idólatras: seja excomungado".

Com efeito, Jesus Cristo neste Sacramento é o Rei imortal dos séculos, que rege os destinos do universo...

Nosso culto não para nas aparências de pão e vinho. Estas recebem somente a ação dos sentidos. A fé penetra mais fundo: chega a Jesus Cristo que se oculta debaixo das aparências ou espécies.

Não podemos negar, sob pena de sermos ateus, a nossa dependência de Deus. Dele recebemos a substância humana com as faculdades que a caracterizam, o entendimento e a vontade, e o influxo necessário para exercer a nossa atividade.

Devemos, pois, expressar esta dependência com atos humanos, inteligentes e livremente queridos, os quais não deixam de ser atos de verdadeiro culto, feitos em honra da divindade. Assim, à confissão de nossa dependência enquanto ao ser, a chamamos adoração; à expressão da dependência do entendimento recebe o nome de fé, e o de amor a manifestação da vontade.

São três nomes que realmente não significam senão outros tantos modos de tributar culto ao Senhor, de quem dependemos, como de causa primária, de suma verdade, como de bem infinito.

O culto interno, que, sem dúvida, é o principal, deve-se tributar-lhe, porque, sendo Deus espírito e verdade, espiritual e verdadeiramente deve ser adorado.

O externo, porque o homem não só é alma, é também corpo, do qual necessita neste mundo ainda para formar seus pensamentos e está obrigado a manifestar a sua dependência de Deus a respeito de todo o seu ser.

É, por último, o público, porque as coletividades humanas são agregações que provêm de Deus... É preciso que elas lhe deem graças e o reconheçam praticamente por seu fundador e soberano.

O Papa Leão XIII, na sua grandiosa encíclica "Immortale Dei", se exprime do seguinte modo sobre o culto público: "Se a natureza e a razão impõem a cada qual a obrigação de honrar a Deus com culto santo e sagrado... a mesma razão e natureza submetem à idêntica lei a sociedade civil... Honrando a divindade, as sociedades devem seguir restritamente as regras e o modo, por que Deus mesmo declarou que queria ser honrado."

O culto externo... vem a ser de uma imperiosa necessidade para os filhos de Deus; e o culto público, unindo entre si os indivíduos e as famílias, dá vida à sociedade... A abolição do culto externo e público se opõe às exigências da natureza humana e é um atentado contra os vínculos sociais.

Estes princípios que a razão filosófico-teológica demonstra, confirmam a doutrina eucarística. Jesus Cristo sacramentado reclama para si as três classes de culto que acima mencionamos. De fato, ele é o Filho de Deus, que tudo criou, que nos sustém, dando-nos vida e movimento.

Na ordem sobrenatural, a nossa dependência de Jesus Cristo é ainda maior, completíssima e absoluta. Sem ele nada podemos... E se chamamos adoração o ato de confessar que existimos porque Deus nos criou, quanto maior será a nossa obrigação de cair de joelhos diante da Hóstia santa, reconhecendo o Filho de Deus, que nela está, como autor da graça e conquistador invicto da glória.

Nas catacumbas... a Igreja adorava a Sagrada Eucaristia com simplicidade... Mas, logo depois, segundo o testemunho dos santos padres e doutores da Igreja, o culto externo da Eucaristia tomou grande vulto. Eles consideravam a Sagrada Eucaristia como o coração do cristianismo...

Disse o imortal Donoso Cortez sobre as civilizações antigas e modernas: "Contemplai... uma catedral católica, vendo tanta majestade unida a tanta beleza... e direis: aqui passou o maior povo da história, a mais portentosa das civilizações humanas; esse povo teve do egípcio o grandioso, do grego o brilhante, do romano o forte; e sobre o forte, o brilhante e o grandioso, alguma coisa que vale mais do que o grandioso, o forte, o brilhante: o imortal e o perfeito." E essas catedrais prestam culto à Sagrada Eucaristia.

Tirai o culto eucarístico das nossas igrejas e vereis todas as suas pomposas cerimônias sem vida, sem razão de ser, como desaparece a luz do dia, quando se põe o sol.

... as ciências e as artes, a história e a civilização, unidas pela fé, cantam o grave e majestoso: "Este grande Sacramento humildemente adoremos: Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui."

CAPÍTULO XVIII

A Eucaristia e o Brasil

Quid retribuam Domino pro omnibus quae retribuit mihi? Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo.

Que darei eu em retribuição ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito? Tomarei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor.

Se Demóstenes... se Cícero... se Bourdaloue... ninguém deverá admirar-se, se neste momento tremo, tremo ante a majestade da festa hodierna, ofuscado pelo seu brilho excepcional e perturbado por profunda emoção.

Pois, sem os necessários dotes oratórios e sem a devida erudição, deverei falar sobre o primeiro Congresso Eucarístico Nacional, que ontem se iniciou nesta grandiosa Capital; no templo vetusto, em que foi coroado o primeiro Imperador do Brasil... em presença de Sua Eminência Revma., o primeiro Cardeal brasileiro e sul-americano... em presença desta coroa fulgurante de Pontífices... em presença da digníssima Família do Sr. Presidente da República... de maneira que me vejo diante de todo o Brasil católico.

Entretanto, não me foi possível declinar o honroso convite que o ínclito Sr. Presidente do Congresso Eucarístico me dirigiu, porque foi endereçado, implicitamente, ao clero e aos católicos do Rio Grande do Sul, como também à Província Eclesiástica de Porto Alegre, que indignamente represento. Aceitei a pesada incumbência, porque se tratava de prestar uma homenagem à Pátria... Baluarte heroico e invicto no extremo sul do País, tem ele contribuído com vontade férrea e inteligência lúcida, com seu trabalho e sangue, para a defesa das nossas fronteiras, para o progresso ânimo do e sempre crescente, e para o prestígio mundial da Pátria comum...

Tive de aceitar o convite, porque o Congresso Eucarístico, expoente máximo da vida eclesiástica e religiosa do Brasil, quer oferecer um tributo de amor e gratidão...

Por isso, sem receio de contradita, afirmo que o primeiro Congresso Eucarístico Nacional constitui a coroa aurifulgente de todas as festas centenárias, porque oferece ao Deus do universo, ao Deus do Brasil, as devidas homenagens.

Ó Hóstia sagrada de salvação, ó Deus eucarístico, dai-me força e luzes, vinde em meu auxílio: o salutaris hostia, da robur, fer auxilium.

Sempre será bom e útil repetir que o Brasil nasceu sob a égide protetora da Sagrada Eucaristia. Apenas aportaram as caravelas lusitanas às praias viridentes da Terra do Cruzeiro, celebrou Frei Henrique de Coimbra, à sombra de majestosa cruz, o santo sacrifício da missa. Não seria esse o nosso primeiro Congresso Eucarístico?...

Cenas semelhantes repetiam-se constantemente no evoluir dos tempos. Nas ermidas que Anchieta levantava nas selvas virgens, vemos a Sagrada Eucaristia, qual aurora auspiciosa, a derramar luz e força nos corações dos neófitos... Estudai a marcha evolutiva da nossa vida nacional, e vereis que em todas as povoações nascentes a igreja matriz ocupa o lugar principal, e na mesma sobressai o altar do SS. Sacramento... o Brasil se conservou sempre fiel às suas tradições eucarísticas, o que não somente atestam as numerosas irmandades fundadas para zelarem o culto do SS. Sacramento, mas também as populações sertanejas, que hoje como ontem, cantam, com alegria e piedade: "Eu Vos adoro a cada momento, meu doce Pão do céu, meu divino Sacramento."

E não recebeu, porventura, o culto da Eucaristia, durante os últimos cinquenta anos, um impulso prodigioso pelo Apostolado da Oração, pelas Congregações Marianas e mais sodalícios eclesiásticos?...

É justo, portanto, que no centenário da mais brilhante data nacional todo o Episcopado, o clero e os fiéis... lhe tributem homenagens de adoração e agradecimento... e cantem, com júbilo: "Louva, Brasil, o teu Salvador, louva o teu Guia e Pastor com hinos e cânticos. Lauda Sion Salvatorem, lauda ducem et pastorem in hymnis et canticis."

À luz do meio dia, pela praça pública de uma cidade da antiga Grécia caminha... um homem, envolto no manto de filósofo, segurando uma lanterna acesa na mão trêmula. Admirados, os transeuntes o contemplavam. A sabedoria pagã procurava o ideal da humanidade. Diógenes procurava um homem, mas não achou o que buscava, e sua lanterna se apagou...

Dirigiu-se à Acrópole de Atenas... Depois à escola da filosofia, sentando-se aos pés de Sócrates e Platão... mas um dia percebeu que o mestre segredou aos ouvidos do discípulo: "Eu vejo a virtude e a aprovo, mas abraço o vício: video mellora proboque, deteriora sequor". Ao ouvir esta palavra, a sabedoria retirou-se contristada.

Onde achará, porém, o seu ideal? Colocou-se de frente à tribuna de um Cícero... Descontente, a sabedoria visitou os suntuosos palácios de um Augusto e de um Tibério... sentiu no seu íntimo o mais profundo aborrecimento.

Passaram os anos, e a sabedoria humana encaminhou-se, pelo tempo da Páscoa, ao Cenáculo de Jerusalém. Lá estava o Homem-Deus, o ideal da humanidade, cuja doutrina era celeste e cuja vida era divina, instituindo o SS. Sacramento, para perpetuar sua presença entre os homens e ser alimento espiritual. Jesus Cristo solucionou, assim, os magnos problemas que a humanidade não pode resolver...

As aparências eucarísticas encerram real e verdadeiramente Nosso Senhor... A Hóstia Sagrada nos transmite, como uma nuvem luminosa, raios da luz que circunda o trono do Altíssimo.

Davi nos dá uma grandiosa ideia de Deus: Sua ira... mas, se a harpa de Davi houvera de exaltar os contos que a Eucaristia nos revela, acerca do Deus do Sinai, oculto na Hóstia por nosso amor, o mais profundo desânimo se teria apoderado do rei profeta... O Deus da Eucaristia, tão pobre, tão humilde, é o vivificador infinito... reside na Sagrada Hóstia como soberano de toda a criação, mas também como nosso amigo e pai.

Esta é a inefável ideia que formamos da divindade aos pés de Jesus sacramentado, ideia que nos eleva e consola, nos conforta e anima... A Eucaristia alarga o horizonte do saber humano, nos dá uma ideia elevada da divindade de Jesus Cristo...

Rafael Santi, afamado pintor italiano, dotou o Vaticano de uma obra prima que representa a suprema ciência de Deus, a teologia, e, talvez, impropriamente chamada "Disputa do Sacramento". A magnífica pintura mural reproduz dois mundos, o céu e a terra. No superior, vemos as pessoas da SS. Trindade... No plano inferior avulta, sobre formoso altar, uma custódia com a Sagrada Eucaristia... A Eucaristia domina a todos e a todos inspira, guia e leva ao triunfo.

O cristianismo... estendeu sua ação regeneradora aos confins da terra, espalhando os benefícios da civilização cristã. Começou a travar-se a luta encarniçada entre o cristianismo e o paganismo...

Ora bem, em que fonte beberam esses atletas do cristianismo as forças necessárias para regarem com seu generoso sangue a árvore dezenove vezes secular... Quem lhes conferiu essa energia indomável... Que arma, até então desconhecida, empregaram naquele duelo de morte, que abalou para sempre a civilização pagã? Quem lhes deu esse poder que obrigou os sábios, os guerreiros e legisladores dotados, sem dúvida, de muito valor, a dizerem: Victi victoribus leges dederunt: Os vencidos ditaram leis aos vencedores?

A fonte dessa força sobre-humana, essa arma nova e desconhecida, esse poder atlético era a Sagrada Eucaristia, o pão dos fortes, que dava ânimo aos mártires nos anfiteatros e vigor aos fracos. Naqueles tempos heroicos da Igreja, comungavam os fiéis em todas as missas...

Ora, a Eucaristia, hoje como no princípio do cristianismo, possui o mesmo poder e a mesma força sobrenatural. Nobre, portanto, e digno de calorosos aplausos, é o fim que este Congresso se propõe, de propagar e intensificar o culto prático da Sagrada Eucaristia no coração do fiel, no seio das famílias e na vida social... dizendo bem alto: Eis, o pão dos anjos, feito alimento para os peregrinos, pão divino que o Pai celeste oferece aos seus filhos: Ecce panis angelorum factus cibus viatorum, vere panis filiorum.

Sobre o caos do mundo primitivo, adejava o Espírito de Deus. Um ato de sua vontade onipotente fez surgir este admirável cosmos...

É verdade que as estrelas continuam a cintilar no firmamento e que o sol ilumina o universo; mas o sol de dia e as estrelas de noite alumiam um caos de calamidades, de ruínas morais, e nos falam das misérias com que luta a pobre humanidade.

Levantemos, pois, por cima do mundo atual a Sagrada Eucaristia. Ela pronunciará um novo fiat, que reorganizará a vida social. Com efeito, Jesus eucarístico nos repete hoje a mesma palavra que outrora proferiu na sua vida terrestre: "Miseréor super turbas: Tenho compaixão dos povos". Vinde a mim, vós todos que estais carregados de trabalhos, eu vos aliviarei! Infelizmente, porém, quantos desprezam este amável convite!

Mais de uma vez, ouvimos dizer: Dai aos povos liberdade, igualdade e fraternidade, e o mundo será a antesala do Paraíso. Longe de negar esta asserção, aliás um resumo do Evangelho, eu a confirmo; pois, a terra seria o vestíbulo da glória, se os homens fossem verdadeiramente livres, iguais e irmãos. Não devemos, porém, confundir a liberdade com a revolução, nem a igualdade com a abolição de classes, nem a fraternidade com o ódio a todos os que a natureza ou o trabalho elevou acima dos demais.

A Eucaristia nos ensina que a liberdade consiste na libertação de nós mesmos dos vínculos do erro e do pecado, no reconhecimento das verdades divinas, na observância do decálogo... Sim, a liberdade genuína consiste no cumprimento da lei de Deus, tem por companheira a virtude e por termo a vida eterna, nasce aos pés do altar, e o homem torna-se livre, quando se declara escravo do SS. Sacramento.

E poderá haver igualdade mais sublime do que a ensinada pela Eucaristia? Por mais que se excogitem fórmulas para alisar as arestas das desigualdades sociais, nenhuma resolve este problema de um modo tão equitativo como o SS. Sacramento. Pois, fidalgos e plebeus, sábios e ignorantes apresentam-se à mesa eucarística, unidos em santa harmonia de pensamentos e afetos, recebendo sobre os lábios purificados pelo arrependimento, a Hóstia Santa, que lhes nutre a vida da alma... todos ouvem a mesma palavra divina: Amai-vos mutuamente, como eu vos amo.

A mesa eucarística nos ensina que todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai celeste, porque a caridade que brota do Coração de Jesus Sacramentado destrói os muros egoístas... Esta fraternidade é a única que tem poder para reconciliar homens com homens, povos com povos, nações com nações, hoje principalmente, quando tudo ameaça desmoronar...

Promover, portanto, o culto da Sagrada Eucaristia é patrocinar a solução dos mais importantes problemas sociais, é obra do mais acrisolado patriotismo. Cair de joelhos diante de Jesus Sacramentado, foco de amor e de luz, é progredir no caminho da regeneração social!

Bem haja, pois, o Congresso Eucarístico que soube tão sabiamente unir os interesses da Religião e da Pátria, tributando a Jesus Cristo merecidas honras e merecidos louvores, em vista dos inúmeros benefícios que o Brasil tem recebido durante os cem anos de sua independência política e de sua existência nacional... e, com razão exclama: Que retribuirei ao Senhor pelo amparo e proteção que nos tem concedido? Tomarei o cálice da salvação, o Sacramento do amor, a Sagrada Eucaristia, para apresentar este Divino Sacramento a todo o País e a todo o mundo, e invocaremos o santo nome do Senhor. Quid retribuam Domino pro omnibus quae retribuit mihi? Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo.

No século quarto, lutavam diante das portas de Roma dois imperadores: Maxêncio e Constantino... A cruz que brilhava no alto com o lema: In hoc signo vinces, animou os soldados cristãos no prélio sanguinolento.

Nas lutas hodiernas contra o erro e o neopaganismo, aparece no cerúleo firmamento brasileiro um novo sinal de salvação, que eclipsa a constelação do Cruzeiro. É o astro da Eucaristia, mais radiante que o sol meridiano: In hoc signo vinces! Com este sinal venceremos!

Senhor onipotente, que encobris com as espécies sacramentais vossa Majestade infinita... continuai a proteger a Terra de Santa Cruz... aceitai os trabalhos deste Congresso como homenagem sincera do Brasil, nossa querida Pátria, que vos ama e vos adora, e sempre cantará, com fé profunda, o hino da Sagrada Eucaristia, o epinicio do nosso amor: Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui. Amen.

CAPÍTULO XIX

O Brasil protegido pela Eucaristia

Era em 1640. A Baía estava a ponto de cair sob o jugo holandês. Arrebatado por uma inspiração patriótica, o Padre António Vieira quis reanimar os brios dos brasileiros e fazer uma santa violência ao céu.

Na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, ele expôs solenemente o Santíssimo Sacramento na presença de grande multidão de povo. Diante da Sagrada Eucaristia exposta, ele fez um sermão, notável pela sua grande eloquência, inspiração e originalidade...

Em sacro colóquio, dirige-se diretamente, ao Redentor, oculto na Eucaristia. A Baía salvou-se da invasão holandesa. Deste admirável sermão transcrevemos alguns trechos.

"Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum: levantai-vos Senhor, ajudai-nos e salvai-nos pelo vosso nome... Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão."

"Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido."

"Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor senão justiça... como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome: Propter nomen tuum..."

"Já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhes dais ou permitis: Já dizem que porque a sua, que eles chamam religião é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vence, e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos... É possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra a vossa fé? É possível, que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege que Deus está holandês? Não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois... Propter nomen tuum."

"Já que o pérfido calvinista dos sucessos... faz argumento da religião... veja ele na soda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade... Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana, que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa."

"Finjamos pois que vem a Baía e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges: não perdoarão a estado, a sexo nem a idade..."

"Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo... Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras, arrebatarão essa custódia, em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos... e não perdoarão às mãos furiosas e sacrílegas, nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria."

"Em fim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á o culto divino; nascerá herva nas igrejas como nos campos; não haverá quem entre nelas... Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão, nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos... e em lugar de S. Jerónimo, e Santo Agostinho ouvir-se-ão e eleger-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero."

"Beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem... e chegaremos a estado, que se perguntará aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, eu sou calvinista, outro, eu sou luterano."

"Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a S. Pedro, examinaste-lo três vezes, se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas?"

"Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer, e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas, e tais estragos. — E se é assim, Senhor... se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória... não digais que nos não perdoais, porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias."

"Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso... Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios: que, se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar, e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos em fim, para que a vosso exemplo perdoemos; e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor."

"Devoto eu te adoro, ó Deus escondido, oculto embora sob estas aparências; a ti meu coração entrega-se todo, que todo desfalece em tua presença: Adoro te devote, latens Deitas, quae sub his figuris vere latitas; tibi se cor meum totum subjicit, quia, te contemplans, totum deficit."

CAPÍTULO XX

A Eucaristia e o cumprimento do dever

Soldados do Brasil! Soldados do Brasil! Invocação mais bela não posso dirigir-vos, nome mais patriótico não vos posso dar. Porque vós sois os defensores da nossa gloriosa Bandeira, sois os reivindicadores da honra da estremecida Pátria.

Viestes hoje a este templo para cumprir um dever religioso, para receber a Sagrada Comunhão que contém verdadeira, real e substancialmente o Nosso Senhor Jesus Cristo.

É uma solenidade que os Militares em todo o Brasil realizam anualmente. Por isso, chama-se Páscoa dos Militares.

Santo Tomás diz no seu hino que a Sagrada Eucaristia é "cibus viatorum: manjar dos peregrinos", porque, enquanto peregrinarmos sobre a terra, nossas almas necessitarão desse divino alimento.

O homem moderno chegou a conquistar quase todo o mundo: possui tudo, menos a paz. Temos muita ciência, muita literatura, muitas máquinas... Mas de que nos servem todas estas coisas, se não temos tranquilidade social, moralidade e honradez individuais, se não temos religião? Que é que nos espera? Qual será o final?

Um escritor, sem ser cristão, traça ao fim de sua novela, este quadro comovedor da humanidade atual: Um trem expresso corre com velocidade vertiginosa. Os passageiros todos estão ébrios. Embriagado está o condutor da locomotiva e bêbado está o foguista... A locomotiva fica sem direção, corre e corre... Assim, parte da humanidade atual, sem religião, sem Deus, viaja pela noite e precipita-se no abismo.

Ora, quem crê com fé viva na Sagrada Eucaristia, não somente tem uma convicção religiosa firme e encontrou uma base sólida, mas, com isso, achou a paz entre o desassossego e a luta presente.

E nós no Brasil devemos-lhe a nossa grandeza moral e nossa prosperidade. Ela tem acompanhado a Nação em todas as emergências quer na paz, quer nas guerras. E agora, quando as nossas Forças Expedicionárias se preparam para marchar ao campo de batalha, a fim de lutar contra o Eixo, oferece, com seus filhos, capelães militares e abençoa o nosso exército.

Quem recebe a Sagrada Eucaristia, ganha força e ânimo, não somente para suportar os sacrifícios e lutas da vida, senão para abraçá-los, com alma jubilosa, e sentir assim, no meio da luta, a paz verdadeira. A Sagrada Eucaristia dá a necessária força para vencer os inimigos internos que são nossas más inclinações e nossos vícios.

Quando o sacerdote... diz: Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz. Nossa alma não tem a paz. A Sagrada Eucaristia nos proporciona a paz.

Quero lembrar-vos o seguinte fato histórico: Quando os holandeses ameaçaram a Baía, o Padre António Vieira, expôs o Santíssimo Sacramento numa custódia e fez uma prece a Jesus sacramentado... A oração do Padre Vieira foi atendida. Os brasileiros cobraram nova coragem, novo ânimo, venceram o inimigo, proclamando sua estupenda vitória.

Hoje celebramos o aniversário da batalha de Riachuelo. Era em 11 de junho de 1865 que o Almirante Barroso, depois da celebração da santa missa a bordo de um navio de guerra, proferiu as memoráveis palavras: "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever". A mesma frase repetimos hoje, porque também tem valor na atualidade. O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.

Quem cumpre suas obrigações para com Deus, desempenha mais facilmente seus deveres civis e militares.

Disse Deus ao homem: "Adorarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração". Porém, quantos homens há que não respeitam esta ordem divina! Quantos adoram, em vez de Deus, as riquezas, as honras e o poder. Vemos isto na Europa escravizada por um homem que não adora e nem reconhece, na sua loucura, a existência de Deus. Transformou a Europa em sangue e ruínas, para satisfazer o seu desejo de dominar as nações.

E quantos não há possuídos pelo desejo de acumular riquezas com o sacrifício dos pobres... Portanto, é preciso recristianizar o mundo, implantando de novo o espírito verdadeiramente cristão de caridade e justiça, para que Deus seja adorado por todos.

Por isso, Deus exige e a Pátria espera que cada um cumpra o seu dever.

"Dão-no aos bons, e aos maus é dado. Mas, diverso é o resultado: vida, ou sim, perda final. Morte aos maus, aos bons é vida. Aos que é dada igual comida, como o efeito é desigual...: Sumunt boni, sumunt mali, sorte tamen inaequali vitae vel interitus. Mors est malis, vita bonis, vide paris sumptionis, quam sit dispar exitus."

CAPÍTULO XXI

O nosso Congresso Eucarístico

O congresso eucarístico, seja ele diocesano, provincial, nacional ou internacional, constitui uma grande solenidade religiosa.

Nós adoramos, principalmente, a Sagrada Eucaristia nos templos, onde lhe oferecemos as homenagens do nosso louvor e adoração. Esta adoração se faz em silêncio... A luz trêmula de uma pequena lâmpada, que parece o ritmo de um coração que pulsa, indica o caminho até Jesus-Hóstia que mora em nosso meio.

Mas, algumas vezes, nosso amor ardoroso não se contenta com essa silenciosa homenagem da oração. A Igreja sente, algumas vezes, a necessidade de tomar nas suas mãos o precioso tesouro do altar e sair com ele do silêncio do templo, sair fora, no meio das ocupações diárias da vida, no meio do ruído das ruas.

Para que nossa fé no Santíssimo Sacramento se conserve sempre viva, é preciso renová-la com exercícios de uma confissão pública. Com este fim, realizam as paróquias, anualmente, a procissão do Corpo de Deus, aclamando em marcha triunfal Cristo sacramentado.

Os congressos eucarísticos são grandiosas reuniões de católicos, bispos, sacerdotes e seculares. Nestas reuniões, por meio de práticas religiosas, conferências e pregações se consolida a fé na Sagrada Eucaristia, dando-lhe maiores proporções.

Mas, não é possível honrar, condignamente, a Sagrada Eucaristia, sem uma vida verdadeiramente cristã. Por isso, é preciso, primeiro, conhecê-la, depois amá-la, depois levar uma vida eucarística, e, finalmente, festejá-la, com solenidade. Para conseguir essa finalidade, faz-se mister que os fiéis se preparem, devidamente, alcançando uma sincera regeneração espiritual.

Que é um congresso eucarístico? Uma manifestação imponente da unidade perfeita da nossa fé e das proporções magníficas do catolicismo. As marchas triunfais mais célebres da história empalidecem, comparadas com esses congressos. Pálida, na verdade, é a entrada triunfal de um César ou de um Constantino...

Que se vê nessas assembleias? Vemos os bispos e arcebispos que chegam de todas as partes do País, os sucessores dos apóstolos... Vemos os tesouros amontoados da ciência e da santidade de vida, de teoria e prática, da cultura e sabedoria...

E o centro desta assembleia majestosa será o Mestre sob as espécies da branca Hóstia. Não será o interesse nem o sentimentalismo, nem a política, nem outro motivo semelhante o que impulse a esses homens a comparecer... senão a fé inquebrantável na presença eucarística de Cristo.

Não será necessário afirmar que, em última análise, o objetivo do nosso Congresso será transformar a homenagem do País em regeneração e desagravo nacionais, voltar novamente o rosto do povo brasileiro mediante o Filho de Deus ao Pai celestial. Esse é o fim principal, o fim primário.

Qual é o último fim deste certame? É acender nas almas a fé e o amor a Jesus sacramentado, para que mediante o apreço mais consciente e o amor prestado à Sagrada Eucaristia se robustece a fé da Nação em Deus, e que em consequência dessa fé robustecida possa a Nação gozar a alegria de uma vida mais harmônica, mais pacífica e feliz.

O que será ademais disto o nosso Congresso? Um protesto vibrante ainda que mudo. Uma resposta solene, imponente em seu próprio silêncio a todos aqueles que dizem que a Igreja Católica não tem mais força, a todos aqueles que pretendem extirpar a fé dos corações humanos. Será um protesto solene de adesão ao Santo Padre, o Papa...

Nossas homenagens se dirigirão à Sagrada Eucaristia, ao Santíssimo Sacramento. E quem sabe o que o Sacramento do Altar significa, não achará exageradas as maiores solenidades. Pois, o Santíssimo Sacramento é Cristo que continua a viver entre nós. O Senhor viveu trinta e três anos na terra sob a figura humana... "Não vos deixarei órfãos," disse aos seus discípulos na Última Ceia. "Eu estarei sempre convosco até à consumação dos séculos", disse no momento da despedida.

E ele cumpre a promessa no sentido literal mediante a Sagrada Eucaristia... Onde quer que haja no mundo um tabernáculo, contendo uma Hóstia sagrada, quer dizer, a Eucaristia, ali está Cristo presente, ali vive Cristo entre os homens, no seu símbolo, não seu pensamento, senão o mesmo Jesus Cristo vivo e vivificador, nosso divino Redentor.

Se ninguém se escandaliza da pompa com que se recebe a visita do Chefe da Nação, muito menos deve estranhar o fausto e o aparato com que nos congressos saudamos a Sagrada Eucaristia. Porque nela, segundo a nossa fé inabalável, não homenageamos o primeiro Magistrado da Nação, mas a quem devemos nossa alma e nossa redenção, homenageamos a Jesus Cristo.

Mas, ele foi pobre e ia descalço: pode ser do seu agrado, consentâneo com sua maneira de ser, tanta solenidade? Assim objetam alguns.

Eles não têm razão. Porque, se o Filho de Deus na sua vida terrestre aceitou espontaneamente por amor a nós, a humilhação e a pobreza, não se pode tirar daí a consequência de que ele tenha de continuar a ser humilhado e abandonado para sempre.

Cristo foi humilhado e foi pobre durante trinta e três anos; porém depois não mais. E na Sagrada Eucaristia não está presente somente o Cristo que foi pobre e se humilhou a si mesmo, senão também o Cristo que triunfou da morte, o Cristo que subiu glorioso ao céu; o Cristo que está sentado à direita do Pai; o Cristo que virá a julgar os vivos e os mortos.

... Deus também o exaltou e lhe deu um nome que supera a todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, na terra e nos infernos, e toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai.

Consequentemente, se Cristo está de fato no Santíssimo Sacramento, como na verdade está, é digno de ser o centro do nosso respeito, amor e adoração.

Assim como outrora em Israel se conduzia processionalmente a arca da aliança, da mesma maneira levaremos na procissão de encerramento do nosso Congresso, pelas ruas desta cidade, o Senhor e Deus oculto sob as espécies ou aparências do Santíssimo Sacramento.

Como nas vésperas de sua paixão e morte seguia a multidão o Salvador com palmas e ramos, cantando hosana, hosana, assim acompanharemos então a Sagrada Eucaristia pelas artérias desta Capital.

Ante o céu e a terra e ante os anjos e os homens, confessaremos a nossa fé viva e inabalável na Sagrada Eucaristia... De novo ressoarão hinos de triunfo entoados ao Santíssimo Sacramento. Romperemos o silêncio dos templos e com a maior solenidade prestaremos, publicamente, culto de adoração ao Santíssimo Sacramento.

Na Sagrada Eucaristia... o céu se abate até à terra, a terra se eleva até ao céu, o tempo e a eternidade se tocam de modo incrível. Milhões e milhões de espíritos celestes e de bem-aventurados se inclinam diante da Sagrada Eucaristia, porque se Jesus Cristo, oculto sob as espécies de pão, dimaná toda a graça sobre as criaturas, deslizam em arroios de luz a caridade e a justiça.

A terra, o mar, as estrelas, o mundo todo canta seus louvores. Do seu lado dimaná o princípio da vida sobrenatural... Rei de todos os corações, ele é a base da vida sobrenatural, a força que sustenta e mantém o universo.

Diremos então: Abençoai, Senhor, esta Cidade, abençoai os enfermos, abençoai o Governo do Estado e todo o Rio Grande. Abençoai o Presidente da República e todo o Brasil.

"Canta, ó língua, o mistério daquele corpo glorioso, e do sangue precioso, fruto do ventre sagrado, que derramou o Rei das gentes para redenção do mundo: Pange, lingua, gloriosi corporis mysterium, sanguinisque pretiosi, quem in mundi pretium, fructus ventris generosi, Rex effudit gentium."

Que o Quinto Congresso Eucarístico Nacional a realizar-se em Porto Alegre, por determinação do Exmo. Senhor Núncio Apostólico, possa dignamente, enfileirar-se aos precedentes, são os nossos sinceros votos.

Esta nossa Pastoral será lida, registrada e arquivada, como de costume.

Et benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.

Porto Alegre, 13 de Setembro de 1944. † JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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