
A PAZ DE CRISTO E A SANTIFICAÇÃO DOS HOMENS
DÉCIMA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1923)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Proêmio
Na perturbação da ordem geral que se alastra por todos os países, levanta-se altíssima a voz do Pai da cristandade, ecoando de um extremo do mundo civilizado ao outro, à semelhança do Fiat omnipotente que o Criador proferiu sobre o caos universal. Do alto do Vaticano, volve Pio XI o seu olhar paternal a todos os países, lastimando a desordem reinante e as desgraças que campeiam por toda a parte. Em face de tamanhas calamidades que assoberbam a humanidade, em prejuízo do indivíduo, da família e das instituições sociais, civis e religiosas, o Sumo Pontífice dirige sua palavra autorizada às nações, a fim de conseguir que a paz se restabeleça em todos os departamentos da sociedade humana.
É, por isso, de suma importância a primeira Encíclica publicada pelo Santo
Padre e que começa pelas palavras "Ubi arcano Dei". Neste documento
estuda ele a situação geral da atualidade, descrevendo os males que a perturbam
e indicando os meios para solucionar os problemas que preocupam a atenção de
todos os povos.
A segunda Encíclica que nesta Pastoral publicamos versa sobre o
tricentenário de São Francisco de Sales, e nela concita o Santo Padre os homens
à prática da virtude e da santidade. Servem-lhe de título as duas palavras Rerum
omnium, porquanto as Encíclicas dos Sumos Pontífices costumam-se denominar
segundo as primeiras palavras que começam.
Consideramos a publicação em vernáculo destes dois documentos pontífícios de necessidade
real e de muita importância. Pois, o Santo Padre fala como Vigário de Jesus
Cristo e quer que sua voz seja ouvida por todos os católicos, embora habitem as
regiões mais afastadas de Roma.
Entretanto, quantos sacerdotes terão conhecimento exato desses trabalhos realmente notáveis de Pio XI? Pois, a imprensa do país publicou quase só resumos das referidas Encíclicas. E quantos serão os sacerdotes e leigos que assinem e leiam a revista oficial da Santa Sé Acta Apostolicae Sedis, publicada em língua latina?
Já se vê que os simples fiéis, em geral, pouco ou nada sabem do que o Santo Padre lhes diz, recomenda ou ordena, e, contudo, todas as ovelhas do seu imenso rebanho devem ouvir sua palavra e seguir o caminho que lhes indica.
CAPÍTULO II
Resumo da encíclica Ubi Arcano Dei
Só a paz de Cristo, diz o Papa, pode reformar o mundo e reconduzi-lo ao caminho da felicidade. E, por isso, se propõe como divisa de sua ação pontifical, as expressivas palavras: ''Pax Christi in regno Christi'', a paz de Cristo a obter-se pelo reino de Cristo, ou seja, a pacificação do mundo pelo reinado de Jesus Cristo, o que significa que os homens e a sociedade humana somente podem conquistar e conservar a felicidade e a verdadeira paz, pela observância fiel dos ensinamentos e preceitos do divino Salvador.
Assim é que, nesta primeira Encíclica, Sua Santidade Pio XI nos fala sobre o início do seu Pontificado, referindo-se às primeiras tristezas e alegrias que experimentara. Em seguida, se ocupa da perturbação universal da paz no seio dos povos, indicando os gravíssimos males que reinam na ordem internacional e causam tremendas lutas entre as diferentes classes sociais e os partidos políticos, bem como desagregam a família e afligem as almas, e depois deplora, de modo especial, os males na vida espiritual, superiores aos danos causados na ordem material e temporal.
Constatados os males, o Santo Padre aponta as suas causas, que se resumem no triunfo do direito da força, e no menosprezo da dignidade humana, no flagelo da tríplice concupiscência, no nacionalismo desmedido, na perversão crescente dos indivíduos e das nações, na apostasia de Deus, de que resultou a anarquia na sociedade, na laicização do matrimônio, que arruinou a família, e no banimento de Deus da escola.
Depois de fazer o diagnóstico geral dos males que combaliram o organismo social, passa a indicar-lhes o remédio eficaz: a paz de Cristo, que se funda sobre a justiça temperada pela caridade, inconciliável com a procura imoderada dos bens terrenos, e que se baseia na dignidade sobrenatural do homem.
Como remédio à anarquia, indica as lições de Cristo e declara
que a Igreja é única depositária das verdades salvadoras da sociedade, e que só
ela pode restabelecer a paz no presente e consolidá-la no futuro, acrescentando
que a constituição de um tribunal internacional sem o auxílio da Igreja é uma
verdadeira utopia, porquanto só ela, por ser essencialmente supranacional, pode
garantir a inviolabilidade do direito das gentes.
Todas estas condições hão de realizar-se pelo império dos ensinamentos e
preceitos de Jesus Cristo sobre os indivíduos, a família e a sociedade, o que
Pio XI quer exprimir na sua divisa, que resume a norma de agir de Pio X e Bento
XV, a saber: restaurar tudo em Cristo e pacificar o mundo; pax Christi in regno
Christi.
Para a realização de seus trabalhos apostólicos, o Santo Padre apela para o auxílio dos Bispos, que são só os seus colaboradores natos, do clero secular e regular e do laicato católico, externando ideias sobre a possibilidade da continuação do Concílio Vaticano, sobre a eficácia da colaboração dos Bispos com a Santa Sé, sobre a piedade cristã, sobre o reino social de Cristo e as obras sociais católicas.
Elogia o zelo dos sacerdotes seculares, manifesta uma confiança especial na ação das Ordens e Congregações Religiosas, faz menção honrosa aos leigos católicos e condena, como perigos novos, o modernismo moral, jurídico e social, recomendando a vigilância sobre a formação da mocidade e do clero.
Dirige-se Pio XI às ovelhas afastadas do redil de Jesus Cristo,
convidando-as para voltarem à casa paterna; refere-se, com satisfação, às
relações amistosas que as nações mantêm com a Santa Sé; prescreve à Igreja
normas a seguir em matéria política.
Quanto à questão romana, lamenta a ausência da Itália no concerto das nações
católicas, protesta contra o regime italiano de garantias e declara que a
Itália só ganhará com a sua aproximação à Santa Sé. Concluindo, concede a
Benção Apostólica ao clero, ao povo fiel e às nações, como penhor da paz de
Cristo.
Advertimos ainda que as divisões foram por nós introduzidas em ambas as Encíclicas.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO I
Carta Encíclica Ubi Arcano Dei
Veneráveis Irmãos: Saudação e Bênção Apostólica.
Desde o primeiro instante em que, pelos inescrutáveis desígnios de Deus, vimo-nos elevados — sem merecê-lo — a esta cátedra da verdade e da caridade, desejamos vivamente dirigir-vos o quanto antes e com maior afeto nossa palavra, veneráveis irmãos; e por meio de vós nos dirigir a todos vossos amados filhos diretamente confiados a vosso cuidado. Julgamos haver dado uma prova desse vivo desejo quando, recém-eleitos, desde o alto na basílica vaticana, demos a solene bênção Urbi et orbi na presença de uma imensa multidão; bênção essa que todos vós, desde todas as partes do mundo, unindo-se ao Sacro Colégio Cardinalício, recebestes com manifestações de agradecida alegria. Essas manifestações foram para nós o mais doce consolo, que foi acrescentado à confiança no auxílio de Deus que havia à ocasião em que foi lançado inesperadamente sobre nossos ombros o peso tão inesperado deste gravíssimo cargo. Hoje, por fim, na antevéspera do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, e quase no começo de um novo ano, nossa boca está aberta para vós e desejamos que ela vos chegue como solenes votos que o Pai envia a todos seus filhos.
Várias causas nos impediram até agora de realizar esse desejo. Foi necessário, em primeiro lugar, corresponder à filial atenção e delicadeza dos católicos de todo o mundo, que por meio de inumeráveis cartas saudavam e ofereciam as primeiras expressões de sua ardorosa devoção ao novo sucessor de São Pedro.
CAPÍTULO II
As primeiras tristezas de Pio XI
Em seguida, começamos a sentir imediatamente as primeiras experiências pessoais daquilo que o Apóstolo chamava minha preocupação quotidiana, o cuidado de todas as igrejas [2Cor 11, 28]. E às preocupações ordinárias do nosso ofício acrescentaram-se outras novas: a de concluir os gravíssimos assuntos que encontramos já iniciados no que diz respeito à Terra Santa e ao estado de sua cristandade e de suas igrejas, que são as mais veneráveis dentre todas; a defesa da justiça e da caridade, como é nosso dever, em ocasião das conferências internacionais das potências vencedoras, nas quais se julgava o destino dos povos, exortando especialmente a se ter em conta os bens espirituais, cujo valor não é inferior, mas sim superior aos bens materiais; os auxílios prestados a imensas multidões de povos longínquos consumidas pela fome e toda classe de calamidades — ajuda que levamos a cabo enviando os maiores socorros que permitiam nossos pobres recursos — e implorando ao mesmo tempo a generosidade do mundo inteiro; finalmente, o esforço para apaziguar no próprio povo em que nascemos, e em cujo centro Deus colocou a Sé petrina, as lutas violentas que frequentemente surgiam, e que pareciam pôr em iminente perigo a própria sorte da nação tão amada por nós.
CAPÍTULO III
As primeiras alegrias de Pio XI
Todavia, não faltaram neste tempo extraordinários acontecimentos que nos encheram de alegria. Porquanto, tanto nos dias do XXVI Congresso Eucarístico Internacional quanto nas solenidades do III Centenário da Sagrada Congregação da Propagação da Fé, nossa alma chegou a experimentar uma abundância tão grande de celestiais consolos, que superou facilmente todo o júbilo que nós poderíamos esperar nas primícias do nosso pontificado. Tivemos então a ocasião de falar pessoalmente com cada um de todos os nossos veneráveis irmãos bispos, reunidos em tão grande número, que dificilmente poderemos vê-lo maior em muitos anos. Pudemos receber também grandes multidões de fiéis, insignes representantes da inumerável família que o Senhor nos havia confiado, de toda tribo, língua, povo e nação, como se disse no Apocalipse, e dirigir-lhes, como era nosso desejo, nossa palavra paterna. — Na ocasião desses acontecimentos presenciamos espetáculos verdadeiramente divinos: vimos a Jesus Cristo, nosso Divino Redentor, oculto sob os véus eucarísticos, avançar triunfalmente pelas ruas de Roma, seguido de um importante cortejo de fiéis vindos de todas as partes, a fim de recuperar aos olhos de todos a honra que lhe é devida como Rei dos homens e das nações; vimos sacerdotes e seculares manifestarem publicamente seu abrasado espírito de oração e apostolado, como se sobre eles houvesse descido um novo Pentecostes; vimos como a fé viva do povo romano se anunciava de novo, como no passado, para a glória de Deus e salvação das almas, perante todo o universo. Entretanto, a Virgem Maria, Mãe de Deus e benigníssima Mãe nossa, que já nos havia sorrido amorosamente nos santuários de Czenstochowa e de Ostrabama, na milagrosa gruta de Lourdes e, sobretudo em Milão desde o fastígio do Domo e no santuário vizinho de Rho, pareceu dignar-se aceitar a homenagem de nossa piedade quando, após restaurado o santuário de Loreto que fora destroçado pelo incêndio, quisemos restituir a esse venerável santuário a sagrada imagem artisticamente reconstruída junto a nós e por nós mesmo consagrada e coroada. Este foi um esplêndido triunfo da Santíssima Virgem, no qual participaram com nobre emulação, desde o Vaticano até Loreto, as populações fiéis de todos os povos do itinerário e das proximidades, com uma espontânea e luminosa afirmação de sua fé religiosa, na qual sobressaía ao mesmo tempo sua profunda devoção a Maria e ao Vigário de Cristo.
O significado desses acontecimentos, tristes e alegres, cuja recordação queremos registrar aqui para a posteridade, foi-nos esclarecendo pouco a pouco o dever principal que nos era imposto no sumo pontificado e o que deveríamos escrever em nossa primeira encíclica.
CAPÍTULO IV
Os males presentes
Com efeito, é um fato evidente a todos que nem os indivíduos, nem a humanidade e nem os povos conseguiram ainda uma paz verdadeira depois do desastre da guerra. Ainda se espera a tranquilidade ativa e frutífera desejada por todos. Mas é necessário, em primeiro lugar, examinar cuidadosamente a magnitude e a gravidade desse mal, e em segundo lugar analisar suas causas e raízes se se quer, como nós queremos, aplicar-lhe eficaz remédio. Este é o objeto que por dever de nosso ofício apostólico nos propomos a tratar nesta encíclica e o fim que nunca cessaremos de depois procurar com toda solicitude. O mundo continua nas mesmas circunstâncias que durante todo o tempo de seu pontificado encheram de angústia e preocupação o espírito de Bento XV, nosso predecessor. Consequentemente, portanto, fazemos nossos os mesmos pensamentos e propósitos que ele tinha nessa matéria. E é de se desejar que todos os homens de boa vontade se identifiquem com nossos sentimentos e nossos propósitos e colaborem conosco para impetrar de Deus, em favor dos homens, uma sincera e duradoura reconciliação.
CAPÍTULO V
Na ordem internacional
Parecem escritas para os nossos dias aquelas palavras dos grandes profetas: Esperávamos a paz e nenhum bem nos chegava; o tempo do remédio, e eis que só havia o temor [Jer 8, 15]; Esperávamos a paz, e não temos nenhum bem; o tempo da cura, e eis-nos todos em perturbação [Jer 14, 19]. Por esta causa se afastou de nós o juízo, e não nos alcança a justiça… Esperamos o juízo, e não aparece; a salvação, e ela está longe de nós [Is 59, 9.11].
Com efeito, cessou na Europa a guerra entre os beligerantes de ontem, mas aparece o perigo de novas guerras no Oriente Próximo; a situação agravou-se terrivelmente em territórios imensos, conforme já dissemos, onde desgraçadas multidões inquietas, principalmente velhos, mulheres e crianças, parecem diariamente estar sob o flagelo da fome, das epidemias e das devastações; nos próprios territórios que foram palco da guerra mundial não cessaram as velhas rivalidades, que continuam dissimuladas na política, encobertas nas flutuações financeiras e descaradas nos periódicos diários e nas revistas; e chegam a invadir os campos dos estudos, das ciências e da arte, cuja natureza não é própria das amargas contendas. Esta situação de troca recíproca de inimizades e ofensas entre Estados é o motivo que não deixa os povos respirarem; não são somente as inimizades entre os Estados vencidos e os Estados vencedores; são os próprios Estados vencedores que atuam entre si como inimigos: uns se queixam da opressão e exploração que sobre eles exercem os Estados poderosos; estes, por sua vez, protestam que são objeto dos ódios e das insídias daqueles.
Todos os Estados, sem exceção, experimentam as tristes consequências da guerra passada; em maior medida, certamente, experimentam os Estados vencidos; mas agora inclusive os mesmos que se viram livres da guerra suportam agora seus efeitos. Esses males vão se agravando a cada dia, pois o remédio eficaz demora, sobretudo porque as diversas propostas e as repetidas tentativas dos homens de Estado para remediar a situação foram até agora inúteis e inclusive contraproducentes. Por isso, o temor crescente de novas guerras mais calamitosas obriga a todos os Estados a viverem preparados para a guerra; preparação essa que esgota o erário público, esgota o vigor da raça e perturba a vida intelectual, religiosa e moral dos povos.
CAPÍTULO VI
A luta social das classes
E o pior é que às inimizades internacionais são acrescidas as discórdias interiores, que põem em perigo a firmeza do Estado e a segurança da própria sociedade.
Em primeiro lugar, a luta de classes, convertida já em mortal úlcera arraigada dentro das nações, que ameaça de morte a agricultura, a indústria e o comércio; em uma palavra: todos os instrumentos da prosperidade privada e do bem-estar público. E esse mal foi se agravando cada dia por conta da crescente cobiça de uns pelos bens materiais, e pela obstinação de outros em retê-los em suas mãos, e pela ânsia de riquezas e de poder comum a ambos. Daí nasceram as frequentes greves, voluntárias ou forçadas; os tumultos populares e as repressões coletivas, o descontentamento comum e o dano de todos.
CAPÍTULO VII
O espírito faccioso dos partidos políticos
No terreno político é preciso acrescentar a luta entre os partidos, dirigida frequentemente não já por uma serena diversidade de opiniões e pela busca sincera do bem comum, mas sim pelo desejo de fazer prevalecer os interesses próprios em detrimento dos demais. Por isso vemos multiplicarem-se as conjurações, sucederem-se atentados e os atos de bandidagem contra os próprios cidadãos; e contra os governantes as ameaças terroristas, as insurreições manifestas e outras desordens semelhantes. A gravidade desses fatos é tanto maior quanto mais participa o povo do Estado, tal como sucede nas modernas formas de governo. Formas que, embora não estejam em contradição com a doutrina católica, que é sempre conciliável com toda forma de governo justa e razoável, estão, todavia, muito mais expostas que às outras ao jogo desleal dos grupos subversivos.
CAPÍTULO VIII
Tribulação das almas
E da mesma maneira que o mal-estar geral de um organismo ou a doença de uma de suas partes principais repercute sobre as partes menores, assim também as enfermidades da sociedade e da família redundam necessariamente em cada um dos seus indivíduos. Ninguém ignora a mórbida inquietação de espírito e a indisciplina social que se apoderaram dos homens de toda classe e idade; o desprezo da obediência e a impaciência do trabalho converteram-se em costume; a frivolidade da mulher e da jovem ultrapassaram o limite do pudor, sobretudo nas vestimentas e no baile, exacerbando com seu excessivo luxo o ódio daqueles que carecem de tudo; finalmente, o crescimento numérico daqueles reduzidos à miséria, que provê às hordas revolucionárias contribuição permanente de um ingente número de pessoas.
Também a confiança e a segurança deram lugar a perigosas preocupações e a perturbados temores; no lugar do trabalho e da prontidão, a inércia e a indolência; no lugar da ordenada tranquilidade, que mantém as coisas em paz, reina em todos os lugares a confusão e a perturbação. Essa situação explica a prostração da indústria, a crise do comércio internacional, a decadência da literatura e da arte e, o que é muito mais grave, o desaparecimento da vida cristã em muitos lugares, até ao ponto que a humanidade, longe de avançar indefinidamente rumo a um autêntico progresso, como pregam os homens, parece retroceder para uma nova barbárie.
CAPÍTULO IX
Na ordem espiritual
A todos os males que enumeramos é preciso acrescentar, por sobreposição, aqueles outros que o homem animal não percebe e que são os mais graves do nosso tempo. Estamos falando dos danos causados na esfera dos bens espirituais e sobrenaturais, que estão intimamente ligados à vida das almas. Esses danos são tanto mais lamentáveis quanto aqueles relativos aos bens materiais, quanto maior é a superioridade do espírito sobre a matéria. Porquanto, ademais do esquecimento geral dos deveres cristãos que recordamos, é para Nós, assim como para vós, veneráveis irmãos, uma grandíssima dor ver que a maior parte das muitas igrejas destinadas a usos profanos em decorrência da guerra não foram devolvidas ao culto; que numerosos seminários, fechados pela mesma razão, e tão necessários para a formação dos mestres religiosos dos povos, continuam, todavia, fechados; a diminuição geral do clero em muitas nações, causada pela morte dos sacerdotes que sucumbiram na guerra exercitando seu sagrado ministério, e pela infidelidade daqueles outros que, sob o peso dos perigos, esqueceram-se das obrigações; por causa disso, em um número muito grande de lugares silenciou-se aquela pregação sagrada, tão importante para a edificação do corpo de Cristo. Desde os extremos confins da terra até o seio de países longínquos, muitos dos nossos missionários foram chamados à sua pátria para ajudar na guerra, abandonando assim os campos de seu apostolado, tão fecundos e tão úteis à humanidade e à religião.
No entanto, foram poucos os que voltaram incólumes aos seus postos de trabalho. Embora seja certo que esses danos tenham sido compensados com excelentes frutos. Porquanto, por um lado, ficou demonstrado – contra a calúnia generalizada dos inimigos – que os sacerdotes têm um amor extraordinário por sua pátria e uma profunda consciência de seus deveres, e, por outro lado, muitos soldados, nos umbrais da morte, reconciliaram-se com o sacerdócio e com a Igreja, movidos pelo exemplo diário de abnegação e de valentia daqueles. Isso nos deve levar a admirar a bondade e a sabedoria de Deus, que é o único que de um mesmo mal pode tirar um bem.
CAPÍTULO X
O triunfo do direito da força e o menosprezo da dignidade humana
Até aqui expomos os males da nossa época. Analisemos agora suas causas, embora já tenhamos indicado algo delas. Em primeiro lugar, veneráveis irmãos, parece-nos escutar o divino Consolador e Médico das enfermidades humanas repetindo aquelas palavras: Todos esses males procedem de dentro [do homem] [Mc 7, 23]. É certo que se firmou solenemente a paz entre os beligerantes, mas essa paz que ficou escrita nos documentos diplomáticos não ficou gravada nos corações; persevera, todavia, nos homens o espírito de guerra, que redunda no dano cada dia maior da sociedade civil. A lei da violência tem predominado em todos os lugares por muito tempo, e foram se apagando pouco a pouco os sentimentos de bondade e de misericórdia, inatos ao homem e aperfeiçoados pela lei da caridade cristã; e esses sentimentos não foram minimamente restaurados nessa pretensa paz escrita nos papéis.
O hálito prolongado do ódio criou em muitos, talvez em muitíssimos homens, como que uma segunda natureza; e reina aquela lei cega, contrária à lei do espírito, que o Apóstolo lamentava sentir em seus membros. Com demasiada frequência sucede que o homem não é para o homem um irmão, como manda Cristo, mas um estranho e um inimigo; não se tem em conta para nada a dignidade da pessoa humana; só vale a força do número; luta-se mutuamente com o único e comum fim de apoderar-se do maior número possível de bens desta vida. Nada está hoje tão estendido na humanidade como o desprezo dos bens eternos que Cristo oferece continuamente a todos por meio da Igreja, e [também, nada tão estendido quanto] o apetite insaciável dos bens efêmeros e caducáveis desta terra. Ora, os bens externos têm uma característica: se são apetecidos desordenadamente, produzem todo gênero de males, sobretudo os ódios e a corrupção dos costumes. Porquanto, sendo em si mesmos vis e baixos, não podem saciar plenamente o coração humano que, criado por Deus e destinado a gozar de sua glória, há necessariamente de viver preocupado e inquieto enquanto não descansar em Deus.
Ademais, porque esses bens são radicalmente limitados, quanto maior é o número dos que participam deles, menor é a quantidade que cada um recebe. Os bens espirituais, por outro lado, ainda que sejam repartidos dentre muitos, o enriquecimento de todos não implica sua diminuição. É por isso que os bens terrenos, por sua insuficiência para satisfazer a todos por igual e por sua incapacidade para saciar plenamente cada um, convertem-se em fontes de discórdias e amarguras, vaidade das vaidades… e aflição do espírito, como sabiamente os classificou Salomão, depois de havê-los experimentado em sua totalidade. Fato comprovável igualmente na sociedade humana e nos indivíduos. Donde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências?
CAPÍTULO XI
O flagelo da tríplice concupiscência
Porque não há peste social maior que a concupiscentia carnis, ou seja, o apetite imoderado de prazeres, pelo influxo perturbador que ele exerce sobre as famílias e sobre os povos; da concupiscentia oculorum, ou seja, a sede de riquezas, surgem amargas contendas na ordem civil, fazendo que cada um busque cada vez mais servir a si mesmo; e há a superbia vitae, ou seja, a paixão que visa dominar a todos os demais, e que costuma conduzir os partidos políticos às lutas civis tão ásperas, que elas não retrocedem nem perante o crime de lesa majestade, nem perante a alta traição e nem perante o próprio parricídio da pátria.
CAPÍTULO XII
O nacionalismo desmedido
A esta imoderada ambição, que se encobre com as mais altas razões de patriotismo e de bem público, é preciso atribuir os ódios e os conflitos que costumam se produzir entre as nações. Porque o amor à pátria e ao próprio povo, embora sejam poderosas fontes de virtudes e de atos heroicos quando regidos pela lei cristã, convertem-se em semente de inumeráveis injustiças e iniquidades quando, violando as regras da justiça e do direito, degeneram em um nacionalismo imoderado.
Os que se deixam dominar por esse nacionalismo exacerbado esquecem-se não somente de que todos os povos, enquanto partes da universal família humana, estão unidos entre si pelas relações de fraternidade, e que também esses demais povos têm direito à vida e à prosperidade, mas também se esquecem, ademais, que é ilícito e contraproducente separar a utilidade da bondade moral. Porquanto A justiça exalta as nações; o pecado torna miseráveis os povos. A aquisição de vantagens para uma família, cidade ou Estado, em detrimento das demais, poderá parecer a certos homens um fato excelente e magnífico; mas, como adverte sabiamente Santo Agostinho, esses êxitos não são nem definitivos e nem estão isentos do perigo da ruína total: "É uma felicidade que tem o brilho, mas também a fragilidade do vidro, no qual sempre se teme a desgraça de que se quebre de repente".
CAPÍTULO XIII
Perversão dos indivíduos e a exclusão de Deus
Mas é preciso, com efeito, investigar mais a fundo as causas da ausência dessa paz; paz esta desejada por todos como remédio de tantos males. Muito antes da guerra europeia, por culpa dos homens e dos Estados, vinha preparando-se a principal causa de tantos desastres: causa que deveria haver sido suprimida pelas urgentes proporções do conflito armado, se todos houvessem entendido o profundo significado de tão tremendos acontecimentos. Porquanto, quem ignora que na Escritura se diz que aqueles que abandonam o Senhor perecerão? Nem é menos conhecida aquela sentença tão grave de Jesus Cristo, Redentor e Senhor dos homens: Sem mim, nada podereis fazer; e aquela outra: Quem não colhe comigo, desperdiça.
Sentenças divinas verificadas em todos os tempos, mas realizadas agora com maior evidência aos olhos de todos. A humanidade afastou-se, por desgraça, de Deus e de Jesus Cristo. Por isso veio a cair desde o estado anterior de felicidade nesse abismo de males, e por isso fracassam com frequência todos os intentos realizados para reparar os males e salvar os restos de tantas ruínas. Excluiu-se Deus e Jesus Cristo da legislação e do governo e foi colocado no homem, e não em Deus, a origem de toda autoridade; por isso as leis perderam a garantia das verdadeiras e imperecíveis sanções e ficaram desligadas dos princípios soberanos do direito, cuja única fonte, segundo os próprios filósofos pagãos, como por exemplo Cícero, era a lei eterna de Deus. Os fundamentos da autoridade desapareceram ao suprimir-se a razão fundamental do direito do governante a mandar e a obrigação dos governados de obedecer. A consequência inevitável foi o cataclismo de toda a sociedade humana, carente de toda base e defesa sólida, e convertida assim em presa das facções políticas que lutam pelo poder, e que buscam seus próprios interesses e não os interesses da pátria.
CAPÍTULO XIV
A laicização do matrimônio arruinou a família
Rejeitou-se igualmente o direito de Deus, o direito de Jesus Cristo de presidir à origem da família, reduzindo o matrimônio a um mero contrato civil, que Jesus Cristo havia feito sacramentum magnum e que havia querido que ele fosse figura, santa e santificante, do vínculo indissolúvel que Lhe une com sua Igreja. E assim presenciamos o obscurecimento crescente e a debilitação progressiva no povo da ideia e do significado que a Igreja havia infundido no gérmen primeiro da sociedade, que é a família; a desaparição da hierarquia e da paz domésticas; a perda cada dia maior da união e estabilidade familiares; a frequente violação da santidade do matrimônio, causada pelo fervor dos baixos apetites e pelo anseio mortal de vis interesses, que trazem consigo o envenenamento das fontes mesmas da vida familiar e nacional.
CAPÍTULO XV
O banimento de Deus da escola
Enfim, excluiu-se Deus e Cristo da educação da juventude, e a consequência inevitável foi não já a mera ausência da religião nas escolas, mas a guerra, aberta ou velada, contra a religião no ensino e a convicção das crianças da nula ou escassa importância daqueles princípios que se deve ter para viver retamente, guardando sobre eles um absoluto silêncio ou fazendo deles objeto de explicações saturadas de desprezo. E assim, com o desterro de Deus, da sua lei e de seu ensinamento, já não há possibilidade de educar as almas infantis para evitarem o mal e levar uma vida virtuosa, nem de proporcionar à família e à sociedade homens sóbrios, retos, amantes da ordem e da paz, idôneos e capazes de contribuir para a prosperidade pública. Desprezados, pois, os preceitos da sabedoria cristã, não nos admira que a semente da discórdia semeada por todas as partes, como em um terreno bem preparado, tenha terminado por produzir aquela espantosa guerra que, em lugar de apagar com o cansaço os ódios internacionais e sociais, não fez outra coisa senão alimentar esses ódios com violência e sangue.
CAPÍTULO XVI
Remédio ao ódio
Enumeramos brevemente, veneráveis irmãos, as causas dos males que abatem atualmente a sociedade. Analisemos agora os remédios que, dada a natureza desses males, sejam adequados na cura da sociedade. É necessário, em primeiro lugar, que reine a paz nos espíritos. De muito pouco serviria uma aparente paz exterior que regesse e informasse como pura fórmula de cortesia as recíprocas relações dos homens; é necessária uma paz que invada e tranquilize os espíritos, inclinando-os e preparando-os para uma benevolência fraterna para com os demais. Essa paz é a paz de Cristo: que a paz de Cristo reine em vossos corações; nem pode haver outra paz além daquela que Ele dá aos seus; Ele, que, por ser Deus, vê as entranhas dos corações e reina nas almas. Com razão pôde Jesus Cristo chamar sua esta paz, porque Ele foi o primeiro que disse aos homens: Vós sois todos irmãos, e quem promulgou a lei da caridade e paciência mútua entre todos os homens, selando-a de certo modo com seu próprio sangue: O meu preceito é este: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.. Levai os fardos uns dos outros: desta maneira, cumprireis a lei de Cristo.
CAPÍTULO XVII
A paz de Cristo, fundada sobre a justiça e a caridade
Segue-se claramente do que foi dito que a genuína paz de Cristo não pode apartar-se da norma da justiça, porque é Deus quem julga segundo a justiça e porque a paz é obra da justiça; mas essa paz não pode consistir somente em uma inflexível e dura justiça, senão que deve ser temperada por uma caridade que a supere, virtude esta essencialmente adequada para estabelecer a paz entre os homens. É Jesus Cristo quem conquistou essa paz para o gênero humano; mais ainda, segundo a enérgica frase de São Paulo, Ele mesmo é nossa paz; porque, ao mesmo tempo que satisfazia em sua carne sobre a cruz a justiça divina, destruindo em si mesmo à inimizade… fazendo a paz, e reconciliou em si mesmo todos os homens e todas as coisas com Deus.
Na mesma redenção de Cristo, São Paulo considera e reconhece não tanto a obra da justiça, embora certamente o seja, mas a obra divina da reconciliação e da caridade: porque era Deus que reconciliava consigo o mundo em Cristo; Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito. O Doutor Angélico expressa esse pensamento dizendo, com sua costumeira exatidão, que a autêntica paz verdadeira pertence antes à virtude da caridade do que à virtude da justiça, pois a justiça tem por missão remover os obstáculos da paz, como são as injustiças e os danos; mas a paz, por sua própria essência e caráter, é um ato de caridade.
CAPÍTULO XVIII
A paz de Cristo é inconciliável com a procura imoderada dos bens terrenos
A essa paz de Cristo que, nascida da caridade, penetra e reside no mais íntimo da alma, aplica-se com razão a palavra de São Paulo sobre o reino de Deus, que se apossa das almas pela virtude da caridade: O reino de Deus não é comida e nem bebida; ou seja, a paz de Cristo não se alimenta de bens caducos, mas daquelas realidades espirituais e eternas cuja superior excelência Cristo em pessoa revelou ao mundo e não cessou de mostrar aos homens. Nesse sentido disse: Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que dará um homem em troca da sua alma?. E ensinou em seguida a constância e firmeza de alma que deve possuir o cristão: Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. E não é que para gozar dessa paz seja necessário renunciar aos bens deste mundo; ao contrário, Cristo mesmo promete-lhes em abundância: Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Somente a paz de Deus está acima de todo entendimento, e precisamente por isso domina as cegas paixões e evita as dissenções e discórdias, que são necessariamente provocadas pela ambição das riquezas.
CAPÍTULO XIX
A paz de Cristo baseia-se na dignidade sobrenatural do homem
Se a virtude refreia as paixões, e as realidades do espírito recobram o posto de preferência que lhes é devido, logra-se espontaneamente a dupla vantagem da qual a paz cristã assegura ao mesmo tempo a integridade dos costumes e a dignidade da pessoa humana; dignidade que, resgatada pelo sangue de Cristo, foi consagrada pela adoção do Pai celestial e o parentesco fraterno com o mesmo Cristo; e que pelas orações e pelos sacramentos é feita participante da graça e da natureza divina até que, como recompensa de uma vida virtuosa na terra, goze eternamente da possessão da glória celestial.
CAPÍTULO XX
Remédio para a anarquia: as lições de Cristo
E conforme anteriormente indicamos, uma das principais causas da confusão atual é a debilitação da autoridade do direito e do respeito à autoridade — certamente provocada por aqueles que negam que a origem do direito e do poder advêm de Deus, criador e governante do mundo. Esse mal encontrará também seu remédio na paz cristã, que é a própria paz divina, e por isso mesmo ela deseja o respeito à ordem, à lei e à autoridade. Com efeito, que é confirmado pela Escritura: Conservai, filhos, em paz, a minha disciplina; Os que amam a tua Lei, gozam de muita paz; quem teme o preceito viverá em paz. E nosso Senhor não se contentou em mandar Dai a César o que é de César, senão que declarou publicamente seu respeito à autoridade que Pilatos havia recebido do alto, cumprindo assim o preceito que havia dado a seus discípulos de respeitar aos escribas e fariseus, que haviam se sentado na cadeira de Moisés. E é admirável a alta honra que atribuiu à autoridade dos pais na vida de família, submetendo-se exemplarmente à Maria e a José. E sua é, finalmente, a lei promulgada pelos apóstolos: Toda a alma esteja sujeita às autoridades superiores, porque não há autoridade que não venha de Deus.
CAPÍTULO XXI
A Igreja, única depositária das verdades salvadoras da sociedade
Se se considera, ademais, que a doutrina e os preceitos de Cristo referentes à dignidade da pessoa humana, à pureza moral da vida, à obrigação de obedecer, à ordenação divina da sociedade humana, ao sacramento do matrimônio e à santidade da família cristã; se se considera, dizemos, que essas e outras verdades que Ele trouxe do céu para a terra e entregou-as unicamente à sua Igreja, com a solene promessa de sua perpétua ajuda e presença, e encarregou a Igreja para que não deixasse de ensiná-las com o magistério infalível a todas as nações até o fim dos séculos, facilmente se compreenderá os grandes e eficazes remédios que a Igreja católica pode e deve oferecer para a pacificação do mundo.
CAPÍTULO XXII
Só a Igreja pode restabelecer a paz no presente
Porque, tendo sido a Igreja constituída por Deus como a única intérprete e depositária dessas verdades e preceitos, é ela a única que tem poder eficaz para, em primeiro lugar, libertar a vida doméstica e a civil da mácula do materialismo que já causou danos tão grandes nessas duas sociedades, e assim introduzir nelas a doutrina cristã acerca do espírito, ou seja, acerca da imortalidade da alma, que é uma doutrina muito superior à toda filosofia; para unir, ademais, entre si todas as classes sociais e todo o povo mediante sentimentos de uma mais profunda benevolência e o espírito de uma verdadeira fraternidade, e levantar a dignidade humana, defendida como corresponde, até às mesmas alturas de Deus; e para, finalmente, procurar que, com a reforma moral e a santificação da vida provada e pública, tudo fique submetido plenamente a Deus, que olha os corações, em conformidade com seus ensinamentos e preceitos, e desta maneira, persuadidos todos os homens, governados e governantes, de seus sagrados deveres de consciência, Cristo seja tudo em todos nas próprias instituições públicas do Estado.
CAPÍTULO XXIII
Só a Igreja é capaz de consolidar a paz no futuro
Por esta razão, sendo missão exclusiva da Igreja a reta formação da consciência humana, pela verdade e o poder que recebeu de Cristo, é ela a única que pode atualmente não só restabelecer a verdadeira paz de Cristo, mas também consolidá-la para o futuro, apartando todos os novos perigos de guerra que, conforme dissemos, nos ameaçam. A Igreja é a única que ensina, por um mandato e ordenação divina, a obrigação que têm os homens de ajustar à lei eterna de Deus toda sua conduta, tanto a privada como a pública, como indivíduos e como membros da sociedade. Mas é evidente que são mais transcendentais os deveres relativos ao bem-estar da coletividade.
CAPÍTULO XXIV
A constituição de um tribunal internacional sem a Igreja é uma utopia
Desta maneira, quando os Estados e governos considerarem como um dever sagrado e solene a submissão aos ensinamentos e preceitos de Jesus Cristo em sua vida política interior e exterior, então, e somente então, gozarão de paz interna, manterão relações de mútua confiança e resolverão pacificamente os conflitos que possam surgir. Todos os intentos realizados até agora nessa direção, ou foram nulos ou foram escassos em resultados, sobretudo nos problemas que são objeto de estridentes controvérsias entre os povos.
A razão é que não há nenhuma instituição que possa impor a todas as nações uma espécie de código legislativo comum adaptado aos nossos tempos; um código desse gênero é o que teve na Idade Média aquela autêntica sociedade de nações que era a comunidade cristã dos povos. Porque, embora nela se cometessem com muita frequência verdadeiras injustiças, permanecia, todavia, sempre vigente a santidade do direito, como norma segura segundo a qual eram julgadas as próprias nações.
CAPÍTULO XXV
Aproximação das duas classes: Associação de socorros mútuos
Desta maneira, quando os Estados e governos considerarem como um dever sagrado e solene a submissão aos ensinamentos e preceitos de Jesus Cristo em sua vida política interior e exterior, então, e somente então, gozarão de paz interna, manterão relações de mútua confiança e resolverão pacificamente os conflitos que possam surgir.
Todos os intentos realizados até agora nessa direção, ou foram nulos ou foram escassos em resultados, sobretudo nos problemas que são objeto de estridentes controvérsias entre os povos.
A razão é que não há nenhuma instituição que possa impor a todas as nações uma espécie de código legislativo comum adaptado aos nossos tempos; um código desse gênero é o que teve na Idade Média aquela autêntica sociedade de nações que era a comunidade cristã dos povos. Porque, embora nela se cometessem com muita frequência verdadeiras injustiças, permanecia, todavia, sempre vigente a santidade do direito, como norma segura segundo a qual eram julgadas as próprias nações.
CAPÍTULO XXVI
Só a Igreja, que é essencialmente supranacional, pode garantir a inviolabilidade do direito das gentes
Mas existe uma instituição divina que pode conservar a santidade do direito dos povos; uma instituição que pertence a todas as nações, mas é supereminente a todas elas; é dotada da máxima autoridade e venerada pela plenitude de seu magistério: a Igreja de Cristo. Ela é a única que se mostra preparada para uma missão tão extraordinária, por causa de sua instituição divina, por sua própria natureza e constituição e, finalmente, pela grande majestade que lhe conferiram os séculos, e que, longe de ficarem oprimidas pelas tormentas da guerra, saiu delas com admirável crescimento.
A consequência, portanto, é que a paz verdadeira, ou seja, a tão desejada paz de Cristo, não pode existir enquanto todos os homens não sigam fielmente os ensinamentos, preceitos e os exemplos de Cristo, tanto na vida pública como na vida privada; de forma que, estabelecida retamente a comunidade humana, possa a Igreja, por fim, cumprindo sua divina missão, defender os direitos que Deus tem sobre a sociedade e sobre os indivíduos.
CAPÍTULO XXVII
Nos indivíduos, na família, na sociedade
Está contido no que brevemente expusemos aqui o Reino de Cristo. Reina Jesus Cristo no intelecto de cada um dos homens com sua doutrina; reina nos corações com a caridade; reina em toda a vida humana com a observância de sua lei e a imitação de seus exemplos. Reina Jesus Cristo na família quando esta, constituída pelo matrimônio cristão, conserva-se inviolavelmente como coisa sagrada na qual a autoridade paterna reflete a paternidade divina, que está na fonte e origem do seu nome , e na qual os filhos imitam a obediência do menino Jesus, e assim toda a vida respira a santidade da Família de Nazaré. Reina, finalmente, Jesus Cristo na sociedade quando, reconhecidos nesta as máximas honras devidas a Deus, atribui-se a Deus a origem da autoridade e de todos os direitos, para que não falte a norma reguladora do governo nem o dever e a dignidade da obediência; e também quando, ademais, se reconhece à Igreja a dignidade e o posto no qual foi colocada por seu Fundador, como sociedade perfeita, mestra e guia das demais sociedades e que Ela não míngua a autoridade dessas outras sociedades — pois cada uma delas é legítima em sua própria esfera —, senão que as completa harmonicamente, como a graça completa e aperfeiçoa a natureza; donde evidentemente far-se-á com que essas sociedades prestem um poderoso auxílio aos homens para alcançar seu fim supremo, que é a felicidade eterna, e lhes assegure uma felicidade maior ainda nesta vida presente.
CAPÍTULO XXVIII
A divisa de Pio X
A conclusão evidente de tudo o que foi dito é que não há paz de Cristo senão no reino de Cristo, e que não há meio mais eficaz para consolidar a paz que a restauração do reino de Cristo.
Portanto, quando Pio X se esforçava para instaurar todas as coisas em Cristo, preparava, como que movido por uma inspiração divina, a grande obra do restabelecimento da paz, que havia de ser mais tarde o programa de Bento XV. Nós, prosseguindo a dupla finalidade de nossos predecessores, concentraremos todos os nossos esforços para realizar a paz de Cristo no reino de Cristo, confiados totalmente na graça de Deus, que, ao nos chamar ao supremo pontificado, prometeu-nos sua permanente assistência.
CAPÍTULO XXIX
Os Bispos
Para realizar esse programa confiamos na colaboração de todos os bons; mas nós nos dirigimos especialmente a vós, veneráveis irmãos, a quem Cristo, nosso Guia e Cabeça, que nos confiou o cuidado de toda sua grei, chamou a tomar parte tão importante em nossa universal solicitude; a vós, com efeito, a quem o Espírito Santo colocou para governar a Igreja de Deus; a vós, honrados particularmente com o ministério da reconciliação, cumprindo a missão de embaixadores por Cristo, feitos partícipes desta embaixada e do magistério divino, e despenseiros de seus mistérios, e por essa razão sal da terra e luz do mundo, doutores e padres dos povos cristãos, exemplares do rebanho destinados a serem chamados grandes no reino dos céus; vós, finalmente, em quem como em membros principais e com laços de ouro se mantém coordenado e unido todo o corpo de Cristo, que é a Igreja, estabelecida sobre a solidez da Pedra.
CAPÍTULO XXX
Possibilidade da continuação do Concílio do Vaticano
Tivemos uma nova e recente prova de vossa insigne e ativa diligência quando, por motivo do Congresso Eucarístico celebrado em Roma e por ocasião do centenário da Sagrada Congregação de Propaganda Fide, recordamos no princípio desta encíclica, viestes em tão grande número de todas as partes do mundo para se reunir na Cidade Eterna junto ao sepulcro dos Santos Apóstolos. E aquela reunião de pastores, tão solene por seu número como por sua autoridade, sugeriu-nos a ideia de convocar oportunamente em Roma, cabeça do mundo católico, uma solene assembleia de mesmo caráter, que buscasse um remédio oportuno à atual decadência provocada pelas grandes perturbações da humanidade; a proximidade do Ano Santo nos oferece uma esperançosa perspectiva para a realização desse projeto.
No entanto, não nos atreveremos por agora a empreender a continuação daquele
concílio ecumênico iniciado durante nossa juventude pelo Romano Pontífice Pio
IX, e que só em parte, embora certamente muito importante, pôde ser realizado.
A causa dessa atitude é que Nós, como o célebre chefe de Israel, estamos
esperando em oração que a bondade misericordiosa do Senhor nos manifeste com
maior certeza os desígnios de sua vontade.
CAPÍTULO XXXI
Frutos ubertosos da colaboração dos bispos com a Santa Sé
Entretanto, embora saibamos que não seja necessário estimular vosso ativo zelo, digno antes dos maiores elogios, a consciência do ofício apostólico e de nosso dever de Padre para todos nós adverte, no entanto, e quase nos obriga a inflamar com novos ardores o já abrasado zelo de todos vós; desta forma, todos porão cada dia maior afã e empenho em cultivar a parte do rebanho do Senhor que lhes corresponde.
Por notícias que vós e outros muitos não haveis comunicado e pela fama pública espalhada pela imprensa e os livros e confirmada por outros muitos documentos, conhecemos muito bem os inumeráveis e oportunos projetos, as felizes iniciativas, as obras realizadas e concluídas na medida em que as circunstâncias permitem, pelo clero e pelo povo fiel sob vosso impulso e a aprovação de nossos predecessores.
CAPÍTULO XXXII
Obras de piedade
Por tudo isso damos a Deus as maiores graças. Entre essas obras, admiramos especialmente as muitas e providenciais instituições dedicadas à difusão da sã doutrina e à santificação das almas; igualmente, as associações de clérigos e seculares chamadas Pias Uniões, cujo objetivo é o cuidado e o desenvolvimento das missões entre os infiéis, para propagar o reino de Cristo e levar aos infiéis a salvação temporal e eterna; igualmente também as numerosas congregações de jovens que juntam a uma devoção singular à Santíssima Virgem, e especialmente à Sagrada Eucaristia, uma conduta exemplar de fé, de pureza e de fraterna caridade recíproca; acrescentamos as associações eucarísticas, consagradas a honrar o augusto Sacramento, seja com cultos mais frequentes ou mais solenes e até com grandiosas procissões pelas ruas da cidade, seja também com a organização de imponentes congressos regionais, nacionais e até mesmo internacionais em que assistem representantes de quase todos os povos, e cujos membros encontram-se sem exceção admiravelmente unidos na mesma fé, na mesma adoração, na mesma oração e na mesma participação dos bens celestiais.
CAPÍTULO XXXIII
O reino social de Cristo
A essa corrente de piedade atribuímos o grande desenvolvimento atual do espírito de apostolado, ou seja, o zelo ardente que, primeiro com a oração frequente e o bom exemplo, em seguida com a propaganda falada e escrita, finalmente com as obras e socorros da caridade, procura que de novo se tributem ao Coração de Cristo, tanto no coração de cada um dos homens como na família e na sociedade, o amor, o culto e o império que são devidos à sua Divina Realeza. É o mesmo fim ao qual tende o bonum certamen — a santa batalha — pro aris et focis — pelo altar e pelo lar — que é preciso empreender, a luta que é preciso iniciar em múltiplas frentes em prol dos direitos que a sociedade religiosa — a Igreja — e a doméstica — a família — receberam de Deus e da natureza para a educação dos filhos. A este mesmo apostolado tende, finalmente, todo esse conjunto de organizações, programas e obras que levam o nome de Ação Católica, que nos é particularmente caríssima.
CAPÍTULO XXXIV
É preciso enriquecer ainda mais as obras católicas
Todas essas obras e outras muitas instituições, que seria demasiado longo enumerá-las, hão de ser conservadas com firmeza; mais ainda, é preciso continuamente desenvolvê-las com fervor sempre crescente, enriquecendo-as com os novos aperfeiçoamentos que exigem as circunstâncias das coisas e das pessoas. Essa tarefa pode parecer árdua e difícil aos pastores e aos fiéis; mas não por isso é menos necessária, e é preciso colocá-la entre os principais deveres do ministério pastoral e da vida cristã. Todos estes motivos demonstram — com demasiada evidência para que seja necessário insistir — a íntima relação existente entre todas essas obras apostólicas e a estreita conexão que têm com a restauração tão desejada do reino de Cristo e com o retorno da paz cristã, impossível de lograr à margem desse reino: a paz de Cristo no reino de Cristo.
CAPÍTULO XXXV
Homenagem ao seu zelo. União estreita com a hierarquia
E queremos, veneráveis irmãos, que digais a vossos sacerdotes que Nós, que somos testemunha e fomos até pouco tempo companheiros e colaboradores de tantos trabalhos energicamente empreendidos em prol do rebanho de Cristo, apreciamos sempre, e seguimos apreciando, em seu alto valor, o zelo admirável que desdobram no cumprimento de suas obrigações, assim como seu gênio para descobrir métodos novos, acomodados às novas exigências criadas pela evolução dos tempos. Dizei-lhes que estarão tanto mais unidos a Nós, e que Nós, por nossa parte, teremos para com eles um afeto tanto mais particular, quanto com a santidade de sua vida e a integridade de sua obediência estejam mais cordialmente e mais estreitamente unidos a vós, chefes e senhores, como ao próprio Cristo.
CAPÍTULO XXXVI
A confiança especial que o Papa nele deposita
Não é necessário, veneráveis irmãos, que vos digamos a confiança especial que temos posta no clero regular para a realização de nossos desígnios e projetos; sabeis muito bem a importância que tem a contribuição desse clero na extensão e na consolidação do reinado de Cristo, tanto em nossos países como fora deles. Consagrados à observância e à prática não somente dos preceitos, mas também dos conselhos evangélicos, os membros das famílias religiosas, seja se se entregam à contemplação das coisas divinas na sombra dos claustros, seja se se consagrarem no mundo ao apostolado da vida ativa, demonstram vivamente com sua própria vida o ideal das virtudes cristãs, e, consagrando-se por completo ao bem comum, renunciam a todos os bens e comodidades da terra para gozar mais abundantemente dos bens espirituais; dessa maneira incitam nos fiéis, testemunhas permanentes de tais exemplos, o desejo e aspiração pelos bens superiores, e conseguem esse feliz resultado com sua consagração àquelas admiráveis obras com as quais a beneficência cristã procura aliviar todos os sofrimentos da alma e do corpo. Nessa entrega, conforme atesta a história eclesiástica, os pregadores do Evangelho chegaram em muitas ocasiões, impulsionados pelo amor de Deus, a sacrificar sua própria vida pela salvação das almas, e com sua morte contribuíram para estender o reino de Cristo, ampliando as fronteiras da verdadeira fé e da fraternidade cristã.
CAPÍTULO XXXVII
Aos leigos também compete desempenhar sua missão
Recordai também aos leigos quando, sob vossa direção e a do vosso clero, trabalham em público e em privado para que Jesus Cristo seja conhecido e amado, é que merecem sobretudo serem chamados uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma gente santa, um povo adquirido. É então quando, estreitamente unidos a Nós e a Cristo, propagando com seu zelo diligente o reino de Cristo, trabalham com maior eficácia para estabelecer a paz geral entre os homens. Porque é o reino de Cristo que estabelece e desenvolve uma certa igualdade de direitos e de dignidade entre os homens, enobrecidos todos com o precioso sangue de Cristo; e os que presidem aos demais, seguindo o exemplo dado pelo próprio Cristo Nosso Senhor, devem, de fato e de direito, ser os administradores dos bens comuns e, portanto, servos de todos os servos de Deus, principalmente dos mais humildes e dos mais pobres.
CAPÍTULO XXXVIII
Novos perigos. Condenação do modernismo moral, jurídico e social
No entanto, as transformações sociais, que motivaram ou aumentaram a necessidade de recorrer à colaboração dos leigos nas obras do apostolado, criaram aos poucos experimentados perigos novos, tão graves quanto numerosos. Mal acabou a tremenda guerra e a agitação dos partidos políticos veio perturbar a vida das sociedades: apoderou-se do coração e do espírito dos homens um desdobramento de paixões e uma perversão de ideias tão desordenadas, que muito há de se temer que ainda alguns excelentes leigos, e inclusive sacerdotes, enganados por uma falsa aparência de verdade e de bem, fiquem tocados com o funesto contágio do erro.
Porque quantos são os que admitem a doutrina católica acerca da autoridade civil e o dever de obedecê-la, o direito de propriedade, os direitos e deveres dos trabalhadores agrícolas e industriais, as relações do poder religioso com o civil, os direitos da Santa Sé e do Romano Pontífice, os privilégios dos bispos; finalmente, os direitos de Cristo, Criador, Redentor e Senhor sobre todos os homens e sobre todos os povos? No entanto, esses mesmos católicos falam, escrevem e obram como se os ensinamentos e as ordens dadas em tantas ocasiões pelos Sumos Pontífices, especialmente por Leão XIII, Pio X e Bento XV, houvessem perdido seu vigor nativo ou estivessem já completamente obsoletas.
Essa maneira de agir constitui uma espécie de modernismo moral, jurídico e social. Nós o condenamos com a mesma solenidade com que condenamos o modernismo dogmático.
CAPÍTULO XXXIX
Necessidade de vigiar a formação da mocidade e do clero
É preciso renovar, portanto, os ensinamentos e as ordens as quais nos referimos; é necessário despertar em todas as almas a chama da fé e da caridade divina, que são os únicos meios indispensáveis para a inteligência plena destes ensinamentos e para o cumprimento exato daquelas ordens. Essa renovação há de realizar-se principalmente em tudo que diz respeito à educação da juventude, sobretudo daquela que terá a felicidade de se formar para o sacerdócio, de modo que nesse cataclismo social e nessa perturbação ideológica, não andem flutuando, como disse o Apóstolo: para que não mais sejamos meninos flutuantes e levados ao sabor de todo o vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.
CAPÍTULO XL
Um rebanho e um pastor
Quando desde esta Sede Apostólica, como desde um alto observatório ou como desde uma elevada cidadela, abarcamos com nosso olhar o horizonte, vemos, todavia, veneráveis irmãos, um número demasiado grande de homens que, por ignorância total de Cristo ou por infidelidade à sua doutrina íntegra e autêntica, ou por infidelidade à unidade por Ele querida, não fazem parte, todavia, deste aprisco, ao qual, no entanto, Deus os destinou. Por isso, participando dos desejos do Pastor eterno, do qual é vigário, o Papa não pode deixar de repetir aquelas mesmas palavras tão breves, mas atualmente cheias de amor e de indulgente ternura: Importa também que eu traga aquelas ovelhas, e de recordar, com o coração transbordado de alegria, aquela predição de Cristo: E ouvirão minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. Queira Deus, como Lhe suplicamos em nossas orações, unidas às vossas e as de vossos fiéis, que possamos ver realizada quanto antes essa consoladora e infalível profecia do divino Coração
CAPÍTULO XLI
As relações com a Santa Sé
Um feliz augúrio dessa unidade religiosa foi oferecido nos últimos tempos por aquele extraordinário acontecimento que todos conheceis muito bem; acontecimento inesperado para todos, desagradável para alguns, mas para Nós e para vós gratíssimo: a maioria dos príncipes e os chefes de Estado de quase todas as nações, movidos como que instintivamente por um idêntico desejo de paz, quiseram genuinamente renovar a antiga amizade ou entrar pela primeira vez em relações com a Sé Apostólica. Nós temos o direito de rejubilar com esse fato. Não somente porque realça o prestígio da Igreja, mas também porque constitui a homenagem mais luminosa rendida a seus serviços e põe perante os olhos de todos a virtude maravilhosa que a Igreja possui exclusivamente para assegurar toda a prosperidade, inclusive a material própria, da sociedade humana.
CAPÍTULO XLII
A Igreja em matéria política
Porquanto, embora a Igreja, em virtude do mandato de Deus, tenha como objeto direto os bens espirituais e eternos, no entanto, pela relação e o encadeamento mútuo de todas as coisas, não é menor sua cooperação com a prosperidade, inclusive a temporal, dos indivíduos e da sociedade, e isso com uma eficácia tão assinalada que não poderia superá-la se a Igreja tivesse como fim exclusivo o desenvolvimento dessa propriedade temporal. A Igreja não se atribui o direito de intervir sem razão na direção dos assuntos temporais e puramente políticos, mas Ela tem o direito de intervir quando procura evitar que o poder político use a política como pretexto, seja para restringir de qualquer maneira os bens superiores, dos quais depende a salvação eterna das almas; seja para prejudicar os interesses espirituais por meio de leis e decretos injustos, seja para atentar gravemente contra a constituição divina da Igreja, e seja, finalmente, para aviltar os direitos de Deus sobre o Estado.
Portanto, veneráveis irmãos, nós fazemos nossos os pontos de vista e as palavras que nosso predecessor Bento XV, várias vezes por Nós lembrado, pronunciou em sua última alocução de 21 de novembro do ano passado acerca do estabelecimento de mútuas relações entre a Igreja e o Estado; De Nossa parte repetimo-la e confirmamo-la: "Nós não toleramos de modo algum que nos acordos desse gênero se deslize cláusula alguma contrária à dignidade e à liberdade da Igreja, porque em nosso tempo é de primordial importância para a própria prosperidade da vida pública a incolumidade e a integridade da Igreja".
CAPÍTULO XLIII
A questão romana
Nesse estado de coisas não é necessário dizer-vos quão profunda é nossa dor por não poder contar a Itália entre as numerosas nações que mantêm relações amistosas com a Sé Apostólica; esta Itália, nossa amada pátria, escolhida por Deus, governador providente do curso da história e da harmonia universal, para colocar em seu seio a sede de seu Vigário na terra e fazer desta augusta cidade, centro em outro tempo de um império imenso, mas limitado dentro de certas fronteiras, a capital do mundo inteiro; Roma, com efeito, sede do supremo Pontificado, que por sua própria natureza transcende as fronteiras de todas as raças e nações, abraça em si mesma todas as nações e todos os povos. Ora, a origem e a natureza divina deste principado, por uma parte, e por outra o direito imprescindível de todos os fiéis, espalhados pelo mundo inteiro, exigem que esse sagrado principado não dependa de potência humana alguma nem de lei alguma (embora esta prometa a liberdade, com certas garantias, do Romano Pontífice), senão que seja e apareça totalmente independente em seus direitos e em sua soberania.
CAPÍTULO XLIV
Protesto contra o regime italiano de garantias
Mas as garantias de liberdade com as quais a divina Providência, dona e árbitra das contingências humanas, havia fortalecido a autoridade do Romano Pontífice, não só sem causar-lhe dano, mas em vez disso, com sumo proveito da própria Itália; as garantias que durante tantos séculos haviam respondido perfeitamente ao desígnio divino de salvaguardar tal liberdade, e as quais até agora nem a divina Providência indicou nem os projetos dos homens encontraram compensação conveniente; essas garantias, aniquiladas por uma hostilidade violenta e violadas até agora, colocaram o Romano Pontífice em uma indigna situação que enche continuamente de tristeza as almas de todos os fiéis do mundo inteiro. Portanto, Nós, herdeiros das ideias e dos deveres de nossos predecessores, investidos com a mesma autoridade, a única que é competente para resolver uma questão tão transcendental; movidos não por uma vã ambição terrena, cujo menor influxo nos faria ruborescer, senão pelo pensamento de nossa morte e pela recordação da severa conta que teremos de prestar ao Juiz divino, de acordo com a santidade de nosso dever, renovamos aqui as reivindicações que nossos predecessores formularam para defender os direitos e a dignidade da Sé Apostólica.
CAPÍTULO XLV
A Itália só ganhará com a aproximação à Santa Sé
Nada tem a temer a Itália da parte da Sé Apostólica, porque todo Romano Pontífice obrará sempre de tal maneira que possa dizer sinceramente com o profeta: Meus pensamentos são de paz, e não de aflição; pensamentos de paz verdadeira e, portanto, unida sempre à justiça, de modo que com razão se possa afirmar que a justiça e a paz se beijarão. À onipotência e misericórdia de Deus corresponde fazer que amanheça esse dia tão fecundo em todo tipo de bens tanto para a instauração do reino de Cristo como para a pacificação da Itália e do mundo. Mas, para que não sejam frustrados esses bens, é necessária a diligente cooperação de todos os homens de boa vontade.
CAPÍTULO XLVI
Conclusão
Para que essa universal pacificação seja concedida quanto antes aos homens, exortamos a todos os cristãos para que incessantemente unam suas ferventes orações com as nossas, especialmente nestes dias do Natal do Senhor, Rei pacífico, cuja entrada no mundo foi saudada pelas milícias angélicas com aquele cântico novo: Gloria a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade. Queremos, enfim, que seja como penhor desta paz, veneráveis irmãos, nossa bênção apostólica que, levando todo tipo de felicidade a cada um dos membros do vosso clero e de vossa grei, às nações e às famílias cristãs, produza todo tipo de prosperidade aos vivos e o repouso na eternidade feliz aos defuntos; bênção que a vós, a vosso clero e a vossos fiéis, como testemunho de nossa benevolência, damos de todo coração. Dado em Roma, junto a São Pedro, em 23 de dezembro de 1922, ano primeiro do nosso pontificado.
TERCEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Resumo da encíclica Rerum Omnium
A Encíclica do Santo Padre sobre São Francisco de Sales é um documento admirável pela sua forma e pelo seu teor, falando da santificação da vida humana. Suas palavras, inspiradas nos sentimentos e doutrina de São Francisco de Sales, são gotas de orvalho celeste que refrigeram e animam o coração desanimado e oprimido pelo labutar quotidiano da vida moderna. Todos podemos conquistar a aureola da santidade e todos os homens, qual que se seja sua condição social, podem alcançar os foros de habitantes do céu. Esta nova Encíclica do Santo Padre é um complemento de sua Encíclica do Natal, e concita a todos os homens a voltarem à prática da virtude e à conquista da santidade, a fim de que novamente reine e impere a verdadeira paz de Jesus Cristo. Por isso, Sua Santidade reafirma que o único remédio dos males presentes consiste em que os indivíduos e a sociedade humana voltem a Deus. Em seguida, demonstra que a glorificação dos bem-aventurados é um meio poderoso de santificação para os homens, sendo providencial a missão dos santos e que todos podem e devem santificar-se. Descreve, logo depois, a missão que São Francisco de Sales desempenhou no meio dos hereges da região do Chablais. Demonstra que a admirável doçura, a mansidão de São Francisco, não era nele uma virtude inata, mas o precioso fruto do domínio sobre suas inclinações. Assinala a São Francisco como defensor intrépido e zeloso dos direitos divinos e das prerrogativas da Igreja. Depois, passa a apresentar a São Francisco como o exímio mestre da perfeição cristã, pelas suas obras e escritos, entre as quais avultam o precioso opúsculo "Filotéia" ou "Introdução à vida devota" e o "Tratado do amor divino". Refere-se o Santo Padre às Religiosas da Visitação, como culturas do espírito e mansidão de São Francisco, e fala acerca do "Livro de Controvérsias", da autoria do mesmo santo, do seu método de pregar e de tratar assuntos apologéticos. Tratando, enfim, da celebração do centenário de São Francisco de Sales, diz o Santo Padre Pio XI, ser necessário explicar aos fiéis as virtudes do grande santo e a prática da perfeição. Os fiéis devem, sobretudo, imitar a mansidão de São Francisco, que também ensina aos sacerdotes o verdadeiro método de pregação. Depois de proclamar a São Francisco padroeiro dos escritores católicos, o Papa indica as solenidades com que se deve celebrar o centenário, refere-se às indulgências especiais que, por essa ocasião, concede e dá a sua bênção.
QUARTA PARTE
CAPÍTULO I:
Carta encíclica Rerum Omnium
Veneráveis irmãos, saudação e Bênção Apostólica Em nossa recente encíclica, examinamos as desordens com as quais o mundo hoje luta, com o objetivo de descobrir um remédio seguro para tantos males. Naquela época, assinalamos que as raízes desses males estão nas almas dos homens e que a única esperança de os curar é recorrer à ajuda do Divino Curador Jesus Cristo pelos meios que Ele colocou à disposição de Sua Santa Igreja. A grande necessidade de nossos dias é refrear os desejos desmedidos da humanidade, desejos que são a causa fundamental de guerras e dissensões, que atuam, também, como uma força dissolvente na vida social e nas relações internacionais. Não é menos necessário voltar as mentes dos homens das coisas passageiras deste mundo para aquelas que são eternas, as quais, infelizmente, são frequentemente negligenciadas pela grande maioria da humanidade. Se cada indivíduo resolvesse cumprir fielmente suas obrigações, uma grande melhoria social seria realizada quase imediatamente. Tal aperfeiçoamento é precisamente o objetivo dos ensinamentos e do ministério da Igreja, pois sua missão especial é instruir a humanidade pela pregação das verdades divinamente reveladas e santificá-las por meio da graça de Deus. Com o uso desses métodos, ela espera chamar de volta a sociedade civil para caminhos conformes ao espírito de Cristo que uma vez seguimos. Ela se sente impelida a fazer isso sempre que descobre que a sociedade se desvia dos caminhos da retidão. Pois sua missão especial é instruir a humanidade pela pregação das verdades que foram divinamente reveladas e santificá-los por meio da graça de Deus. Com o uso desses métodos, ela espera chamar de volta a sociedade civil para caminhos conformes ao espírito de Cristo que uma vez seguimos. Ela se sente impelida a fazer isso sempre que descobre que a sociedade se desvia dos caminhos da retidão. Pois sua missão especial é instruir a humanidade pela pregação das verdades que foram divinamente reveladas e santificá-los por meio da graça de Deus. Com o uso desses métodos, ela espera chamar de volta a sociedade civil para caminhos conformes ao espírito de Cristo que uma vez seguimos. Ela se sente impelida a fazer isso sempre que descobre que a sociedade se desvia dos caminhos da retidão.
CAPÍTULO II
A glorificação dos santos é um poderoso meio de santificação
A Igreja tem mais êxito nesta obra de santificação quando lhe é possível, pela misericórdia de Deus, seguir a imitação dos fiéis, um ou outro de seus filhos mais queridos, que se tornou notável pela prática de todas as virtudes. Esta obra de santificação é do próprio gênio da Igreja, uma vez que foi feita por Cristo, seu Fundador, não só ela própria, mas fonte de santidade nos outros. Todos os que aceitam a orientação de seu ministério devem, pelo comando de Deus, fazer tudo ao seu alcance para santificar suas próprias vidas. Como diz São Paulo: "Esta é a vontade de Deus, a sua santificação". O próprio Cristo ensinou em que consiste esta santificação - "Sede vós pois perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito". Não podemos aceitar a crença de que este mandamento de Cristo diz respeito apenas a um grupo seleto e privilegiado de almas e que todos os outros podem considerar-se agradáveis a Ele se tiverem alcançado um grau inferior de santidade. Muito pelo contrário, é verdade, como resulta da própria generalidade de suas palavras. A lei da santidade abrange todos os homens e não admite exceção. O grande número de almas de todas as condições de vida, jovens e velhos, que como a história nos informa que alcançaram o zênite da perfeição cristã, esses santos sentiram em si as fraquezas da natureza humana e tiveram que vencer as mesmas tentações que nós. Isso é tão verdadeiro que, como Santo Agostinho escreveu tão lindamente, "Deus não pede o impossível de nós. Mas quando Ele nos ordena que façamos algo, Ele, por seus próprios mandamentos, de Natura et Gratia, cap. 43, No. 50.)
CAPÍTULO III
A missão providencial dos santos
A solene comemoração no ano passado do terceiro centenário da canonização de cinco grandes santos - Inácio Loyola, Francisco Xavier, Filipe Neri, Teresa de Jesus e Isidoro Agricultor - ajudou muito, Veneráveis Irmãos, a despertar entre os fiéis um amor para a vida cristã. Agora somos alegremente chamados a celebrar o Terceiro Centenário da entrada ao céu de outro grande santo, aquele que se destacou não só pela sublime santidade de vida que alcançou, mas também pela sabedoria com a qual dirigiu as almas nos caminhos da santidade. Este santo não era menos pessoa do que Francisco de Sales, bispo de Genebra e doutor da Igreja Universal. Como aqueles exemplos brilhantes de perfeição e sabedoria cristã a que acabamos de nos referir, ele parecia ter sido enviado especialmente por Deus para lutar contra as heresias geradas pela Reforma. É nessas heresias que descobrimos o início daquela apostasia da humanidade da Igreja, cujos efeitos tristes e desastrosos são deplorados, mesmo até o momento presente, por todas as mentes justas.
CAPÍTULO IV
Todos podem e devem ser santos
Além do mais, parece que Francisco de Sales foi dado à Igreja por Deus para uma missão muito especial. Sua tarefa era desmentir um preconceito que em sua vida estava profundamente enraizado e não foi destruído até hoje, de que o ideal de santidade genuína defendido para nossa imitação pela Igreja é impossível de ser alcançado ou, na melhor das hipóteses, é assim difícil que ultrapasse as capacidades da grande maioria dos fiéis e seja, portanto, considerada como propriedade exclusiva de algumas grandes almas. O nosso estimado Predecessor, Bento XV, referindo-se aos cinco santos de que falámos, mencionou também o próximo centenário da morte de Francisco de Sales e manifestou a esperança de escrever especialmente a seu respeito numa encíclica dirigida a todo o mundo. Com prazer, procuraremos cumprir este e outros desejos do nosso Predecessor, pois os consideramos uma herança sagrada que Ele nos deixou. Neste particular, seguimos os seus desejos com a maior boa vontade, pois esperamos deste centenário não menos frutos maravilhosos do que os que acompanharam as festas que o precederam.
CAPÍTULO V
Santidade pessoal de São Francisco de Sales
Quem revê com atenção a vida de São Francisco descobrirá que, desde os primeiros anos, ele foi um modelo de santidade. Ele não era um santo sombrio e austero, mas era muito amável e amigável com todos, tanto que se pode dizer dele com toda a verdade, "sua conversa não tem amargura, nem sua companhia qualquer aborrecimento, mas alegria e alegria." (Sabedoria, viii, 16) Dotado de todas as virtudes, ele se destacou na mansidão de coração, uma virtude tão peculiar a si mesmo que pode ser considerada seu traço mais característico. Sua mansidão, no entanto, diferia totalmente daquela gentileza artificial que consiste na mera posse de maneiras polidas e na exibição de uma afabilidade puramente convencional. Difere, também, tanto da apatia que não pode ser movida por nenhuma força, como da timidez que não ousa indignar-se, mesmo quando a indignação é exigida de alguém. Esta virtude, que cresceu no coração de São Francisco como um efeito delicioso de seu amor a Deus e foi alimentada pelo espírito de compaixão e ternura, temperou com doçura a gravidade natural de seu comportamento e suavizou sua voz e modos que ele ganhou a consideração afetuosa de todos os que encontrou.
Não menos conhecidas são a facilidade e a amabilidade com que recebia a todos. Pecadores e apóstatas se aglomeravam especialmente em sua casa para, com sua ajuda, se reconciliarem com Deus e corrigir suas vidas. Ele gostava muito dos infelizes prisioneiros a quem, por meio de uma centena de artifícios de caridade, procurava consolar durante suas frequentes visitas às prisões. Ele também mostrou grande bondade para com seus próprios servos, cuja preguiça e gaucheries ele suportou com paciência heroica. Sua bondade de coração nunca variava, não importando quem eram as pessoas com quem ele tinha que lidar, a hora do dia, as circunstâncias difíceis que ele tinha que enfrentar. Nem mesmo os hereges, que muitas vezes se mostraram muito ofensivos, o acharam um pouco menos afável ou acessível.
A missão de São Francisco entre os hereges de Chablais
Na verdade, seu zelo era tão grande que durante o primeiro ano de seu sacerdócio, ele tentou, apesar da oposição de seu próprio pai, para reconciliar o povo de La Chablais com a Igreja. Nisso ele foi apoiado de bom grado por Granier, o bispo de Genebra. Para realizar esta obra, ele não recusou qualquer obrigação, ele não fugiu do perigo, nem mesmo de uma possível morte. Sua imperturbável bondade o colocou em melhor posição para efetuar a conversão de tantos milhares de pessoas do que até mesmo o amplo conhecimento e a maravilhosa eloquência que caracterizaram seu desempenho dos muitos deveres do sagrado ministério. Costumava repetir para si mesmo, como fonte de inspiração, aquela conhecida frase: "Os apóstolos lutam por seus sofrimentos e triunfam apenas na morte". É quase inacreditável com que vigor e constância ele defendeu a causa de Jesus Cristo entre o povo de La Chablais. A fim de levar-lhes a luz da fé e os confortos da religião cristã, ele era conhecido por ter viajado por vales profundos e escalado montanhas íngremes.
Se eles fugissem, ele os perseguia, chamando-os em voz alta. Rejeitado brutalmente, ele nunca desistiu da luta; quando ameaçado, ele apenas renovou seus esforços. Frequentemente, ele era expulso de seus aposentos, ocasião em que passava a noite dormindo na neve sob a cobertura do céu. Ele celebraria a missa, embora ninguém comparecesse. Quando, durante um sermão, quase toda a audiência, uma após a outra, deixou a Igreja, ele continuou a pregar. Em nenhum momento ele perdeu seu equilíbrio mental ou seu espírito de bondade para com esses ouvintes ingratos. Foi por esses meios que ele finalmente superou a resistência de seus adversários mais formidáveis.
CAPÍTULO VI
A mansão de São Francisco, fruto do domínio sobre si mesmo
Alguém erraria, no entanto, se imaginasse que tal personagem como o possuído por São Francisco de Sales era um dom da natureza, concedido a ele pela graça de Deus "com a bênção da mansidão", como tantas vezes lemos ter sido o caso de outras almas abençoadas. Ao contrário, Francisco naturalmente tinha um temperamento forte e facilmente se irritava. Desde que ele tinha jurado tomar como seu modelo Jesus que disse: "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração", assim, por meio da vigilância constante sobre si mesmo e da violência à sua própria vontade, ele conseguiu aprender a refrear e controlar a tal ponto os impulsos da natureza que se tornou uma imagem viva do Deus da paz e mansidão. Este fato é amplamente comprovado pelo testemunho dos médicos que prepararam seu corpo para o enterro, pois quando, conforme lemos, eles embalsamaram o corpo, encontraram sua bile transformada em pedra que havia sido quebrada nas menores partículas imagináveis. Eles sabiam por esta estranha ocorrência que esforços terríveis deve ter custado ao nosso Santo, durante um período de cinquenta anos, para conquistar seu temperamento naturalmente irritável.
A mansidão de São Francisco era, portanto, o efeito de sua tremenda força de vontade, constantemente fortalecida por sua fé viva e pelo fogo do amor divino que ardia dentro dele. Certamente, a ele podemos aplicar as palavras da Sagrada Escritura: "Do forte veio a doçura." É de se admirar, então, que essa "bondade pastoral" que ele possuía e que, de acordo com São João Crisóstomo, "é mais violenta que a virtude", possuía o poder de atrair os corações em aquela mesma medida de sucesso que o próprio Cristo prometeu aos mansos – "Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra."
CAPÍTULO VII
Zelo e intrepidez de São Francisco de Sales
Por outro lado, a grande força de vontade deste modelo de mansidão se manifestava sempre que ele era compelido a se opor aos poderosos para proteger os interesses de Deus, a dignidade da Igreja ou a salvação das almas. Assim, em certa ocasião, ao receber uma carta na qual era ameaçado pelo Senado de Chambéry com a perda de parte de sua renda, não perdeu tempo em defender a imunidade dos direitos da Igreja a esse ato de interferência civil. Ele não apenas respondeu ao enviado que o enviou de maneira condizente com sua própria alta patente, mas não cessou de exigir a reparação do dano causado até ter recebido plena satisfação do Senado.
Igualmente firme foi quando ousou enfrentar a ira do Príncipe, diante de quem ele e seus irmãos foram falsamente acusados. Tampouco foi menos vigoroso em resistir à interferência de estadistas na concessão de benefícios eclesiásticos. Por fim, quando todos os outros métodos falharam, ele excomungou aqueles que persistentemente se recusaram a pagar o dízimo ao Capítulo de Genebra. Tinha também o hábito de reprovar com franqueza evangélica os vícios do povo e de desmascarar a hipocrisia que procurava simular a virtude e a piedade. Embora fosse mais respeitoso do que qualquer outra pessoa para com seus soberanos, ele nunca se abaixou para lisonjear suas paixões ou se curvar diante de suas pretensões arrogantes.
CAPÍTULO VIII
São Francisco de Sales, mestre exímio da perfeição
Vejamos agora, Venerados Irmãos, como São Francisco, que foi ele mesmo um modelo tão amoroso de santidade, mostrou aos outros com os seus escritos o caminho seguro e fácil para a perfeição cristã, também imitando Cristo, que "começou fazer e ensinar." (Atos I, 1)
São Francisco publicou muitas obras de piedade, entre as quais podemos destacar seus dois livros mais conhecidos, Philothea – Uma Introdução à Vida Devota e O Tratado sobre o Amor de Deus. Na Introdução à Vida Devota, São Francisco, depois de mostrar claramente como a dureza de coração desencoraja alguém na prática da virtude e é totalmente estranho à piedade genuína (ele não tira a piedade daquela severidade que está em harmonia com a maneira cristã de vida), então se propõe expressamente a provar que a santidade é perfeitamente possível em todos os estados e condições da vida secular, e a mostrar como cada homem pode viver no mundo de forma a salvar sua própria alma, desde que apenas ele se mantenha livre do espírito do mundo.
Ao mesmo tempo, aprendemos com o Santo não apenas como realizar os atos habituais da vida cotidiana (com exceção, é claro, do pecado), mas também um fato que todos não sabem, como fazer essas coisas corretamente com a única intenção de agradar a Deus. Ele nos ensina a observar as convenções sociais que ele chama de um dos encantadores efeitos da vida virtuosa, não para destruir nossas inclinações naturais, mas para conquistá-las para que pouco a pouco, sem muito esforço, como a pomba, se por acaso não houver que nos foi concedida a força da águia, podemos nos elevar até o próprio céu. O que o Santo quer dizer com esta metáfora é que, se não somos chamados a uma extraordinária perfeição pessoal, podemos alcançar a santidade santificando as ações da vida cotidiana.
CAPÍTULO IX
Qualidades da obra Filotéia
Ele escreveu em todos os momentos em um estilo digno, mas fácil, variado de vez em quando por uma agudeza maravilhosa de pensamento e graça de expressão, e por causa dessas qualidades seus escritos provaram ser de leitura bastante agradável. Depois de apontar como devemos fugir do pecado, lutar contra nossas más inclinações e evitar todas as ações inúteis e prejudiciais, ele então continua expondo a natureza das práticas de piedade que fazem a alma crescer, bem como como isso é possível para o homem permanecer sempre unido a Deus. Em seguida, ele mostra como é necessário selecionar uma virtude especial para prática constante de nossa parte, até que possamos dizer que a dominamos. Ele escreve, também, sobre as virtudes individuais, sobre a modéstia, sobre a linguagem moral e imoral, sobre divertimentos lícitos e perigosos, sobre a fidelidade a Deus, sobre os deveres de marido e mulher.
Finalmente, ele nos ensina como não apenas vencer os perigos, tentações e as seduções do prazer, mas como todos os anos é necessário que cada um de nós renove e reavive seu amor a Deus tomando resoluções sagradas. Queira Deus que este livro, o mais perfeito do gênero na opinião dos contemporâneos do Santo, seja lido agora como antes por quase todos. Se isso fosse feito, a piedade cristã certamente floresceria em todo o mundo e a Igreja de Deus poderia se regozijar na certeza de uma ampla obtenção da santidade por seus filhos.
CAPÍTULO X
Tratado do Amor de Deus
O Tratado do Amor de Deus, no entanto, é um livro muito mais importante e significativo do que qualquer outro que publicou. Nesta obra, o santo Doutor dá uma verdadeira história do amor de Deus, explicando sua origem e desenvolvimento entre os homens, ao mesmo tempo em que mostra como o amor divino começa a esfriar e depois a definhar. Ele também descreve os métodos de desenvolvimento e crescimento no amor de Deus. Quando necessário, ele até se aprofunda nas explicações dos problemas mais difíceis como, por exemplo, o da graça eficaz, a predestinação e o dom da fé. Isso ele não faz secamente, mas por causa da mente ágil e bem armazenada que possuía, de tal forma que suas discussões abundam na mais bela linguagem e são preenchidas com uma função igualmente desejável. Ele também estava acostumado a ilustrar seus pensamentos por uma variedade quase infinita de metáforas.
Os princípios da vida espiritual que são tratados nos dois livros acima mencionados também foram voltados para o benefício das almas por seu ministério diário, a direção espiritual que ele deu e pelas cartas admiráveis que ele escreveu.
CAPÍTULO XI
As religiosas da visitação
Ele aplicou os mesmos princípios espirituais à direção das Irmãs da Visitação, instituição por ele fundada que preservou com mais fidelidade, até os nossos dias, o seu espírito. A atmosfera desta comunidade religiosa particular é de moderação e amorosa bondade em todas as coisas. Foi organizado para receber moças, viúvas e mulheres casadas que, por causa de sua fraqueza, doença ou idade avançada, são fisicamente desiguais para as tarefas que seu fervor religioso de bom grado lhes imporia. Por isso, não são obrigados a longas vigílias ou à mudança do santo ofício, nem a rigorosas penitências e mortificações. Eles são obrigados apenas à observância de sua regra, que é tão suave e fácil que todas as Irmãs, mesmo as que estão com problemas de saúde, podem segui-la.
Mas esta mesma brandura e simplicidade que caracterizam sua regra deve inspirar a observância dela com tão grande amor a Deus que as Irmãs que se gloriam em seu título, Filhas de São Francisco de Sales, possam tornar-se conhecidas por sua perfeita abnegação de si e por sua humilde obediência em todos os momentos. Devem, portanto, fazer todo o possível para adquirir uma virtude sólida e não apenas superficial e morrer sempre para si mesmas para viver apenas para Deus. Há alguém que não consiga reconhecer em seu modo de vida aquela união de força e mansidão que tanto deve ser admirada no próprio São Francisco, seu santo Fundador?
CAPÍTULO XII
O livro das Controvérsias
É necessário passar em silêncio muitos dos outros escritos de São Francisco, nos quais, porém, não podemos deixar de descobrir "aquela doutrina enviada do céu que, como um riacho de água viva, regou a vinha do Senhor e tem ajudado muito a alcançar o bem-estar do povo de Deus." (Carta Apostólica de Pio IX, 16 de novembro de 1877) Mas, não podemos deixar de falar de sua obra intitulada Controvérsias, na qual inquestionavelmente se encontra uma "plena e completa demonstração da verdade da Religião Católica". (Carta Apostólica de Pio IX, 16 de novembro de 1877) Veneráveis Irmãos, conhecem bem as circunstâncias da missão de São Francisco em La Chablais, pois quando, no final de 1593, como aprendemos na história, o Duque de Sabóia concluiu uma trégua com os habitantes de Berna e em Genebra, nada foi considerado mais importante para reconciliar a população com a Igreja do que enviar pregadores zelosos e eruditos que, pela força persuasiva de sua eloquência, reconquistariam lenta, mas seguramente essas pessoas para sua fidelidade à fé. O primeiro missionário enviado abandonou o campo de batalha, ou porque perdeu a esperança de converter esses hereges ou porque os temia. Mas São Francisco de Sales que, como assinalamos, já se havia oferecido para o trabalho missionário ao Bispo de Genebra, começou a pé em setembro de 1594, sem comida e sem dinheiro, e acompanhado de ninguém, exceto um primo seu, para assumir este trabalho. Foi somente depois de longos e repetidos jejuns e orações a Deus, somente por cuja ajuda ele esperava que sua missão fosse bem-sucedida, que ele tentou entrar no país dos hereges.
CAPÍTULO XIII
Folhetos apologéticos
Eles, entretanto, não quiseram ouvir seus sermões. Ele procurou então refutar suas doutrinas errôneas por meio de folhetos soltos que escreveu nos intervalos entre seus sermões. Este trabalho de divulgação de panfletos, no entanto, diminuiu gradualmente e cessou totalmente quando o povo dessas partes em grande número começou a assistir aos seus sermões. Esses folhetos, escritos pela mão do próprio santo Doutor, ficaram perdidos por algum tempo após sua morte. Posteriormente, foram encontrados e recolhidos em um volume e apresentados ao nosso Predecessor, Alexandre VII, que teve a felicidade, após o processo habitual de canonização, de atribuir São Francisco primeiro entre os bem-aventurados e depois entre os santos.
CAPÍTULO XIV
Assunto das Controvérsias
Em suas Controvérsias, embora o santo Doutor fizesse amplo uso da polêmica literatura do passado, ele exibe, não obstante, um método controverso, peculiarmente seu. Em primeiro lugar, ele prova que nenhuma autoridade pode ser dita existir na Igreja de Cristo a menos que tenha sido conferida a ela por um mandato de autoridade, que manda os ministros de crenças heréticas de forma alguma podem ser considerados possuidores. Depois de ter apontado os erros destes últimos a respeito da natureza da Igreja, ele delineia as notas da verdadeira Igreja e prova que elas não são encontradas nas igrejas reformadas, mas somente na Igreja Católica. Ele também explica de maneira sólida a Regra de Fé e demonstra que é quebrada por hereges, enquanto por outro lado é mantida em sua totalidade pelos católicos. Em conclusão, ele discute vários tópicos especiais, mas apenas aqueles folhetos que tratam dos Sacramentos e do Purgatório não existem.
CAPÍTULO XV
Método polêmico seguido por São Francisco
Na verdade, as muitas explicações da doutrina e os argumentos que ele organizou ordenadamente são dignos de todo o louvor. Com esses argumentos, aos quais se acrescenta uma ironia sutil e polida que caracteriza sua maneira polêmica, ele facilmente enfrentou seus adversários e derrotou todas as suas mentiras e falácias. Embora às vezes sua linguagem pareça um tanto forte, mesmo assim, como até mesmo seus oponentes admitiram, seus escritos sempre respiram um espírito de caridade que sempre foi o motivo controlador em todas as controvérsias em que ele se envolveu. Isso é tão verdade que mesmo quando ele repreendeu essas crianças errantes por sua apostasia da Igreja Católica, é evidente que ele não tinha outro propósito em mente a não ser abrir as portas pelas quais eles poderiam retornar à fé. Nas controvérsias percebe-se prontamente a mesma abertura e magnanimidade de alma que permeiam os livros que escreveu com o propósito de promover a piedade. Finalmente, seu estilo é tão elegante, tão polido, tão impressionante que os ministros heréticos costumavam alertar seus seguidores contra serem enganados e conquistados pelas lisonjas do missionário de Genebra.
CAPÍTULO XVI
É preciso explicar aos fiéis as virtudes e ensinamentos de São Francisco de Sales
Depois deste breve resumo da obra e dos escritos de São Francisco de Sales, Veneráveis Irmãos, resta exortar-vos a celebrar o seu centenário da maneira mais digna possível nas vossas dioceses. Não desejamos que este Centenário se transforme em mera comemoração de certos acontecimentos da história que se revelariam uma função puramente estéril, nem que se restrinja a alguns dias escolhidos. Desejamos que, ao longo de todo o ano e até o dia vinte e oito de dezembro, dia em que São Francisco passou da terra ao céu, vocês façam todo o possível para instruir os fiéis nas doutrinas e virtudes que caracterizam o santo Doutor. Em primeiro lugar, você deve divulgar e até mesmo explicar com todo o zelo esta encíclica tanto ao seu clero como às pessoas confiadas aos seus cuidados. Em particular, desejamos muito que faça tudo o que estiver ao seu alcance para chamar de volta os fiéis ao dever de praticar as obrigações e virtudes próprias do estado de vida de cada um, pois mesmo em nossos dias é muito grande o número dos que nunca pensam na eternidade e que negligenciam quase totalmente a salvação de suas almas. Alguns estão tão imersos nos negócios que não pensam em nada além de acumular riquezas e, por consequência, a vida espiritual deixa de existir para eles.
Outros se entregam inteiramente à satisfação de suas paixões e, assim, caem tanto que, com dificuldade, se é que conseguem, são capazes de apreciar qualquer coisa que transcenda a vida dos sentidos. Finalmente, há muitos que pensam totalmente na política, e isso a tal ponto que, embora se dediquem totalmente ao bem-estar do público, esquecem-se de uma coisa: o bem-estar de suas próprias almas. Por estes fatos, Veneráveis Irmãos, procurem, seguindo o exemplo de São Francisco, instruir bem os fiéis na verdade de que a santidade de vida não é privilégio de poucos escolhidos. Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós. E isso a tal ponto que, embora sejam completamente devotados ao bem-estar do público, esquecem-se de uma coisa, o bem-estar de suas próprias almas.
CAPÍTULO XVII
A prática da perfeição
Por estes fatos, Veneráveis Irmãos, procurem, seguindo o exemplo de São Francisco, instruir bem os fiéis na verdade de que a santidade de vida não é privilégio de poucos escolhidos. Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós.
E isso a tal ponto que, embora sejam completamente devotados ao bem-estar do público, esquecem-se de uma coisa, o bem-estar de suas próprias almas. Por estes fatos, Veneráveis Irmãos, procurem, seguindo o exemplo de São Francisco, instruir bem os fiéis na verdade de que a santidade de vida não é privilégio de poucos escolhidos. Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós o bem-estar de suas próprias almas.
Por estes fatos, Veneráveis Irmãos, procurem, seguindo o exemplo de São Francisco, instruir bem os fiéis na verdade de que a santidade de vida não é privilégio de poucos escolhidos. Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós o bem-estar de suas próprias almas. Por estes fatos, Veneráveis Irmãos, procurem, seguindo o exemplo de São Francisco, instruir bem os fiéis na verdade de que a santidade de vida não é privilégio de poucos escolhidos.
Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós. Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós. Todos são chamados por Deus a um estado de santidade e todos são obrigados a tentar alcançá-lo. Ensinai-lhes também que a aquisição da virtude, embora não possa ser feita sem muito trabalho (tal trabalho tem suas próprias compensações, as consolações espirituais e alegrias que sempre o acompanham) é possível para todos com a ajuda da graça de Deus, que nunca é negada a nós. A mansidão de São Francisco deve ser dirigida aos fiéis de maneira muito especial para a sua imitação, pois esta virtude nos lembra muito bem e expressa tão verdadeiramente a bondade de Jesus Cristo. Possui, também, em um grau notável, o poder de ligar almas umas às outras. Esta virtude, onde quer que seja praticada entre os homens, tende principalmente a resolver as diferenças públicas e privadas que tantas vezes nos separam.
Da mesma forma, não podemos esperar que, por meio da prática desta virtude que corretamente chamamos de sinal externo da posse interior do amor divino, resulte em perfeita paz e concórdia tanto na vida familiar como entre as nações? Se a sociedade humana fosse motivada pela mansidão, ela não se tornaria um poderoso aliado do apostolado, como é chamado, do clero e dos leigos, que tem por finalidade a melhoria do mundo? Vedes, portanto, como é importante para o povo cristão voltar-se ao exemplo de santidade dado por São Francisco, para que assim seja edificado e faça dos seus ensinamentos a regra da sua vida. Seria impossível exagerar o valor de seus livros e folhetos, dos quais escrevemos, para atingir esse propósito. Esses livros devem ser distribuídos tão amplamente quanto possível entre os católicos, pois seus escritos são fáceis de entender e podem ser lidos com grande prazer. Eles não podem deixar de inspirar nas almas dos fiéis um amor de verdadeira e sólida piedade, um amor que o clero pode desenvolver com os mais felizes resultados se aprenderem a assimilar completamente os ensinamentos de São Francisco e a imitar as qualidades bondosas que caracterizavam sua pregação.
CAPÍTULO XVIII
São Francisco ensina aos sacerdotes o verdadeiro método de pregação
Venerados Irmãos, a história nos informa que Nosso Predecessor, Clemente VIII, em seu tempo, antecipou Nossa conclusão de que seria uma ajuda maravilhosa para o desenvolvimento da piedade se os sermões e escritos de São Francisco fossem levados ao conhecimento dos cristãos povos. Este Pontífice, na presença de Cardeais e outras personalidades ilustradas, depois de ter aprofundado os conhecimentos teológicos de São Francisco, então bispo eleito, foi tomado de tamanha admiração por ele que o abraçou com grande afeto e dirigiu-se a ele nas seguintes palavras: "Vai, filho, 'bebe a água da tua própria cisterna e dos ribeiros do teu poço; deixe as tuas fontes serem transportadas para fora, e nas ruas repartir as tuas águas." (Prov. V, 15, 16) Na verdade, São Francisco pregava tão bem que seus sermões eram apenas "uma exposição da graça e do poder que habitavam em sua própria alma". Seus sermões, uma vez que eram em grande parte compostos de ensinamentos da Bíblia e dos Padres, tornaram-se não apenas uma fonte de sã doutrina, mas também eram agradáveis e persuasivos para seus ouvintes em razão da doçura do amor que enchia seu coração. Não é surpreendente, então, que um número tão grande de hereges tenha retornado à Igreja por causa de seu trabalho e que, seguindo a orientação de tal mestre, tantos fiéis tenham, durante os últimos trezentos anos, atingido um grau verdadeiramente alto de perfeição. Desejamos que os maiores frutos deste solene centenário sejam alcançados por aqueles católicos que, como jornalistas e escritores, expõem, difundem e defendem as doutrinas da Igreja. É necessário que eles, em seus escritos, imitem e exibam em todos os momentos aquela força unida sempre à moderação e à caridade, que era a característica especial de São Francisco. Ele, por seu exemplo, ensina-lhes de maneira inequívoca exatamente como devem escrever. Em primeiro lugar, e este é o mais importante de tudo, cada escritor deve esforçar-se de todas as maneiras e, tanto quanto possível, obter uma compreensão completa dos ensinamentos da Igreja. Nunca devem transigir onde a verdade está envolvida nem, por medo de ofender um oponente, minimizá-la ou dissimulá-la. Devem prestar atenção especial ao estilo literário e tentar expressar seus pensamentos com clareza e em uma linguagem bonita, para que seus leitores passem a amar a verdade com mais facilidade. Quando for necessário entrar em controvérsia, eles devem estar preparados para refutar o erro e vencer as astutas ciladas dos ímpios, mas sempre de uma forma que demonstre claramente que são animados pelos mais elevados princípios e movidos apenas pela caridade cristã. Visto que São Francisco, até agora, não foi nomeado o Padroeiro dos Escritores em nenhum documento solene e público desta Sé Apostólica, aproveitamos esta feliz ocasião, após madura deliberação e com pleno conhecimento, por Nossa Autoridade Apostólica, publicar, confirmar e declarar por meio desta encíclica, tudo em contrário, São Francisco de Sales, Bispo de Genebra e Doutor da Igreja, como o Patrono Celestial de todos os Escritores.
CAPÍTULO XIX
Solenidades com que se deverá celebrar o centenário
Para que as celebrações deste Centenário sejam esplêndidas e fecundas, Veneráveis Irmãos, convém que se dê aos vossos rebanhos todas aquelas pias ajudas que os levem a honrar, com a veneração que é devida a ele, esta grande luz da Igreja. Que eles, por sua intercessão, com suas almas purificadas da mancha do pecado e alimentadas à mesa da Eucaristia, sejam conduzidos com suavidade, mas com força, à aquisição da santidade, e isso em muito pouco tempo. Vede, portanto, que nas vossas cidades episcopais e em todas as paróquias das vossas dioceses, em alguma altura do corrente ano, até ao dia 28 de dezembro inclusive, se realize um tríduo ou uma novena, durante a qual se preguem sermões, pois é muito importante que o povo seja bem instruído nas verdades que, sob a orientação de São Francisco, não podem deixar de elevar o nível de suas vidas espirituais. Deixamos ao seu zelo comemorar de qualquer outra forma que você achar melhor as boas obras deste santo bispo.
CAPÍTULO XX
Concessão de indulgências e bênção final
Entretanto, para o bem das almas, concedemos, do tesouro das sagradas indulgências confiadas por Deus à nossa custódia, a todos os que assistem piedosamente às funções celebradas em honra de São Francisco, uma indulgência de sete anos e sete quarentenas diariamente. No último dia dessas funções, ou em qualquer outro dia que se escolha, concedemos, nas condições habituais, a indulgência plenária. A fim de dar uma marca muito especial de Nosso afeto ao Convento das Irmãs da Visitação de Annecy, onde repousa o corpo de São Francisco — sobre o próprio altar sobre seu corpo, celebramos com grande alegria espiritual a Missa — e no Convento de Treviso, onde se conserva o seu coração, e em todos os outros Conventos de Visitação, outorgamos durante as funções que celebrarão todos os meses em agradecimento a Deus, e para além destes dias, pedimos que vocês, Veneráveis Irmãos, exortem seus rebanhos a rezar ao Santo Doutor por Nós. Concede, ó Deus, de quem é o prazer que devemos governar a Sua Igreja nestes tempos perigosos, que, sob o patrocínio de São Francisco de Sales, foi dotado de um amor e reverência verdadeiramente notável por esta Sé Apostólica e que, em as Controvérsias defenderam com mais bravura seus direitos e sua autoridade, felizmente pode acontecer que todos os que estão separados da lei e do amor de Cristo retornem aos verdes pastos da vida eterna, para que assim nos seja dada a oportunidade para abraçá-los na unidade e no beijo da paz. Entretanto, em penhor de favores eternos e em testemunho do nosso afeto paternal, damos a Vós, Veneráveis Irmãos, a todo o vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica. Dado em Roma, junto de São Pedro, aos vinte e seis dias do mês de janeiro de 1923, primeiro do Nosso Pontificado.
CAPÍTULO XXI
Conclusão
Pela leitura atenta, diletos irmãos e filhos caríssimos, tereis devidamente avaliado o grande valor e a oportunidade das duas primorosas Encíclicas acima apresentadas ao vosso estudo e ponderação. Pois, esta classe de letras apostólicas tem por fim dar a conhecer a situação especial da sociedade cristã, as ideias, teorias e os sistemas que, segundo o juízo da Santa Sé, atentam contra a fé religiosa e costumes cristãos, e causam conflitos que, muitas vezes, ameaçam a paz e a tranquilidade do Estado. As Encíclicas, como diz um canonista, são sempre a expressão das necessidades sociais e oferecem o antídoto contra o veneno que se pretende inocular nas entranhas da sociedade; assim é que basta estudar, com reflexão, qualquer delas, para compreender o estado da Igreja ou os governos seculares da respectiva época, de tal maneira que a história destes notáveis documentos é a verdadeira história da humanidade. Oxalá, quisessem os indivíduos, as nações, os governos e todos os homens de responsabilidade atender à voz paternal do Sumo Pontífice e reformar as normas de sua vida de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo! Oxalá, pudesse a Igreja implantar em todas as camadas sociais, nos congressos legislativos, nos tribunais e nos governos dos povos, a observância fiel dos preceitos de Deus e a verdadeira caridade cristã! Não lhe falta a ela força divina e nem se pode negar a eficácia de sua ação vinte vezes secular, ou desconhecer a vitalidade sempre exuberante de suas instituições; porém, ela é inibida de exercer devidamente a sua atividade regeneradora, quando lhe são opostas barreiras insuperáveis pela obstinação dos homens, porque ela é como o sol que sempre continua o mesmo, embora sua luz brilhante não entre na casa, cujos moradores propositalmente lhe tenham fechado as portas e as janelas. Entretanto, a Igreja, e ela só, é capaz de sarar as profundas chagas da sociedade contemporânea, em virtude de sua missão universal e divina. Queira Maria Santíssima, a Rainha da paz, obter do céu a graça de restabelecer-se, em todo o mundo, e de modo especial em nosso amado Rio Grande do Sul, a paz do seu divino Filho: Pax Christi in regno Christi. Pedimos ao glorioso São Francisco de Sales, cujo tricentenário no corrente ano a Igreja Católica festivamente comemora, que interceda junto ao trono de Deus, para que o seu espírito de doçura, mansidão e caridade se infunda em todos os corações, a fim de reinar, quanto antes, a fraternidade cristã entre todas as classes sociais, entre as facções políticas e entre os povos conflagelados pela guerra.
Dada e passada sob o sinal e selo das nossas armas, em Porto Alegre, a 1º de abril, festa da Ressurreição do Senhor, de 1923.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.