
A DECADÊNCIA DA CIVILIZAÇÃO
VIGÉSIMA NONA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1940)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
Triste panorama mundial
Difícil será encontrar na história universal uma época tão universalmente perturbada como a atual. Em todos os setores da vida humana vemos fortes abalos e profundas agitações. Para verificar esse fato, basta que alguém percorra, embora rapidamente, os jornais diários e leias as epigrafes dos telegramas, artigos e notícias.
A humanidade vive sobressaltada. O futuro é um enigma. Governantes e governados temes pelos acontecimentos vindouros. A argúcia dos grandes políticos, a habilidade dos diplomatas, a previdência dos estadistas, tudo parece falhar, e tudo indica a aproximação de novas catástrofes.
Se os planetas abandonassem suas órbitas e seguissem outras rotas, certamente em breve haveria os mais tremendos entrechoques, esfacelamentos e ruínas. A única razão da regularidade dos seus movimentos, da estabilidade de sua harmonia consiste em seguirem o seu curso ao redor do sol, conforme leis determinadas e imutáveis.
Os acontecimentos, as perturbações do mundo se parecem com as condições dos astros. Para que possa reinar ordem nas coisas humanas e nos assuntos públicos, é preciso que haja um centro espiritual que domine os homens e as sociedades.
Esse ponto central a Igreja, constantemente, no-lo ensina e é bastante conhecido. Já a inteligência sã do antigo paganismo dizia que o homem sempre está em perigo de transviar-se, quando se deixa guiar por estrelas falsas e fugazes; e proclama também que somente há um meio para manter o mundo na ordem e conduzi-lo ao cumprimento de sua finalidade pelo caminho reto: a obediência ao verdadeiro sol dos espíritos, a lei de Deus.
Entretanto, em geral, muitíssimos não querem reconhecer a causa do mal. E não há meio mais fácil de passar por inimigo da sociedade ou da pátria ou de certas nações que revelar a verdadeira causa dos deploráveis desastres, a origem das graves desordens que estão perturbando toda a humanidade. Dessa maneira, como será possível a salvação? Tal é a situação em que a humanidade se encontra.
Pode ser que não se aprecie, devidamente, a importância desta pastoral; é possível que sejamos alvo de críticas ou taxado de fastidioso. Não importa!
Queremos seguir as normas que São Paulo traçou ao seu discípulo Timóteo: "Prega a palavra, insta, a tempo e fora de tempo, repreende e roga, admoesta, com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina, mas, deleitando os ouvidos, cercar-se-ão de mestres conforme aos seus desejos. E desviando os ouvidos da verdade, os aplicarão às fabulas. Tu, porém, vigia e não te negues a trabalho algum; faze a obra de evangelista, cumpre o teu ministério".
Queremos desempenhar o nosso múnus episcopal, apontando ao respeitável Clero e aos seus amados Fiéis desta Arquidiocese as causas dos transtornos sociais que acabrunham a sociedade humana.
Qual é essa causa multiforme? Não é outra senão a seguinte: Os Estados e, mais ou menos, todas as nações afastaram-se de Deus, repelem a verdadeira religião e negam-se a prestar ao soberano Senhor as homenagens devidas e o culto necessário.
Já diziam os antigos: não é possível governar uma casa, uma aldeia, uma cidade sem justiça; porém, jamais poderá sustentar-se a justiça se não é edificada na moral, a esse a moral não se alicerça na religião. Neste particular, o cristianismo nada ensinou propriamente de novo, não fez mais que purificar e confirmar a doutrina dos antigos. Os modernos doutrinadores como Maquiavel, Hegel e outros, substituindo a fé pelo livre pensamento, a moral cristã pela moral independente e o direito pela violência, preparam a situação atual. É esse o panorama triste e deplorável que se desdobra diante das nossas vistas nos tempos que correm.
Não admira, pois, que a civilização estremeça nos seus fundamentos e que homens insuspeitos proclamem a decadência da civilização.
Lemos na História Sagrada o seguinte acontecimento: Quando os príncipes dos filisteus e grande massa do povo homenageavam ao seu deus Dagon e se banqueteavam, o juízo Sansão já cegado pelos seus inimigos, abraçou-se com as colunas principais que sustentavam todo o edifício e, num arranco extremo dos seus braços hercúleos, derrubou o templo, ficando ele e todos os que ali estavam reunidos, debaixo de pavorosas ruínas.
Não será esta cena uma imagem da atualidade? Estadistas e filósofos, cegos pelo orgulho, sacodem e derrubam as colunas mestras da sociedade humana, enquanto prestam culto às suas falsas divindades e deliram, impulsionados pelas suas glórias efêmeras. Sepultam-se a si mesmos e a muitos outros debaixo das ruinas que amontoam pelo esforço titânico de sua violência.
Será possível consolidar e reparar as colunas já rachadas do edifício social ou deverá a sociedade humana ser reedificada completamente depois de um cataclismo universal? Em todo o caso, isto será impossível realizar, sem o auxílio de Deus, sem a cooperação eficaz da Igreja e sem que as dirigentes altas do mundo voltem a observar as leis fundamentais da justiça e da caridade.
Deus fez as nações como os indivíduos sanáveis. Sua misericórdia não está esgotada, sua Providencia opera com suavidade e fortaleza. Os recursos que Cristo Redentor oferece às sociedades, conservam a sua eficácia e são ilimitados. É preciso, porém, que os homens reconheçam seus erros e retornem à fonte imperecível da vida e da luz. "Volte cada um do seu mau caminho". Ele dirige ainda hoje esta mesma palavra ao mundo convulsionado.
Escolhemos, por isso, como tema desta pastoral: "A decadência da civilização, suas causas, consequências e remédios remédios". Como não é obra de caráter didático, mas popular, expomos a doutrina em conjunto, sem as divisões apontadas pelos subtítulos.
Na elaboração deste documento doutrinal aproveitamos todas as fontes contemporâneas idôneas ao nosso alcance, buscando a boa doutrina em toda a parte, à semelhança da abelha que procura o mel em todas as flores. Pois, como diz Santo Tomás, "Sapientis est ordinare, o sábio coordena".
Iniciamos, portanto, a nossa tarefa, implorando o auxílio de Deus: Senhor, vos suplicamos que vos antecipeis a promover e ajudar o nosso trabalho, para que todo o nosso esforço e operação sempre por vós tenham princípio e se completem.
CAPÍTULO II
Agir e não só lamentar
Felipe, o rei da Macedônia, invadira a Grécia, violando pactos, roubando praças e devastando cidades. Em face dessa da Grécia, dirigiu-se Demostenes ao povo ateniense, convidando-o em discursos veementes a pôr remédio aqueles enormes desastres nacionais.
E, em primeiro lugar, Demóstenes censurava os atenienses a sua indolência, a sua apatia e os seus dissídios, por não terem atalhado as invasões de Felipe.
"Atenienses, dizia Demóstenes, que contestaríeis aos gregos se vos perguntassem: Que tendes feito, além de lamentar-vos, para libertar a Grécia do domínio do invasor? Ateniense, se isto nos dissessem os gregos, que lhes responderíamos? Eu confesso que não acho resposta".
"Há, sem embargo, alguns entre vós, que parecem interpelar o orador, perguntando-lhe: Pois, que se há de fazer? Aos quais no mesmo tom e, com tanta razão, poderia responder: Pois, não fazer o que fazeis"!
E em outro discurso volta Demóstenes a falar aos atenisenses, para incitá-los a sair de sua indolência e pôr remédio aos males que Felipe causava à pátria.
"Rogo-vos, atenienses, não leveis a mal, que vos diga, sinceramente, alguma coisa sobre a verdade: Aqui em vez da verdade, não ressoa já senão a lisonja, e, enquanto vós, bem a vosso bem prazer, vós deleitais e vos regalais, com sua doçura, vossas coisas, andando seu caminho, chegaram já à borda do precipício.
"Pois bem, se continuais, não obstante, na vossa disposição, tenho concluído, não tenho mais que dizer-vos: mas, se quereis ouvir sem adulações o que vos convém, aqui me tendes disposto a propô-lo; se bem que o estado das coisas é tão triste como tenho dito, contudo alimento a esperança de que, se vos resolverdes a cumprir vosso dever, elas poderão assim mesmo endireitar-se.
"Mais ainda, e vá um paradoxo: o pior que tendes tido até agora, isso é cabalmente o que mais deve alentar-vos para o futuro. E que é isso? É que os negócios andam tão malparados, por vós não haverdes feito nada, nem pouco nem muito para remediá-los: porque claro está que, se assim andaram, depois de haverdes feito quanto estava em vossa mão, nem vestígio de esperança nos ficaria de que pudessem melhorar. Assim, animo, atenienses, porque Felipe só triunfou da vossa negligencia e dos vossos descuidos; não triunfou da cidade nem de vós tão pouco; se nem sequer logrou mover-vos".
Este mesmo raciocínio de Demóstenes referente aos atenienses se pode aplicar hoje, numa ordem mais transcendental, aos males espirituais e morais e ainda materiais que a nós e ao mundo inteiro oprimem e flagelam.
Católicos, que responderíeis aos que vos perguntassem: Que tendes feito, além de lamentar-vos, pela liberdade e pelo progresso da vossa religião? Talvez não seja fácil responder. Talvez alguém se insurja, perguntando irado: Pois, que devíamos ter feito? E com toda a calma responderíamos a essa pergunta, o que Demóstenes respondeu aos atenienses: Pois, não fazer o que tendes feito. Não viver como tendes vivido até agora.
Muitos vivem um catolicismo rotineiro, assistindo, apenas, a determinadas festividades do ano e às datas mais assinaladas da vida. Um catolicismo se meia hora escassa na semana, com assistência à missa do domingo. É um catolicismo de festas familiares por ocasião de casamento, batizados, aniversários natalícios, mais por tradição secular do que por motivos de verdadeira fé. É um catolicismo de um culto muitas vezes espetacular e ainda mais de turismo lucrativo do que fruto das almas que externamente manifestam seus profundos sentimentos internos a seu Deus.
Um catolicismo parcialmente vivido, mecanicamente vivido, não é catolicismo integral, que a Jesus Cristo veio trazer à terra e o qual ele quer que vivamos todos na vida privada e pública. Devemos praticar um catolicismo cujos mandamentos muitos consideram pesados na vida matrimonial e social, quando se trata de observá-los.
Este catolicismo para que seja o que Jesus Cristo quis e produziu os frutos sociais que dele derivam, é preciso cimenta-lo em uma fé solida, maciça, granítica que, para sê-lo tem de ser uma fé instruída. E para isso é preciso empregar tempo na formação esclarecida da nossa fé. Cursos de apologética para operários, para jovens e adultos, para empregados no comércio e pessoas de diferentes profissões Cursos de religião. Cursos de liturgia. Cursos de moral profissional. Cursos de sociologia cristã.
Então, sim, quando a religião não somente viesse imposta por herança, e pela vida afetiva, senão pela convicção íntima, então seria amada e praticada em toda a sua integridade e pureza. E somente então poderíamos dela esperar os frutos sociais necessários. De um catolicismo instruído e sólido nasceria como fruto natural e sazonado uma vida verdadeiramente cristã.
Porque o católico consciente dos seus deveres e obrigações, que ama a sua religião, esse é que sente na alma e necessidade dos dons de Deus. Esse católico coopera por meio de suas qualidades e dons com a missão de Jesus Cristo e sente poderosos estímulos internos que o impelem a pôr tudo quanto é ao serviço de Deus. Quando tivermos um catolicismo verdadeiro, teremos também frutos verdadeiros.
Católicos de nome que nas suas empresas e obrigações se conduzem de modo idêntico aos que não são católicos, somente se preocupam de ajuntar dinheiro, embora seja à custa da justiça e da caridade. Católicos de nome que nas suas diversões, nos seus balneários e nas suas paixões se comportam como os pagãos, que somente aspiram ao gozo da carne; católicos de nome que impedem a geração de filhos e recalcitram contra as leis impostas ao matrimônio por Deus; católicos de nome que não fazem caso das legislações do Vigário de Jesus Cristo e bebem, diária e continuamente, o erro nos periódicos e nos livros portadores dos venenos mais ativos e corrosivos para fé que professam: esses católicos tem feito mais dano à religião do que os adversários francos e declarados do catolicismo.
Por isso, é necessário instaurar o catolicismo no exemplo. Os católicos para sê-lo, ponham em prática, nos seus negócios e empresas, as normas sociais traçadas pelos Papas nas suas encíclicas. Os católicos para sê-lo, o mostram nos seus costumes e nas suas diversões, sem a hipocrisia de buscar eufemismos, como o de banhos de sol para disfarçar os aspectos provocadores do nudismo pagão.
Os católicos para sê-lo, conheçam e pratiquem suas obrigações conjugais, não prostituindo o matrimonio que Jesus Cristo elevou à dignidade de sacramento. Os católicos verdadeiros não podem pertencer a seitas filosóficas ou religiosas proibidas pela Igreja.
Os católicos para sê-lo, respeitam a suprema autoridade do representante de Jesus Cristo na terra, e jamais envenenem a sua fé nem pervertem suas inteligências com doutrinas errôneas, proporcionadas pela leitura de livros antirreligiosos.
É preciso agir! O derrotismo coopera para a decadência da civilização. É necessário tomar atitudes decisivas e firmes. A tibieza é um grande mal. Já dissera Nosso Senhor: "Utinam frigdus esses aut calidus, oxalá que foras frio ou quente, mas porque és tíbio, nem inteiramente frio, nem de todo quente, lançar-te-ei da minha boca"!
Não basta lamentar-se, é mister agir e dar bom exemplo!
CAPÍTULO III
Absolutismo estatal
Todo o mundo fala hoje em absolutismo estatal em Estados totalitários, uns para tecer-lhes louvores, outros para censurá-los. Entretanto, os homens fariam bem, se recordassem as palavras de Salomão: "Nada há de novo debaixo do sol e ninguém pode dizer: é aqui uma coisa nova: porque já existiu nos séculos precedentes, somente que já não nos lembramos dela".
Podia-se dizer também: nada de novo debaixo do sol, só com a diferença de haver para velho dramas e comédias, novos atores. E ainda que este princípio admita exceções, pode-se considerar a maior parte das vezes, alguma novidade, como consequência longínqua de um fato conhecido já há muito tempo.
Isto é, particularmente, verdade com referência à concepção moderna do Estado absoluto ou totalitário. Afirmações como estas: o indivíduo não é nada, a prosperidade nacional deve prevalecer sobre qualquer outro direito, a lei emana da vontade geral ou, exclusivamente, do arbítrio do governante, e princípios semelhantes constituíam o fundamento do antigo direito do Estado. Ainda que combatidos por alguns sábios isolados, em particular por Aristóteles e Cícero, estes princípios dominavam a vida pública, mais ou menos como hoje nos Estados totalitários.
No Estado absoluto da antiguidade, concentrava-se, de ordinário, a plenitude do poder em uma só pessoa, como hoje nos Estados totalitários.
É impossível levar mais longe a ideia do direito absoluto e da divinização do poder estatal do que antigamente era no orienta. Na Pérsia florescia, em todo o seu vigor, a lei segundo a qual "o direito é a vontade e o mando do rei, e este, tendo uma vez tomado uma determinação, não pode muda-la, como Deus não pode mudar um ato de sua vontade".
De conformidade com esta maneira de conceber o poder dos soberanos, se dava ao rei o título de senhor e de deus, e os súditos lhe tributavam as mesmas honras que às divindades, prosternando-se diante dele.
É sabido que os gregos sentiam um horror invencível a semelhante glorificação pessoal, apesar de que, com relação ao Estado absoluto, não eram menos escravos do que os pesar e egípcios, dos quais diziam com desprezo os judeus: nem um só deles é livre.
Mas, apenas viu a sua pátria a concentrada onipotência em uma só pessoa, eles ofereceram o mesmo espetáculo que os orientais. Alexandre Magno se fez chamar, também, senhor do universo. Exigiu honras de adoração e, de bom grado, se teria atribuído dignidade divina, se não tivesse temido uma violenta oposição por parte de alguns homens respeitáveis que não queriam fazer causa comum com os cortesãos e aduladores.
O mesmo ocorreu em Roma. Verdade é que Augusto se esquivou destas honras e as repeliu. O horrível Tibério, que as havia tolerado a princípio do seu reinado, as proscreveu prontamente, ao perceber que era um crime. Mas, quando a embriaguez do poder, que reinava sobre o mundo inteiro, havia despojado a Calígula e a Nero de todo o pudor, exigiram os imperadores honras divinas, e quem se negasse a prestá-las, era castigado como criminoso de alta traição.
Na época da decadência do império romano, quando a religião e o caráter haviam soçobrado, os homens adulavam os imperadores e as imperatrizes, dando-lhes o título ímpio de deuses e deusas. As estátuas dessas divindades de novo tipo eram mais honradas e seus templos eram mais frequentados do que os dos deuses desprezados. Isto se compreende facilmente.
Sem embargo, os cristãos preteriam orar, sacrificar-se e morrer pelos imperadores e pelo Estado antes que manchassem o nome de Deus, aplicando-o por vil adulação à pessoa de um Comodo ou de um Heliogabala.
Entretanto, homens com o Plínio o jovem, que repeliam a usurpação da dignidade divina para si, não vacilavam em considerar os cristãos dignos de morte, quando não dobravam o joelho diante da pessoa do imperador.
De Roma pagã transportaram os imperadores esses velhos princípios para sua residência de Bizâncio. Graças ao servilismo dos gregos degenerados, encontraram esses costumes terreno propício para produzir e desenvolver aquela árvore venenosa, á qual a nova cidade deu um nome que jamais desaparecerá: o bizantinismo.
Pois bem, semelhante árvore não próspera mais do que em terreno pútrido. Ao cabo de muitos anos, o Estado se havia tornado cristão. Mas, não renunciou a essas reivindicações ímpias relativas às honras divinas. Pelo contrário, encontrou no cristianismo um novo meio para afirmar, abusivamente, que nada ao mundo podia despojá-lo de sua onipotência, nem sequer a instituição fundada pelo próprio Deus.
Queria o Estado, segundo declarava, tomar a religião debaixo de sua generosa proteção, porém sob condição de ser na terra seu senhor e seu deus visível. Aqueles imperadores déspotas trabalhavam pelo desenvolvimento da árvore detestável do bizantinismo, por meio da brutalidade romana, da hipocrisia grega e do servilismo oriental. Aqueles imperadores que se chamavam Arcádio, Teodósio II, Justino e Justiniano, se constituíam em defensores da fé cristã e das suas leis, mas não se envergonhavam de usar uma linguagem, como se fossem o próprio Deus do céu e da terra.
A prova de que não haviam renunciado à antiga jactância pagã, está nestas expressões de que faziam uso: "Nós, santíssimos imperadores". "Nossa divindade ordena". "Nossa palavra divina o quer assim". "Tal é a ordem divina que vos dirigimos". Onde outros soberanos, pensando como homens, teriam dito: "Quem faltar a estes mandamentos, será castigado", diziam eles: "Quem resiste aos nossos benefícios divinos, comete um crime de lesa divindade".
Enquanto Trajano havia declarado o que o príncipe não estava acima da lei, mas que a lei estava cima do príncipe; enquanto Alexandre Severo havia legado aos seus sucessores esta sentença: "Nada é tão conforme à dignidade imperial como viver segundo a lei", dizia Justiniano". "Deus submeteu toda a lei ao poder real, porque este foi dado por Deus aos homens como uma lei viva".
E São João Crisóstomo e Máximo, o sábio, e santo confessor, Papa Martinho I e muitos outros grandes homens são testemunhas eloquentes de que aquelas frases não eram ocas, mas convicções expressas com muita seriedade, já que eles pagaram com o desterro, com perseguições ou com a morte a ideia de que o culto do Deus do céu era superior a toda a obrigação para com essas divindades terrestres.
No ocidente, contudo, os povos não eram capazes do servilismo bizantino. Teodósio II, quando publicou o édito de Ravena de acordo com Valentiniano III, se viu obrigado a dizer que a lei era superior ao poder real. Mais tarde, porém, cientes das atitudes do Estado romano, os príncipes cristãos, principalmente os imperadores germânicos, não puderam resistir aos encantos sedutores do poder absoluto.
Ao finalizar a Idade Média, os príncipes absolutos aumentavam o seu poderio. Seus ensinamentos foram sintetizados por Maquiavel e seu manual clássico da política dos tempos modernos.
A reforma protestante chegou a tempo para proporcionar um campo de ensaio a essa doutrina sobre o Estado. Apareceram as teorias de Hobbes e Jean Jacques Rousseau. O humanismo já havia precedido à reforma. O absolutismo do Estado triunfava. A revolução francesa favoreceu, extraordinariamente, o antigo despotismo, destruindo os dois grandes obstáculos que sempre se haviam oposto ao seu completo desenvolvimento, a saber, a destruição do poder da Igreja e a organização social.
A secularização e a dissolução do império alemão aplainaram o terreno para construir um novo edifício. Em seguida, pode-se ir adiante na empresa de realizar desde a base a nova ideia do Estado. Napoleão I com seu gênio poderoso deu, também, o impulso neste sentido. Filósofos alemães como Hegel, desenvolveram mais a teoria do Estado absolutista. E os Estados totalitários procuraram realizar esta doutrina.
Se, pois, por um lado verificamos que, de fato, no assunto em apreço, não há novidades consideráveis, por outro vemos que, quando os Estados desprezam as normas das leis naturais e do cristianismo, abalam a civilização existente e preparam sua falência.
Duas vezes, em tempos diferentes, vimos o tumulo de Napoleão na Igreja dos inválidos em Paris. Lá jaz o grande conquistador, que com a espada traçou novas fronteiras aos países europeus. Quem não admira a sua ascensão gloriosa no horizonte da Europa? Mas, a sua queda foi rápida, catástrofe.
Noticiaram os jornais, há pouco, que Adolfo Hitler, depois da capitulação de Paris, visitou o túmulo de Napoleão. Quais teriam sido suas reflexões diante das cinzas do astro caído? Não podemos sabe-lo. Talvez "sic transit gloria mundi, assim passa a glória do mundo".
CAPÍTULO IV
A grandeza das nações
Durante uma noite do quinto mês de 737, depois da fundação de Roma, o imperador Augusto, com brilhante comitiva, saia do seu palácio. Ao clarão de archotes fumegantes, atravessou as ruas escuras da cidade, dirigindo-se ao campo de Marte.
No meio de guerras continuas e inquietações, esperava o povo o alvorecer de uma época melhor. E é aí que apareceu um novo cometa: chegara uma época melhor, e, justamente, naquela noite havia de festejar-se o seu advento. O imperador saiu para oferecer, por tal motivo, um sacrifício.
A noite brilha na luz de inúmeros archotes. Luz elétrica não havia. Uma multidão enorme se apinha em torno dos três altares levantados em honra das deusas da sorte. Grande número de sacerdotes, onde as luzes, ressoam os clarins. De repente, cessa todo o ruído, chega o momento solene: o imperador se segue, se dirige ao altar e oferece seu reino e seu povo à divindade.
O povo jubiloso, volta para casa. "Começou uma época nova, uma época melhor"! Os romanos teriam razão? Sim, mas não como eles o imaginavam. Não foi, porém, cometa que trouxe a época melhor. Foi Jesus Cristo, o Filho de Deus, que, depois de alguns anos, nasceu na cidade de Belém.
O mundo iniciou uma nova era e os deuses pagãos caíram por terra. As nações se regeneraram e os Estados reformaram suas constituições.
Por isso, Jesus Cristo é o fundamento da grandeza das nações. Pois disse o apóstolo São Paulo: "Não há potestade que não venha de Deus". Isto quer dizer: Haveis de obedecer enquanto o poder humano nada mandar contra a lei de Deus.
Assim se compreende com quanta razão escrevia o Santo Padre Pio XI na sua Encíclica ao instituir a festividade de Cristo Rei: "Portanto, se os homens reconhecem, privada e publicamente, o régio poder de Cristo, necessariamente a sociedade civil terá de gozar de inacreditáveis benefícios, como a justa liberdade, tranquilidade, disciplina, paz e concórdia".
"A dignidade regia de Nosso Senhor, assim como torna sagrada, de certo modo, a autoridade humana dos chefes e governantes do Estado, assim também enobrece os deveres e os direitos dos súditos." E continua o Santo Padre: "E se os príncipes e governantes, legitimamente leitos, se persuadem de que eles imperam, mais por mandato e representação de Jesus Cristo do que por próprio direito, ninguém poderá ignorar, quão santa e sabiamente, terão de usar de sua autoridade, e quanta reflexão deverão ter ao dar e executar as leis relativamente ao bem comum e á dignidade humana dos seus inferiores".
A prosperidade da própria Nação exige esforço e trabalho sem desfalecimento, para que sejam respeitados por toda a parte os direitos inalienáveis do País. Os produtos nacionais deverão ser, pela conscienciosidade do seu preparo, os primeiros no mundo: excelentes e merecedores de confiança: se alguém é operário, deverá demonstrar amor à perfeição de sua obra. A ciência pátria alicerçada em princípios sólidos e cristãos levantar-se-á a grandes alturas, afim de alcançar o apreço e o acatamento das outras nações. Se alguém é sábio e se consagra à ciência, contribui para a grandeza da Nação.
A nossa juventude há de ser a mais brilhante e, deve sobressair pela nobreza do seu caráter às demais mocidades da terra; e se alguém é mestre, professor, sacerdote ou chefe de família, e trabalha inspirado neste patriótica ideal, com abnegação e persistência, presta reais serviços à grandeza da Nação.
A fé tradicional do nosso povo deve ser firme como as montanhas gigantescas que erguem seus picos além das nuvens; e se, por isso alguém trabalha pelo aumento da religião, ampara a estabilidade e o bem-estar das classes sociais.
A conduta do nosso povo deve obedecer aos preceitos da moral cristã, deve excluir todas as ideias paganizantes; e quem trabalhar neste sentido, prestará dos mais relevantes serviços à Nação. Sim, é este um serviço relevante prestado ao País. Esta dedicação patriótica é capaz de elevar o povo a grandes alturas religiosas morais e cientificas, sem que, por isso, tenha de humilhar ou afrontar outros povos.
Esse amor à Pátria não degenera em cega idolatria das coisas próprias, nem quer aniquilar outras nações, nem pretende subjugar o mundo, uma dedicação nacional que estima a própria gente, não repele ou detesta os povos estrangeiros, porque se inspira na verdade de que todos são filhos do mesmo Pai Celeste.
Oxalá, fosse maior o número daqueles que dessa maneira se consagrassem aos altos interesses da Nação. Neste caso não haveria tantos atritos e mal-entendidos. Pois bem, a religião católica ensina esta dedicação verdadeira aos altos interesses nacionais.
É bem verdade que hoje, muitas vezes, o nacionalismo ultrapassa as normas indicadas. Há manifestações patrióticas grandiloquentes de vivas e hurrás e acompanhadas de músicas vibrantes e estrepitosas salvas; mas, tais manifestações de patriotismo são estranhas ao espirito do catolicismo e pouco proveito facultam à propriedade nacional.
A Igreja não ensina tal nacionalismo promovido pelo rufar de tambores, pelo agitar de bandeiras e gritos de vivas, mas que não sabe fazer pequenos-sacrifícios no cumprimento, monótono dos deveres quotidianos e muito menos sacríficos heroicos em tempos críticos e difíceis.
Grandes banquetes, discursos elogiosos de hora e meia, iluminação fantástica e artigos de fundo não revertem em grande benefício dos interesses da Nação, que luta contra inimigos temíveis, internos e externos. Realmente, a Igreja não ensina este gênero de nacionalismo. Mas, recomenda que se trabalhe com perseverança, cumprindo cada um, escrupulosamente, seus deveres de estado.
O catolicismo se coloca ao lado dos homens, quando a honra vai periclitando de maneira espantosa, quando vacilam aqueles que deveriam inquebrantavelmente ficar firmes, então a Igreja lhes diz: Homem irmão, sê honrado, não manches as tuas mãos e a tua alma com pecados e iniquidades.
O catolicismo ensina aos cônjuges suas obrigações. E hoje tão pernicioso como cruel, pretende solapar e demolir o fundamento da sociedade que é a família, e nem o Estado nem a seções mais sérias as sentem com forças bastantes para proteger as altas finalidades do casamento, o catolicismo é o único que se atreve a clamar, cônscio do seu dever e de sua missão: homens e irmãos, não permito que os vossos lares sejam profanados, não é lícito deixar liberdade às paixões. Cristo o proíbe, ele elevou o matrimônio à dignidade de sacramento, revestindo-o de graças sublimes, afim de que, pela procriação legítima e criação cristã de filhos, ele contribua para continuação do gênero humano, como instrumento do próprio Criador.
O catolicismo instrui e aconselha os chefes de família. E hoje, quando o mundo moderno e frívolo destruiu o justo apreço da sublime missão paterna, nem a legislação, nem os estudos sociológicos, nem os gritos de alarme pelo futuro das nações são capazes de opor dique aos horrores da limitação da natalidade, a Igreja Católica é que proscreve e condena o infanticídio e a profanação do santuário da família.
O catolicismo é o guarda da moralidade pública. Quando as modas exageradas escandalizam e deprimem a dignidade da mulher; quando nas praias de banho se desenrolam cenas e aspectos que fazem enrubescer a espuma branca das ondas; quando campeiam os jogos que destroem a felicidade das famílias e levam não poucos ao suicídio; então é a Igreja Católica que levanta a sua voz, afrontando vitupério e insultos, para lembrar aos homens as leis divinas, as conveniências sociais e a felicidade do povo.
O catolicismo estende a sua divina influencia aos jovens, que constituem a única esperança do futuro da Pátria. Quando suas níveas almas se salpicam de imundícies satânicas, pela rua nos cinemas, nos teatros, pela literatura de maus livros e não podem ser preservadas, nem pela escola, nem pelo Estado, nem pela autoridade paterna, a religião católica é a única que grita com eficácia: filhos amados, guardai a pureza das vossas almas! Que será da Pátria, se os pecados contra a castidade fizerem empalidecer vossos rostos, desenhar negros anéis em torno dos vossos olhos e encurvar vossos corpos em plena mocidade? Que será da Pátria em tempos de lutas e de guerras, quando for preciso defender a Nação atacada? Guardai impoluto vosso caráter e firme a vossa convicção religiosa e puro o vosso coração!
Estes ensinamentos da Igreja proclamam o verdadeiro ideal do legítimo nacionalismo. Eles tem, certamente, mais eficácia do que doutrinas paganizantes que abstraem dos preceitos de Deus.
A Igreja combate e corrige os elementos dissolventes da civilização.
CAPÍTULO V
Esquecimento fatal
Um dos fatores principais da decadência da civilização é o esquecimento do destino supremo do homem. No tumultuar dos trabalhos diários para conquistar uma subsistência conveniente, no afã de realizar melhoramentos em todos os setores da vida pública, afim de engrandecer a pátria terrena, o homem, em geral, se esquece de sua tarefa precípua que consiste em conquistar a pátria eterna.
Na educação cultiva-se a inteligência, sobrecarrega-se a memória da criança com o estudo de mil e uma disciplinas, sem que no programa haja um lugar oficialmente destinado ao ensino da religião. O Estado leigo, sobrepondo-se aos preceitos divinos, julga-se dispensado de incluir nos programas oficiais o ensino religioso obrigatório. Felizmente, as nossas leis permitem o ensino religioso facultativo. Nossos governantes dão, neste particular, um belo exemplo a nações europeias. Reconhecem que a religião é a base da felicidade dos indivíduos e dos povos. O Brasil deve a sua grandeza moral à religião de Cristo e o seu futuro é condicionado à obediência dos preceitos de Deus. A educação cristã é de absoluta necessidade.
Por mais acentuado e fantástico que seja o progresso em todos os departamentos da vida humana, será impossível que ele preencha essa lacuna. Daí o desmoronamento moral, o desconhecimento das leis do decálogo e dos ensinamentos de Cristo. E como a civilização se funda nestes alicerces, compreende-se, facilmente, com consequência locai, a decadência das instituições públicas e a instabilidade das organizações sociais.
Quantos, por acaso, pensam na vida pública realmente em Deus? É raríssimo que se profere o nome de Deus ou de Jesus Cristo, Muitos pensam que Deus seja uma pessoa rodeada de grandeza e majestade, sentada no seu trono, em lugar bem distante, a quem rendemos culto nos domingos e nos dias de guarda, assistindo à missa, de preferência a horas bem tardias. Mas depois, na oficina, na fábrica, na vida social, na família, quem é que fala em Deus?
Mas, os verdadeiros cristãos não pensam dessa maneira. Deus não está longe de nós, ele está presente em toda a parte e conserva continuamente, por sua vontade onipotente, a nossa existência. Se ele retirasse de nós, um só instante, o seu concurso, todos nos cairíamos no abismo do nada. Por isso disse São Paulo no Areópago: "Porque nele mesmo vivemos e nos movemos e existimos".
E que se pensa a respeito da vida eterna? Muitos resumem toda a existência humana no estreito âmbito da vida presente. Talvez nem pensem no futuro. Será tal procedimento razoável? Certamente que não. Embora o homem vivesse, eternamente, neste mundo, jamais tornar-se-ia completamente feliz. Suas tendências espirituais, sua inteligência e sua vontade exigem a posse do Bem infinito para a sua bem-aventurança perfeita e integral.
O rei Salomão, sábio e afortunado, que estava rodeado de todas as grandezas e que gozava de glórias imensas como nenhum outro soberano, exclamou no fim de sua vida: "Vanitas vanitatum et omnia vanitas, vaidade das vaidades e tudo é vaidade".
Por isso, a vida atual deve revestir-se de condições tais que a posse da pátria eterna nos seja garantida. A prática perseverante do dever e da virtude neste vale de lágrimas é condição essencial da felicidade suprema. O pensamento dirigido ao céu é sumamente salutar.
Como pensavam os santos e os apóstolos a este respeito? Quando São Pedro estava cravado na luz com a cabeça para baixo, que lhe dava força? Quando Santo André abraçava com amor à espada do verdugo, que lhe dava vigor e valentia? A vida eterna. Eles viam os céus abertos e contemplavam a Cristo, o Rei da pátria eterna, a destra do Pai Celeste.
Sabemos como os mártires olhavam o céu. Feras famintas rugiam em torno deles, tigres e leões, açulados pelo público ébrio de sangue nos circos romanos, os despedaçavam enquanto eles se lembravam de Cristo, Rei da pátria eterna a quem ofereciam seus tormentos e a vida.
Não ignoramos de que maneira todos os santos olhavam o céu. Quando meditavam as glórias eternas, diziam: Náusea me inspirava a terra ao contemplar o céu! Que coisa consideravam ali? Contemplavam a si mesmos, que aqui na terra deviam passar por muitos sofrimentos, mas que ali haviam de chegar ao destino. Vem as numerosas dores parecidas que ali se transformam em galardão. Aqui lágrimas suores e lutas; ali pérolas preciosas que embelezam a coroa celestial. Tal perspectiva bem vale a pena de sofrer.
Diariamente confessamos: Creio na vida eterna; é um artigo da nossa fé, do nosso Credo. Mas, como o confessamos? Só de palavra ou também com a vida correspondente? Não somos daqueles que dizem: Acaso pode ser, quem sabe, não é impossível que haja alguma coisa além-túmulo?
Nossa fé não deve ser anêmica, mas forte e inabalável. Creio firmemente que há uma vida perene que viverei eternamente. É esta uma verdade inabalável e certíssima.
A alma é imortal. No juízo final ressuscitará o nosso corpo, que de novo será animado pela mesma alma. Assim o homem, em obediência à sentença inapelável do Juiz supremo, Jesus Cristo, ou gozará as delícias celestiais ou será sujeito ao suplício eterno.
Há um pensamento que nos deve orientar na apreciação da pátria terrena e da pátria eterna: Que será de nós dentro de cinquenta e mais anos? Estaremos em casas ou que lugar? A resposta é uma fácil. Os homens, na hora suprema desta vida, vão encarar de outra maneira as suas atividades.
Que proveito proporcionarão aos governantes e ministros os brilhantes projetos legislativos; que vantagens auferirá o professor universitário de suas lições famosas; que utilidade receberá o operário de seus esforços e trabalhos; se eles todos não cumpriram seus deveres, tendo perdido de vista a vida eterna. Então será tarde!
Mas, agora ainda é tempo. Pois, a sabedoria cristã no ensina: devemos pôr ao serviço da vida eterna todos os atos, todas as aspirações da nossa vida atual.
Havemos de resistir como colunas graníticas neste mundo contra a torrente transbordadora do pecado. Sofremos? É possível. Lutamos? É possível. Caímos? Não, não havemos de cair! Havemos de ser católicos todos os dias, nunca esquecendo, -- sejam quais forem as circunstancias, -- que Deus nos criou e nos dá todos os meios para alcançarmos a vida eterna. Havemos de trabalhar durante o dia, enquanto houver luz, antes que o sol despareça por trás das montanhas da nossa existência terrena.
Quem pautar a sua vida pelas leis divinas, conquistará a pátria eterna e, ao mesmo tempo, servirá aos supremos interesses da pátria terrena.
Vê-se, pois, a necessidade de proporcionar à mocidade uma educação adequada e integral, que abranja todas as suas faculdades, afim de que possa realizar sua missão na terra e alcançar o seu destino supremo.
CAPÍTULO VI
O olvido da Providência Divina
No meio dos negócios terrenos, seja em tempo pacíficos ou de guerra, o homem olvida, não raro, a Providência divina. Pois, é essa uma consequência lógica da negação do olvido de Deus. Se os governantes e legislador, impelidos pela teoria nefasta do laicismo, organizam a vida social e pública sem referência a Deus e aos ensinamentos do seu Filho eterno, não admira que a doutrina consoladora da Providência divina seja ignorada ou esquecida. Entretanto, impõe-se aos sacerdotes e professores católicos o dever indeclinável de ensinar essa importante verdade teológica. Todo o universo foi criado por Deus. O homem é criatura do Onipotente.
Confessando que Deus é o autor e criador de todas as coisas, devemos, igualmente, crer que ele conserva e dirige as suas criaturas. Pois, se foi necessário aos diversos seres o socorro do poder, a sabedoria e da bondade de Deus para terem a vida, é-lhes preciso para nela perseverar, o apoio constante da divina Providência, e se o mesmo poder divino que os formou, os não conservasse ainda, desapareceriam imediatamente, sem demora.
Não só Deus conserva e sustenta todos os seres com a sua Providência, mas também tudo o que se move, tudo o que se opera, recebe dele, por efeito de uma virtude secreta, o movimento e a ação.
A Providência divina é o plano, segundo o qual Deus governa o mundo e o conduz aos seus fins. Como a religião consiste, essencialmente, no reconhecimento teórico e prático das relações do homem com Deus, a consciência religiosa considera idênticos os nomes de Deus e da Providência. E, por isso mesmo, a incredulidade tem sempre atacado mais o governo divino do mundo do que qualquer outro atributo de Deus, como disse Bossuet.
A tudo a Providência estende o seu influxo oculto e é por isso, como diz o sábio, que "atinge tudo com força e dispõe tudo com doçura". É também este o pensamento do apóstolo São Paulo, pregando aos atenienses o Deus que eles honravam, mas que não conheciam; "ele não está longe de cada um de nós, diz ele, pois temos nele movimento, o ser e a vida".
"Deus guarda e governa, pela sua Providência, tudo quanto fez, atingindo com fortaleza de um a outro extremo, e dispondo todas as coisas com suavidade; porque tudo está a descoberto e patente aos seus olhos, ainda aquelas coisas que devem acontecer pela ação livre das criaturas".
Existe uma Providência, isto é, uma ação de Deus sobre as criaturas para conservá-las e conduzi-las ao seu fim.
O destino das criaturas, sejam elas quais forem, materiais ou espirituais é a glória de Deus, a manifestação das suas perfeições adoráveis. Muitas vezes, lemos nos livros santos que realmente existe a Providência na ordem física. Disse, um dia, Nosso Senhor: "Vede as aves do céu; elas não semeiam sem colhem, nem tem celeiros e, todavia, vosso Pai Celeste as nutre. Vede os lírios dos campos como crescem, não trabalham nem fiam e, contudo, nem Salomão se vestiu como um deles. Mas se o feno do campo que hoje existe e amanhã se mete no forno, Deus assim o veste, quanto mais a vós homens de pouca fé".
Todos os povos, judeus, pagãos e cristãos, tem acreditado em alguma providência divina na ordem material. Com maioria de razão existe a Providência da ordem moral. Se Deus se ocupa das criaturas materiais, privadas de inteligência e as dirige para o seu fim, como não se ocuparia dos seres espirituais e inteligentes? Por toda a parte, mas dos seres espirituais e inteligentes? Por toda a parte nas Sagradas Letras, Deus exorta o homem a pôr nele a confiança, assegurando-lhe o seu amor, a sua solicitude sempre vigilante, apresentando-se lhe ora um pastor dedicado, ora como um pai prestimoso.
Que hino magnífico à Providência divina não é oração que Jesus Cristo nos ensinou; Pai nosso que estrai no céu. Pedi, nos diz o mesmo Senhor, e recebereis, baterei e abrir-se-vos-á. Se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas e vossos filhos, quando vo-lo pedem, com mais razão vosso Pai Celeste vos dará o espírito bom, quando vós o pedirdes.
Deus fez o homem à sua imagem e, primitivamente, o estabeleceu na verdade e na justiça. Depois de sua queda, prometeu-lhe e lhe deu um reparador. E poderia Deus, desde então abandonar o homem e privá-lo dos seus cuidados paternais? Poderá recusar-lhe o seu socorro, a sua graça, para que atinja o fim supremo a que é chamado, a felicidade eterna? Não, porque depois de ter feito tanto pelo homem, Deus não o abandonará. Fará tudo no sentido de ajuda-lo durante os breves dias de sua peregrinação terrestre, conduzindo-o aos seus destinos imortais.
Toda a história, desde Adão até aos nossos dias, é uma prova constante da realidade da Providência divina na ordem moral, isto é, da intervenção contínua de Deus nos destinos da humanidade, afim de que caminhe na vereda do bem e alcance a meta que lhe está assinalada.
Assim Deus governa o mundo físico e o mundo moral. Há, porém, uma diferença, pois o mundo físico é governado pelas leis de que não pode afastar-se, por não ser livre, ao passo que o mundo moral, gozando de liberdade, está sujeito a leis, a cujo cumprimento pode subtrair-se. Influindo sobre os seres inteligentes, inclinando-lhes a vontade para que deles exige. Deus os respeita, deixando-os entregues ao seu livre arbítrio, não os arrasta para seus desígnios senão enquanto eles a isso querem dar o seu consentimento. Daí o mérito para a criatura livre e inteligente, um dos motivos da recompensa que lhe é prometida e da felicidade que deve ser o seu fim.
A conservação do mundo físico e moral não é outra coisa mais do que má criação continuada. Se não é coisa indigna de Deus a criação, nem a conservação o poderá ser.
No plano geral da Providência divina, ocupa Jesus Cristo o ponto central da humanidade. Três coisas separavam os povos e se opunham à difusão do cristianismo: a diversidade dos povos que se olhavam, reciprocamente como inimigos; a multidão de idiomas que tornava impraticável a comunicação; e os limites naturais extremados por selvas e montes inacessíveis, que impediam as relações.
Ora, Deus providenciou de maneira tal que esses impedimentos desaparecessem. Alexandre Magno destruiu o primeiro obstáculo, quando fundava seu império que unificava tantos povos. O império macedônio-grego, levando a língua helênica e a civilização até aos confins do Indo, criou um laço intelectual que envolveu todos os povos civilizados daquela época. A língua grega predominou na Ásia, na África e na Europa para os habitantes das costas do Mediterrâneo e os seus vizinhos.
Fora desta região em que se falava o grego, agitavam-se os bárbaros. Colônias gregas se fundavam e se ligavam entre si por novas vias de comunicação desde o Cáucaso até às Índias. A tendência idealista que residia no espirito dos helenos, fez da Grécia um povo de filósofos, enquanto Israel, pelo menos especulativo, teve por missão ser o depositário das verdades reveladas, para que passassem impolutas aos vindouros. No povo helênico devia expandir-se a energia das forças viris intelectuais até à sua máxima perfeição, afim de estar preparada para a nova torrente de ideias e pensamentos da civilização cristã.
Esfacela-se o Império de Alexandre e a soberania do mundo passa para Roma, que se constitui o império do mundo. O césar romano se dirige triunfante ao capitólio, rende graças a Júpiter. Os príncipes das nações vencidas estão acorrentados ao carro imperial.
Roma, capital do imenso império, estava destinada pela divina Providência para ser o centro do império espiritual da Igreja Católica.
A unidade da civilização e interesses intelectuais devem-se ao império macedônio-grego; Roma deu-lhe um centro e cimentou-a solidamente. O segundo obstáculo de separação dos povos foi derribado. Roma deu a sua língua ao ocidente, a qual todos os povos compreendiam, segundo o testemunho de Plínio. Os povos que Roma conquistara, aprenderam o idioma do conquistador para que entendessem a pregação do Evangelho, como observa Santo Agostinho, o Evangelho que Roma lhes havia de ensinar.
Caiu também o terceiro obstáculo de separação. Os exércitos romanos construíram, para dominarem o mundo, as suas estradas até aos confins da terra então conhecida, até às margens do Reno e do Danúbio. As estradas militares ou estratégicas transpunham os Alpes e os Pirineus, ligando os lugares mais importantes a Roma. A Ásia Menor, a Síria, o Egito e a África eram de fácil acesso para os exércitos romanos.
Todas estas estradas conduziam a Roma, centro mundial. Abriram-se segundo os planos da Providência essas vias de comunicação, para que os apóstolos as pudessem perverter, anunciando o Evangelho aos pobres, pregando a palavra de paz pelos caminhos que a espada e a lança preparam no estrépito das guerras.
Poucos séculos depois, iniciou-se esse grande e misterioso movimento designado com o nome de transmigração dos povos ou invasão dos bárbaros. A invasão dos bárbaros patenteou um imenso domínio para o mais assombroso estabelecimento do cristianismo. As nações invasoras submeteram-se ao cetro de Cristo, e sobre as ruínas do antigo mundo pagão se fundou o novo mundo da idade cristã.
Assim em todo o decurso da história universal, nos séculos subsequentes, verificamos que Deus dirige o mundo em benefício dos seus grandes ideais que se resumem no reinado de Cristo em benefício da salvação dos homens.
Estudando todos estes fatos históricos, exclamamos com o apóstolo São Paulo: "Ó profundezas da riqueza e sabedoria de Deus, quão insondáveis são os seus conselhos, e incompreensíveis os seus caminhos".
Deus pode fazer entrar os atos livres de cada indivíduo no plano providencial, que regula a marcha do universo. Da mesma maneira lhe é possível incluir nesse plano todos os acontecimentos e os fenômenos sociais que formam a trama da história dos povos e da humanidade. Na história das nações, vê-se a realização dos desígnios de Deus.
A doutrina católica, que atribui a Deus a direção dos povos e dos impérios, não exige que a Providência intervenha a cada instante para dar aos acontecimentos um outro curso, diferente daquele que teriam pela ação combinada da livre vontade do homem e das condições em que esta se exercesse e que faça sair do seu caminho as personagens históricas e os povos que elas governam.
Deus que conhece, de toda a eternidade, as disposições dos homens e os seus mais secretos pensamentos, para quem as combinações mais complexas da política, da diplomacia, seriam apenas um brinquedo, Deus pode realizar seus planos na história, deixando aos homens a liberdade de se agitarem segundo as suas paixões e seus caprichos e conduzindo-os infalivelmente, ao seu fim, pelo caminho em que os acontecimentos os fazem entrar naturalmente.
Esta verdade exprimiu o grande Fénelon na sentença: O homem se agita e Deus o conduz. Esta frase foi adulterada por Augusto Conte que ensinou aos seus discípulos a falsa doutrina: o homem se agita e a humanidade o conduz.
A Providência deu leis à humanidade como as deu aos astros; dispor todas as circunstâncias nas quais fará nascer, viver e morrer ou conquistadores, os legisladores, os filósofos, os sábios os que deviam entrar nas sociedades e formar os povos que disputam a posse da terra. De modo semelhante preparou todos os elementos que deviam fornecer a matéria dos corpos celestes e dos planetas do sistema solar.
Nada pois o impediu de determinar de antemão a marcha da humanidade como fixou o curso dos planetas. Somente os homens executam seus desígnios livremente, enquanto que os seres materiais os realizam se liberdade.
Por isso, ainda que nas coisas ordinariamente sobrenaturais Deus como supremo legislador, intervenha, não raro, por outra forma na marcha do mundo, é, não obstante, por leis prefixadas que ele conduz, a maior parte das vezes, as nações.
Os que estudam a filosofia da história, a economia política e as ciências sociais, poderão, pois, descobrir certas leis da vida das sociedades, das raças, dos povos e da humanidade inteira. Com efeito, estas leis não são mais que a expressão do plano providencial de Deus.
O homem, ser inteligente e imortal, é responsável pelos seus atos, seja ele um simples camponês ou um ditador temido e odiado. Seus atos recebem recompensa ou castigo conforme seu valor moral. Esta recompensa e este castigo, no mundo atual ou na vida futura, serão completos de acordo com os ditames da sanção divina e a sentença do Juiz eterno.
Os povos e as nações recebem sua recompensa ou castigo neste mundo, visto que não existirão na eternidade.
Deus nunca autoriza a prática do mal, mas pode permiti-la. O homem é livre. Às vezes também permite que déspotas e tiranos escravizem povos inteiros em castigo dos seus delitos, a exemplo de Atila que a si mesmo dava o nome de flagelo de Deus.
Deus existe, sua Providência governa o mundo, embora os ímpios neguem esta verdade consoladora.
A Providência divina é um atributo do Deus eterno, onisciente todo-poderoso. Entretanto, é de lamentar que, em pleno século vinte, haja homens que pretendam abusar desta palavra, cor rompendo-lhe, completamente, o sentido.
O conceito da providência nazista é muito diferente da noção da Providência cristã. Ele representa o resultado, obtido pelo sucesso das armas ou por expedientes meramente humanos. Deve ser isso: uma ideia obscura, a não ser que se deva admitir uma grosseira hipocrisia destinada a enganar os ingênuos e os incautos. Essa chamada providencia não tem nada que ver com a Providência divina.
Fazemos esta advertência em vista da recomendação do Papa Pio XI, que disse: "Os pastores e os guardas do povo de Deus oporão uma ação vigilante a este plágio feito às coisas santas e a esta confusão dos espíritos".
CAPÍTULO VII
A subordinação dos seres
Deus é o último fim das criaturas como é o seu princípio pela criação, o seu meio pela Providência que as conserva, auxilia e dirige.
Narra a Sagrada Escritura que o patriarca Jacó viu em sonhos uma escada posta sobre a terra enquanto a sua sumidade tocava o céu.
Esta escada segundo São Cirilo Alexandrino e Teodoreto significava a Providência de Deus que se estende a todas as coisas criadas. Mas, ao mesmo tempo, podemos dizer que esta escada misteriosa representa as diferentes categorias de seres, começando pelo mundo inorgânico e terminando pelo próprio Criador.
Pela criação Deus não aumentou sua glória interna, quis, porém, manifestar externamente a sua glória. Não aumentou as suas perfeições, mas quis comunica-las às criaturas. É assim que a bondade divina é o fim de todas as coisas: entendeu comunicar somente sua perfeição que é sua bondade; assim pois a divina bondade é o fim de todas as coisas, como diz Santo Tomás.
Entretanto, Deus não se comunicou a todas as criaturas da mesma maneira e no mesmo grau. E se é verdade que ele é o fim derradeiro para todos e tudo sem exceção alguma, ele o é imediatamente sem nenhum fim intermediário.
De fato, quando o volvemos um olhar atento ao cenário do mundo, descobrimos, desde logo, entre os seres que o constituem, uma ordem interessante e uma hierarquia admirável. O reino mineral é feito para o vegetal, o vegetal é feito para o animal. Todos os reinos inferiores se destinam ao homem; o homem, e por meio dele todo o resto do universo, é consagrado a Deus.
Todos os seres criados são outras tantas primas que manifestam e refrangem, à sua maneira, o diferente valor do poder, da beleza e da sabedoria divina.
A matéria inorgânica constitui a terra, os planetas, o sol, as estrelas, e essa multidão de nebulosas, em via de formação ou de dissolução, que enchem a imensidade dos espaços siderais. Ora, a matéria inorgânica, seja por sua massa gigantesca, seja por seus movimentos giratórios ou suas vibrações calorificas, luminosas e elétricas, imita e pública, o poder e a imensidade de Deus.
Contudo, ela é a mais imperfeita e a mais subordinada das criaturas. Oferece, porém, a todos os seres superiores. Vegetais e animais, as condições necessárias de existência, bem como os elementos que devem construir a urdidura sábia dos seus tecidos orgânicos. A terra é a mãe nutrícia, dir-se-ia, em certo sentido, a mãe dadivosa dos viventes. Todos vivem dela e dela provém, de alguma maneira. A matéria inorgânica, é, pois, feita para a flora e a fauna.
O vegetal, por sua vez, exprime o poder e a grandeza de Deus. As florestas, que ocupam grandes extensões do globo terrestre, as árvores possantes e gigantescas de certas espécies usas mimosas flores e sazonados frutos provam esta assertiva. E é, sobretudo, a beleza que o vegetal expirem nas suas formas e operações vitais de modo tão delicado quão gracioso. Botânicos, poetas e artistas invejam a natureza, porque jamais poderão, exatamente, representar seus componentes e manifestações em pelo colorido das tintas, nem pelo ritmo da palavra. Orna-se quase impossível enumerar as variedades infinitas das espécies, descrever suas formas tão ricas, cantar a beleza e o perfume admirável das flores, interpretar a linguagem muda das plantas, porque a sua palavra, embora imperceptível aos ouvidos, é muito mais variada do que todas as manifestações da natureza animada.
Entretanto, os vegetais não somente nos encantam pela sua beleza aliás efêmera, mas ainda nos fornecem os alimentos e são indispensáveis a mil necessidades dos seres vivos e sensitivos. Eles são, pois, feitos para o reino animal.
Este exprime a beleza pela elegância das formas de certas espécies, pelo brilho e pela riqueza incomparável de suas plumagens ou de suas peles. Mas é, de modo especial, pelo conhecimento a sabedoria dos seus instintos que os animais se distinguem do mundo vegetal e começam a imitar, algum grau longínquo, de inteligente e de sabedoria infinitas.
Basta contemplarmos essas repúblicas ou se quiserdes, monarquias de abelhas ou de formigas, e, em geral essas sociedades ou grupos de seres animados e dotados de vida sensitiva que povoam a terra, e os ares, enchendo-os de suas vozes e de seus gorjeios, para que sintamos uma eloquência bem expressiva, mas diferente das manifestações vitais das plantas. Aqui a natureza já tem sensações e vozes. A fauna marítima é uma verdadeira maravilha do Criador. Ela espera ainda uma alma inteligente, que tenha ideias e pronuncie palavras.
O homem, feito de barro e animado por um sopro divino, veio preencher esta lacuna. O Criador quis dá-lo ao mundo como imagem do seu próprio espirito, para que fosse um ser inteligente e imortal, superior a um simples vestígio divino, como é o resto das criaturas visíveis.
Façamos o homem, disse ele, à nossa imagem e semelhança; e lhe concedamos o império sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais e os répteis que se movem sobre a terra.
E eis que o homem fiel à sua regia missão, pela arte, peça indústria, pela ciência e, mormente, pela energia amparada na sua vontade, estendeu, em torno de si, a sua influência dominadora sobre o reino animal e o reino vegetal e, com o auxílio dos mesmos, sobre a natureza inteira. De fato, o homem enfeixa nas suas mãos, as forças mais potentes da natureza, as disciplinas e domina, para que conduzam locomotivas faiscantes, navios alterosos, aviões semelhantes e pássaros ou submarinos quais gigantescos peixes, e transportem, com a velocidade do relâmpago, nossos pensamentos, e nossas palavras em todas as direções do mundo.
Sem dúvida, o homem, também, depende da natureza. Pois que é como os outros seres parte de um todo. Mas, o homem representa um centro da natureza, visto que é, unicamente, quem se conhece a si mesmo, reconhece suas forças e a s coordena, eficazmente, para reinar sobre o resto dos seres: ele é, verdadeiramente, o rei da natureza e seu reino é o fim imediato de toda a criação.
Ao pronunciar a palavra reino, ouço alguma objeção. Como, diz alguém, se pode chamar rei da natureza a ser, cuja pequenez e duração o tornam aos olhos da ciência moderna, realmente, insignificante na vasta natureza! "No meio desses formidáveis espaços e desses milhares de arquipélagos solares – exclama Hipólito Taine – uma traça assumiria atitude grotesca, se ela se reputasse o centro de todas as coisas, e não é necessário que um inseto, quase infinitamente pequeno, mostre um orgulho quase infinitamente grande.
Taine está enganado! Pois, que importa, em face da dignidade do homem, a dimensão física de sua estatura. Porque deveria ele considerar-se mais digno, se o seu corpo fosse construído pelo Criador segundo uma medida maior, mais extensa? O tempo em que se desenvolve a vida do homem e a duração da humanidade inteira, representam, indubitavelmente, prazos muito breves em relação aos imensos períodos da geologia. Mas, quem não sabe que o valor dos intervalos do tempo depende da importância dos acontecimentos que nele se desenrolam
Porque possui o homem essa dignidade? Porque, entre os seres conhecidos, só ele é dotado de razão, liberdade, consciência e virtude, coisas que não se avaliam por nenhuma das três medidas científicas: o centímetro, a grama e o segundo. Isto tem valor maior do que a extensão do firmamento, do que a massa total das nebulosas e dos planetas as quais brilham e se movem, inclusive os períodos indefinidos de suas rotações e translações.
Essa dignidade funda-se no conhecimento que o homem possui do mundo, de suas propriedades de sua história e dos seus segredos. A criatura humana apesar de sua pequenez física, impera sobre esta poderosa natureza, de cujas riquezas e forças ele se utiliza para criar as maravilhas da indústria, a magia das cores e dos sons de que ele se serve para expressar e colorir seus pensamentos, e despertar em si mesmo, como também nos seus semelhantes, emoções alegres, arrebatadoras ou dolorosas.
O homem é o único que se propõe o problema das origens e se eleva até ao Criador. É o senhor livre dos seus atos. Dispõe de suas faculdades e de suas forças para um fim escolhido sem coação. A dignidade humana ressalta, igualmente, destas lutas morais, onde o heroísmo se desenvolve e firma ou a justiça combate contra a força e a consciência contra paixão. Na hierarquia dos seres do mundo é o homem que ocupa o lugar supremo.
É preciso, pois, reconhecer que ele é, ao mesmo tempo, muito pequenino e muito grande. Muito menor que a natureza material; muito maior pelo seu espirito do que ela. Portanto, não é indigno do título de rei da criação.
Revestido desse atributo, ele representa o mundo e deve oferecer ao Criador as homenagens do universo. Ele é o microcosmos ou macrocosmos.
É preciso crer com os maiores gênios, com Aristóteles e Santo Tomás, que no mundo físico, todos os seres gravitam em redor do sol divino, ao qual devem a existência e que os atrai e tem suspensos aos seus raios de luz e de vida.
E nesta firme convicção, ancorada no mais profundo da razão humana, repetimos o grito sublime do grande Agostinho: "Tu nos fez para ti, Senhor, e nosso coração será atormentado até que ele descansar em ti: fecisti nos ad te, Deus, et irrequietum est cor nostrum donec requiescat in te".
Esta verdade é uma das colunas graníticas da civilização; quem a nega ou combate, procura perturbar a ordem moral. Assemelha-se, porém, ao cavaleiro Dom Quixote na luta com moinhos de vento.
CAPÍTULO VIII
A glorificação da sensualidade
Todos os filósofos, menos alguns de mui baixos sentimentos, estão de acordo em que a sensualidade é tão prejudicial à natureza física do homem como indigno do seu espirito. Não vacilam em chama-la verdadeira loucura e a mais perigosa das enfermidades.
A sensualidade é consequência do pecado. Já dissera Sêneca: o prazer dos sentidos infeccionou o mundo com seu doce veneno e se fez cada vez mais forte pelo progresso do tempo e do erro. Os teatros, as representações públicas, as festas, tudo se punha ao serviço desta deusa. Por toda a parte se encontrava a sensualidade mal dissimulada, que obedecia a meios habilmente graduados em procura da satisfação dos instintos.
O vulgo se precipitava cabisbaixo nos prazeres, quando se apresentava a ocasião, ainda que com risco de afogar-se no lodaçal. A gente, chamada distinta, tinha bastante cuidado em moderar seus gozos, não para limitá-los senão para usá-los de um modo mais refinado e completo.
A paixão sensual, que turba a razão e não conhece outro gozo do que desordens, conduzia os homens ciente e alegremente, aos atos mais depravados. Os dissolutos, atolando-se com toda a alma no lodo dos prazeres, diziam: comer e beber bem e gozar; essa é a verdadeira vida; tudo que não o seja, nada mais vale. Diziam, conforme nos refere o profeta Isaías, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.
Os jovens passavam todo o dia no jogo e nos festins, e o seu tédio procuravam dissipar flautistas e bailarinas. Nenhum gasto parecia excessivo, quando se tratava de pompas e jogos públicos.
Toda a vida particular e pública, na antiguidade, era poluída pela incontinência, pela sensualidade. A filosofia permanecia impotente contra essa torrente de devassidão, que tudo devorava, que enervou a Grécia e a entregou aos estrangeiros e derrocou os fundamentos sobre que assentava o poderoso o soberbo império romano.
A antiguidade pagã não havia, contudo, olvidado a alta significação e a grandeza da virgindade. O pensamento "casta placent superis, a castidade agrada aos deuses", se apresenta em muitas legendas dos tempos primitivos. Nunca se obliterou esta máxima completamente, ainda nas épocas da maior corrupção moral. E os romanos conferiam grandes honras às vestais.
Veio Jesus Cristo ao mundo para dignidade e salvar o gênero humano. Ele ensinou a gravidade do pecado e de suas consequências; iluminou o espírito acerca da dignidade do homem e dos seus deveres; fortaleceu, com nova energia a vontade, inspirou a nova força ao coração enervado e o impeliu à guerra de emancipação contra a concupiscência da carne.
Dessa maneira ensinou, de novo, aos homens as nobres prerrogativas e direitos por tão largo tempo esquecidas e lhes abriu, ao mesmo tempo, o caminho pelo qual podem chegar a reconquista-los.
Mas, o primeiro direito da verdadeira humanidade é o do coração à pureza, e, segundo a maneira natural e cristã de ver, todo o direito está relacionado com um dever. Assim, pois, o direito à pureza não é mais que um só e mesmo direito com o dever de aspirar à castidade do coração. Pois, nenhum poder da terra pode proporcionar-nos esse tesouro, e por nós mesmos não empregamos todo o nosso esforço em adquiri-lo. Quanto mais elevado, porém, é esse bem, tantas maiores devem ser nossos esforços para possui-lo e tanto mais convencidos devemos estar de que nunca poderá considerar-se como demasiado caro.
Por muita que seja a diversidade dos seus esforços, os homens estão pelo menos de acordo no desejo de viver e de ter saúde; porém, esta consiste na concórdia e unidade das partes que devem formar reunidas um todo.
O homem, unicamente, pode ter esperança de ver curada a sensualidade, se a submete ao espírito, como subordina este espirito ao próprio Deus. Pois os sentidos não se teriam rebelado contra o espirito, se este não se tivesse sublevado contra Deus. Por isso, Santo Agostinho traçou ao homem, da maneira mais exata, o caminho de sua cura, da liberdade, da nobreza, nestas palavras que podemos considerar como a ideia fundamental da moral cristã: sê submisso a Deus e serás senhor de tua sensualidade.
A castidade é a virtude oposta à concupiscência da carne ou à sensualidade. Ela evita tudo que possa evoluir o corpo humano consagrado, e o que não seja digno de sua vocação. Representa um combate do homem contra si mesmo, contra est poder tenebroso que, constantemente, se rebela contra o espirito, luta onde se trata de salvar os mais sublimes santuários contra os seus estragos. Esses danos estendem-se mais e mais, devoram a medula da vida e não cessam enquanto a não haja exaurido totalmente.
Quando pois o homem se tem desviado da fé cristã, das leis cristãs, murcha, também e logo, a flor da castidade ele se afunda, mais e mais, nos vícios contrários.
Glorificação da sensualidade, emancipação da carne são frases que tantas vezes ouvimos e lemos. Esquecem-se certos doutrinadores modernos de que o corpo só pode viver sujeito e ser encaminhado pelo espírito. Pelo contrário, quando dele se desliga, é devorado pela fúria das paixões.
A castidade em uma santa submissão, al uta contra a sensualidade e seus apetites é um preceito do Senhor, que lançou a maldição contra a alma que desonra a sua natureza santa.
Segundo São Paulo, é preciso fugir da impudicícia, por que todo o pecado, qualquer que seja, que fizer o homem, é fora do corpo: tais como a injustiça, o homicídio, a inveja, a cólera; mas quem se entrega à sensualidade, à impureza, peca contra seus próprios corpos. A vontade de Deus é que vos sejais santos; que cada um de vós saiba conservar seu corpo em santidade e honestidade, não seguindo os movimentos da concupiscência como os gentios que não conheciam a Deus. Assim fala São Paulo.
O que faz, sobretudo, a gravidade do crime da luxuria é que ele ataca o corpo do homem, o qual pertence a Deus por tantos títulos, o que é, por isso, digno de todo o respeito e de toda a honra. Porque se a alma é nobre e merece consideração por ser um espirito e feita à imagem do Altíssimo, não se deve acreditar que o corpo seja vil e desprezível, visto ser matéria e se afastar da natureza e das perfeições de Deus.
A alma é imagem de Deus, o corpo é sua obra, não duma maneira comum, como as outras criaturas, mas de um modo particular e privilegiado. Para criar os outros seres, o sol, a luz, as estrelas, as plantas, os animais, as montanhas e os mares bastou uma única palavra de Deus, um ato de vontade. Disse e foi feito.
Mas para criar o corpo do homem, não se contentou em falar, também operou. Não o criou sem determinada figura, mas o formou com perfeição, à semelhança do estatuário que pega na argila ou talha o mármore para dele fazer a estátua que seu espirito ideou.
Quanta indignação apoderar-se-ia do artista se visse sua obra, resultado do trabalho do seu gênio, a realização dum belo ideal, se visse a sua obra coberta de lama e afrontas. É, contudo, esta obra não é senão um mármore frio, insensível e inerte. Mas, o corpo humano, esse primor da arte da criação material, é vivo e animado. Portanto, quem ultraja esse corpo pelo pecado da sensualidade, injúria o próprio Deus, o artista divino.
Acresce que o homem quanto ao corpo e quanto à alma é santificado pelos santos sacramentos. E Jesus Cristo, resgatando o homem, remiu de uma só vez a alma e o corpo pelo preço do seu sangue divino.
E disse o apóstolo São Paulo: O vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós; glorificai e conservai Deus em vossos corpos. O templo de Deus que está em vós é santo e se alguém o violar, Deus o perderá. Não sabeis, diz o mesmo apóstolo, que os vossos corpos são membros de Jesus Cristo.
O cristão não ousaria violar a majestade dos templos católicos, que são de pedra e cal ou de madeira, onde Jesus Cristo habita. E como não haveria de temer ante a profanação da santidade do templo vivo, onde a Trindade Santíssima estabeleceu sua morada. Não queria Deus fulminar ou ferir com castigos terríveis tantas profanações e audaciosos sacrilégios cometidos pelos atos multiformes da sensualidade.
A sensualidade subverte os fundamentos das civilizações mais adiantadas. Os povos da antiguidade o provam. Aníbal gloriava-se de comandar um exército invencível. De fato, em muitas batalhas foi vencedor e triunfou sobre seus aguerridos inimigos. Mas, esse mesmo exército, tão glorioso e invencível, perdeu suas forças físicas e suas energias morais durante o inverno em que se entregava às chamadas delícias de Cápua. Depois foi vencido. Havendo resistido aos ataques mais fortes dois inimigos e vencido exércitos formidáveis, sucumbiu, tristemente, aos efeitos da sensualidade.
A Grécia e Roma tendo chegado ao apogeu de uma notável civilização e cultura, cujas ruinas ainda hoje nos causam admiração, sacrificaram sua grandeza e existência ao culto da sensualidade. As termas ou balneários célebres, bem como escritores gregos e romanos atestam e provam a influência deletéria da sensualidade.
E que nos diz o mundo atual? Com o restabelecimento do paganismo na vida social e publica, na literatura e nas belas artes cultiva-se a planta do sensualismo que, por toda a parte, produz suas flores e frutos venenosos, contaminando a inteligência e o coração do homem.
Diz o Santo Padre Pio XI a respeito do neopaganismo: Sobre a fé em Deus, conservada intacta e sem mancha, se assenta a moralidade do gênero humano. Todas as tentativas para arrancar à moral e á ordem moral, o fundamento da fé, sólido como a rocha, e para as estabelecer sobre a areia movediça das regras humanas, conduzem, cedo ou tarde, os indivíduos e as sociedades à ruina moral. O insensato é que diz em seu coração: Não há Deus, andará nos caminhos da corrupção moral. O número destes insensatos que hoje procuram separar moralidade e religião, se torna uma legião. Eles não veem ou não querem ver que banir o cristianismo confessional, isto é, a concepção clara e precisa ado cristianismo, do ensino, da educação, da organização da vida social e pública: é caminhar para o empobrecimento da vida social e pública: é caminhar para o empobrecimento espiritual e para a decadência. Nenhum poder coercitivo do Estado, nenhum ideal puramente humano por nobre e elevado que seja em si mesmo, não será jamais capaz de substituir os supremos arrebatamentos que dá a fé em Deus e em Cristo".
Com referência ao comunismo russo declara o mesmo Pontífice: "um freio é necessário tanto ao indivíduo como à sociedade. Mesmo os povos bárbaros tiveram esse freio na lei natural que Deus esculpira na mente de cada homem. E quando esta lei natural foi melhor observada, viram-se antigas nações ascender a uma grandeza que hoje ainda maravilha, mais do que fora conveniente, a certos estudiosos superficiais da história humana. Porém se se arranca do coração dos homens a ideia mesma de Deus, naturalmente são impulsionados por suas paixões à mais desenfreada barbárie".
O mesmo Santo Padre Pio XI, na sua Encíclica sobre o matrimonio cristão, em dezembro de 1930, aponta a gravíssima dissolução de costumes. "É um fato, diz Sua Santidade, que não já em segredo, nas trevas, mas abertamente, posto de parte todo o sentido do pudor, quer por palavras quer por escrito, pelas representações teatrais de todos os gêneros, pelos romances, pelas novelas e leituras amenas, pelas projeções cinematográficas, pelos discursos radiofônicos, enfim, por todas as descobertas mais recentes da ciência, se calca aos pés e se ridiculariza a santidade do matrimônio, ao passo que, ou se louvam os divórcios, os adultérios e os vícios mais ignominiosos ou pelo menos se pintam com tais cores que parece que os querem mostrar como isentos de qualquer mácula e infâmia.
"E não faltam livros que se apresentam como científicos, mas na realidade, às mais das vezes, não tem de ciência senão umas tinturas, como o fim de se poderem mais facilmente insinuar nos espíritos. E as doutrinas neles defendidas preconizam-se como maravilhas do espirito moderno, isto é, daquele espirito que se vangloria de amar só a verdade, de se ter emancipado de todos os velhos preconceitos, no muro dos quais incluem e reelege a doutrina tradicional do matrimônio cristão.
"E até se fazem penetrar tais máximas entre todas as condições de pessoas, ricos e pobres, operários e patrões, letrados e ignorantes, solteiros casados, crente e descrentes, adultos e jovens; a estes, sobretudo, como a presa mais fácil se lançam os laços mais perigosos.
"Sobretudo, é perigoso aquele naturalismo que em nossos tempos invade o campo da educação em matéria delicadíssima como é a honestidade dos costumes. Assás divulgado é o erro dos que com pretensões perigosas e más palavras promovem a perigosa educação sexual. Julgando erradamente que podem precaver os jovens contra os perigos da sensualidade com meios puramente naturais, tais como uma temerária iniciação e instrução preventiva, indistintamente para todos, até publicamente, e pior ainda, expondo-os por algum tempo às ocasiões para os acostumar como dizem, e quase fortalecer-lhes o espirito contra aqueles perigos.
"Estes erros gravemente, não querendo reconhecer a natural fragilidade humana e a lei de que fala o apóstolo "contrária à lei do espirito". Desprezam até a própria experiência dos fatos da qual consta que nomeadamente os jovens as culpas contra os bons costumes são efeito, não tanto da ignorância intelectual, quanto e principalmente da fraqueza da vontade, exposta às ocasiões e não sustentada pelos meios da graça". Estas são as ponderadas palavras do Pontífice Pio XI.
O mesmo Papa condena a coeducação como método errôneo e pernicioso à educação cristã baseada na doutrina do naturalismo negador do pecado original, confundindo a legítima convivência humana com a promiscuidade niveladora.
Recomenda o Papa os primeiros educativos cristãos e sua aplicação nomeadamente no período mais delicado e decisivo da formação qual é o da adolescência, e nos exercícios ginásticos e desportivos com particular referência à modéstia cristã da juventude feminina, à qual fica muito mal toda a exibição e publicidade.
"em nossos tempos torna-se necessária uma vigilância tanto mais extensa e cuidadosa quanto mais tem aumentado as ocasiões de naufrágio moral e religioso para a juventude inexperiente. Esses perigos encontra a juventude especialmente nos livros ímpios e licenciosos, muito dos quais diabolicamente espalhados a preço ridícula e desprezível, nos espetáculos do cinematográfico e nas audições radiofônicas que multiplicam e facilitam toda a espécie de leituras como o cinematografo toda a sorte de espetáculos.
"Esses potentíssimos meios de vulgarização, quando vem dirigidos pelos sãos princípios, podem ser de uma grande utilidade à instrução e educação, mas aparecem infelizmente na maior parte das vezes como incentivos das mais paixões e da avidez do lucro".
Quanto ao casamento diz o citado Papa Pio XI que "de fato não se pode duvidar que tanto o sólido fundamento das uniões felizes como a ruína das desastrosas se vão preparando e dispondo no coração dos meninos e meninas desde sua infância e juventude. É de temer que aqueles que antes do casamento só pensavam em si mesmos e nas suas próprias comodidades e que condescendiam com os seus desejos desenfreados, chegados depois ao casamento, sejam os mesmos que eram antes. Dessa maneira terão finalmente de colher o que semearam, isto é, dentro do seu lar, a tristezas, o luto, o desprezo mútuo, litígios, aversão de ânimo, aborrecimento da vida conjugal, e, o que é ainda pior, encontrar-se-ão a si próprios com as paixões desenfreadas".
"Muitíssimos interessa à autoridade pública que o casamento e a família sejam bem constituídos, não só pelo que se refere aos bens temporais mas também aos bens próprios da alma, isto é, promulgar leis justas a respeito da fidelidade e do mútuo auxilio entre os cônjuges, porque, como ensina a história, a salvação do Estado e a vida temporal dos cidadãos não ficam fortes e seguras quando vacila o fundamento em que se apoiam que é a boa ordenação dos costumes, e quando pelos vícios dos cidadãos se obstrui a fonte donde brota a sociedade, isto é, o matrimônio e a família".
"Ninguém ignora os estragos que os maus cinemas produzem nas almas. Tornam-se eles ocasião de pecados. Induzem os jovens nos caminhos do mal porque glorificam as paixões, expõem a vida em uma falsa luz, ofuscam as ideias, destroem o casto amor conjugal, o respeito ao matrimônio, o afeto à família".
"Ao pensar em tão grande ruina de almas de jovens e crianças, em tantas inocências que se perdem precisamente nas salas de cinema, vem à mente a terrível condenação de Nosso Senhor contra os corruptores dos pequeninos: "Quem escandalizar um destes pequenos que creem em mim, melhor lhe fora que lhe suspendessem no pescoço uma mó de moinho e o lançassem no fundo do mar".
A falta de educação cristã no lar, a educação chamada moderna sem Deus, a coeducação de ambos os sexos, o exagero da educação física: são fatores que contribuem para a dissolução dos costumes, a perda do pudor, o declínio da dignidade, a falência da família, a indisciplina da vida social, a frequência de crimes passionais, em suma: contribuem para a decadência da civilização. Os fatos o provam indiscutivelmente.
A glorificação da sensualidade é um dos fatores principais da decadência da civilização.
CAPÍTULO IX
O naturalismo contrário à civilização
O naturalismo, segundo a sua etimóloga deriva-se do adjetivo natural. É o sistema que consiste em atribuir todas as coisas à natureza como primeiro princípio.
Em geral, não é fácil dar uma definição filosófica exata das coisas. Preferimos uma definição descritiva. O naturalismo consiste no empenho de explicar o mundo visível, juntamente com todos os seus componentes fenômenos, por meio de processos físicos.
O naturalismo filosófico nega todos os princípios superiores, sobrenaturais e divinos, bem como a revelação cristã e conduz ao naturalismo teórico e prático.
O naturalismo ético reduz a moral, exclusivamente ao desenvolvimento e satisfação das inclinações naturais sem que admita a obrigação de obedecer às normas espirituais. O naturalismo socialista considera a história como processo natural, como desenvolvimento necessário sujeito a causas internas, negando-lhe, por isso, sua finalidade.
O naturalismo, como escola literária e artística, moderna procura tirar da natureza cenas, personagens, ações, etc., com fidelidade exata, apresentando suas próprias fealdades por mais repugnantes que seja,
A palavra naturalismo filosófico não tem sentido perfeitamente determinado; não representa, propriamente, uma doutrina científica, nem um sistema filosófico. É antes uma tendência doutrinal que procura invadir todos os campos, o cientifico, o filosófico, o artístico, o social e até o dia da pura teologia.
Explicado o conceito do naturalismo procuremos explicar o que seja a concepção do mundo.
Modernamente, emprega-se a palavra concepção do mundo ou visão da vida, para significar o conjunto total de ideias em que condensamos todo o nosso saber e todas as nossas aspirações humanas. Segundo os diferentes pontos de vista fala-se de uma concepção artística, científica, filosófica, sociológica, religiosa, indicando, com estas expressões, qual é o ponto de vista central que serve de critério de valorização nos problemas da existência, do conhecimento e da ação.
Da concepção do mundo depende toda a ordenação da vida humana, da sociedade e do Estado. Isto se verifica nos povos que professam o monismo ou dualismo no mundo. Daí resulta toda a organização humana.
A concepção cristã do mundo abrange tanto a origem e a finalidade do universo em geral, como o homem, a sua existência integral, a sociedade humana e a organização dos próprios Estados.
O naturalismo filosófico é o ponto de vista donde o espirito humano considera o universo. É um modo de ver as coisas, um prisma através do qual se contempla e julga o mundo. Esse ponto de vista é, como indica a mesma palavra, a própria natureza. Mas, esse modo de conceber o mundo, pode-se tomar, por sua vez, em diversos sentidos.
Assim, o naturalismo nega e exclui, umas vezes, tão somente, o sobrenatural; outras vezes, nega toda a ação de Deus, como agente exterior do mundo, ou nega a Deus em absoluto; outras vezes ainda, mais em geral, nega a existência do espirito, vindo a ser puro materialismo.
O naturalismo adota também diversos caracteres conforme se coloca no campo especial de cada uma das diferentes ciências.
Costuma-se entender por natureza o universo visível e palpável. Uma vez assim entendido, o naturalismo passa a negar que existe e que pode existir realidade alguma superior ou exterior ao universo. Segundo o naturalismo este universo sensível contém em si a razão de sua existência e de todos os fenômenos que nele aparecem. Ele busca as últimas leis e os elementos primordiais do ser material, para, por seu meio, dar conta do desenvolvimento do mundo.
E crendo o naturalismo encontrar como último elemento irredutível de todo o seu material e, no seu caso, de todo o ser, o átimo, chega à conclusão de que tudo que existe, não é senão o resultado de determinadas combinações de átomos, que, ao produzirem tão diversas formas, dão lugar aos mais complicados fenômenos, também aos fenômenos anímicos do pensamento.
Este sistema é antiquíssimo. Tem por representantes principais na antiguidade clássica a Lucrécio, a Epicuro e nos tempos modernos os enciclopedistas franceses do século XVIII, Lametrie, o barão de Holbach, etc, bem como todo o positivismo materialista da segunda metade do século XIX.
O naturalismo como concepção do mundo é reprovável e a sua aplicação é desastrosa para a sociedade humana.
O naturalismo em vez de se dirigir à origem das coisas, considera só a marcha dos acontecimentos no universo. É a doutrina que rejeita a existência de Deus e a sua intervenção no mundo. Identifica-se com o materialismo e o próprio panteísmo. O naturalismo é a negação da interferência divina na obra da salvação e consiste em afirmar a bondade da natureza humana e em negar, de um modo absoluto, a necessidade da graça. Por isso, a cosmologia, a Teodicéia, a ética e a sociologia o repelem e a Igreja Católica o condenou como herético.
O Papa Pio IX várias vezes condenou os erros do naturalismo. Na alocução "Máxima quidem", de 9 de junho de 1962, e no Syllabus, reprovou a seguinte doutrina: "Não se devem reconhecer outras forças senão as que residem na matéria, e o sistema moral e a honestidade de costumes devem consistir em acumular e aumentar por qualquer meio as riquezas e na satisfação de todos os gozos". Nos mesmos documentos Pio XI condena o erro que nega toda a ação de Deus sobre os homens e sobre o mundo.
O Papa Leão XIII, na Encíclica "Libertas", de 20 de junho de 1888, declara que o naturalismo repugna à razão e que é sumamente pernicioso aos homens. O mesmo Sumo Pontífice afirma na Epístola Apostólica aos Bispos da Baviera, em 22 de dezembro de 1887, que o naturalismo é um erro pernicioso. Muitas vezes, a Igreja tem condenado o naturalismo nos seus vários aspectos.
Mas, afim de que a nossa exposição revista formas mais concretas, queremos expor, sinteticamente, a doutrina nietzschiana, que em si mesma contém a refutação cabal do absurdo de se adotar o naturalismo como concepção do mundo.
Pois, a doutrina de Frederico Guilherme Nietsche incorpora, sem dúvida, e representa o naturalismo moderno. A sua teoria encontrou discípulos por toda a parte também entre nós e talvez em esferas governamentais. Nietsche nasceu em 1 844 e morreu em 1900. Foi um dos discípulos mais brilhantes de Schopenhauer. Separou-se, porém, ruidosamente do mestre e foi o primeiro que levantou o estandarte da revolta contra ele. Consagrou seu estranho e maravilhoso gênio à empresa de erguer, sobre as próprias bases do pessimismo, uma moral diametralmente oposta à de Schopenhauer ou de Harmann e, claramente, antipessimista.
Como estes dois filósofos, Nietzsche é um discípulo de Kant e do idealismo transcendental germânico. Sob o ponto de vista metafísico e moral, é ele herdeiro, mais ou menos inconsciente, dos seus predecessores. Como aqueles, ele admite a subjetividade dos nossos conhecimentos, a impossibilidade de perceber a realidade objetiva, admite a autonomia da razão, o determinismo dos fenômenos e os outros dogmas criticistas.
Como os seus mestres, ele sai da prisão do EU CONHECEDOR, por um ato de vontade, um golpe de força, um ato de fé certa. Este objeto absoluto de sua fé, muda somente de etiqueta e de nome. Não é mais o EU de Fichte nem o ESPIRITO de Schelling nem a VONTADE de Schopenhauer, nem o INCONSCISENTE de Hartmann; para Nietszche é a VIDA, mas a missão deste novo absoluto é quase idêntica.
Além disso, como os fundadores do pessimismo, ele admite como ponto de partida que a vida é radicalmente má e que é impossível ao homem tal qual ele é, torna-la melhor. O universo essencialmente constituído pela vida, não é senão um fenômeno imenso sem causa e sem finalidade, condenado a um doloroso e inelutável aborto. Nietzsche aceita, pois, o fato pessimista, mas, de modo nenhum as conclusões desesperadoras do mestre; nem o suicídio cósmico nem o suicídio moral de querer viver e da vontade pelo ascetismo, a castidade, o sacrifício de si, a piedade universal e o nirvana final.
Bem ao contrário, ele quer se consolar ou distrair, em face do triste espetáculo deste mundo, por uma orgia de vida "exuberante, luxuriante, tropical"; quer "desenvolver todos os instintos da natureza, que impeçam a vontade de viver; quer repelir tudo quanto possa diminuir ou extinguir o querer viver, como degradação e descaimento, e procurar tudo quanto o torne mais intenso e mais alegre. "O sorrir e o bom humor formam a coroa de rosas; avós, meus irmãos, eu vo-la entre. Eu santifiquei o sorrir".
Vê-se, pois, a oposição e a antítese dos dois pessimismos, o do nirva e o do querer viver, não obstante a natureza cruel. "Entre o desanimo e a revolta, que escolher"? Esta questão em si curioso, tem aqui a vantagem de sublinhar a extrema divergência que pode separar as consequências do mesmo sistema, seguindo as disposições dominantes do espirito.
Diante da fantasmagórica do mundo e da ciência, cujo conjunto lhe aparece como um quadro de lanterna mágica, produzido por um esforço difícil e doloroso de um EU que a si ignora. Schopenhauer se entrega; ele conclui em favor do nada de todas as coisas e da vaidade da vida; ele é, parece, fiel à verdade lógica.
Mas, não há, no fundo, mais sinceridade nem mais verdade da ilógica pretensão de Nietzsche, afim de triunfar desse mesmo nada e seguir, na falta de certeza dogmática, as obscuras espontaneidades do instinto para reencontrar, afinal, no íntimo destes sonhos, num acordar agnóstico, a realidade perdida? É esta a desforra da vida e do ser, sobre a desolada quimera do idealismo. Melhor seria cortar, á maneira de Alexandre, o no górdico da metafísica, do que ficaria nativo diante dele. É preciso preferir as audácias e as violências do querer viver as frouxidões enervantes e às sombrinhas perspectivas do pessimismo. Isto seria o fim de seu sistema; o outro pode chegar a um ponto de partida.
Infelizmente sobre a base deste querer-viver, Nietzsche não soube reedificar senão uma moral pagã, dum egoísmo monstruoso, que no fundo, não é senão um grito de revolta e de ódio contra Deus, a lei moral, a sociedade e a própria humanidade.
Em primeiro lugar contra Deus. Pois, gloria-se, loucamente, numa página, tristemente célebre, de o ter vencido e condenado à morte: -- "Onde está Deus, eu vo-lo quero dizer! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos os seus assassinos\! Mas, como conseguimos fazer isto? Como nos foi possível beber o oceano? Quem nos deu a esponja com a qual desfizemos todo o horizonte? Deus, permanecerá morto! E nós o matamos! Como nós nos consolaremos, nós os assassinos entre todos os assassinos! O que o mundo tinha de mais sagrado e mais poderoso sangrou debaixo das nossas facas".
Entretanto, este ateu que se considerava deicida, e irreligioso, tem para si, também um deus e uma religião; porque ele vai revelar o ídolo do EU e o culto idolátrico do EU; a religião do egoísmo.
Depois que o Deus verdadeiro, legislador supremo e juiz soberano, desapareceu da imensidade vácua dos céus, um outro deus nasce, um deus imperfeito que se ignora; ele está no berço, é encerrado na linguagem da infância, alegra-se a sua juventude, adorna-se a sua adolescência com crenças e dogmas pueris. Mas eis que nele desperta a consciência da plenitude de sua força! Então se levanta, rugindo e terrível como o leão do deserto. Ele quebra todas as cadeias que entravam sua liberdade e se atira sobre o mundo e sobre a humanidade, na sua dominação egoísta e fez. É este o novo deus, é o super-homem de Frederico Nietzsche.
Claro está para que este homem, superior à natureza e à sociedade, não existe mais nenhuma lei moral. Superior à "gramática moral", ele pode permitir-se "toda a sorte de licenças". O absoluto é para ele sua lei. Assim o célebre profeta Zaratustra desceu do novo Sinai para anunciar aos homens a grande nova da "morte de Deus", ele pode quebrar as tábuas da lei moral ou, como ele diz no seu estilo sibilino, "a tábua dos valores" que com um gesto dramático ele atira nos abismos com deprecações apaixonadas.
O fim do homem superior deve assegurar a independência absoluta do seu EU e dilatar nele e fora dele, o potencial da vida pessoal o mais que seja possível e por todos os meios possíveis. "se a mim se demonstra, escreve Nietzsche, uma página notável, que a dureza, a crueldade, a astúcia, a audácia, temerária, os gostos bélicos são de natureza a aumentar a vitalidade do homem, eu direi SIM ao mal e ao pecado. E seu descubro que a verdade, a virtude, o bem, numa palavra todos os valores reverenciados e respeitados até agora pelos homens, são prejudiciais à vida, eu direi NÃO à ciência e à moral".
A cultura intensiva da energia vital torna-se o princípio de toda a moral.
Ora, tal é realmente, o pensamento desse filósofo no seu ANTICRISTO; os pecados capitais do cristão, notadamente, a volúpia, o desejo de dominação e o egoísmo são proclamadas as virtudes capitais do homem superior. E na sua derradeira obra interrompida pela demência, intitulada; VONTADE DE PODER, ele consagrou o terceiro livro, o IMORALISTA, à demonstração da influência nefasta da moral: entre todos os perigos, a moral é o perigo por excelência, fantasia de Nietzsche.
De resto, ele já havia feito anunciar por Zaratustra estes paradoxos insensatos: "quem oferece os maiores perigos para o futuro dos homens: não são por acaso os bons e os justos? Destruí, destruí em os bons e os justos! Ó meus irmãos, compreendestes esta palavra? Vós fugis diante de mim? É porque eu vos disse que destruísseis os bons e as mesas dos bons, pois que embarquei o homem em pleno mar".
Depois de haver soltado a besta humana ou como ele a chama na sua CIÊNCIA ALEGRE, o homem de rapina, o homem lobo, ideal do homem superior à humanidade, agitado por todas as paixões humanas: egoísmo, dureza, volutuosidade, dominação, intemperança, orgulho, que Nietzsche denomina operários ciclópicos: é de temer que longe de construírem estes operários abalem e façam cair em ruina todo o edifício social. Assim é que o filósofo lhe aconselha, prudentemente a fugir da sociedade. A sociedade é, para ele, uma instituição contrária à natureza e contra a qual não há bastante anátemas.
"Os fortes aspiram a separar-se, os fracos a se unir, diz ele, e se os fortes seu missem algumas vezes, isto não seria para lastimar pelas associações passageiras e em vista de uma ação agressiva comum. A sociedade força, com efeito, as energias selvagens do homem, a se moderarem e limitarem mutuamente. Ora este constrangimento vem a criar bestas de rebanho, escravos, porque a domesticação é sempre um enfraquecimento da natureza e uma decadência.
Também não há bastante ironia que se dirija aqueles que não tenham coragem suficiente para se isolar e encerrar na sua personalidade, e que vão mendigar o socorro de associações: estes são, de fato, falidos, bastardos e escravos. Isto, evidentemente, contradiz à velha máxima de Aristóteles de que o homem é um animal sociável e que para dispensar o auxílio de toda a sociedade, é preciso ser um bruto ou um deus. O homem selvagem é, pelo contrário, o homem superior".
Uma tal moral, além de antissocial, é contrária a humanidade ou desumana. Nietzsche nos observa que esta moral só se pode dirigir a um pequeno número de privilegiados, bastante fortes para se elevar acima dos outros homens. "É preciso ser superior à humanidade em força, em altura d'alma e em menosprezo". "és tu daqueles que tem o direito de sacudir o jugo? És tu uma força nova e uma lei? Um primeiro motor? Uma roda que gira sobre si mesma? Podes tu obrigar as estrelas a girarem em torno de ti? Se tu o poder à custa do rebanho humano, é isto um monturo onde a tua flor deve lançar a raiz, desprezando-o. Se não o podes, deves permanecer com a multidão dos homens medíocres e vulgares, feitos para a obediência e a servidão, isto é, com a canalha", confogem ele não deixa de chamar, com desprezo, o resto dos humanos juntamente com Renan e Voltaire.
"A vida é uma fonte de alegria (para os sobre-humanos), diz Zaratustra, mas por toda a parte onde a canalha vem beber, as fontes são envenenadas. Eu amo tudo o que é limpo, mas não posso ver careta sem a sede de gente suja".
Se o darwinismo com a sua luta pela existência e a sua seleção dos mais fortes, houvesse tido necessidade de atrativos sedutores, de um cantor maravilhoso ou de um poeta sublime, o autor de Zaratustra poderia satisfazer a estes desejos. É, sem dúvida, a dominação dos fortes e a destruição, sem piedade, dos fracos pelos fortes, que ele nos canta com entusiasmo lírico.
"Que coisa, pergunta Zaratustra, que coisa é mais perniciosa do que o vício? A piedade que admite agir em favor dos desclassificados e dos fracos: é o cristianismo. Pereçam os fracos e os falidos e se lhes ajude a desaparecem. Longe de ti, toda a piedade e toda a compaixão: Deus está morto; é a sua piedade demonstrada aos homens que matou a Deus. Eu imagino, diz alhures, uma associação de homens que sejam perfeitos e absolutos e não tenham nenhuma consideração, e se deem a si mesmos o nome de destrutores. A humanidade considerada como massa sacrificada à prosperidade de uma só classe de homens mais fortes, este será um verdadeiro progresso".
Como se vê, Nietzsche, depois de ter feito esforços sobre-humanos para criar uma elite de intelectuais, está empenhado em fazer humanos para a massa dos homens. Para esta continua a ser pessimista; nada de progresso ou de desenvolvimento positivo ou desejável. Sua "aristocracia", não é uma função social, é um escopo, um fim em si. É porque Nietzsche nos diz "ela aceita com uma consciência tranquila o sacrifício de homens inumeráveis, que, para seu proveito, devem ser reduzidos ao estado de homem incompletos, de escravos, de instrumentos". A eles a moral dos escravos, a nós a moral dos aristocratas.
Nietzsche continua a ensinar: "Minha vida, assemelha-se a uma chama. Chama, eis o que seguramente sou. Fogo é tudo o que eu faço. Cinza tudo o que cai atrás de mim. Assim eu ardo e me destruo".
Ele se destrói, com efeito, pois em plena expansão do seu gênio, a sua razão se obscurece; mas em quantas almas ela não espargiu cinzas e ruínas! Ele suplicia a moral tradicional, a saber, a cristã, com esta palavra brutal: "A moral disse: não, à vida. Ora, viver loucamente, viver perigosamente, e é esta a grande lei da natureza".
Por isso, é preciso rasgar as faixas de múmia que, sob o nome de preceitos morais, algemam a nossa vontade. As bem-aventuranças do Cristo não são feitas senão para escravos. As leis divinas relativas à doçura, à humildade, à caridade, são apenas um programa para degenerados.
Urge também dar curso livre às nossas energias vitais, pois que os deuses estão mortos e não procuremos senão em nós mesmos o heroico segredo do dever. Ora, este segredo se acha na exploração das riquezas infinitas do nosso ser. Este nos revela que para sermos poderosos e felizes, devemos, por saltos sucessivos da nossa vontade, elevar-nos acima de nós mesmos.
O homem verdadeiro, tal qual as forças obscuras do mundo o conceberam, é feito para queimar sua roupa de escravo, devorar a humanidade fictícia que uma falsa civilização lhe deu a despertar o deus que dorme nas profundezas escondidas de sua alma. Ele adquirirá, assim, uma grandeza desconhecida até este dia. Será, em pleno sentido do termo, um super-homem e, no seu arrojo vitorioso, para as alturas, todos estes valores intelectuais e morais serão desfeitos.
As velhas virtudes cairão como esqueletos partidos. E sobre as suas cinzas mortas nascerá a força triunfante e irresistível. Não haverá mais piedade para si e para ninguém, nem misericórdia, nem fraternidade, nem perdão. O objetivo do super-homem é tornar-se por meio de sobressaltos de vontade, cada dia mais violento, um deus poderoso e impassível, impelido a reformar o mundo sem perguntar se ele sofre e, principalmente, se ele faz sofrer.
Nietzsche pergunta: "Quem conseguirá a grandeza se não sente a força de infligir grandes sofrimentos? É pouco saber sofrer: as mulheres fracas sabem sofrer; os escravos tornam-se estres nesta arte. Mas resistir à dúvida angustiosa que nos assalta, quando se inflige a dor, eis este é grande, eis esta é uma condição da grandeza".
O ideal da vida é, pois, uma guerra, sem compaixão contra os mansos, os fracos, os pacíficos que aviltam a humanidade. Destrui-los até ao último, e seja pelos meios mais sangrentos, é este o dever sagrado dos mais fortes. A boa guerra é aquela que tudo santifica. É preciso supor o romanesco, o maravilhoso das belas almas para esperar grande coisa de uma humanidade que não faça mais a guerra. Esgotada pelos seus excessos de civilização, a humanidade reclama não somente uma guerra, mas a maior, a mais terrível para não perder no meio de sua cultura, sua cultura e seu próprio ser".
Este texto basta para julgar a moral de Nietzsche. À força de exaltar o homem, ele o condena a devorar-se a si mesmo no crime e no sangue.
É inútil multiplicar as citações. Estas mostram até a evidencia que Nietzsche é um rebelde contra Deus, contra a lei eterna do bem e do mal, contra o cristianismo e a humanidade. Sua moral não merece este nome a não ser por antífrase: porque ele mesmo se gloria de ser "Imoralista" e "iconoclasta", destruidor de toda a moralidade.
Segundo a doutrina católica, a moral está estreitamente ligada ao dogma. A fé não se contenta de ensinar a verdade à inteligência; ela dita também à vontade os deveres do homem. Do mesmo modo que ela amplia na ordem intelectual as descobertas da razão, assim na ordem moral completa as obrigações emanadas da ordem natural.
A Igreja ensina que a natureza enfraquecida e pervertida pelo pecado original, é incapaz de dar, pelas suas próprias forças, à vida o seu verdadeiro sentido, a sua verdadeira beleza e a verdadeira felicidade.
O homem para que possa realizar o seu destino supremo, tem necessidade de fortalecer a sua fraqueza com o auxílio divino. Regenerado o homem pelo sangue do Calvário, a vida moral se aperfeiçoa pouco a pouco e conquista seus títulos à bem-aventurança eterna.
Nietzsche era um doente mental. Morreu louco. Este fato deve, profundamente, abater e humilhar o orgulho dos seus adeptos, visto que demonstra, por um exemplo nítido e doloroso, que não há super-homem que não esteja sujeito às misérias humanas ou acima das leis da contingencia.
Nietsche não tentou nunca coordenar, logicamente, as suas ideias. A sua obra é uma longa série de aforismos. Ele mesmo disse que acabou por escrever não com as palavras, mas com relâmpagos, sob a influência do fogo que ardia no seu próprio pensamento. Estas expressões explicam, de algum modo, o seu estilo e a falta de clareza de sua doutrina.
Infelizmente, o naturalismo destilou seu veneno em muitas almas, causando grandes estragos à sociedade humana. Os pagãos, outrora, divinizaram o prazer, a ciência, o dinheiro, a força, a guerra. Em nossos dias, onde o catolicismo, os ensinamentos de Cristo são desprezados, reina o naturalismo em todos os departamentos da vida social e pública. Os ídolos pagãos ressurgem e pretendem dominar nos corações, nas famílias, na sociedade e nos Estados.
A guerra atual da Europa é uma terrível consequência da doutrina do naturalismo, que não reconhece os preceitos da justiça e da caridade, mas só o egoísmo e a prepotência.
O Papa prega a paz, mas não é ouvido. Os bispos ensinam a fraternidade cristã, mas seus esforços são desprezados. Parece que se verifica a sentença: "Quem Deus vult perdere, primum dementat: a quem Deus quer tornar infeliz, primeiro faz perder o juízo".
O naturalismo como concepção do mundo envolve um erro de consequências desastrosas para toda a humanidade.
E se confrontarmos a teoria do naturalismo acima exposta, com a nossa vida estatal e nacional, observaremos com profunda tristeza, que as mesmas ideias exercem sua deletéria influência sobre não poucos departamentos da sociedade brasileira. Pois, muitos olham pelo prisma do naturalismo a vida particular e pública. Isso se verifica na literatura, na legislação, nas belas artes, na educação, nas diversões e em outros assuntos. A confusão de ideias continua e os perigos sociais se multiplicam.
A Igreja Católica trabalha de norte a sul com todos os meios ao seu alcance. Ela oferece tanto à Europa como ao Brasil o único meio de salvação.
Compete, portanto, aos católicos mostrar a absoluta necessidade de abraçara a doutrina da Igreja e de obedecer aos preceitos de Deus. O naturalismo é o inimigo declarado da felicidade do indivíduo, da sociedade e do Estado.
Combatê-lo é um dever patriótico.
Pois, a única concepção do mundo, capaz de orientar a humanidade nas suas tremendas dúvidas e lutas, como o farol rutilante à beira-mar dirige os navios impelidos elas tormentas, é a concepção cristã, a concepção católica, que há vinte séculos apresenta aos povos o roteiro, no qual brilham as palavras: Creio em Deus Padre todo-poderoso, criador do céu e da terra; creio em Jesus Cristo, seu Filho único; creio as verdades que a Igreja ensina.
CAPÍTULO X
O enfraquecimento físico
Diz um antigo proveito, repetido muitas vezes, que o mundo é um hospital. De fato, recebe-se esta impressão pelos corredores e nas salas dos hospitais de incuráveis, encontramos quase sempre formas humanas que inspiram compaixão, seres nos quais se percebem os sinais precursores de uma morte lenta e fatal. Quem percorre ruas e praças de aldeias de cidades, tem a impressão de que a enfermidade de vários gêneros oferece um aspecto natural e comum.
Houve tempo em que se considerava como honra distinguir-se aos olhos do próximo, não sendo possível pela formosura e pela força, ao menos por deformidades horripilantes. Já Moisés e Isaias afirmam que na Judeia as mulheres procuravam fazer-se atraentes por sua elegância e por um andar tal que, a cada momento, se temia que caíssem.
Na antiga Roma, homens e mulheres sentiam uma vergonha mortal de serem como Deus os criou. Por isso, senhoras cobriam a cara com manchas detestáveis como diz Plínio; procuravam rivalizar na esbelteza do seu talhe com as vespas e, sacrificadas pelo andar com sapatos de saltos bem altos, davam passinhos à moda de pessoas que sofrem de reumatismo nas pernas ou de gota.
Os tempos modernos não são melhores, sob este ponto de vista. Não há muito tempo, diz um autor, que a moda tirânica exigia, para ser admitido a qualquer reunião da denominada alta sociedade, que se desfigurasse o rosto com pequenas protuberâncias artificiais. Esta invenção poderá ter encontrado dificuldades, se não se desse a estas elevações epidérmicas o gracioso nome de grãos de beleza e, desta maneira, tiveram grande aceitação.
Não há dúvida que estas deformidades intencionais podem considerar-se como a coisa mais supérflua do mundo, porque onde estão os homens em que a obra de Deus haja permanecida intacta sem algum defeito desfigurante? Se consultamos um atlas iconográfico, nos convencemos de que há na terra criaturas humanas que se tomariam antes por irracionais selvagens que por seres semelhantes a Deus, de tal modo desfiguram e deformam os membros do seu corpo.
Ora, a fealdade, a doença, as deformações físicas e mentais não podem ser obra de Deus, senão uma prova de que a humanidade caiu profundamente. As criaturas feitas por Deus eram inicialmente perfeitas. Nossos protoparentes primavam pela sua beleza estética.
Para conhecer as desfigurações de que é capaz o homem por sua culpa, não há necessidade de apelarmos para os selvagens, basta uma visita aos hospitais, leprosários e estabelecimentos penitenciários, para sabermos donde provém essas deformações.
O pecado é que profana, abala e destrói o corpo do homem; é o pecado que produz as figuras diabólicas, traçadas por célebres criminalistas. Alguns pintam e outros descrevem, com horrível realismo, os criminosos marcados com o selo do embrutecimento, da sensualidade bestial, do prazer desumano da destruição, do sadismo étnico É o pecado que produz os modelos detestáveis que induzem certos escritores até ao emprego da expressão de "besta humana".
Não é preciso ser grande cientista para notar que, de fato, se imprimem na fisionomia humana os sinais da inveja, do ódio, da inclinação de mentir e da rapidez com que os desregramentos estragam o corpo mais formoso. Quem negará que essa deformação exterior é muitas vezes o resultado de uma anterior decadência interna? Por outro lado, a santidade interior reflete a beleza da paz e a tranquilidade da alma no rosto humano. Os santos nos oferecem um exemplo.
Naturalmente, não seria justo condenar todo o indivíduo que leve em si traços de fealdade e doença como se estivesse assinalado por Deus para sofrer o castigo de pecados pessoais. Mas, o que podemos e devemos afirmar é que o pecado, se não dos indivíduos, pelo menos do gênero humano, deixou no homem os indícios de sua ação deletéria.
Lacordaire indagando sobre a causa da decadência de exércitos e de gerações, disse: Sim, indubitavelmente, um veneno, um inimigo causou esta ruina; uma epidemia mais contagiosa que a cólera, mais temível que a lepra, mais devastadora que a peste negra; o grosseiro vício do Norte; a embriaguez; o brilhante vício do Sul, o prazer sensual; a luxúria, a ociosidade, a moleza tudo destruíram.
Entretanto, outros pecados funestos diminuem, igualmente o vigor da vida. Há paixões que produzem não menores estragos do que estas desordens exterioras. É inegável que a avareza e a ambição, muitas vezes, corroem tanto a natureza quanto o prazer sensual e a intemperança. Um só ataque de ira pode produzir a morte, o coração bate febrilmente, a língua quase fica paralisada, o rosto se arrebata, treme o corpo, a reflexão desaparece e seria difícil encontrar diferença entre o colérico e o epilético. Porém, mais destrutora, mais perniciosa que estas paixões talvez seja a melancolia profunda. Não há excitação nem intemperança alguma que até tal ponto gaste as forças nem que a tal ponto as abata nem produza estragos tão mortais.
Todos os males, e especialmente, a morte não consequência do pecado. Entretanto, nenhum espirito refletido admite que cada desgraça e cada enfermidade seja castigo de um determinado pecado. Pois, em diferentes ocasiões Nosso Senhor refutou esse erro. Mas não obstante isso, o princípio de que o mal no mundo é um castigo, permanece irrefutável. A razão e a fé nos dizem que Deus não é o autor dos estragos que hoje apresenta a natureza humana por ele criada; mas, sem o pecado não existiria nenhum dos males que amarguram a vida, e que, apesar disso, a terminam demasiado depressa, também, para muitos que sofrem.
E se todos os males são castigo de pecado, castigo, sem dúvida, também é a morte, por ser o maior de todos os males terrenos. O que a natureza arruína, pouco a pouco, com os sofrimentos e a enfermidade, depois por completo com a morte, é uma consequência do pecado.
Milton expos isto com força, concisão e verdade admirável: "Ainda não nasceu o pecado, quando já o percebe o monstro de mãos descarnadas, a morte, que vela na porta do inferno; à vista do seu pai dilata a narina se de longe olfativa o seu hálito pestilento. Parece-lhe que já se verifica a decomposição: já noto grande cheiro de matança, rapina imensa. Sinto o sabor da morte de todas as criaturas que aí vem. Não faltarei à obra que te propões, quero nela participar a honra contigo. E isto dito, o monstro esporou, com gozo, o cheiro da mudança mortal ocorrida na terra; não de outro modo um bando de aves carnívoras, apesar de achar-se muitas léguas distante, chega, voando, na véspera da batalha, ao atilo onde acampam os exércitos, atraído pelo cheiro dos cadáveres vivos, prometidos à morte para a ida seguinte em sangrento combate".
E então o espectro foge do calabouço vazio e constrói em cima dos pântanos e dos abismos, ajudado pelo seu pai, a terrível ponte da morte que todos devemos passar, porque todos somos membros de uma mesma raça. E, se todos gostam de desfrutar as vantagens que lhes oferece sua união os demais, não devem queixar-se da participação dos sofrimentos e explicações da coletividade. Assim Milton, o poeta do Paraíso Perdido.
Os homens queixam-se muito dos males da vida, acusam a Deus, Adão e a humanidade. Mas, é sinal de má compreensão lamentar, continuamente, os males exteriores que sofremos, e não reconhecer os defeitos interiores que os produzem. Porque não confessar que nunca nos fere uma aflição sem que, às mais das vezes, nós mesmos a tenhamos motivado? Porque não admitir que, raras vezes, se encontra alguma de que nós mesmos não sejamos os autores? Sim, nós somos a causa dos nossos males, e esse fato nos priva do direito de nos queixarmos, quando os sofremos.
Não é Deus quem produz esses males: tão pouco são eles um postulado da natureza; porque nós perturbarmos a natureza, por Deus bem-disposta, e essa é a causa que nos prejudica. O veneno mesmo tem na natureza fim e lugar próprios; se prejudica ao homem, é para vingar o abuso que dele se faz, como diz Santo Agostinho.
Mas, se o abuso se vinga, é em consequência da lei divina. Nós mesmos nos castigamos, é certo; porém com isto não faremos outra coisa que executar a vontade divina. Com o pecado rompemos as barreiras que nos impõe, com o castigo as restabelecemos. Deste modo Deus permanece sempre dono e a criatura sempre surtida, porque quem perturbou a ordem deve restabelece-la e reparar, ainda outra sua vontade, a falta que voluntariamente cometeu.
Existe uma ordem moral do mundo que não é outra coisa senão a imutabilidade da santa vontade de Deus e de sua justiça, garantidas por sua onipotência e sabedoria. Essa ordem é tão superior aos homens que não há maquinação nem violência que possam eximir-nos dela.
Nunca se mostra mais poderosa que quando o pecador quer violenta-la, pois é este precisamente que deve cumprir em si o castigo que aquela ordem exige. Quanto mais ousadamente luta contra essa ordem tanto mais se prejudica a si mesmo e tanto mais glorifica a essa mesma ordem. Se recusa glorificá-la com a vida, como é o seu dever, terá contra a sua vontade, de glorifica-la com a morte.
Contra o historiador Heródoto: Durante a grande formatura em que Xerxes passou em revista as suas forças militares nas margens do Heleponto, o déspota prorrompeu em pranto. Subitamente, lhe havia ocorrido o pensamento de que ao cabo de cem anos não ficaria daquele exército nem um só de tantos guerreiros alegres e cheios de vida, a flor de toda a Ásia. "Ainda há, lhe respondeu seu tio Artaban, outro pensamento mais doloroso: entre quantos aqui se acham, ainda mais, entre quantos na terra existem, não há ninguém bastante feliz para não sentir, mais de uma vez, o desejo de ver abreviada esta vida tão breve".
Se a desgraça e a enfermidade de tal modo perturbam nossa existência, de sorte que a vida, ainda que breve, nos aparece demasiado longa; e sendo-nos já molesta, chamamos pela morte e acusamos a Deus como se tivesse feito mal, querendo que gostássemos as doçuras do mundo. "Tens razão, respondeu Xerxes; porém, imagens mais risonhas se apresentam à nossa vista; deixemos, pois, esta conversação tão triste".
Não era difícil ao rei da Pérsia recrear-se com ideias mais agradáveis. Vivia como vivem os poderosos. Pouco conhecia a miséria que aflige a humanidade.
Compreende-se, perfeitamente, que só imagens alegres e risonhas se ofereçam à vista de um príncipe que não manifesta sensibilidade por nada nem diante dos maiores morticínios.
Mas, o mundo n~]ao é um régio jardim de delícias, ao qual somente tenham ingresso os felizes. O mundo representa, antes, o paraíso perdido, onde vivem mendigos e leprosos, enfermos, velhos e exaustos, abatidos pela miséria.
A causa é o pecado, que procura triunfar por toda a parte. Mas é o pecado, que deve ser vencido e seus danos devem ser reparados pela penitencia e pela observância das leis de Deus e dos seus ensinamentos.
Quanto mais pecados os homens cometem, tanto mais aumenta a decadência da civilização.
CAPÍTULO XI
Crimes mundiais semelhantes
Duas grandes crises precederam à formidável revolução francesa do século dezoito: a crise intelectual e a crise política. Semelhante é a situação mundial da atualidade. Serão os efeitos iguais? Estaremos por acaso diante de catástrofes semelhantes? Deus não o queira permitir!
A necessidade de uma reforma política e social mal dirigida foi a causa da revolução francesa. Os homens de Estado, sob o domínio de novas ideias, estavam iludidos a respeito dos perigos eminentes. O movimento revolucionário processou-se sob a inspiração da filosofia racionalista. A atitude da França influiu, pouco a pouco, sobre todas as nações.
A revolução, isto é, o caráter revolucionário e antirreligioso dado que ao movimento de reforma que se realizou em fins do século dezoito, teve a sua origem da filosofia incrédula. O triunfo de Robespierre foi preparado por Voltaire e Rousseau. Mas, seria erro afirmar que essa filosofia fosse produto exclusivamente francês
Se a revolução francesa conquistou, em breve, a Europa, é porque achou nela, em todos os departamentos, um terreno bem propício. A Inglaterra, a Alemanha, a Itália e a Holanda achavam-se disposta a absorver o veneno revolucionário.
É sabido que Voltaire muito se inspirou nos filósofos ingleses. Brunetiére demonstrou amplamente nas suas "ligações sobre o espirito enciclopedistico" que o princípio fundamental de Rousseau de que a origem dos nossos males não provém da nossa natureza e sim da organização da sociedade em que vivemos, é um princípio reproduzido da filosofia do outro lado do Mancha.
Quem ignora que na Alemanha os conselheiros de José II se inspiravam nos reformadores luteranos tanto como nos filósofos da França? Não cantavam na Itália pelo mesmo diapasão? Não se repetiam as páginas entusiastas dos sonhadores franceses, e se divulgaram as utopias de Campanella, e os versos incendiários de Alfrieri em favor da liberdade abstrata e quase deificada? E os discípulos de Grossio e Espinoza não haviam ele esperado na Holanda protestante a aparição da Enciclopédia e do Contrato Social para imaginar um renovamento completo do direito das gentes e da organização política?
O espirito revolucionário dominava por toda a parte. E em todos os lugares, na febre dos espíritos e no ardos dos esforços, distinguiam-se dois caracteres: a utopia no ideal esperado e a violência nos meios propostos. Ambos foram os elementos da revolução, e esta foi obra dos ideólogos jacobinos. A crise política e social era caracterizada por um acontecimento mundial e pelas modificações profundas na organização interior da sociedade, em particular, da sociedade francesa
A guerra de Sucessão e da Áustria e a repartição da Polônia são fatos cuja responsabilidade cai sobre as grandes potencias europeias. Pois bem: esses fatos indicavam uma abdicação do direito público tradicional, o pouco respeito que se tinha aos compromissos contraditos e o nenhum caso que se fazia das soberanias estabelecidas. A guerra de Sucessão austríaca havia demonstrado que a força dos Estados podia aumentar o valor dos direitos dos soberanos, e a repartição da Polônia, que a força dos Estados, podia aumentar o valor dos direitos dos Estados, na expressão de Alberto Sorei.
Voltaire escreveu em 19 de novembro de 1772 ao rei da Prússia, Frederico II: Dizem, Senhor, que vós sois aquelas que excogitou a divisão da Polônia e eu o creio, porque nisso há uma demonstração do seu gênio.
Por outra parte, o entusiasmo suscitado pela guerra de Sucessão na América excitava os ânimos. A Declaração de independência, firmada em 1776 pelos Estados americanos se apoiava na igualdade civil e política dos cidadãos, nos direitos inalienáveis do homem e na soberania do povo.
"Consideramos como indiscutíveis, dizia o preambulo desse documento, as verdades seguintes: que todos s homens foram criados iguais; que foram dotados pelo Criador com certos direitos inalienáveis, e que sempre que uma forma qualquer de governo se converte em agente de destruição dos frutos para os quais foi estabelecida, o povo tem o direito de muda-la e aboli-la".
Tais acontecimentos de política exterior coincidiam com uma crise das instituições interiores em quase todas as nações europeias, especialmente na França. Os principais indícios desta crise consistiam num certo espirito de impaciência com respeito aos direitos feudais e uma surda rebelião com referência ao absolutismo da coroa.
Como disse Tocqueville, "em fins do século dezoito ainda não se havia abolido por completo a escravidão. Quase em toda a parte da Alemanha, e na sua maioria, o povo continuava, de fato, preso à gleba como na Idade Média. Quase todos os soldados que formavam os exércitos de Frederico II e de Maria Teresa, eram verdadeiros escravos". A Inglaterra se achava administrada e também governada pelos principais possuidores de terras.
Ora bem! Enquanto os povos tinham visto a nobreza assegurar a ordem pública, fazer justiça, velar pela execução das leis e acudir em socorro dos fracos, eles haviam suportado sem excesso de impaciência, pouco mais ou menos, os direitos, com frequência pesados e os privilégios, às vezes, molestos. Mas, à medida que a aristocracia territorial havia cessado de prestar os serviços que correspondiam aos seus direitos, sua autoridade se fazia cada dia mais pesada.
Onde se fazia de modo especial, sentir seu peso, era na França. É certo que a escravidão havia quase desaparecido nela, mas os componentes vivam oprimidos.
O absolutismo real era um outro perigo. O poder dos reis era absoluto e se havia convertido em uma segunda causa de mal-estar político social. Entretanto, seria injusto, confundir o absolutismo de um Felipe V da Espanha, de Maria Teresa da Áustria ou ainda de um Luís XIV e Luís XV com o de um potentado oriental ou de um imperador da decadência romana.
Não obstante consideravam-se quase onipotentes e superiores a todas as leis. Eram como dizia Bossuet: "deuses de carne e sangue, de barro e pó". Com demasiada frequência em lugar de exercer o governo só em benefício da nação, governavam em favor dos seus interesses pessoais.
O poder central veio a ser, com frequência, o ponto principal de intrigas dos cortesãos e favoritos e, com isto, perdeu a sua estabilidade e prestígio. O governo continuava sendo absoluto, mas a sua ação caiu na incoerência.
A França já não viu à sua frente um monarca que a pulasse pelo caminho glorioso dos seus destinos. E logo se manifestou no senso da nação demasiado centralizada nos seus movimentos, uma espécie de corrupção, a corrupção do fruto demasiado maduro. Ao desfalecer a alma comum na pessoa do rei, todos reclamaram a independência sacrificada em outros tempos; o povo se habituou a desprezar seus chefes e a anarquia manifestou sua tendência de explorar dentro de sua centralização.
A revolução, apesar dos seus crimes e destruições, serviu, nas mãos da Providência divina, para o castigo de muitos e aperfeiçoamento moral de outros. Mas não conseguiu seu triunfo integral sobre a igreja e cristianismo.
Neste sentido escreveu José De Maistre em 1796: "ouvi bem, vós todos a quem a história ainda não deu uma lição suficiente! Dizeis que o cetro sustentava a tiara; pois bem: já não há cetro, está quebrado. Não sabeis até que ponto a influência de um sacerdote rico e poderoso poderia sustentar os dogmas que pregava? Já não há sacerdotes ou, ao menos os que escaparam à guilhotina e á deportação, recebem hoje a esmola que antes repartiam. Tínheis à força do costume, o ascendente da autoridade. Já não há costumes, já não há senhores; cada um é dono do seu espirito.
"Já não tendes nada que temes da fascinação dos ódios; o aparato das pompas já não se impõe aos olhos dos homens, os templos estão fechados. O filosofismo não pode, portanto, formular novas queixas: todas as contingencias estão a seu favor.
"Mas quando o cristianismo sai desta prova terrível mais puro; quando o Hércules cristão, forte pela sua própria força, levanta o filho da terra e o aperta entre os braços: partiu Deus, é sinal que é Deus. Não deve, pois, dormir o clero da França; há mil razões para crer que está chamado para uma grande missão e as mesmas conjecturas que odeiam entrever as causas de sua queda, lhe permitem por sua vez crer que está destinado a uma obra essencial".
A predição se realizou plenamente, quinze anos depois. Ao amanhecer do povo século, purificado pela nobreza, criado com a perseguição, o clero fez ressoar por todos os princípios o jubiloso Aleluia pascal. A Concordata francesa chega a ser o modelo, conforme o qual as nações principais regulamentam a maneira de sua vida religiosa.
O gênio do cristianismo de Chateaubriand, traduzido em todas as línguas, leva, por toda a parte, o eco de um renascimento católico; e a França é ademais a que dá ao apostolado longínquo os mais intrépidos dos seus obreiros e o mais abundante dos seus recursos, mediante a reputação das missões estrangeiras e a criação da Obra da propagação da fé. Depois de tormentas, nasce o sol esplendido e fagueiro.
Napoleão Bonaparte impôs silencio à revolução e procurou normalizar a vida pública da França. Mas, orgulho dos seus triunfos, a sua ambição não conhecia mais limites. Quis que toda a Europa se curvasse diante do aceno onipotente de seu arbítrio. Suas vitórias eram estupendas. As próprias pirâmides do Egito contemplaram as façanhas de impetuoso conquistador. Pretendeu que a Igreja fosse o pedestal de sua glória e manteve, durante anos, o Papa Pio VII no cativeiro. A Rússia e Waterloo venceram o orgulhoso curso. Morre na ilha de Santa Helena e seus restos mortais acham-se depositados num esquife visível a todos, na Igreja dos Inválidos, em Paris.
Na época atual assistimos a uma tragédia de efeitos terrificantes. Transforma-se a carta geográfica. Não é a força da lei que domina, e sim, a violência do mais forte. Parece que o engenho humano concentrou todas as suas luzes e todas as suas energias na construção e no aperfeiçoamento dos instrumentos mortíferos. O ideal da humanidade transformou-se na resolução incoercível de exterminar um a outros. A justiça perdeu a sua significação e as noções do direito dependem, exclusivamente, do arbítrio de certos governantes.
A força espiritual não é reconhecida, quando lhe falta o apoio de as espécies de armas.
Qual será o futuro da pobre humanidade? O despotismo, liberdade de todos os freios dos preceitos divinos e da caridade cristã, poderá prevalecer por algum tempo, poderá registrar triunfos, talvez ainda nunca lidos nas páginas da história universal.
Mas, as orgias passam, a ordem moral há de restabelecer-se. Os povos escravizados, a justiça conculcada e o direito repelido são fatores que estão preparando uma reação tremenda. Se a lógica dos acontecimentos históricos não falha, um cataclismo após outro há de vingar os processos criminosos que estão sendo aplicados. O incêndio, uma vez deflagrado, passará de um país a outro. A guerra traz, do seu bojo sinistro, a fome, a peste e o terremoto moral dos povos.
E quem salvará, depois do abismo de sua desgraça completa, a humanidade dizimada, aniquilada? É a Igreja Católica. Pois, animada de forças divinas, ela pensará e curará as chagas do gênero humano, desempenhando a caridosa missão do samaritano, que sarou as feridas do viajante caído nas mãos de ladrões no caminho de Jericó.
A Igreja possui recursos infinitos. Uma vez descido e assentado o pós que levantaram tantos exércitos e tantos monstruosos tanques; cessado o ruído ensurdecedor de tantos aviões bélicos; dissipadas as colunas de fumaça, vomitadas por tantas cidades incendiadas; acalmados pela morte os gemidos de tantas vítimas; terminados os bombardeios dos submarinos e couraçados: aparecerá de novo a cruz de Cristo acima da Europa e do mundo; aos pés da cruz renascerá uma nova época histórica, sobre as bases do cristianismo e orientada pelas leis de Deus e pelos ensinamentos da Igreja.
Assim, como a Igreja salvou os povos depois da queda do Império Romano, depois da revolução francesa e depois do despotismo de Napoleão I: da mesma maneira ela há de se amparar as nações enfraquecidas pela guerra atual, ensinando-lhes de novo e com argumentos indiscutíveis, que não pode haver segurança nem prosperidade sem a observância exata, por parte dos súditos e dos governantes, das leis que regem a justiça, o direito e a caridade, alicerçadas nos preceitos eternos de Deus.
CAPÍTULO XII
Os males do laicismo político
O Santo Padre Pio XII diz na sua Encíclica "Summi Pontificatus": "narra, o sagrado Evangelho, que quando Jesus foi crucificado "as trevas invadiram toda a face da terra"; símbolo espantoso do que sucede continua a suceder espiritualmente em qualquer parte onde a incredulidade cega e orgulhosa de si mesma, excluiu, de fato, a Cristo da vida moderna, especialmente da vida pública; e com a fé em Cristo sacudiu também a fé em Deus. Os critérios morais, segundo os quais, em outros tempos, se julgavam as ações privadas e públicas, caíram como por uma consequências em desuso; e o tão decantado laicismo da sociedade, o qual fez, imediatamente, rápidos progresso, subtraindo o homem, a família e o Estado ao influxo de Deus e aos ensinamentos da Igreja, fez reaparecer em regiões em que por tantos séculos brilharam os fulgores da civilização cristã, os sinais de um paganismo corrompido e corruptor, sempre mais claros, mais palpáveis e mais angustiosos.
"Não previam as amargas consequências da lamentável mudança entre a verdade que libera é o erro que escraviza. Falavam de progresso, quando, de fato, retrocediam, de elevação, quando se degradavam, de ascensão à madureza, quando, efetivamente, e se escravizavam: não percebiam a vaidade de todo o esforço humano em substitui a lei de Cristo por qualquer coisa que a igualasse: enfatuaram-se em seus pensamentos. Debilitada a fé em Deus e Jesus Cristo e obscurecida nos ânimos a luz dos princípios morais, tirou-se o único e insubstituível fundamento daquela ordem interna e externa, privada e pública, únicas garantias da prosperidade dos Estados".
O que o Santo Padre expõe, poderíamos chamar laicismo político. Ele aponta, eloquentemente, as fontes dos perigos sociais. O laicismo rebaixa a autoridade civil, quando a despoja do seu arrimo principal e ornamento: a sua origem divina. Ensina a inversão dos valores para a vida social. Induz a pessoa humana à condição de instrumento do Estado e o conceito dos Estados eleva aos altares do absoluto e divino.
O Santo Padre fala "daquelas concepções que não duvidam separar a autoridade civil de toda a dependência do Ser supremo – causa absoluta tanto do homem como da sociedade – e de todo o liame da lei transcendental de deriva de Deus, como de fonte primária, e concedem a essa mesma autoridade uma faculdade ilimitada de ação, abandonando-a às ondas mutáveis do arbítrio, ou unicamente aos ditames de exigências históricas contingentes e de interesses relativos".
O Sumo Pontífice esboça, em poucas linhas, o verdadeiro conceito da autoridade conforme os ensinamentos de Cristo. A autoridade sagrada por seu elevado caráter, forte e inviolável no seu poder, plena nas suas funções, humana e benéfica em sua ação moderada, enfim, por leis superiores que a livrem de cair tanto na tirania que oprime e vexa, como na abdicação que debilita e envilece.
Assistimos a convulsões políticas que por uma parte, derrubam velhos sistemas por incapazes de afrontar as responsabilidades do mundo moderno, e, por outra, levantam novas organizações com estrutura nova, novo espirito e nova vida. Ora, é lícito perguntar: exigirão essas convulsões por seu próprio impulso e pelas legítimas finalidades a que aspiram, exigirão elas o abandono das grandes ideias tradicionais cristãs, para que a vida dos povos seja cimentada sobre firmes e sólidos fundamentos? É evidente que as reformas sociais e politicas não podem abstrair das normas traçadas pela sociologia cristã. Do contrário, os cataclismos atuais terão em seu séquito catástrofes piores.
Pois, diz Pio XII na citada Encíclica: "Renegando, de tal forma, à vontade de Deus e ao império de sua lei, o poder civil, por inelutável consequência, tende a apropriasse daquela absoluta autonomia que só compete ao Supremo Senhor e fazer as vezes do Onipotente, elevando o Estado ou a coletividade ao fim último da vida, ao último critério da ordem moral e jurídica, e proibindo, por isso, todo o apelo aos princípios da razão natural e da consciência cristã.
O mundo então presenciaria as atividades destrutivas de novo despotismo e de novas tiranias.
Portugal, conseguiu reformas sociais e políticas de grande alcance, sem que, entretanto, rejeitasse os princípios cristãos. Pelo contrário, buscou as fontes de sua concepção política naquelas verdades eternas que são: "patrimônio da humanidade e herança da civilização cristã", e se inspirou "nas exigências da história portuguesa e da civilização latino-cristã".
A eterna verdade e a alma da civilização cristã é a existência e o reconhecimento da ideia de Deus e de sua soberana intervenção nos destinos do mundo. A obra gigantesca que realizou a civilização latino-cristã, de cujo influxo vivem ainda os países modernos, também aqueles que, oficialmente, renegaram a Cristo, descansa na fé de Deus e existência de uma ordem superior, que rege o homem na sua vida eterna, na vida social e na vida internacional.
E, por isso mesmo, como não houve necessidade de suprimir a Deus, tão pouco foi preciso confundi-lo com o César divinizando o Estado, fazendo-o onipotente e dando-lhe faculdades ilimitadas.
Um Estado forte é necessário, repete Oliveira Salazar, porém limitado pela moral, pelos princípios do direito das gentes, pelas garantias e liberdades individuais. Por isso, a constituição começa estabelecendo como limites para a soberania, a moral e o direito: a moral e o direito na ordem interna, e as convenções ou tratados livremente concertados e o direito consuetudinário, livremente aceito, na ordem internacional.
Desde o apóstolo São Paulo até Pio XII, através de vinte séculos os luminares das ciências sociológicas, como Santo Tomás, Vitória, Molina, Suarez e, de modo especial, Leão XIII, definiram com grande proficiência as propriedades e atribuições do Estado, do poder civil e das sociedades políticas.
O homem por inclinação natural deve viver em sociedade. Se as sociedades políticas estão constituídas por direito natural, o mesmo se deve dizer com referência ao poder, sem o qual estas sociedades não podem subsistir. E posto que Deus infundiu esta necessidade e inclinação nos homens, que não poderiam ficar sem sociedade e sem poder que a governasse, este poder tem a Deus por autor e a ele se deve atribui-lo
Deus é o centro inconcusso de toda a filosofia social e política destes grandes autores. Sim, Deus é o centro cujas irradiações lógicas haviam de penetrar até as últimas derivações da ciência. Pelo contrário, o erro do laicismo político, qualquer que seja a sua forma, se converte em foco de influencias ideológicas que se fazem sentir nas últimas consequências do sistema. Mas, assinalando a origem da autoridade civil que em última instância vem de Deus, a mente humana persiste em sua análise, estudando o seu caráter, investigando os seus fins e delimitando o seu campo de ação.
Eis aqui uma afirmação fundamental: a autoridade por sua própria natureza se eleva independente e se impõe às vontades dos homens. Esta firmação já refuta, de antemão, a aberração rousseauneana da origem popular da soberania, que tanto tem prevalecido nas ideologias e práticas contemporâneas e o erro biológico moderno que converte a autoridade em força orgânica e irresistível.
A autoridade ao nascer, e não nasce por vontade dos homens, aparece constituída na sua essência e nos seus atributos fundamentais, para cuja determinação nada pode o capricho humano. Nem existe, porque os homens reunidos em sociedade forjem a seu arbítrio, o instrumento necessário para a vida comum. Pois, o homem vem à sociedade impelido pela razão e por uma inclinação natural iniludível, que o assinala, impondo-lhe o único caminho a seguir para garantir a sua conservação e aperfeiçoamento.
Não forja ele a autoridade, mas já a encontra nascida nas próprias entranhas da sociedade com um fim definido, marcado pela natureza e com as condições e atributos indispensável para cumpri-lo. Nesse fim e nesses atributos, nada pode a vontade humana, que, somente, fica livre para eleição e determinação dos órgãos mais idôneos destinados a certos deveres e a exercer determinadas funções. E assim, propriamente, os homens que formam a sociedade, não tanto são donos e senhores da autoridade política quanto servos da mesma.
Está aí aberto um abismo entre a nossa concepção tradicional da autoridade e a concepção rousseauneana e biológica que transtornou tantas cabeças e tantas perturbações origina no mundo. Está também aberto o caminho para marcar o campo de sua atividade.
Essa autoridade civil não tem poderes ilimitados. A constituição soviética russa erra gravemente, quando estabelece o aniquilamento dos proprietários de terras e dos capitalistas, proclamando a ditadura do proletariado. Erram os modernos legisladores atribuindo ao poder público faculdades que excedem sua natureza e finalidade.
O Sumo Pontífice, salientando esses graves erros, nos ensina que o supremo Legislador ao conceder o cetro da autoridade civil aos governantes, indicou e determinou os limites da mesma. A autoridade civil foi estabelecida para regular a vida social, e auxiliar a pessoa humana na ordem temporal, a conseguir a perfeição física, intelectual e moral, facilitando-lhe a consecução do seu fim sobrenatural.
É, pois, nobre a missão do Estado de inspecionar, ajudar e coordenar as atividades privadas e individuais da vida nacional para faze-las convergir, harmonicamente ao bem comum, o qual não pode determinar-se por meio de concepções arbitrárias nem ter por norma absoluta a exclusiva prosperidade material da sociedade. Mas, o bem coletivo exige o desenvolvimento harmônico das faculdades naturais do homem e a satisfação de suas precisões. Pois, nas intenções do Criador a sociedade é meio e não fim.
Incorrem, portanto, em grave erro, tanto a tirania soviética como a arbitrariedade democrática, e todos quantos considerem o Estado como fim e "lhe dão domínios limitados, já como mandatário do povo ou duma classe social, já como senhor absoluto, independente de todo o mandato". Assim diz Pio XII.
Com efeito, a autoridade civil nasce limitada, porque nasce no seio e ao calor da associação humana, que necessita dela para viver, crescer e alcançar sua prosperidade, material, intelectual e moral. E esta é a razão de sua existência e a única razão dos seus atributos. Pois, para isso se reúnem os membros de uma sociedade civil: a fim de defender-se, gozar a possível felicidade e prosperidade neste mundo.
Tudo isto não se consegue sem guia, sem uma força disciplinadora, de um poder que se imponha à dispersão anárquica e ao consequente enfraquecimento das tendências individuais. Somente sob a influência desta força disciplinadora, que estimula, restringe e dirige, simultaneamente, pode a comunidade e os membros que a integram, alcançar a felicidade relativa nesta vida, e como diz, magistralmente, Francisco Suarez: Para que possam viver ao amparo da paz e da justiça, e com aquela abundância de bens que a conservação e ainda a comodidade da vida humana reclamam: unido tudo com a probidade de costumes que para a paz externa e a felicidade da república e decorosa existência da natureza são indispensáveis".
E antes de tudo é necessário estabelecer o reinado da paz e da justiça. Porque a paz social é a primeira condição de toda a prosperidade política, posto que por ela vive e se sustenta. Precisamente a esperança de vê-la realizada é o primeiro impulso que sente o indivíduo para acolher-se à vida social, na qual acredita achar a segurança de sua pessoa e dos seus bens, expostos fora dela ao atropelo e à violência.
Demais, a ordem da justiça e do direito é o maior e mais excelente bem de toda a entidade moral, à qual não pode renunciar o homem sem que rebaixe sua categoria e preeminência de ser racional. É, outrossim, o bem comum por excelência, porque sob o seu amparo vivem, sem exceção, todos os cidadãos e dela necessitam para o justo e reto desenvolvimento e progresso de suas atividades.
É indispensável também a força disciplinadora da autoridade para o incitamento da prosperidade pública, como dizem os modernos, ou para conseguir "aquela abundancia de bens que a conservação e ainda a comodidade da vida humana reclamam", como afirma Suarez. Porque à sociedade não lhe basta a segurança externa do direito e da ordem social, senão que sinta em si como todo o organismo e todo o ser normalizado, em suas operações vitais, e ainda sua melhora e aperfeiçoamento.
E não é suficiente para isto, antes lhe é prejudicial, a ação livre e isolada dos indivíduos peal insuficiente pessoal, pelos egoísmos inevitáveis dos homens, pela pugna de interesses opostos e pontos de vista contraditórios que reclamam a imposição dirigente e coordenadora daquela força disciplinadora que chamamos autoridade.
Para isso nasce a sociedade humana e Deus nela deposita como germe de vida a autoridade, para que se lance pelo caminho do progresso. A autoridade tem, pois, um caráter essencial de meio, de instrumento para o bem comum de todos. E tem igualmente seus limites marcados para esse fim. Quando a autoridade os ultrapassa, toma outro nome: chama-se tirania e então perde os atributos de mando que por direito natural lhe competem.
O primeiro erro moderno a que o Pontífice alude é o agnosticismo político que desterra a ideia de Deus de todo o sistema especulativo e de toda a filosofia que pretenda dar razão às normas que regem a vida social e política. Esse abandono de Deus se leva a termo ou em forma violenta, acrescentando ao desterro o desprezo e a injúria ou em forma mais polida e cortês, em uma elegante ignorância de Deus, que não se nomeia nos domínios da vida pública, se bem que se tolera sua presença e intervenção da consciência individual, no lar doméstico e na ordem privada.
O materialismo marxista e o racismo biológico repelem a Deus violentamente. Para o primeiro é dogma fundamental o materialismo mais completo e radical. Toda a ideia religiosa é furto mítico da fantasia humana, do atraso mental, do medo, etc.; o fruto envenenado e daninho, visto que "a religião é ópio para os povos" e instrumento da burguesia, afim de explorar o proletariado.
O racismo biológico não se mostra mais comedido, para ele o Deus pessoal não existe, nem o deus que as filosofias pagam ias depurada chegou a conceber, e muito menos o Deus pessoal dos cristãos, o qual com toda a plenitude de suma autoridade suprema cria, modela e rege o homem e as sociedades: tal Deus para o racismo biológico não existe.
É tão somente uma grosseira mistificação que nasceu entre os desvarios de uma raça inferior, retrograda, parasita: a judaica.
O lugar deste deus destronado é ocupado pela cultura, elevada à categoria de supremo valor humano, cultura que é produto de uma raça privilegiada: a ariana. A raça, por sua vez, é de formação natural: vive e se desenvolve com a pujança incomprimível das exigências naturais que, fatalmente, logram sobrepor-se e dominar.
O ateísmo mais cortes e moderado se apresenta livre do contágio de erros tão grosseiros como o paganismo biológico de raça ou como o materialismo marxista. Mas também pretende construir todo sistema social e política fora da ideia e da existência divina. Não admite a doutrina que põe em Deus o fundamento última da vida humana individual e social, da moral e o direito, e de cuja vontade depende a razão de ser de todos os entes criados, aos quais se indica um fim supremo que devem alcançar. Ainda mais, a crença neste ser supremo se considera como um fenômeno histórico, e se tolera a sua presença e influxo na consciência individual, no lar familiar e na ordem privada.
Nos domínios da vida pública substitui-se o verdadeiro Deus por essa outra realidade que se chama Estado-nação: ser absoluto, razão suprema e fim último de toda a atividade humana, e fim último da moral e do direito. Como ser absoluto, é autônomo e sua vontade não sofre o frio de nenhuma lei externa.
A fundamentação teórica deste sistema leva na sua mesma variedade discrepante o selo de sua falsidade.
Uma vez posto o princípio agnóstico que desconhece o Ser supremo, é impossível impedir as consequências que tão de aparecer, com lógica inevitável, na formação e fisionomia social e no caráter e nos limites da autoridade. O caráter e o fim da sociedade o atestam.
A sociabilidade é ingênita ao indivíduo e, indiscutivelmente, lhe compete o direito de associação. A sociedade é feita para o homem e não o homem para sociedade. Conseguintemente a ação diretiva do Estado há de endereçar-se à defesa e à conservação dos direitos e das prerrogativas da pessoa humana e a incentivar e dirigir o livre desenvolvimento das suas faculdades, energias e iniciativas.
Essa é a causa pela qual o homem sai do seu isolamento pessoal e se acolhe aos consórcios sociais. E não contente com a união familiar, busca mais amplos e variados consórcios até chegar à união nacional. Mais ainda: cada dia desejo como factível e anseia com mais afinco a união humana e a colaboração internacional, à qual arrastam o homem sua inclinação e suas necessidades, e à com mais impulso o convidam as facilidades modernas de comunicação mútua e de intercâmbios.
Em resumo: o homem sente-se guiado por uma inclinação social que recebeu do seu Criador e sente-se também sob a disciplina duma autoridade superior que reja sua vida.
Mas, se prescindimos desta intervenção divina e de suas leis, que é a sociedade? Que é a autoridade? Que ideais, que sentimentos hão de regular as relações entre os homens e entre os povos?
O materialismo marxista afirma que a sociedade é filha, da luta e que com a luta se há de manter. A lei da raça, diz o racismo biológico, é que há de reger os conglomerados humanos. O Estado, único ser absoluto e fim substancial em si mesmo, é o que há de ditar as normas supremas da vida social. Eis aqui os três erros capitais a que o Sumo Pontífice alude; erros que transmudam ou invertem todos os valores humanos; deformam a sociedade e concedam à autoridade, despojada de todos os carácteres espirituais, atribuições ilimitadas.
Com efeito, a sociedade, segundo a ideologia marxista, forjou-se na luta e pelo predomínio injusto de uma classe sobre as outras. E por lei falta histórica contra a qual nada pode a vontade humana, há de ser também a luta, luta até ao extermínio, que há de melhorar essa sociedade, limpá-la-á desta injustiça, assentando-a sobre o domínio material da força, da ditadura do proletariado. Não terá outro fim que a manutenção desta ditadura, nem outra moral que o interesse do proletariado, a cujo serviço se põe toda a autoridade e força do Estado. Que limites, morais e jurídicos, podem conceber-se numa autoridade que nasce da força e que só nela se apoia e confia para conseguir seus fins?
Tão pouco as leis biológicas do sangue compreendem a associação livre de homens que, em igualdade de direitos substanciais, se reúnam para alcançar o bem comum de todos. O eixo do organismo nacional há de ser a raça cuja primitiva origem se pretende ignorar. A lei da raça exige a separação, visto que uma delas presume uma superioridade racial que lhe dá direito a exigir a melhor parte no mundo e a submissão e a rendição das demais raças e povos.
Tudo isto com a pujança e a inflexibilidade das leis biológicas. Nela tem suas raízes a autoridade que há de estar ao serviço das exigências da raça e informada pelo princípio aristocrático. Mas, não se trata da aristocracia da virtude, do talento, senão da aristocracia do sangue, à qual se supõem vinculadas as outras da virtude e do talento. E que princípio espiritual, moral ou jurídico, pode determinar e favorecer as exigências do sangue as quais são destinadas a reger antes grupos de irracionais do que seres inteligentes?
O mesmo seja dito do endeusamento que se atribui ao Estado-nação, prescindindo ainda dos erros grosseiros a que acabamos de referir-nos, porque para chegar a esse endeusamento é necessário deformar a sociedade. Conforme dizem os patrocinadores desta ideia, a sociedade não é uma associação voluntária de indivíduos para sua defesa, melhoria e progresso, senão um organismo que por si tem uma realidade objetiva e vivente com existência e leis próprias, entidade distinta e superior aos indivíduos que dela fazem parte.
Daí resulta que somente a sociedade, a nação, só o organismo nacional, tem personalidade substancial, enquanto que os indivíduos são elementos infinitesimais e transeuntes da nação, como os glóbulos arrastados pelas correntes sanguíneas ou as células que vivem justapostas no músculo. Assim é que aparece a nação como valor absoluto, entidade independente e superior ao indivíduo, como fins próprios em si mesmo; e o indivíduo fica rebaixado como valor relativo, meio e instrumento do Estado, ao qual há de star submetido em todas as suas atividades vitais.
Deficiente o fundamento das teorias expostas, suas consequências são funestas, perniciosas para a vida dos povos. Porque, se a autoridade para ter força moral, lança suas raízes no interesse material de uma classe ou nas leis biológicas de uma raça ou no endeusamento do Estado, então se torna uma torrente impetuosa sem barreiras nem margens que tudo arrasa na sua passagem.
O Estado que vive e age fora e por cima da ordem moral e jurídica, não reconhecendo limites, há de levar aos seus altares, para o sacrifício, todos os demais valores e interesses humanos. E nesse caso, não se poderá limitar a entronização de formas como o único critério de valor para dirimir as contendas naturais e dissenções humanas. Diz o Santo Padre Pio XII: "Não ignoramos, é verdade que, afortunadamente, nem sempre os princípios errados exercem absolutamente seu influxo, sobretudo, quando as tradições cristãs multisseculares de que se nutriam estes povos, se conservaram ainda (se bem que na subconsciência) profundamente arraigadas nos corações. Ainda assim não se deve esquecer a essencial insuficiente e a fragilidade de toda a norma de vida social que se apoie sobre fundamento exclusivamente humano, e faça consistir a sua força na sanção de autoridade meramente externa.
Quando se nega ao direito humano a dependência do direito divino, quando não se apela senão para uma ideia incerta de autoridade meramente terrena e se reivindica a uma autonomia fundada unicamente na moral utilitária, aí o mesmo direito humano perde, justamente em suas aplicações mais difíceis, a força moral que é condição essencial para ser reconhecido e exigir mesmo sacrifícios".
Assim é com efeito. As tradições cristãs multisseculares na crise aguda que atravessa a vida pública moderna em não poucos países, salvaram alguns, como a Portugal e detiveram outras na borda do precipício.
Portugal ao sacudir de com valentia as maléficas influencias do liberalismo anárquico e do absolutismo socialista, não incorreu nos vícios opostos que por outros caminhos também conduzem à divinização do Estado.
Onde as tradições cristãs são sortes e robustas, a transformação dos Estados resiste com mais facilidade ao triunfa das ideologias modernas. Onde a tradição cristã era muito fraca ou se extirpou, a sangue o fogo, como na Rússia, a violência do poder marxista não teve imites e não terá barreiras, a não ser que outra força maior se lhe venha opor. Em outros países que ainda vivem em relativa pujança, ideias neopagãs e tradições cristãs entrarem em luta. Praza a Deus que no choque de civilizações antagônicas a verdade e o bem triunfem sobre o erro e a maldade. Estas lutas, porém, contribuírem para a decadência da civilização.
CAPÍTULO XIII
Poder civilizador da Igreja
Seria erro afirmar que a Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, afim de promover, exclusivamente, a prosperidade temporal do gênero humano. Pois, ela tem sido fiel à palavra do divino Mestre: acima de tudo procurai o reino de Deus. Primeiro de tudo trabalhai para este fim, pela honra de Deus, pela felicidade das almas.
Em harmonia com este preceito olhou a Igreja sempre as coisas da terra nas suas relações com a eternidade: sub specie aeternitatis. Sem embarga disso, do manancial que por Cristo lhe foi panteado, deslizaram abundantes torrentes de benção sobre toda a vida externa, torrentes que inundaram de benefícios todas as relações e instituições terrenas. As novas ideias e verdades que Jesus Cristo trouxe à terra, suscitaram uma ordem de coisas mais elevada e sobrenatural e não podiam desenvolver toda a sua energia, sem que ao mesmo tempo, abrangessem e nobilitassem a ordem da natureza, imprimindo-lhe uma consagração sobrenatural.
Jesus Cristo assinalou a relação do cristianismo com o mundo em duas comparações. O reino dos céus é semelhante a uma pérola, pois qual um comerciante deu todos os seus haveres; e, também, é semelhante ao fermento que uma mulher toma e esconde em três medida de farinha, até que toda a massa se levede. Aquela comparação, a primeira, nos apresenta o reino de Deus na sua puríssima esfera religiosa como a única coisa necessária, à qual se deve sacrificar tudo; esta, a segunda, nos descreve o reino de Deus como ele penetra tudo e tudo enche com seu espirito.
A Igreja, trabalhando pelo reino do céu, exerceu e continua a exercer uma influência civilizadora como nenhuma outra instituição sobre a terra, tornando-se o princípio civilizador mais elevado, mais poderoso, mais duradouro e amplo do mundo renovado. E por isso pode-se afirmar que toda a civilização europeia é essencialmente cristã.
E não podia ser de outro modo, porque as grandes épocas da história do mundo não se classificam pela construção e destruição dos impérios, pelas imigrações dos povos ou pelas guerras e revoluções no meio das nações. Tudo isso é um complexo de fatos acidentais da história, exterior à mesma, que só parecem gigantescos e importantes aqueles que veem as coisas de longe e não as estudam profundamente.
A verdadeira história da humanidade é a história religião; as vias miraculosas pelas quais as diversas famílias do gênero humano se esforçam no sentido de alcançarem o seu fim, que consiste no conhecimento de Deus, no seu serviço pela ciência e pelo amor. É este o fundamento em que se assenta toda a história profana; é a luz, o espirito, a própria vida da história.
A Igreja Católica é o derradeiro, supremo e mais elevado grau da revelação de Deus no mundo, a religião completa e absoluta. Eis porque com uma energia até aí nunca pressentida, ela devia exaltar todas as virtudes, atividades e aspirações da humanidade, dando-lhe novas formas mais perfeitas que nem o mundo antigo conheceu, nem o mundo fora do cristianismo é capaz de oferecer ou criar.
A revelação cristã penetrou na vida e na história das nações sem entorpecer a razão humana, mas antes a exaltou e a transportou além da própria atividade para uma região inacessível às suas forças naturais.
A Igreja a que Cristo confiou o depósito da sua verdade, é a morada e a metrópole da mais alta inteligência; é nela que a ciência humana vai buscar orientações; para ela converge todo o conhecimento verdadeiro, todo o progresso da vida do espirito. E não há erro que se possa manter na presença da Igreja ser, ser refutado, embora por um momento ele consiga resplandecer com um clarão falaz. Destarte é a Igreja o princípio supremo da inteligência no mundo.
A revelação cristã manifestou ao homem o único objetivo digno dos seus votos, e por isso, deu à sua vontade um fim, à sua atividade um incentivo, regra e medida; propôs-lhe o ideal da perfeição moral e da sanidade, como nunca lograra qualquer religião antecedente, e nenhum sistema filosófico empreendera, e armou a assua fraqueza com a força do alto, quando ela estremecia na imensidade do assunto.
A Igreja, em que o espirito de Cristo vive sempre e a sua graça permanece, é a mestra e a guarda da moral para um mundo posterior a Jesus Cristo. E por esta maneira, quando as religiões idolatras nenhuma moral ensinavam as teorias filosóficas se mostravam impotentes, a Igreja fez renascer a Europa e renovou a face da terra.
Jesus Cristo, aparecendo no mundo para procurar os que se achavam transviados e torna-los felizes, reuniu em torno de si os fatigados e oprimidos, afim de aliviá-los. E assim sucedeu que uma torrente de bênçãos temporais dele se derramou sobre a terra. E pode-se repetir a palavra de Montesquieu: Coisa admirável, a religião cristã que não parece ter por missão senão a felicidade na outra vida; promove também a felicidade neste mundo.
E como toda a verdade e a vida dimanam da unidade, tendem para a unidade e criam a união, por isso apareceu Cristo para reunir o que se achavam disseminados, e tornar a ajuntar o que o erro e o pecado dilaceraram. Assim a sua Igreja em que se funda a unidade esta se fortalece, tornou-se a maior força social, que em toda a parte onde penetra na história, edifica e eleva a comunidade.
Por ser a religião o destino central do homem, envolve-o completamente, atravessa todas as suas forças e faculdades e as eleva a uma esfera superior de existência; e assim sucede identicamente na grande vida da humanidade. O processo da realização da vida religiosa nos indivíduos não se faz por saltos e em um momento; é sim, sucessivamente, e que esta luz e este calor penetra, como princípio vivificante, todas as camadas da vida íntima e todos os caminhos de sua atividade, dando-lhe forma e energia.
O mesmo sucede, em grande escala, na vida da humanidade. Esse progresso caminha por gruas sucessivos, e a história do gênero humano torna-se, por isso mesmo, a história do desenvolvimento e atividade das ideias e das forças que com a Igreja apareceram de novo sobre a terra.
As considerações precedentes nos ensinam as causas admiráveis do poder civilizador da Igreja Católica e nos apontam os seus estupendos resultados.
A Igreja Católica tem sempre propulsionado a verdadeira civilização. Quais são os esteios principais da civilização da humanidade? A ciência, a moral, a economia, a moralidade, a família, a paz, a observância do direito e da justiça. Ora, nenhuma instituição humana tanto fez e conseguiu em todos estes domínios como a Igreja Católica.
A história nos fala das escolas, colégios e universidades que a Igreja fundou e manteve. O ensino da moral privada e pública brilhantemente sintetizada nos dez mandamentos de Deus, a Igreja reina aos pequenos e aos grandes. As virtudes humanas e cristãs a Igreja, por toda a parte, as proclama e cultiva. A honestidade administrativa, o respeito às leis justas, o pagamento de impostos, tudo isto se cifra na observância dos mandamentos de Deus e dos ensinamentos da Igreja. As belas artes e letras entoam um hino de louvor à Igreja. Finalmente, toda a cultura e civilização do Brasil representam o resultado dos trabalhos e fadigas seculares da Igreja Católica.
Por isso, os adversários da Igreja são os inimigos da verdadeira civilização. Mas, não obstante todas as investidas da impiedade, a Igreja sempre tem colaborado no progresso e prosperidade do gênero humano. E o próprio Deus castiga os perseguidores da religião católica.
O imperador Nero, perseguidor cruel da Igreja, foi deposto e banido de Roma e na sua fuga ele ordenou que um escravo o matasse, exclamando: "Que artista desaparece comigo"! Julião Apostata morreu miseravelmente numa campanha contra os persas. Napoleão I expiou seus crimes contra o Papa e a Igreja na ilha de Santa Helena. Voltaire, o filósofo incrédulo, que pretendia por si só destruir a Igreja, morreu num acesso de raiva e desespero.
Sorte semelhante terão todos os inimigos de Deus e os perseguidores de sua religião. Todos os ímpios experimentaram e experimentarão a verdade desta sentença da Escritura: "É terrível cair nas mãos de Deus vivo".
O galicismo morreu para sempre; o josefinismo e o jansenismo desfizeram-se em pó no sepulcro dos tempos, e o regalismo resta apenas vestígios.
Surgiram novos inimigos. O laicismo e o naturalismo, o comunismo vermelho e o neopaganismo levantam-se contra a civilização cristã. Mas, nenhum desses poderes será capaz de destruir a influência civilizadora da Igreja.
Não negamos que Deus, nos seus imperscrutáveis desígnios, possa permitir, como tem permitido, que nações inteiras recaiam nas trevas do paganismo ou se atirem aos braços da apostasia, como se verifica com relação a vários países africanos e europeus.
Contudo, ninguém poderá afirmar que a Igreja tenha, por isso, perdido sua força civilizadora e sua vitalidade divina. Pois, outros povos e outras nações abrem, de par em par, suas portas às atividades salutares e ao influxo benfazejo do seu apostolado.
Os inimigos da Igreja não podem contestar-lhe a sua inegável influência, como ninguém ousará negar o esplendor do sol, a harmonia à música, a rapidez à eletricidade, a beleza à virtude, isto é: ninguém pode negar a evidencia dos fatos.
A civilização pode decair da altura do seu prestígio, mas o poder civilizador nunca será abatido. Podemos aqui citar um áureo trecho do ilustre Lord MaCaulay, notável historiador inglês:
"A história desta Igreja vai prender-se a duas grandes datas da civilização humana. Nenhuma outra instituição das existentes transporta o espírito aos tempos idos em que o fumo do sacrifício se elevava do Panteou e em que os leopardos e os tires saltavam no anfiteatro de Flávio.
"As casas reais mais orgulhosas da sua antiguidade não apenas de ontem, quando comparadas com a linhagem dos Sumos Pontífices. Essa linhagem podemos traça-la numa série não interrupta, desde o Papa que coroou a Napoleão no século XIX até ao Papa que coroou a Penino no VIII, estende-se tão augusta dinastia muito além do tempo de Pepino até ir perder-se no crepúsculo da fábula.
"A república de Veneza segue-se-lhes em antiguidade. Mas a república de Veneza era moderna, quando comparada com o papado; e a república de Veneza já despareceu e o Papado ainda subsiste. E o Papado ainda subiste, no tai bem, não em decadência, como um mero monumento antigo, mas cheio de vida e de vigor juvenil.
"A Igreja Católica ainda continua a enviar para os confins mais remotos do mundo missionários tão zelosos como aqueles que desembarcaram em Kent com Agostinho, e ainda afronta reis hostis com o mesmo valor com que afrontou a Atila.
"O número dos seus filhos é maior do que em qualquer época mais antiga. A sua aquisição com o Novo Mundo tem mais que compensado o que ela perdeu no Velho. O seu predomínio espiritual estende-se sobre as vastas regiões que jazem entre as planícies do Missouri e o Cabo Horn; regiões que, daqui a um século, podem com todo a probabilidade conter uma população tão grande como a que atualmente habita a Europa.
"Nenhum sinal aparece por onde se posta presumir que esteja próximo o termo do longo domínio da igreja. Ela viu o começo de todos os governos e de todas as confissões religiosas que tem existido até hoje, e não ousaríamos afirmar que ela não esteja destinada para lhes ver o fim.
"Já era grande e respeitada antes que o saxônio houvesse pisado a Bretanha, antes que o franco houvesse passado o Reno, quando a eloquência grega ainda florescia em Antioquia, quando os ídolos ainda eram adorados no templo de Meca.
"E ainda pode existir em seu inteiro vigor, quando algum viajante da Nova Zelândia, no meio de uma vasta solidão, se detiver, algum dia, num arco quebrado da ponte de Londres para daí esboçar as ruinas da Catedral de São Paulo".
CAPÍTULO XIV
A tarefa da Igreja depois da guerra
Na reconstrução moral e religiosa, a Igreja há de desempenhar uma missão nobre e divina depois da guerra, que conflagra a Europa e se estende a todo o mundo. Ela exercerá sua missão civilizadora de todos os tempos.
Sempre tem existido relações entre a civilização e a religião dos povos. A religião oficial da antiguidade pagã estava tão corroída e desnatura que ficou submersa e naufragada na civilização. Havia perdido sua individualidade, sua existência própria, a atividade exclusiva e especifica. Pois, em tudo era assimilada pelo Estado, com o qual mais que uma simbiose, formava uma única vida. A religião tornou-se assim, não um simples elemento auxiliar, mas uma identificação deste ou daquele grupo social pelo qual estava absorvida.
Com o cristianismo, a religião e a civilização assume existência e funções bem declaradas e definidas. Não obstante serem a Igreja e a civilização bem distintas entre si, não são, contudo, desunidas e estranhas uma à outra. É verdade que pseudosociologia pretendeu estabelecer uma impossibilidade intrínseca no sentido de ser a inspiração religiosa, incapaz de gerar e promover o progresso civil. Isto, porém, é refutado pela própria história, pois "onde e quando refulge firme e serena a ideia divina, lá e então as cidades surgem e florescem; onde e quando ela vacila e se obscurece, lá e então as cidades decaem e se destroem".
Ao longo do curso dos milênios, se sucedem e se cruzam, em mistura, os mais disparatados acontecimentos, erupções de nômadas, migrações de povos, estragos de guerra, desenvolvimentos políticos, cataclismos sociais, crises econômicas, esplendores e quedas de impérios: tudo isto é o aspecto policromo do aparato da história. Mas, o eixo, o fulcro, em torno do qual a história gira, é sem dúvida de caráter religioso. Para isto, inteligência superiores como a de Agostinho, Bossuet e outros construíram as provas necessárias. De fato, o elemento religioso reside sempre no fundo dos grandes problemas e "se o homem se agita, Deus o conduz", o que já em outro lugar dissemos.
O mais conspícuo patrimônio de princípios morais e jurídicos, a difusão dos ensinamentos altruísticos, o florescimento dos institutos de caridade, o impulso perene em favor das mais altas manifestações da vida, a criação de um novo humanismo: são plantas nascidas ao pé da cruz.
Os Sumos Pontífices recordam, muitas vezes, esta função civilizadora da Igreja. "Os numerosíssimos bens, proclama Leão XIII, que se derivam do ministério e do benéfico influxo da Igreja, lhe dão o direito de gloriar-se como promotora, mãe e mestra da civilização". "A Igreja, escreve Pio XI, no desempenho de sua missão, enquanto tem em vista a felicidade eterna do homem, trabalha inseparavelmente também em favor da felicidade temporal". E não menos categórico é o Sumo Pontífice Pio XII gloriosamente reinante: "A Igreja é a mãe do mais alto progresso intelectual e moral da vida civil". E na sua Encíclica "Summi Pontificatus" afirma: "A sua maravilhosa doutrina de amor e de paz tem contribuído para o progresso civil e religioso da humanidade".
Necessário e oportuno se torna invocar e ilustrar estes ensinamentos pontifícios nesta hora sobretudo, em que o mundo é assoberbado de fulminantes transformações, nesta hora em que abundam e pululam os ingênuos arquitetos de uma nova civilização. Ingênuos porque creem que podem despedir o cristianismo e nos falam de progresso, quando retrocedem, de ele elevação quando se degradam; de acesso à maturidade, quando caem na selvageria, como já foi dito nestas páginas".
A Igreja recolhe todas as suas forças, todos os elementos de sua poderosa estrutura; dogma, ética, liturgia, atividade espiritualizada a em torno da sentença evangélica: "Pois, uma coisa é necessária". Não deve, portanto, a Igreja estar indiferente em face das coisas terrenas por serem passageiras e de nenhum valor segundo a palavra do sábio "vaidade das vaidades e tudo é vaidade".
O cristianismo, lemos no "Contrato Social" de Rousseau, é uma religião de todo espiritual, ocupada unicamente em coisas do céu. A pátria para o cristão não é deste mundo. Ele cumpre seu dever, é verdade, mas com profunda indiferença, em torno do coesos de seus esforços. Porque, não havendo nada de reprovar, pouco se lhe importa se tudo vai bem ou mal cá em baixo.
E mais recentemente um escritor declarava, com grande desenvoltura, que o catolicismo é na Europa um fator de estagnação pela rigidez dos seus princípios.
Estas acusações tanto ofendem a razão como a história. Elas se fundam em noções inexatas da civilização e da Igreja. É preciso responder-lhes que a finalidade do cristianismo e o aperfeiçoamento social tem um vínculo indissolúvel de correlação e interdependência, como de meio ao fim.
O cristianismo desempenha, necessariamente, uma função moralizadora, por isto é benemérito da civilização.
A civilização é um produto coletivo muito complexo. Ela pode ter uma significação estática, isto é, pode indicar a fisionomia assumida pela sociedade, sob a influência multiforme da ciência, das artes, da técnica, da economia, da ética, do direito, da política: de todo o conjunto das forças que operam no campo social.
Sob um e outro aspecto a Igreja nos aparece como propulsora a mais vigorosa e fecunda da civilização. Basta examinarmos o lado filosófico. A civilização é o resultado integral da ação de fatores multíplices. A ciência, por exemplo, cria e aperfeiçoa a técnica, daí o progresso da indústria espalha em profusão o livro. Daí a extensão e elevação da instrução. A agricultura cria a propriedade territorial e esta por sua vez, funda a aldeia, a comuna e a classe rural.
Sociólogos há que discutem sobre o fator decisivo ou sobreo que mais do que os outros exerce o seu influxo sobre maior número dos elementos do desenvolvimento cívico. Para alguns o fator mais representativo seria o político, para outros o biológico e demográfico, para outros o artístico, para outros o étnico ou racial. Para o marxismo, como é sabido, o fator econômico tem o primado absoluto sobre os outros.
Para quem não está preso ao materialismo, a força que condiciona e vivifica ao menos os principais fatores da vida civil, é aquela que provém da norma ética, da disciplina interior da consciência moral. "Somente os espíritos pervertidos e obcecados, diz Santo Agostinho, podem crer que a humanidade consegue o mais feliz desenvolvimento se brilham os tetos dos edifícios e se constroem grandiosos teatros, enquanto se deixa curso livre à corrupção dos ânimos e se abatem as bases da virtude".
O fermento moral equilibra e corrige os fatores materiais da civilização que em definitiva se subordinam ao interesse, o qual, se bem que seja um auxílio poderoso para a ascensão da vida econômica, facilmente se transforma em força dissociativa sem o corretivo da ética.
Sem dúvida, uma sociedade que tudo canaliza e direi todas as suas aspirações para a conquista dos valores materiais e não cuida dos valores morais, poderá por algum tempo, deslumbrar e seduzir com seus sucessos sobre as forças cósmicas e com seu domínio sobre os agregados de cultura inferior; mas nutre no seio o germe destruidor, e, assim, a sua marcha triunfal se transforma em uma mancha aos braços da morte.
O incentivo utilitário ou interesse privado do leme moral, aonde chega? "O interesse, responde Taparelli, busca bens úteis, mas limitados; os bens limitados não podem comunicar-se indefinidamente: por isso, quem os ama, os quer só para si: daí é que o interesse produz egoísmo. Portanto, uma sociedade que venha subordinar-se ao interesse, será presa do egoísmo.
Outrossim, quando a paixão do útil reúne suas tendências e acumula a riqueza, desenfreia ela outras forças dissolventes como o orgulho, a moleza, a luxúria, a avareza com todo o séquito das outras desordens que acompanham o egoísmo.
A razão utilitária ataca todas as instituições e o que há de mais sagrado, perde todo o valor. As tradições nacionais se enfraquecem, a lealdade e o patriotismo são suprimidos pelas aspirações particulares; um grande império se transforma numa poderosa empresa de negócios; a dedicação heroica dos defensores da pátria, sobretudo quando não gozam de nenhuma vantagem visível, é considerada uma loucura: em breve nenhum compromisso pode compor as dissenções civis e a civilização material termina com o suicídio.
Também a atividade intelectual, na sua forma mais elevada, qual é a cientifica, quando não é acompanhada do progresso moral, conduz à narcose da civilização. Fora de qualquer cultura moral, o estudo e o desenvolvimento das ciências como das letras e das artes, servem, em boa parte, para aumentar a febre de novas satisfações, para multiplicar as novas necessidades, para armar o orgulho dos povos de enormes instrumentos de destruição ou de morte, para servir às paixões mais indisciplinadas e perniciosas.
E então se verá uma ciência fisiológica que cria e desenvolve a técnica malthusiana, uma ciência jurídica que justifica o despotismo e a tirania, uma ciência história que é uma conjuração contra a verdade, uma ciência química que prepara as gazes asfixiantes, uma produção literária e artística que, vazia de grande s ideais humanos, cultiva as flores do mal, se prostitui aos ídolos do dia, serve então ao acirramento dos ódios e das rivalidades entre as nações.
A ciência é, certamente, autônoma nos seus princípios, mas num quadro social em que não se atribui à moral valor algum sob o acicate do orgulho e da ambição, cai facilmente no cientíssimo que restringe e mutila o seu campo de indagação, desconhecendo e rejeitando os grandes princípios que sustenta o direito, o dever e as virtudes sociais.
Por isso, uma civilização que pretendesse organizar-se sobre princípios exclusivamente científicos, seria uma quimera irrealizável; tudo poderia permitir-se como faz o bolchevismo, o aborto monstruoso e a grotesca paródia de uma civilização que deveria chamar-se zoológica, já que não nos apresenta uma sociedade de homens, mas um rebanho enfraquecido, dominado por um tirano odioso e pelo califa adestrado dos seus fiéis e vorazes mastins, como disse Maurício Blondel.
Se o postulado moral é condição essencial, para que as grandes forças da civilização desempenhem a sua função construtiva, então a Igreja só por isso que educa os ânimos na virtude, e tutela e realiza a moral mais razoável e elevada, que jamais a humanidade teve, é incomparavelmente a instituição mais benemérita da civilização humana.
O que aparece em toda a sua evidencia é ser bem grande a eficácia formadora e moralizadora da Igreja, quer se indague a base teórica do seu sistema ético, quer se observe o conjunto dos meios que ela emprega na sua ação, ou se considerem os desenvolvimentos e atuações que necessariamente provém de sua atividade.
Os princípios dogmáticos ou teóricos sobre os quais a Igreja funda a sua moral, como a criação do homem, a queda original, a redenção, a liberdade, a imortalidade, o destino eterno, tudo isto constitui um sólido organismo doutrinal em que o progresso também civil encontra a sua justificação e o seu princípio vital.
Na concepção do fato da antiguidade como na concepção panteística, que, disfarçada em várias formas se encontra em tantas épocas: a vida do homem, a história das gerações, as sucessões do tempo, despidas de todo o valor moral, são mecanismos automáticos, manobrados por uma lei, ou seja, por uma força impessoal, cega, surda, inconsciente; inelutável.
Dessa maneira, o progresso, que é a alma da civilização, tornar-se-ia um contrassenso; já que a vida e a história se resolvem numa sucessão não muito dissemelhante da série das equações e das fórmulas requeridas para a demonstração de um teorema; ou então se resolve no giro sempre idêntico de um astro ou na evolução de uma planta que percorre sempre as mesmas fases evolutivas, que se iniciam com o germe e terminam nele.
Os supremos postulados do ensinamento cristão, verdadeiros motores imóveis, fazem da história não um periódico giro mecânico ou biológico, um movimento circular em que a liberdade se anula na espontaneidade, mas um drama grandioso em que se agitam as atividades humanas, drama em que a vida consciente e livre tende a transformar-se em uma vida superior e eterna.
O progresso tem um sentido e um valor real, porque há um termo superior de referência, um ideal esplendente que se deve conseguir. Para o cristão a vida vale a pena de ser vivida, o tempo para ele não é vácuo; a cada momento ele se impregna de valores eternos.
A doutrina católica rejeitando, de um lado, o narcótico do fatalismo e o antessentis da moral pessimista, proclamando, do outro, a ideia eminentemente propulsora da perfectibilidade humana, lançou no mundo um fermento de renovação perene e de ilimitada ascensão moral e religiosa.
Com este progresso abre-se a porta de todas as outras formas de progredimentos. "Do dia em que o homem tomou consciência da sua vocação, e se encaminhou pela senda que leva a Deus, ele se lembrou que podia tudo desejar e tudo causar, visto que se trata de lançar-se ao infinito que jamais será alcançado. O que importava era estabelecer a meta da atividade humana. Uma vez lançada nesta estrada, o homem não haveria mais de parar. A busca do bem fará os santos, a busca da verdade criará os pensadores, a busca do belo formará os artistas. E aqueles mesmo que terão feito descer o seu ideal do céu sobre a terra, não farão parte menor da linhagem autentica dos primeiros sequazes da perfeição e do progresso divino".
Mas, a Igreja não possui, somente, um arsenal de ideias que justificam e promovem o progresso; o que é mais, ela dispõe de um conjunto de meios que decidem o sucesso de sua vocação moral e espiritual. A antiga como as modernas escolas filosóficas não soa de todo desprovidas de uma qualquer parcela de verdade. Algumas tem um teor racional e cristão, mas aqueles princípios permanecerem capitais infrutíferos; não passaram a soleira da escola, nem os restritos cenáculos de uma aristocracia intelectual.
A Igreja tem sabido por em vasta circulação as suas doutrinas; tê-las de descer e penetrar em todas as camadas da sociedade, restaurando e reavivando as consciências indivisas e as instas instituições. Para conseguir esses resultados concretos, não desprezou os argumentos humanos. Mas, o triunfo definitivo se deve à eficácia dos poderes sobrenaturais que lhe forma conferidos pelo seu Fundador. Nos sacramentos ela possui um potencial divino que nenhuma outra instituição lhe poderá disputar.
Na economia atual da Providencia, somente com as energias da natureza, sem a cooperação do fator sobrenatural, os povos como os indivíduos não podem, nem no próprio plano temporal, conquistar o seu verdadeiro bem. Indubitavelmente, a natureza, não tendo sido destruída pela culpa original, mas simplesmente enfraquecida, pode, também sem o auxílio da Igreja, obter notáveis resultados, mas não pode, plenamente, subtrair-se á dispersão e à passividade das tendências viciosas.
Por isso, Pio X, reprovou a pretensão do Sillon de restaurar a sociedade, prescindindo da ação da igreja. O Papa escreveu que a reforma da civilização é obra eminentemente religiosa; "porque é impossível uma verdadeira civilização sem a civilização moral, como não é possível a verdadeira civilização moral sem a verdadeira religião".
Armado dos supremos princípios filosóficos, que não se mantém num teria intelectualismo, mas, impelem a vontade a ação, e ricos sobretudo de exuberâncias sobrenaturais, o cristianismo devia, no terreno concreto das atuações práticas, dar-nos provas inconcussas da sua prodigiosa fecundidade moral.
O fator elementar a que se chega, decompondo o complexo das forças civilizadoras, fonte originaria onde elas nascem, é o indivíduo. O desenvolvimento civil não é senão a perfeição da sociedade. Esta deve reforma-se pela perfeição dos sócios.
Certamente, à medida que a sociedade se forma e progride, exerce sua influência sobre os próprios indivíduos; mas estas influencias não aprovam, de fato, o sociologismo que faz do indivíduo o produto exclusivo da sociedade. Um simples pensamento não compreenderá jamais a civilização, como não se compreenderá o organismo vital sem recurso às células.
A célula do organismo social é o indivíduo. Sem regeneração do indivíduo, qualquer pretendida regeneração da sociedade é fundada sobre nuvens. Ela se limita a desencadear instintos egoísticos de domínio, sempre fará obra contrária à civilização social, também se, momentaneamente, se alardeiam grandes cenas com os mais brilhantes sucessos e com as mais estrepitosas conquistas.
A Igreja é, justamente, uma das maiores forças da civilização, porque reformou o elemento primordial da sociedade: o indivíduo.
A sua criação primária e fundamental é a do homem revelado a si próprio, consciente de sua liberdade construtor de seu eterno destino. "Roma, escreve ozonam, manteve com suas legiões as terras conquistadas, não com seus destinos ultramontanos. Certamente, ela disciplinava os bárbaros e já era muito;; os instruía e isto era coisa maior; mas jamais pensou em converte-los. E como o teria feito, quando converter significava dar à consciência purificada o governo das paixões, e quando o paganismo romano algemava as consciências ao pé das paixões divinizadas? O cristianismo ao contrário não buscava a posse do século e a sujeição forçada dos povos; pretendia o império das inteligências e das vontades".
Quando o sol do Evangelho apareceu nos horizontes da humanidade, um qualquer Diógenes não teria podido, com sua lanterna, descobrir o homem em algum canto da vida. Não entre os trabalhadores que eram escravos, não entre os prisioneiros que deviam ser assassinados ou vendidos, não entre os súditos que eram propriedade do Estado, não entre os estrangeiros que não tinham direito algum, não entre as senhoras que eram o passatempo do sexo mais forte.
O cristianismo não podia encontrar homens perfeitos, mas logo criou exércitos de santos. Pompeu se tinha vangloriado que aonde quer que pusesse o pé, lá teriam surgido soldados, em defesa de sua causa contra César. O que era uma vanglória ridícula para o orgulhoso general de Roma, foi uma realidade histórica para o mensageiro cristão; onde ele pôs o pé, ali se levantaram falanges de corajosos soldados para defender a causa, não de um qualquer aventureis ambicioso e efêmero, não a causa deste ou daquele homem, mas a causas do homem; ou seja a causa da pessoa, da liberdade, da consciência que é, sim, a causa do homem, mas também a causa do próprio Deus.
Os arquitetos e os apóstolos da reconstrução social, como no passado, também hoje se fadigam e se esforçam, o mais possível para restabelecer a sanidade e o equilíbrio à sociedade que estremece nos seus fundamentos e ameaça desagregar-se sob o peso dos seus progressos e dos seus egoísmos. Para tal escopo focam, sobretudo, as mais radicais reformas. Institutos, escolas, códigos, renovações políticas, regimes econômicos, organizações de toda a sorte; todas as peças, grandes e pequenas, da imensa máquina social são postas ao exame sapiente da revisão e da reorganização, ou da pura e simples destruição.
Tudo isto responde, em parte ao menos, a exigências reais que somente um estreito misoneísmo poderia desconhecer. Mas, em todo este atropelamento se intromete, muitas vezes, um vício de origem, que prejudica e anula qualquer louvável esforço. Atende-se, assim, aos fenômenos exteriores, sem pensar no elemento íntimo e fundamental de todo o agrupamento humano, que é o indivíduo.
A Igreja seguiu um sistema inverso, não iniciou sua atividade restauradora pelo trabalho direto ou indireto da sociedade, não impôs a Roma um sistema político, não afrontou, sem mais, o regime social da escravatura, não propugnou a descentralização territorial: porém dirigiu-se à consciência dos particulares; reformou, a fundo, o homem interior, dando-lhe uma autonomia que o tornava membro consciência e livre, emancipando-o da condição de instrumento passivo que ele era na mão da antiga sociedade.
A organização social de que tantos, algum tempo, se orgulhavam e que hoje dilapidam loucamente, a civilização cristã, que levantou bem alto a bandeira dali liberdade e da fraternidade; a civilização que não se fossilizava como a chinesa; que não tolera as castas como fez a índia, que não se curva ao despotismo como acontece na Ásia; a civilização que não admite ser a mãe de escravos, enquanto exalta o trabalho do operário; esta civilização em que predomina a espiritualidade e o dinamismo, tem sua gênese na formação cristã da consciência.
Ao homem totalmente absorvido pela férrea e onipotente majestade do Estado, assinou à Igreja um ideal que ultrapassa a sociedade a pátria, onde sabucam os direitos para o indivíduo e uma esfera de ação fora de toda a ingerência da autoridade social.
Para defender esta conquista cristã foi preciso o tributo do sangue. A Igreja não se esquivou a este heroico dever. A primeira estupenda aparição do homem novo, do homem regenerado, se chamam homem mártir.
Uma vez terminada a guerra atroz, a Igreja, impelida pelo amor ás almas imorais e pela felicidade das nações contribuirá, com seus esforços e trabalhos, para a reconstrução da ordem internacional e tranquilidade dos povos.
Deus mostrará ao profeta Ezequiel um vasto campo coberto de ossos humanos. Por uma ordem divina, o profeta mandou que aqueles ossos secos seu nissem e tomasse forma humana e tivessem nova vida. E ouviu-se um estranho ruído. Os ossos se unira, cobriam-se de nervos, tendões, carne e pele. Entrou uma alma em cada corpo reconstruído. Todos os corpos se levantaram e recomeçaram a viver. Era um imenso número.
Deus continuou dizendo: Eu concertarei com eles a paz e meu pacto será perene; eu os estabelecerei sobre um fundamento firme. E as nações saberão que eu sou o Senhor. Assim a Sagrada Escritura.
Depois da guerra, terá a humanidade uma visão semelhante. E A Igreja, em nome de Deus, proferirá palavras de vida, de ressureição, e de paz. Ouvir-se-á, então pelo mundo, a palavra de Deus: saibam as nações que eu sou o Senhor.
CAPÍTULO XV
Necessidade de cultura católica
É quase regra geral que os intelectuais ou homens de letras, fora os sacerdotes, não adquirem uma cultura religiosa, proporcionada ao seu saber profissional. Há pessoas normalmente cultas em outras disciplinas, mas ignorantes em matéria de religião. Para o devido conhecimento religioso não basta e até é muito prejudicial, a leitura de livros tendenciosos, sofísticos e declaradamente anticristãos. Para quem não tenha sua fé bem consolidada, a leitura de tais livros, sejam romances ou tratados filosóficos, debilitam os sentimentos religiosos, causam confusão de ideias e estragam as convicções cristãs.
Pode-se estabelecer a seguinte norma em matéria de fé: antes de adquirir uma sólida formação científico-religiosa, não se deve ler nem ouvir nada que, com aparato de ciência, ataque os dogmas da fé cristã. Este conselho não se opõe à dignidade pessoal. Ao contrário! Precisamente se dá para evitar o engano que é a humilhação especifica da inteligência e, de ordinário, inevitável, quando um ingênuo ou ignorante começa a dialogar com um sábio sofista. O fraco e inerme sempre será vencido pelo gigante armado. Quando o crente se tenha procurado para si conhecimentos adequados dos dogmas e dos seus fundamentos cinéticos e históricos, poderá apreciar, me seu justo valor, as objeções e as dificuldades que se lhe fazem, e então, comas devidas cautelas, o trato com as ideologias adversas, talvez lhe seja útil para maior firmeza de suas convicções.
Realmente, esta prescrição é razoável, não só para um católico, mas também para adeptos de outras confissões religiosas. Pois, seria imprudente e irrazoável expor-se e deixar a religião professada, sem previamente procurar conhece-la, o que é necessário para julgar das razões alegadas contra ela. E a este perigo se expõe aquele que, sem havê-la estudado como é preciso, se constitui alvo de influencias adversas.
Tratando-se da religião católica, a desordem é mais lamentável, porque sendo a única verdadeira, somente se lhe podem opor razões capciosas e falsas, e é dobrada lástimas que almas desprovidas de capacidade e de juízo crítico para avalia-las por falta de cultura religiosa, se deixem seduzir por elas como se fossem demonstrações irrefutáveis.
As convicções teológicas não são mais acessíveis à duvida do que outras verdades, como por exemplo, os problemas de matemática. Ao proibir a Igreja a leitura de certos livros, cujo estudo permite e recomenda em determinadas circunstâncias a homens de comprovada virtude e doutrina, como professores, escritores, confessores, etc., aplica, simplesmente, princípios de higiene mental.
Os que não creem, mas desejos de averiguar se o catolicismo é a religião verdadeira, deverão, primeiramente, procurar a devida instrução nas fontes católicas, mestres e escritos, e não buscar conhecimentos religiosos em escritores acatólicos ou anticatólicos. Pois, é natural que estes ao propor as verdades da religião católica, as desfiguram e as transformam com aparências de objetividade numa ficção errônea e não admissível.
Somente quando tenham ouvido e visto o autêntico catolicismo nos ensinamentos e na vida dos que o conhecem e professam, lhes poderá ser útil tomar em consideração as objeções que outras confissões religiosas, a filosofia e a presciência, lhe costumam fazer.
O católico culto deve ampliar os conhecimentos de usa fé, não somente para entende-la melhor e viver segundo as suas diretivas, mas ainda para conservá-la intacta. Num ambiente de elevado nível cultural, a fé não poderá evitar os ataques da falsa ciência, e fica exposta grandes perigos, se não corre em seu auxílio a ciência verdadeira. Ainda sem contar as malignas sugestões de livros, periódicos e de toda a propaganda externa mais ou menos adversa, os próprios conhecimentos profanos, quando não acompanhados de uma conveniente cultura religiosa, subministram ocasião a certa ingênita cavilosidade e espirito de dúvida para reagir em face dos mistérios dogmáticos, criando espontaneamente capelosas antinomias, que inquietam e põem em perigo a fé, e, às vezes, lhe dão a morte.
Em tais circunstâncias é indispensável a defesa eficaz da ciência sagrada. Esta deve versar, como é claro, sobre o teor dogmático e moral da religião católica; mas, de modo especial, sobre o caráter messiânico e divindade de Jesus Cristo, bem como sobre a origem divina, a suprema autoridade e infalibilidade da Igreja.
O conhecimento de determinadas particularidades e a faculdade de resolver certas objeções só é possível a especialistas, sejam eles teólogos ou filósofos, escrituristas ou historiadores. Os demais não têm tempo nem possibilidade para tanto. Nem estritamente o necessitam. Porque, persuadidos de que Cristo é Deus, eles consideram por isso mesmo, verdadeira a sua doutrina, santos os seus preceitos, garantidas as suas promessas. Estão convencidos de que a Igreja é a instituição fundada por Cristo, para continuar sua obra de santificar e governar o mundo, com suprema jurisdição e perene infalibilidade: estão certos também de que é erro e tática, ainda que alguns católicos não possuam a ciência necessária para mostrar a falsidade intrínseca de tal ou qual dificuldade apresentada
Sem esta profunda e, nos homens cultos, científica persuasão da credibilidade da fé ou de que Cristo e a Igreja merecem inteiro crédito, é praticamente impossível que o ato de fé seja racional e, geralmente, nem racional nem irracional, porque a fé se perderá.
Quem, todavia não crê, facilmente compreenderá a gravíssima obrigação de inquirir, com seriedade, se a religião católica é aquela em que Deus se compraz e, portanto, os seus fundamentos razoáveis. Descuidar livremente esta inquisição, seria reprovável e indigno de uma criatura racional, visto que preferiria a indiferença à certeza e se exporia ao perigo de ofender a Deus.
Ainda que se tenha de procurar a justificação cientifica dos fundamentos da fé cristã: que Deus existe e falou ao homem por Jesus Cristo e que a Igreja nos transmite, autenticamente, esta revelação, o mero estudo não é suficiente para inspirar a fé nem para conserva-la.
A fé sobrenatural é um dom de Deus, um dom que ele outorga indiscutivelmente, enquanto é necessário, a todo aquele que não opõe impedimento; porém é dom que não por de ser obtido unicamente por diligencias humanas: "Ninguém pode vir a mim (crer em mim), disse Cristo, se o Pai que me enviou, o não atrair..., Mas, entre vós há muitos que não creem... Por esta causa, eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for dado por meu Pai".
Não já o próprio ato de crer, mas nem mesmo o piedoso desejo de crer, pode ser obra das potencias naturais sem o auxílio da graça. Assim o definido, muitas vezes, os concílios, apoiando-se na tradição eclesiástica e na Sagrada Escritura. A mesma firme convicção da existência da revelação e credibilidade da doutrina católica, condição indispensável da fé, se bem que de si se possa adquirir por meio de raciocínio natural filosófico-histórico, - de fato não de implicará sem auxílios sobrenaturais, e, por qualquer via que se detenha, nunca será tal que necessariamente induzam ao sentimento e aceitação das verdades reveladas, nem ainda no caso de ser o resultado lógico de uma investigação científica. Porque a fé é fisicamente livre ainda que não moralmente.
Demais, à graça e, conseguintemente, à fé se podem opor, e, de fato, se opõe impedimento o que a experiência prova. Pois, muitos, apesar de instruídos devidamente, não creem. Exemplos notáveis oferecem os escribas e fariseus diante dos quais Jesus Cristo pregou e declarou ser o Messias e o Filho de Deus, legitimando-se com sabedoria sobre-humana, santidade sublime, milagres, claramente obras do mesmo Deus, e sobretudo com sua portentosa ressureição.
Apesar de tudo isso, não creram nele. O mesmo Cristo, expressamente, ensinou que a desordenada conduta mora pode ser obstáculo para fé: "Como podeis vós crer, que recebeis a glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem somente de Deus"?
Seja, pois, outra prescrição salutar: não fechar os olhos à iluminação divina por meio de uma conduta imoral e, particularmente, pela falta de retidão, pela deslealdade consigo mesmo e pela rebelião contra os ditames da consciência. Odos os que não creem ou padecem graves inquietações em matéria de ´fé, deveriam p perguntar-se, se tem observado ou observam tão importante preceito. Além disto deveriam considerar que, assim como a perda previa da integridade moral precede à perda da fé no competentemente instruído, assim a causa de não chegar a professara-la nunca, apesar de ser conveniente proposta e também conhecida, é a rebeldia do coração.
Os hipercríticos, os filosofantes devem persuadir-se de que a imensa maioria das verdades de suma importância e mais aceitas, como são as de ordem histórica, social, moral, religiosa e metafísica, são refratárias à evidencia geométrica não se podem medir, pesar, ver e apalpar. A existência e a obra de muitas personagens autenticas e reais não se poderiam provar com esta perspicuidade. Sem embargo não deixam de ser alguma coisa objetiva que quanto aos traços substanciais, ninguém, se não é um nescio, pode pôr em dúvida.
Na investigação dos delitos, na eleição de consorte ou de profissão, na gestão de negócios: não se aspira jamais à evidencia de protótipo matemático ou de mediata experiência, senão a outras sui generis de que tais objetos são suscetíveis, e que, com razão, se julgam suficientes para determinar as mais graves resoluções e ainda os maiores sacrifícios.
A existência e a personalidade divina de Cristo, sua obra, morte redentora e ressurreição, a fundação da Igreja e a plenitude dos seus poderes na ordem religioso-moral, são realidades certíssimas, que, porém, como tantas outras, não podem ser traduzidas em equações nem figuras geométricas ou em números.
A inferência da conclusão, por exemplo, da divindade de Cristo e o caráter divino da Igreja, como razão suficiente de certos fatos indubitáveis e única explicação de testemunhos históricos autênticos é o esquema ordinário e comum destas demonstrações. É esse o método usado, a toda essas horas, nas ciências históricas e no decurso da vida social, onde não tanto intervém explicitamente o princípio de contradição e a dedução analítica, como o da razão suficiente a síntese.
Mas, as conclusões assim tiradas são em certos casos tão dignas de assentimento como as operações matemáticas. Rechaça-las é uma inépcia e, às vezes, um crime. Como a contenda do filho que, por não ter provas evidentes, sobre a genuinidade de seus pais, os abandona; ou do juiz que pela mesma razão absolvesse um réu, convencido, não obstante pelas provas mais irrefutáveis do gênero; ou do antigo que rompesse as suas relações com outro amigo, porque não lhe desse explicações como três mais dois são cinco.
Não obstante, é fato que a má vontade interessada em certas verdades de origem religiosa, moral, histórica, pode imperar sobre o dissentimento ou a dúvida também depois de evidenciá-las plenamente, como aconteceu com os fariseus com referência à messianidade de Cristo. O mesmo acontece, cada dia, com as pessoas que pospõem a incolumidade de interesses criados pelas suas paixões à aceitação da verdade objetiva com suas consequências. Não pode em vez predominar uma sincera negação dos princípios elementares da razão e suas imediatas aplicações.
Este fato se explica pela diferente luz com que as verdades de uma e outra ordem se manifestam. Mas, é de espíritos já desequilibrados, já perversos aceitar como único sinal da verdade e a perspicuidade, sui gêneros, dos fenômenos experimentais e das ciências exatas.
A fé cristã não se solidarizou com nenhuma filosofia em todas as suas partes. Desde logo existem algumas que católico, de que são errôneas. A escolástica ou neoescolástica não se lhe opõe em seu conjunto, e em determinadas particularidades, a justifica diante da razão. Mas, em todo o caso seria um grave erro de quem pretendesse fundamentar suas crenças, na consideração de ser o primeiro passo para o efeito de crer, o estudo profundo dessa filosofa na sua totalidade orgânica.
Conforme já dissemos, a convicção que Deus falou por Jesus Cristo e de que Cristo fundou a Igreja para ensino, governo espiritual e salvação do mundo, é a pedra angular onde descansa a racionalidade da nossa fé. E essa convicção pode obter-se com o exercício da pré-filosofia ou primeiros princípios da razão – admitidos por todos os homens sensatos anteriores a toda a investigação filosófica -, e com a sabedoria elementar, que, à luz daqueles princípios, se consegue por ocasião das primitivas experiências do mundo externo e de si mesmo, e pelo conhecimento de certos fatos históricos.
O estudo sério da filosofia, para quem dispõe de tempo e aptidão, é, não obstante, útil para provas ulteriores, confirmações e ilustrações das verdades religioso-morais, e mais êxito conhecimento da inocuidade das objeções. Nem a conversão de homens eminentes nem a perseverança dos crentes oferecem exemplos de que, ordinariamente, hajam sido necessários profundos estudos de filosofia, como condição prévia doa do ato de fé ou meio indispensável de sua justificação racional e da tranquilidade consequente do espirito.
E será isso de grande consolo para quem ainda não crer ou não tiver uma cultura adequada ou suficiente para fundamentar as suas crenças, pois basta saber que se podem resolver, satisfatoriamente, os respectivos problemas, sem arrostar, primeiramente, a tarefa estafante de meter-se na cabeça a filosofia de Aristóteles ou de Santo Tomás. Basta um metódico e desapaixonado estudo da vida de Cristo e da Igreja.
A natureza das realidades concretas não se pode conhecer por meras deduções. O elemento individual passa sempre as abstrações e no seu modo de ser, é somente perceptível pela experiência. Os objetos da nossa fé são Cristo e a Igreja Católica com os valores que incluem; luz de doutrina, santidade de preceitos, beleza e suavidade de exemplos, transcendência de dons sobrenaturais.
Este conjunto foram uma síntese vital que somente se conhece e, sobretudo, se aprende quando se vive segundo as suas máximas. Será mister incorporar-se à vida católica para julgá-la objetivamente. Tanto de imitar a Jesus Cristo, se aprecia a sublimidade de sua santidade e pureza, de sua caridade abnegação; submetendo-se aos preceitos da Igreja, vê-se, claramente, o acendrado de sua moral e a sua divindade de sua prudência; familiarizando-se com São Paulo com São João Bosco, toca-se, por dizer assim, com a mão o sobrenatural que acaso com meras analogias apenas podia vislumbrar-se.
E por esta causa, seria o mais prático participar, enquanto fosse possível, na vida dos católicos antes de estudar a religião católica, ou pelo menos, consagrar-se simultaneamente ao seu estudo e ao seu exercício.
Mas, desde logo, quem é católico, há de persuadir-se de que quanto mais fielmente observar a religião, com mais facilidade a entenderá e justificará perante a sua própria razão e a dos demais. Ao realizar em si mesmo o ideal cristão, o aproxima e acomoda à sua própria percepção integral. Todo o seu ser, de algum modo, o abrange e se identifica com o mesmo. Multidão de aparentes antinomias da ordem especulativa se veem então resolvidas em fácil síntese real, desconcertante, às vezes, por sua própria singeleza.
É o que vemos nos seguintes exemplos: sentimento profundo do mistério, com clareza e paz mental; liberdade autentica na investigação com sujeição profunda ao magistério divino e eclesiástico; mortificação e abnegação com intenso gozo; consciência do perigo com segurança e filial com confiança em Deus; humildade com dignidade; desprendimento do temporal com visão compenetrante e justa estimação dos valores humanos e de todas as belezas e excelências naturais; seria e ainda trágica concepção da vida com intenção espiritual, atividade incansável e legítima alegria. Enfim, desta maneira, se adverte que uma vida santa resolve mais dificuldades do que a prolixa especulação.
Para crer e continuar crendo é preciso implorar o auxílio divino. Os crentes bem instruídos sabem qual é a necessidade e eficácia da oração na vida cristã. Os incrédulos ou os trabalhados pelas duvidas advertido, quando são razoáveis, que o Deus do catolicismo para existir, não tem nenhuma necessidade do misero homúnculo, antes, consciência de sua transcendência, do seu poder supremo e excelência infinita, verá com agrado que as almas que, sinceramente, pretendem resolver o problema religioso, lhe peçam luz para conhecer a verdade, e docilidade para segui-la. Pois, ao menos em certos casos, a oração haverá de ser uma condição indispensável para alcançar o conhecimento de Deus e da verdadeira religião e para nela perseverar com humildade.
Por isso os sacerdotes rezam, no ofício divino e na santa missa: "Senhor, dignai-vos de nos conceder em vossa bondade a graça de sempre pensar e fazer o que é bom, afim de que, não podendo subsistir sem vós, vivamos conforme vossa santa vontade".
Certos homens procedem como se se tratasse deu m assunto sem interesse e absolutamente proporcionado às possibilidades humanas. E é justamente o contrário. Por isso mesmo é razoável e ainda necessário pedir, e pedir sem cessar a Deus luz para conhece-lo sempre melhor, luz para crer na sua revelação, luz para resolver as objeções opostas; serenidade para não se inquietar em face de dúvidas e ignorâncias.
O homem reto, que junta à oração as competentes diligencias para buscar a verdade, a achará infalivelmente, a verdade se lhe converterá em vida.
Podemos ainda acrescentar que, em matéria de fé, para os que não receberam uma sólida formação religiosa, é insuficiente o autodidatismo. Até pode tornar-se nocivo. A dificuldade intrínseca da ciência sagrada é maior do que de qualquer outra e a sua amplitude é imensa. Ao estudo de outras matérias procede e a ignorância; ao da religião quase sempre precedem, além da ignorância predisposições adversas e afetivas, bem como inveterados preconceitos.
Um compendio de teologia deixará na penumbra muitas doutrinas; o estudo sério particular de tratados extensos obscurecereis a eternizaria o trabalho. É, pois, absolutamente necessário que um competente teólogo em uma série conversações preparadas, exponha, sistematicamente, ao aluno o que este precisa segundo o seu estado psicológico, sua cultura, sua índole, sua capacidade e suas preocupações atuais.
O mestre lhe deve resolver as objeções, indicando-lhe livros apropriados cuja leitura faça gradualmente. Esta, à luz recebida do professor, será sumamente proveitos, enquanto sem controle poderia tornar-se inútil e até prejudicial.
O exemplo de homens celebres convertidos pode ser edificante e estimular os outros à prática da fé, mas jamais poderá substituir o testemunho da Sagrada Escritura, dos Santos Padres, dos Concílios e dos teólogos católicos.
CAPÍTULO XVI
Novos mitos e falsas divindades
Escritores e governantes atribuem o declínio da civilização atual a uma imaginária ineficácia dos princípios cristãos. Mas, nisto há um profundo engano, quando não a repulsa consciência da verdade. Entretanto, a religião católica conserva o seu vigor divino e a sua eficácia salutar, porém, não se reconhecem praticamente os seus ensinamentos e não se vive de acordo com os seus preceitos.
Diz o Sumo Pontífice Pio XII na sua Encíclica "Summi Pontificatus": "A raiz profunda e última dos males que na sociedade moderna deploramos é a negação e o desprezo de uma norma de moralidade universal, tanto na vida individual e social, como nas relações internacionais: numa palavra, o desconhecimento tão generalizado em nossos tempos e o olvido da própria lei natural, que tem seu fundamento em Deus, criador onipotente e pai de todos, legislador supremo e absoluto, juiz onisciente e justo das ações humanas
"Quando se renega a Deus, sente-se abalado todo o fundamento de moralidade, afoga-se e se abala a voz da natureza, que ensina até aos ignorantes e às tribos selvagens aquilo que é bom ou mau, lícito ou ilícito, e faz sentir à responsabilidade das próprias ações ante um Juiz supremo".
Recorda a este propósito o Romano Pontífice ter tido, precisamente esta a base fundamental da moralidade, que em tempo passado de coesão espiritual à Europa, à qual educada, enobrecida e civilizada pela cruz, chegou a tal grua de progresso civil que se tornou maestra de todos os povos e continentes. Mas abandonado Deus e esquecida a doutrina de Cristo, os critérios da moralidade segundo os quais, em outros tempos eram julgadas as ações privadas e públicas, foram substituídos por normas ditadas pelo laicismo que subtraiu o homem, a família e o Estado da influência salutar de Deus e dos ensinamentos da Igreja. Reapareceram assim os fenômenos do paganismo corrompido e corruptor em países onde por longos séculos brilharam os fulgores da civilização cristã.
Caíram em desuso, no mundo atual, os critérios morais fundados sobre a fé em Deus. O laicismo destruidor afastou o invidiou e a sociedade dos instrumentos divinos de Jesus Cristo e fez reaparecer erros pagãos que pareciam de Jesus Cristo e fez reaparecer erros pagãos que pareciam sepultados pelos tempos anteriores à civilização cristã.
Não se pode atribuir à Igreja Católica falta de vitalidade porque Cristo a fundou para todos os tempos e todos os povos. Mas, os cataclismos da atualidade são justamente o resultado da repulsa dos ensinamentos de Deus.
Entretanto, o abandono de Deus e das leis naturais de que ele é o autor, não extingue, por isso, no coração humano a anciã e a necessidade e de alguma coisa divina, e a humanidade vai atrás desse Deus ou daquele que nos falsos caminhos que as circunstancias modernas lhe apontam faça suas vezes. A falta de uma moralidade fundada em Deus preparou essa perturbação social e internacional de que são consequência conflitos sem fim e ameaças de guerras inevitáveis.
E neste ambiente de paixões soltas por um liberalismo sem freio, e da violência de um socialismo brutal e materialista, o pobre e desorientado engenho humano, sob a inspiração de doutrinas contraditórias, vai criando os chamados mitos, que, como disse o Sumo Pontífice, somente podem acarretar desordens e ruinas.
Os mitos, segundo um escritor, são certas construções mentais que se produzem e se agitam nas almas dos homens, que participam dos grandes movimentos sociais; são estados de ânimo ou complexo de ideias essencialmente dirigidas à ação e que, por isso mesmo, se convertem em força capaz de suscitar, dirigir e sustentar grandes movimentos sociais e faze-los triunfar. Os homens, diz Sorel, o citado autor, que figuram nos grandes movimentos sociais, imaginam sua ação próxima na forma de combates asseguradores do triunfo de sua causa.
E resolveu denominar mitos a essas construções, cujo conhecimento merece tanta importância para o historiador: Já foram apresentados, como exemplos notáveis de mitos, os que erigiram o cristianismo primitivo, a reforma, a revolução e os mazzinianos; queria pôr em relevo que não se devem analisar tais sistemas dei margens, como s e decompõe uma coisa nos seus elementos, mas é preciso toma-los em conjunto, como forças históricas, cuidando-se muitíssimo de não comparar os feitos realizados com as representações que se aceitaram antes da ação".
Assim fala Sorel, que, propriamente, não é o criador dos mitos, que, em certo sentido antes dele existiam; são diferentes, porém, da mitologia antiga.
Das palavras precedentes parece deduzir-se que o mito é um sistema ou um complexo de imagens; quer dizer uma representação mental. Porém, mais abaixo, quando o autor indica que, afim de serem os movimentos revolucionários eficazes, será necessário empolgar ou galvanizar as massas com os mitos, então ele descreve a estes como se fossem expressões da vontade. "Os atuais mitos revolucionários, disse, possuem relativa pureza... e não são descrição de coisas, porém expressão de vontades".
Que é, pois, o mito? Construção mental? Impulso da vontade? Ambas as coisas simultaneamente? Talvez se chegue a compreender melhor a ideologia de Sorel através da sua psicologia. O escritor francês era socialista militante, partidário da violência e da greve geral como meios adequados, para conseguir o triunfo dos seus ideais. Mas, reconheceu o fracasso da teoria de Marx, que pretenderá encerrar os acontecimentos futuros dentro do círculo de ferro de um fatalismo histórico, previamente indicado. E é por isso que a teoria de Marx era uma utopia.
E a utopia é "produto de um trabalho intelectual, obra de teóricos que, depois de haverem observado e discutido os fatos; procuram estabelecer um modelo ao qual possam comparar-se as sociedades existentes, para medir o bem e o mal que contém. A composição de instituições imaginárias que, porém, guardam analogias reais suficientes para que o jurista possa raciocinar.
"É uma construção desmontável de que algumas partes foram trabalhadas de maneira tal que, mediante correções de ajuste, possam passar a uma legislação próxima. A utopia pode ser discutida, como toda a construção social: e é possível refuta-la, mostrando como a economia em que se lhe deu assento, é incompatível com a necessidade da produção atual".
Pois bem, a teoria marxista era uma utopia, interveio a crítica e ruiu por terra; foi uma de tantas estátuas gigantescas de bronze, com pés de barro. E uma vez discutida e refutada, a teoria perdeu a força necessária, para inflamar as massas e lança-las à luta social.
E Sorel, para preservar a ideologia socialista desse perigo, recorreu aos mitos, revestindo-os de qualidades que lhes infundiram vigor revolucionário, capaz de suscitar grandes movimentos sociais e, ao mesmo tempo, livrá-los da ação demolidora da crítica. "Não pode ser refutado um mito, disse, já que é idêntico no fundo com as convicções de um grupo, expressas em linguagem de movimento, que o faz indecomponível em partes que possam ser aplicadas a um plano de descrições históricas... Colocando-se em terreno dos mitos, está-se a descoberto de refutações, o que inspirou a muitos a afirmação de que o socialismo era uma espécie de religião".
Sistema de ficções ou expressão de vontades, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, o mito não pertence à esfera da razão, mas antes se forma na região do sentimento e dos instintivo; na subconsciência obscura e misteriosa, na qual se forjam as convicções geradoras da ação. Pois Sorel deixando-se influir pela filosofia bergsoniana, distingue no espirito humano a região clara ou o eu superficial, e a região obscura e misteriosa ou o eu profundo.
O mito pertence no eu profundo. "Assim pois me pergunto, disse Sorel, se não conviria aprofundar na teoria os mitos, utilizando as cintilações que produz a filosofia bergsoniana... Bérgson nos convida a esquadrinhas o intrínseco e o que sucede durante o movimento criador: "Há, diz ele, dois EUS diferentes, dos quais um é como a projeção exterior do outro, sua representação especial e, por dizê-lo, assim social. Chegamos ao primeiro por meio de profunda meditação, que nos permite recolher nossos estados internos... Durante a maior parte do tempo vivemos exteriormente a nós mesmos, sem ver do nosso EU mais que seu descolorido fantasma".
O mito, pois, se forja na região obscura e misteriosa do EU profundo, não se raciocina, mas se crê; não se analisa, nem é fruto de um processo discursivo, porém se aceita com adesão plena de fé, com a fixidez e a tenacidade de um instinto. Assim se põe for ado alcance da crítica racional e se infunde a força de um misticismo um tanto parecido, segundo o juízo de Sorel, com a fé e o entusiasmo religioso.
Facilmente, se compreende que o terreno propício para a germinação e o desenvolvimento do mito são os períodos de grandes crises, como quando ainda fumegam os escombros duma guerra infeliz, quando se apresentam o poderoso duma anarquia desenfreada, quando numa palavra, a paixão e o sentimento obscurecem as outras faculdades racionais do homem.
Então, quando instituições crenças anteriores fracassaram quando se sente a necessidade de alguma coisa nova que remedeis o mal eminente ou sofrido, alguma coisa que contenha a catástrofe ou levante o que está por terra, então é quando todas as forças da sociedade em tensão acham-se às ordens de quem saiba captá-las, organizá-las e conduzi-las.
E abandonando Deus e desprezada a doutrina de fé, chega a hora do mito que se apodera daquele estado de consciência, remove os fundos tradicionais e se aproveita do orgulho humilhado, dos desenganos sofridos e da ameaça de maiores catástrofes.
A missão do mito neste caso, diz uns escritos da "Civilta Católica", é incendiar nos ânimos uma fé ativa, nutrida de religiosidade que, livre do dente sofredor de todo o racionalismo, impulsione a ação, sem que postulados ideológicos perturbem o seu curso. Pelo mesmo motivo, suas produções se atribuem, de preferência, à vontade e não ao entendimento, ao qual somente compete dar-lhe forma, como a imaginação vesti-las de colorizo. Donde se conclui, com evidente, que a concepção mítica eleva os conceitos obscuros ao grau de verdade absoluta, para a qual se reclama um ato de fé incondicional, e disse se infere também que, consequentemente, a realidade feita mito, venha a substituir o conceito geral da vida e a suprema realidade de Deus.
Mas, esse mito sorelaino com os caracteres indicados será ele umas meras especulam mental ou uma realidade histórica viva em nossos dias? Um escritor afirma que Sorel mitizou, com sua teoria ética e pedagógica, o sindicato obreiro.
A isto podemos acrescentar que aqueles que converterem em mito não o sindicato, mas a classe operária, e não em laudas de um livro, porém nas páginas da vida real, no povo russo, são os bolchevistas.
Assim o nazismo inventou os seus mitos doutrinários. São construções fantásticas que se consideram como dogmas infalíveis, absolutamente certos, se quem se exijam as necessárias provas para convencer a inteligência. O nazismo impõe a aceitação completa de tais ensinamentos em não permite discussão alguma.
Os principais mitos hitleristas são: o mito da terra, o mito do sangue, o mito da raça e o mito da nação. Estes mitos, que são certos sistemas doutrinais, representas a concepção totalitária do homem, do mundo, da sociedade e do Estado. De acordo com os postulados destes ensinamentos, sejam falsos ou verdades, o homem deve agir. Sob o impulso da vontade, impelida pelo despotismo e encoraja pela violência sem limites, é que o homem deve desempenhar a sua tarefa, seja ela qual for.
Daí é que o segundo a mentalidade nazista o Estado germânico não pode privatizar injustiças; tudo é justo que ordena e faz, tanto com relação aos direitos individuais como aos fundamentos jurídicos existem entre as nações. O chefe supremo do nazismo é considerado infalível e o único deus soberano da nação.
Também o senhor Mussolini, mostrando bem o pensamento soreliano, nós fala do mito, mas do mito real e eficiente: "Também nós criamos o nosso mito; o mito é uma fé, uma realidade pelo fato de ser um estimulo, uma esperança, fé e coragem; nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação. E a este mito, a esta grandeza que nós quiséramos traduzir em uma realidade completa, nós subordinamos todo o resto".
Existem, pois, mitos, as testemunhas que o atestam, são irrefragáveis. A influência que os mitos exercem, em algumas nações, não é menos evidente. Mas, influem eles com a eficácia que imaginam e pretendem Sorel e Mussolini? Existem estas construções mentais, imagens de batalha, expressões de vontade, capiadoras de forças sociais e que postas fora do alcance da crítica e da inteligência, se tornem um estímulo formidável para a ação? Mitos que se aceitam com plenitude de fé e que, objetos de adoração mística, reclamam uma entrega total do homem?
O Sumo Pontífice, na sua encíclica não emprega, propriamente, a palavra mito. Não obstante, tendo indicado o erro geral do abandono de Deus e da falta consequente de normas universais de moralidade nas diversas esferas da vida, quer deter-se para condenar os mitos, na exposição dos erros amplamente difundidos pelo mundo moderno.
Pois, se refere ao erro da desigualdade de classes e raças que se opõe à verdade cristã da solidariedade humana "ditada e imposta pela origem comum e pela natureza racional de todos os homens", e a o erro "que se encerra naquelas concepções que não duvidam em separar a autoridade civil de toda a dependência do Ser supremo e de todo o vínculo de lei transcendente que se deriva de Deus como de fonte primária, e que concedem a esta mesma autoridade faculdade ilimitada de ação".
Um desses mitos é também o marxista, que, fatalmente, induz os homens à luta de classes, promovendo a vitória de umas e exterminando as outras. E dissemos mito marxista e não teoria, porque os dirigentes e teorizastes para dar-lhe maior eficácia, revestiram o sistema com todos os atavios de um mito. Antes de tudo o comunismo não é um sistema exclusivamente econômico, visto que sua doutrina abrange pontos que, passando os limites da economia, penetram na sociologia, invadem os domínios da teologia e da filosofia e acatam os problemas mais fundamentais da vida.
Um materialismo radical priva o sistema de toda a base de princípios morais que lhe poderiam dar certo tom de espiritualidade e elevação. Fica, como único motor interno, um egoísmo feroz em forma de instinto de bruto: o homem é uma máquina orgânica.
E assim abre-se o caminho ao círculo fatal no qual, inspirado por Hegel, encerra Marx, os acontecimentos humanos, ou à violência sindical que proclama Sorel, como garantia segura do triunfo socialista, ou à mera força maior que envolve a menor a que reduz um autor toda a virtualidade interna da autoridade civil.
E estes são os estímulos que impelem a classe proletária contra as demais, e os que lhe garantem o triunfo. A fatalidade, a força e a violência substituem a razão e a lei moral da justiça e da caridade, desconhecendo e destruindo aquela igualdade nativa e fraternal de todos os homens, de que nos fala o Santo Padre.
A constituição da República dos sovietes problema a conquista da ditadura do proletariado e a destruição do poder de outras classes. Para sustentar essa ditadura e manter aquele aniquilamento, foi montada a máquina do Estado soviético. A direção da economia, os direitos pessoais de palavra, imprensa e reunião, a faculdade de associar-se, em resumo, a formação espiritual, a cultura, o ensino, tudo está concedido, regulado, endereçado, para consolidação do regime socialista: aniquilamento de classes e ditadura de outra.
E nesta máquina foram infundidos todos os caracteres do mito: uma espécie de misticismo religioso de alcance universal e humano. Lenin dizia que "a religião é um aspecto da tirania universal, que pesa sempre e em todos os lugares sobre as massas proletárias, oprimidas pelo trabalho perpetuação em proveito alheio, pela miséria e pela solidão". Lenin é o profeta máximo da nova superstição mística e suas cinzas tornaram-se objeto de um culto pseudorelgisio, que começou no dia de sua morte, em 22 de janeiro de 1924. Por isso, segundo a mentalize bolchevista, não se deve discutir a doutrina: é imposta e deve ser aceita, porque vem envolta na roda fatal da evolução marxista, ou no mito soreliano ou na força maior que envolve a menor.
E Lenin, no IIIº Congresso Pan-russo das juventudes comunistas, declarou quanto à moral: "A nossa moralidade está inteiramente subordinado aos interesses da luta do proletariado".
É a repetição da história: Todo o erro que toca a substancia da vida humana, degenera em superstição religiosa. Além disso, procura adquirir uma difusão universal sem outros limites que não sejam os da humanidade.
Por isso, o mito marxista da luta de classes, ali onde triunfa, se esforça por irradiar sua influência e estender seu domínio em todas as direções. Pois, a missão da revolução, vitoriosa em um país, consiste em realizar om máximo que seja possível, para o desenvolvimento, a manutenção e o despertar da revolução em todos os países.
Ao lado do mito soviético vemos mito da raça que assumiu em nosso tempo um aspecto definitivo.
As afirmações dogmáticas fora do alcance de toda a crítica, podem resumir-se desta maneira: é evidente a desigualdade das raças. Entre elas a superior é a raça ariana. Por outra parte, na terra, entre os valores humanos, o valor superior é a cultura. Pois bem, a raça ariana é a criadora da cultura; ela é a que leva em si os germes e os eflúvios de uma humanidade superior física e moralmente.
"Tudo o que admiramos hoje em dia sobre a terra, é o resultado da atividade criadora dos povos pouco numerosos e quiçá, primitivamente, de uma só raça. Deles depende a conservação de toda a civilização. Se perecessem, tudo quanto forma a beleza da nossa terra, cairia com eles no túmulo.
"É vã a empresa de discutir que raça ou raças tenham sido, primitivamente, as depositárias da civilização humana. O mais simples é propor a questão, limitando-a ao tempo presente e debaixo deste aspecto a resposta é fácil e clara. Tudo quanto, no dia de hoje, possuímos de civilização humana, de produção de arte, de ciência, de técnica, é quase exclusivamente fruto da atividade criadora dos arianos. OI resplendor divino do gênio brotou em todos os tempos da sua fronte luminosa".
Trata-se pois de uma filosofia biológica e de sangue cujos evangelhos são "Minha luta" e o "mito do século XX" e que, baseando-se sempre nas exigências da conservação da raça, além do sacrifício total do indivíduo, há de reclamar de todos os funcionários, educadores, das associações culturais, dos meios de propaganda, empresários e trabalhadores arrolados no Estado e sob a sua direção, que, imbuídos na nova filosofia, enderecem todas as suas atividades ao serviço do valor supremo da cultura e da raça que o encarna.
Não podia faltar para o aproveitamento de todas as forças do homem, alguma coisa de divino que viesse deificar o mito racial, fazendo-o, ao mesmo tempo, incompatível com qualquer outra divindade que se apresentasse para disputar-lhe o campo. O "mito do século XX" sustenta que "é necessário instaurar uma nova religião e acentua o princípio de que hoje se levanta uma nova fé mítica: a fé mítica do sangue; fé pela qual se crê que a natureza divina do homem pode também defender-se contra o sangue; fé assentada sobre a ciência claríssima, pela qual estabelece que o sangue do Norte representa aquele mistério que suplanta e supera os sacramentos antigos".
Contra esta luta de classes que fomenta o mito soviético e a pugna entre povos e raças a que leva o mito racial, proclamando a desigualdade substancial humana, e a suposta superioridade de uns povos entre outros, é que se levanta, tão oportunamente, a voz da maior autoridade moral do mundo, a voz da autoridade suprema do catolicismo, para denunciar esses erros e dizer que, com eles, se torna "quase impossível ou pelo menos precária e incerta, a pacifica conivência dos povos".
Luta e pugna são elementos antagônicos de convivência e colaboração. E o Romano Pontífice, em face dos novos erros míticos, reagir a antifadoutrina cristã, à qual civilizou, a unida que pode defender a humanidade contra os novíssimos ímpetos de reversão à barbárie; a que se fundando na unidade básica humana, conduz, por si, os homens à fraternidade universal na justiça, na caridade e no amor.
Ela consolida ainda mais essa unidade de origem pela unidade de missão terrena e pelo fim sobrenatural de todos os homens no céu. A esta multíplice unidade por São Paulo um selo divino indelével ao disser: "Um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos e em todas as coisas e reside em todos nós".
Essa unidade não é perturbada pela esplêndida distinção de matizes com que se desdobra a vida humana em seus caracteres físicos e costumes, dando lugar a essa formosa variedade de povos e nações. Nem a igualdade natural nem a sobrenatural sofre algum dano com isto. E a Igreja, depositária da doutrina verdadeira, longe de opor-se, aceita, favorece e fecunda essa diversidade dentro da grande família humana, que se estendendo por todos os climas e atravessando todos os tempos, sai do mesmo princípio de origem, segue a mesma rota e se encaminha ao mesmo destino.
Por isso, também envia a Igreja números missionários a todos os povos em magnifica cruzada de fraternidade universal e os mesmos povos, desde todas as latitudes, incorporam seus representantes e seus filhos na Igreja Católica, boxando dos mesmos direitos e benefícios, sem distinção de costumes e de climas.
Esta é a doutrina cristã relativa à unidade fraterna universal, que convida a uma pacifica convivência d todas as gentes e estimula todos os valores humanos. O sinistro mito que alguns doutrinadores arquitetaram para sua efêmera grandeza pessoal, promove a luta de classes, ensina a desigualdade de raças, impele para as guerras mais injustas e iniquas, semeia o ódio e o rancor e destrói os valores supremos da humanidade.
Recentemente, o cientista Henrique Heras publicou um estudo profundo sobre a chamada civilização ariana. Diz ele que esta questão não cessou de ser agitada por filólogos, antropólogos etnógrafos e historiadores. Parece, afirma o mesmo, que a riqueza e a variedade das línguas denominadas arianas, oferecem algum fundamento à ideia de que a civilização ariana tenha sido a maior do mundo.
Como consequência natural desta ideia, nações, povos e indivíduos se tem chamado arianos sem que pudessem prova-lo.
Assim surgiu no mundo a imagem fantástica da raça ariana a qual foi colocada sobre um pedestal de proporções colossais, com os ela fosse a raça privilegiada do mundo moderno.
Qual é a conclusão final que Henrique Heras tira do seu sólido trabalho científico? Conseguintemente, declara ele, podemos afirmar que a exaltação da civilização ariana é um contrassenso, porque não existiu jamais.
A civilização até aqui chamada ariana, que os arianos certamente adotaram, foi a herança da raça hamita, denominada outrora proto-india, sumérica ou riliótica, mas que ao desenvolver-se mais pujante e ao purificar-se espiritualmente pela influencia do Evangelho em as nações mediterrâneas, podemos agora, com razão, apelidar a civilização mediterrânea.
A força, a violência e o erro podem, por algum tempo, obscura a razão e oprimir a lei moral da justiça e da caridade, destruindo ou desconhecendo aquela igualdade nativa e fraternal de todos os homens conforme os ensinamentos da Igreja. Mas virá a reação. Esses ídolos modernos cairão por terra como outras tantas estátuas de bronze com pés de frágil barro. E é fácil que, mais uma vez, se verifique a sentença: aprés nous le deluge!
CAPÍTULO XVII
A posição internacional do Santo Padre
Seguindo a terminologia do Código de Direito Canônico, a Santa Sé é para nós sinônimo do Romano Pontífice, não somente considerado na sua pessoa individual, mas também assistido e rodeado das sagradas congregações, tribunais e ofícios pelos quais ele costuma atender ao despacho dos negócios da Igreja universal.
Por outro lado, consideramos o Romano Pontífice com o o sucessor de São Pedro no primado não somente de distinção e honra, mas também e particularmente, de perfeita e plena jurisdição sobre a Igreja universal, tanto no que respeita ao dogma e à moral, como no que se refere à disciplina e administração da mesma Igreja ramificada por todo o mundo.
E este poder do Romano Pontífice é, verdadeiramente episcopal e pastoral, ordinário e não delegado, imediato e não exercido por meio de outros pastores subordinados, de tal modo que exerce sua autoridade limitada sobre todas e cada uma das igrejas particulares, sobre todos e cada um dos prelados inferiores, sobre todos e achada um dos fiéis, e esse poder é absolutamente independente de todo o poder humano.
Por pessoa internacional entendemos, com todos os autores de Direito Internacional, aquela pessoa jurídica, não física, porém moral que é sujeito capaz daqueles direitos e deveres que regulam as relações jurídicas entre os Estados independentes e soberanos.
Portanto, afirmando que a Santa Sé é pessoa internacional, queremos dizer, me concreto, que o Romano Pontífice como cabeça visível da Igreja Católica, possui aqueles direitos e prerrogativas dos Estados soberanos, com referência aos outros Estados da família internacional, especialmente a independência absoluta de todo o outro poder humano e a faculdade de regular suas relações com eles por meio de representantes diplomáticos e por meio de pactos e convenções solenes.
Diremos, pois, que a Santa Sé é de direito internacional. Pois, a Igreja Católica se apresenta aos nossos olhos como um fato indiscutível, como uma multidão de fiéis procedentes de todas as regiões do globo terrestre, oriundos de todas as línguas e nações ,de todas as raças e civilizações ,de toda a sorte e categoria social; multidão não desagregada e dividida, mas organizada e submetida a uma hierarquia de ministros subordinados a outros pastores superiores, que obedecem, por sua vez, a um Pastor supremo e independente com autoridade ilimitada para ensiná-los, rege-los e santifica-los. E essa hierarquia suprema em união com essa multidão subordinada, se nos apresenta dotada de todos os meios, assim espirituais com atemporais, necessários para o fim sobrenatural ao qual todos aspiram, e que é a consecução do bem e da felicidade suprema.
É, pois, a Igreja Católica uma sociedade, já que possui todos os elementos constitutivos da mesma; os membros, fim, meios e vínculo de autoridade. É, na expressão de Leão XIII, "uma sociedade juridicamente perfeita dentro de sua esfera a qual, por expressa e liberal concessão do seu divino Fundador, possui em si mesma todos os elementos de sua atividade".
E sendo a Igreja sociedade juridicamente perfeita, é ela por esse mesmo fato, independente de outra sociedade, visto, se tem a sim esma todos os meios sobrenaturais ou subordinados ao seu fim espiritual, não precisa de nenhuma outra sociedade.
Pois bem, essa sociedade, hierarquicamente organizada, debaixo da autoridade de um Pastor supremo, juridicamente perfeita, independente e distinta da sociedade civil recebeu do seu divino Fundador um mandado iniludível: o de ensinar a todos os povos e nações, sem limitação de espaço nem de tempo e assim há de estar integrada por membros e súditos de todos os povos da terra ou, o que é o mesmo, há de ser por sua própria natureza por direito divino uma sociedade internacional. "Há uma instituição divina que pode custodiar a santidade do Direito Internacional: A Igreja, instituição que pertence a todas as nações, que está acima de todas elas, que goza da máxima autoridade e que deve ser venerada pela plenitude do seu magistério".
Se, pois, A Igreja por direito divino é uma sociedade internacional, a Santa Sé, o Romano Pontífice, cabeça e pastor supremo dos cristãos espalhados por todo o mundo, deve ser considerado como sujeito de direitos também internacionais, deve possuir o poder de enviar legados a todas as nações da terra e receber os que estas enviem ao Pai comum dos fiéis, e de concluir tratados internacionais e exercer sua jurisdição, sem que ele possa ser submetido a potestade alguma deste mundo.
Portanto, o Papa tem direito a esse exercício internacional da jurisdição eclesiástica. E como este direito seria ilusório sem o reconhecimento pleno e evidente de sua soberania, sem al liberdade e independência necessária para a sua missão universal de ensinar e governar os fiéis seus súditos, sem que o seu ministério pastoral esteja a salvo de todo o perigo para si e os seus: é necessário que seu direito seja pendencia e os fiéis todos e o mundo inteiro se persuadam de que tanto os indivíduos como as nações podem, sem sobra de temor e desconfiança, tratar com o Romano Pontífice, como com o Pai comum da cristandade.
Para governar a Igreja universal, eficazmente, foi sempre necessário e o é de um modo especial em nossos tempos que o Romano Pontífice goze de plena confiança de todos os fiéis e nações. Porque desde o momento em que o Papa aparecesse como súdito de um governo ou nação determinada por mais que se lhe concedesse o título e as honras de soberano – somar vã de soberania – facilmente ressurgiria de novo a desconfiança, quiçá não sempre fundada, que teve por consequência apartar a Santa Sé de não poucas nações durante a residência dos Papas em Avignon.
Desta onímoda liberdade e independência do Romano Pontífice parece deduzir-se não somente a necessidade de sua soberania espiritual, senão do temporal. A soberania temporal não é para a Santa Sé de uma necessidade tal que o território venha a ser um dos elementos constitutivos de sua personalidade internacional. Se assim fosse, a Santa Sé que não possuiu território algum durante os séculos que em a Igreja se refugiou nas catacumbas, que se viu privadas dos seus Estados desde 1870 a 1929 e que por circunstâncias hoje imprevista pode perder o atual Estado da "Cidade do Vaticano", teria deixado ou deixaria de ser pessoa internacional.
Se a soberania da Santa Sé fosse territorial como a dos outros Estados, teria desaparecido com o território; mas, como é institucional e atributo essencial do primado, não pode estar à mercê das ambições dos homens e dos sucessos da história. O território para a Santa Sé é necessário como meio de assegurar suai independência, porém unicamente com uma necessidade moral e de sua conveniência para o exercício adequado e conveniente da soberania espiritual.
Nem se diga que só existe soberania que se exerce sobre um território, por não ser este essencial em toda a soberania. Dois elementos podemos considerar no conceito da soberania: um negativo, que consiste na independência do poder legislativo, judicial e coativo dos outros Estados, em não ser súdito ou vassalo de nenhum poder terreno, outro positivo, que supõe a capacidade de tratar de igual a igual com os soberanos e chefes de Estado da comunidade internacional, em virtude de uma competência suprema sobre uma matéria determinada nas relações mutuas e oficiais entre as potencias soberanas e independentes.
O território, portanto, não é de essência da soberania, que dele prescinde no seu conceito: a soberania é um gênero superior que abrange em si duas espécies distintas: a espiritual e atemporal. A temporal, tem necessariamente de ser territorial e exerce-se num território determinado. A soberania espiritual, pelo contrário, não necessita, absolutamente, do território e as pode conceber-se, sem ele, ainda que como já foi dito, lhe seja, moralmente, necessário e sumamente conveniente.
A personalidade internacional da Santa Sé estabelecida sobre fundamentos tão sólidos, devia impor-se as relações internacionais da vida dos Estados e obter deles o reconhecimento refeito da mais alta soberania da terra. Mais ainda: nenhum outro prestígio internacional avia de exercer maior influência nas mutuas relações dos povos que o da Santa Sé e da Igreja Católica, constituindo um caso único na história do direito das gentes.
Já o mundo romano reconheceu a soberania espiritual da Igreja apenas saída das catacumbas, assistindo com Constantino á primeira grande assembleia do Cristianismo e recebendo seus preceitos como leis do império nos códigos de Teodósio e Justiniano. De um modo especial na Idade Média, depois da coroação de Carlos Magno, o Papa foi arbitro entre as nações cristas. A ele recorriam os príncipes e os reinos seus litígios e preitos, ele intervinha para impedir a guerra e restabelecer e consolidar a paz; corrigia os soberanos e absolvia os súditos do juramento de fidelidade, unia os Estados da Europa para as empresas comuns da cristandade, e enquanto o mundo novo repartia mares, ilhas e continentes
É certo que, nos tempos modernos, a formação dos grandes Estados, a separação das nações protestantes e os princípios da liberdade religiosa enfraqueceram a autoridade internacional da Santa Sé, ainda que não chegaram a suprimi-la de todo. Contudo, na época moderna se recorria ao apoio moral do Papado afim de evitar os horrores da guerra, e os príncipes buscavam o reconhecimento da Santa Sé como garantia internacional de um direito discutido nas suas pretensões ao torno. E se no Século XIX as violências apreciam aniquilar o prestígio internacional da Santa Sé, contudo o poder onipotente de Bonaparte concebia a concordata como o instrumento mais apto para a consolidação do seu domínio.
E quando, consumado o despojo da soberania temporal do Papa, o Congresso de Viena restituía o mapa da Europa, os direitos internacionais da Santa Sé foram reconhecidos e respeitados pelo veredito das nações.
Em nenhum outro tempo, sem embargo, irradiou com maior esplendor o prestigio internacional da Santa Sé como depois de 1870, quando, perdidos os domínios temporais, apareceu, manifestamente, a eficácia incontestável da soberania. Era a consequência histórica da atividade moral e social que se estende não só aos católicos do mundo, mas que irradia seu benéfico influxo sobre toda a humanidade, e obriga os governos leigos a reconhecerem a supremacia e independência da Santa Sé, e sua eficácia jurídica na relação com os Estados; isto é, sua personalidade internacional.
Já em 1885 os governos da Espanha e da Alemanha se dirigiram a Leão XIII para que conseguissem a sua mediação no conflito das ilhas Carolinas e Palas. Três anos mais tarde Nicolau II da Rússia convidava o Papa a tomar parte na conferência da paz, e se bem que a oposição do italiano não permitisse a participação do delegado da Santa Sé na referida reunião, a ranha Guilhermina suplicava a Leão XIII que se dignasse conceder-lhe não só o "seu apreciado poio moral", como ainda tivesse por bem de prestar sua cooperação efetiva.
E Bento XV via aproximar-se do Vaticano os países protestantes com a Holanda e Grã-Bretanha e os que haviam permanecido afastados como a França. Pois, nos momentos solenes da guerra, sentiam todas a sanções a necessidade de apoiar-se o prestigio internacional da Santa Sé que prodigalizou também, nessa ocasião, inesgotáveis tesouros da caridade cristã.
A atividade concordatária foi a característica dos primeiros nãos do pontificado de Pio XI que firmou numerosos acordos com países soberanos. A esta atividade concordatária correspondia o apogeu da representação diplomática da Santa Sé, de sorte que já antes da assinatura do Tratado de Latrão, muitos países tinham suas embaixadas junto ao Vaticano. Isto significa que a Santa Sé já havia chegado ao maior esplendor do seu prestigio internacional, dando a entender que a sua soberania não depende do território, mas da sua autoridade moral e do seu poder espiritual.
A mesma verdade provou, com palavras eloquentes, o nosso baixador senhor Magales de Azeredo, então decano do corpo diplomático acreditado junto a Santa Sé, por ocasião da assinatura do tratado que pôs temor feliz à Questão Romana.
Que a personalidade da Santa Sé não seja como a dos demais soberanos e nações; é evidente, já que se reveste caracteres próprios e peculiares pelos quais se distingue e diferencia de todas as demais.
Pois, sua soberania é de ordem espiritual e sobrenatural, o que todos os tratadistas reconhecem e afirmam. Ora, essa soberania espiritual e sobrenatural da Santa Sé a qual é o elemento constitutivo da personalidade internacional, não pode dar a esta senão um caráter peculiar e distinto entre todas as outras soberanias internacionais.
Quando o Papa trata com u m soberano de igual a igual, é indubitável que estão se enfrentando duas soberanias perfeitamente tais, cada uma na sua esfera; como, porém, essas soberanias são de ordem diversa, natural uma e sobrenatural a outra, a igualdade não pode dar-se a não ser em terreno comum. Em outras palavras: a soberania da ordem superior tem de descer a um plano comum de convivência.
O Romano Pontífice que, com efeito, não somente representa a Igreja Católica, mas que por mandato divino é sua própria personificação, pode em virtude desse mandato, exigir autoriativamente da sociedade civil (em concreto do Estado com que entabula conversações diplomáticas ou constitui tratados internacionais) tudo aquilo que o Estado já estava obrigado a conceder-lhe anteriormente a qualquer convenio ou concordata, se o assunto está relacionado com o fim sobrenatural da Igreja.
Ora, a Santa Sé sem fazer uso de todo o seu direito prefere tratar, por meio de pactos ou concordata das de caráter internacional, em condições de igualda de com quem na realidade é inferior, porém sem que, por isso, perco o seu caráter de potência superior, visto que poderia exigir em vez de pactuar.
Deste modo, a soberania da Santa Sé estende o seu poder direto espiritual ao direito temporal, o que, certamente, a diferencia das demais soberanias e faz que sua personalidade internacional seja, na realidade, uma soberania de uma maneira especial ("sui generis").
Este caráter da soberania da Santa Sé aparece, manifestamente, de modo especial, assim nas concordatas como nas legações pontificas. Não há correspondência perfeita entre as concordatas e os tratados internacionais, como há tão pouco entre os núncios e os embaixadores.
A matéria das concordatas é de ordem espiritual e com esta relacionada, tais como o matrimônio, o ensino religioso, o culto e, em certo caso, p provimento de ofícios e dignidades eclesiásticas. A matéria o outro tratado é de ordem material, como, por exemplo, a designação de limites e fronteiras, a proteção do comércio e industrial de cada nação, ou o auxílio mutuo em tempo de guerra.
Os acordos estabelecidos nas concordatas afetam problemas de caráter interior e regulam as relações das soberanias que se exercem sobre os mesmos súditos. O acordo tratado tem por objeto assuntos exteriores e harmonizam o exercício de soberanias diferentes, mas com referências a súditos de diversas potencias.
Do mesmo modo, os núncios têm a representação de uma potência espiritual, enquanto que a dos embaixadores é de caráter temporal, aqueles que não se limitam representar a Santa Sé, mas exercem, com referência, determinada jurisdição sobre os fiéis da nação que os recebe. Os embaixadores, porém, não somente se abstém de todo o ato jurisdicional, mas se limitam a pôr-se em contato unicamente com o chefe do respectivo Estado ou o ministro das relações exteriores.
A análise da natureza intima da soberania da Santa Sé nos permitiu apontar nela os elementos essenciais existentes em toda a soberania; porém, ao mesmo tempo, assinalou as discrepâncias que existem entre a soberania espiritual e a soberania temporal e que imporem, necessariamente, o seu caráter diverso às diferentes personalidades jurídicas no domínio internacional.
Contudo, hoje, depois do Trato de Latrão, que consagra a existência do Estado da "Cidade do Vaticano", a Santa Sé não pode deixar de conservar a nota especifica de sua soberania, que determina a natureza de sua personalidade, como pronunciada diante dos párocos de Roma, no mesmo dia e na mesma hora em que se firmava o histórico acordo.
Disse Sua Santidade: "A todos em dúvida, a parecerá, claramente, que o Sumo Pontífice não possui senão o território estritamente necessário, para que possa exercer um poder espiritual concedido aos homens em benefício dos mesmos homens. E nós, por nossa parte, não duvidamos em afirmar que nos alegramos por terem as coisas chegado a este ponto, porque nos agrada ver o território material reduzido aos limites estreitos que o apresente como espiritualizado pela imprensa, sublime e verdadeiramente divina espiritualidade à qual está destinado a sustentar e servir".
"Esta situação particular do Sumo Pontífice cria a necessidade de uma sede própria e lhe concede um poder temporal que, legalmente, não diminuiu com a supressão dos Estados pontifícios.
"Assim é que o Tratado de Latrão não ressuscitou a soberania do Papa, pois nenhum governo do mundo pode conceder-lhe nem lhe tirar essa soberania. Pode objetar-se que o Papa somente tenha liberdade de ação, enquanto os demais soberanos lhe permitem exercer seus direitos. É verdade. Mas, esta objeção se pode estender a todas as nações.
"O Estados da Cidade do Vaticano difere das grandes potencias em que estas últimas dependem da força material; apesar de que também o Papa tenha, na realidade, todo o direito a defender-se com canhões e aeroplanos.
"Ao ser firmado, em 1929, o Tratado de Latrão, opinaram alguns que a estes convênios faltava alguma como garantia internacional. O Papa Pio XI, porém, refutou, em pessoa, o referido argumento, com uma declaração histórica; "evidentemente, não podia ser uma questão de solicitar permissão ou consentimento ou garantia adas potencias acreditadas junto à Santa Sé. No mundo inteiro, quer dizer, onde chegaram as notícias desse fato memorável, se afirmou, constantemente, que, chegado o momento, o único arbitro da Santa Sé e da Igreja há de ser o Sumo Pontífice, que s o Sumo Pontífice não precisa de assentimento ou de consentimento ou de garantias... Por outra parte, aonde hão de buscar-se as chamadas "garantias" senão na consciência da nossa justa causa, assim como na consciência e senso de justiça do povo italiano e, mais ainda, na Providência divina".
"O Papa em pleno exercício de sua soberania, celebrou, livremente, um tratado com a Itália. Nos interesses da paz, renunciou a dois dos seus direitos políticos: voluntariamente cedeu certo território; e, em segundo lugar, optou, também, por própria vontade, pela neutralidade em face do mundo político.
"Aquela primeira concessão a fez em vista da história dos 60 anos anteriores e tomado em conta as realidades da situação vigente; na segunda se reservou seus direitos morais e civis, declarando que não interviria em conveio puramente temporais entre Estados, na ao ser que as partes litigantes solicitassem sua arbitragem.
"É óbvio, sem embarco, que o Papa não se obrigou a uma neutralidade ilimitada. Não se obrigou a uma indiferença nem ao silencio em momentos de crise e de conflito. É sua a liberdade de expressão.
"O Santo Padre está acima de todo o interesse de ordem puramente material. Sua situação o qualifica, também todo o mundo não católico, como PAI DE TODOS".
Eis a posição internacional do Sumo Pontífice e da Igreja. Explica-se, por isso, o prestigio mundial do Papa que é a coluna indestrutível da ordem internacional e da civilização.
Como são insignificantes e ridículas as seitas religiosas, que pretendem imitar a Igreja Católica, na sua organização e liturgia, e exigem direitos iguais perante as leis.
CAPÍTULO XVIII
A guerra atual
Neste capitulo não queremos definir a guerra, nem repetir conceitos e opiniões de filósofos ou historiadores a respeito da mesma. Pretendemos apenas, e principalmente, respigar alguns pensamentos que o Santo Padre Pio XII tem manifestado nos seus escritos e discursos com referência ao terrível movimento bélico que aflige o mundo atual. E por isso não queremos melindrar indivíduos ou povos.
Antes de tudo vejamos o contraste entre as atitudes assumida pelo Santo Padre em f ace desse conflito que atormenta a humanidade e a conduta das partes em luta. Enquanto a guerra, obedecendo à lei de destruição, semeia por toda a parte ruinas materiais e morais, os representantes das nações em conflito procuram sacudir dos seus ombros o grave peso da responsabilidade assumida perante o mundo convulsionado, acusando o adversário e rejeitando de si toda a culpa.
Nenhum deles reconhece e confessa as injustiças passadas e recentes que fizeram precipitar os acontecimentos e os encaminharam à perniciosa solução adotada, nenhum reconstrói a história dos erros cometidos, das ideias propagadas, das rígidas posições mantidas, das quais não podia nascer senão o monstro do conflito armado: mas atribuem todas as injustiças e todos os erros ao inimigo, somente culpado, segundo seu juízo, de se ter chegado ao encontro das armas não obstante seus desejos de paz.
Neste conflito de acusações e inversões lançadas para todos os continentes pelas ondas do rádio, pela imprensa quotidiana e por todos os meios de que dispõe a propaganda moderna, expressas nos discursos públicos dos homens responsáveis, em palavras ásperas da polemica, se mistura, algumas vezes, a palavra da paz, e retornam as afirmações acerca da vontade pacifica das nações, repetidamente ouvidas antes da guerra: mas quando se procura saber de que sorte de paz se trata, a que paz se faz apelo, então se achará que, de uma e de outra parte, permanece firme o propósito de se continuar até ao fim no caminho começado para aniquilar o adversário.
As considerações sobre a humanidade sofredora, sobre os males imensos que o conflito causa, presentes, de qualquer modo, ao seu pensamento, não influem sobre o ânimo parai incliná-lo à brandura; ao contrário, o endurecem na resolução tomada de continuar numa guerra longa e extenuante, afim de enfraquecer a resistência do inimigo, obrigando-o a dobrar os joelhos.
Diferente é a atitude do Santo Padre. Ele não acusa a nenhuma das partes beligerantes, não atira a culpa do conflito sobre uma ou outra; mas, imparcialmente, indica a todos as causas do mal, para que cada um as considere e pondere conscienciosamente. Ele não quer exasperar os ânimos, mas conduzi-los à justiça e à caridade, segundo a missão que lhe foi confiada pelo divino Fundador da Igreja. E, por isso, ele sente o ânimo inundado de imensa amargura ao pensar que a guerra continua no meio do ribombar dos canhões, sob o terroso de pássaros bélicos, de ameaças e perigos de navios armados.
Mas, quais são as razões principais de tanta amargura? Elas se resumem nas tristezas do presente e na incerteza do futuro. No presente da humanidade se esquece da mensagem pacificadora de Cristo, da voz da razão e da fraternidade cristã, precipita-se, espantosamente, na barbárie, que dá por demais mostra de si naquela "série de atos irreconciliáveis seja com as prescrições do direito internacional positivo, seja com os princípios do direito natural e com os próprios sentimentos mais elementares de humanidade, atos que mostram em que caótico círculo vicioso se envolve o senso jurídico desviado pelas meras considerações utilitárias".
Já há tempo, as falsas teorias da violência tinham preparado o espírito que hoje domina das hostilidade s. A guerra, já se tinha declarado, seria fora de toda a lei, sendo em si mesma a ruptura do equilíbrio jurídico-criado pela sanções e já que ela remete a solução das controvérsias internacionais, não ao direito, mas à decisão das armas e da violência, cessariam em temo de hostilidade das convenções estabelecidas pelo direito das gentes, afim de que o uso das força tivesse domínio incontestável e o resultado exigido pelo fim, não viesse a ser retardado pelos obstáculos dos códigos e pelas presumidas leis da humanidade.
Antes, a verdadeira humanidade segundo algum teórico, exigiria que a guerra fosse implacável, conduzida sem nenhuma lei restritiva da faculdade de prejudicar o inimigo, para que somente, de tal modo, se lhe acelerasse o fim para um rápido retorno ao estado de paz.
Além disto, ainda se afirmou, seriamente, a existência de uma dupla moral, -- a pequena moral da paz e a grande moral da guerra, das quais a última justificaria o uso de qualquer meio no desenvolvimento da hostilidade para os fins da grandeza nacional.
Não muito longe desta concepção estão aqueles que definiram a vida dos povos como uma luta perene pela existência combatida em todos os tempos, também naqueles que tem a aparência da paz e que alcançaria sua fase aguda no encontro armado pela defesa dos interesses prevalecentes da nação, durante o qual seria a única lei válida aquela enunciada pela teoria darwiniana, que consiste na suplantação do mais fraco pelo mais forte.
A lei natural de solidariedade e o direito positivo condenam tias aberrações conceituais, oriundas de princípios tão falsos como desumanos. O Papa imprime o seio de sua condenação a esta doutrina.
A guerra como qualquer ação humana não se deve subtrair ao domínio da moral e do direito, ainda que seja promovida por motivos justos ou para defesa de um direito ilegitimamente ofendido ou para conseguir a operação de uma injustiça recebida à qual se negou uma satisfação pacifica.
Esta autoriza certamente o ofendido a destruir a resistência do ofensor para o triunfo do direito, mas não o dissolve de todos os vínculos, não desenfreia a sal faculdade de ação, não justifica todas as ofensas. A sua conduta, ao contrário, permanece sujeita às prescrições da justiça, da equidade e da solidariedade humana, que proíbem qualquer ato de crueldade inútil, qualquer destruição desnecessária, qualquer ofensa não imposta, diretamente, pelas exigências militares.
O direito positivo internacional fez seu este conceito e o incorporou nas normas particulares relativas à conduta das hostilidades, demonstrando, com o fato, a existência ade restrições legais para as nações beligerantes. Várias convenções, de fato, aquelas de 1864 sobre tratamento dos feridos, aperfeiçoadas ulteriormente em 1906 e 1929, aquelas de Haia subscrita por quase todas as nações civilizadas em 1899 e em 1907 sobre os russos da guerra terrestre, e aquelas ainda de Genebra de 1929 a sobre a guerra marítima; tem por fim estabelecer entre quais limites devem ser contidas as hostilidades contra o inimigo.
O direito internacional positivo hodierno, diz um autor, obedece a um duplo critério: de ordem prática e humanitária. Quanto ao segundo, declara, "devem proscrever-se todos os meios inutilmente cruéis que possam infligir ao inimigo sofrimentos e danos não necessários para alcançar os fins aos quais a guerra se dirige".
Este critério motivou as restrições sobre o uso de projeteis explosivos de gazes meios químicos, a proibição acerca dos bombardeamentos das cidades abertas indefesas, aos atos de crueldade contra os prisioneiros e os feridos e assim por diante: são normas que todas tendem a humanizar a guerra, quanto é possível. Não há dúvida que estas leis honram altamente a civilização, como também é certo que elas devem sua origem ao espirito difundido no mundo pelo cristianismo, que suavizou os costumes e mitigou a aspereza do ódio por meio da doutrina da fraternidade universal de todos os povos.
Mas, o espetáculo oferecido pela Europa, na guerra atual, faz surgir a dúvida de que o trabalho secular da civilização ao seja destruído pela barbárie renascente, de que dão prova os povos em conflito. Não se conseguiu, de fato, que os beligerantes abandonassem praticas que os pósteros possam reprovar "com o uso ilícito de meios de destruição, conforme lamenta o Papa, também contra não combatentes e fugitivos, contra senhoras, velhos e crianças".
Contra as prescrições taxativas do Direto das gentes, as cidades abertas têm sido, metodicamente, bombardeadas, as colunas miserâncias dos fugitivos dispersar e dizimadas pelo fogo das metralhadoras, os tristes comboios de fugitivos atingidos pelas bombas.
A luta contra o inimigo, algumas vezes fraco, tem prosseguido sem encarniçamento, inaudito sobre as linhas do combate e sobre as estradas, causando por toda a parte a ruina e morte no intento de lançar o pânico sobre toda a nação e assim enfraquecer lhe rapidamente a resistência, sem respeito algum aos sentimentos de humanidade que distinguem o homem civilizado do bárbaro inculto.
Desta maneira as teorias que podiam parecer influenciadas por espíritos pouco sãos, e concepções próprias de costumes de séculos pretéritos, passaram da ordem das ideias á ordem dos fatos, das afirmações abstratas à realidade concreta.
A causa última deste retorno ao código das hordas primitivas é indicada com clareza pelo Santo Padre, quando lamenta que o mundo olvidou "a mensagem pacificadora de Cristo, a voz da razão e a fraternidade cristã", e deixando-se somente levar pelo interesse, se fechou num círculo vicioso de desvio jurídico e se precipitou nos males que costumam trazer o desenfreamento do egoísmo, tanto mais cruel quanto mais colorido do sentimento nacional.
A política das nações tornou-se, antes do tempo moderno, agnóstica sob o ponto de vista religioso e mora. Depois de haver desconhecido o domínio de Deus, Criador e Legislador supremo, renegou a todos os princípios inculcados pelo cristianismo, desprezou a própria ordem da moral e da justiça e se entregou à onda mutável do arbítrio. O agnosticismo religioso e moral não somente desviou os espíritos dos princípios retos de toda a convivência ordenada dos homens, mas endureceu, também, os corações fazendo reviver a besta sanguinária que a civilização cristã havida domado.
Os frutos colhidos têm sido amargos: nada é mais idôneo para demonstrar que grua de decadência moral e civil tenham descido das nações quanto ao estado anormal da guerra, cujo processo hodierno constitui a prova apologética mais palpável da insusbistituibilidade das leis de Cristo para o verdadeiro e real progresso da convivência social e da verdade, realizando-se a palavra do filósofo Taparelli: "onde o homem e se afasta da cruz de Cristo, lá recai na barbárie".
Um outro terrível fator da guerra é o bloqueio econômico. Pois não se vê qual é a diferença que existe entre a morte de senhoras e crianças, causada por um bombardeio aéreo e a morte lenta pela fome ou pelas doenças produzidas pela infra nutrição consequente do bloqueio econômico; se uma diferença nesse sentido existe, este redunda em maior condenação do segundo, posto que é muito mais desumano matar algumas dezenas de vítimas inocentes do que condenar ao extermínio lento um povo inteiro.
A decadência do senso moral e jurídico que contrassenha o tempo presente, se revel ainda mais evidente na agressão e aniquilamento das nações pequenas, laboriosas e pacíficas. Estes excessos devem atribuir-se ao mal moral de que está enferma a humanidade, que quis substituir o sagrado império do direito pela força, a lei moral pela razão de Estado, os princípios naturais da convivência social pela dura regra do interesse e do egoísmo.
A crise hodierna é, pois, eminentemente de ordem espiritual, e não poderá ser vencida senão concedendo plena liberdade de ação às forças morais, e de modo especial, à Igreja, agora quase a única defensora desinteressada da justiça, da caridade e da solidariedade universal dos povos.
Mas, se o estado presente da vida das nações enche de amargura o ânimo do Santo Padre, as previsões do futuro certamente não diminuirão a sua angustia paternal. Pois, o futuro reserva aos homens a tarefa de remover os destroços morais e materiais causados pelo furacão de ferro e de fogo, de rancor e de ódio, desencadeado sobre o mundo. Quão árdua seja esta obra, pode, facilmente, adivinhar quem avalie o futuro pelas consequências do presente.
As nações não se combatem somente sobre a terra, sobre os mares pela atmosfera, mas as suas hostilidades se entendem as ideias, envolvem os sentimentos e se insinuam nas almas, para manter ali o ódio contra o adversário. A imprensa, o rádio, os discursos divulgam, diariamente, acusações nas quais não se repelem deformações da verdade nem exageros nem mentiras.
Tais métodos de propaganda, se, de uma parte, excitam o sentimento nacional, de outra, semeiam rancores que se radicam, lentamente nos corações, apreciações e juízos ultrajosos que envenenam as almas de ódio mortal e inextinguível.
Não menos contrária à verdade é aquela forma sutil de propaganda, para uso interno e externo, pela qual os povos em luta se autoproclamam tutores desinteressados da ordem e da moral internacional, patronos generosos da civilização ocidental ameaçada pelo adversário, vingadores das injustiças cometidas contra as nações fracas, enquanto, com pressões ilegítimas, se ingerem na vida dos neutros com o fim de eles aceitarem uma tutela tão perigosa quanto indesejável, e atrai-los assim para o torvelinho das discórdias. Pois, é saído como não são motivos ideais de humanidade, de justiça e de solidariedade que movem as nações a empunhar as armas, mas interesses particulares, bem definidos, para a defesa dos quais julgam oportuno procurar a incógnita de uma longa guerra.
O papa deplora, pois, com razão "as ruinas espirituais que se vem acumulando em consequência de uma multidão de ideias, a qual, mais ou menos voluntária ou veladamente, obscurece e deforma a verdade nos ânimos de tantos indivíduos e povos, envolvidos ou não, nesta guerra". E pensa o Sumo Pontífice "que imenso trabalho será necessário, quando o mundo, cansado de guerrear-se, quiser restabelecer a paz, para abater os muros ciclópicos da aversão e do ódio que no calor da luta houverem sido levantados".
A Europa, sobretudo, precisa de reconquistar a unidade perdida e, apara isso, certamente não concorre a campanha de falsificações, de ódio e de difamação sistemática, a que se entregaram componentes dos povos em conflito. Árdua, pois, se apresenta essa reconstrução futura na ordem moral, e mais árdua ainda na ordem econômica. Bastaria lançar um olhar sobre os balanços da guerra para convencer-se do imenso dispêndio de riquezas a que ficam sujeitas as nações beligerantes.
Este simples quadro, prescindindo das devastações e destruições causadas pela guerra, "devia incutir viva ansiedade, como declara Pio XII, nos que se preocupam do futuro estado econômico, social e espiritual da Europa e não da Europa somente". Pois que "quanto mais o monstro da guerra de provê, e busca as meias matérias que inexoravelmente todos são postos ao serviço da necessidade e que reina sempre crescente, tanto mais agudo se torna para as nações, direta ou indiretamente feridas pelo conflito, o perigo de uma anemia perniciosa e se formula a pergunta: como poderá, terminada a guerra, uma economia exausta ou extenuada achar os meios para uma reconstrução econômica e social entre dificuldades que de todos os lados aumentarão.
Ninguém ode prever o êxito final desta guerra terrível. Contudo, já se podem predizer suas tristes consequências: as misérias, o desastre geral que deixa seus vestígios em todos os povos, depois de se haverem esgotado as riquezas, devastado as regiões, dizimado a navegação e destruído a economia.
Nestas previsões encerra-se um elemento de outra natureza sobre o qual o Papa chegou a atenção do mundo, referindo-se aquelas forças da desordem mundial, preparadas para dar um golpe decisivo na Europa cristã: o comunismo russo que manda à frente a Liga dos Ateístas militantes, as organizações de choque.
CAPÍTULO XIX
Fonte de ódios e inimizades
O conflito gigantesco de doutrinas e de armas que avessais a Europa e parte de outros continentes, tem suas consequências trágicas e fatais na vida social. Povos e indivíduos são todos, mais ou menos, dolorosamente atingidos pela fúria desse tufão. Na ordem material vemos os mais lamentáveis estragos. Mas, não menos catastróficas são as repercussões da crise atual na ordem moral e religiosa. Quem, de fato, observa com serenidade o desenvolver dos acontecimentos, se vê forçado a verificar uma vasta desorientação dos espíritos: erros doutrinais, obscurecimento e perversão dos sãos princípios da consciência, esquecimento fácil e frequente das leis divinas e humanas. Mas, o observador atento notará, sobretudo, uma explosão extraordinária de ferozes inimizades e ódios brutais entre as nações atingidas pela guerra.
As manifestações de ódio e de vingança são geralmente os fenômenos mais salientes e sensíveis nos contrastes políticos. Esses fenômenos, porém, tomam formas mais acentuadas e mais violentas nas lutas entre as nações e nos conflitos armados, como acontece no duelo tremendo dos nossos dias, onde o ódio e o rancor explodiram e são a nota dominante, que ressoa estridente e furiosa nos campos opostos e produz urinas incalculáveis.
Assistimos a cenas anormais de rancores, de violências e de inveja, a uma verdadeira psicose de ódio que envenena a atmosfera, exalta todos os ânimos e tende, especialmente, a dividir e destruir todo o sentimento de humanidade, de benevolência, de fraternidade, de convivência social. O ódio contra os irmãos torna os homens homicidas como diz São João evangelista, porque é da natureza do ódio querer aniquilar o próprio objeto, como é da natureza do amor, querer conservá-lo. Quem odeia, procura destruir, sobretudo, aquilo que já destruiu no seu coração. Destruir os bens, a alegria, a honra, a vida daquele que se odeia: eis a intenção secreta da paixão do ódio, como disse Bossuet. Violência e destruição em tudo, nas batalhas econômicas e nas lutas cruentas e incruentas.
As ações militares, algumas vezes, são determinadas não por um legítimo objetivo de guerra, mas antes, pelo ódio e pela inveja contra o inimigo e são dirigidas com métodos desumanos e indignos de povos civilizados. Abata-se o adversário com crueldade quase sádica, se fere, devastada e mata não por real necessidade estática, mas por vandalismo e por sede de vingança e represália, calcado aos pés toda a norma do direito das gentes e violando todos os princípios de moral e de humanidade.
O ódio explode sem restrição e barbaramente, cai sobre populações civis, promovendo deportações ignominiosas para os campos de concentração, que se tornam, às mais das vezes, teatro de suplícios, onde o rancor político e religioso degenera em formas refinadas de torturas, deixa perecer de fome e de frio tantas vítimas inocentes e, com satânica intenção, submete os prisioneiros das classes sociais mais elevadas as duras fadigas e a trabalhos forçados baixos e humilhantes. Os futuros lerão com profunda admiração, nas crônicas desta guerra, toda a série de atos selvagens, atrocidades e abusos de todo o gênero infligidas a milhares de seres humanos, culpados unicamente de pertencerem a uma outra nação, de processar uma outra religião, de não serem ateístas ou anticristãos. As milícias revolucionárias da Espanha formadas na escola de Moscou diziam aos sacerdotes antes de mata-los: "Nos vos odiamos, vos perseguimos e vos matamos, porque sois padres, por causa da vossa função social de representantes de Deus".
As mesmas manifestações de ódio inspiram e perpassam a imprensa e a propaganda dos partidos litigiosos. Dir-se-ia que a verdade perde os seus direitos, quando se trata de prejudicar o inimigo. Por isso, formulam-se mentiras as mais impudentes, calúnias inhames, atribuindo-se ao adversário fatos gravíssimos sem prova alguma. Os jornais e o rádio dão, quotidianamente, como pasto, aos leitores e aos ouvintes notícias inteiramente falsas ou que alteram os acontecimentos. Beligerantes há que, para diminuir o peso das suas responsabilidades, recorrem ao triste expediente de inventar ou falsificar documentos que provem seu direito e injustiças atribuídas ao adversário.
Afirmações de todo contraditórias partem, não raro, dos secretariados de informações e, algumas vezes, ao público é dado assistir ao espetáculo de disputas e debates pouco cavalheirescos, entremeados de invectivas violentas de insultos banais. A paixão, em tais casos, obscurece o espirito de tal maneira que alguns, publicamente, se vangloriam de odiar o adversário, enquanto de outra parte o adversário se proclama honrado por ser odiado.
É, pois, um fato indiscutível, óbvio aos olhos de todos, que o gênero humano hoje está acossado de uma forte rajada de ódio quase de uma "mística do ódio", como essa, paixão já foi chamada com deplorável profanação do vocábulo. Esta "mística do ódio" intoxica tudo: pensamentos, afetos, palavras e atos.
Hoje nos sobressaltos em que vive a sociedade e no afã de dominar o mundo parece triunfar a teoria selvagem de Hobbes que ensinou ser a violência o estado natural do homem, o a guerra de todos contra todos, bellum omnium contra omnes. A frase de Plauto "homo homini iupus, o homem é lobo para o homem", esta frase quase se considera como norma reguladora da vida humana. Este estado de coisas influi, sinistramente, sobreo s costumes e a civilização, ameaçando lançar a Europa e países de outros continentes na escravidão das antigas eras pagãs e os faz retroceder dois mil anos na história do espírito humano.
Mas, qual é a origem de uma tal epidemia? Como explicar o conjunto destes fenômenos tão complexo, que tanto aviltam o gênero humano? Certamente concorrem para criar e desenvolver a situação atual, a rivalidade entre os Estados, o orgulho e a origem étnica, o espirito de hegemonia, a ambição do predomínio político e econômico, o ímpeto das paixões, que obscurecem a inteligência.
Mas, estes fatos são antes de tudo o resultado lógico daquela mentalidade nova que se formou mediante a difusão de um complexo de doutrinas, diametralmente opostas não só à lei da caridade evangélica, mas aos são princípios da própria lei natural e da moralidade pública e privada. Esta loucura de rancores e de ódios tem por fundamento o materialismo ateu e o laicismo anticristão; tem por base as teorias insanas d neopaganismo, que destrói a dignidade pessoal do homem e diviniza o Estado político.
Na vida pública e nas relações internacionais não é mais admitia a norma de moralidade universal: a política deve ser separada da moral e obter o primado em tudo. Os interesses da nação, da raça e do sangue, constituem a única e suprema regra de toda a atividade social e religiosa. Justiça e injustiça, quando se trata de vantagens ou desvantagens nacionais, tornam-se palavras muito elásticas; razão e direito perdem seu valor moral e não mais se discutem, quando está em jogo o bem ou a prosperidade da pátria, porque o Estado erigindo-se em fonte supremo de todos os direitos, rejeita quaisquer limites que o circunscrevem.
Nenhum respeito, pois, aos direitos naturais e contratuais dos indivíduos e dos outros povos. Quando um tratado, solenemente concluído se torna obstáculo às próprias intenções egoísticas, se considera unilateralmente caduco; se a mudança de situações e de circunstancias reclama um reajustamento, alguma modificação ou a substituição, não se procede por via legítima e leais discussões, mas se recorre, de preferência, ao sistema fundado unicamente na força.
A força é considerada, por isso, como o primeiro fator do Estado, que tem maior necessidade de ser forte que ser justo. A apologia da violência é um princípio fundamental do código neopagão: os resultados da força e da violência são exaltados, celebrados e apresentados como expressão soberana do bom direito. O que se impõe, o que decide, é o fato: fair accompli; é este o critério do verdadeiro, do bem e do justo. Decide-se sobre a honestidade de uma usurpação pelo fato de ser consumada e se acrescenta ainda a sacrílega impudência de considerar o sucesso de uma empresa injusta como um sinal do auxílio e da aprovação da Providência divina.
Todos os meios são proclamados lícitos para danificar o adversário e obter a vitória. Na guerra, a crueldade se faz coincidir com a generosidade e com a humanidade, porque abreviando de qualquer maneira a luta, são aliviados os sofrimentos. A hesitação, a sentimentalidade, a contemporização, o respeito às normas da velha moral, agora vencida, se consideram como fraqueza imperdoáveis.
Na doutrina do neopaganismo o gênero humano é formado só de membros da própria nação: os estrangeiros são sempre seres inferiores, colocados pela diferença fundamental do sangue um grau mais baixo da escala social. O valor da pessoa diminui ao atravessar o oceano ou passando o divisor das águas duma montanha. Os cidadãos duma mesma pátria guiados só pela preocupação de cuidar dos próprios interesses coletivos, devem organizar sua vida social e econômica, como se o mundo fora sua propriedade exclusiva e sem perguntar, se as disposições que tomam, sejam ou não para arruinar e destruir as nações vizinhas.
A projeção de ódio da guerra atual atinge também, e deploravelmente, a indivíduos e povos longe do teatro dos conflitos, e os quais, afinal, nada tem que ver com os litígios deflagrados e nada poderão influir na sua conveniente solução. A irreflexão arrasta a muitas pessoas para atitudes indignas de cristãos e de católicos, dando-lhes um triste testemunho da visão dos seus deveres. Tal conduta não pode resolver os conflitos internacionais, nem engrandece a própria nação, e muito menos eleva tais pessoas no conceito de governantes razoáveis e ponderados.
Outrossim, observa-se que a psicose bélica obscurece os horizontes de certos diplomatas graves, aos quais a atmosfera atual não oferece a necessária visibilidade dos interesses reais e verdadeiros dos seus respectivos países.
Por isso, acontece que, por falta de reflexão ou conhecimento da realidade, são levados a praticar atos que se podem qualificar de GAFES ou de imprudências diplomáticas, em desabono dos mesmos representantes e em desprestígio das suas nações e dos seus governos.
Em 12 de maio de 1940, "L'Osservatore Romano" publicou as seguintes mensagens que o Santo Padre tinha enviado aos soberanos de países invadidos: "A Sua Majestade o rei dos belgas – Bruxelas: nos momentos em que por segunda vez, contra sua vontade e seu direito, vê o povo belga exposto seu território às crueldades da guerra, profundamente emocionado enviamos a Vossa Majestade e a toda essa nação tão amada, a segurança do nosso paterno afeto; e rogando a Deus todo-poderoso para que essa dura prova termine com o restabelecimento da plena liberdade e da independência da Bélgica, de todo o coração enviamos a Vossa Majestade e ao seu povo nossa benção apostólica. Pio PP. XII".
"A Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos – Haia: "Ao saber com viva emoção que os esforços de Vossa Majestade em favor da paz não puderam reservar o seu nobre povo de converter-se, contra sua vontade e seu direito, em teatro de uma guerra, suplicamos a Deus, arbitro supremo do destino das nações, que apresse com seu onipotente socorro o restabelecimento da justiça e da liberdade. Pio PP. XII".
"A Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa de Luxemburgo: Neste momento doloroso em que o povo de Luxemburgo, apesar de seu amor à paz, se vê envolvido no torvelinho da guerra, nos sentimos mais perto dele com o coração, e implorando de sua celestial Patrona ajuda e proteção, para que possa viver na liberdade e na independência, concedermos a Vossa Alteza Real e aos seus fiéis súditos nossa benção apostólica. Pio PP. XII".
Os três telegramas acima foram divulgados pela imprensa, em Porto Alegre e em todos os países.
Pois bem! Houve pessoas, de falta e baixa posição social, que não tiveram a necessária compostura ante o pronunciamento da suprem autoridade religiosa e moral do mundo, e se atreveram a censura-la, porque tinha considerado aquelas invasões contrárias ao direito dos respectivos soberanos e porque rogava a Deus pelo restabelecimento da plena liberdade e da independência dos seus países.
De tal modo chegou a paixão a obcecar os homens e a perturbar-lhes a visão clara e exata das coisas! É essa, sem dúvida, uma das consequências mais lamentáveis da presente guerra; é um fato doloroso, que degrada a civilização.
Contra a mentalidade pagã que domina, grandemente, o pensamento moderno, é preciso formar a mentalidade cristã da caridade: às obras do ódio que levantam barreiras entre os povos, é preciso opor as obras do amor que a todos une e confraterniza em Cristo.
As nossas adorações e invocações não sejam "pelo deus que fala por meio canhão, pelo deus que abate cidades e fortalezas, pelo deus que ribomba pelos ares e despedaça e afunda navios por mares"; mas pelo Deus verdadeiro da paz e da bondade, que acalma os mares revoltos e as tempestades que assolam a terra e sacodem os ares.
Calem-se as notas desafinadas e selvagens de uma citara bárbara, que cantam "ódio sobre o mar, ódio sobre a terra, ódio do coração, ódio do poder", mas ecoe, suave e doce, o hino da caridade e da justiça, que recorda a origem comum e a redenção comum dos homens. Reinicie-se o reinado da paz no seio das nações e nas relações internacionais. Em vez de ódio, caridade; em vez de injustiça, respeito aos direitos alheios!
CAPÍTULO XX
Sobre a paz
Não obstante o troar dos canhões e o crepitar das metralhadoras, ouve-se constantemente falar em paz. De fato, o mundo hodierno necessita de paz universal. Mas, são os próprios homens que devem oferecer as condições necessárias para o restabelecimento daquela serena e segura "tranquilidade na ordem", que constitui a verdadeira paz. Talvez a nenhum tempo como nos dias que corre, se podem aplicar as palavras do profeta "pax, pax et non erat pax, gritavam paz, paz e não havia paz".
E como poderá haver verdadeira e perfeita paz, enquanto os homens se esquecem de sua origem comum e estão profundamente divididos entre si por lutas implacáveis de partidos e de interesses? Como poderá haver paz enquanto milhe-os e milhões de soldados se preparam para novos combates, incursões e morticínios? Como poderá haver paz, se continua a jorrar o sangue mil feridas? Como poderá haver paz, se o espectro da fome aparece em vários países europeus?
Defrontando essa angustiosa situação mundial, o Santo Padre exorta, vivamente, a todos que voltem ao Rei pacífico, de cujos lábios ouvimos a saudação: pax vobis, a paz seja convosco. Ele nos dará como prometeu, a paz: a sua paz que o mundo não pode dar, aquela paz que unicamente acalmará todas as perturbações, dispersando todos os temores: Não se perturbe o vosso coração nem se assuste.
A verdadeira paz somente pode alicerçar-se em Deus, Deus conhecido, respeito e obedecido. Diminuir ou destruir a obediência devida ao Criador, é o mesmo que perturbar ou completamente destruir a paz nos indivíduos como nas famílias, nas diferentes nações como no mundo inteiro. De fato "só Deus fala de paz ao seu povo, aos seus fiéis e aqueles que sinceramente se convertem". Sob o olhar do Onipotente, supremo protetor da justiça e da paz, a justiça e a paz se abraçam mutuamente; porque como canta o profeta Isaías: "A obra da justiça será a paz, e efeito da justiça será a tranquilidade e a segurança eternamente".
Como não pode haver paz sem ordem, assim também não pode haver ordem sem justiça. A justiça exige que a autoridade ilegitimamente constituída seja respeitada e obedecida pelos súditos, que as leis sejam sabiamente subordinadas ao bem comum e por todos, conscienciosamente, observadas.
A justiça impõe que sejam reconhecidos e guardados os direitos sacrossantos da liberdade e dignidade humana; que sejam, convenientemente, distribuídos aqueles bens e aquelas riquezas com que Deus dotou o mundo em benefício dos seus filhos. A justiça exige que não seja impugnada ou dificultada a ação salutar da Igreja de Cristo, mestra infalível da verdade, fonte inexaurível para a vida das almas, benfeitora insigne da sociedade civil. Onde, ao contrário, o nobre cetro da justiça for substituído pelas armas da violência, ninguém poderá maravilhar-se se divisar no horizonte em vez da aurora de paz, relâmpagos e trovões de guerras.
Mas, se é tarefa da justiça estabelecer e conservar as normas daquela ordem que é a base insubstituível da verdadeira paz, não é por si só bastante vencer os obstáculos reais que se opõem, muitas vezes, à sua aplicação. Quando a caridade não se unir em harmonia fraterna, à estrita e fria justiça, então, mui facilmente, os olhos tornam-se cegos para ver os direitos alheios, os ouvidos permanecem surdos à voz daquela equidade da qual podem surgir sábias soluções também nas mais árduas controvérsias.
E quando se fala de caridade, deve-se entender a generosa e fecunda caridade de Cristo. Cristo amou tanto o gênero humano que se entregou a si mesmo por ele. Impelido por esta caridade, Cristo tomou a forma de servo, afim de que todos se tornassem irmãos e se considerassem filhos do mesmo Deus, herdeiros do mesmo reino celestial, chamamos à felicidade da mesma vida eterna.
Se os homens voltassem a cultivar esse amor fraterno, ressurgiria no mundo o radioso sol da paz. As traz provocantes cederiam o lugar à calma razoável e o perigoso nervosismo dos ânimos daria lugar à serenidade confiante dos espíritos. Se assim acontecesse, os homens caminhariam pela estrada do mutuo e amigável entendimento onde o justo interesse de todos seria, devidamente, apreciado, onde não se fugiria ao sacrifício em prol dos bens superiores da família humana, onde reinariam soberanas a boa vontade e a fidelidade à palavrada dada.
Na véspera da guerra atual, em 24 de agosto de 1939, o Santo Padre dirigiu uma veemente mensagem radiofônica ao mundo sobre a paz. Interpelou os condutores de povos, homens da política e das armas, escritores, oradores do rádio e da tribuna e a todos quantos tem autoridade sobre o pensamento e ação sobre os irmãos e responsabilidade pela sua sorte. Sem outras armas que não sejam palavras de verdade em face das competições e paixões vos falamos em nome de Deus, de quem procede toda a paternidade no céu e na terra, vos falamos em nome de Jesus Cristo Nosso Senhor que quis que todos os homens fossem irmãos; em nome do Espirito Santo, altíssimo dom de Deus, fonte inexaurível de amor para os corações.
Hoje que, não obstante às nossas repetidas exortações e nosso particular interesse, redobram os temores de um sanguinolento conflito internacional; hoje que a tensão dos espíritos chegou a tal ponto que parece eminente a deflagração da guerra: dirigimos, com ânimo paternal, um novo e mais ardente apelo aos governantes e aos povos: aqueles para que tentem, resolver, pacificamente, as divergências atuais, e a estes para que se revistam de calma e serenidade encorajando as tentativas pacificas dos governantes.
É com a força da razão e não com a violência das armas que a justiça se implanta. Os impérios não fundados sobre a justiça, não gozam da benção de Deus. A política emancipada da moral atraiçoa aqueles mesmos que assim a querem.
Nada se perde com a paz. Tudo pode perder-se com a guerra. Voltem os homens a compreender-se. Tratem com a boa vontade e com respeito os direitos recíprocos. Imponham silêncio às vozes da paixão, seja coletiva, seja privada, deixando à razão o seu domínio e terão poupado o sangue dos irmãos e ruinas à pátria.
Atentam-nos os fortes, para que não se tornem fracos na justiça. Ouçam-nos os poderosos, se querem que o seu poder não seja destruição, mas proteção para os povos e tutela da tranquilidade na ordem e no trabalho. Nós vos suplicamos pelo sangue de Cristo que venceu o mundo pela mansidão na vida e na morte.
Temos ao nosso lado os corações das mães que pulsam com o nosso; os pais que deverão abandonar as suas famílias; os humildes que trabalham; os inocentes sobre os quais pesa a tremenda ameaça; os jovens, cavalheiros generosos dos mais puros e nobres ideais.
E está conosco a alma desta velha Europa que foi obra da fé e do gênio cristão. Conosco está a humanidade inteira que espera justiça, pão, liberdade, não ferro que mata e destrói. Conosco está aquele Cristo que do amor fraterno fez o seu mandamento fundamental e solene; a substancia de sua religião, a promessa da salvação para os indivíduos e as nações.
Eis alguns trechos do emocionante discurso do Santo Padre. Sua voz não foi ouvida. Realizaram-se suas previsões. As nações se digladiam. Sangue fraterno ensopa aldeias, cidades e campos. As ruinas fumegantes acusam, com clamores horríveis, a todos aqueles que não quiseram atender ao apelo paternal do glorioso Papa Pio XII.
Todas as nações têm o direito sagrado à vida e à independência. Todos, igualmente, é tem o dever de respeitar um tal direito. Este supremo princípio de justiça é tão evidente e elementar. Este supremo princípio de justiça é tão evidente elementar, tão universalmente compreendido pela consciência dos homens que não há necessidade para confirmar, com outros argumentos, a necessidade de sua observância, para a manutenção da paz e para uma organização digna deste nome.
As nações que constroem a sua grandeza sobre a ruinam de outros povos, lesando os direitos fundamentais da justiça, cedo ou tarde, ficarão sepultas sob os destroços de sua própria grandeza em consequência daquela regra inexorável de que o castigo é infligido com as mesmas armas empregadas pela violência.
O espaço vital de um povo não pode e não deve transformar-se em cemitério para outras nações, nem impelir o imperialismo à conquista de outras terras, espezinhando as normas do direito e da justiça. Tal procedimento requer uma reparação tempestiva para as injustiças praticadas, reparação essa que só pode restabelecer a tranquilidade em favor de uma pacificação durável.
Uma nova organização internacional que ofereça garantias de estabilidade, exige, pois, de uma parte o respeito à vida de todos os povos e a renúncia ao uso ilegal da violência, e de outra parte o abandono dos princípios contrários à justiça, e reclama também a reparação dos atos injustos.
Mas, suposta também esta feliz e benéfica evolução nas relações internas e internacionais; a paz não poderá ser duradoura, ensina ainda Pio XII, se as naç~eos não se libertarem da escravidão dos armamentos e do perigo que a força material, em vez de proteger o direito, se torne uma tirania violentadora.
A experiência demonstra que a paz, uma vez depostas as armas e ratificadas os tratados respectivos, deve ser continuamente reafirmada e as convenções precisam ser revistas e corrigidas, quando isto for necessário.
Com referência às minorias étnicas, às quais também o Santo Padre se refere, é necessário advertir que a Igreja se pronunciando a favor destas minorias, não patrocina o famoso princípio de nacionalidade, errôneo nos seus fundamentos especulativos e inexequível na pratica, nem o princípio do auto decisão dos povos, o qual, como os fatos tem provado, é uma fonte de injustiças e de explorações.
Na sua alocução recentemente dirigida a um grupo de recém-casados recebidos em audiência coletiva, Pio XII também o referido à guerra e à paz. O Papa comparou a guerra atual a uma tempestade, afirmando que, assim como depois da tormenta aparece o arco-íris na suntuosidade de um céu claro, da mesma maneira segue à guerra a formosura da paz, que permite o restabelecimento das atividades da vida normal.
Assegurou que aqueles que empunham o timão da nave dos Estados e são, conseguintemente, os responsáveis pelo bem-estar dos povos, devem recordar o que diz o Evangelho sobreo perdão das ofensas, ainda que as esqueces seja, às vezes, mais difícil que perdoá-las. Portanto, deve-se, antes de tudo, perdoar, para que Deus tenha em conta este rasgo de generosidade. Mas é necessário, também, que se excluam os desejos de vingança.
Cristo é a nossa paz: "Ipse est pax mostra".
CAPÍTULO XXI
Homenagem à Companhia de Jesus
Sendo a Companhia de Jesus um dos fatores eminentes da civilização, queremos prestar-lhe uma homenagem especial por motivo do quarto centenário de sua fundação canônica. Pois esta data comemorável ocorre no dia 27 de setembro de 1940.
Santo Inácio de Loyola é seu fundador. Nasceu ele em 1491 na Espanha e morreu em Roma em 31 de julho de 1556. Consagrara-se, primeiramente, à vida militar, levando uma vida mudada, quando em 20 de maio de 1521, ferido na defesa de Pamplona, foi recolhido a um hospital. Ali, pela leitura da vida de Cristo e dos santos, resolveu-se a dedicar a sua vida, inteiramente, ao serviço de Deus.
Juntamente com seis companheiros fez votos na capela de São Dionísio em Paris, ao pé do Monte dos Mártir, Montmartre, onde agora se levanta a majestosa basílica do Sagrado Coração.
Em 27 de setembro de 1540 o Papa Paulo III aprovou as Constituições (Fórmula Instituiti) da nova associação. Em 4 de abril de 1541, Inácio foi eleito, unanimemente, Geral do novo Instituto.
A nova Ordem recebeu o nome de Companhia de Jesus. Além da santificação dos seus sócios, o fim precípuo da Ordem consiste em trabalhar pela salvação do próximo e promover a moral cristã, bem como na defesa e propagação da fé. Daí é que os sócios devem receber, enquanto possível, uma sólida preparação, tanto nas ciências, principalmente na filosofia e teologia, como na pregação e ensino.
Há várias categorias de membros: professos, que aos três votos ordinários acrescentam o de obediência incondicional ao Papa; coadjutores que podem ser sacerdotes e irmãos leigos; escolásticos e noviços.
A legislação compete à Congregação Geral e o cargo de Superior Geral é vitalício.
Rapidamente, difundiu-se a Ordem e quando morreu Santo Inácio em 1556, já tinha doze Províncias com 101 casas e cerca de 1000 sócios. Fundaram-se não somente casas na Europa, mas, já pelos fins do século XVI, também no Japão, na China, nas Ilhas Filipinas, no Congo, na Abissínia, No Peru, México, Paraguai, Chile, Canadá e em 1549 já o Brasil. Um ano depois da morte do quinto Superior Geral, Pe. Cláudio Aquaviva, em 1616, a Companhia já tinha 37 Províncias, com mais de 436 casas, 13.112 associados; em 1749 tinha 39 Províncias, das quais cinco na Itália, cinco na Espanha e cinco na França e três na Alemanha, com 1538 casas e 22.589 sócios.
A missão principal dos jesuítas na Alemanha consistia em ajudar a manter a religião católica por meio da pregação e de aulas. Os notáveis sucessos na cura de almas devem os jesuítas, principalmente, ao sólido ensino na religião ela pregação e catequese, como também pela realização da frequência dos sacramentos.
Meios extraordinários eram os exercícios espirituais, missões populares, congregações marianas. A eficácia na cura de almas tinha um forte esteio nas numerosas escolas dos jesuítas, colégios, ginásios e universidades.
A sua grande fama nascia da educação e métodos severos de instrução. Das suas universidades, mundialmente, conhecidas queremos mencionar somente as seguintes: a Gregoriana de Roma, a de Washington e a de Tóquio.
Os próprios adversários dos jesuítas reconhecem os seus altos méritos no domínio da ciência. Sim, neste domínio os seus merecimentos são realmente notáveis: na dogmática e na apologética, na moral e no Direito Canônico, na exegese e patologia, na eloquência e catequese, na história eclesiástica e na arqueologia, na ascese, filosofia, história profana e na numismática; na história da literatura e da arte, na poesia, na filologia; na astronomia, matemática e ciências naturais; na geografia e cartografia, etc.
Hostilizada desde a sua origem, a Companhia de Jesus sucumbiu aos ataques coletivos dos elementos absolutistas e dos livres pensadores que dominavam nas cortes europeias. Em Lisboa vemos o ministro Pombal, em Paris a afamada Pomadou e Cholseul, em Madrid Aranda, em Napoles Tanucci.
Assim é que a Companhia foi supressa sucessivamente em vários países: em Portugal e seus domínios no ano de 1759, na França em 1764, na Espanha e Nápoles em 1767. Os governos destes países tanto trabalharam, iniquamente, até que conseguissem que o Papa Clemente XIV, em 6 de agosto de 1773, por amor à paz, pelo Breve "Dominus ac Redemptor", datado de 21 de julho de 1773, suprimiu em toda a Igreja a Companhia. Somente na Rússia onde Catarina II soube impedir a promulgação do Breve, continuou a existir a Ordem que mais tarde obteve a necessária licença da Santa Sé.
Em 7 de agosto de 1814 restabeleceu o Papa Pio VII pela Bula "Solicitudo omnium ecclesiarum" a Companhia. Com a benção visível de Deus começou ela, de novo, a prosperar e florescer em todo o mundo.
Vejamos a Companhia de Jesus no Brasil, em rápida síntese. O primeiro Governador Geral do Brasil Tomé de Souza, chegou à Bala em 29 de março de 1549. Em sua companhia veio o Padre Manoel de Nóbrega mais cinco jesuítas. Eram eles os Padres Leonardo Nunes, João Aspilcueta Navarro, Antonio Pires e os irmãos coadjutores Vicente Rodrigues e Diogo Jacome, os quais, volvido tempo, tomaram ordens sacras.
Em 13 de julho de 1553 chegou à Baia com Duarte da Costa, o II Governadro do Brasil, José de Anchieta, mais tarde cognominado o apóstolo do novo mundo, professo incansável, que elaborou a primeira gramática e o primeiro dicionário da língua tupi. O Padre Manoel da Nobrega não somente fundara na cidade do Salvador o Colégios dos Jesuítas, como ainda em cada arraial aonde penetravam os seus companheiros de tirocínio, ao lado de cada capela campestre, coberta de sapé, construíam uma grande cabana que servisse de escola.
O ensino público permaneceu em poder dos jesuítas até 1637, quando o príncipe João Maurício, Conde de Nassau, tomou em Pernambuco o comando das forças holandesas e se tornou o governador da vasta extensão de terra de sua conquista, que ele chamou Brasil holandês.
Em 1553 criou Santo Inácio uma nova Província no Brasil, nomeando para seu Provincial o Padre Nóbrega. Já se tinha fundado o Colégio da Baía e o de São Vicente. Em 1554 o Padre Nóbrega deu princípio ao terceiro Colégio nos campos de Piratininga.
Na Igreja desta nova fundação celebrou-se a primeira missa em 25 de janeiro, festa da conversão do apóstolo São Paulo. Daí vem o nome da cidade e Estado de São Paulo.
O Padre José de Anchieta, natural das Ilhas Canarias, é chamado, com razão, os apóstolos das selvas brasileiras. É considerado o fundador de São Paulo. São verdadeiramente notáveis os trabalhos apostólicos que ele realizou no Brasil que adotada como sua segunda pátria. Ele é venerado em todo o país e há fundada esperança de que ele um dia seja canonizado e venerado, publicamente, como santo.
Em 1567, já fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o Padre Inácio de Azevedo, primeiro visitador geral dos jesuítas, abriu nela um colégio depois de extinto o de São Vicente.
Era na verdade ingente a tarefa em que se viam empenhados os primeiros jesuítas no Brasil. Numerosas eram as tribos dos índios: tupiniquins, tabajaras, pitaguaras, caetés, papanazes, carijós, tamoios, gajanaras, tupinambás, e outras mais. A todos estes indígenas os jesuítas procuravam levar o conhecimento da doutrina de Nosso Senhor e à luz da civilização cristã.
O Padre Antonio Vieira foi grande orador sacro, que abrilhantou, com extraordinária eloquência, o púlpito brasileiro. Seus sermões e discursos primam pela vernaculidade e pela beleza oratória e ainda hoje são muito apreciados. Queremos lembrar apenas o célebre sermão feito por ele na Baía diante do Santíssimo Sacramento exposto, contra as invasões dos holandeses; e o sermão que pregou aos peixes no Maranhão.
Ao Padre Antônio Veiga, foi dedicado o seguinte soneto: "Cessem do orador grego e do romano – As glórias imortais, que a fama canta, -- Que outro orador mais alto se levanta – Noutro sol da eloquência soberana. – Demostenes, e Túlio Lusitano – Antonio foi, mas com vantagem tanta, -- Quanta leva a doutrina ilustre e santa – Aos assuntos político e profano. – Solda eloquência foi no movimento – Com que girou; qual sol à terra escura, -- A esta luz pura – Numa parte do mundo nascimento, Noutra parte do mundo a sepultura".
Por toda a parte os padres da Companhia fundaram reduções, cidades e aldeias, estabelecendo escolas e colégios.
A supressão da Companhia de Jesus causou grande dano moral e espiritual ao Brasil. Foi um retrocesso operado na civilização brasileira. Mais de um milhão de índios deixou de se incorporar no grêmio nacional sob o amparo da lei social e cristã.
É fato conhecido que um decreto de 3 de setembro de 1759 do governo português expulsou os jesuítas do Brasil. Como já foi dito acima, os gabinetes bubônicos de Lisboa e Madrid, Paris e Nápoles, obtiveram do Papa Clemente XIV, em 21 de julho de 1773 a supressão da Companhia de Jesus.
O confisco de todos os bens da Ordem, determinado pelo monares português Dom José I, em 25 de fevereiro de 1761, consumou a obra nefasta, em prejuízo da religião e das ciências no Brasil.
Disse Eduardo Prado numa conferência: "A obra dos jesuítas faz a admiração de todos os historiadores. São milhões e milhões de seres que viviam como feras e cujos descendentes hoje vivem como homens. São rios, lagos, montanhas e planícies revelados ao mundo por esses inumeráveis viajantes da Companhia, que eram santos, eram geógrafos, escritores e naturalistas, e cujas obras sobre as novas terras formam, por si sós; bibliotecas que a posteridade relê, sempre aprendendo".
Restabelecida a Companhia de Jesus em 7 de agosto de 1814 pelo Papa Pio VII, a Companhia de Jesus introduziu-se de novo no Brasil, fundando em vários Estados residências e colégios e entregando-se aos trabalhos das missões.
O bem-aventurado Padre Roque Gonzáles de Santa Cruz, natural do Paraguai, foi o fundador dos sete povos missioneiros. Em 1627 chegou nas suas viagens até à parte inferior do Rio Jacuí. Eram sete aldeias que se chamavam São Borja, Santo Ângelo, São João Batista, São Luiz, São Miguel e São Lourenço. Em 15 e 16 de novembro de 1628 os Padres Roque Gonzáles de Santa Cruz, João de Catillo e Afonso Rodriguez padeceram o martírio pela fé.
Com a expulsão dos jesuítas decairam e desapareceram aqueles sete aldeamentos. Hoje ali existem apenas ruinas, que nos falam da grandeza daquelas reduções, nos recordam os trabalhos gigantescos realizados pelos padres jesuítas e proclamam a iniquidade de Pombal, destruidor de uma das mais grandiosas civilizações.
A Igreja de São Miguel foi uma maravilha. Em a nova Catedral de Porto Alegre, procuramos conservar os seus caracteres arquitetônicos predominantes.
Readmitidos no Brasil os jesuítas, na fase nova da Companhia, chegaram alguns Padres a Porto Alegre, a 14 de julho de 1842.
O general Rosas, governador da República Argentina, de 1830 e 1852, chamara os Padres da Companhia, mas, depois de algum tempo, os expulsou, porque não quiseram prestar-se para instrumentos da política do ditador.
Sob a proteção do Senhor Internúncio apostólico no Rio de Janeiro, os Padres Sató e Cores, com dois Irmãos auxiliares, fundaram a primeira residência em Porto Alegre. Foram recebidos com todas as atenções e carinho pelo vigário da paróquia e pelo Presidente do Estado.
Iniciaram os missionários seus trabalhos apostólicos em Viamão e Aldeia dos Anjos, hoje cidade de Gravataí. Depois, pregaram missões em Porto Alegre e vários outros lugares. O número dos padres jesuítas, pouco a pouco, ia aumentando. Chegaram, depois, os Padres Villarubia, Parez e Martos.
Petenciam os Padres a princípio à Província espanhola dos jesuítas. Mais tarde, faziam parte da Província romana e ultimamente em 14 de julho de 1869 foram incorporados na Província germânica pelo Padre Geral da Companhia, segundo comunicação do Provincial Clemente Falir.
Dom Sebastião Dias Laranjeira, depois de sagrado bispo em Roma por Sua Santidade Pio IX na capela sistina e antes de tomar posse da diocese de São Pedro no Rio Grande do Sul, dirigiu-se ao Padre Geral da Companhia, pedindo-lhe alguns professores para seu Seminário episcopal. Foram designados para esse fim os Padres Carlos Missir e Rafael Tuveri, bem como o escolástico Chiraldini. Mia tarde, quando Dom Sebastião já tinha tomado pessoalmente posse, chegaram estes religiosos a Porto Alegre.
Mas, não puderam tomar a direção do Seminário em vista de forte oposição da parte dos inimigos da Igreja. Aqueles e outros jesuítas prestaram, não obstante, ótimos serviços na eura de almas, principalmente na pregação e catequese.
A Companhia fundou e durante muitos anos dirigiu o conceituado Colégio Nossa Senhora da Conceição em São Leopoldo. Mencionar seus reitores, Padre Luiz Serrazin, Padre Pedro Bucher e Padre João Lutgen, é recordar verdadeiras glórias do magistério rio-grandense. Seus professores, por exemplo os Padres Carlos Schilitz, Conrado Mentz, José Vargas, Anselmo de Souza, Aloísio Schuler, João Rick são beneméritos do ensino ginasial do Rio Grande.
Em 1891 confiou-lhes Dom Cláudio Gonçalves Ponce de Leão o Seminário episcopal de Porto Alegre, sendo seu primeiro reitor o Padre Jacó Faeh, varão insigne pelas suas acrisoladas virtudes, pelo seu saber, e pelos seus elevados dotes de educador.
Fecunda e abençoada atividade tem os Padres da Companhia desenvolvido no Rio Grande do Sul, dirigindo colégios, administrando paróquias, pregando retiros espirituais em missões.
Atualmente dirigem os Padres jesuítas o Seminário Central de São Leopoldo desde 1913, o novo Seminário Menor de Gravataí desde 1938, o Seminário Menor de Santa Maria e o de Serro Azul na diocese de Uruguaiana. Além disso os padres da Companhia têm vários notáveis estabelecimentos de formação no Rio Grande como sejam, a Escolas Apostólica em São Salvador e o Noviciado e Escolasticado de Parecy. Pertence-lhes ainda o Ginásio Anchieta nesta capital, frequentado por grande número de alunos. Dedicam-se aos retiros espirituais, à pregação e à catequese. Trabalham na Casa de Correção, no serviço hospitalar, ao lado de outras Ordens Religiosas e de numerosos sacerdotes seculares formados por eles em nossos Seminários.
A Companhia de Jesus contempla hoje neste Estado, institutos prósperos e importantes de sua Ordem como em nenhuma outra parte do Brasil.
A vista de tão eminentes serviços prestados à causa da Igreja e da Nação, devemos reconhecer que a Companhia de Jesus se nobilitou e preencheu, cabalmente, entre nós o sentido do timbre que lhe realça o brasão: Ad maiorem Dei gloriam.
Em 6 de julho de 1940, o Sumo Pontífice Pio XII endereçou uma longa e expressiva carta ao Padre Wlodirmiro Ledochoswski, Superior Geral da Companhia de Jesus. Neste documento, repleto de conceitos elogiosos, Sua Santidade relembra os grandes merecimentos dos Padres Jesuítas, desde a fundação da Ordem até ao presente.
Ele apresenta à Companhia as mais efusivas congratulações pelo IVº centenário de sua existência canônica, tecendo-lhe os mais significativos louvores. As expressões do Supremo Chefe da Igreja Católica honram sobremaneira o Padre Geral assim como toda a Companhia de Jesus.
"Ainda não eram os astros formados que giram no espaço no intérmino mar, nem o orbe terrestre escutara submisso a voz soberana que o mandar marchar: e tu já sorrias à mente divina, ó Virgem das virgens e Mãe do Senhor, prodígio de graça, visão de pureza, agrado supremo de teu Senhor". Assim cantara o Padre José de Anchieta.
CAPÍTULO XXII
Confirmação de doutrina e indícios certos
Se alguém estranhasse que no presente Pastoral versamos os assuntos subordinados ao título de "Decadência da civilização", facilmente lhe poderíamos indicar os motivos.
A luta que se trava em todo o mundo é, sobretudo, uma guerra de doutrinas. Opõe-se dogmática a dogmática, moral à moral, política à política, economia à economia. É o choque brutal, em resumo, da matéria contra o espirito.
Mas, estas doutrinas não permanecem improdutivas no campo da discussão teórica. Elas se propagam, infiltram-se em todos os setores da sociedade e realizam os seus objetivos pela prática. A teoria costuma, sempre, preceder á ação.
Torna-se, portanto, necessário empunhar o gládio do espirito, que é a palavra de Deus, o ensino da verdade e a refutação dos erros perniciosos, antes de se verificar a necessidade de terçar armas em lutas cruentas.
E como nos seria impossível, como soldado da Pátria, manejar a espada reluzente da defesa no terreno de encontros sangrentos, queremos, como soldado de Cristo, brandir o gládio do espirito no domínio dos entrechoques de ideologias e concepções do mundo ou visões da vida.
O gládio do espirito destina-se a impedir e a neutralizar a ação da espada adversa e inimiga.
É, pois, necessário fortalecer o espirito nas fontes mais puras do Evangelho. Com efeito para defender a Cristo como deve-se, é preciso crer nele de toda a alma, para nele crer de toda a alma, é preciso amá-lo de todo o coração.
A nossa fé deve reanimar-se, afim de resistir à impiedade que pretende destruí-la ou, pelo menos, quer privá-la do seu vigor e força. Indicados os perigos, fortalecida a fé e robustecida à vontade, será relativamente fácil dominar situações perigosas.
Defendendo a Cristo, patrocinamos a causa da Igreja e os supremos interesses da Nação.
Estará, acaso, o Brasil na eminencia de ser visado por ideologias perversas ou estará exposto a ser vítima de invertidas criminosas? Seja-nos permitido fazer outra pergunta! Porventura, estará o Brasil imunizado contra ideias perversas e consequentes perturbações religiosas e nacionais?
Recordai-vos dos acontecimentos subversivos ocorridos e condenados pela Nação e consultai os arquivos policiais.
Ouçamos o Santo Padre Pio XII, que a 4 de junho próximo passado, em discurso de agradecimento ao Sacro Colégio Cardinalício, falou sobre uma avalanche de opiniões novas e disse: "São fartamente conhecidos e claros os perigos e incentivos espirituais e morais, que nesses dias tempestuosos ameaçam mais que nunca nas almas os princípios cristãos de fé e de vida.
"Uma desordenada avalanche de opiniões novas e opostas, de impressões e estímulos surgidos de mal apreciadas tendências, excitam, hoje, as massas populares – penetrando também naquelas classes que em tempos mais tranquilos eram dóceis para deixar-se iluminar e reger por límpidas e sábias normas – e impõe à consciência cristã uma continuada e indefectível vigilância para permanecer fiel à sua vocação.
"Atraídos pelo vertiginosos e apaixonado torvelinho dos acontecimentos, muitíssimas vezes as inteligências correm o perigo de serem obscurecidas e debilitadas na faculdade e prontidão de julgar os mesmos acontecimentos, conforme o requerem os ditames imutáveis e livres da lei divina.
"Sem embargo, se as pessoas cristãs, fortes na sua fé. Intrépidas no cumprimento do seu verdadeiro dever, hão de encontrar-se preparadas para tomar parte nos sucessos, nas tarefas e nos sacrifícios próprios do momento atual, não menos solícitas e prontas devem estar para refutar os erros do momento, de modo que, quanto mais se observe que se condensam as trevas da incredulidade e do mal, tanto mais valorosas e prontas é preciso que se mostrem e sejam – ainda em meio das provações – para fazer resplandecer a vivida luz de Cristo, guia dos errantes, diretriz e guarda até um retorno ao patrimônio espiritual comum por tantos esquecido e abandonado.
"Imutáveis aos envolvimentos alheios estas almas hão de caminhar e avançar sem desviar-se a noite das trevas terrenas, em vez disto terão de fixar sua vista nas estrelas resplandecentes no firmamento da eternidade, meta consoladora e prêmio de suas esperanças.
"Se mais duros e gravosos se tornarem os sacrifícios períodos à humanidade, mais vigorosa e ativamente devem nutrir-se – estas almas cristãs – alentando no seu interior a impetuosa força do preceito divino do amor, junto com o anelo e a anciã de fazer dele, para si mesmas, guia de intenções e ações.
"Não se dobrarão nem cairão pusilânimes ante as asperezas dos tempos; nem quando os perigos parecerem impedir todo o caminho para adiante, nos próprios perigos sentiam aumentar-se suas energias, se fosse necessário, pela grandeza de sua missão.
"E se o espirito coberto de um materialismo ateu lhes dirigi a pergunta conhecida: "Ubo est spes tua? Onde está tua esperança"? Então sem temor do presente nem do porvir, estas almas responderão com as palavras dos santos do tempo antigo: "Nollite ita loqui; quoniam filli sancotrum sumus, et vitam illam exspectmaus, quamd Deus daturus est ilis, qui fidem suam numquam mutante abe o: Não faleis assim; porque nós somos filhos dos santos e esperamos aquela vida que Deus há de dar aos que dele nunca mudam a sua fé".
Ora, se desta maneira fala o Sumo Pontífice, dirigindo-se a toda cristandade, não será supérfluo que os assuntos que atualmente mais preocupam a humanidade, sejam tratados convenientemente nesta pastoral.
E que nos disse o ilustre Chefe da Nação, na sua larga visão patriótica, em fins de junho último? Ele se refere "à exploração dos agentes de perturbação, internacional pagos para fomentar dissídios a serviço ode ódios e objetivos inconfessáveis. É fácil, continua sua excelência, descobrir e identificar este s elementos nocivos entre os aproveitadores de todos os tempos, os preparadores de guerras, os sem pátria, prontos a tudo negociar, os que, a tendo, não sabem defende-la.
"Muitos deles, indesejáveis em outras pátrias, infiltram-se dentro das atividades honestas dos nacionais e abusando da nossa hospitalidade, fazem-se instrumento das maquinações e intrigas do financio o cosmopolita voraz e sem escrúpulos.
"Responsável direto do futuro do nosso povo não tenho direito de deixar induzi-lo em erros de puro sentimentalismo. Disse um grande pensador não ser possível servir ao mesmo tempo ao dever e à paixão. Quem se deixa dominar pela paixão, perde o senso da realidade, obscurece os fatos mais notórios e acaba arrastado aos maiores desvarios.
"É preciso encarar as imposições da realidade com ânimo sereno, e repudiar as opiniões apaixonadas, se quisermos salvaguardar o futuro da Pátria, pois não servem ao seu dever os que pretendem lança-la à fogueira dos conflitos internacionais.
"Não há, presentemente, motivos de espécie alguma, de ordem moral ou material, que nos aconselham tomar partido por qualquer dos povos em luta. O que nos cumpre, é manter estrita neutralidade, neutralidade ativa e vigilante na defesa do Brasil".
O Presidente da República está cumprindo um sagrado dever. As maquinações subversivas obedecem sempre a planos e ideias.
Seria triste e lamentável, se as autoridades temporais ou espirituais quisessem imitar o exemplo do avestruz, nas gravíssimas emergências da atualidade. Pois, esse príncipe dos pampas esconde a cabeça na areia ou debaixo do capim, quando percebe algum perigo.
Ninguém deve iludir-se! Apesar de inculcar-se constantemente, o genuíno sentimento de brasilidade, manifesta-se a influência de ideologias nazistas e comunistas na nossa vida pública.
O nazismo tem seus mitos, o comunismo tem seus mitos. Criou-se a palavra mística ou por outra, deu-se um novo sentido a esta palavra, que, até agora, significava o estudo das coisas divinas e espirituais.
Fala-se pelo rádio oficial de mística brasileira, sem que se atenda às gloriosas tradições religiosas e sociais da Nação. Proclama-se aos quatro ventos que aa única mística da juventude brasileira deve ser a mística da Pátria. Se esta mística, digamos melhor mentalidade ou concepção, s basear nas leis de Deus e nos ensinamentos da Igreja que plasmou a nacionalidade, merecerá certamente sinceros aplausos de todos os católicos. Porém, se a formação da juventude for deslocada dos princípios genuinamente cristãos, o Brasil lamentará, mais cedo ou mais tarde, a existência de uma geração que mais cedo ou mais tarde, a existência de uma geração que não será mais brasileira, na acepção verdadeira da palavra, e sim neopagã ou bolchevista. Por isso, a organização da juventude brasileira deve obedecer aos imperativos das legítimas aspirações nacionais, resumidos e expressos esplendidamente no lema "Deus e Pátria", como ensina a Ação Católica.
Em discurso por nós proferido perante as autoridades civis e militares mais graduadas de Porto Alegre, externamos os seguintes pensamentos: "Como artífices da grandeza da Pátria devemos, antes de tudo, proibir e afastar teorias dissolventes e sistemas neopgãs, para que não seja solapado o fundamento cristão das nossas tradições, dos nossos costumes e do nosso caráter. Em seguida, impõe-se a todos os brasileiros, desde as condições mais modestas às posições mais elevadas, o dever de contribuir, pelo seu esforço leal e trabalho constante, para fortalecer as instituições pátrias e fortificar os alicerces do Estado.
"A fidelidade aos ensinamentos de Cristo e á observância das leis divinas em todas as atividades particulares e nos negócios públicos constituem condição de capital importância para a prosperidade moral e publica do Brasil.
"Vede, contemplai a Europa em luta! Nós queremos manter a tranquilidade social e a paz pública. Queremos conservar nossas tradições e repelir ideologias subversivas e paganizantes".
As gloriosas forças militares e as nobres classes conservadoras do Brasil não permitirão que ele seja transformado num caos de ruinas morais, religiosas e sociais.
O Brasil deve ser a coluna inabalável da civilização cristã. É este o desejo de todos os bons brasileiros. E quando as outras nações tatearem nas trevas das dúvidas e dos erros, a Terra de Santa Cruz levantará bem alto o luminoso facho da verdade, do direito, da justiça e da genuína fraternidade, para mostrar aos povos o caminho que devem seguir, afim de se tornarem felizes e prósperos.
O Brasil não favorecerá a decadência da civilização, será o seu baluarte inexpugnável, construído sobre o fundamento das leis de Deus e os ensinamentos de Cristo.
O Senado da antiga República Romana dizia em tempos críticos: "Vejam os cônsules que o Estado não padeça detrimento: videant cônsules, ne quid detrimenti capiat respublica".
Sem gravíssima é a responsabilidade dos nossos governantes em face da avalanche de ideias novas e perigosas que estão invadindo todo o mundo.
Quando os gauleses queriam assaltar, de noite, o Capitólio de Roma, a vozeria dos gansos consagrados a Juno, despertou ao general Manillo. Este, avisado do perigo eminente, pode salvar ainda o Capitólio com todas as pessoas que nele se achavam refugiadas. Claro está que os gansos do Capitólio nem sempre gritam com bastante antecedência! Alerta, pois!
Por este e outros motivos publicamos a presente Pastoral, que aliás, como nenhuma outra, poderia ser objeto de plebiscito.
Ressoa ainda nos nossos ouvidos a palavra do Arcebispo Sagrante, que há trinta e dois anos, nos conferiu a plenitude do sacerdócio: "Non ponat lucem tenebras, nec tenebras lucem: non dicat malum bonum, nec bonum malum. Sit sapientibus et inciplentibus debitor; ut fructum de profectu omnium consequatur. Tribuas el, Domine, cathedram episcopalem ad regendum ecclesiam tuam, et plebem sibi comissão. Sis est auctoritas, sis ei potestas, sis ei firmitas: Não substitua a luz pelas trevas, nem as trevas pela luz; não chame mau o que é bom, nem bom o que é mau .Seja servidor dos sábios e dos ignorantes, para alcançar merecimento pelo progresso de todos. Dai-lhe, Senhor, a cátedra episocpal para reger a vossa Igreja e o povo que lhe é confiado. Sede vós a sua autoridade, sede a sua força, sede a sua firmeza".
Sim, Deus é a nossa autoridade, a nossa força e a nossa firmeza!
Queira o Onipotente inspirar aos povos em luta sentimentos de fraternidade e de paz, para que cesse a trágica destruição de tantas nações! Não permita Deus que a nossa Pátria seja envolvida na tremenda catástrofe ou sofra grande danos. Senhor, defendei-nos contra nossos inimigos cobri-nos com o vosso escudo protetor.
Esta pastoral será lida e arquivada como de costume. Podem ser escolhidos os capítulos destinados à leitura nas igrejas. A todos os seus leitores e ouvintes concedemos a nossa benção pontifical.
Et benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper. Amen.
Dada e passada nesta cidade de Porto Alegre aos 13 de setembro de 1940, 32ª aniversário da nossa sagração episcopal.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.