
A CULTURA SOCIAL DA ATUALIDADE
PRIMEIRA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1912)
Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.
Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Como o profeta, ao ser-lhe destinada por Deus a missão de doutrinar o povo de Israel, devemos, na hora presente, exclamar: Domine Deus, ecce nescio loqui: Senhor Deus, vós bem sabeis que não sei falar.
De fato, o Nosso espírito se conturba, e o Nosso coração palpita, emocionado de justas apreensões, em face da sublimidade e do peso característicos do elevado cargo que o Sumo Pontífice Pio X, por indicação unânime do nosso egrégio Episcopado, houve por bem confiar-Nos.
CAPÍTULO I
Os Bispos do Rio Grande do Sul
Três distintos Príncipes da Igreja perlustraram o sólio episcopal de Porto Alegre, com a majestade do seu prestígio, com o brilho do seu saber e o perfume das suas virtudes. Dom Feliciano José Rodrigues Prates, de ilustre memória, foi o primeiro Bispo da Diocese de São Pedro do Rio Grande do Sul. Durante cinco anos, dedicou sua atividade pastoral à Diocese nascente, começando nela a obra de organização e dando-lhe o primeiro Seminário. Seu nome respeitável continua a viver em conspícuas famílias rio-grandenses, oriundas da mesma veneranda estirpe, e foi enaltecido por um dos maiores estadistas do nobre Estado gaúcho.
O segundo, na série de antiguidade, foi o sr. Dom Sebastião Dias Laranjeira, que empenhou o báculo episcopal da Diocese rio-grandense durante vinte e sete anos, governando o seu rebanho com proverbial bondade.
Recordamo-nos ainda deste vulto caridoso e fidalgo, cujos níveos cabelos lhe formaram uma auréola de respeito e santidade. Era ele o Bispo querido do seu povo, que o estremecia, o construtor emérito do majestoso Seminário Episcopal, cujo frontispício ostenta, galhardamente, o escudo das suas armas com a divisa: Confido et spero: confio e espero.
Desnecessário será lembrar-vos as obras feitas e os merecimentos conquistados pelo apostólico sr. Arcebispo Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, que, por tempo de vinte e dois anos, apascentou suas ovelhas com zelo esmerado e reconhecida dedicação, em obediência fiel às palavras de Jesus Cristo que formam o seu lema: Pasce oves meas.
A longa série de benefícios que ele prestou ao Rio Grande do Sul, consagrando-lhe grande parte da sua vida, vós a conheceis, e a sua Exa. Rvma., com satisfação, ofereceis aos vossos aplausos.
Cinco anos trabalhou entre vós o incansável sr. Bispo Dom João Antônio Pimenta, como operoso Coadjutor da Diocese do Rio Grande do Sul e com o direito de suceder ao venerando sr. Dom Cláudio José no governo episcopal.
O sr. Bispo de Pentacomia, hoje diocesano de Montes Claros,
gozava, em alto grau, a vossa estima e confiança, a que faziam jus as suas
nobres virtudes.
Laudemos viros gloriosos: louvemos, pois, a esses varões gloriosos,
nossos pais, tão célebres e ilustres no seu tempo.
CAPÍTULO II
Receios e esperanças
Temos os nossos receios! Pois honrar as tradições de Prelados tão eminentes, continuar a edificar sobre os alicerces por eles lançados, é tarefa pesada para Nossos fracos ombros.
No momento histórico atual, quando o espírito humano tenta romper todos os vínculos de sujeição, e fervilha a evolução social, requer-se um pulso forte e másculo, uma alma grande e tonificada pelo espírito de sacrifício, para dirigir a nau de uma Diocese por entre syrtes dolosas e cachopos que crivam o seu caminho. Daí os nossos receios! À semelhança do Apóstolo São Paulo, devemos dizer: Somos o mínimo dos Bispos brasileiros, e, pela graça de Deus, somos o que somos. Mas, como Deus nos falou pelo seu Vigário na terra, querendo que sejamos o vosso Arcebispo, cumpre-nos respeitar sua vontade e render-lhe obediência.
O que, entretanto, nos alenta e conforta é o fato consolador de não vos sermos estranho ou desconhecido. A nossa meninice desabrochou sob o céu azul do mais belo dos Estados sulinos. Em vossos estabelecimentos de instrução bebemos, a largos sorvos, a ciência e aprendemos a prática da virtude.
Doze anos pastoreamos uma parte formosa da capital rio-grandense, compartilhando a dor e a alegria dos nossos estimáveis paroquianos. De sorte que, como produto moral do vosso meio e, em virtude da disposição do pacto institucional da República, somos um dos vossos, não só de coração, mas por direito e com propriedade, embora o nosso berço não fosse o grêmio ilustre da terra de Osório e de Caxias.
Não ignoramos que trabalhos árduos nos esperam e que a nova Arquidiocese não poucos sacrifícios de Nós reclama.
Por isso, como Dom Sebastião, confido et spero, confiamos no auxílio de Deus, e esperamos merecer o vosso apoio e o concurso generoso de todas as classes sociais, qual garantia segura do feliz êxito da Nossa administração episcopal.
Confiamos em Deus, porque tudo podemos com a graça d'Aquele que Nos conforta; e parece-Nos ressoar aos ouvidos a palavra que Deus dirigiu ao profeta: "Não temas, porque estou contigo."
Para conhecimento da gravidade dos deveres e obrigações que, reciprocamente, vós e Nós havemos de cumprir, não será fora de propósito descrevermos, se bem que a largos traços, o estado da cultura social da atualidade, ou seja, o estado cultural da sociedade contemporânea.
CAPÍTULO III
Tempos parecidos
No ano vindouro, festeja a cristandade o décimo sexto centenário da publicação do Edito pelo qual o imperador Constantino Magno concedia aos cristãos plena liberdade de culto. A cruz, sinal de opróbrio que era, iniciando uma nova fase da história universal, transformou-se no sinal refulgente da cultura cristã e fez reconhecer, como elementos da cultura espiritual e moral, as ideias da cruz: a humildade, a abnegação e o espírito de sacrifício. Quando o imperador Constantino e sua mãe Helena chegaram a Jerusalém, acharam, no lugar onde outrora estivera a cruz de Cristo, uma estátua de Vênus, levantada por algum imperador pagão, com o fim de amedrontar os cristãos. Constantino e Helena mandaram destruir o monumento da deusa lasciva, e no mesmo lugar edificaram um templo imponente, glorificador do triunfo da cruz, do triunfo da religião da pureza e da mortificação sobre a religião da sensualidade e da concupiscência. Esse ato foi a manifestação de santa indignação e nobre piedade, como também o marco de uma mudança radical na vida dos povos. Em nosso século, surgiu um novo paganismo, ataviado com os europeus de uma pretensa ciência, dando combate ao cristianismo. Em várias classes sociais está esquecida a fé no Crucificado, e a lembrança da cruz está enterrada sob os escombros da incredulidade.
Ali, onde no coração e na vida se achara a cruz, querem muitos erigir uma estátua de Vênus, o culto da beleza, do amor sensual, do erotismo, da vida natural em todas as suas formas. E não faltam vozes que afirmem ser necessário que se levantem novamente altares às divindades do prazer, como nos tempos pagãos. Na época presente, portanto, as festas constantinianas, ao mesmo tempo que comemoram e glorificam uma data tão célebre nos anais do cristianismo, dirigem um apelo vibrante a todos os homens de bem, para que, como o imperador Constantino e a imperatriz Helena, empenhem os seus esforços em ordem a fazerem triunfar a cultura cristã, protegendo-a contra as enchentes avassaladoras do neopaganismo que traz em seu bojo a dissolução da família e o desmoronamento da ordem social.
É essa uma luta acérrima, uma luta de vida e de morte. Mas, como Constantino venceu na Ponte Mílvia as tropas de Maxêncio com o poder da cruz, assim a humanidade resistirá à sua derrota completa, se abraçar a doutrina do mesmo sinal divino, se obedecer à Igreja de Jesus Cristo. No horizonte dos tempos atuais, o Salvador apresenta a sua cruz fulgurante ao mundo dominado pela concupiscência e ameaçado do perigo do anarquismo, e lhe diz: In hoc signo vinces, com este sinal vencerás.
CAPÍTULO IV
A cultura admirável do século
Ninguém pode negar que a cultura humana tenha alcançado, no século presente, um desenvolvimento extraordinário. Pois, quem desconhecerá o progresso estupendo nas ciências e artes, na indústria e no comércio? A Igreja não o nega. Ela aplaude o progresso e abençoa os novos inventos, porque, na expressão de São Paulo, "ela é a coluna e o fundamento da verdade". O tempo e o espaço tiveram de ceder às imposições do espírito humano. Em poucos segundos, vence o telégrafo, com ou sem fio, distâncias enormes. A força expansiva do vapor aproxima entre si os países e os continentes. A navegação aérea disputa o record da viação terrestre e marítima. A eletricidade transformou-se em agente poderosíssimo de luz e de energia. A análise espectral revela os segredos ocultos no seio do sol, dos planetas e das estrelas.
Os mares, abrindo os seus abismos, oferecem os seus tesouros ao homem. As máquinas mais possantes, maravilhas do engenho humano, perfuram montanhas e transpõem fundos vales, percorrem túneis e viadutos, unindo os habitantes da mesma terra e ligando povos distantes.
O espírito humano é grande. Tem o orgulho de realizar a palavra do Criador: "Dominai e sujeitai-vos à terra." A ciência descobriu e formulou as leis que regem as coisas existentes no universo, sobre a face da terra e dentro do seu amplo seio. É esse um emprego louvável do sublime dom de Deus, chamado razão, que procura, estuda e acha as leis impressas na matéria pela infinita sabedoria de Deus.
Nenhuma época soube ressuscitar tempos e gerações do túmulo das eras passadas como a nossa. As cidades de Nínive, Babilônia e Pompéia, à vista do mundo estupefato, soergueram-se das ruínas que, durante longos séculos, as cobriram. Os poderosos soberanos que outrora, naqueles lugares, decidiram a sorte do mundo, e cujos nomes são conhecidos pela história profana e sagrada, confessam, por meio dos seus escritos e hieróglifos, as suas façanhas e confirmam as narrações dos livros divinos.
Abriram-se as pirâmides, e os sarcófagos dos Faraós aparecem. Decifram-se documentos que atestam um elevado grau de cultura existente dois mil anos antes da era cristã.
O gênero humano apresenta-se ao espírito do homem como uma coletividade, e os monumentos, a sua linguagem lapídea, reafirmam-nos a verdade revelada pelas páginas da Sagrada Escritura, a saber, que a humanidade começou por um estado mais perfeito do que o atual.
Na política, vemos desaparecer o absolutismo que tiranizava os povos. Já não se compreende como, durante três a quatro séculos, um sistema podia ser reconhecido e empregado que considerava países terceiros como propriedade de um indivíduo, cuja vontade era a suprema lei, e que não respeitava outra autoridade senão a sua própria — e nem a da Igreja, a não ser que aumentasse o prestígio do potentado.
Os povos escolhem agora, exceto em alguns países autocratas, os seus representantes para os congressos nacionais.
É respeitada a liberdade civil, sempre patrocinada pela Igreja, e os direitos políticos e sociais do cidadão reivindicaram lugar saliente, porque é justo que aqueles que pagam pesados tributos sejam ouvidos acerca da imposição dos mesmos. Nota-se uma tendência universal democratizadora dos governos e das instituições políticas.
Em suma, um progresso admirável em todos os domínios da atividade humana.
CAPÍTULO V
O progresso e o mundo incrédulo
Digno de liberalidade divina é esse progresso de que se ufana o século atual. Mas que uso faz desses benefícios? Tornou-se a humanidade mais pacífica e mais feliz? Guerra na Líbia, guerra nos Balkans, greves aqui, revoluções acolá. Tornou-se mais feliz?
Não. O incréu, obcecado pelo brilho das suas conquistas, perdeu de vista o seu fim sobrenatural. Pretendeu vencer a matéria, e esta o subjugou. Querendo espiritualizar a matéria, materializou-se a si mesmo, perdeu os seus ideais eternos e sobrenaturais, os seus pés ficaram presos à terra e se tornou um verdadeiro servo da gleba.
Vem a propósito o mito de Prometeu. Este Titã conseguiu roubar o fogo ao céu para beneficiar a terra. Em castigo, porém, da sua audácia, ficou, por ordem de Júpiter, algemado a um rochedo do Cáucaso, sendo-lhe devorado o fígado, à medida que de novo lhe crescia, por uma águia inclemente.
O incrédulo moderno, que, sem o auxílio de Deus, espalha pelo universo o fogo do progresso e a luz da ciência, revolve a matéria em todo o sentido.
Por isso, o vemos acorrentado ao rochedo do materialismo prático, e a águia insaciável da concupiscência da carne, das riquezas e das honras não lhe concede descanso nem paz, mas fere com bicadas incessantes a sua alma irrequieta. Non est pax impiis: os ímpios não gozam de paz.
Com efeito, não obstante a glória com que a utilização das forças naturais enflora a fronte do século, vegetam por toda parte as mais lamentáveis misérias.
O mais condenável dos vícios é glorificado, e as ciências, letras e artes rebaixam-se à porfia, não somente para justificar e desculpar todas as manifestações da sensualidade, mas para as ensinar e tornar mais apetecíveis.
Desta maneira, quem volve um olhar à grande massa da humanidade lembra-se das palavras de São Paulo dirigidas aos Romanos, quando estes se julgavam nas culminâncias da cultura social: "Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes se desvaneceram nos seus pensamentos, e se obscureceu o seu coração insensato; assim, arrogando-se o nome de sábios, fizeram-se estultos. Pelo que os entregou Deus aos desejos dos seus corações, à ignomínia. E como não tiveram por bem reconhecer a Deus, Deus os entregou a um sentimento depravado que os fez praticar ações indecorosas."
CAPÍTULO VI
Cultura social sem Deus
Altaneiro levanta-se o espírito humano no século atual. Os talentos mais robustos anunciaram, com orgulho, um novo estádio da ciência aureolada de glórias e de triunfos nunca vistos. Os sábios pretendiam solucionar todos os problemas que preocupam o coração humano e, com a luz da razão, esforçavam-se por desvendar todos os segredos e esquadrinhar todos os mistérios do mundo físico e moral.
E a que ponto chegou o século atual? Ao nada. "No nirvana confluem as torrentes de todos os seres e de todas as ciências", diz um; "não há filosofia", exclama um outro; "devemos conformar-nos", declara um terceiro, "com o fato de não termos uma verdadeira ciência da natureza; algumas descobertas fizemos, mas da essência íntima das forças naturais nada sabemos e jamais lograremos saber". Donde vem a vida? Não o sabemos. Donde o sentimento? Não o sabemos. Donde a ideia? Não o sabemos. E nós, qual a nossa origem? Para onde vamos? Qual o nosso destino? Que queremos? "Ignoramus et ignorabimus!"
Sorte deplorável tem o homem separado de Deus! Vemos ali um estado semelhante ao dos pagãos antes da vinda de Cristo, e qualificado por São Paulo como "não tendo esperança da promessa e sem Deus neste mundo".
Todos os homens, por impulso natural, tendem a aproximar-se de Deus e não acham felicidade completa senão na sua plena posse e fruição, como os regatos e rios que não param nem se tranquilizam antes que se unam à imensidade do oceano.
Deus é o amor infinito e a verdade incomensurável: o fim supremo do homem. E eis porque a fé escreveu em caracteres de ouro puríssimo no horizonte do universo a palavra animadora e vivificante de Cristo Redentor, exprimindo o destino da criatura humana: "Vinde, benditos de meu Pai, possui o reino que vos está preparado desde o princípio."
A incredulidade veio apagar essa estrela consoladora, a esperança dos mortais, que já não buscam mais a sua felicidade no céu, mas procuram saciar o seu coração de gozos terrenos.
Se não há imortalidade, a terra é o único cenário em que o homem começa e termina toda a sua existência, como a flor do campo, que hoje nasce e perfuma os ares, e amanhã murcha e desaparece como se jamais existisse.
Segue-se daí o gozo do maior número possível de prazeres que hão de substituir o Deus de outrora.
Tremei ante a multiplicação dos prazeres ilícitos! A carne celebra orgias, mais ignominiosas porventura do que as bacanais de Roma e de Atenas na época de sua decadência. Os sentidos não passam, para muitos, de faculdades receptivas do prazer.
Teatros, cinemas, a literatura, as ciências e as belas artes, o luxo, a imoralidade, tudo convida os homens a dizer: "Engrinaldemos a nossa fronte de flores, bebamos e comamos, porque amanhã termina definitivamente a nossa existência."
O gozo gera a ganância. Enquanto o homem acredita em Deus, o trabalho é considerado como um meio honesto e nobre para garantir a sua subsistência. Mas, desconhecidos os altares de Deus, o homem só quer ganhar e possuir, sem atender à legitimidade dos meios de aquisição. Daí as falências fraudulentas, os escândalos bancários, os subornos, os estelionatos, o roubo dos dinheiros públicos!
O ouro governa o mundo, compra a honra e o pudor, e vende a consciência e a Pátria; é o mammon todo-poderoso. Baniu-se ou quer-se banir da sociedade a influência da religião, pelo que o abismo cavado entre as classes sociais sempre mais se alarga e aprofunda. Falta a ponte: a doutrina da Igreja.
A religião é a defensora da justiça, pois se ela diz a uns: trabalhai, procurai por meios honestos melhorar a vossa sorte, mas daí a cada um o que lhe é devido; aos outros declara: usai de medidas justas, quem lesa a justiça é réu e sujeito à punição.
Com a religião, desterrou a cultura moderna a resignação e a paz da consciência do meio do povo. Como anjos tutelares, a resignação e a paz acompanhavam o homem em todos os seus trabalhos e pesares. Elas, porém, não permanecem senão no templo do temor de Deus.
Destruíram esse templo divino e, sobre as suas ruínas, levantaram-se, ameaçadores, os espectros da inveja, do ódio, da vingança e da rebeldia. As massas populares, à semelhança dos grandes da terra, querem gozar e possuir, e não consentem mais que se lhes sopitem os sentimentos de sua revolta com a dualidade falaciosa de promessas e com motivos que elas já não reconhecem.
A opressão do povo pelos magnates desencadeou a cobiça dos pobres e operários, que, em nome da igualdade, reclamam a divisão e a distribuição de todos os bens, por igual, entre ricos e pobres.
Não há que admirar! Destruído o decálogo, que dique querem opor à torrente avassaladora do socialismo?
Em consequência do estado hodierno da cultura social, perde a autoridade o seu prestígio e o seu ascendente sobre os súditos.
Quando Deus é reconhecido como fonte da autoridade, segundo o ensino de São Paulo, quando os súditos, nos seus superiores, veem os depositários de um poder divino, então os chefes das nações governam tranquilamente e os países prosperam. A religião sustenta a autoridade.
A religião é mais poderosa do que as forças armadas de um país qualquer. A Europa curva-se e treme sob o peso das armas. As potências celebram entrevistas e conferências: a paz é fictícia.
E que pensais acerca de um exército sem fé, nem Deus? Apoiará os governos em casos de guerra? Quando o soldado vê no seu general e rei um déspota e um tirano, prestar-lhes-á obediência ao encontrar-se no combate, onde a morte lhe acena?
Um soldado sem religião, em vez de ser um defensor da nação, é um perigo para a Pátria, porque não são as armas que salvam o mundo, mas a consciência e a compreensão do dever.
A irreligião rouba à consciência a sua força e cava a sepultura da estabilidade social.
CAPÍTULO VII
Origem divina da doutrina da Igreja
A doutrina da Igreja não deriva sua origem de fonte humana; não, sua origem é mais alta, mais nobre, ela nasce na fonte eterna e vivificadora que é Deus.
A doutrina da Igreja é esse ribeirão de águas cristalinas que,
oriundo das cristas de elevado monte, desce sereno pelas encostas a fecundar,
reverdecer e florear as planícies.
Pois Deus confiou a sua doutrina a seu Filho, e este aos apóstolos e seus
sucessores, isto é, ao magistério da Igreja Católica. Eis a sua origem. Ouvi o
texto sagrado. Diz Jesus Cristo: "Todo o poder me foi dado no céu e na terra.
Como meu Pai me enviou, assim eu vos envio. Ide, ensinai a todos os povos. Ensinai-os
a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado. Eu estarei convosco até a
consumação dos séculos. Pedro, eu tenho rezado por ti, para que a tua fé não
desfaleça. Confirma os teus irmãos na fé. Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos
despreza, a mim despreza. Euntes, docete!"
Nós compreendemos o valor e a importância destas palavras. Pois quem as profere? É Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ele fala como Messias, Ele fala como Salvador, Ele fala como Deus. Jesus Cristo não é um desses mestres humanos que vêm e desaparecem, como as nuvens fugazes no firmamento. Jesus Cristo é um princípio que tudo domina; um centro de atividade que tudo move; é um foco de luz que tudo ilumina; é uma fonte que tudo vitaliza; um rei que tudo conquista e tudo possui.
Mas, não tendo Ele vivido senão em tempo e lugar determinados, como pode estender o seu império a todos os tempos e a todos os lugares? Pela Igreja.
A Igreja é a continuação, a irradiação, a expansão de Cristo no mundo. Como pode a Igreja tomar posse da humanidade? Pela sua doutrina!
Portanto, a doutrina da Igreja acha-se em Deus como na sua fonte, como no seu manancial. E das profundezas da eternidade ela comunica-se a Jesus Cristo, e Jesus Cristo a confia à Igreja, para que esta a derrame sobre todo o mundo, sobre toda a sociedade humana, sobre as almas, a fim de incorporá-las ao divino Redentor. In hoc signo vinces.Erguendo a nossa mão, vos abençoamos com todo o amor e carinho em nome da Santíssima Trindade.
CAPÍTULO VIII
Prestígio da doutrina eclesiástica
Daí a grande autoridade da doutrina da Igreja. O episcopado católico unido ao chefe supremo, o Papa, ensinando por si ou pelos seus sacerdotes, tem por pedestal a Escritura Sagrada e a Tradição de dezenove séculos.
Por mais imperfeita que seja na forma a palavra do padre católico, ela possui uma força convincente, uma autoridade divina, porquanto vem de Deus, por intermédio de Jesus Cristo e dos apóstolos, e seus sucessores.
O padre procura a doutrina que prega, não em si mesmo, mas nos lábios da Igreja, divinamente instituída e divinamente infalível. Quando por ventura qualquer sacerdote se afasta da verdade, é ele repreendido pelo seu Bispo, e o Bispo, por sua vez, quando declina do caminho da verdade, é admoestado pelo Sumo Pontífice, que recebeu a missão especial de confirmar os seus irmãos na fé.
Por isso, a doutrina da Igreja não engana, não subleva ou seduz as massas populares, porém ilumina-as e as dirige pela senda da verdade e do bem.
Comparai a doutrina da Igreja com a palavra do anarquista, que em plena rua sobe a uma tribuna improvisada e brada aos quatro ventos: "Companheiros, há homens que tudo possuem e nós estamos na miséria; há apolentados que governam e nós estamos em escravidão; há homens que se divertem e alegram e nós sofremos privações e choramos. Faça-se justiça ao povo! A nós, de hora em diante, assiste o direito de possuir, a nós, cumpre governar e divertir-nos. A nós deve pertencer a terra, a nós o dinheiro, a nós o poder! Abaixo os tronos, abaixo as cátedras presidenciais!"
Com esta linguagem inflamada pretende-se esclarecer o povo e consolá-lo. Mas no fundo esse mesmo povo é iludido e explorado. Aquela maneira de falar pode ser hábil, mas é certamente falsa e subversiva da ordem estabelecida.
Sob o pretexto de salvar o povo de suas condições precárias, é ele ludibriado, revolucionado e desmoralizado. Suas misérias físicas tal orador não minora, e as suas necessidades morais aumentam na proporção em que o povo vai perdendo a fé e, com ela, a esperança, a moralidade e a resignação.
São reprováveis semelhantes discursos e escritos, enganadores do povo simples e fiel, que desencantando a terra, suprimem o céu, nada remedeiam e tudo deixam a perder. Ouvi, porém, a doutrina da Igreja. Sua palavra não ilude, porque exprime a verdade. Sem dúvida, a Igreja é a protetora por excelência dos humildes e pequeninos, e tem defendido o povo em todos os séculos e sob todos os regimes civis. Sem ter a responsabilidade dos males que afligem as classes populares, a Igreja é autora da sua libertação e grandeza. Uma coisa, porém, jamais fará: enganar o povo! E por isso nunca nós sacerdotes e Bispos lhes temos dito e jamais lhes diremos que o seu paraíso se acha sobre a terra, que qualquer superior é seu inimigo, que sua missão é gozar, que um dia virá em que o progresso dispense o trabalho e acabe com todos os sofrimentos. Isto nunca diremos ao pobre, às classes operárias, porque seria fazer-lhes promessas sem esperança de as cumprir.
O que lhes dizemos é que o trabalho é uma lei divina imposta à humanidade, que o trabalho da inteligência não é menos penoso que o trabalho manual; que a desigualdade das condições sociais é necessária, que o fim desta vida é conhecer, amar e servir a Deus, para que depois da morte possamos ser felizes na eternidade. Esta é a doutrina da Igreja. Austera, sim, mas verdadeira.
E o sacerdote católico que ensina esta doutrina, embora o seu nome não brilhe no frontispício dos templos da ciência, é o depositário e o órgão legítimo da palavra divina, porque não fala em seu nome pessoal, e sim em nome de Deus. Portanto, podeis avaliar a influência benfazeja que a doutrina católica exerce sobre os costumes dos povos, e a necessidade dos inimigos do sacerdócio que desprezam os ensinamentos do legítimo funcionário da Igreja. Porque Cristo Senhor Nosso declarou com relação aos apóstolos e seus sucessores: "Quem vos despreza, a mim despreza." A doutrina da Igreja é o sinal operante da reforma da cultura social da atualidade: In hoc signo vinces!
CAPÍTULO IX
Prestígio da doutrina eclesiástica
A humanidade é móvel e inconstante como o oceano, cujas ondas ora se elevam como montanhas, ora desaparecem em profundos abismos. Ela adora hoje o que ontem amaldiçoava e destrói hoje o que ontem era objeto de sua doutrina.
Filósofos levantam cátedras que seus discípulos amanhã destroem. Teorias e hipóteses são hoje proclamadas como admiráveis achados da sabedoria humana, e daí a poucos dias são declaradas suposições falsas. Todas as verdades morais e eternas, de um dia para o outro, são adulteradas e negadas. Quereis um exemplo?
Kant, o filósofo de Koenigsberg, pretendeu derrocar a antiga filosofia e apresentou à humanidade a sua teoria da crítica da razão pura. O mundo científico rendia homenagens ao brilhante astro nascente.
Mas, por pouco tempo, se conservou inatingível a sua glória. Os seus próprios discípulos se encarregaram da crítica e da destruição do seu sistema. Fichte chama o mestre de cabeça desvairada. Hegel vê na teoria de Kant uma teoria racional que prescinde da razão. Herbart diz ser falsa a cosmologia de Kant, do princípio ao fim. E. Von Hartmann afirma que o sistema de Kant leva o homem ao ilusionismo absoluto, em que escancara o abismo do nada fingindo um mundo.
Frisar outros exemplos como este não seria difícil.
É, pois, preciso que haja uma sentinela invencível para defender a verdade. É preciso que haja uma atalaia que avise à humanidade da falsidade ou verdade desta ou daquela doutrina; é preciso que haja um farol que mostre aos navegantes o rumo que devem seguir e os escolhos que devem evitar.
Essa sentinela avançada, essa atalaia altaneira, esse farol rutilante é a Igreja Católica, a quem Deus disse: "Eu te confio a minha doutrina; guarda-a bem, guarda-a intacta. Ninguém lhe acrescente uma sílaba ou lhe tire uma letra nem a adultere, embora um anjo do céu venha ensinar o contrário." Guarda o depósito sagrado intacto: Depositum custodi.
A Igreja protege e defende o tesouro da fé contra os ataques do filosofismo e das heresias. O arianismo nega a divindade de Jesus Cristo, e a Igreja fulmina esta heresia, proclamando Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem! Os inovadores do século XVI revoltam-se contra o ensino da Igreja; porém, ela prefere perder nações poderosas a ceder um ponto dos seus dogmas!
Nega o materialismo a existência de Deus e a imortalidade da alma; a Igreja prova ambas as verdades com argumentos irrefutáveis oferecidos pela razão e pela fé! Há sistemas filosóficos que negam as leis da causalidade e da finalidade humana; a Igreja lhes opõe a origem divina do homem e o seu fim sobrenatural.
O espiritismo nega a existência do castigo eterno e admite a reencarnação das almas; e a Igreja com voz tonitruante lhe repete a palavra de Deus: foi decretado que o homem morra uma única vez, depois da morte segue-se o juízo, e os maus irão para o inferno e os bons para o céu!
Levanta-se uma doutrina nova chamada modernismo, atacando pela raiz os dogmas da Igreja, seduzindo luminares da ciência. A Igreja, porém, examina essa nova doutrina e, sem atender à qualidade de pessoa, avisa os fiéis e condena o modernismo! Ela é a guarda da fé, cumpre a ordem do Apóstolo: depositum custodi.
E não se diga que a Igreja hostilize os tempos modernos. Não, porque ela não pode pactuar com o erro! Se a Igreja diz: amarás a Deus sobre todas as coisas, não pode aprovar os procedimentos daquele cujo deus é o dinheiro, o prazer, e grita: comamos e bebamos, ponhamos coroas de rosas sobre nossas cabeças, amanhã morreremos.
Se a Igreja ensina: guardarás os domingos e festas, poderá ela pactuar com aqueles que profanam o dia do Senhor? Ela manda que os filhos respeitem os pais e obedeçam às suas ordens, por isso se recusa a abençoar filhos desobedientes!
Ela diz: não pecarás contra a castidade, e consequentemente
deve verberar e condenar os pecados contra a santa pureza, sejam eles cometidos
por pensamentos, palavras ou obras. E se ela manda que todos amem o seu próximo
como a si mesmos, é forçoso que ela reprove o homicídio, o ódio, o furto e a
inveja, e proíba qualquer ofensa irrogada ao nosso semelhante.
A Igreja não pode pactuar com o erro! Ela guarda o tesouro da fé! Depositum
custodi! Guardai também vós o sagrado depósito da fé de Jesus Cristo e
atendei à palavra da Igreja!
Sois pobres? Guardai e praticai a fé, porque ela vos garante a felicidade
eterna, já que neste mundo não possuís pois honras nem fortuna! Sois ricos?
Guardai a fé, para que as vossas riquezas terrenas não vos roubem os laços
eternos!
Sois moços? Guardai a fé! Porque a fé é uma estrela resplandecente que vos preserva do mal e mostra o caminho da virtude através dos escarcéus das paixões! Sois velhos? Guardai e praticai a fé, por ser ela a ponte que vos leva à vida eterna!
Sois sábios? Guardai a fé, porque a ciência e a fé são dois raios de luz emanados de Deus; a fé premune a ciência contra o erro! Sois políticos? Guardai e praticai a fé, porque uma política sem Deus é a tirania e a desgraça dos povos! Depositum custodi!
Guardai-vos todos a fé que a Igreja Católica vos ensina, a fim de que, quando vier o Senhor, possa a cada um de vós dizer: Servo bom e fiel, porque guardaste intacto o depósito da fé, eu te concedo como recompensa uma glória sem fim! In hoc signo vinces.
CAPÍTULO X
O intérprete legítimo da Doutrina de Deus
Poderemos nós interpretar a nosso talento a doutrina de Deus confiada à guarda da Igreja? É a doutrina de Deus um cofre de preciosidades que cada um possa abrir? Não, a doutrina de Deus necessita de intérprete oficial e juramentado.
Os homens sensatos vituperariam o legislador que, querendo promulgar um código de leis, no lugar de confiar a sua interpretação autêntica e a aplicação autorizada a uma assembleia de magistrados investidos de autoridade indiscutível, proclamasse aos seus súditos: "Eis o código de leis que vos há de governar; lê-o, interprete-o como bem vos pareça; ele não obrigará senão no sentido em que cada um de vós o entenda, e ser-vos-á permitido rejeitar toda a explicação e todo o comentário que contrarie a vossa opinião pessoal."
Que pensaríeis desse legislador? Vós direis que ele perdeu o senso comum e procede como um estulto, e tereis razão. Aplicai esta teoria às nossas leis civis! Amanhã a humanidade voltaria ao estado selvagem.
E haverá alguém que pretenda que Deus tenha deixado a interpretação da sua doutrina à discrição da razão individual, isto é: ao orgulho, às paixões, ao egoísmo de cada um?! Isto é impossível.
A doutrina de Deus não será compreendida pelos ignorantes, será
adulterada e desfigurada, se não houver para explicá-la uma autoridade viva,
autêntica, oficial e infalível.
Esta autoridade é a Igreja; a ela disse Jesus Cristo: "Ensinai a todos os
povos; ensinai-lhes todas as coisas que eu vos mandei; e eis que eu estarei
convosco todos os dias até a consumação dos séculos; e quando vier o Espírito
Santo, ele vos ensinará toda a verdade; e quem não crer será condenado!"
Em virtude deste decreto, a Igreja é o único intérprete oficial e autêntico da doutrina de Deus. E, por isso, a Igreja prepara, habilita, com a maior solicitude, os ministros da sua doutrina.
Os sacerdotes estudaram e estudam todos os dias a ciência sagrada. Durante os anos mais belos da sua vida, o padre, fechado num Seminário, aprende a religião sob uma disciplina severa. E, quando ordenado, o jovem sacerdote abre a sua boca para anunciar as verdades religiosas, ele é mais competente do que 95% do seu auditório. E não deixa, daí em diante, de ocupar-se com as ciências teológicas no meio dos trabalhos das suas funções sacerdotais.
Diz-se: cada um é autoridade no seu ofício. Ora, em matéria de religião, um vigário do sítio é geralmente mais competente do que um membro do Instituto Histórico e Geográfico, e se bem que sua inteligência seja medíocre, suas afirmações não deixam de ter valor. Em assuntos de arquitetura, vós não consultais a um alfaiate, mas vos dirigis aos arquitetos; e quando se trata da arte militar, não procuramos um médico ou um sapateiro, e sim um oficial, um general. O engenheiro de estradas não pede a opinião de um advogado ou de um pintor, quando estuda a construção de pontes e túneis.
Por que razão, pois, o clero não deverá ter a última palavra em questões teológicas e religiosas? Os sacerdotes são os profissionais nestas disciplinas, eles é que receberam a missão oficial de pregar e explicar a doutrina da Igreja.
Disto se infere que todas as mais religiões ou facções religiosas não podem ter a devida competência e autoridade na interpretação da doutrina de Deus. Essas facções religiosas são como navios em alto mar, sem leme, que se perdem no meio de tempestades e perigosos escolhos, o que muitos dos seus adeptos confessam.
Se quereis, portanto, instruir-vos na fé, a cuja bandeira jurastes fidelidade, ouvi a doutrina da Igreja! Se quereis aprofundar os vossos conhecimentos religiosos, não consulteis a um profano na matéria, não busqueis a verdade nos jornais e revistas anticlericais, porque são suspeitos; mas procurai e estudai livros aprovados pela autoridade eclesiástica sob a direção competente do clero – o Papa, os Bispos e Sacerdotes – intérprete legítimo da verdadeira doutrina. Porque só à Igreja Católica Jesus Cristo, o fundador do Cristianismo, declarou: Euntes, docete: Ide, ensinai a todos os povos, ensinai-os a crer todas as verdades que eu vos ensinei.
A Igreja recebeu a sua doutrina de Deus, ela a guarda como tesouro, o mais precioso, ela a interpreta e explica com autoridade divina e infalível. In hoc signo vinces!
CAPÍTULO XI
Problemas morais
A doutrina da Igreja soluciona os mais graves problemas da ordem moral e religiosa; é o sinal da salvação: In hoc signo vinces!
O navegante que atravessa o vasto oceano, indo de um continente a outro, entregue a um frágil barco, não está obrigado a conhecer cada uma das estrelas que esmaltam o cerúleo firmamento, que rutilam na imensidade dos espaços celestes; isso não lhe é possível. Tão pouco está ele obrigado a conhecer, em seus últimos detalhes, todos os abismos e todos os rochedos que encobre a vastidão dos mares; isto não lhe é possível.
Mas, sob a pena de desviar-se do rumo certo e de despedaçar sua embarcação em meio a escarcéus e recifes, deve conhecer, ao menos, algumas estrelas mais resplandecentes, certas constelações que lhe indiquem a rota através das densas cerrações do oceano; é obrigado a conhecer, ao menos, tais ou quais correntezas marítimas que deve seguir ou evitar, tais ou quais rochedos onde pode naufragar e que deve contornar.
Ora bem, lançados por Deus sobre este vasto oceano da vida presente, não podemos ter conhecimento exato de todas as ciências nem ser profundos em todas as disciplinas do saber humano. Entretanto, sob pena de errarmos o caminho e não atingirmos nosso destino, é mister possuirmos algumas verdades essenciais, primordiais, que são o patrimônio de todo ser racional.
Quem é o homem? Donde vem? Para onde vai? Que caminho deve seguir? Eis questões que saem, brotam e jorram espontaneamente da alma humana e reclamam pronta resposta.
Quem é o homem? A esta pergunta responde-me a ciência barata, a ciência sem Deus: o homem é um conjunto de matéria vitalizada, dotado de movimentos e diversas funções. Tem um cérebro ou massa encefálica, cujas secreções se chamam pensamentos. Age por instinto, por isso sem liberdade e, consequentemente, não tem a responsabilidade dos seus atos: os criminosos são degenerados, e em vez de punidos devem ser tratados como doentes. Donde vem o homem? A mesma ciência replica: a resposta é fácil. O homem, sendo o ente mais aperfeiçoado na escala da animalidade, é logicamente o descendente do animal mais perfeito, que é o símio ou, em linguagem vulgar, o macaco. Portanto, segundo esta teoria, nossos tataravôs eram quadrumanos que faziam trejeitos e caretas e se divertiam nos arvoredos das florestas.
Para onde vai o homem? Diz essa ciência sem Deus: o homem, não passando de animal aperfeiçoado, acaba sua existência com a morte; porque, sendo totalmente matéria, nada lhe sobrevive. Por isso, o fim do homem é o prazer, a satisfação das suas inclinações.
É esta linguagem envernizada com a cor da ciência que muitas vezes ouviste, são semelhantes aos conceitos que em jornais e revistas leste.
Esta linguagem, porém, não é a palavra da verdadeira ciência. Não! É a linguagem da ignorância, da semi-ciência, a linguagem daqueles que temem a responsabilidade dos seus atos, que temem a justiça de Deus e a punição na vida futura.
A doutrina da Igreja, de perfeito acordo com a ciência genuína, oferece-nos a única solução completa daqueles problemas, os mais elevados da ordem moral e religiosa. Que sou eu? Um ser composto de corpo e alma. Um ser livre e responsável por meus atos, um ser degenerado pela prevaricação de Adão, o primeiro homem, cabeça de toda a raça humana, mas um ser divinamente restaurado por Jesus Cristo, o Filho de Deus, cujo sangue precioso expia todos os crimes e vivifica todos os homens.
Donde venho? Eu venho de Deus, o ser dos seres, a natureza infinita, Criador do céu e da terra, que criou os primeiros homens e cria ainda hoje todas as almas humanas; venho de Deus, uno na substância e trino nas pessoas, venho de Deus que é meu princípio e que será meu juiz.
Para onde vou? Para o céu, a pátria dos eleitos no seio de Deus, aos braços da perfeita bem-aventurança. Minha vida passageira é um prelúdio, um noviciado daquela vida sem fim. A terra, vale sombrio e triste, é o pórtico do templo daqueles que moram na luz e na felicidade. O próprio sepulcro, onde se decompõe a nossa carne e se pulverizam os nossos ossos, é como que o lugar de preparação para sua glória e imortalidade. Eu vou para a vida eterna. In hoc signo vinces!
CAPÍTULO XII
A Solução Capital
Que caminho devo seguir? Que devo fazer para chegar ao meu destino supremo? Que devo fazer? A Igreja me responde. Ela me prescreve a lei religiosa, a lei moral e a lei cristã. A Igreja nos explica a lei religiosa. Ela nos diz: "Deus é espírito e aqueles que o adoram devem fazê-lo em espírito e em verdade". Com uma palavra, ela nos revela a natureza de Deus e o culto que lhe é devido. Com uma palavra, dissipa as nuvens do ateísmo que nega a existência de Deus, do panteísmo para o qual tudo é Deus, da idolatria que materializa a divindade.
A Igreja anuncia a lei moral. Ela nos propõe como modelo de imitação este grande princípio que ultrapassa todo o ideal humano: "Sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito". Não é possível indicar para a nossa atividade um termo mais elevado, nem propor à nossa imitação um modelo mais sublime. Para realizar em nós esse ideal divino, a Igreja nos mostra o caminho pelos magníficos preceitos do decálogo que formam o código divino da moral, e pelos conselhos evangélicos que são a eflorescência radiosa da perfeição. Enfim, a Igreja vos diz que, para chegardes ao vosso destino supremo, para cumprirdes a lei religiosa e a lei moral, deveis aproximar-vos de Jesus Cristo, que vos transmite, pelo seu contato celeste, a luz, a força, a virtude e o mérito. É preciso que vós recebais os santos sacramentos, pelos quais Jesus Cristo vos comunica suas graças e suas energias, que vos capacitam a cumprirdes os vossos deveres, vencerdes as dificuldades e alcançardes a vida eterna.
É desta maneira que a Igreja resolve os problemas mais importantes da ordem moral e religiosa. Toda a filosofia antiga veio a naufragar, miseravelmente, sobre esse tríplice rochedo: a multiplicidade dos deuses, a desigualdade crescente da humanidade, reduzida à escravidão, a obscuridade mais profunda dos fins eternos do homem.
A Igreja abre o Evangelho e nos diz: há um só Deus. Ele é espírito e quer que os seus adoradores lhe sejam semelhantes. Vós sois irmãos e um dia se fará a divisão entre os bons e os maus, e haverá plena justiça.
Três pinceladas de primoroso artista produzem diante de nós o quadro perfeito e ideal da nossa origem, do nosso destino, dos nossos direitos e dos nossos deveres; sabemos o que somos, donde viemos, para onde iremos e o caminho que devemos seguir. Há pouco vos dissemos que a vida presente é um mar; pois bem, neste mar onde tantas embarcações periclitam e onde tantas existências naufragam, a doutrina da Igreja é a bússola que nos orienta, é a estrela rutilante que nos ilumina a rota, é o sol que dissipa as trevas da noite. In hoc signo vinces!
CAPÍTULO XIII
Questões de ordem doméstica e social
Além dos problemas de ordem moral e religiosa, a doutrina da Igreja resolve as mais importantes questões da ordem doméstica e social, condições básicas da verdadeira cultura humana.
Quais são as condições da felicidade e da estabilidade da família? A doutrina da Igreja dá-nos ainda uma solução magnífica pela sua precisão e sublimidade. "O homem, diz ela, não separe o que Deus uniu". E ela coloca em plena luz e sobre fundamentos inabaláveis os dois princípios da unidade e da indissolubilidade conjugal. Às mãos da Igreja está confiado este laço sagrado do matrimônio, e vós sabeis com quanta tenacidade ela tem guardado e defendido esse depósito.
A frívola Atenas, a impura Corinto, os últimos romanos e os primeiros bárbaros, a devassidão dos príncipes da Idade Média, as pretendidas reformas do protestantismo, as concessões dos códigos, têm empregado esforços hercúleos para fazer calar, diminuir e corromper a doutrina da Igreja. A Igreja, porém, nunca vacilou, e hoje como ontem, e amanhã, ela ensina e prega a unidade do matrimônio e a indissolubilidade do vínculo conjugal.
Os numerosos protestos dirigidos ultimamente de todos os Estados
do país aos poderes competentes contra o projeto do divórcio absoluto provam o
que aqui fica dito. E da mesma maneira a Igreja defende princípios que são para a cultura social o
que foi a coluna de fogo para os israelitas na sua viagem pelo deserto: um guia
fiel e seguro.
Com efeito, ela promulga o princípio da unidade. "Todo reino dividido em si
perecerá". Lembra assim que na sociedade humana o corpo e alma, isto é, os
interesses temporais e os interesses espirituais, devem andar unidos, que é um
crime separá-los e afastar essas duas torrentes nascidas da mesma fonte, embora
dirijam seus cursos em direção diversa. O povo, entre cujos interesses vitais reina luta, transforma-se em arena
sangrenta e depois será um deserto desolado onde se ouvirá a voz: "Este povo
tudo possuía para ser feliz e poderoso, render glória a Deus e constituir o
ornamento do mundo. Mas caiu de sua grandeza e desapareceu! Por quê? Porque
estava dividido! Omne regnum in se divisum desolabitur." A Igreja proclama o princípio da autoridade. Declara ser necessário que na
sociedade humana haja um poder, e que esse poder deve ser exercido em benefício
público e não pode ser considerado como um instrumento de ambições pessoais.
Antes que, em 1789, fosse promulgada a lei de que o governo é um serviço público, a Igreja já tinha ensinado durante 18 séculos este mesmo princípio da democracia moderna, inspirando-se na doutrina e no exemplo de Cristo: governar é servir, "qui maior est fiat sicut minor, et qui ministratur sicut qui ministrat".
Um terceiro princípio da vida social que a Igreja ensina é o princípio da obediência, "Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus": havendo, porém, conflito entre ambos os poderes, ela acata as ordens do último, porque nesse caso é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens. A Igreja ensinava esta doutrina: "Dê a César o que é de César", quando esse César não era um ente amável ou benfazejo, mas quando, com o nome de César, se enfeitavam imperadores cruéis como Tibério, Nero e Diocleciano. Oprimida por estes imperadores desumanos, a Igreja condenava seus atos detestáveis, mas respeitava suas pessoas, revestidas dos atributos do poder. Tal é a doutrina da Igreja, que se manifesta resplandecente de justiça, sabedoria e moderação.
Não é tudo ainda; para iluminar a sociedade toda agitada e tumultuosa, a Igreja projeta sobre ela a luz de um outro princípio desconhecido ou desprezado antes do seu estabelecimento, o princípio da fraternidade e da solidariedade.
Ela repete a palavra do Mestre e diz a todas as classes de homens: "Vós todos sois irmãos!
Não façais uns aos outros o que vós não quereis que se vos faça! O que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fareis! Um copo de água fria dada em meu nome não ficará sem recompensa! Amai-vos uns aos outros!"
Este princípio da fraternidade transformou a sociedade humana, implantando nela uma nova cultura!
Enumerai as obras de beneficência, os estabelecimentos de caridade que este princípio criou em todo o mundo civilizado, e principalmente em nosso formoso Brasil! "Vós sois irmãos!" Esta palavra aboliu a escravidão e uniu todas as classes humanas pelos vínculos do respeito mútuo e do amor recíproco.
A humanidade será sempre mais ou menos dividida por opiniões e interesses contrários e, por isso, para que os homens não se digladiem cruelmente, a Igreja estabeleceu o princípio da tolerância. Como o Mestre no Evangelho, ela proíbe que se arranque violentamente o joio do campo do pai de família, quando haja receio de desarraigar com o joio o trigo nascente. Ela quer que, nesse caso, se deixe crescer um e outro até o tempo da colheita. Mostra-nos ela Jesus Cristo, injustamente repelido de uma vila, e os apóstolos indignados lhe dizendo: "Mestre, permiti que façamos cair fogo sobre essa cidade ímpia". E como Jesus lhes respondeu logo: "Vós não sabeis que espírito vos anima? Eu não vim para perder, mas para salvar; para trazer a violência!"
Assim fala a Igreja. Inflexível nos seus princípios, ela é cheia de bondade e condescendência no terreno dos fatos. Quer unidade nas doutrinas certas, liberdade nas duvidosas e caridade em tudo.
Ela não permite ao erro o nome de direito, mas não se recusa a
ser tolerante quando o exigem a disposição dos espíritos e o estado particular
das sociedades, como necessário e útil.
Uma cultura social edificada sobre tais princípios é sólida e próspera. In
hoc signo vinces!
CAPÍTULO XIV
Confrontos
Comparai a importância da doutrina da Igreja com a palavra humana: ouvi a palavra do filósofo! O filósofo interpela a razão sobre as difíceis questões da divindade, da natureza humana, da origem, destino e dos deveres do homem. Mas a sua palavra é incerta e vacilante: "Ignoramus et ignorabimus"; ignoramos e ignoraremos!
A Igreja, iluminada pela luz da fé, ensina, sem perigo de errar, todas estas doutrinas, repetindo a sentença de Jesus Cristo: ego sum veritas, eu sou a verdade! A palavra do historiador que compulsa os anais dos povos dá-nos notícia das instituições das nações, das suas leis, dos seus costumes e da sua sucessão durante os séculos. A doutrina da Igreja é mais importante, porque narra a história da religião, isto é, as operações sobrenaturais de Deus na terra, suas revelações sucessivas, o aparecimento do Verbo encarnado em torno do qual se agrupam todas as épocas e se movem todos os fatos, como os planetas em redor do sol; o reinado de Jesus Cristo sobre as almas, a preparação, o estabelecimento, a conservação, os combates e os triunfos da sociedade religiosa de que Cristo é o Chefe, em resumo, a ação da Providência sobre a humanidade, ou a história dos povos, por seu lado mais importante e mais sublime!
Escutai a palavra do cientista que devassa o firmamento e penetra as entranhas da terra. Sua palavra vos fala do mundo sideral, do mundo mineral, do vegetal e do mundo animal.
A doutrina da Igreja é mais importante, porque não somente nos revela os segredos do mundo humano, mas também as belezas do mundo divino! Ela nos narra as relações admiráveis entre ambos estes mundos. A doutrina da Igreja é a palavra da vida eterna: Ego sum vita, eu sou a vida.
Ouvi a palavra do político honesto e inteligente: o político vos fala em nome da lei e da Pátria: assunto de grande relevância! Mas a doutrina da Igreja é mais importante; porque ela dá força à lei civil, e dignifica e enobrece o conceito da Pátria, declarando que todo o poder vem de Deus e que todo o governo deve imitar a paternal Providência divina, e salvaguardando a liberdade e a moralidade das almas, há de assegurar aos povos a felicidade: Ego sum via, eu sou o caminho!
Escutai, por fim, a palavra do economista, que todos os dias inventa novas combinações. A sua palavra vos promete o paraíso sobre a terra, sem jamais o conseguir. A doutrina da Igreja é de mais valor; porque dá aos homens a paz da consciência e transforma a gélida filantropia em caridade ardente, que espalha o seu calor divino sobre a face da terra. Para que, pois, a cultura social tenha a devida estabilidade e seja digna, de maneira omnimodamente, dos altos destinos da humanidade, é preciso que ela se sente e se inspire nos princípios do cristianismo, na doutrina da Igreja: In hoc signo vinces!
CAPÍTULO XV
Favor invencível da cultura social
Admirável é a invencibilidade da doutrina da Igreja! Quando ela inicia a sua marcha triunfal pelo mundo, todos os povos e todas as raças antepõem-lhe as barreiras dos seus preconceitos e vícios; mas a doutrina da Igreja, como uma rainha vinda do céu, vence em todas as lutas, supera todas as barreiras e, seguida dos povos conquistados para Jesus Cristo, canta o Te Deum laudamus.
Todas as línguas ensinam com a mesma perfeição a doutrina da Igreja. Na construção da torre de Babel, Deus confundiu as línguas, de maneira que ninguém entendia a palavra do seu vizinho. Na construção da Igreja, Deus operou o milagre oposto: todos os povos entendem a mesma palavra, sem a menor quebra da sua integridade; civiliza-se o mundo. Enquanto em redor da Igreja tudo se transforma, sua doutrina não muda os seus princípios; ela fica inquebrantável como um bloco de granito, invulnerável como o sol no firmamento. Eis que o mundo se convulsiona; desaparece o império romano e chegam os bárbaros do norte da Europa, as águias triunfantes de Roma suspendem o seu voo, morre o último César romano. A doutrina da Igreja permanece a mesma, ensinando a esses povos que conquistam a Europa todas as virtudes, reprimindo os seus vícios, sem sacrificar uma sílaba no símbolo nem um preceito do Decálogo.
Contemplai a Idade Média com suas transformações sociais, seus excessos e suas glórias. A doutrina da Igreja fica imutável, salvando, como nos tempos de Tibério e de Carlos Magno, o dogma, a moral e o culto, toda a obra de Jesus Cristo.
Estudai o tempo da Renascença e da Reforma, com as artes que ressuscitam, com a imprensa que recomeça o seu trabalho, com Lutero e Calvino que revolucionam a Europa. Constantinopla é tomada pelos turcos; a meia-lua assombra parte da Europa. A doutrina da Igreja, porém, continua imutável. Ela é tão firme no Concílio de Trento como o fora no Concílio de Nicéia. Ela passa invariável pela América e guarda no velho mundo todo o seu prestígio na eloquência de Bossuet, Bourdaloue e Massillon.
Eis a grande Revolução Francesa: tudo se muda, as ideias, os sentimentos, a linguagem, os costumes, as leis, o código. Tudo é renovado, tudo data de 1789... Sim, tudo, menos a doutrina da Igreja, que fica imutável sobre os lábios de Pio VI, como o é na língua de Leão XIII e de Pio X, e o fora na boca de São Pedro e de São Clemente. Quando tudo se transforma e nada permanece intacto, só a doutrina da Igreja continua a ser o que era, invencível e imutável. Nenhuma potência humana é capaz de curvá-la. Os acontecimentos, tudo reformando, transformam a face da terra. E nessa sucessão de transformações sociais vemos duas colunas. A primeira, gigantesca e orgulhosa, foi erguida pelo imperador Diocleciano, que sobre ela escreveu: Morreu o último cristão: christianum nomen deletunt; a doutrina da Igreja está extinta. Esta coluna não resistiu aos embates do tempo, caiu fragorosamente, desmentindo a inscrição que ostentava. A outra coluna nós a vemos diante do Vaticano, soberana e invencível. Sobre ela a Igreja escreveu sua palavra: Cristo reina, Cristo triunfa, Cristo impera!
Organizam-se novos ataques: as ondas das heresias e das ideias perversas precipitam-se com veemência contra a doutrina da Igreja para a aniquilar. Mas esta palavra divina, mais firme do que o alteroso rochedo chamado Pão de Açúcar, na baía do Rio de Janeiro, resiste impávida e invencível à fúria de todos os furacões.
Marcha contra a doutrina da Igreja o formidável exército das paixões humanas. Os grandes do mundo querem escravizar a doutrina da Igreja para torná-la flexível e condescendente às suas criminosas pretensões. Mas, como o imperador Frederico Barbarossa, depois de guerrear iniquamente com a Igreja, despiu a púrpura real, prostrando-se diante do Papa em Veneza (1177): assim as paixões humanas, embora hostilizem a doutrina da Igreja, veem-se forçadas a render-lhe a homenagem do seu respeito e sujeição. Enfim, as ciências, com as nuvens de suas hipóteses e teorias, pretendem empanar o brilho da doutrina da Igreja. Porém, como o sol que irrompe das nuvens, ela dissipa as falsas teorias, obrigando a ciência a corrigir os seus erros e a reconhecer a imutabilidade da doutrina da Igreja, por ser ela a palavra de Jesus Cristo, que disse: "Passarão o céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras".
E por isso pôde o grande católico francês, conde Joseph de Maistre, dizer: "Nenhuma religião, exceto uma, a católica, sustenta a prova da ciência; a ciência é como o ácido que dissolve todos os metais, exceto o ouro".
A doutrina da Igreja é a vara mágica da cultura dos povos, é o sinal poderoso da divindade: tudo vence! In hoc signo vinces!
CAPÍTULO XVI
O nosso programa
Não haveis de encontrar solução de continuidade no desempenho dos Nossos encargos eclesiásticos, quer quando Vigário do Menino Deus, quer quando primeiro Bispo de Florianópolis, ou como Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.
Nessas três etapas da Nossa vida de sacerdote e bispo, não temos tido, nem teremos, outro ideal senão o cumprimento do Nosso dever, manifestado pela vontade dos Nossos superiores hierárquicos.
As três Bulas Pontifícias, datadas de 1º de agosto do corrente ano, pelas quais o Santo Padre Pio X houve por bem nomear-nos Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, tornarão sempre a base do Nosso governo.
E, veneráveis Irmãos e Filhos caríssimos, podeis estar plenamente convencidos de que todos os Nossos atos administrativos se inspirarão na grata ideia de bem servir esta Arquidiocese e Província Eclesiástica, pelo que sempre procuraremos ouvir e interpretar os desejos, conselhos e ordens dos Nossos respeitáveis superiores.
A escolha dos bispos preside a máximo cuidado. E conquanto o Espírito Santo institua os bispos para regerem a sua Igreja, o Sumo Pontífice e os seus auxiliares empregam na escolha dos prelados diocesanos todos os recursos da prudência humana, no intuito de obter plena certeza da omnímoda idoneidade do candidato, cujas qualidades físicas, morais, intelectuais e gentílicas são maduramente ponderadas.
Revelaria, portanto, deplorável ignorância das praxes da Igreja ou pérfida petulância quem atribuísse à Santa Sé falta de critério ou intenções menos retas em assunto de tamanha gravidade.
Os bispos, em virtude de sua elevada posição na Igreja – posição cheia de responsabilidades –, devem ser de absoluta confiança da Santa Sé. Dai o escrupuloso cuidado na sua escolha.
O programa dos bispos, na sua generalidade, é um só. Contudo, cada um procura terminar o seu modo de agir mais em particular, por meio da sua visa episcopal e do seu escudo de armas.
Conservamos a mesma divisa: Pascam in judicio, apascentarei com justiça. Alteramos, entretanto, o escudo. Vedes ali cinco barcos entrando num porto alegre, cuja significação adivinhais; em cima, lateralmente, o arco-íris, símbolo de Maria Santíssima, gloriosa Padroeira da Nossa Catedral Metropolitana, e o Cruzeiro do Sul, emblema do Brasil. No meio acha-se uma águia, segurando nas garras a chave e a âncora, emblema do Estado de Santa Catarina, onde iniciamos a Nossa carreira episcopal, o qual, além disso, tem para Nós a seguinte significação que sabiamente lhe soube dar um dos mais eminentes Cardeais da Santa Igreja Romana:
"A águia, naquela atitude de voar, simboliza a força, o poder com que a alma se levanta para o céu por meio de oração; e ainda, por meio dessa aproximação de Deus, é que há de manter firme a fé, representada na âncora, e manejar, com firmeza e sabedoria, a autoridade, simbolizada na chave; ambas, a fé e a autoridade, sustentadas nas garras poderosas da oração que é simbolizada pela águia."
Numa carta que dirigimos ao Sumo Pontífice Pio X, externamos estes pensamentos: "Com fidelidade inquebrantável e submissão absoluta à Santa Sé Apostólica, procurarei, com o auxílio de Deus, corresponder à alta confiança que Vossa Santidade me demonstrou, elevando-me à Cadeira Arquiepiscopal de Porto Alegre, baluarte da Fé no extremo sul do Brasil.
No desempenho das minhas novas funções, julgarei-me feliz se puder contribuir algo para a realização dos ardentes desejos de Vossa Santidade, que se resumem em instaurare omnia in Christo, palavras cintilantes de que a minha divisa – Pascam in judicio – é um tênue reflexo. De acordo com este meu lema, colocarei todo o meu esforço em instruir, santificar e reger o meu novo rebanho, segundo as normas do direito, da justiça e da equidade, estabelecidos pela prudência e sabedoria seculares da Santa Madre Igreja.
E penso que este modo de proceder será a prova mais eficaz do meu perene reconhecimento pela insigne honra que Vossa Santidade acaba de conferir-me, e o meio mais útil para promover a glória da Religião Católica e a prosperidade desta minha Pátria."
Tal pensamos, tal faremos com a graça de Deus, de conformidade com os juramentos que prestamos nas mãos do excelentíssimo senhor Núncio Apostólico.
CAPÍTULO XVII
Cumprimentos e homenagens
Reiteramos, na presente data, a Sua Santidade o Santíssimo Padre Pio X, gloriosamente reinante, os Nossos protestos do filial amor e as Nossas homenagens de profunda veneração e perpétua obediência.
Ao seu preclaro Representante junto ao governo da Nação, o excelentíssimo e reverendíssimo Monsenhor José Aversa, DD., Arcebispo de Sards, renovamos aqui as nossas respeitosas saudades e a expressão do Nosso vivo reconhecimento pelas delicadas atenções que Nos tem dispensado.
Dirigimos a Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, egrégio Arcebispo do Rio de Janeiro e glória do Episcopado brasileiro, os Nossos efusivos cumprimentos e o preito sincero da Nossa estima e veneração. Saudações mui respeitosas e cordiais endereçamos ao benemérito Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil, o excelentíssimo e reverendíssimo senhor Dom Jeronymo Thomé da Silva, com quem tivemos a honra de travar, há pouco, amistosas relações pessoais. Saudamos, de um modo especial, o excelentíssimo e reverendíssimo senhor Arcebispo Titular de Anazarbo, Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, o Nosso ilustre e prezadíssimo predecessor, a quem Nos prendem os laços mais íntimos de amizade e gratidão. Sua Excelência Reverendíssima conferiu-Nos todas as ordens eclesiásticas, desde a primeira tonsura até o episcopado inclusive, e agora, por uma disposição admirável da Divina Providência, fomos destinados a continuarmos as suas obras na qualidade de seu sucessor. À Sua Excelência Reverendíssima, de quem guardaremos saudosa recordação, Nossos perenes agradecimentos e saudações cordiais.
Aos Nossos respeitáveis Bispos sufragâneos de Pelotas, Santa Maria e Uruguaiana, os excelentíssimos e reverendíssimos senhores Dom Francisco de Campos Barreto, Dom Miguel de Lima Valverde e Dom Hermeto José Pinheiro, Nossos amigos e anjos tutelares no exercício do Nosso múnus arquiepiscopal, apresentamos efusivos cumprimentos e votos pela prosperidade das dioceses que com exemplar zelo governam.
Igualmente dirigimos saudações cheias de respeito e veneração a todos os venerandos arcebispos e bispos do Brasil, Nossos colegas e insignes mestres.
Ao distinto e operoso clero secular e regular da Arquidiocese de Porto Alegre, do qual vários sacerdotes foram nossos condiscípulos e outros muitos pessoalmente conhecemos: apresentamos Nossas saudações sinceras. O clero será nosso auxílio nos trabalhos, Nossa consolação nos pesares, Nossa glória na vida e Nossa coroa na eternidade. Por isso queremos ser seu amigo, seu irmão, seu pai. Em retribuição muito esperamos de sua cooperação, muito de sua perfeição, disciplina e ciência. Estrela tríplice e brilhante a iluminar-lhe a vida sacerdotal.
Nossos cumprimentos e bons votos ao Seminário Arquiepiscopal de Porto Alegre, onde passamos longos e saudosos anos, consagrados ao estudo das ciências e ao ensaio da virtude!
Oferecemos ao supremo Magistrado da Nação, o excelentíssimo
senhor Marechal Hermes da Fonseca, as devidas homenagens do Nosso acatamento e
mui distinta consideração. Ao ilustre senhor Presidente da República, que
pessoalmente Nos tem distinguido com cativantes finezas, apresentamos
respeitosos e efusivos cumprimentos.
Ao insigne diplomata excelentíssimo senhor Dr. Bruno Chaves, o nosso distinto
Ministro junto à Santa Sé, reiteramos os Nossos cordiais cumprimentos e os
protestos de vera consideração e amizade.
É-nos sumamente grato podermos encontrar ainda, como Presidente do Rio Grande do Sul, o excelentíssimo senhor Dr. Carlos Barbosa Gonçalves, emérito paraninfo da Nossa sagração episcopal e por muitos títulos merecedor da Nossa peculiar estima e gratidão, e como de todo o Estado, que há cinco anos vem governando com admirável proficiência e proficuidade.
Queira Sua Excelência aceitar, de envolta com a segurança da Nossa sincera veneração e inteiro reconhecimento, os Nossos respeitosos cumprimentos, extensivos aos seus nobres secretários e distintos auxiliares.
Ao benemérito rio-grandense excelentíssimo senhor desembargador A. A. Borges de Medeiros, presidente eleito do Estado, e que goza de incontestável e alto prestígio em toda a Nação, apresentamos, com os protestos da Nossa alta consideração, os Nossos cumprimentos e votos que fazemos pela prosperidade do seu futuro governo.
À nobre Assembleia dos Representantes e à íntegra magistratura rio-grandense, que com a presidência são os legítimos órgãos do aparelho governativo do Estado, dirigimos as homenagens do nosso respeito, e saudações.
Cumprimentos cordiais oferecemos ao ilustre Intendente do Município de Porto Alegre, Dr. José Montaury de Aguiar Leitão, e ao operoso Conselho Municipal, bem como a todas as Intendências na Arquidiocese e Estado.
À garbosa milícia estadual, a todas as autoridades ou chefes de repartições estaduais e municipais: as Nossas saudações afetuosas!
Aos eméritos senadores e deputados federais pelo Rio Grande, especialmente ao respeitável senador Pinheiro Machado, tributamos a expressão do Nosso respeito e apresentamos vivo saudar. — Uma coroa de goivos e saudades depositamos sobre o túmulo recém-fechado do ínclito senador Dr. Cassiano do Nascimento.
A todas as dignas autoridades e chefes de repartições federais, militares, civis e judiciárias: Nossos cumprimentos e votos de felicidade.
Ao egrégio Corpo Consular: Nossas saudações e preitos de acatamento.
Cumprimentos afetuosos endereçamos à distinta imprensa porto-alegrense, onde ensaiamos as armas da palavra escrita, e à de todo o Estado. Saudamos cordialmente as ilustradas escolas superiores, a todos os ginásios e colégios públicos e particulares, e escolas paroquiais.
Nossas saudações e bênçãos às paróquias da capital, das cidades e das florescentes zonas coloniais.
Os Nossos cumprimentos apresentamos às distintas congregações de religiosos e religiosas, que inúmeros benefícios têm prestado ao Rio Grande do Sul, às veneráveis Ordens Terceiras, Arquiconfrarias, às Irmandades e Devoções, a todos os Institutos católicos, como sejam os Centros do Apostolado da Oração, Sociedade de São Vicente, Congregações Marianas e congêneres.
Ao ativo Centro Católico, à esforçada Comissão Permanente dos Congressos Católicos, à União Popular, às demais agremiações civis e operárias: as Nossas saudações e votos de prosperidade.
Nossos agradecimentos e saudações às dignas comissões de
recepção.
Às excelentíssimas famílias porto-alegrenses, a todas as classes sociais e aos
fiéis em geral, e de modo peculiar à Paróquia Menino Deus, endereçamos os
Nossos cumprimentos.
Eis aqui terminadas as Nossas saudações, veneráveis Irmãos e Filhos caríssimos, e que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todas vós.
"E àquele que é poderoso para vos conservar sem pecado e para vós apresentar ante a vista de sua glória imaculados com exultação na vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo; ao só Deus Salvador nosso, por Jesus Cristo Nosso Senhor, seja glória e magnificência, império e poder antes de todos os séculos, e agora, e para todos os séculos dos séculos."
Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.
Dada e passada em Porto Alegre, sob o Nosso sinal e selo das Nossas Armas, aos 8 de dezembro de 1912, festa solene da Imaculada Conceição de Maria Santíssima e dia da Nossa posse.
♰ JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.