A CATEDRAL DE PORTO ALEGRE

SÉTIMA CARTA PASTORAL DE DOM JOÃO BECKER, ARCEBISPO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE (Porto Alegre, 1919)

Dom João Becker, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Assistente ao Sólio Pontifício, Prelado Doméstico de Sua Santidade, Conde Romano, etc.

Ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, ao muito Reverendíssimo Clero secular e regular e aos Fiéis da mesma Arquidiocese, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo. 


CAPÍTULO I

Considerações preliminares

Se todas as cartas pastorais que vos temos dirigido, prezados Irmãos e Filhos caríssimos, de fato versaram sobre assuntos de relevância e atualidade, a presente reveste-se de uma importância excepcional, em vista do caráter altamente religioso e social do seu objeto.

Escusado será dizer que em todos os nossos empreendimentos e em todos os nossos trabalhos pastorais, o objetivo que visamos, e o fanal que nos orienta, é o progresso desta querida Arquidiocese, promovido em todas as suas modalidades, e a continuação das nobres iniciativas dos nossos insignes predecessores.

E é isto, justamente, o que perseverem os sagrados cânones e constitui a alta e onerosa missão dos bispos da santa Igreja. Entremos, portanto, logo em matéria, expondo algumas noções preliminares.

CAPÍTULO II

Objeto e fim desta pastoral

O objeto desta pastoral é a construção da catedral metropolitana desta Arquidiocese e da província eclesiástica de Porto Alegre. Por isso, havemos de considerar o assunto sob vários pontos de vista, e, pelo estudo sintético da necessidade do templo exigida pelo culto externo, de sua história, de sua arquitetura entre os povos antigos e modernos, de sua simbologia e da suntuosidade da catedral projetada, chegaremos à conclusão de que devemos, sem hesitação e sem pessimismo, começar a construir o novo templo.

Da consideração do objeto desta pastoral, aparece claramente o seu fim, pois, queremos explicar a necessidade da catedral metropolitana e pedir a todos que nos auxiliem, com seu valioso apoio moral e recursos materiais, na execução do grandioso projeto já conhecido.

Além disto, a leitura atenta desta pastoral contém fartos conhecimentos acerca da arquitetura dos templos e oferece avisos úteis aos reverendos vigários, muitos dos quais estão empenhados na edificação de novas igrejas e capelas.

Com a devida vênia, transladamos para aqui alguns tópicos de uma preciosa carta que Sua Eminência Verma. O Snr Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro se dignou dirigir-nos: "Recebi e admirei a fotografia da futura catedral dessa Arquidiocese; é grandiosa e digna desse povo generoso e convencido de sua superioridade. O que é necessário começar". E declarando Sua Eminência que as grandes igrejas se começam sem se cogitar propriamente no ano em que se terminam, e que o mesmo se poderá dizer da catedral de Porto Alegre, cidade tão católica e adiantada, repete: "Enfim, é preciso começar, nisto está tudo".

Tal é o parecer da maior autoridade eclesiástica do Brasil.

CAPÍTULO III

Necessidade do Templo Católico

O templo é a expressão mais vigorosa do culto externo. Culto significa, em todas as línguas, honra, fé, respeito, veneração, reverência, serviço. Chamamos culto externo, em linguagem litúrgica, às obras e aos sinais sensíveis pelos quais manifestamos aqueles sentimentos; e culto interno todos os nossos sentimentos e atos internos que devemos a Deus, porque nele reconhecemos uma soberania absoluta e todas as perfeições. Claro está que o homem deve a Deus o culto supremo, por ser seu Criador e soberano Senhor.

CAPÍTULO IV

O culto externo

Segundo o pensamento de São Paulo, é o mundo visível um espelho em que se reflete o mundo invisível. As maravilhas do universo, como sejam os inúmeros astros que se equilibram no espaço, os mares que envolvem e os rios que cortam o globo terrestre, a diversidade dos inúmeros seres que povoam a flora e a fauna, os movimentos e as leis que regem a mecânica do mundo sideral, tudo revela-nos verdades que não vemos, a existência de Deus, seu grandioso poder, sua infinita sabedoria, bondade e providência.

Da mesma maneira, o culto externo concretiza e exterioriza as verdades e os preceitos da Religião, assemelhando-se a um espelho em que vemos as maravilhas da ordem sobrenatural, como conhecemos as verdades da ordem natural do mundo físico.

Pelo culto externo tornam-se sensíveis e até palpáveis os dogmas da fé e os preceitos da moral, a grandeza de Deus, a salvação do homem, suas esperanças imortais, seus deveres e sua dignidade.

Assim como a palavra exprime o pensamento do homem, o culto externo expressa as verdades e as belezas da Religião. Por isso, pode-se dizer que o culto externo é o Cristianismo apresentado aos sentidos.

E com razão! O homem, feito de espírito e matéria, exige sinais externos para manifestar os seus sentimentos e para conhecer os desejos alheios. É-lhe até impossível experimentar vivos sentimentos de alegria, temor, esperança ou admiração, sem recorrer logo a manifestações sensíveis, próprias para as patentear exteriormente.

Convém acrescentar que, dificilmente, os sentimentos que devemos a Deus nasceriam no coração da maioria dos homens e neles não durariam muito tempo, se não empregassem sinais externos para os excitar, manter e manifestar aos outros. O que não nos toca sobre os sentidos, nunca nos causa impressão viva e duradoura, pois até as nossas faculdades intelectivas dependem radicalmente das percepções sensitivas, segundo o princípio filosófico nihil in intellectu nisi prius in sensibus.

A própria natureza humana exige, como conatural, o culto externo, porquanto propendemos a manifestar o sentir do nosso coração e os pensamentos da nossa inteligência de um modo sensível. Quando contentes, cintila o prazer em nossos olhos; o nosso rosto ilumina-se qual branca nuvem ao passar diante do disco solar. Quando a dor nos atormenta, anuvia-se o nosso semblante e lágrimas rorejam sobre nossas faces. Quando o temor invade nossa alma, vacilam nossos passos e tremula nossa voz. Em suma: O homem é impelido, pela natureza, a manifestar o que sente.

Deverão, pois, os sentimentos religiosos tão somente fazer exceção? Quem poderá impedir a expansão desses sentimentos, que são os mais nobres e os mais fortes do nosso coração, e que, com veemência, tendem a traduzir-se em manifestações externas? O verdadeiro cristão, portanto, não pode deixar de confessar sua fé por meio das obras que o destaquem por incrédulos.

Não basta que o homem seja religioso no seu coração, é preciso que ele revele sua fé, como a árvore manifesta sua vida, pelo impulso de sua seiva interna, cobrindo-se de viventes folhagens, perfumosas flores e saborosos frutos.

O culto externo é necessário.

O Concílio de Trento declara: "Sendo o homem tal que só, dificilmente, pode, sem o auxílio dos sinais sensíveis, elevar-se à meditação das coisas divinas, estabeleceu a Igreja, como terna Mãe que é, certos ritos, e ordenou que certas partes da Missa se digam em voz baixa e outras em voz alta. Também instituiu cerimônias: tais são as bênçãos misteriosas, as tochas, os incensos, as vestes e muitas outras coisas, segundo a disciplina, e instituições apostólicas".

Composto de corpo e alma, o homem deve a Deus a homenagem de todo o seu ser. A alma honra a Deus pelo culto interno e o corpo, a seu modo, pelo culto externo. Como o homem é o microcosmos, o misterioso compêndio do mundo material, quando se ajoelha diante de Deus, prostra-se todo o universo ante sua divina majestade; de forma que, pelo culto interno e externo, a criação toda se volta a Deus, que por meio do homem recebe a homenagem coletiva de todas as suas obras.

Sem culto externo, o culto interno não teria eficácia, deixaria de existir. Contudo, não queremos dizer que o culto que devemos a Deus consista em meras exterioridades. Nosso Senhor Jesus Cristo, reprovando as hipocrisias dos fariseus, disse: "Deus é espírito e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade"! Pelo que, só a adoração exterior e visível seria reprovável, mas sendo juntamente interior e exterior, será verdadeira e grata aos olhos de Deus. É assim que ambas essas qualidades são essenciais ao culto devido a Deus, para que possa dizer-se digno do homem.

CAPÍTULO V

O culto público

Deus é o criador dos povos e das sociedades, como dos indivíduos. Ele disse: "Per me reges regnant et legum conditores justa decernunt", por mim é que os reis governam e os legisladores decretam o que é justo.

Pessoas morais, pessoas públicas, não podem pagar a Deus o seu tributo senão por meio de adorações públicas. De sorte que todos os povos civilizados e os selvagens, com raras exceções, tiveram um culto público, que lhes proporcionava benefícios de suma importância. Quereis saber a razão? O culto público tem por efeito a edificação comum, o encorajamento na prática das virtudes, no fortalecimento da fé e na propaganda da Religião. Daí, é que reconheceram os próprios gentios que a religião é o fundamento do Estado.

De fato, como muito bem diz um notável autor, do que descura ou despreza absolutamente o culto público, não só peca contra Deus, autor, conservador e governador da sociedade humana; mas também contra esta mesma sociedade em geral e contra cada Estado em particular; pois, quanto está da sua parte, destrói os seus fundamentos, e se torna partidário daqueles que, para desterrar a Religião, começaram por impedir, por todos os meios, o culto público ou impedi-lo por meio de mil vexações.

Prevaricam também contra os seus concidadãos, aos quais não só não edificam e fortalecem na prática da Religião, mas os escandalizam e seduzem com seus perversos exemplos, inspirando-lhes a indiferença religiosa.

Prevaricam, finalmente, contra si mesmos, porque se expõem ao grande e inevitável perigo de perderem a Religião nos seus próprios corações, descurando ou desprezando o culto público e a prática da fé.

Seria coisa fácil, acompanhando a história de todos os tempos, ir demonstrando por ela a necessidade reconhecida e o dever do culto público. Jamais se viu Estado algum gentio sem religião e culto público, quando não do verdadeiro Deus ao menos de deuses falsos. E, certamente, a culpa principal de que os tiranos acusavam os primeiros fiéis, era a de se absterem da adoração comum dos deuses.

Assim é que, em cada página da Sagrada Escritura, encontramos não só em geral o culto externo devido a Deus, mas também, e especialmente, o culto público. Já os Patriarcas anteriores ao dilúvio, Abel, Henoch e Noé, levantaram altares ao Senhor e ofereceram sacrifícios. O mesmo praticaram Abraão, Isaac e Jacó.

O povo israelita recebeu do mesmo Deus todos os ritos e cerimônias relativas ao serviço divino. Na sua longa peregrinação pelo deserto, edificou ao Senhor o Tabernáculo, para os atos cultuais em público, e mais tarde o rei Salomão construiu o maravilhoso templo de Jerusalém, tempos depois destruído e reedificado, aonde os Israelitas, tanto da Judéia como os dispersos pelo mundo, iam oferecer sacrifícios a Jeová, seu Deus.

Também Jesus Cristo, visitando o templo, confirmou com seus exemplos que a cada um incumbe de prestar publicamente homenagens de reverência e adoração a Deus. E seguindo o seu exemplo, já os Cristãos dos primeiros séculos assistiram aos divinos ofícios em comum, já em oratórios improvisados, já em subterrâneos, chamados catacumbas.

A história das religiões do paganismo, desde as suas formas mais imperfeitas, nos prova, igualmente, essa verdade. Os fetichistas chineses reúnem-se nos seus templos chamados pagodes. Os muçulmanos têm sua mesquita, e quando, do alto dos minaretes, se anuncia a hora da oração, caem todos por terra e adoram Allah.

CAPÍTULO VI

O templo, lugar de culto

Conquanto Deus esteja em toda a parte, e o universo seja um grandioso templo, impõe-se a necessidade das igrejas. Em todos os tempos, em todos os povos, tem havido lugares especialmente reservados para honrar a Deus. A culminância dos montes, as profundezas das florestas eram escolhidas com preferência, porque favoreciam mais o recolhimento ou pareciam aproximar o homem mais do céu.

Estes lugares, como assevera um autor já citado, converteram-se entre os pagãos em teatros de crimes. O culto dos astros que se avistavam melhor do topo dos montes, foi a primeira idolatria. É muito provável que uma das razões porque Deus quis que se construísse o tabernáculo, fosse convencer o povo judaico de que não era necessário ir ao píncaro dos montes para se chegar mais a Deus, e que ele próprio se dignava de aproximar-se do seu povo, tornando sensível a sua presença no templo portátil ereto em sua honra. Foi, portanto, o tabernáculo um preservativo contra a idolatria.

Foi também um meio de conservar a piedade dos Israelitas, inspirando-lhes mais respeito e temor ao Senhor, e dando-lhes facilidade de preencherem, mais comodamente, o culto divino. De fato, o tabernáculo estava colocado no meio do acampamento. Nele se viam reunidos, num estreito espaço, os símbolos da presença de Deus e os sinais da sua Onipotência. A arca da Aliança, as tábuas da Lei, os dois querubins de asas estendidas, o vaso cheio de maná, e a vara de Arão lhes repetiam, eloquentemente, assim os benefícios como o poder de Deus, senhor dos elementos, supremo legislador, monarca dos anjos, vingador do crime, pai de seus filhos único santo, único digno de respeito, amor, louvor e adoração.

Todas estas coisas, e outras ainda mais admiráveis, repete aos Cristãos a mais pobre igreja de aldeia. Não é, portanto, verdade, como pretendem certos ímpios, que não seja necessário outro templo mais que o universo. Não, não é suficiente o universo. As três quartas partes dos homens, acostumados ao espetáculo do universo, veem-no sem comoção; entretanto que ficam cheios de admiração em vista dum templo rico e decentemente adornado. Como se entrará nas nossas graves catedrais sem se ficar penetrado de religioso respeito? De mais, o universo, com toda a sua magnificência, não diz ao coração quanto a modesta igreja da aldeia. No topo das colinas, à face do céu, não encontrais a cruz, nem o altar, nem o tabernáculo, nem a mesa sagrada, nem o tribunal da misericórdia, nem a pia batismal, nem os túmulos dos avós, nem nenhum desses símbolos tão cheios de recordações e tão potentes sobre o coração e sobre os sentidos.

E, depois, o templo é um lugar social. Vede se reunis homens, mulheres, velhos e crianças ao ar livre, sobre as colinas, à face do céu, quando está coberta de neve e de gelo a terra ou quando cai a chuva a torrentes! Destruir as igrejas é, portanto, destruir o culto externo; destruir o culto externo é destruir o culto interno, é destruir a Religião, é destruir a sociedade.

Por isso, a conservação dos templos é necessária, e, lamentando que a louca fúria da guerra, ora finda, tenha destruído tantas e tão formosas igrejas no velho continente, levantemo-nos e edifiquemos a nossa catedral, que, além de ser uma exigência, e uma necessidade do nosso culto, é uma homenagem a Deus, segundo a inclinação natural manifestada por todos os povos. Surgamus et aedificemus, levantemo-nos e edifiquemos!

CAPÍTULO VII

Noções históricas do templo

A convicção de venerar a Deus externamente e de render-lhe culto público é tão natural ao homem, que em todos os tempos em todos os lugares, como já dissemos, ela se manifesta. O homem levanta altares sobre os quais sacrifica suas vítimas, destina certos lugares para as suas orações e os considera como sagrados. E esta verdade a confirmam os templos pré-históricos, como os da transição, e aqueles de que nos fala a história da humanidade.

CAPÍTULO VIII

Templos pré-históricos

A pré-história abrange as épocas anteriores aos tempos definidos da história profana. Pela história sagrada sabemos que os homens, já nos tempos primordiais, levantavam altares em lugares públicos a Deus. Também nas épocas de que a história profana não tem conhecimentos exatos e amplos, encontramos o mesmo costume.

Daí, vem que a época da pré-história propriamente dita, caracterizada pelas cavernas e construções megalíticas, ou de enormes pedras por trabalhar, divide-se em quatro períodos, denominados: paleolítico, ou de pedra talhada sem polir; neolítico, ou de pedra polida; idade de bronze, ou seja de cobre; e idade de ferro, conforme os utensílios e armas de que os homens se serviam. As duas primeiras idades são conhecidas simplesmente por idade de pedra e as outras duas por idade do metal.

Dessas épocas remotíssimas existem ainda os monumentos megalíticos chamados Dolmens e Menhires, como também os Cromlechs. O Menhir é um monólito colocado verticalmente. Existe na Bretanha um Menhir de 22 metros de altura, sendo o seu peso calculado em cerca de 250 mil kg. Renques de Menhires formavam as entradas para os túmulos. Os Dolmens, palavra em língua céltica que significa mesa de pedra, são grandes pedras horizontais que descansam sobre outras verticais, e formavam uma espécie de capelas sepulcrais. Encontram-se ainda Dolmens na Dinamarca, Alemanha do Norte, Inglaterra, França, Espanha, em Portugal, etc.

A época de transição é conhecida pelas suas construções ciclópicas, de pedras menores, algum tanto lavradas, formando os muros sem argamassa. Tais construções primitivas são: a porta ciclópica de Tarragona; a naveta, construção de nave voltada com o fundo para cima, que se encontra na ilha de Minorca, na Espanha; as murragas da Sardenha, habitações em forma de cone prolongado ou semielipsóide com escada no interior; e restos de semelhantes construções encontram-se em Tirinto e Micenas no Peloponeso, e na África e na América.

Pela crítica histórica imparcial chega-se à conclusão de que a humanidade, na aurora de sua existência, se achava em estado de perfeição e que, depois, caiu em decadência moral, donde, pouco a pouco, saiu aperfeiçoando-se, passando por várias civilizações até a hodierna. Assim é que o primeiro livro de Moisés nos diz que Henoch, filho de Caim, edificou uma cidade; que já Abel foi o pai dos habitantes das tendas; que Jubal foi o pai dos que tocam cítara e órgão; e Tubalcaim foi oficial de martelo e artífice em todas as qualidades de obras de cobre e de ferro. Também a construção da arca de Noé revela o elevado grau de cultura que possuíam os descendentes de Sete.

Aos tempos pré-históricos pertencem os Cromlechs, ou templos druidas, que constavam de pedras colocadas em forma de semicírculo, elipse, simples círculo, ou retangular, dobrado ou tríplice, sem cobertura. Esses templos rudimentares tinham caráter sagrado e serviam para reuniões políticas e religiosas.

Os Astecas, antigos habitantes do México, construíam templos ou teocalis de proporções gigantescas, como seja o templo de Izamal. Esses templos eram notáveis pela forma colossal de pirâmide escalonada, levando exteriormente escadórios para subir às sucessivas plataformas por que eram constituídos. No alto sacrificavam as suas vítimas. Foi assim edificada a grande pirâmide ou teocali de Cholula, cujas ruínas parecem hoje em dia um montículo natural de meia milha de circunferência, calculando-se as suas antigas dimensões em 55 metros de altura por 453 de lado, na base.

Durante o império dos Incas no Peru, acha-se em todas as cidades ou aldeias um templo dedicado ao sol, que era considerado como deus principal, em virtude dos grandes benefícios que seu calor e luz proporcionam ao homem. Seu templo principal, porém, dedicado ao sol, achava-se em Cusco e denominava-se Coricancha, transformado hoje em convento e igreja de São Domingos. Além dos templos do sol, tinham templos da lua e conventos ou casas das virgens do sol. O plano dessas construções atribui-se originariamente aos Toltecas.

Em outros muitos países encontram-se semelhantes vestígios e ruínas de templos, cuja história, envolta nas trevas do passado, subtrai-se às investigações dos historiadores.

CAPÍTULO IX

Templos dos povos orientais

O Oriente foi o berço das religiões que mais se difundiram pelo mundo, inclusive o Cristianismo. Na história dos grandes povos asiáticos, predomina o elemento religioso; sua filosofia é religiosa, seus filósofos são ascetas. O sentimento religioso manifestou-se neles, apesar de todas as suas tergiversações, mais fecundo que o dos Gregos e Romanos, e as suas religiões oferecem, por isso mesmo, muito mais pontos de contato com o Cristianismo do que as da antiguidade clássica, como diz um notável autor.

Já antes que Roma fosse fundada, antes que a Grécia florescesse, e o império persa existisse, a Índia já tinha atingido a um alto grau de cultura. Entretanto, segundo os críticos modernos, a história da arte indiana chega só a meados do século terceiro antes de Cristo, isto é, começa do tempo do rei Azoka. Das idades anteriores nada há de importância. Desses tempos primevos existem ainda as ruínas colossais de templos subterrâneos, ou grutas artificiais abertas na terra e em rochas vivas, com tetos planos e grossas colunas, estranhamente emolduradas, e que são conhecidos em número de 40 a 50 grupos. Existem, por exemplo, ainda o templo do deus Indra em Ellora, o templo ciclópico de Rameswarth, de Elefanta no Industão, o templo de Karli, o templo de Vreypal-Teypal, etc.

Além disso, são bastante conhecidos pelos contemporâneos os templos indianos, chamados pagodes, que apresentam a forma escalonada, em virtude da sobreposição de vários corpos, em proporção decrescente e alternadamente retangulares e curvos.

Os habitantes do império caldaico e assírio, cerca de 3000 a 1500 e 2000 a 625 anos antes de Cristo, à falta de pedra de construções, serviam-se de tijolos endurecidos ao sol ou cozidos no forno, para as suas edificações. Seus templos consistiam, segundo Heródoto, em construções de forma retangular sobrepostas umas às outras, deixando uma plataforma ao redor de si, para a qual se subia por uma rampa, simples ou dupla, ou extenso escadório exterior. Assim, o templo de Baal ocupava uma área de 370 metros em cada lado.

Representavam eles uma espécie de torre com vários terraços, conforme o número dos seus deuses ou planetas, etc. Na plataforma superior achava-se o santuário. Encontram-se ainda ruínas colossais desses templos em Mugair, Chorsabade, Nimrud, Balavat, etc.

Vê-se, claramente, a influência das artes assírias, egípcias e gregas na arquitetura persa pelas ruínas das antigas cidades medo-persas, hoje descobertas: Persegada, Persepolis e Susa. Como os Assírios, os Caldaicos usavam, no tempo de Ciro, Cambises e Dário, de terraplanos ou plataformas para base de seus palácios, revestiam os muros de mármores relevados e azulejos, e os pavimentos de mosaico. Seus templos, porém, contrastavam visivelmente com a ostentação dos palácios e consistiam em simples edículas em forma de torre, ou em altares ao ar livre, como exigia sua religião deísta, de que os Persas eram sectários e adoravam o fogo, segundo a religião zoroastriana, reformada por Zoroastro, fundador do Parcismo natural e nascido em Bactriana cerca de 1300 antes de Cristo.

O culto egípcio era também solar. A arquitetura dos Egípcios caracteriza-se pelo gigantesco de suas massas. Dos templos do seu antigo império (3892–2423 antes de Cristo) restam apenas poucas ruínas, como por exemplo as das capelas sepulcrais junto às pirâmides, como também de um templo ao pé da enorme esfinge em Gizé. Da mesma maneira, poucas ruínas encontram-se dos edifícios sagrados pertencentes ao primeiro império tebano, como sejam as do templo consagrado ao rei Ammon em Tebas, considerado o centro, ao qual os grandes Faraós do segundo império tebano reuniram as construções suntuosas de Karnak. Os templos mais célebres dessa época remota são os de Karnak e Luxor junto às minas de Tebas, sendo ambos ligados entre si por uma avenida de esfinges que tinha uma extensão de dois quilômetros.

Eram eles santuários nacionais, que agora estão transformados no mais extenso campo de ruínas que se conhece.

Existiram ainda outros templos, como o de Nectanebo I em Filé, o de Amenófis III em Elefantina, o de Deir-el-Bahari, o de Edfú e outros mais.

CAPÍTULO X

Os lugares do culto hebreu

Segundo as narrações históricas da Bíblia, ofereciam os Patriarcas, conforme já dissemos, seus sacrifícios a Deus sobre altares em sítios diversos, como Abel e Caim, no princípio da criação, Noé, depois de deixar a arca, Melquisedec, festejando a vitória de Abraão sobre os reis que haviam invadido seu país e aprisionado o seu sobrinho Ló.

Mais tarde, os Israelitas, na sua viagem para a terra prometida, construíram o Tabernáculo no deserto, por ordem de Deus e segundo o modelo por ele indicado. Serviu o Tabernáculo de templo provisório aos Israelitas, deste Moisés até Salomão. E segundo Vigouroux, "era uma tenda que se assemelhava a uma barraca de luxo dos chefes nômades, mas com a diferença que o teto era sustentado por um sistema de 48 colunas espessas, de madeira de sethim ou acácia, para a tornar mais sólida".

A maneira como estava construído o Tabernáculo permitia transportá-lo facilmente; e, de fato, ele acompanhou os Hebreus no deserto, esteve sucessivamente em muitas cidades da Palestina.

O Tabernáculo foi único, como a Arca que ele devia conter, como o Deus que ali devia ser honrado. Era proibido aos Hebreus, e isto sob pena de morte, que sacrificassem a Jeová em outro lugar, que não fosse o átrio que precedia o Tabernáculo propriamente dito. Salomão construiu o templo grandioso de Jerusalém, que foi destruído por Nabucodonosor em 586 e mais tarde reedificado no tempo de Zorobabel, e reformado e aformoseado algum tempo depois por Herodes, o Grande.

Sob o ponto de vista arquitetônico, o templo de Salomão tinha, segundo o parecer de notáveis arqueólogos, o aparato dos templos egípcios, e a sua decoração continha elementos assírio-persas.

Salomão quis, sem dúvida por ordem expressa de Deus, que seu templo fosse uma reprodução em proporções duplas do Tabernáculo de Moisés. Esse tabernáculo, cujo plano fora dado pelo próprio Deus, assemelhava-se aos monumentos religiosos que os Hebreus tinham tido sob os seus olhos.

Além disso, a construção do templo foi confiada aos Fenícios, que tinham tirado do Egito as suas regras de arquitetura. Tudo devia, portanto, concorrer para fazer do templo de Jerusalém uma espécie de reprodução dos templos egípcios. Dali, sua semelhança, no exterior e na sua disposição interna, com os templos de Karnak e Luxor.

Porém, o mesmo templo era bem hebraico e dele foram banidos todos os sinais de idolatria. Foi adornado com objetos de culto cujo uso e forma tinham sido prescritos pelo próprio Senhor, ao passo que os templos egípcios eram dedicados a ídolos ou seres irracionais e homens por eles divinizados.

CAPÍTULO XI

Antigos templos etruscos, gregos e romanos

Os Etruscos, provavelmente originários da Lídia, habitavam a Itália superior e, passando os Apeninos, chegaram pouco a pouco a ocupar quase toda a Itália, sendo o período do seu maior poder de 800 a 400 antes de Cristo. Segundo Vitruvius, arquiteto romano do tempo de Augusto, os templos etruscos tinham pouca altura e eram muito largos. O culto geral dos Etruscos consistia na crença de divindades lúgubres e misteriosas e de espíritos maus que ameaçavam os homens. Mas havia também cultos locais de diversas falsas divindades que os Romanos, à medida que conquistavam as cidades etruscas, transladaram para Roma, como por exemplo Juno Regina de Veji, Juno Quiritis e Minerva de Falerii, Vertumno e Norcia de Volsinii.

Graças à descrição minuciosa de Vitruvius, conseguiu-se reconstruir o templo etrusco segundo as suas linhas gerais. Em 1887, nas proximidades de Civitá Castellana, foram descobertas ruínas que, segundo as indicações de Vitruvius, devem ser provenientes de um templo etrusco.

A arquitetura monumental dos Gregos é essencialmente religiosa, quer dizer que apresenta seu mais grandioso e seu mais belo desenvolvimento na construção do templo. As obras mais importantes e mais perfeitas da arquitetura grega pertencem, em primeira linha, ao Parthenon ou templo de Pallas, a deusa protetora de Atenas, situado no ponto mais alto da colina da Acrópole.

Na guerra contra os Persas foi destruído este templo, mas quando o grande estadista Péricles, em 465 antes de Cristo, se achava à frente do governo de Atenas, como chefe do partido democrático, mandou reconstruí-lo, em dimensões mais amplas, de mármore pentélico, tirado do monte do mesmo nome. Ictinos, segundo Varrão, um dos sete maiores arquitetos da Grécia, dirigiu, e Calícrates executou a construção monumental, sendo Fidias incumbido das obras plásticas do templo. E é provável que o Parthenon fosse, em 438 antes de Cristo, inaugurado nas grandes festas nacionais, chamadas Panateneias, em louvor à deusa Pallas Athena.

É fato conhecido que a arquitetura grega é clássica, que seus templos eram numerosos e verdadeiras obras de arte. Não cabe aos estreitos limites desta pastoral historiar a arte grega, nem isso é necessário para o nosso fim; basta lembrarmos os magníficos templos de Demétrio e Posseidon em Paestum, de Júpiter em Acras, de Têmis em Ramnus.

O gênio grego era caracterizado pela sua originalidade e pela cultura do belo. Os povos orientais ostentavam nos seus edifícios grande magnificência e proporções colossais, mas não procuravam concretizar o belo nem corporificar a ideia. O povo grego, porém, é o primeiro a quem foi revelada a essência do belo, e que criou verdadeiras obras de arte arquitetônica, plasmando-as num estilo uniforme e definido.

Não há outro povo, como o grego, que deixasse aos séculos posteriores e aos povos civilizados subsequentes, tão ricos tesouros espirituais na ciência e, principalmente, nas belas artes.

Diz Cícero que todas as tendências e ações que pretendem obter a simpatia do povo romano, devem produzir um digno brilho de alta utilidade. Estas palavras caracterizam as qualidades dos Romanos: senso prático, amor à magnificência e à grandeza. Estas qualidades manifestam-se também na construção dos seus templos, que tinham a forma retangular, redonda ou poligonal.

O templo mais célebre de Roma era o santuário nacional de Júpiter na colina do Capitólio. Desapareceu completamente. Dos templos de Saturno e de Vespasiano, ainda restam algumas colunas. Do grandioso templo do sol de Aureliano, encontram-se ainda dois fragmentos de mármore.

O Panteão, o "sacrossanto", ou antes o templo de todas as divindades, edificado por Agripa em 7 antes de Cristo, é o templo mais belo e mais bem conservado da antiga Roma. Destruído pelo fogo, foi reconstruído por Adriano, sendo em 609 transformado em igreja cristã, com o título de Santa Maria ad Mártires, pelo Papa Bonifácio IV.

Lembremos ainda os seguintes templos edificados pelos Romanos na metrópole do mundo e nos diversos países por eles conquistados: o templo de Minerva, o templo redondo em Tivoli, o templo de Vesta, o templo de Côri, o templo de Antonino, de Faustina, etc.

Dos antigos templos romanos não poucos foram transformados em igrejas cristãs, tanto em Roma como em outros países.

Os Romanos receberam dos Gregos os principais elementos arquitetônicos, modificando-os, porém, a seu gosto ou segundo os seus ideais.

CAPÍTULO XII

Origem do templo cristão

Jesus Cristo, fundador da Igreja, ensinava sua doutrina no templo de Jerusalém, nas sinagogas, nos campos e nos lugares públicos. As sinagogas eram oratórios públicos dos Israelitas, que as edificaram em Jerusalém, nas vilas e cidades da Judéia e nos países estrangeiros, onde se achavam domiciliados.

Honrou, pois, o divino Salvador, com sua presença, as casas do culto israelítico, ainda não abolido por Deus, para chamar os descendentes do patriarca Jacó ao caminho do dever e ao grêmio a única Religião verdadeira que ele viera fundar, conforme as predições dos profetas.

Segundo o exemplo do divino Mestre, os apóstolos ensinavam no templo, como nas sinagogas, as doutrinas do Evangelho, e, além disso, serviram-se de casas particulares para o exercício dos atos do culto, conforme lemos nos Atos dos Apóstolos: "Todos os dias também perseverando unanimemente no templo, e partindo o pão pelas casas, tomavam a comida, com regozijo e simplicidade de coração".

Desta sorte, guardava a Igreja nascente uma certa ligação com a religião mosaica, que, pouco a pouco, devia desaparecer para dar lugar ao culto cristão. Essa prática facilitava aos apóstolos a missão no meio do povo de sua raça, e, à medida que se cristianizava a atmosfera do templo e das sinagogas, pela crescente frequência dos fiéis, facilitava-se a passagem da Aliança antiga para a nova.

Em Atenas, São Paulo ensinava a doutrina de Cristo na sinagoga aos Judeus e aos seus prosélitos, e no fórum aos filósofos epicuristas e estoicos, como à classe ilustrada em geral. E, defendendo São Paulo a sua doutrina contra as arguições dos filósofos, foi conduzido por eles ao Areópago, para dar esclarecimentos mais pormenorizados.

Era o Areópago o tribunal ou o conselho mais ilustre e mais antigo de Atenas. Reunia-se no princípio da colina de Ares, ou consagrada a Marte, na parte de cima que enfrentava a Acrópole. Compunha-se o Areópago, segundo uns de 31 e segundo outros de 51 juízes. Mais tarde, transferiu suas reuniões para o Pórtico Real e chegou a exercer o governo inteiro de Atenas. Ainda existia no tempo do imperador Cláudio, e, portanto, no dos apóstolos. Ali, no meio dos Areopagitas, proferiu São Paulo o seu célebre discurso, em que associa uma eloquência e delicadeza áticas ao mais profundo sentimento cristão, e de que os Atos dos Apóstolos conservam um precioso resumo.

Quando começaram as perseguições, celebravam os Cristãos os seus atos cultuais em oratórios privados e igrejas subterrâneas. Mas, quando amainava o furor dos perseguidores, continuavam a praticar o seu culto como dantes. Transformavam as casas particulares, oferecidas pela generosidade dos convertidos, em igrejas. Templos pagãos, edifícios públicos, eram mais tarde convertidos em igrejas cristãs, principalmente no tempo do imperador Constantino. Ele e sua mãe, a imperatriz Helena, construíram muitas igrejas novas e as enriqueceram com munificência real.

As basílicas profanas, ou certos edifícios públicos destinados a reuniões políticas, aos julgamentos e negócios forenses, serviam, no princípio, de templos aos cristãos, e conservavam a mesma feição arquitetônica enquanto permitia a liturgia. Do tipo dessas construções originaram-se as basílicas cristãs e o conhecido estilo basilical. À medida que o cristianismo se propagava, surgiram em todos os países novos templos que primavam pela sua beleza, e em cuja construção o povo fiel, reis e imperadores, empregavam os seus melhores esforços, sem medir sacrifícios, nem poupar meios pecuniários. Assim é que por toda parte os templos cristãos se distinguem pela riqueza de sua construção e pela estética de suas formas.

CAPÍTULO XIII

Sentimento comum

Considerada, embora apenas de relance, a história do templo, é justo perguntarmos: qual é a causa íntima que moveu e continua a mover todos os povos, sem distinção de raças ou céus, a consagrar tão constante e universal interesse à construção do templo? É o sentimento comum a todas as tribos e a todos os povos da terra, é a inclinação inata do homem de reverenciar a Deus mais do que a qualquer outro ser, e adorá-lo como seu Criador, Salvador e supremo remunerador.

Se bem que os povos pagãos, antigos e modernos, tenham uma ideia imperfeita e até viciosa da divindade, todos se esmeram no culto do ser supremo, o que Plutarco sentenciou dizendo: ''Percorrei a terra e achareis cidades sem muralhas, sem letras, sem leis, sem riquezas; mas ninguém jamais viu uma cidade sem templo, sem deus, sem preces, sem sacrifício''. E diz Cícero que não há nenhuma nação, por bárbara que seja, que não reconheça a algum deus, de tal maneira que antes prefere adorar a falsos do que a nenhum. Portanto, é preciso admitir que o fato de que todos os povos consagram templos a Deus tenha sua base na própria razão humana. Os católicos, animados deste sentimento universal, aprimorado pelas luzes da fé cristã, sempre se têm salientado na construção de igrejas e templos magníficos.

Nesta capital, onde os fiéis, com tamanha generosidade, edificam igrejas em diversos pontos, não deveremos possuir uma digna catedral metropolitana, mãe de todas as igrejas da Arquidiocese e superior às catedrais das Dioceses sufragâneas? De certo que sim! Eia pois, "surgamus et aedificemus, levantemo-nos e edifiquemos".

CAPÍTULO XIV

Arquitetura do templo antigo

De toda a variedade de construções, são os templos as que mais têm preocupado os povos, conforme já vimos nos capítulos antecedentes. E é no templo que a arquitetura se desenvolve com maior largueza e esmero. Quereis saber o motivo? Religiosa na sua origem, a arquitetura empregou, antes de tudo, a beleza de suas linhas e os cálculos de suas proporções em honra da divindade.

"É, porém, o templo católico, como muito bem diz um autor já citado, o seu objeto mais nobre, pois a ele preside a dupla ideia, do seu fim prático na utilidade para a reunião dos fiéis, e simbólico, como é, o da semelhança com a Igreja de Jesus Cristo". Antes de entrarmos nesta nova ordem de considerações, digamos algo sobre a estrutura do templo antigo.

CAPÍTULO XV

As formas estéticas dos templos orientais

Volvemos novamente o nosso olhar ao Oriente. A história atesta que os povos orientais, já bem cedo, desenvolveram uma admirável arquitetura que se concentrava, por toda a parte, na construção do templo. O caráter da arquitetura religiosa dos antigos orientais consistia na sua inabalável firmeza, suas gigantescas dimensões e massas, acrescidas de uma magnificência deslumbrante, que causava profunda admiração. Isto correspondia perfeitamente às concepções religiosas dos povos orientais, que consideravam o finito, comparado com o infinito, como nada e sem valor, e que, oriundo do infinito, é por ele como que esmagado e absorvido.

Assim é que o caráter arquitetônico do templo egípcio patenteia uma durabilidade indefectível, proveniente da mole das suas massas colossais, como também uma admirável segurança e simplicidade. O edifício não deverá ser derrocado nem pelas forças do homem, nem pelas forças da natureza. Grandes blocos de pedra são o material do templo. Este santuário, rodeado de uma área santa, é circundado por muros e a entrada é formada de um portal maciço, ou pilão de forma prismática ou de pirâmide truncada, cuja porta trapezoidal, chamada aticurga, tem a seu lado esfinges e, diante, dois obeliscos cobertos de hieróglifos. Segue uma espécie de átrio descoberto e uma grandiosa colunata, chamada pela hípetra, depois de uma sala mais vasta com numerosas colunas, às vezes de 22 metros de altura e 10 de circunferência, denominada sala das assembleias. O chamado santuário é uma sala com muito pouca luz, baixa, como para indicar o misterioso da divindade.

Havia ainda outras dependências, constituindo um conjunto magnífico de centenas de metros de comprimento, e com suas infinidades de inscrições e figuras, em relevo ou em pintura, como a ave fantástica nas cornijas e no teto. Uma avenida, flanqueada por duas largas séries de esfinges, dava, de ordinário, acesso à entrada principal.

A arquitetura do templo egípcio é arquitravada, predominando nela a linha horizontal. Falta-lhe a proporção dos seus membros e a unidade artística, sendo, no seu conjunto, pesada. Severa e simples nas linhas arquitetônicas, exagera a decoração escultórica, em extremo minucioso.

Era plano o teto dos templos e formado de grandes pedras em cima das arquitraves, o que obrigava a aproximação demasiada das colunas internas e tornava considerável a espessura dos muros. Nos capitéis e cornijas notava-se a forma de folha de palmas estilizadas, lotiforme ou flor de lótus fechada ou aberta, e a cariática ou aórtica, constituída por cabeças de mulher, ou da deusa Athor.

CAPÍTULO XVI

Ordens arquitetônicas

Nos primitivos monumentos da Grécia encontramos visíveis reflexos da arte oriental. Mas os elementos que os Gregos tomaram de países mais civilizados, soube o gênio helênico reuni-los, aumentá-los e aperfeiçoá-los, imprimindo-lhes tais condições estéticas que fez deles uma arte sua original, conseguindo, por sua vez, influir na arte dos outros povos.

O sinal característico da arquitetura grega é a regularidade e a boa proporção em todos os elementos que a constituem. A coluna e o arquitrave são elementos essenciais, sendo excluídos arco e abóbada. A elegância e o aparato exterior dos edifícios logo se notam, principalmente nos pórticos e nas fachadas. Predominam a sobriedade e a moderação nos adornos, qualidades essas que na maior parte são motivadas pelos membros dos edifícios ou pelos destinos do mesmo. Enfim, a expressão e beleza harmônica chegam até onde pode atingir o gênio humano desprovido do ideal superior, informado e animado pelo espírito cristão.

Três ordens distintas caracterizam a arte grega, que são a dórica, jônica e coríntia, segundo as diferenças constitutivas dos seus elementos, que são as arquitraves e as colunas. A primeira deriva o seu nome das tribos dórias, a segunda dos jônios, e a terceira da cidade de Corinto.

A ordem dórica, segundo Vitruvio, é caracterizada pela sua magnificência e simplicidade, sem procurar elegância, distinguindo-se, entretanto, por sua riqueza e esmero. O aspecto da coluna dórica é severo e másculo, e não admite adornos. A coluna dórica é diminuída e tem fuste estriado, seu capitel é de molduras, tendo, por baixo, um astrágalo ou moldura redonda, que é a base do capitel, formado de linhas entrantes ou sulcos. No cornijamento aparece o friso, com tríclifos, ornamento próprio da ordem dórica e que consiste em duas cavidades verticais ou canais, separados por três lados, ou dois semicanais laterais, donde nasce o seu nome. O arquitrave é simples, tem listeis, dos quais pendem seis pequenos relevos cônicos, chamados gotas de água. Esta ordem carece de baseamento, que é substituído por uma plataforma de dois degraus. O monumento mais belo desta ordem é o formoso templo do Partenon ou o templo de Palas Athene.

A ordem jônica combina nobre singeleza com grande beleza. A coluna desta ordem é cilíndrica. O capitel jônico é formado de quatro volutas, duas por diante, duas por detrás, montadas sobre quarto de bocel, adornado com óvulos, o cornijamento tem mais molduras que o dórico, levando, quase sempre, dentículos debaixo da coroa. Monumento notável desta ordem é o antigo templo de Artemísio, em Éfeso.

A ordem coríntia distingue-se pelo seu aspecto elegante, sua riqueza, pompa e esbelteza. O fuste da coluna coríntia é estriado como o da jônica, seu capitel é rodeado por duas ou três séries de folhas de acanto, das quais brotam, em cada frente, cálculos ou pequenos cálices de flores, ramificando-se cada um em duas volutas. O ábaco, isto é, a parte superior do capitel, é chanfrado nas pontas e com uma flor em cada face a meio. O arquitrave tem quase sempre três platibandas. Os frisos e as molduras têm relevos e diversos adornos de óvulos e folhagens de plantas aquáticas. A sua cornija é sustentada por dentículos. O monumento chamado corágico, levantado em Atenas em honra de Licicrates, foi modelo desta ordem.

A ordem chamada cariática pertence à jônica e deriva seu nome do templo Erecteion, em Atenas, no qual havia 6 colunas constituídas por figuras de donzelas, chamadas Cariátides, nome proveniente da cidade de Caria.

Assim também há colunas formadas de figuras de homem, chamadas Atlantes.

CAPÍTULO XVII

Disposição do templo grego

A planta do templo grego era retangular e raras vezes circular, e dividia-se em várias estâncias: o pórtico ou pronaos, de formosa aparência, constituía a fachada, havendo, frequentemente, outros pórticos que rodeavam a mesma fachada e todo o edifício. Uma ou mais séries de colunas levantava-se na fachada e circundavam o templo.

A célula ou naos era o corpo central do edifício em que se achava a estátua da divindade ou o ídolo ao qual o templo era dedicado. A célula era um espaço simples. Uma mesa diante da estátua servia para receber as oferendas. Mas o povo ali não se podia reunir. As multidões, em dias de festa religiosa e de sacrifício, reuniam-se diante do templo. Pela grande porta aberta olhava o ídolo, do seu pedestal, para a ara das vítimas, colocada em frente do templo.

Atrás da célula achava-se um compartimento menor ou galeria, para guardar joias e objetos preciosos. No Partenon guardava-se também o tesouro nacional de Atenas. A iluminação do templo era discreta e a luz passava pelos gradis das bandeiras em cima das portas. A célula não tinha janelas, mas recebia claridade pelo telhado. As colunas, as paredes e as estátuas eram decoradas com pinturas policromas e os tímpanos, isto é, o espaço dos frontões compreendido no triângulo entre as cornijas e a base, bem como os frisos e as molduras, continham relevos decorativos. Em geral, o interior do templo grego não correspondia à suntuosidade do exterior, o que perfeitamente condiz com o caráter da religião grega, que consistia em exterioridade.

CAPÍTULO XVIII

Arquitetura do templo romano

O estilo arquitetônico do templo grego transplantou-se pouco a pouco para Roma, sendo aproveitado na construção de palácios e edifícios suntuosos. Os Romanos preferiram a ordem coríntia, por ser a mais rica e bela. Porém, a arquitetura romana modificou a seu gosto os elementos arquitetônicos gregos. Principalmente, manifesta-se a arquitetura grega nas basílicas romanas, que eram, como já foi dito, palácios onde se administrava a justiça, e que serviam para grandes reuniões.

Reinava antigamente em Roma o preconceito de ser ignóbil a profissão de artista, motivo pelo qual até ao mesmo tempo do imperador Otaviano Augusto o povo romano não tinha arte propriamente sua. Entretanto, muitas obras de arte enchiam Roma, provenientes dos países conquistados. Na época deste imperador despertaram os brios artísticos, e quando apareceu a obra literária de Vitruvio sobre a arquitetura, principiou a arte romana.

Os templos, que seguiam o plano dos gregos, admitiam também a forma de rotunda. Sucessivamente, começaram por diminuir-lhes o número das colunas exteriores, ou as substituíam por pilastras. Os arcos e as abóbadas já são empregados na construção dos templos, e toda a arquitetura assume uma fisionomia nacional. A arquitetura retilínea ou arquitravada dos Gregos, onde predominava a arquitrave, transforma-se, lentamente, em curvilínea ou de arco. Muitos são os templos de arquitetura romana, em parte reduzidos a ruínas, em parte conservados, por exemplo o Panteão em Roma, as ruínas de um templo em Évora, do templo de Minerva Médica e as do templo de Baalbek.

CAPÍTULO XIX

Dois ideais

Beleza é a propriedade que os seres têm de excitar numa complacência, e belo diz-se o ente em cuja contemplação as potências cognoscitivas da alma encontram contentamento e repouso na harmonia.

Por isso, diz Santo Tomás: Pulchra dicuntur, quae visa placent. O belo absoluto encontra-se somente em Deus, e todos os seres serão mais ou menos belos, conforme se aproximarem dessa fonte eterna de ordem e beleza.

Daí, se conclui que a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo é o que há de mais belo no universo e, depois dele, Maria Santíssima, que supera todas as criaturas em beleza. Quando o belo ideal se limita às causas materiais e à utilidade, temos o materialismo na arte, cujas fontes predominantes de beleza são as leis físicas e as conveniências materiais, como acontece na arquitetura grega, cujos membros e ornatos tomam sua origem na ideia mecânica.

Temos, porém, o espiritualismo na arte, se o belo ideal se eleva mais acima, predominando a verdade moral ou dogmática no artista, o que se verifica na arquitetura ogival, cujo aspecto revela a origem espiritual das formas que os seus membros e adornos patenteiam.

Ali temos o ideal cristão, que eleva o homem a um mundo espiritual e superior. Jesus Cristo é a manifestação exata do verdadeiro, do belo e do bem absoluto, e a sua vida terrena exerceu a maior influência na arte. Como o Verbo divino sublimou toda a natureza humana em Jesus Cristo, assim a manifestação do Verbo divinizou a arte na Igreja, depositária desta revelação. Tal é o sublime ideal cristão.

Ora, na nova catedral, pretendemos realizar esse ideal infinitamente mais nobre e elevado do que os pensamentos em que os orientais, os gregos e romanos se inspiraram na construção dos seus templos, aliás grandiosos. Não nos moverá um ideal tão sublime? Os pagãos tinham uma ideia imperfeita e mui vaga de Deus, por isso suas divindades eram homens divinizados com suas imperfeições, e seus deuses alegóricos tinham os vícios e as paixões humanas.

Oh! Quão diverso é o nosso objetivo, o nosso ideal! Queremos levantar um templo a Jesus Cristo e queremos dedicá-lo à Madre de Deus, sua bendita Mãe, de quem o inspirado poeta Novalis diz: "Eu vejo-te expressa, ó Maria, em mil imagens, e, contudo, nenhuma delas te poderá representar tal qual a minha alma te concebeu. Só sei que, desde que cheguei a contemplar-te deste modo, o ruído do mundo se desvanece ante mim como uma sombra vã, e um céu infinitamente mais doce tenho em meu coração".

Digamos, pois: Surgamus et aedificemus, levantemo-nos e edifiquemos.

CAPÍTULO XX

A arquitetura do templo cristão

Diz, com muito acerto, o insigne historiador Cesar Cantú: ''A Igreja, apropriando-se das artes, compreende que o efeito moral só é completo quando tem consciência de uma missão elevada, e por isso, fez delas auxiliares eloquentes e prestigiosos da propaganda da fé. A arte antiga propunha-se realizar a perfeição da forma orgânica, segundo o sentimento de uma sociedade viciosa e carnal; falava aos sentidos, pouco à inteligência e ainda menos à alma, o mais que pode atingir foi a elevação trágica. A arte cristã alimentou-se de amor e de esperança, e deu, assim, uma significação moral à alegria e à dor''.

De fato, depois que Jesus Cristo mostrou mais claramente a divindade ao gênero humano, com as verdades reveladas, confiadas à sua Igreja, esta não tem cessado de proclamar o seu reconhecimento, consagrando ao seu divino fundador o que de mais nobre e sublime possui, a saber, o sentimento do belo. Presente gratuitamente divino, a Igreja começou a exteriorizá-lo já nos primeiros séculos, passando pelas catacumbas e por todas as idades até o presente, refundia, ao mesmo tempo, os antigos elementos estéticos e criava outros para as belas artes.

Assim é que o ideal cristão criou diversos estilos arquitetônicos, que em seguida procuraremos descrever.

CAPÍTULO XXI

Os templos subterrâneos

Nas catacumbas, como são chamadas as criptas ou galerias subterrâneas, tumulavam os cristãos da Igreja primitiva os seus defuntos. Destinadas habitualmente para esse fim, serviam também as catacumbas para reuniões dos fiéis e a celebração dos santos mistérios nos tempos de perseguição.

Numerosas são as catacumbas descobertas em Roma, Nápoles, Siracusa, Alexandria, Malta, etc. Nas paredes das galerias abriam-se nichos, onde se depositavam os corpos dos fiéis. Havia, igualmente, abertas nas galerias estâncias ou compartimentos maiores, que eram câmaras sepulcrais de famílias ou associações, e tinham o caráter de capelas privadas. Estas últimas, de maior extensão que as primeiras, eram destinadas às reuniões dos fiéis e às funções litúrgicas, pelo que eram "verdadeiros templos subterrâneos".

Suas formas são várias, umas quadradas e retangulares, outras poligonais ou circulares ou em semicírculo. Em várias catacumbas as igrejas são iluminadas por uma abertura no teto e recebem a luz do ar livre, como nas de São Calisto, São Pretestato, Santa Inês, etc. Já nestas igrejas primitivas verifica-se, embora imperfeitamente, a disposição geral dos elementos dos nossos tempos, como sejam as naves deslindadas para homens e mulheres, o presbitério com a cadeira pontifical, o altar para o santo sacrifício, e os assentos para o clero, colunas de separação entre o presbitério e a nave, nichos para estátuas e o batistério.

Estes lugares venerandos, mais de uma vez profanados e devastados pela invasão dos Bárbaros, Sarracenos, Godos e Longobardos, foram descobertos e desentulhados, sob o patrocínio dos Romanos Pontífices, pelos insignes arqueólogos Bósio, padre Marchi e os irmãos João e Miguel Rossi, reabrindo as portas desses subterrâneos, onde a vida religiosa dos nossos antepassados na fé se tinha condensado e purificado.

CAPÍTULO XXII

O estilo basilical

As igrejas subterrâneas, nas catacumbas, serviam aos fiéis em períodos anormais, por isso, já nos primeiros séculos do cristianismo, construíam templos ao ar livre. De sorte que, na perseguição promovida por Diocleciano, existiam 40 igrejas e basílicas em Roma que por ele foram destruídas. Quando serenaram os tempos, entregaram-se de novo, com todo o afã, à construção de novos templos.

Enquanto no Oriente os templos cristãos se construíam à semelhança do famoso templo de Jerusalém reedificado por Herodes em 355 antes de Cristo, no Ocidente e principalmente em Roma, imitando a arquitetura romana de estilo coríntio e com profusos ornamentos de arte asiática, as primeiras igrejas cristãs tiraram da basílica civil e doméstica a forma e o nome. E uma e outra convinha ao lugar onde o povo cristão havia de reunir-se. Convinha o nome, derivado de basileos, isto é rei, ou antes de stoá basiliké, ou aula real, por ser a igreja cristã a verdadeira morada do sumo rei. Convinha também a forma, porque ao povo dava a necessária comodidade para assistir, com recolhimento, ao Santo Sacrifício e ouvir a leitura dos sagrados livros.

Diz Santo Isidoro que antigamente se dava o nome de basílica à residência dos reis e que agora, porém, assim se chamavam as igrejas do Senhor, porque nelas são oferecidos sacrifícios de adoração a Deus, rei de todos.

As basílicas romanas eram retangulares, divididas em três naves por duas filas de colunas ou pilastras. No fundo se levantava o tribunal.

Entre elas salienta-se a famosa basílica Constantiniana, no Foro Romano, entre o templo de Vênus e de Roma e o templum Sacrae Urbis, impropriamente chamada, umas vezes, o templo da Paz. Começada por Maxêncio, depois que este pereceu afogado no Tibre, foi dedicada a Constantino e por ele completada com a maior magnificência. É formada de um imenso retângulo de 96 por 74 metros, com ábside, aulas espaçosas, nichos para estátuas e arcadas estupendas e grandes óculos. Destas basílicas monumentais, hoje em dia, só existem ruínas.

Três diferenças substanciais achamos na basílica cristã: a nave central sempre tem cobertura, possui uma nave transversal ou transepto ao lado superior do retângulo, formando, assim, uma cruz, e a substituição do tribunal pelo altar e pela cátedra.

As primeiras basílicas cristãs foram construídas por Constantino mesmo, que na sua construção empregou copiosamente os tesouros do patrimônio imperial e do erário público. O Livro Pontifical lembra 7 basílicas fundadas por ele, a saber: a de Latrão, de São Pedro do Vaticano, de São Paulo na via Ostiense, de Santa Cruz em Jerusalém, de São Lourenço extramuros, de Santa Inês na via Nomentana, de São Pedro e Marcelino na via Labicana.

CAPÍTULO XXIII

A Basílica Áurea

A mais notável dentre elas é a basílica Lateranense, ereta na aula principal do palácio, outrora propriedade da família dos Lateranos. É conhecida também pelo nome de Basílica Áurea, em virtude das preciosas obras de mármore, ouro e mosaico que a enriquecem. Transformada em templo cristão, chamou-se Basílica Constantiniana e também Basílica do Salvador, cuja imagem, circundada de ligeiras nuvens e anjos, se admirava no baldaquino do altar, que era sustentado por quatro colunas na ábside, quase sob o arco cruzeiro, e tinha em frente dos candelabros, um de ouro e outro de prata, ambos oferecidos pelo imperador.

Esta basílica não tinha, como as outras, uma cripta, chamada Confissão ou Martírio, sob o altar, onde se guardassem as relíquias de algum mártir insigne ou confessor da fé. Morrendo em 314 o papa Melquíades, a quem Constantino doara a basílica e todo o palácio Lateranense, foi o mesmo templo terminado sob o papa Silvestre, seu sucessor. Como palácio Lateranense serviu de residência dos papas, a basílica foi ereta em catedral dos Romanos Pontífices e denominada Mãe de todas as igrejas do mundo.

A arquitetura cristã começou a desenvolver-se altiva e formosa aos primeiros hinos do triunfo. Ainda que seja verdade que no mundo romano, já antes de Constantino, se levantaram magníficos templos cristãos, sobretudo no Oriente, destruídos na maioria pela última perseguição, contudo, numerosas basílicas cristãs foram construídas por este imperador, e são verdadeiras obras de arte, revestidas de grande magnificência e beleza, onde fulgia o ouro e resplandecia o brilho dos mármores.

As colunas eram, geralmente, de porfírio púrpura, de mármore tessalônico, salpicado de manchas cinzentas, pretas e esbranquiçadas, e de mármores da Numídia com veios de cor amarela e vermelha.

Quanto à forma das colunas, vemos representadas todas as ordens arquitetônicas, como a dórica, a jônica, a coríntia, a romana e as mistas posteriores.

Muitas vezes, foram aproveitadas as colunas de templos pagãos destruídos, como se fossem troféus colocados nos templos do verdadeiro Deus.

As pinturas decorativas e os trabalhos de mosaico concorreram para tornar mais nobres e mais ricas as novas igrejas. Nas pinturas murais, dentre motivos de estilos clássicos, surgiram atraentes cenas da grandiosa epopeia de Cristo e da Igreja. Esta, assim, sustentava, salvava e aperfeiçoava a civilização de Roma, como ainda se tornou emula e até superou a magnificência romana em muitas obras.

O tipo das primeiras basílicas cristãs era em tudo o mesmo. Segundo Cavalucci, em geral divide-se a basílica cristã em três partes: vestíbulo ou pronaos, área interna compreendendo as colunatas, chamada nave da igreja, e a ábside ou presbitério.

Às vezes tinham também duas ou mais ábsides semicirculares ao fundo; três ou cinco naves eram separadas por colunas, sobre as quais se apoiavam entalhamentos ou arcadas, cujos arcos partiam imediatamente das colunas. Na parte mais alta dos muros que se elevavam acima das outras naves, abriam-se janelas para iluminar a nave central. O teto era de madeira e, nas basílicas mais suntuosas, levava artesonados, com exceção da cobertura da ábside, que era de abóbada ou concha. A fachada, que era simples, levava três ou cinco portas correspondentes às naves, algumas janelas em arco redondo e um frontão triangular.

A decoração interior consistia em pinturas e mosaicos, sendo raro o trabalho de escultura. A maior parte das basílicas foram construídas desde os fundamentos, não sendo grande o número das profanas transformadas em cristãs. Pois, a antiga basílica cristã, apesar de ser em parte uma fiel imitação das basílicas domésticas e civis, é considerada, no seu conjunto, uma criação do espírito cristão, é o fundamento e o ponto de partida da arquitetura cristã de todos os tempos.

CAPÍTULO XXIV

A arquitetura bizantina

Nos primeiros séculos do Cristianismo, era a arte grega mais ou menos degenerada, a que predominava em todo o Oriente, desde o Bósforo até o Egito. A religião cristã, implantando-se nessas regiões, criou necessidades novas, desenvolvendo a civilização helênica, mesmo nos centros onde ela não tinha penetrado.

Tornando-se indispensáveis lugares de reuniões para os fiéis, eram as primeiras noções do simbolismo cristão as que inspiravam uma decoração apropriada a esses novos edifícios. Cada centro cristão levantava sua igreja; e, construindo um martírio e decorando esses edifícios, operava em condições mais ou menos diferentes, conforme a diversidade ou falta de materiais. Daqui resultavam especiais transformações das formas gregas fundamentais, até que as relações de província para província ocasionaram imitações, tornando possível o sincretismo total que veio a ser a arte bizantina.

Quando Constantino transladou a sede do império para Bizâncio, levou consigo a tradição da Igreja latina que adotara a forma basilical. As influências assírio-persas, às quais os artistas daquela época não puderam furtar-se, e o gosto clássico quase totalmente degenerado, foram a causa por que se fizeram construções admiráveis pelas suas dimensões e riqueza espantosa, mas paupérrimas pela arte arquitetônica e de formas quase elementares.

Este estilo pomposo, não obstante seu aparato extraordinário, onde os elementos greco-romanos, já decadentes, desapareciam quase de todo oprimidos, por assim dizer, sob o peso das formas orientais, veio a ser denominado bizantino, adjetivo derivado de Bizâncio, a nova capital.

Segundo Cavalucci, podem resumir-se os elementos principais da arte bizantina da seguinte forma: os saiméis dos arcos descansam diretamente sobre os capitéis, devendo-se notar que no estilo bizantino o ábaco do capitel, principalmente quando as colunas são adossadas, ou seja, encostadas ao muro e adornam janelas, aberturas, etc., tem a forma de mísula saliente, sobre a qual giram os arcos que sobressaem ao sumoscapo, ou parte superior do fuste das colunas. A cúpula descansa sobre os penachos, isto é, a porção triangular da abóbada que ajuda a sustentar a volta da cúpula; os quatro pilares que sustentam o zimbório são ligados entre si por igual número de arcos, a cúpula bizantina descansa diretamente sobre os arcos e sobre aqueles penachos, sem tambor, e tem a forma de esfera achatada. A planta tem a forma de cruz grega ou quatro braços iguais, o que não impede que, às vezes, um deles, o da ábside, para obter a comodidade de fazer caber nela o altar e o coro, seja um pouco maior que os outros três. O característico da cruz latina é o prolongamento do antebraço, isto é, daquele que do ponto de encruzamento vai até a porta. O capitel é ornado com grande variedade, segundo motivos tirados dos reinos animal e vegetal, tomando, não raro, a forma cúbica arredondada em baixo ou a de pirâmide truncada, virada com a base para cima. O mosaico é empregado nesta arquitetura em substituição da pintura e da escultura nas decorações dos muros.

Magni chama esta arte, nascida na decadência do bom gosto, "um misto de arquitetura romana corrompida e pesada, e de elementos fantásticos orientais, ou sejam asiáticos, sem nenhuma simplicidade nem severidade, mas de exuberante riqueza, magnificência e esplendor por causa dos seus recortes, meandros, cores, mármores, mosaicos, ouro, prata e pedras preciosas... A arte bizantina é a deformação da antiga greco-romana, impregnada de elementos orientais. Os Bizantinos buscavam mais novidade e a riqueza do que o belo, e tinham, para isso, exemplares nos estofos da Pérsia e da Índia".

Uma particularidade do estilo bizantino, que mais tarde se estendeu também a outros, é que, muitas vezes, o arco de meio ponto, parecendo estar sempre em perigo de cair, é sustentado por outros arquinhos internos com pequenas colunas. Esses arquinhos cruzam-se e formam outros pequenos arcos agudos, e assim vão-se originando, entre estes e aqueles e o arco maior, espaços curvilíneos, que se prestam a estranhas e caprichosas decorações.

O monumento capital e típico da arquitetura bizantina é a igreja de Santa Sofia em Constantinopla, edificada primeiramente por Constantino em 325, do estilo das basílicas latinas, e dedicada à Santa Sabedoria, Agia Sofia, mas em breve caiu em ruínas, das quais se reergueu graças aos esforços do imperador Arcádio. Mais tarde incendiada, foi reconstruída por Teodósio II, e novamente reduzida a cinzas, foi o imperador Justiniano que a mandou reedificar pelos arquitetos Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto em 537, com tal suntuosidade, que, terminados os trabalhos, diz-se exclamado o imperador: "Salomão, eu te venci!"

A igreja de Santa Sofia hoje está convertida em mesquita muçulmana. Outras igrejas do mesmo estilo são o templo de São Vital em Ravena, a Basílica de São Marcos em Veneza, a basílica de Aquisgrana, edificada por Carlos Magno, etc.

Este estilo influiu poderosamente sobre a arte russa, em que predomina a cúpula bizantina, geralmente bolbosa como na Índia, nem faltam arcos redondos, sendo a planta de cruz latina ou de basílica, e a decoração persa. São tipos deste estilo as igrejas de Kiev, Moscou e Novgorod.

As nações cismáticas foram as herdeiras diretas da arte bizantina.

CAPÍTULO XXV

O templo lombardo e visigótico

O estilo lombardo iniciou, na Itália, a época da arquitetura românica, que criou numerosos e belíssimos templos.

O qualificativo de românico foi dado ao estilo romano-bizantino pelo sábio arqueólogo M. R. Gerville, para acabar com a infinidade de nomes que se davam à fusão dos elementos latinos e bizantinos. E com razão, pois, assim como as línguas derivadas do latim se chamaram românicas, assim também a arte que paralelamente com ela se havia formado se devia chamar românica.

No império do Ocidente, retalhado em diversos Estados desde o princípio do século V pelos Bárbaros, as artes, já em plena decadência, seguiram a sorte dos vencidos, ao passo que o império bizantino se ia engrandecendo da riqueza e prosperidade da antiga Roma. Os artistas emigraram nessas épocas calamitosas para o Oriente, dando-se mais tarde um êxodo em sentido contrário, no tempo da heresia dos iconoclastas.

Nessa época predomina no Ocidente uma arte bárbara que imita a estrutura latina a que acrescenta certos elementos bizantinos, mal compreendidos e pior executados, aproveitando em novos edifícios as ruínas e os despojos dos antigos, deformando-os para poder utilizá-los, e produziu, assim, uma estranha promiscuidade, sem normas certas e sem ideal determinado.

Neste caos de destroços artísticos, sob influências pronunciadas dos elementos bizantinos, saiu o estilo românico, cujos princípios alcançam o século VI, preenchendo os tempos até o século X, inclusive, com sua definitiva formação.

Na Itália do Norte formou-se a escola Lombarda dos famosos maestros comacini, membros duma sociedade de artistas, fundada na ilha de Comacina, no lago de Como, no tempo de Rotário (636-652), rei dos Longobardos, e mais tarde de Luitprando (712-744). Esses construtores nômades, organizados em associações, propagaram a sua escola por toda a Itália e fora. Sua arquitetura chamava-se lombarda, que, em substância, não é senão a românica inspirada nas formas arquitetônicas da decadência da arquitetura clássica romana.

Basílio Magni chama esta arte maciça, robusta, severa, sombria, representando o mundo romano abalado e devastado pelos Bárbaros e reveladora do pensamento da Idade Média. Neste estilo basilical transformado, em vez de uma ábside, admitem-se três, a abertura de madeira é substituída por abóbadas, usa-se de cúpulas octógonas, e aberturas e janelas nas ábsides. As formas decorativas dos capitéis são mescla bárbara dos elementos dos capitéis clássicos e bizantinos, e os adornos são abundantes em representações de animais fantásticos e desenhos de entrelaço geométricos.

Um tipo perfeito da arquitetura lombarda é a basílica de Santo Ambrósio em Milão.

Na Itália central conservam-se as formas da basílica latina, com algumas inovações quanto às colunas das naves, substituídas por pilastras, e a adoção de arcos transversais, apoiados em contrafortes inseridos nas naves baixas. Para as decorações são aproveitados os capitéis dos edifícios romanos, sendo os mosaicos executados segundo desenhos bárbaros.

Nas Gálias, Carlos Magno deu origem, na região renana, ao estilo romano-bizantino, como se vê de sua igreja de Aix-la-Chapelle, cuja imitação contribuiu para que se propagasse na Europa setentrional e ocidental o tipo da igreja com santuário ao meio.

Na Espanha, a arte visigótica acompanhava a ostrogoda e participava da lombarda, introduzindo, por conta própria, o arco de ferradura, o que não se vê nas construções italianas.

Santo Isidoro, no fim do século VI e princípio do século VII, diz que eram magníficas as construções do rei Wamba em Toledo, e São Gregório de Tours, no século VIII, declara que a igreja de São Martinho de Orence era uma obra admirável.

Depois da reconquista da Espanha, continuou a arte visigótica de forma mais independente, adotando capitéis de tipo mais oriental, colunas estriadas em espiral e agrupadas, janelas geminadas com pequenas colunas nas jambas e parte luz, frequentes entrelaçados de calabrês. Mudou o arco de ferradura para o de meio ponto e peraltado, admitiu na planta a cruz grega, a cúpula, ábside quadrada, altar isolado no meio do presbitério, arco triunfal acunhado em colunas cilíndricas com base ática modificada.

Chama-se este estilo visigótico, gótico antigo, e asturiano. Vê-se, pois, que a arquitetura cristã deste período de formação tende, em geral, ao tipo italiano, que, pela influência bizantina e pela necessidade de conceder maior firmeza e amplidão às basílicas, se converte lentamente num tipo novo e oferece os elementos importantíssimos para realizar, no seguinte período, o perfeito estilo românico.

CAPÍTULO XXVI

O templo românico

No século XI e princípio do século XII, estabeleceu-se definitivamente o estilo românico. Concorreram para isto, como causas principais, as condições políticas e sociais da Europa. As instituições monásticas, entre as quais se salienta a abadia de Cluny, consagram um amor especial à arquitetura eclesiástica. Todas as cidades e todos os mosteiros empenhavam-se para possuir uma igreja suntuosa. As peregrinações à Terra Santa e novas correntes comerciais tiveram por resultado o conhecimento da civilização oriental. Muitos arquitetos estabeleceram-se no Ocidente e, querendo subtrair-se ao jugo do feudalismo, refugiaram-se nos mosteiros, onde, sob a direção dos religiosos, se entregavam aos estudos e a novas edificações. Além disso, as piratarias dos normandos dos séculos X e XI, por intermédio da Rússia, forneciam preciosos elementos em obras de arte roubados ao Oriente.

Tais são, segundo bons autores, as causas mais importantes de desenvolvimento e fixação da arte românica, cujo quadro geográfico vai desde a Escandinávia até a Palestina.

A arquitetura românica serviu-se da planta basilical latina, e, prolongando os extremos do antigo chalcidion ou transepto da basílica, tomou a planta com esta modificação, a forma de cruz latina. Continuando também as naves laterais em volta da ábside central, deu-se, assim, origem à construção de pequenas capelas nas galerias circundantes, donde resultou a carola ou deambulatório.

Fora da planta de cruz latina com uma ou mais naves, com ábsides semicirculares, existe ainda o tipo de igreja circular ou poligonal, com duplo ou simples recinto concêntrico.

Os tetos de madeira são substituídos por abóbadas do meio canhão ou de quarto de canhão, formando arco-botante corrido, ou por arestas nas naves laterais. A cúpula é geralmente poligonal sobre o cruzeiro, apoiada em trompas, e sobre ela um domo prismático oitavado e poligonal. As colunas são cilíndricas e robustas, geralmente adossadas a pilastras ou muros, com bases características que recordam a ordem toscana, mas cheias de relevos nos ângulos do plinto. Seus capitéis são caprichosos e historiados com adornos geométricos ou motivos vegetais sem naturalidade, tendo o ábaco muito desenvolvido e adornado, abraçando o pilar e continuando muitas vezes em forma de imposta corrida.

Os arcos são de meio ponto, colocando-se frequentemente um por cima do outro, de forma a ficar mais saliente o arco superior. Os contrafortes são lisos no exterior. O nártex é substituído por um pórtico característico, composto de uma série dupla de colunas e arcos em planos sucessivos e concêntricos que mais parecem arquivoltas do grande arco da porta, ostentando no tímpano, sobre o dintel, símbolos ou imagens em relevo.

Nas igrejas suntuosas o frontispício tem, por cima da portada, algumas janelas e termina em ângulo ou frontão que recorda a arquitetura clássica, não obstante a diferença dos adornos. As janelas, às vezes geminadas, são estreitas, rasgadas e até redondas, terminando em arco duplicado e aresta viva, e tendo na jambagem pequenas colunas a imitar as portadas.

As cornijas formam uma espécie de imposta corrida sobre as pilastras e muros, salientando-se aquela que superiormente circunda o edifício, a qual é sustentada por modelões de caprichosas figuras, ou por uma série de arcos cegos.

A ornamentação românica utilizava folhagem serpeante e adornos geométricos, como bilhetes, enxadrezados, dentes de serra, pontas de diamante e outros mais. As igrejas deste período constroem-se com silhares irregulares, ou com pedras talhadas em quadrado, e têm a abside voltada para o Oriente e, às vezes, edificada sobre uma cripta com recordação das catacumbas.

Já nos fins do século XI, durante o século XII e mesmo, em alguns países, no transcurso do século XIII, passa o estilo românico para uma fase de transição, que alguns denominam período terciário. Desenvolve-se maior beleza no adorno dos edifícios, é introduzido o arco ogival combinado com o redondo, que vai perdendo as arestas vivas, e pela abóbada de canhão apontado.

Os arcos ogivais começam a figurar nas portadas, as abóbadas tornam-se maiores e mais elevadas, é introduzido o uso dos butáreos e arcobotantes, como também das galerias interiores sobre as naves laterais, chamadas trifórios. O rosetão vazado aparece na fachada, umas vezes em forma radiante e outras em círculos, e igualmente vidros de cores nas janelas. É a plena transição para a arquitetura ogival ou gótica.

O estilo românico, obedecendo à orientação de várias escolas, sofreu diferentes modificações, segundo os países em que era adotado. Temos, assim, a escola Toscana, a escola Normanda, a escola Francesa, a escola Alemã, etc. Na Alemanha tornou-se a arte românica como que o estilo nacional.

São muito numerosos os templos de arquitetura românica: as catedrais de Braga, Porto, Lamego, Lisboa, a sé velha de Coimbra, em Portugal; as catedrais de Salamanca, Segóvia, e São Tiago de Compostela, na Espanha; as igrejas de Mogúncia, de Spira, Worms, Hildesheim, na Alemanha; as igrejas de Cléricy, Poitiers, Bordéus, Cluny, na França; as catedrais de Pisa com a sua torre inclinada, Santo Ambrósio de Milão, na Itália; as igrejas de Winchester, Northampton, na Inglaterra; e outras, quase sem conta, são obras-primas do estilo românico.

CAPÍTULO XXVII

O templo ogival

A arquitetura ogival ou gótica, sucedânea da românica, caracteriza um dos mais brilhantes e extraordinários períodos das belas artes. O termo ogival deriva-se do verbo latino augére — aumentar, reforçar — nome que, na Idade Média, davam aos arcos de reforço ou nervos diagonais, característicos das abóbadas cruzadas. Quanto ao nome gótico, muitos o empregam para designar uma arte bárbara, como proveniente dos Godos. O que não se justifica, porquanto, como bárbaros, eles nada trouxeram para a arte; outros observam que, na Idade Média, a palavra godo servia para designar o que pertencia às nações do Ocidente.

CAPÍTULO XXVIII

Origem da arquitetura ogival

Parece causa incontestável, diz alguém, que o velho gótico é de origem setentrional. Os bosques eram os únicos templos dos povos do Norte, e os troncos, os ramos, a folhagem, as massas de sombra cortadas por alguns intervalos de luz, lhe ofereciam os tipos de tudo que toca à primeira vista em uma catedral, e ainda nos edifícios profanos da Idade Média, a substituição da ogiva ao simples arco romano, as flechas enlaçadas, as paredes abertas.

A pátria, porém, do novo estilo é a França, e mais precisamente o antigo Domaine Royal. Pois, segundo Viollet-le-Duc e Gonce, foi na igreja abacial de Saint-Denis que o belo abade Suger empregou, pela primeira vez, o estilo ogival ou gótico, nos seus elementos principais, a saber: o arco apontado ou ogival, a abóbada ogival ou cruzada, e o arcobotante, que teve seu prelúdio já no último período da arquitetura românica.

Da França irradiou-se a arquitetura gótica pelos povos principais, recebendo modificações conforme o gosto ou caráter de cada nação, pelo que se divide em gótico do Norte, gótico do Meio-dia e gótico Asiático, subdividindo-se cada um novamente. O primeiro subdivide-se em gótico bretão ou inglês, gótico flamengo e gótico alemão, que compreende o tudesco e o lombardo. O segundo, em francês, italiano, espanhol, português, ao passo que o terceiro se distingue no sírio, árabe sarraceno e mourisco.

Divide-se, contudo, sob um ponto de vista geral, a arquitetura ogival em três períodos: O primeiro é conhecido também pelo nome de robusto ou de lancetas, porque muito conserva ainda da severidade e robustez do estilo românico, e as suas ogivas têm ordinariamente a forma de lança. O secundário, denominado também gentil ou radiante, constitui o verdadeiro tipo do estilo ogival pela elegância e perfeição das suas formas, e não tem a dureza do primeiro, nem a exuberância e adornos do terciário. Este costuma-se designar pelo nome de florido ou flamejante, devido à abundância dos seus adornos, muitas vezes exagerados, tendo os vazados a forma de chama ou curvas entrelaçadas e ondulantes. Esse exagero lhe fez perder a simplicidade e a pureza artística, motivo pelo qual é considerado como um período de decadência.

Como nos períodos românicos, os períodos ogivais não são uniformes para todos os países. Em consequência de sua difusão por muitos países, durante longas épocas, apresenta este estilo variantes cronológicas e geográficas como, vez, nenhum outro, embora dentro da mesma unidade de sistema construtivo, como acima já dissemos.

CAPÍTULO XXIX

Elementos principais do estilo ogival

A planta da catedral gótica, o templo que encerra toda a arquitetura religiosa dos três períodos ogivais, é geralmente de forma de cruz latina, com três ou mais naves, e de um ambulatório e capelas absidais, formando como que uma coroa em volta do altar-mor. Nas grandes catedrais existem também, na nave central, trifórios ou tribunas com anteparos artisticamente adornados. Há também outro tipo de planta, sem cruzeiro, com três ou cinco naves e disposição circular da cabeceira, de modo a abraçar todas as naves dispostas em redor da capela-mor. Mais tarde, começaram a abrir capelas nos muros das naves.

As colunas são formadas de pilares cilíndricos ou pilares a que aderem delgadas colunas. No primeiro período, sua seção horizontal apresenta a forma de cruz; no segundo, é maior o número de colunas aderentes, que são mais esbeltas e se elevam a maior altura; no terceiro, multiplicam-se ainda mais as colunas em torno do pilar, tomando diferente espessura, e correspondem às nervuras da abóbada, sendo separadas por filetes de forma aguda, cavetos e escossias.

Os capitéis são constituídos por um tambor rodeado de folhagens de motivos ornamentais tomados da flora do país. No período primário, assemelham-se um tanto aos capitéis coríntios, com ábaco bastante emoldurado, como, por exemplo, na catedral de Toledo; no secundário, as folhas dispõem-se em duas séries, combinando às vezes com pequenos animais esculpidos com graça; no terciário, são construídos por grande variedade, sendo a mais comum o tambor abraçado por folhas somente ou entrelaçados com pequenos animais. Os ábacos compõem-se de três ou quatro molduras quebradas e salientes aos trechos. Neste último período, é frequente a supressão dos capitéis, sendo que as colunas se unem aos nervos das abóbadas sem solução de continuidade. Em todos estes períodos, os capitéis das colunas aderentes aos pilares estão unidos entre si de modo a formar uma espécie de friso ou capitel corrido em volta do pilar, o que se dá pelo menos com o ábaco.

O arco apontado, com diversas variantes, é um elemento importante da arquitetura ogival, o qual, no primeiro período, é quase sempre lancetado; no segundo, equilátero; e no terceiro, obtuso ou rebaixado, sendo também usados o arco conopial, o carpanel e o acairelado para as portas e as janelas.

Estes mesmos arcos podem ser trevados ou tribulados e polibulados, conforme três ou mais lóbulos ou arquinhos ornarem o extradorso. Como na arte românica, usa-se do arco duplo, sendo o arco superior mais amplo, enchendo toda a espessura do muro e formando, com suas molduras, arquivoltas de ambos os lados do intradorso, quando se trata das arcadas interiores.

As abóbadas e as cúpulas são sustentadas e reforçadas por arcos cruzeiros ou nervos diagonais, com molduras parecidas com as arquivoltas das arcadas, levando na chave respectiva um florão. O conjunto de nervos sobre a coluna faz lembrar uma palmeira que estende os seus ramos.

Os butarcos e butaretes, ou seja, arcobotantes, raras vezes faltam nas igrejas importantes quando constam de duas ou mais naves. Para dar maior peso e estabilidade aos butareos ou contrafortes, apoiava-se sobre eles um pináculo, tanto mais adornado quanto mais a arte se ia desenvolvendo.

CAPÍTULO XXX

Outros elementos arquitetônicos

Colocam-se igualmente gárgulas caprichosas debaixo dos pináculos, isto é, figuras de animais dissimulando os caleiros que escoam as águas dos telhados. No primeiro período não aparecem esses pináculos sobre os butareos, e os que existem nos edifícios do século XIII devem-se a posteriores restaurações.

As fachadas impressionam vivamente pela sua harmonia e grandeza. Nas grandes catedrais, a imafronte é constituída por três formosas portadas correspondentes às naves e separadas por contrafortes que aguentam o desvio das arcadas interiores. Na cimafronte abre-se a grande rosa, rematando o edifício um frontão ou ático de formosas cristas. Estas fachadas estão ordinariamente flanqueadas por torres com altas flechas, e, às vezes, truncadas.

Os pórticos são formados por arco abobado e ogival, montado sobre colunas, aberto na espessura do muro, e composto de várias arquivoltas lisas ou adornadas de estátuas em mísulas e dóceis, circunscrevendo um tímpano limitado inferiormente por um lintel horizontal. A porta quase sempre é dividida por uma coluna parteluz, ou mamel, encimado de uma estátua. As rosas, que tamanhas formosuras proporcionam ao templo, são o princípio de desenhos singelos, mostram-se ao templo, são a princípio de desenhos singelos, mostram-se mais tarde atravessadas de raios simples trilobados nos pontos em que tocam na circunferência e formando, no período terciário, vazados famígeros.

As janelas são geminadas por um parteluz, chamado também pilarete, sendo o tímpano formado de diversos desenhos ou aberto, que na primeira época consiste em um ou três rosetões lobulados. Na segunda época, os rosetões são mais complicados e subdividem-se em outros, lobulando-se mais, em vista de terem as janelas maior amplidão. Na terceira época, os desenhos são ainda mais modificados e tomam a forma famígera.

Lembremos ainda os adornos mais característicos da arquitetura ogival, que, em geral, são tirados de motivos vegetais. Os colchetes e coágulos são ornatos em forma de folhas dobradas sobre si, que se põem nas arestas dos pináculos, coruchéus e gabletes, que são usados na decoração das cornijas, formando volutas que, no primeiro período, se encurvam simplesmente; no segundo, são mais frisadas e encurvam-se em sentido inverso; e, sendo no terceiro, maiores, mais encurvadas e ainda mais bem tratadas.

Nos vértices dos pináculos, gabletes e arcos das portadas colocam-se florões ou gomos. A folha clássica de acanto dá lugar à flora indígena, como as folhas da vide, carvalho, cardo, roseira etc., tratadas com esmerada imitação do natural. Torna-se também frequente o adorno de círculos em que estão inscritos outros círculos tangentes em número de três, quatro e cinco, chamados trifólios, quadrifólios e quinquefólios, como também o de pequenas arcadas, gabletes, castelos etc.

Mencionemos apenas algumas das igrejas mais notáveis de estilo ogival ou gótico: as catedrais de Notre-Dame de Paris, de Chartres, Rouen, Laon, Reims, Malines, Colônia, Friburgo, Santo Estêvão de Viena, de York, Salisbury, Orvieto, Salamanca, Vitória, Florença, a catedral de Milão, de Siena, Porto, as igrejas de Belém, do mosteiro de Alcobaça, da Batalha, São Francisco de Évora e outras mais, quase sem conta.

Pelos apontamentos acima expostos, que tiramos de autores que são perfeitos conhecedores do assunto, verifica-se que a arquitetura ogival, como nenhuma outra, realiza o grande problema de construir com a maior solidez, elegância e menor material possível, um templo que, da melhor forma, corresponde ao seu fim de glorificar a Deus e de cultivar os sentimentos religiosos no coração do homem.

CAPÍTULO XXXI

Arquitetura árabe

Antes de terminar o presente capítulo, será conveniente dizer algumas palavras sobre o estilo árabe. Os Mouros, que, por muitos anos, habitaram a Espanha, modificaram os elementos arquitetônicos persas e bizantinos, bem como de outros países conquistados, e deram origem a um estilo próprio, caracterizado pelo arco de ferradura, já então usado nas igrejas visigodas, e pelos adornos chamados arabescos, alfarges e alicatados.

No princípio, tomavam os elementos arquitetônicos dos edifícios persas da arte sassânida, e dos bizantinos e românico-primários. As colunas são baixas e cilíndricas, os capitéis recordam os bizantinos e coríntios. Na ornamentação, empregam inscrições cúbicas, isto é, de letra maiúscula árabe, e pinturas policromas. O teto é em forma de alfarge ou de abóbada romana.

Seu caráter, no primeiro período, é de pureza e simplicidade na ornamentação, conforme se nota na célebre mesquita, hoje catedral, de Córdoba; distinguem-se os períodos seguintes pela emancipação das formas bizantinas e pela riqueza oriental, pela variedade e delicadeza dos ornatos e pela elegância das colunas, aumentadas de muitos atrasgalos na parte superior, além do emprego dos arcos ogivais, abóbadas em estalactites, cúpulas bolbosas, janelas geminadas e de variadíssimos azulejos para o revestimento das paredes.

Como havia naquele tempo três classes de habitantes, usaram elas o estilo árabe com mais ou menos variantes, sendo melhor definido o empregado pelos Mouros Mudejares, ou súditos cristãos.

Além dos Mudejares, existiam ainda na Espanha os Moçárabes, ou cristãos sob domínio dos Mouros, e os Mouriscos, ou Mouros batizados que ficaram na península depois da reconquista.

Os elementos componentes do estilo mudéjar são românicos, ogivais e árabes, variando em importância, segundo as épocas e as regiões onde se desenvolveram. No Oriente, os estilos árabes derivados caracterizam-se pelo uso frequente do arco conopial, cúpula bolbosa e minaretes cilíndricos de pouco diâmetro.

Estas poucas noções servirão para melhor compreender o estilo mudéjar, que também, em alguns pontos do nosso país, tem sido empregado.

O estilo ogival, cuja descrição sumária no artigo anterior terminamos, é o que melhor exprime o ideal católico, o que a sua simbologia ainda mais nos provará. E como a nossa nova catedral obedecerá a este formoso estilo, repitamos as palavras de Neemias: Levantemo-nos e edifiquemos, surgamus et aedificemus.

CAPÍTULO XXXII

Esses arquitetônicos da Renascença

A Renascença marca uma nova época na história das belas artes. Dá-se este nome ao regresso das ciências e artes às formas estéticas e aos elementos gregos e romanos, iniciado na Itália no decurso do século XV. Essa nova orientação das belas artes é o coeficiente da cultura geral daquele tempo. Pois, tanto nas belas artes e na literatura, como nas ciências filosóficas, serviam de modelo as obras dos antigos gregos e romanos. Não cabendo nas páginas desta pastoral a história daquela época, ao mesmo tempo grande e cheia de misérias, diremos apenas que a arte da Renascença, em substância, era religiosa, não obstante os seus excessos na imitação dos ideais pagãos.

A arquitetura da Renascença, como os outros estilos, teve sua época de transição, seu tempo clássico e seu período de decadência. A nova revolução artística começou em Florença e, propagando-se rapidamente por toda a Itália, espalhou-se mais tarde, no século XVI, pela Espanha, Portugal, Inglaterra, em consequência das relações políticas e comerciais existentes entre estes países.

CAPÍTULO XXXIII

Elementos característico da arquitetura da Renascença

A Renascença deve-se considerar como uma arte eclética, porque une e funde elementos gregos e romanos com bizantinos e cristãos. Ela adota as antigas ordens clássicas da arquitetura romana, embora com maior liberdade nas medidas e nos traços dos fustes e dos capitéis. Faz uso exclusivo do arco redondo de diferentes classes, contornado por alguma arquivolta. Emprega, como elementos principais e puramente decorativos, os arquitraves e frontões. As abóbadas ogivais são substituídas por abóbadas de meio canhão com lunetas.

As cúpulas são geralmente semiesféricas, montadas sobre um tambor ou domo da mesma forma, separado ou independente da cúpula interior. As portas e as janelas rematam um pequeno frontão ornamental, levando frequentemente pequenas colunas nas jambas. Adota-se a planta basilical de cruz latina ou grega nas igrejas com abside redonda ou poligonal. A cúpula coloca-se sobre o transepto e, em geral, flanqueiam duas torres o frontispício.

Por dentro, há sempre uma larga cornija no alto dos muros, sobre a qual se monta, às vezes, uma balaustrada que forma uma espécie de trifório. Estabelece-se o uso de tribunas na capela-mor, e na parte exterior do edifício estende-se uma imposta corrida, chamada cordão, que indica a divisão dos andares. A fachada dos templos tem a forma do pórtico grego ou de um enorme arco triunfal romano, sem que lhes revele, como nos edifícios românicos e góticos, a estrutura interior.

Na ornamentação, além das pinturas murais, existem molduras diferentes, óvulos, folhas aquáticas e de acanto, postes, volutas, grinaldas, fitas, quimeras, grotescos, medalhões, enfim, tudo como na arquitetura clássica.

Nas obras de escultura monumental, bem como na estatuária, a execução é esmerada, buscando sempre o realismo.

CAPÍTULO XXXIV

Renascença primitiva na Itália

Dizem alguns autores que a Itália, sempre zelosa de suas nobres tradições, recebera com frieza as formas ogivais e que, à vista constante das ruínas da arte antiga, mais acentuava o gosto pelas formas greco-romanas. O estilo ogival, de fato, naquela época já estava em decadência em consequência do excesso dos ornatos. Contribuiu poderosamente para essa nova orientação artística a rivalidade constante entre os pequenos Estados da Itália, que entregavam a direção das suas melhores obras aos artistas de grande fama, os quais, por serem ao mesmo tempo arquitetos, escultores e pintores, por si bastaram para as realizar. Este predomínio da inspiração individual, que sucedeu ao espírito de associação e defesa que distinguia a Idade Média, por força havia de determinar, além dos caprichos da fantasia, a mudança na condição dos trabalhos arquitetônicos.

Assim é que Brunelleschi, em 1425, construiu a cúpula da catedral de Florença, onde a ornamentação, pelo menos, é clássica, e o pórtico da capela dos Pazzi com três ordens clássicas. O seu exemplo foi seguido por Alberti na construção de São Francisco de Rimini, e outras escolas da Itália. A Renascença primitiva caracteriza-se pelo brilho, grandeza e opulência da ornamentação, e pela abundância de estátuas, relevos, grinaldas etc.

Também em Portugal existem algumas igrejas cujo frontispício é uma imitação da Renascença italiana, como o da igreja da Misericórdia de Braga e de São Domingos, em Viana do Castelo.

CAPÍTULO XXXV

Arquitetura manuelina

Em Portugal, iniciou-se a Renascença nos princípios do século XVI com o chamado estilo manuelino, nome proveniente do emprego exclusivo desta forma arquitetônica no reinado de Dom Manuel, o Grande ou o Venturoso. O estilo manuelino é resultante da fusão do estilo ogival florido e da Renascença, com elementos mouriscos e de arte indiana.

Ele adota geralmente a disposição do estilo gótico quanto à planta e distribuição das igrejas, mas apresenta diferenças características nos arcos, nas abóbadas e na ornamentação. Poucas vezes usa simplesmente o arco ogival, preferindo o arco redondo de diferentes classes, e este, frequentemente, combinado com aquele em felizes disposições, em forma de chave ou tangentes, trilobados, acairelados. As abóbadas consistem em complicada aranhinço com amiudados florões pendentes ou bocetes.

A ornamentação é minuciosa e exuberante, em parte ogival, largamente tratada, servindo-se de flora variadíssima, como a alcachofra, as espigas de milho, o girassol, e ao mesmo tempo adota ornatos da Renascença, como grotescos, quimeras, grifos e medalhões. São também frequentes as pontas de diamante, estrelas, cordas, boias de pesca, cruzes de Cristo, escudos reais, esferas armilares. As colunas ornamentais tomam a forma de balaústres adornados em espiral ou assemelhando-se a tronco de carvalho, pinheiro, palmeira e outras árvores mais. Existem no estilo manuelino alguns reflexos da arte indiana, que se podem descobrir em alguns elementos decorativos, o que não é para estranhar, em vista das contínuas comunicações de Portugal com a Índia.

Bem numerosos são os edifícios desta época, dos quais basta enumerar os seguintes: o mosteiro dos Jerônimos em Belém, que se notabiliza pelo arrojo de sua abóbada artesoada, pela sua primorosa fachada lateral e pelo seu claustro de dois pavimentos, considerado como o mais belo do mundo; o convento de Cristo em Tomar, as capelas imperfeitas da Batalha, erigidas no fundo da abside deste maravilhoso templo ogival; a fachada da igreja da Conceição Velha; a capela-mor da catedral de Braga, notável pelos pequenos arcobotantes, cujo fim parece somente ornamental; a igreja de Santa Cruz de Coimbra; a Sé do Funchal, e outras.

Parecido com o estilo manuelino, mas bastante irregular e muito menos interessante e variado, é o planterresco, na Espanha, resultante da mescla combinada dos estilos mudéjar, ogival-florido e renascença. É assim denominado pela semelhança que apresenta com o estilo usado pelos lavrantes do Prata, plateros, nos objetos do culto religioso. Obras desse estilo são a igreja de São Pedro em Toledo, a fachada da igreja de São Paulo em Sevilha e a fachada da Catedral de Plasência.

CAPÍTULO XXXVI

Renascença Clássica

O segundo período da Renascença, caracterizado por maior imitação das formas clássicas, foi iniciado por Bramante na segunda metade do século XV. Foram seus contemporâneos os célebres artistas Antonio Sangallo, Baldassarre Peruzzi, Raffaele Sanzio e Michelangelo. Bramante foi o autor do projeto da admirável basílica de São Pedro em Roma, por ele começada em 1506, com a planta de cruz grega. Michelangelo, porém, coroou a grandiosa basílica com a extraordinária cúpula de 42 metros de diâmetro, segundo a qual Maderno e Bernini, no século XVII, lhe deram a forma de cruz latina. Bernini é também o autor dos majestosos pórticos que rodeiam a praça de São Pedro. Esta basílica monumental, que ocupa uma área de cerca de 23.000 metros quadrados, serviu de modelo para muitas igrejas do estilo da Renascença, das quais convém mencionar a de São Paulo em Londres, de San Biagio de Montepulciano, de Santa Maria de Carignano, naturalmente muito inferiores ao seu protótipo.

Em Portugal, só desde o reinado de Dom João III é que a Renascença propriamente dita se firmou em obras de maior vulto, como é a capela-mor da igreja dos Jerônimos em Belém, a igreja de Santa Ana em Coimbra, da Graça de Évora e de São Vicente de Fora em Lisboa.

Na Espanha, a imitação das formas clássicas toma incremento com o chamado estilo severo de Herrera, no grandioso e pesado mosteiro do Escurial, mandado construir por Felipe II na segunda metade do século XVI.

Sendo o estilo da Renascença, além de ser o nacional italiano, um estilo mundial, não admira que ele se espalhasse por todos os países. Assim é que temos na França a bela igreja de São Miguel em Dijon, a igreja abacial de Val-de-Grâce em Paris; e em outros países.

CAPÍTULO XXXVII

O estilo barroco

Com o estilo barroco já entra a arquitetura da Renascença em decadência. As notas características deste estilo consistem na adulteração das formas greco-romanas, retorcendo as colunas, misturando, sem direção racional, as diferentes ordens arquitetônicas, invertendo as colunas e pedestais de forma piramidal, truncando e abrindo frontões, exagerando o número e a forma dos grotescos, jarras, pâmpanos, frutos, anjos e repolhudos, e isto nas mais estranhas combinações, como colunas apoiadas sobre gênios, sátiros, delfins e leões rodeados de flores. Esse estilo manifestava uma verdadeira febre no emprego de linhas tortuosas e uma completa orgia decorativa, de que resultou a decadência da Renascença.

Este estilo é chamado impropriamente jesuítico, pelo fato de o usarem em muitas igrejas os Padres da Companhia de Jesus, empregando-o, entretanto, bastante moderado e até, com certa elegância.

É de lamentar a má direção artística deste período, que foi até a demência de mutilar e mascarar completamente edifícios monumentais do estilo românico e ogival.

O barroquismo tomou na França o nome de Luís XIV e tornou-se próprio da época deste monarca.

Um belo tipo de estilo barroco é a igreja de Nossa Senhora da Candelária no Rio de Janeiro, notável pela sua amplidão, riqueza e pinturas decorativas.

CAPÍTULO XXXVIII

O estilo rococó

O rococó não é propriamente um estilo de arquitetura, mas representa apenas um gênero ornamental, e deriva o seu nome do francês "Rocaille". Durante o século XVIII, o estilo barroco apresenta uma variante caracterizada por adornos de folhagem artificial, formando como que recortes de folhas retorcidas, escudos disformes, conchas, grinaldas, festões, uma profusão de linhas sinuosas, envolventes e entrançadas. Por ter o rococó sido propagado no tempo de Luís XV, é também conhecido pelo mesmo nome: estilo Luís XV.

Em Portugal, este gênero, com o barroco italiano, acrescido de características nacionais e de figuras mitológicas, meninos, búzios, espanadas, plumas e festões, chamava-se estilo Dom João V. Ao barroco extravagante e de ornamentação exagerada dá-se, na Espanha, o nome de Churrigueresco, de Churriguera.

São muitas as igrejas de estilo barroco com ornamentação rococó em todo o mundo, como também no Brasil.

E diz um autor português: "Os Bárbaros não fariam obra mais completa; o pico e a trolha tiveram o condão de evidenciar, sobretudo nos veneráveis templos da idade média, quanto vale e pode o mau gosto duma época, associado ao desprezo por um passado artístico, que não compreendeu e muito menos respeitou."

CAPÍTULO XXXIX

A arquitetura moderna

Embora se reconheça o valor do estilo barroco quanto à amplidão das suas construções, não se pode negar que ele apresenta grandes exageros, tanto na decoração arquitetônica e livre, como na pintura e plástica, destoando da verdade e afastando-se do verdadeiro ideal artístico. Esse eterno esforço, que estonteava os sentidos, e esses excessos haviam de produzir necessariamente uma reação. E assim o clamor pela simplicidade e naturalidade na arte ecoava, em meados do século XVIII, por todos os países da Europa.

Começou a época do classicismo ou da restauração, assim chamada, porque os artistas voltavam novamente, e pouco a pouco, às artes antigas dos gregos e romanos. Todos estavam enfadados do barroquismo e dos excessos decorativos do rococó. Apoiava-se, também, essa orientação nas ciências arqueológicas que vinham derramando sempre maior luz sobre a arte clássica dos gregos e romanos, indicando novos ideais à arquitetura degenerada do período anterior.

Neste novo movimento distinguiram-se os artistas Winkelmann, Tomaso Temanza, Antonio Selva, os dois Piranesi, João e Francisco Batista, Leroy, Soufflot. O interesse pela arte antiga cresceu à medida que se faziam as interessantes escavações das cidades destruídas de Herculano e Pompéia. Nos tempos hodiernos manifesta-se a tendência pronunciada de voltar aos estilos arquitetônicos da idade média, tendo-se formado um novo ecletismo arquitetônico. No Brasil observa-se o mesmo fato.

CAPÍTULO XL

O classicismo moderno

A arquitetura classicista despoetiza as artes. Na França, algumas construções deste gosto artístico são, pela sua disposição interna, muito interessantes, denotando pelo seu aspecto exterior uma certa nobreza. Em geral, porém, os edifícios classicistas são sóbrios, pesados e desairosos, e não despertam simpatia. Contudo, é nova a escolha, como também a aplicação de muitos membros arquitetônicos e motivos ornamentais.

Pela nova orientação artística, originou-se completa decadência das artes suntuárias, principiando pelos utensílios religiosos, como os altares e seus acessórios, vasos sagrados, cadeiras, lâmpadas, livros litúrgicos, instrumentos musicais, objetos decorativos e obras de talha. No domínio destas artes, haviam o barroco e o rococó produzido, nos vários ramos técnicos, belas e brilhantes obras, ao passo que a simplicidade afetada do classicismo não permitia a variação dos motivos, nem favorecia os altos voos da fantasia, como no período precedente.

A monotonia desse estilo provinha de suas leis principais, a saber: rigorosas linhas matemáticas nas formas e o branco nas cores. Os ornamentos antigos com as grinaldas de acanto, palmetas, cordões de pérolas, substituem a decoração do barroco e rococó. As linhas sinuosas passaram para disposições retilíneas verticais. Esse estilo denomina-se também Luís XVI.

Não ficou neste ponto a reação que se ia operando. No tempo de Napoleão, exagerava-se ainda mais a imitação da arte antiga, chegando-se ao ponto de copiar servilmente os monumentos greco-romanos com o simples acréscimo dos emblemas napoleônicos, que eram os louros, as águias e as abelhas. O imperador corso deleitava-se na imitação dos monumentos antigos, pois como vencedor em mil batalhas, era-lhe muito lisonjeiro ser festejado qual outro imperador romano, no meio de pompas e glórias, sob o nimbo doirado dos tempos heroicos antigos.

Contudo, não se chegou, nem agora nem antes, à verdadeira arte antiga, da qual se tomavam apenas alguns elementos arquitetônicos externos. Em homenagem a Napoleão, deu-se a esse novo gênero o nome de estilo império (style empire), que abrange os últimos anos do século XVIII e os primeiros do século seguinte, desaparecendo na Restauração. Em suma, este estilo caracteriza-se por uma imitação mal compreendida do antigo e pelo emprego exagerado dos atributos guerreiros e mitológicos.

O chamado classicismo, com suas variantes, não pôde implantar-se definitivamente na arquitetura dos templos porque não correspondia ao ideal cristão, nem achou a simpatia do povo.

CAPÍTULO XLI

O ecletismo da arquitetura hodierna

As grandes guerras no princípio do século XIX e as duras provações por que passaram os povos da Europa reavivaram-lhes poderosamente os sentimentos da fé e a lembrança dos ideais da idade média. À vista dos desastres que assolaram as nações europeias, elevou-se o espírito a Deus e, como naqueles pristinos tempos, a arquitetura quis cristianizar suas obras, modelando-as pelos famosos estilos ogival, românico e bizantino.

Foi assim que, no século passado, os arquitetos franceses Lassus e Viollet-le-Duc deram uma nova orientação à arquitetura, inspirados nos estudos de sábios arqueólogos sobre as construções da idade média. Esta, até ali desprezada e escarnecida, foi então cercada do respeito e consideração que lhe eram devidos. Este movimento despertou um verdadeiro entusiasmo pelo estudo dos estilos medievais, revelando claramente o acrisolado espiritualismo que os inspirara. Desta sorte, a arquitetura cristã reproduziu, com verdadeiro talento, templos góticos, românicos e bizantinos.

Não obstante se admita que essas reproduções talvez fossem mais pensadas do que sentidas, o certo é que representam, a par de beleza artística, o ideal cristão que essas formas espiritualistas, tão admiravelmente, souberam encarnar. Neste regresso às formas medievais, procurou cada povo conservar a sua feição nacional. Houve arquitetos que souberam combinar com admirável felicidade no mesmo edifício estilos diversos, como, por exemplo, na igreja paroquial de Nossa Senhora da Vitória, em Viena, Áustria, o célebre Frederico Schmidt aliou a sobriedade do gótico alemão à graciosidade e à independência do gótico italiano, empregando também como elementos da Renascença as linhas horizontais.

Outros arquitetos quiseram implantar estilos individuais, mas apenas conseguiram, na maioria dos casos, pô-los em luta permanente com as formas características dos estilos históricos. Em nossa época, trabalha-se também para que sejam restaurados os monumentos arquitetônicos, de acordo com o estilo que neles predomina.

Na Itália, o movimento é no sentido dos seus dois estilos locais: bizantino-gótico-toscano e Renascença, como se pode observar na basílica de São Paulo extramuros, e na basílica de São Joaquim em Roma. Na França temos a igreja de Santo Agostinho de Paris, de estilo românico; a basílica do Sagrado Coração de Jesus de Montmartre, de estilo românico-bizantino; a catedral de Marselha, onde o estilo bizantino se mistura com certos elementos da arquitetura italiana do século XII; como restaurações são famosas as da Santa Capela e da catedral de Paris.

Na Espanha, fez-se igualmente sentir a reação medieval, devido principalmente aos esforços do arquiteto João Madrazo, grande entusiasta das teorias de Viollet-le-Duc. Merecem referência especial a basílica da Covadonga, de estilo românico de transição; a catedral gótica de Madrid, a catedral gótica de Vitória, e, como restaurações, as catedrais de Lyon e Sevilha.

Como tempos notáveis de outras nações, podemos citar a catedral de Nova York, de estilo ogival; a catedral de Berlim, estilo Renascença; a igreja Votiva de Viena, Áustria, estilo ogival; a igreja monumento da Imaculada Conceição, de estilo românico; a igreja de São Torquato em Guimarães, onde se encontram mesclados os estilos românico, bizantino e renascença, ambas em Portugal.

E quantos monumentos de arte e quantas igrejas e catedrais grandiosas, vítimas inocentes da fúria infrene da guerra europeia, suspiram pela mão do artista para lhes restaurar as formas arquitetônicas destruídas! Ali abre-se um vasto campo à ação generosa da arquitetura e das belas artes em geral!

CAPÍTULO XLII

Nova orientação arquitetônica no Brasil

Como predominava em Portugal, durante o tempo da colonização primitiva do Brasil, o estilo renascença com suas modificações, explica-se facilmente porque as igrejas quase todas então aqui construídas pertencem a esse gênero de arquitetura. São construções pesadas, maciças, feitas de taipa, ou de alvenaria, sendo o aparelho de pedras irregulares unidas entre si com barro ou argamassa.

Esses templos antigos, respeitáveis monumentos da fé dos nossos antepassados, não são modelos de arte, visto que não havia, naquela época, os necessários recursos materiais, nem a preocupação do belo artístico, mas apenas a aspiração de servir aos interesses religiosos.

Daí resultou o caráter uniforme da quase totalidade das nossas igrejas antigas, com a frente encimada por um pesado e desgracioso frontão, flanqueado de duas torres quadradas e baixas.

Contudo, o observador atento não lhes pode negar os traços característicos do estilo barroco, nem a influência do rococó na sua ornamentação interna.

Em épocas posteriores apareceram igrejas de estilos diferentes, como por exemplo a capela gótica da Imaculada Conceição na praia de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Atualmente, do modo extraordinário, ativa-se a construção de novos templos em todo o sul do país. Queremos salientar a igreja matriz ou catedral de Petrópolis; a reconstrução da catedral metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro; a matriz de São Joaquim; a igreja dos Padres do Coração de Maria, de estilo mudéjar; e a igreja do Santo Sepulcro, todas na mesma cidade; a nova catedral de São Paulo, que será um primor arquitetônico, em vista da esbelteza de suas torres, do artístico de suas formas, como também pela amplidão de suas alterosas naves e cripta monumental, e, no seu formoso conjunto, fará honra, não somente a São Paulo e ao Brasil, mas a todo o mundo católico. Outras belas igrejas existem na cidade de São Paulo, como sejam as matrizes de Santa Cecília, de Santa Ifigênia, da Consolação, e a abacial de São Bento.

E nesse contínuo afã de impulsionar a arquitetura cristã, o nosso Rio Grande, de nobres tradições, não permanece na retaguarda, mas se agita e marcha garboso avante. Ali, temos as belas e novas catedrais de Santa Maria, de Uruguaiana, e as igrejas paroquiais de Alegrete e do Cerro Azul, há pouco concluídas, e da Vacaria.

Nesta Arquidiocese são numerosos os templos que os fiéis, inspirados na fé e sob a direção dos nossos apostólicos sacerdotes, se levantam por toda a parte, como por exemplo as igrejas matrizes de Alfredo Chaves e de Nova Trento, ambas de estilo gótico; a de Nova Pompéia, de estilo românico; a de São Leopoldo, estilo gótico, já mais antiga; a da Estrela, para citarmos algumas, embora sejam modestas comparadas com os majestosos templos que, em outros capítulos, mencionamos.

Que diremos a respeito da capital do Estado? Em várias paróquias edificaram-se novas matrizes e em outras estão ainda em construção. Nestas, como naquelas, predominam os estilos românico e gótico.

Enfim, a obra mais importante, o templo mais grandioso de todo o Estado e notável em todo o país, será a futura catedral metropolitana, de que em outro capítulo trataremos.

CAPÍTULO XLIII

A simbologia do templo católico

O templo manifesta a ideia religiosa de uma crença; é o sincretismo dos sentimentos da fé de um povo. Por isso, deve representar simbolicamente essa ideia e esses sentimentos, sob pena de não ter valor estético. Quanto mais um estilo arquitetônico conseguir esse fim, quanto mais profundo, claro e rico nele se tornar o simbolismo religioso, tanto mais perfeito será e corresponderá às exigências da Religião e ao ideal da beleza.

É preciso distinguirmos este símbolo e imagem; esta representa um objeto ou pessoa, sendo o reflexo de sua forma. Símbolo é a representação alegórica de um princípio cristão, sob uma forma sensível. Assim, a chave é o símbolo do poder, e a figura de um santo chama-se sua imagem. A religião cristã possui profundos mistérios de ordem sobrenatural, e, não podendo, por meio de imagens adequadas, representá-los, teve de socorrer-se do símbolo para expressar as suas sublimes ideias.

O emprego do símbolo é comum a todas as religiões, porquanto corresponde a uma necessidade inconcussa que o homem experimenta e cuja proveniência, remontando à sua verdadeira origem, é divina.

CAPÍTULO XLIV

O templo é a casa de Deus

Quando se estuda um templo católico e, sobretudo, uma catedral gótica, verifica-se que o artista não somente se deixou guiar pelas leis mecânicas da arquitetura, mas que se inspirou, principalmente, no ideal cristão para representá-lo simbolicamente nas suas variadas manifestações.
Um pensamento só deve animar toda a construção, e vivificar os diferentes corpos e elementos que compõem e adornam o templo cristão. Em primeiro lugar, ele é a casa de Deus, domus Dei, não só em sentido alegórico, mas realmente, porque o Filho de Deus humanado levantou ali o seu trono no Santíssimo Sacramento do Altar.

E esta ideia de casa de Deus manifesta-se simbolicamente em toda a estrutura do templo cristão. Por isso eleva-se, em dimensões altíssimas, acima das habitações humanas, e as suas torres, atravessando as nuvens e apontando ao céu, aguçam a impressão de sua superioridade.

Casa de Deus, o templo cristão há de revestir-se de máxima grandeza e brilho. Deve receber o concurso pleno e franco das belas artes, a fim de oferecer a Deus uma residência digna e formosa. E, de maneira especial, é no interior do templo que a beleza e a magnificência desdobram as galas dos seus encantos para que seja glorificada a presença real de Deus, que os anjos adoram e por nós suplicam.

Do mesmo modo, o exterior, principalmente na arquitetura ogival, é construído com esmero e formosura, visto que o templo cristão deve apresentar-se também por fora, com dignidade e nobreza, como convém — já não digo aos palácios dos soberanos desta terra, mas à moradia do Deus onipotente.

Contudo, a beleza externa do templo é apenas o reflexo de sua grandeza interior, da qual nos deve dar alguma ideia.

CAPÍTULO XLV

O lugar dos mistérios divinos

O templo cristão, segundo a concepção eclesiástica, é o lugar dos mistérios divinos, locus mysteriorum Dei. Estes mistérios são o sacrossanto Sacrifício e os Sacramentos da Nova Aliança. Concentram-se eles todos, como num foco brilhante, na pessoa de Jesus Cristo, o Redentor do mundo. É quem se imola como vítima divina sobre a ara da nova Lei mediante o ministério do sacerdote humano, para continuar, de um modo incruento, o Sacrifício da cruz e aplicar-nos, assim, os frutos da redenção.

Da mesma sorte, é Jesus Cristo que, pelo ministério do sacerdote, administra os santos Sacramentos, a fim de livrar-nos das manchas do pecado e locupletar a nossa alma com as riquezas da graça e da santidade.

O símbolo de Jesus Cristo, considerado como Salvador, é a cruz, porque sobre o duro lenho consumou a obra da salvação humana. Portanto, se o templo deve apresentar-se como lugar dos mistérios de Deus, é preciso entrar na sua estrutura a forma da cruz. De fato, assim sucedeu. Os templos de planta cruciforme representam a Jesus crucificado, cuja cabeça é indicada pelo altar-mor, os braços pelas duas alças do transepto, o corpo pela nave e a coroa gloriosa pelas capelas absidais.

Além disto, a arquitetura gótica do templo emprega o florão em forma de cruz, encimando os numerosos botaréus e tabletes, e coroa o pináculo das torres, como que olhando para os quatro pontos cardeais, em altitude, a dizer a todo o mundo que aqui é o lugar onde se ministram aos homens todos os meios de sua salvação eterna.

E onde predomina o símbolo de Cristo, a cruz, não pode faltar o símbolo da Virgem Imaculada, sua gloriosa Mãe, a Rosa Mística. Ela nos trouxe a luz divina que ilumina todo o mundo. Por isso, é representada nas igrejas e, principalmente, nos templos góticos, pelas grandiosas rosáceas, que se colocam por cima dos portais e das janelas, comunicando profusa luz às naves e a todo o templo.

CAPÍTULO XLVI

A casa de oração

O templo cristão é, igualmente, a casa de oração, domus orationis. Aqui se reúnem os fiéis para orarem e adorarem, de um modo especial, a Deus Nosso Senhor. Este pensamento manifesta-se simbolicamente na estrutura do templo.

A oração é uma elevação do espírito e do coração a Deus. Unidos, pela oração, com o sacrossanto Sacrifício da missa, oferecemos ao Altíssimo as nossas homenagens de respeito e de adoração, e chamamos sobre nós as bênçãos de sua misericórdia e de suas graças.
A oração dirige o nosso espírito ao céu e nos guinda acima da terra e de tudo quanto é terreno. Subimos, desta arte, a Deus, unindo nossa alma com Ele em mística comunhão.
Este pensamento simboliza-se, admiravelmente, na construção ogival do templo. Todos os membros arquitetônicos apontam para o céu, dizendo em sua linguagem muda sursum corda, levantai os corações. Em todos os seus elementos, nos muros e contrafortes, nas abóbadas e colunas, nos pórticos e nas torres, observa-se essa lei. Toda a estrutura parece, por assim dizer, uma oração petrificada.

As catedrais góticas, erguendo-se a consideráveis alturas, dirigem ao céu os braços suplicantes dos seus pilares, rezam por meio de inumeráveis esculturas, simbolizando a doce ternura das orações, e nos aproximam de Jesus, que, por intermédio de sua Mãe Santíssima, nos acolhe.

As donairosas torres e esbeltos pináculos, como almas abrasadas no amor de Deus, mostram-nos o caminho da bem-aventurança; as colunas representam os apóstolos e os santos doutores que, pelas suas orações e pela sua fé inconcussa, sustentam a Igreja de Deus.
As arcadas e as abóbadas imploram, com as mãos erguidas de suas nervuras e arestas, a piedade divina, qual homem arrependido de suas faltas a suspirar pelo perdão e pela glória do céu. Toda a estrutura do templo ogival convida o homem à oração.

CAPÍTULO XLVII

O templo, lugar de reunião dos fiéis

Chamamos o templo cristão de igreja, ecclesia, para significar que nele se reúnem os fiéis, unidos pela mesma fé e convocados para o mesmo fim. O templo cristão simboliza a assembleia dos católicos, a Igreja militante, que luta e trabalha a fim de consumar sua perfeição na Igreja triunfante. O templo é, pois, o símbolo da união dos fiéis. E como os cristãos formam a Igreja viva de Deus, assim também a representam as pedras que, unidas entre si, constituem o templo.

Na Igreja há vida abundante, que se manifesta opulentamente sob o influxo da graça divina, pela prática das virtudes e pelo cumprimento exato dos deveres, que são as formosas flores e os sazonados frutos da verdadeira vida cristã. De um modo semelhante, no templo católico, principalmente quando é gótico, tudo é vitalizado, não há imobilidade, toda a estrutura se desdobra em vida florescente.

Os ornatos dos capitéis das colunas; os festões, formados de folhas, flores e frutos enlaçados, que aformoseiam as cornijas, as cimalhas, as mísulas e os dóceis; os coágulos, as pinhas e as cornucópias, que servem de enfeites, como ainda as vergônteas em espiral, as folhagens serpenteantes, as folhas de acanto, de trevo, de roseira, e a flor de lis; os artesões ou flores pendentes e faixas em relevo; os florões ou grandes flores abertas: toda a ornamentação, enfim, indica movimento e respira vida. Assim é que o templo simboliza e, claramente, patenteia a vida abundante da Igreja católica.

CAPÍTULO XLVIII

O pórtico do céu

Finalmente, o templo cristão merece o nome de pórtico do céu, porta coeli. Com efeito, o fim supremo da vida terrestre acha-se no mundo de além, consiste na felicidade celeste.

Os santos sacramentos e os mistérios da graça, que no templo recebemos, abrem-nos a porta do céu. De sorte que, já agora, divisamos, por meio da fé, o reino dos bem-aventurados, ao qual um dia deveremos pertencer.

Este pensamento acha o seu símbolo na estrutura do templo católico, que é uma verdadeira síntese do céu, segundo diz um conhecido escritor, com relação à catedral de Chartres. Pois, vede como representa, visivelmente, a luzidia falange dos seus habitantes, os profetas, patriarcas, anjos, apóstolos, evangelistas, mártires, virgens e confessores, que cantam louvores a Deus uno e trino e a Maria Santíssima, cujas imagens sobressaem, pelo seu primor, às demais.

Nestas pinturas e estátuas admiramos, como que num espelho, as pessoas divinas e celestiais, que um dia nos hão de receber em seu grêmio, e reconhecemos aquela gloriosa Igreja triunfante, em cuja sociedade deveremos um dia ser incorporados. Desta sorte, o templo católico semelha, verdadeiramente, o pórtico do céu, oferecendo aos olhos do nosso espírito, iluminados pela fé, uma imagem brilhante da nossa pátria celeste, e nos deixa antever as glórias e prelibar as alegrias que Deus preparou aos seus cultores sinceros e servos fiéis.

Tal é, em singelas palavras, o simbolismo do templo católico, simbolismo nobre e edificante, que na arquitetura ogival recebe a mais viva expressão.

Levantemo-nos, portanto, e edifiquemos a nossa catedral: Surgamus et aedificemus.

CAPÍTULO XLIX

A nossa futura catedral

Em resposta ao seu apelo, recebeu a comissão construtora da nova catedral 19 projetos de vários concorrentes deste Estado e de fora. Submetidos ao exame meticuloso de arquitetos e cultores das belas artes, foi escolhido por unanimidade de votos o projeto apresentado pelo Senhor Jesus M. Corona, arquiteto e escultor residente nesta capital. Este projeto é de estilo ogival e elaborado de acordo com as condições locais do terreno, em que se acha atualmente a velha matriz de Nossa Senhora Madre de Deus, nossa catedral provisória;
Procuraremos, pois, descrever o mencionado projeto, conforme os dados e indicações que possuímos.

CAPÍTULO L

A planta da catedral

Comecemos o nosso estudo pela planta, o principal elemento geométrico, e que consiste na projeção horizontal do templo ideado, que será construído na área compreendida entre a rua Dom Sebastião, rua do Espírito Santo, a praça Marechal Deodoro e o pátio do palácio do Dom Sebastião ou antigo Seminário. Esta área tem 51 m 10 de frente por 70 e poucos de fundo. Convém notar aqui que as medidas abaixo indicadas serão suscetíveis a uma ou outra modificação.

A planta tem 72,50 metros de fundo, isto é, toda a extensão do terreno disponível, sendo toda a frente de 31 m 30 de largura, e medindo 43 metros o transepto ou corpo que corta as naves no sentido da largura. A planta apresenta a forma de cruz latina, dividindo-se em 5 naves, assim determinadas: a central, da Madre de Deus, mede 42 m 42 no comprimento até à capela-mor, por 11 m 10 de largura. A capela-mor tem o comprimento, no coro capitular, de 6 m 15, e no espaço para o altar-mor e o sólio, de 8 m 88, e a largura 10 m 10. A nave lateral da direita, ou do Evangelho, será dedicada ao Santíssimo Sacramento e a lateral esquerda a São Pedro, príncipe dos apóstolos. Ambas terão 42 m 42 de comprimento até as torres, por 7 m 60 de largura, sendo as capelas que presidem as mesmas de 3 m 55 de fundo por 7 m 60 de largo.

A nave bilateral direita será dedicada à Nossa Senhora da Piedade e a correspondente da esquerda a São Miguel e Almas, tendo ambas uma abside poligonal e medindo 28 metros no comprimento e 6 na largura. A área ocupada por uma e outra torre mede 10 por 10 metros quadrados, e elas são separadas por um átrio que tem a largura de 10 m 40 por 5 m 90 de fundo. As torres oferecerão, cada qual, um espaço livre de 7 m 20 por 7 m 20, onde serão colocados o batistério e a escadaria do coro.

A nave central será separada das laterais por duas filas de colunas, achando-se no meio do transepto por quatro majestosos pilares, chamados torais, que sustentam o possante zimbório. No meio das naves laterais serão localizadas as capelas-altares dedicadas, uma a Santa Cecília, e a outra, em frente, a Santa Rita de Cássia. As capelas-altares, eretas em cada extremidade do transepto ou nave cruzeiro, serão dedicadas, a da direita ao divino Coração de Jesus, e a da esquerda ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora de Lourdes.
Ao lado esquerdo da capela-mor acha-se a sacristia arquiepiscopal e, do lado oposto, a sacristia paroquial. Em cima dessas duas sacristias ficarão a sala capitular e o arquivo da catedral. Em construções apropriadas, nos fundos laterais, serão instalados os consistórios, a residência do cura e mais dependências necessárias.

O novo templo terá 7 portas nos limiares das naves, e mais 4 portas que dão acesso às sacristias.

CAPÍTULO LI

A cripta ou igreja subterrânea

Como as grandes catedrais, a nossa terá igualmente uma cripta ou igreja subterrânea, situada sob a capela-mor e sacristias, e ocupará a área de 37 por 20 metros, com portas de ingresso nas ruas adjacentes, e acesso por duas escadas internas. Recebe luz direta por três lados.

A cripta divide-se em três naves, separadas entre si por 8 grossos pilares, que sustentam as abóbadas cruzadas (nela haverá três altares, que sustentam as abóbadas cruzadas). Nela haverá três altares, dedicados a Nosso Senhor da Paciência, a Nossa Senhora do Parto e a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Sobre a parte anterior da cripta serão construídos os sepulcros destinados a guardar os despojos mortais de Dom Feliciano, de Dom Sebastião e dos outros prelados da Arquidiocese.

As criptas recordam as catacumbas, onde os fiéis das primeiras eras cristãs tumulavam os mártires, e celebravam os sagrados mistérios em tempos de perseguição, como já acima foi dito.

De modo semelhante, serão construídos os sepulcros na cripta da nova catedral. Sua estrutura externa será de estilo gótico, onde haverá uma lápide comemorativa do respectivo prelado e sua efigie representada em mármore.

Não obstante a simplicidade dos seus elementos arquitetônicos, a cripta impressionará agradavelmente pelo estético de suas formas e pela boa distribuição da luz.

CAPÍTULO LII

O frontispício

O frontispício da nova catedral é constituído de duas altíssimas torres de 72 metros de altura e o pórtico tripartido, encimado de majestoso frontão triangular. Como todo o templo, o frontispício obedecerá às leis da arquitetura ogival ou gótica do período secundário, denominado também gentil ou radiante, que constitui o verdadeiro tipo desse estilo, pela elegância e perfeição de suas formas.

Quem, atentamente, estudar o projeto, verá que na uniformidade de estilo existe uma grande variedade de formas, quer que se considerem as colunas, contrafortes, arquivoltas, janelas, gabletes, pináculos, coruchéus, tímpanos, florões, cimalhas, balaustradas, botaréus e arcobotantes, quer o conjunto dos arcos onde aparece o equilátero, o lancetado, o de meio ponto roto, o tudor e o copial, e o mesmo se pode dizer quanto a todo o edifício. Os arcos que encimam as colunas góticas do átrio são polilobulados. Um rosetão de 6 metros de diâmetro, colocado na cimafronte, projeta abundante luz para a nave central. Grande número de estátuas de santos, artisticamente confeccionadas de mármore, realçam a ornamentação do frontispício. Três florões rematam cada torre que, na base de suas pirâmides, é rodeada de vários pináculos. Outros florões coroam os quatro óculos destinados aos mostradores do relógio.

Dois portões laterais completam todo o frontispício, dando-lhe certa graça e beleza. Como o terreno em que será edificado o novo templo se eleva acerca de 40 metros acima do nível do rio Guaíba, o edifício apresentará, na realidade, maior altura do que vai ter, e dominará toda a capital, à qual dará um aspecto de imponência e grandeza.

CAPÍTULO LIII

As fachadas laterais e zimbório

O que dissemos a respeito do frontispício, em geral, podemos aplicar às fachadas laterais. Logo se distingue o corpo das naves laterais, com suas vistosas janelas, divididas por mainéis ou pilaretes, sobre os quais se apoiam elegantes arcos e rosáceas de vários diâmetros e desenhos. Sobre os dois pontões do transepto, ou nave cruzeiro, levantam-se duas estátuas, uma representando São Pedro e a outra, São Paulo, medindo seis metros de altura.

Sobre os ângulos formados, de ambos os lados, pelo transepto e capela-mor, se levantarão dois esbeltos torrões, que, flanqueando o alteroso zimbório, darão muita elegância a toda a construção. Em cima dos trifólios externos do mesmo transepto vê-se, de um e outro lado, um rosetão do diâmetro e estilo do que se acha no frontispício. Na perspectiva e nas fachadas laterais, é mais fácil observar a bela estrutura dos contrafortes ou gigantes, que apoiam as torres e as naves laterais, como também os botaréus e os arcobotantes, ou butaretes, que amparam a parte superior da nave central e do zimbório.

Os artísticos vitrais comunicam ao interior das naves uma luz desmaiada, que convida à oração e à meditação dos mistérios religiosos.

O grandioso zimbório, sobre quatro pilares torais, mede, internamente, até a abóbada, 49 metros de altura, e, externamente, 66 até o cimo da cruz. Divide-se o zimbório em três corpos principais. Seu remate consta de uma cruz dupla, de forma artística e monumental. A cúpula, ou seja, a abóbada esférica em forma de taça reversa que sustenta a cruz, domina o corpo central do edifício. O domo, que designa principalmente a parte exterior da cúpula — visto que esta última palavra indica antes a parte interior côncava — é construído de poderosas arestas, com ornatos góticos.

O tambor do zimbório, que também se pode chamar corpo de luzes, por levar janelas, é de forma octogonal, terminando cada canto em butarete, coroado de pináculo. Entre estes levantam-se os gabletes, ou frontões triangulares, rematados por um florão, ostentando nos tímpanos trifólios góticos.

O conjunto destes corpos e dos seus acessórios chama-se zimbório.

Talvez convenha ainda acrescentar que a fachada posterior, não obstante a declividade do terreno e as construções acessórias, apresenta agradável aspecto e em nada destoa da beleza arquitetônica do conjunto geral. Pelo contrário, essas construções dão maior realce à catedral, que, vista do rio Guaíba, apresentará um aspecto deslumbrante.

CAPÍTULO LIV

O interior

Descrito, a largos traços, o exterior da futura catedral, diremos ainda algumas palavras sobre o interior, em aditamento ao que referimos tratando da planta. O pavimento da catedral será feito de mosaico de mármore rio-grandense, pois existem, neste Estado, ricas jazidas desse precioso calcário. Os desenhos serão oportunamente indicados. As colunas, em número superior a doze, que sustentam as abóbadas de arestas cruzadas, são elegantes e de estilo gótico. Haverá dois púlpitos, ou tribunas sagradas, em dois dos pilares torais do centro.

A considerável altura do interior eleva o espírito, inspira respeito e dá-nos uma ideia vaga da grandeza de Deus. A abóbada da cúpula tem, como já vimos, 49 metros de altura; as das laterais e bilaterais, 13 metros até a chave; e as do transepto, ou da nave cruzeiro, e da nave central, a considerável altura de 28 metros.

De belo efeito será a tribuna dos cantores e orquestra, localizada sobre o limiar, na nave central, e que terá o espaço aproximado de 11 por 7 metros.

Conforme a indicação já dada, haverá nove altares, que todos deverão obedecer a um estilo determinado. No coro capitular haverá uma dupla fila de assentos, e no espaço adiante será colocado o trono arquiepiscopal, como também o altar-mor, que será de mármore e executado de acordo com as leis do estilo gótico.

O interior do grande templo poderá comportar, aproximadamente, 65.000 pessoas, sem contar a cripta, que terá capacidade para 2.500 pessoas. Vê-se, pois, que sua capacidade não é exagerada, nem insuficiente, mesmo em dias de grandes solenidades.

Numa das torres será instalado um magnífico carrilhão, como se chama o conjunto de vários sinos harmoniosamente afinados para troar, em ocasiões solenes, por teclado ou automaticamente, peças musicais.

CAPÍTULO LV

A comissão construtora

A ideia de construir a catedral metropolitana começou a tomar vulto no ano de 1916. No dia 14 de outubro do mesmo ano, reuniram-se, no salão do Centro Católico, numerosos cavalheiros da nossa melhor sociedade, comparecendo também o nosso Vigário-Geral, Monsenhor Dr. Luiz Mariano da Rocha, e o cura da nossa catedral, Cônego Manoel Reis da Costa Neves, e outros representantes do nosso cabido metropolitano e do clero.

Expusemos à ilustre assembleia, por nós convocada, a necessidade absoluta de pensarmos na construção de uma catedral definitiva, e todos, unanimemente, se declararam solidários conosco, sendo, em seguida, designada e nomeada, por provisão nossa, a grande comissão construtora, cujos nomes foram publicados pela imprensa.

Constituem atualmente a diretoria, ou comissão executiva, os seguintes distintos cavalheiros: presidente efetivo, Pedro Chaves Barcelos; vice-presidentes, José Guilhermino de Moraes e Paulino Chaves Barcelos; tesoureiros, Dr. Possidônio Mâncio da Cunha; procurador-geral, João Batista Sampaio; secretário, Major João da Matta Coelho; engenheiros fiscais, General Dr. Manoel Teófilo Barreto Vianna e Dr. Benito Ilha Elejalde; advogados, Dr. Plínio de Castro Casado e Dr. José de Almeida Martins Costa.

Nomeamos também, como nosso representante e de nosso cabido metropolitano, fazendo parte da mesma comissão, o mencionado Sr. Cônego Manoel Neves, de cuja zelosa e constante cooperação muito esperamos.

A mesma comissão convocou concorrentes para a elaboração do projeto da nova catedral e tem celebrado várias reuniões para promover a realização do grandioso plano.

Auxiliado por esta distinta comissão, temos plena certeza de que, em breve, será uma bela realidade a formosa catedral, que hoje apenas existe em projeto.

CAPÍTULO LVI

Advertência sobre ofertas e doações

Como obra de arte religiosa, exige a nova catedral que todos os seus elementos obedeçam a uma certa orientação eclesiástica e às prescrições da estética. Por isso, todos os detalhes da catedral, também quanto à decoração suntuária e iconográfica, serão determinados, para que não possa haver, mais tarde, discrepância relativamente aos estilos dos altares, às estátuas, pinturas, trabalhos de vitragem, pinturas, bancos, confessionários, etc. Portanto, à vista do exposto, é preciso que as pessoas que quiserem fazer doação de objetos destinados à nova catedral, ou talvez de partes integrantes ou acessórias da mesma, se entendam antecipadamente com quem de direito, a fim de que tudo se resolva e determine, como o exige a glória de Deus e a importância religiosa, artística e patriótica do novo templo. Assim, ousamos esperar que não faltarão generosas contribuições, que, observada a nossa prescrição, serão todas de grande proveito e de grande auxílio, sem que haja motivo para futuros desgostos ou desinteligências.

CAPÍTULO LVII

Nobres motivos

Os motivos mais belos e mais nobres, não somente nos aconselham, mas impelem a construirmos a catedral metropolitana. Queremos, em seguida, sinteticamente expô-los, e estamos certos de que todos os católicos desta Arquidiocese e do Estado, e, em geral, todos os rio-grandenses, ciosos das gloriosas tradições da terra gaúcha, da fé dos nossos antepassados, do progresso artístico desta capital, conosco dirão: Sim, é necessário edificar a nova catedral!

Com efeito, parece que o projeto do novo templo plasma os traços característicos e a superioridade do nosso povo, além de ser a síntese representativa das nossas tradições, um pantheon das artes cristãs, o maior embelezamento desta capital e um testemunho da nossa augusta fé.

CAPÍTULO LVIII

Traços fisionômicos do povo gaúcho

Um dos elementos do projeto, que desde logo visivelmente nos impressiona, é a robustez de suas formas arquitetônicas, aliada a uma elegância que espiritualiza as massas. Basta ver os contrafortes que amparam, e os pináculos que defendem todo o edifício.

Assim, a organização física do nosso povo é forte, resistente e robusta. Temperado pelas lutas renhidas que, nobremente, sustentou durante longos anos, em defesa desta abençoada terra, o rio-grandense fortaleceu suas energias no rude e constante labor, quer desenvolvido em nossas pradarias a bem da indústria pastoril, quer no desbravamento de matas seculares e no amanho de nossas ubertosas terras, sob as carícias de um céu esplendente e delicioso.

E como as alterosas terras e os numerosos butaréus presidem e flanqueiam o majestoso zimbório encimado de uma cruz, assim nós, rio-grandenses, constituímos o baluarte do Brasil, somos as sentinelas avançadas da Pátria e defendemos a integridade, a grandeza e as constituições políticas da terra do Cruzeiro.

As numerosas torrinhas e os florões que coroam as várias partes do novo templo, independentes entre si, denotam o nosso caráter profundamente democrático e a independência da nossa índole.

Todas as formas ogivais indicam o movimento e sobem ao alto. Da mesma maneira, a vida do nosso Estado, em todas as suas manifestações, progride, se desenvolve e se alastra, e vemos a formosa árvore do progresso carregada de dourados frutos, que chamam a atenção das nações mais importantes da velha Europa.

No consórcio com os filhos dos outros Estados da União, o rio-grandense manifesta a sua superioridade no campo das ciências, das belas artes, da literatura, como na arena ingrata da política, nas sutilezas da diplomacia, no comércio e na indústria fabril. É o que as formas subidas do novo templo nos querem indicar.

E se consideramos a nova catedral, vemos, não obstante a diversidade de suas formas, elementos e corpos arquitetônicos, a perfeita unidade no seu conjunto. Este fato é uma formosa alegoria da população do nosso grande Estado, a qual se constitui de povoadores e habitantes que, embora de diversas origens étnicas, formam e devem formar, pelas suas aspirações nacionais e sentimentos patrióticos, um e o mesmo povo, que faça honra às nossas tradições e contribua para a glória da nação.

CAPÍTULO LIX

Síntese representativa das nossas tradições

Se bem que a primeira igreja fosse construída no Rio Grande pelo santo missionário Padre Roque Gonzáles, em 1625, a história dos templos edificados nesta capital é de data muito mais recente. Dizem os cronistas que, em 1742, vieram 60 casais açorianos estabelecer-se no mesmo lugar em que hoje está colocada a cidade de Porto Alegre. Foram eles os fundadores desta capital, que então se chamava, como toda a região do Norte, Porto de Viamão. Logo depois passou a denominar-se Porto de São Francisco Xavier dos Casais, celebrando-se os atos religiosos inaugurais a 3 de dezembro de 1747, dia consagrado ao apóstolo glorioso das Índias. Tal nome foi ainda substituído para Porto Alegre, em virtude de sua excelente posição e pródiga natureza.

Em 19 de novembro de 1752 chegou às paragens porto-alegrenses o religioso carmelitano Frei Faustino Antônio de Santo Alberto, com o fim de administrar o pastor espiritual, sendo logo, em 25 de março do ano seguinte, nomeado capelão dos primeiros habitantes desta cidade, por provisão do governador Gomes Freire de Andrade.

Frei Faustino tratou prontamente, com zelo e carinho, de erguer a primeira capela, e levantou-a com máxima pobreza. O pequeno templo, sito à atual rua dos Andradas, mais ou menos na esquina da rua General Câmara, era um rancho coberto de capim, onde os ilhéus iam aos exercícios religiosos do seu capelão.

Por provisão régia de 2 de março de 1772, foi então o Porto dos Casais desmembrado de Viamão e elevado a freguesia, nomeado vigário o Padre José Gomes de Farias. No mesmo ano foi levantada a matriz de Nossa Senhora Madre de Deus, situada à praça Marechal Deodoro, em terreno da estância denominada Morro de Santa Ana, e pertencente a Inácio Francisco, mas desapropriado e demarcado, por ordem do governador interino Antônio da Veiga Andrada, para a edificação da nova povoação e da igreja matriz.

Em 18 de janeiro de 1773 é substituído o orago de São Francisco Xavier pelo de Nossa Senhora Madre de Deus, a pedido do brigadeiro José Marcelino de Figueiredo, então governador, chamado outrora Manuel Jorge de Sepúlveda. Alegava ele, como motivo desta substituição, que Maria Santíssima, a quem votava muita devoção, sob o título de Madre de Deus, era sua madrinha.

Como se vê, pois, foi construída a atual catedral provisória há cerca de 140 e tantos anos, e era para aquela época, certamente, um templo cuja construção impôs grandes sacrifícios e fazia honra aos sentimentos de fé dos fundadores católicos desta capital. Com razão, diz um cronista moderno: "O espírito religioso do nosso povo foi sempre imenso e chegava ao excesso em toda a parte; pela igreja muito fazia-se, embora houvesse sacrifícios a realizar. A crença profunda na recompensa dos bens praticados animava a alma pura e simples dos nossos antepassados a prosseguir na propagação e defesa da fé que os impulsionava. Fazer o bem e erguer templos onde pudessem venerar o Deus de sua Religião constituía fito que de todo os absorvia carinhosamente".

E, segundo o mesmo escritor, quando se levantava a matriz de Nossa Senhora Madre de Deus, o povo revelou, por fatos, o fervor religioso que tanto o distinguiu nesses tempos desaparecidos.

Sobre os alicerces iam homens e senhoras, crianças e adultos, depositar, a cada pedra que se colocava nos muros, uma moeda, quase sempre de prata, com que procuravam demonstrar boa vontade para o engrandecimento de sua Religião.

Este templo, como a matriz de Viamão e outros, e não falando naqueles que hoje formam ruínas ainda admiráveis das nossas Missões, são obras portentosas para aqueles tempos, e constituem uma vasta prova da crença dos nossos antepassados e nos dá uma ideia da preocupação que pela sua fé faziam, dotando a casa de Deus de finas obras de marcenaria e trabalhos de requintada ourivesaria.

Ora, se há tantos anos se levantou nesta cidade um templo, que, ainda hoje, proclama a fé inconcussa e operosa dos nossos antepassados, está claro que a nossa população atual reclama e quer edificar uma nova catedral que esteja na razão direta do nosso progresso social e religioso.

A igreja matriz do Porto dos Casais, ou vila de Porto Alegre, embora de veneranda e respeitável memória, não satisfaz aos foros de uma catedral metropolitana, cabeça espiritual de uma província eclesiástica, que abrange este Arquiepiscopado e quatro Bispados sufragâneos em dois Estados notáveis da Federação, e não corresponde aos nossos sentimentos religiosos, nem ao progresso material desta cidade.

CAPÍTULO LX

Panteão das belas-artes

Se, em geral, se pode definir a arquitetura como a arte de projetar e construir edifícios, e em sentido mais estrito, a de imprimir e expressar a utilidade e a beleza nas construções que servem para morada do homem, não é menos certa a definição dada por Aristóteles, de que a arquitetura é a filosofia que abrange, como satélites, todas as outras artes, filosofia quae, omnes artes tamquam satélites complectitur.

E, realmente, esta última definição aplica-se bem à nossa futura catedral, visto que a este templo monumental todas as belas artes, em conjunto harmônico, emprestarão o brilho de sua formosura, como verdadeiros satélites, procurando realçar e enobrecer as suas aligeiradas formas. Como todos os povos, com poucas exceções, têm uma arquitetura que exprime o seu sentimento e as suas aspirações, assim também eles a cultivam e desenvolvem de acordo com o progresso de sua civilização. A Grécia, mormente no tempo próspero de Péricles, foi o centro do movimento artístico e o berço de uma grandiosa arquitetura, que se desdobrou no Parthenon. Em Roma, nos tempos gloriosos de Augusto, desfraldava, igualmente, a arquitetura suas galas.

Assim, a nossa catedral deverá caracterizar a prosperidade do nosso Estado, que poderá, sem dúvida, considerá-la como uma fina joia da arquitetura nacional. Considerável será o concurso que lhe prestarão a escultura e a pintura na ornamentação, empregando motivos geométricos, caligráficos e orgânicos, artisticamente combinados, e observando as leis da simetria, eurritmia, alternativa, gradação, repetição, radiação e poligonia.

A escultura, que é a arte de representar ideias e objetos exteriores por meio de formas orgânicas, dadas à matéria nas três dimensões do espaço, concorrerá valiosamente para a ornamentação exterior e interior, com artefatos da estatuária, representando figuras de santos, e com outros elementos decorativos.

Desta sorte, teremos artísticas estátuas de mármore, belos grupos de altos e baixos relevos, esculpidos por mão de mestres, recordando-nos os nossos maiores na fé e verdades do Cristianismo.

Nesse templo de arte, a pintura entrará, igualmente, com a magia do seu pincel e palheta, para exprimir ideias e representar objetos por meio de linhas e de cores sobre as superfícies, semelhando as três dimensões, para ostentar formosos quadros. Terão aplicação tanto o gênero histórico, como o de simpatia, pela representação de figuras de anjos e santos e de várias cenas da vida eclesiástica, como talvez também de fatos tirados da nossa história nacional, acompanhados de paisagens de natureza.

Veremos sobre o paramento das paredes internas e abóbadas interessantes obras pictóricas. Estas pinturas murais, pela variedade e harmonia dos seus motivos, concretizarão o pensamento geral que deve presidir a toda a decoração interna.

Outro elemento artístico de grande valor aparecerá nesse templo pelo emprego da vitragem chamada pintura viva, que consiste na representação de adornos ou figuras sobre a superfície do vidro em variegadas cores.

Teremos, assim, majestosos vitrais, onde veremos figuras e cenas dos tempos primitivos da história eclesiástica do nosso país, e deste Estado em particular, história tão intimamente ligada à nossa vida nacional.

Outrossim, contribuirá para a beleza da nova catedral, a musivaria, a arte que trata dos mosaicos. O mosaico, que consiste no agrupamento de pequenos prismas, de coloração diversa, principalmente de mármore e de madeira, será de material nacional e terá aplicação nos pavimentos, montando diversas combinações geométricas; é o opus alexandrinum dos Romanos.

Sem tratar de outros ramos secundários das belas artes, julgamos que os apontamentos acima dados serão suficientes para dar ao nosso povo e cultores do belo uma ideia, embora pálida, da grandeza artística da nossa futura catedral.

Portanto, ela é um verdadeiro Panteão, onde as belas artes deverão celebrar assinalados triunfos, em louvor do Altíssimo.

CAPÍTULO LXI

O maior embelezamento da capital

Confessamos com satisfação que, tanto por iniciativa dos dignos poderes públicos como de particulares, a nossa capital foi dotada de belos edifícios. Mas, no meio desse evoluir constante, conserva-se a antiga igreja matriz no seu invariável estado, como que nos dizendo: onde fica a vossa gratidão pelos insignes benefícios que prestei a vossas avós e pais, durante tantos anos, e continuo a dispensar-vos! No meu recinto, milhares de habitantes desta cidade receberam as águas lustrais do Batismo, e milhares receberam a última bênção, antes de serem depositados na necrópole. Nas vossas alegrias, nas vossas dores e pesares, tenho tomado parte, como mãe verdadeiramente carinhosa. Quando vossos voluntários foram defender o solo pátrio contra a tirania de Solano López, vieram eles primeiro ao altar da Mãe de Deus, para receberem o conforto da bênção celestial e a força necessária para vencer o inimigo.

E, voltando vitoriosos, novamente aqui se apresentaram, para render graças a Deus e guardar, debaixo deste velho teto, as bandeiras enfumaçadas que presenciaram seus triunfos.

E quantas solenidades foram aqui celebradas em honra da pátria, e quantas preces foram fundadas pela felicidade e glória da nação! Tudo tenho feito em vosso benefício! E agora, que a Religião dos vossos pais admiravelmente progride e floresce, agora que o número dos católicos muitas vezes centuplicou, não haverá quem levante um novo templo para o culto da vossa Religião, cada vez mais próspera e expansiva? Não terá o vosso reconhecimento bastante poder para edificar a catedral definitiva, dando-me novas formas e espaço mais amplo, a fim de que possa servir-vos, com maior perfeição, por novos e dilatados anos! No meio do vosso progresso, no meio desta civilização fulgurante, é preciso que vossa igreja principal não eclipse o brilho do vosso nome, mas seja um padrão indestrutível da vossa glória.

Pois bem, a nova catedral será a recompensa, porque, de fato, avultará majestosa, como uma rainha entre as demais edificações desta cidade. Por isso, para a sua construção, certamente, contribuirão todas as classes sociais, porquanto não se trata apenas de um templo católico, mas também de um monumento de arte e de patriotismo.

Vem a propósito um episódio que lemos algures, da visita que fez a São Paulo o eminente homem de letras Anatole France. Depois de ter percorrido as melhores estradas de ferro e haver visitado as mais bem montadas fazendas agrícolas daquele Estado, depois de ter passado em revista os vários institutos da Paulicéia, que é de praxe oferecer ao exame dos forasteiros ilustres, depois, em suma, de ver o que se lhe quis mostrar representado nos vigamentos que estruturam aquela organização social, econômica e administrativa, por sua vez, quis o insigne lapidário da palavra escrita conhecer também um pouco das correntes espirituais ali dominantes, alguma coisa que lhe falasse de arte e lhe permitisse fazer ideia do grau de cultura da segunda cidade do Brasil.

Sabendo que as catedrais, no seio de todos os povos cultos, são verdadeiros museus de primores artísticos, o sagrado relicário do que eles têm produzido de mais notável na arquitetura, na pintura, na escultura e nas artes decorativas, Anatole France quis visitar a velha catedral de São Paulo, imaginando, naturalmente, que se ia deliciar algumas horas na contemplação de preciosidades artísticas, pelo menos em correspondência com o admirável surto de progresso que ostenta aquela grande cidade, sob tantos aspectos.

Escusado será comentar a profunda decepção que devia ter sofrido o grande espírito observador do egrégio visitante, ao deparar com tão clamorosa falha no brilhante cenário da civilização paulista e o mau quarto de hora que passaram os dignos cavalheiros que tiveram de acompanhar o eminente hóspede em sua visita pesquisadora.

Até aqui o episódio lido. Ora bem, não se acha a nossa catedral provisória nas mesmas condições que a de São Paulo, ou talvez em piores? Que dirão, igualmente, os homens ilustres de nações amigas que nos vêm visitar, vendo apenas o tosco exterior do antigo templo, sobre cujas torres o arcaico catavento nos recorda os nossos tempos coloniais?

A nós, pelo menos, disse, por exemplo, um ilustre representante da culta e nobre França, que a atual catedral não corresponde aos nossos foros de civilização, nem ao progresso constante desta formosa capital, e, podemos acrescentar, nem aos brios dos rio-grandenses.

Portanto, é uma questão de dignidade levantarmos a nova catedral. Estamos convencidos de que, não somente toda a população desta querida cidade, mas também os respeitáveis poderes públicos, municipais e estaduais, nos oferecerão o seu poderoso concurso, para que possamos, devidamente, solucionar esse grande problema e efetuar esse grandioso ideal, cuja realização dotará esta capital com o mais formoso monumento de arte e patriotismo.

CAPÍTULO LXII

Testemunho da nossa fé

Sobre a pedra fundamental será construído o novo templo. Essa pedra, a base da nova catedral, representa a Jesus Cristo sobre quem se eleva todo o edifício da nossa fé, que resiste vitoriosa aos embates dos séculos e ilumina todos os povos.

No templo católico recebemos os maiores benefícios espirituais, somos iniciados na santa Religião de Cristo e aprendemos o caminho da virtude e do dever. Bem conhecemos a efemeridade da existência humana, que para muitos é uma nuvem dourada, para outros uma nuvem prenhe de dissabores e infortúnios; mas para estes e aqueles é uma nuvem que passa apressadamente.

Por isso, a Religião nos ensina o nosso destino futuro e não limita os seus ensinamentos ao tempo atual. Criados por Deus, somos destinados à glória eterna, onde a onipotência divina, pela posse de seu amor infinito e fruição dos encantos de suas belezas ilimitadas, nos torna completamente felizes.

Mas, como por culpa própria, os homens se afastaram e ainda se podem desviar deste fim sublime, precipitando-se na eterna desgraça, foram redimidos por Jesus Cristo, o Filho de Deus humanado sobre a ara da cruz. O preço do seu divino sangue, porém, só se aplica aos homens de boa vontade, cumpridores das santas leis do Evangelho.

Por isso, o Salvador do mundo fundou sua Igreja, essa associação de fiéis que estão espalhados por todo o mundo e tem em Roma o seu supremo chefe visível, na pessoa do Santo Padre. Incumbida por seu divino fundador, a Igreja Católica, desde os tempos apostólicos, tem empenhado seus melhores esforços, no sentido de agremiar os homens e guiá-los, animados pela mesma fé, confortados pelos mesmos Sacramentos e dirigidos pelas mesmas leis, através de todos os séculos e sob todos os céus, para seu bem-estar terrestre e sua felicidade suprema.

No templo, os fiéis recebem as devidas instruções sobre o seu fim, que é conhecer a Deus, amá-lo e servi-lo como soberano Senhor do céu e da terra e como seu máximo benfeitor, conseguindo, por este meio, o destino para o qual foram criados. A fé inconcussa nestas verdades, sumariamente expostas, deve ser o motivo principal que nos impele a fazermos sacrifícios e a empregarmos nossas mais intensas energias, para que, em breve tempo, se possa iniciar e concluir, sem que passem muitos anos, a nova Catedral. Queremos glorificar a Deus Nosso Senhor, queremos agradecer a Jesus Cristo o benefício inefável da Redenção, queremos demonstrar a Maria Santíssima, nossa gloriosa padroeira e a padroeira excelsa do Brasil, o nosso reconhecimento pela constante proteção que tem dispensado a este capital e a todo o Estado.

E desde já, os sacrifícios que for necessário fazermos, e as contrariedades que da construção do novo templo nos provirem, sirva tudo isto para maior glória de Nosso Senhor e sua Santíssima Mãe.

Pelo que neste artigo acabamos de dizer, verifica-se, claramente, que a Igreja Católica oferece aos homens a chave áurea da solução do problema social, que faz estremecer, nas suas bases, o mundo atual. E é, justamente, no templo que a Igreja ensina aos homens a verdadeira igualdade, fraternidade e liberdade, como também as relações de justiça e equidade que devem existir entre os ricos e os pobres, entre os operários e os patrões, e lembra a todos a brevidade da vida terrena e a imortalidade da alma, oferecendo-lhes os meios necessários para

conseguir a felicidade relativa neste mundo e a eterna depois da morte.

Queremos edificar, portanto, a nova catedral, deixando aos nossos pósteros um monumento que, em pedra e cal, represente os sentimentos religiosos da nossa atual geração, e por longos séculos, seja um testemunho eloquente da nossa fé. Surgamus et aedificemus, levantemo-nos e edifiquemos!

CAPÍTULO LXIII

Palavras finais

Depois de havermos estudado, sob vários pontos de vista, a necessidade de construirmos a nova catedral metropolitana, resta-nos dirigir, em conclusão, um apelo a toda a população desta capital, da Arquidiocese e de todo o Estado do Rio Grande do Sul, pedindo o concurso de todas as classes sociais, o óbolo espontâneo do pobre, como do rico.

CAPÍTULO LXIV

A imprensa e os poderes públicos

De modo especial, apelamos para o auxílio eficaz da ilustrada imprensa desta capital, sempre pronta a promover e solicita em patrocinar a iniciativa de empreendimentos nobres e de grande alcance social.

A nova catedral será construída com o auxílio do povo e para o povo. Será um monumento de verdadeira democracia, que interessa não somente os engenheiros, arquitetos e artistas, mas também o comércio e a indústria nacional, dando trabalho remunerado a centenas de operários. Todos os capitais que forem empregados na construção do novo templo reverterão em benefício material da população. E grandes serão as vantagens morais e religiosas que a nova catedral lhe proporcionará.

A nobre imprensa da nossa terra, pois, recomendamos a catedral metropolitana. Tratando-se de um insigne embelezamento desta capital, não será fora de propósito apelarmos para a boa vontade e o apoio dos altos Poderes públicos, reconhecidamente zelosos do progresso desta cidade, no sentido de coadjuvarem os nossos esforços e os trabalhos da distinta comissão construtora, o que será lícito esperar, sem que sejam violadas as leis vigentes da nossa pátria.

O caso não seria novo. Pois, o governo do próspero Estado de São Paulo contribui com uma quantia avultada para a construção da nova catedral paulista, e, da mesma maneira, o governo do Estado do Rio de Janeiro decretou uma verba importante para a edificação da matriz ou catedral de Petrópolis, já começada no tempo do império.

Nosso respeitoso apelo, ao benemérito Governo deste Estado e à patriótica Intendência Municipal de Porto Alegre.

CAPÍTULO LXV

Ao clero e aos fiéis

Apelamos para o auxílio incondicional do nosso venerável Cabido, do Clero e dos Fiéis desta Arquidiocese, para que secundem os nossos esforços com os meios ao seu alcance, e, de modo peculiar, com suas orações.

As dignas Irmandades existentes na atual catedral, que muito têm contribuído para o esplendor do culto, e a todos os sodalícios religiosos desta capital e do interior do Estado recomendamos a nova catedral, por ser a primeira igreja em dignidade desta Arquidiocese e Província eclesiástica.

Apelamos para a generosidade da nossa população, a fim de que, com seus donativos, auxilie valiosamente os empenhos da ilustre comissão construtora, que tão desinteressadamente e, movida por um alto ideal, se dispõe a encetar, conosco, o grandioso templo, que perpetuará a benemerência dos rio-grandenses.

Não se diga que outras igrejas e estabelecimentos pios reclamam auxílios e recursos, pois que a catedral metropolitana deve ser coadjuvada por todos, em virtude de sua elevada dignidade. A sua construção não impede que outros templos se levantem, nem prejudicará, de forma alguma, as obras pias e os estabelecimentos de caridade.

Pedimos, pois, o concurso e o auxílio generoso de todas as pessoas e de todas as classes sociais.

CAPÍTULO LXVI

As senhoras porto-alegrenses

Desde os primeiros alvores do Cristianismo, vemos que a mulher cristã tem colaborado, admiravelmente, na construção dos templos e na conservação de sua decência e decoro. Sabe-se que já no primeiro século, Santa Pudenciana transformou, em Roma, a sua residência em templo cristão, onde reunia os fiéis para lhes dar instrução religiosa.

Santa Helena, mãe de Constantino Magno, achando, depois de muitas investigações, a vera cruz de Cristo, destruiu o templo de Vênus edificado pelo imperador Adriano no alto do Calvário, e levantou, no mesmo lugar, uma magnífica igreja. Igualmente, promoveu a construção de um templo no lugar do nascimento do Salvador, como também um outro no monte das Oliveiras, onde Jesus Cristo subiu ao céu.

A imperatriz Santa Pulqueria, filha de Arcadio, imperador do Oriente, não somente se distinguia pelas suas virtudes e sabedoria, mas ainda pelo zelo que consagrava à construção de novas igrejas, segundo o testemunho do historiador Baronio.

Existe em Roma o templo de Santa Maria Maior, conhecido também pelo nome de Basílica Liberiana ou de Nossa Senhora das Neves, construída em meados do século IV, a expensas do nobre patrício romano, de nome João, e de sua esposa, de nobreza igual, os quais, como não tinham filhos, quiseram, desta maneira, oferecer sua fortuna a Maria Santíssima, a quem tinham uma devoção profunda.

Fácil seria enumerar outros exemplos edificantes, praticados por senhoras pertencentes a todas as condições sociais, animadas pelos mesmos nobres sentimentos. Quantas vezes senhoras distintas privaram-se de suas joias e pedrarias, em benefício da edificação de igrejas, seguindo o exemplo das mencionadas heroínas cristãs, tanto na Europa, como na América! Poucos meses há que uma senhora católica de Petrópolis, conforme a imprensa noticiou, alienou, do tesouro de família, muitos objetos de grande valor artístico, destinando todo o produto em favor da nova matriz de Petrópolis.

Em Buenos Aires edificou uma distinta católica, à sua custa, uma esplêndida basílica, dotando-a de tudo quanto o culto exige. E nem no Rio Grande nos faltam exemplos de verdadeira dedicação e de grandes sacrifícios, havendo também senhoras que, com seus recursos pessoais, construíram belíssimas capelas.

Em face dos exemplos acrisolados acima referidos, dirigimos a nossa palavra às nobres senhoras porto-alegrenses, pedindo que não se esqueçam de oferecer o seu apreciável concurso para a construção da nova catedral metropolitana, consagrada à excelsa Mãe de Deus, Maria Santíssima, padroeira especial, honra e glória da mulher cristã.
Nunca as senhoras porto-alegrenses negam o seu apoio às obras de caridade, nem aos empreendimentos dignificadores de pessoas beneméritas, nem à promoção de solenidades religiosas ou festas sociais.

Com muito mais razão, pois, devemos esperar a sua cooperação espontânea para a realização do grandioso projeto da nossa futura catedral. Apelamos, portanto, para o seu concurso, tornando extensivo o nosso pedido a todas as senhoras do Rio Grande do Sul.

CAPÍTULO LXVII

Epílogo

Feito o nosso apelo e invocado o auxílio de todos os corações bem formados, pedimos a Deus que promova e abençoe a nossa iniciativa, e coroe com pronto êxito todos os esforços que foram empregados nesta santa cruzada, para a glória sua, e honra desta importante capital. Ordenamos que em todas as igrejas matrizes, capelas públicas e semi-públicas, sejam feitas, enquanto durar a construção da nova catedral, duas coletas anuais, uma no primeiro domingo de maio, e a outra no primeiro domingo de outubro, e onde isto não for possível, poderão ser efetuadas em outros dias, previamente designados.

Além disto, pedimos donativos, não somente à população desta capital, como às paróquias do interior. As subscrições públicas, porém, devem ser autorizadas por escrito, na capital, pela comissão executiva ou seu digno Presidente, e fora, pelos senhores vigários das respectivas paróquias, para que sejam evitadas dificuldades futuras. Todas as coletas e todos os donativos deverão ser entregues ao Senhor Tesoureiro da comissão, e poderão ser enviados à nossa Câmara eclesiástica, aos membros da comissão, e à redação dos jornais desta cidade. Seja esta nossa carta pastoral registrada como de costume, e sejam lidos, publicamente, ao menos os capítulos I, II, III, IX, XI e XII.

Terminando, concedemos, com abundância da alma, ao nosso reverendíssimo Clero, aos Fiéis desta dileta Arquidiocese e a todos os generosos benfeitores da nova catedral metropolitana, a nossa bênção arquiepiscopal.

Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.

Dada e passada sob o sinal e selo das nossas Armas, em Porto Alegre, a 3 de maio de 1919, festa de Nossa Senhora Madre de Deus, e data gloriosa da Invenção da Santa Cruz e do Descobrimento do Brasil.

JOÃO, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

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